Este carro, de pintura bastante interessante e aparência um tanto quanto robusta, é o ancestral do atual carro campeão, o Red Bull RB6. Explica-se: a Red Bull Racing é a equipe que foi criada no fim de 2005 a partir do espólio da Jaguar Racing, que por sua vez havia comprado a Stewart Grand Prix no fim de 1999. E a simpática Stewart, que chamava a atenção pela pintura branca coberta com aquele tartan que identifica o clã escocês a que pertencia a família Stewart e pelo enorme patrocínio do banco HSBC, surgiu como equipe de Fórmula 1 em 1997. Ela já participava, com enorme sucesso, da Fórmula 3 inglesa e da Fórmula 3000 Internacional desde o início dos anos 90, mas sua empreitada na Fórmula 1 só se deu no final da década. E o primeiro carro que surgiu daquela pequena fabriqueta de Milton Keynes foi o SF1.

O sonho da dupla Jackie e Paul Stewart de abrir uma equipe de Fórmula 1 surgiu ainda em 1995, quando se comentava muito sobre um possível fim da Fórmula 3000 e muitas equipes da categoria, como a DAMS, a Supernova e a Durango, apareceram com projetos para a ascensão para a categoria principal. No entanto, apenas a turma dos escoceses tinha bala na agulha para isso. Em fevereiro de 1996, Jackie Stewart anunciou que, no ano seguinte, estrearia sua própria equipe na Fórmula 1. O mais legal é que tudo seria feito do zero, algo positivo para uma Fórmula 1 que só perdia carros a cada ano que passava.

Os Stewart eram pobres, mas limpinhos e organizadinhos. Em um primeiro momento, enquanto a novíssima fábrica em Milton Keynes não ficava pronta, o pessoal se reunia na pequena oficina que sediava as estruturas de F3 e F3000. Aos poucos, mecânicos e engenheiros, muitos deles egressos de outras equipes, eram contratados.  No final de 1996, já eram 100 os funcionários da Stewart Grand Prix. Entre eles, gente de gabarito como o diretor técnico Alan Jenkins, roubado da Footwork e o aerodinamicista Eghbal Hamidy, saído da Williams. Se o staff crescia a passos largos, os acordos comerciais e tecnológicos impressionavam ainda mais.

A Stewart não teve dificuldades para roubar a parceria da gigante de automóveis Ford das mãos da Sauber. Com esse apoio, a equipe passou a ter acesso ao Centro de Engenharia Avançada da Ford, localizado no estado americano de Michigan. Este centro tinha como chamariz maior o uso de supercomputadores que faziam detalhadas análises a respeito do comportamento aerodinâmico de carros e partes. Em outras palavras, a Stewart passou a ter acesso ao moderníssimo sistema CFD (dinâmica de fluido computacional), aquele que a Virgin tanto se orgulha de ter utilizado para desenvolver seu carro. O SF1, primeiro carro da equipe, foi também o primeiro carro da história da Fórmula 1 a ter parte de seu desenvolvimento aerodinâmico feito em computador, dispensando algumas boas horas de túnel de vento. Mas ao contrário da combalida equipe de Richard Branson, a Stewart não dispensou o tradicional ventiladorzão, aproveitando o equipamento da Swift, localizado na Califórnia. O mais interessante é que esse é o mesmo túnel de vento que a campeã Williams utilizava. Logo, as coisas estavam bem encaminhadas.

E ao contrário dos tempos atuais, não era tão difícil assim arranjar patrocinadores em 1996. A Stewart conseguiu um contrato com a HSBC que previa 8 milhões de dólares anuais durante cinco anos, um outro com o governo malaio que renderia 8,2 milhões de dólares anuais em 1997 e 1998 e mais alguns bons apoios da Texaco, da Sanyo e da Hertz. Estima-se que o orçamento da equipe para o ano de estreia girava em torno dos 30 milhões de dólares. Este valor, na verdade, não era muito maior do que o que a ridiculamente falida Mastercard Lola conseguiu juntar para sua estreia, mas vale considerar que o fato da Ford fornecer motores gratuitos e todo o suporte técnico oficial já representava uma enorme economia para os cofres de Jackie e Paul Stewart.

