Ayrton Senna era o mais veloz. Alain Prost era o mais sensato. Nelson Piquet era o mais esperto. A Fórmula 1 consagrou quatro nomes nos anos 80, gente que dava às corridas um ar novelístico. Os torcedores raramente se portavam indiferentes perante eles, que protagonizavam cenas de romance, terror, comédia e ação dentro e fora das pistas. Quem gostava do Senna odiava o Piquet, e vice-versa. Havia quem achasse os dois uma dupla de patetas latinoamericanos, preferindo o Professor Prost. E havia quem gostasse do quarto elemento, que não foi citado acima. Com vocês, Nigel Ernest James Mansell.

Tadinho do Mansell, muitos pensavam. Nascido em uma minúscula cidade do interior inglês, Nigel parecia ser o mais vulnerável e limitado dos quatro, um tanto quanto perdido em um ambiente insalubre no qual um come o outro sem grande cerimônia. Teatral, fanfarrão, choramingão, desastrado e um puta piloto, ele se comportava como um verdadeiro anti-herói, um gênio às avessas. Não por acaso, havia aqueles que achavam que se tratava de um piloto diferenciado e havia também aqueles que pensavam que o Leão não passava de um retardado sem rédeas. Eu não nego a ninguém: estou no segundo grupo. Perder três títulos mundiais da maneira que perdeu é coisa de retardado sem rédeas. Mas… que retardado foda!

Recentemente, Mansell se envolveu em um violento acidente nas 24 Horas de Le Mans. Em determinado momento, ele perdeu o controle de seu Ginetta-Zytek e estampou o guard-rail, saindo do carro de maca e com uma concussão no seu pequeno cérebro. Neste próximo fim de semana, ele será um dos comissários do Grande Prêmio da Inglaterra. Diante de tantos acontecimentos, eu tenho de homenageá-lo. Mas como estou falando de Nigel Mansell, conto sobre cinco acidentes que poucos se lembram.

5- FÓRMULA 1, DETROIT, 1985

(4:11)

Nos anos 80, os pilotos pagavam todos os seus pecados ao serem obrigados a correr em Detroit, um circuitinho vagabundo localizado no meio da enorme cidade americana. Em 1985, Nigel Mansell, ainda considerado apenas um idiota veloz, fazia seu primeiro ano na equipe Williams e estava muito esperançoso sobre suas possibilidades naquele circuito de rua.

Após obter um excelente segundo lugar nos treinos, Mansell perdeu uma posição na largada para um incrível Keke Rosberg. Sofrendo com os pneus duros, o inglês se arrastava e perdia posições também para Elio de Angelis e Stefan Johansson. Na volta 23, ele rumou aos pits e trocou os pneus. Três voltas mais tarde, o inglês entrou rápido demais na curva 2, pisou em uma zebra, passou reto e acertou o muro com força. Vendo o vídeo, nem pareceu ter sido tão forte, mas acreditem: foi.

O inglês saiu do carro zonzo, com a mão machucada e o nariz sangrando. Esse negócio dele sair do carro todo estropiado, aliás, era uma marca registrada sua.

4- TOCA, DONINGTON PARK, 1993

Em novembro de 1993, após ganhar o título da Indycar, Nigel Mansell foi convidado para disputar uma etapa do TOCA, campeonato inglês de turismo, em um Ford Mondeo pintado de azul e estampado com o Red Five. Diante de 60 mil espectadores e visando o suntuoso prêmio de 120 mil libras esterlinas, Nigel veio para a corrida do seu modo habitual: inconsequente e perigoso.

Em uma pista levemente úmida, Nigel ocupava a terceira posição quando acabou entrando rápido demais no Old Hairpin, perdeu o controle, tentou consertar, piorou a situação e atravessou na frente do Vauxhall Cavalier de Tiff Needell a mais de 200 km/h. Tocado pelo Vauxhall, o Mondeo de Mansell rodopiou e atingiu com violência o muro. Nigel perde a consciência e sua cabeça rodopia enquanto o carro não para.

Segundos depois, o inglês recuperou a consciência e, após ser extraído do carro em uma operação que durou 20 minutos, rumou para um hospital para exames. Tirando algumas dores nas costas, nada de errado havia acontecido com o Leão.

3- THUNDER IN THE PARK DAY, DONINGTON, 2001

Em 2001, Nigel Mansell chegou a ser cogitado para ocupar o segundo carro da Minardi ao lado do jovem Fernando Alonso. O boato, extremamente estapafúrdio, resultou em um convite de Paul Stoddart a Nigel para ele participar do Thunder in the Park Day, um dia de descontração promovido pela Minardi no qual havia uma corrida com carros de dois lugares no circuito de Donington. Nigel pilotaria um dos cinco carros e carregaria a bordo o empresário Jonathan Frost, que havia pago 80 mil dólares pela diversão.

Como de costume, Mansell dirigiu como se não tivesse mulher e filhos. Na corridinha, ele e Fernando Alonso, que trazia consigo a jornalista Louise Goodman, disputavam a liderança agressivamente. Na última curva, Mansell veio mais rápido do que a sensatez permite e acertou com tudo a traseira do Minardi de Alonso. O inglês voou e caiu na contra-mão, enquanto que o espanhol atravessava a linha de chegada sem a asa traseira.

No fim das contas, Mansell terminou em segundo e Alonso em terceiro. O vencedor foi exatamente Paul Stoddart, que era piloto nas horas vagas. O Leão ainda saiu ironizando que “tentou passar por cima de Fernando e Louise porque eles são muito baixinhos”…

2- INDY, PHOENIX, 1993

(1:24)

Mansell doidão. Se na Fórmula 1 ele já aprontava das suas, na Indy ele se transformou na grande atração da temporada de 1993 com suas loucuras nos circuitos ovais. Ele não desacelerava, andava e ultrapassava por fora e não tinha o menor medo de nada. O preço a ser pago foi uma pancada daquelas no curto porém traiçoeiro oval de Phoenix, no estado do Arizona. Segunda etapa do campeonato de 1993, 4 de abril de 1993.

No primeiro dia de treinos, Mansell foi o primeiro piloto da história da pista ao andar na casa dos 20 segundos. Desvairado, ele veio para o segundo dia de treinos visando andar ainda mais rápido. Não deu certo, é claro: tentando andar mais do que o permitido em uma curva, seu Lola-Ford rodopiou a mais de 280 km/h e estampou o muro de traseira. Uma roda marota ainda voou e atingiu o capacete de Mansell, que desmaiou na hora.

O Leão só viria a acordar 20 minutos depois, quando já estava no centro médico. Depois disso, ele rumou de helicóptero ao hospital, fez alguns exames e, apesar de ter diagnosticado um estiramento em um tecido adiposo localizado nas costas, decidiu ignorar as recomendações médicas e voltou ao autódromo para disputar o qualifying. A direção de corrida, sensata, impediu sua participação e Mansell ficou de fora da corrida. Um mês depois, ele ainda teve de passar por uma cirurgia para resolver o estiramento.

1- FÓRMULA 1, INTERLAGOS, 1992

Este acontecimento reune tudo que é típico de Nigel Mansell: uma tentativa imbecil de ultrapassagem, uma peleja com Ayrton Senna, um acidente, um piloto zonzo e um pouco de choradeira. Vamos lá, então.

Nos treinos livres de sábado, Mansell fez um tempo quase dois segundos mais rápido que o de Riccardo Patrese, o segundo mais rápido. Nos segundos finais do treinos, qualquer um que estivesse em sua posição sossegaria e reduziria para voltar para os pits. Mas não o Leão, que estava acelerando com tudo quando encontrou, no Bico de Pato, o McLaren de Ayrton Senna, que estava em volta rápida. Sem a menor noção, Nigel tentou ultrapassar Senna por fora, ficou sem espaço, rodopiou e acertou o muro com relativa força.

Mansell saiu do carro grogue e chorando! Estava em estado de choque e com uma boa dor de cabeça, tanto que teve de se debruçar por alguns segundos no muro aonde deu a pancada. Após dar um pulo no centro médico, tomou uma aspirina e voltou para fazer a pole-position à tarde. Dessa vez, uma novidade: Nigel Mansell assumiu a culpa pela batida. Também, pudera…

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