Os pilotos seriam o brasileiro Rubens Barrichello, ex-Jordan, e o dinamarquês Jan Magnussen, a sensação da Fórmula 3 inglesa em 1994. Para um ano de estreia, a estrutura da equipe era exemplar.

O SF1 foi lançado em dezembro de 1996, sendo o primeiro da temporada de 1997 a ser mostrado aos curiosos olhos do mundo. De aparência bastante conservadora, ele tinha laterais altas, bico alto mas curvado para baixo, asa traseira reduzida e tampa do motor curvada. Embora não tivesse arrancado suspiros de ninguém, também não era um carro para fazer passar vergonha. Além do mais, os pneus Bridgestone poderiam representar um ótimo diferencial.

Quando o carro entrou na pista, ele realmente se mostrou muito rápido. Mas também era muito problemático. Ainda na pré-temporada, Magnussen sofreu um violento acidente e acabou machucando uma das pernas. A causa do acidente foi o ponto fraco do SF1, as falhas estruturais na suspensão, que tornavam o bólido até meio perigoso. Com o início da temporada, outro grave problema foi descoberto: o sistema de óleo simplesmente não conseguia lubrificar os componentes do motor de maneira correta. E o resultado foi uma série de motores estourados, principalmente em pistas velozes. Além disso, o câmbio e o sistema hidráulico também renderam várias dores de cabeça.

No fim, os dois pilotos conseguiram terminar, juntos, apenas oito das 34 corridas (um altíssimo índice de 76% de abandonos) e Barrichello conseguiu um milagroso segundo lugar em Mônaco, corrida chuvosa que exigiu muito menos do Stewart do que faria uma prova normal. A conclusão era de que SF1 era um carro veloz que poderia perfeitamente colocar o brasileiro entre os dez primeiros em um grid (Magnussen simplesmente não conseguia andar nada), mas que não conseguia concretizar as coisas em resultados finais. Rubens andou muitíssimo bem nos treinos em Buenos Aires, em Montreal e em A1-Ring e chegou até a sonhar com a vitória em Nürburgring, mas problemas ocorridos em todas estas corridas acabaram deixando o belo carrinho branco parado em algum ponto da pista.

No fim, a Stewart terminou o ano com seis pontos e o nono lugar entre as equipes. Rubens Barrichello, o único piloto a pontuar, ficou em 13°. Ainda houve uma pequena polêmica sobre o fato do nome da equipe não constar na primeira lista de inscritos para 1998 devido a uma dúvida suscitada pela FIA a respeito da real saúde financeira da equipe. Mas tudo deu certo e a equipe seguiu existindo pelos dois anos seguintes até se tornar Jaguar e, posteriormente, a Red Bull que ganhou tudo nesse ano e que quase todos aprenderam a gostar.

A falta de tempo é grande, então tento escrever o menor texto de todos para não deixar esse site às moscas nesses primeiros dias da semana.

A foto é de Max Wilson, gaúcho de Hamburgo que se sagrou, nesse fim de semana, o mais novo campeão da Stock Car V8.  Wilson, que pilotou o Vectra amarelo da RC Competições nessa temporada, já esteve diretamente envolvido com a Fórmula 1 no final dos anos 90. Naqueles tempos, a Williams empregava vários pilotos bastante promissores como eventuais pilotos de testes. A preferência maior recaía sobre a turma da Fórmula 3000 Internacional, como eram os casos de Nicolas Minassian, Soheil Ayari e do próprio Wilson.

Max assinou com a equipe de Frank Williams em 1997. Naqueles bons tempos de vários pilotos brasileiros brilhando nas pistas internacionais, Wilson era um dos destaques da F3000. Pilotando um Lola-Zytek com o patrocínio da Petrobras, ele conseguiu terminar o ano em um ótimo quinto lugar. Sua equipe, a inglesa Edenbridge, o contratou após observá-lo dando um show na pista molhada de Interlagos no ano anterior, quando o ITC veio ao Brasil realizar sua etapa final e o brasileiro, que corria regularmente na Fórmula 3 alemã, decidiu fazer a corrida como convidado.

O teste da foto aconteceu em Magny-Cours com o Williams FW20 equipado com motor Mecachrome, que nada mais era que o Renault do ano anterior rebatizado com o nome da pequena preparadora de motores francesa. Fico devendo informações sobre número de voltas completadas e tempos. Mas apesar do bom relacionamento com todos, Max Wilson sabia que seu espaço na Williams seria pequeno. O test-driver oficial da equipe era o colombiano Juan Pablo Montoya, que causava furor com seu brilhantismo na mesma Fórmula 3000 do brasileiro. Enquanto Wilson terminou seu segundo ano apenas em nono, Montoya foi campeão de maneira soberba e se tornou o queridinho de Frank Williams. Restava apenas esperar.

Em 1999, Max Wilson decidiu continuar na Fórmula 3000, dessa vez correndo pela equipe oficial da Petrobras. Com mais de quarenta carros no grid, as coisas estavam complicadíssimas para os pilotos da categoria e Max não teve lá muita sorte no ano, como em Imola, quando foi tirado da pista por Nick Heidfeld enquanto era o líder. Seu melhor resultado foi um segundo lugar em Hockenheim. Os vínculos com a Williams ainda existiam, mas estavam bem mais fracos.

No final do ano, Wilson se candidatou a uma vaga na Minardi. Tinha um bom relacionamento com a Telefónica, patrocinadora principal da equipe, e a Petrobras também estava disposta a dar uma forcinha.  Mas a concorrência pela vaga de companheiro de Marc Gené era muito forte e quem tivesse mais dinheiro acabaria se dando melhor. No fim, o escolhido foi o argentino Gaston Mazzacane, que levava o maciço dinheirinho da PSN, antigo canal latino de esportes.

Wilson ficou parado em 2000, mas conseguiu retornar ao automobilismo no ano seguinte disputando a CART. Em um primeiro momento, ele assinou um contrato com a novata Sigma. Porém, para sua infelicidade, Oriol Servia não conseguiu assinar com a Prost para correr na Fórmula 1 e acabou voltando para os EUA, tomando a vaga de Wilson na Sigma. Mas a decepção de Max acabou no dia seguinte ao da súbita demissão, quando a Arciero o contratou para correr em seu Lola-Phoenix.

A oportunidade de correr na segunda maior categoria de monopostos do mundo parecia boa, mas a equipe era muito ruim e o carro, apesar de bonito, era lento e quebrador. E ele também não conseguiu completar o ano na equipe, já que Alex Barron entrou no seu lugar nas últimas etapas.

Em 2002, ele decidiu dar um rumo completamente diferente à sua vida ao anunciar sua transferência para a Austrália para disputar o competitivíssimo V8 Supercar, um dos melhores campeonatos de turismo do mundo. Max ficou por lá até 2008 e apesar de conseguir viver de automobilismo pela primeira vez, nunca conseguiu resultados relevantes devido à qualidade ruim das equipes pelas quais passou.

Cansado de tantas desventuras, Max decidiu voltar ao Brasil para correr na Stock Car V8 em 2009. E os bons resultados dos tempos da Fórmula 3 e da Fórmula 3000 não demoraram para voltar. No primeiro ano, ele conseguiu vencer uma corrida em Santa Cruz do Sul e terminou o ano em nono. Mas as coisas melhoraram visceralmente nesse ano. Com um carro bom e uma equipe estruturada, Wilson venceu duas etapas e ficou à frente de Cacá Bueno por um mísero ponto. E o gaúcho de Hamburgo conseguiu celebrar, após terminar a etapa de Curitiba em oitavo, o primeiro título da sua vida.

É isso aí. Parabéns, Max.

Antes de tudo, esse negócio de quando começa e quando termina a década é uma chatice tremenda. Para todos os efeitos, eu democraticamente decido que, nesse post, a década começou em 2000 e terminou em 2010. Eu sei que está errado, mas não dou importância. É assim e pronto. OK?

Dito isso, digo que a década que se encerrará no próximo dia 31 foi marcada pelo surgimento de uma turma bastante exclusiva e impressionante de pilotos que mandaram e desmandaram em suas respectivas categorias. E não estou falando de categoria de fundo de quintal, não. Cinco dos campeonatos mais importantes do mundo se tornaram, nos últimos anos, meros palcos para o show individual de cinco pilotos, que despertavam cega admiração nos espectadores e medo nos adversários. Para quem gosta de ver a cobra fumar nas brigas por títulos, foram anos até meio chatos. Mas para quem gosta de ver a excelência no automobilismo, anos inesquecíveis.

O Top Cinq de hoje, um dos últimos do ano, relembrará um pouco dos domínios empreendidos por esses cinco pilotos. Só uma curiosidade: quatro deles já andaram em um carro de Fórmula 1. Sinal de que até mesmo a categoria de nariz empinado se curva ao poderio desses sujeitos.

5- SEBASTIEN BOURDAIS (4 TÍTULOS NA CHAMPCAR ENTRE 2004 E 2007)

Sebastien Bourdais em San Jose, 2006

Quando Sebastien Bourdais desembarcou nos EUA pela primeira vez, no início de 2003, ninguém o levou muito a sério. Com sua aparência esquálida e seus indefectíveis óculos, Sebá parecia ter saído diretamente do elenco do filme “A Vingança dos Nerds”. Mas o francês, filho do ex-piloto Patrick Bourdais, não era um zé-mané qualquer. Aos 24 anos, ele já apresentava no currículo um título na Fórmula 3000 Internacional, um na Fórmula 3 francesa e um na Fórmula Campus.

Bourdais assinou com a Newman/Haas para competir na CART, que passava por maus momentos. Os americanos cagavam e andavam para o campeonato, que buscava cada vez mais europeização. O piloto, por sua vez, apostava na categoria como uma alternativa à Fórmula 1, que simplesmente o ignorou na hora de trazer pilotos novos para 2003. Seu companheiro era o brasileiro Bruno Junqueira, que entrava no seu terceiro ano da categoria. As circunstâncias não pareciam fáceis para ele, portanto.

Mas Bourdais aprendeu tudo muito rapidamente. Logo na primeira corrida, em St. Petersburg, ele marcou a pole-position e liderou as primeiras voltas. Na rodada seguinte, em Monterrey, ele repetiu a pole-position. A primeira vitória viria em Brands Hatch, duas corridas depois. A primeira vitória em oval viria logo a seguir, em Lausitzring. Na tabela final, quarto colocado. Um ótimo começo, sem dúvidas. Mas teria ele fôlego para conseguir coisa melhor?

Ô se teria. Sebastien simplesmente ignorou os concorrentes e papou os títulos de 2004, 2005, 2006 e 2007. É verdade que gente como Paul Tracy, Bruno Junqueira, Will Power, AJ Allmendinger e Robert Doornbos tentou dar trabalho, mas era simplesmente impossível pegá-lo. Versátil, ele conseguia andar bem em absolutamente qualquer tipo de pista. Sua fama era tamanha que ele era basicamente o único piloto do combalido grid a contar com o apoio de uma grande empresa, o McDonald’s. Depois de tanto tempo de vida fácil e ciente que a Champcar acabaria mais cedo ou mais tarde, Bourdais decidiu migrar para a Fórmula 1 em 2008. A passagem não foi tão boa, a Toro Rosso o demitiu após um ano e meio e hoje ele milita na Superleague e nos protótipos.

4- JIMMIE JOHNSON (5 TÍTULOS NA NASCAR CUP ENTRE 2006 E 2010)

Jimmie Johnson em Loudon, 2010

Em 2001, um californiano de El Cajón surgiu de mansinho no campeonato principal da NASCAR, cujo nome era associado, na época, aos cigarros Winston. Fez três corridas pela Hendrick Motorsport e ninguém deu muita bola. O californiano, que era um piloto apenas razoável na Busch Series, entrou na equipe de Rick Hendrick por meio de sua amizade com o supercampeão Jeff Gordon. E apesar do desempenho nessas provas não ter sido sensacional, a Hendrick decidiu dar uma oportunidade ao jovem piloto. Em 2002, ele foi contratado para correr durante toda a temporada.

Johnson agradeceu à oportunidade da melhor maneira possível: vencendo três corridas e terminando o ano em um soberbo quinto lugar. Ainda assim, a NASCAR não lhe deu o prêmio de Estreante do Ano por não considerá-lo tão consistente como um piloto de ponta deveria ser. Em 2003, ele venceu outras três provas e foi vice-campeão. Se naquela época houvesse o sistema de pontuação do Chase, aquela parte do campeonato onde os melhores colocados nas tabelas acabam empreendendo uma briga particular pelo título, ele teria se sagrado campeão. Mas tudo bem, outras chances viriam.

Em 2004, ele venceu oito provas e repetiu o vice-campeonato. No ano seguinte, venceu quatro e terminou em quinto. Na última corrida do ano, tinha até chances de ser campeão, mas um acidente o fez ficar atrás de Tony Stewart, Greg Biffle, Carl Edwards e Mark Martin na prova e no campeonato. Estava na hora de ser campeão.

A NASCAR passou a ser sua a partir de 2006. Naquele ano, Johnson venceu cinco corridas e ganhou seu primeiro título. No ano seguinte, um domínio acachapante com dez vitórias e o segundo título. Em 2008, a categoria deixou de ser patrocinada pela Nextel e passou a receber tutu da Sprint, mas o campeão, com sete vitórias, continuava o mesmo. Em 2009, mais sete vitórias e o quarto título. Em 2010, Jimmie Johnson se tornou o primeiro piloto da história da categoria a ganhar o título por cinco vezes seguidas. O título veio após Johnson conseguir reverter uma vantagem fácil de Clint Bowyer nas últimas provas. Aos 35 anos, ele ainda tem muito pela frente. Mais títulos virão.

3- MICHAEL SCHUMACHER (5 TÍTULOS NA FÓRMULA 1 ENTRE 2000 E 2004)

Michael Schumacher em Spa-Francorchamps, 2004

De todos da lista, o alemão de Hürth é o único a ter vencido campeonatos de sua categoria nos anos 90. Com a Benetton, Michael Schumacher ganhou os títulos de 1994 e 1995. Mas foi na Ferrari que ele se consagrou como um dos grandes da história do automobilismo.

Michael Schumacher foi contratado pela Ferrari por 25 milhões de dólares anuais para tentar acabar com o incômodo jejum de mais de 15 anos sem títulos. Em uma verdadeira operação de guerra, a Ferrari abriu a carteira para trazer, junto com ele, o engenheiro Ross Brawn e o projetista Rory Byrne, colegas de Schumi na Benetton. As primeiras temporadas, embora tenham representado enorme avanço para a Scuderia Rossa, não proporcionaram o fim do tal jejum. Michael precisou de cinco temporadas para vencer o primeiro campeonato de pilotos para a equipe desde 1979. E não parou mais.

O alemão foi campeão em 2000 ganhando nove corridas e batendo um Mika Hakkinen inspiradíssimo. Em 2001, mesmo com a concorrência forte da McLaren e da Williams, Schumacher ganhou outras nove corridas e seu quarto título. Em 2002, 11 vitórias e um título covarde de tão fácil. Em 2003, a concorrência melhorou e tanto Kimi Raikkonen como Juan Pablo Montoya deram o maior cansaço no piloto da Ferrari. Ainda assim, Schumacher venceu seis corridas e se sagrou hexacampeão, o primeiro da história da Fórmula 1. E o sétimo título veio no ano seguinte, com nada menos do que 13 vitórias.

A partir de 2005, a maturação de Kimi Raikkonen e o surgimento de adversários como Fernando Alonso acabaram mostrando que todo domínio tem seu início e seu fim. Michael se aposentou em 2006, pescou, andou de moto, brincou com os filhos, se cansou de sua vidinha pacata e voltou à Fórmula 1 em 2010 para se divertir a bordo de um Mercedes. Ainda que ele saiba que um oitavo título é altamente improvável, Michael Schumacher está aí, mostrando que não só sabe dirigir como também ama fazê-lo.

2- VALENTINO ROSSI (7 TÍTULOS NAS 500CC E NA MOTOGP ENTRE 2001 E 2009)

Valentino Rossi em Motegi, 2005

Se há um sujeito nessa lista que além dominar em sua categoria, cativa a simpatia e a torcida de todos, este alguém é Valentino Rossi. O italiano, filho do ex-motociclista Graziano Rossi, é o único do Top Cinq que fez seu império no mundo das duas rodas. E de todos os imperadores, foi talvez o mais amado pelos plebeus, com seu estilo ousado de pilotagem, seus capacetes e suas comemorações após as (muitas) vitórias.

Rossi começou sua carreira no Mundial de Motovelocidade em 1996 com uma modesta Asprilla de 125cc. Entre tombos e mais tombos, alguns bons resultados e, pá!, um título em 1997. Subindo para as 250cc, mais tombos e mais dificuldades até que, pá!, outro título em 1999. Sua ascensão para as 500cc se deu com a Honda em 2000. Logo em seu primeiro ano, venceu duas corridas e chamou mais atenção do que o campeão, Kenny Roberts Jr.

O primeiro título veio no ano seguinte, 2001, com impressionantes 11 vitórias. No ano seguinte, as 500cc mudaram de nome, se tornando MotoGP, e de equipamento, introduzindo propulsores de 990cc. Só se esqueceram de mudar de campeão. Rossi ganhou os campeonatos de 2002 (11 vitórias) e 2003 (9 vitórias) com a Honda.  No ano seguinte, buscando novos desafios, ele migrou para a Yamaha, que até então não passava de mais uma manufatureira no grid. E não é que Rossi fez da Yamaha uma marca vencedora, papando os títulos de 2004 (9 vitórias) e 2005 (11 vitórias)? De quebra, graças à conexão entre Yamaha e Fiat, conseguiu descolar uns testes com carros de Fórmula 1 da Ferrari. Rossi sempre pensou nessa mudança com carinho.

Em 2006 e 2007, Nicky Hayden e Casey Stoner conseguiram quebrar a série de títulos de Rossi e muitos até ficaram com a impressão de que o italiano estava iniciando sua curva descendente. Mas eis que Valentino ganha indiscutivelmente o campeonato de 2008 com 9 vitórias e quase 100 pontos de vantagem sobre Stoner. Em 2009, seis vitórias e um sétimo título sobre Jorge Lorenzo. Em 2010, Rossi acabou fraturando sua tíbia em um violento acidente em Mugello e chegou a ficar de fora de algumas corridas. Com isso, não houve como brigar pelo título. Mas ele estará 100% em 2011, quando fará sua estreia peal Ducati. Será que ele consegue fazer o mesmo que fez com a Yamaha?

1- SEBASTIEN LOEB (7 TÍTULOS NO WRC ENTRE 2004 E 2010)

Sebastien Loeb na Nova Zelândia, 2007

E o primeiro colocado no Top Cinq é um francês de aparência absolutamente tranquila e desleixada que não toma conhecimento sobre seus adversários. Seu domínio é tamanho que não são muitos os pilotos e as equipes que se dispõem a lutar contra ele no WRC. Sebastien Loeb é o que mais me impressionou dos cinco por estar ganhando títulos desde 2004. São sete campeonatos consecutivos em que o campeão não é outro!

Loeb começou sua carreira devagarzinho, aos 21 anos. Após ganhar alguns campeonatos franceses de rali, ele chamou a atenção de Guy Frequelin, diretor da Citroen no WRC, que decidiu colocá-lo para correr em algumas etapas em 2001 e em 2002. A adaptação foi imediata e o Xsara, excelente carro em pistas asfaltadas, permitiu a Loeb quase vencer o Rali de Montecarlo em 2002. Meses depois, na Alemanha, ele venceu sua primeira etapa no Mundial. Mal sabiam todos que aquela seria a primeira de uma inacreditável sequência de oito vitórias consecutivas no país. Ele só não venceu em 2009 porque… não houve etapa alemã!

Loeb perdeu o título de 2003 por um estúpido ponto, mas não teve maiores problemas para vencer os títulos de 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 e, ufa!, 2010. São nada menos que 62 vitórias em 138 etapas, praticamente um trunfo a cada duas rodadas. Loeb costuma construir suas vitórias logo nas primeiras especiais, ao abrir enorme vantagem para o segundo colocado. E ele o consegue em qualquer tipo de pavimentação. E cometendo pouquíssimos erros, algo incomum no WRC!

Para se ter uma idéia, em 2006, ele quebrou o braço em um acidente de bicicleta na Suíça e perdeu as quatro etapas finais. Seu maior adversário, Marcus Grönhölm, venceu três dessas etapas. Ainda assim, Loeb tinha construído uma vantagem tão grande que ainda conseguiu se sagrar campeão com apenas um ponto de vantagem. É bom o cara ou não?

Romain Grosjean, a ave fênix do ano

Falo agora, com um pouco de peso no coração, sobre a Arden e a Supernova. Ambas têm em comum o excelente histórico na Fórmula 3000 Internacional e ambas acabaram sucumbindo ao surgimento de equipes mais organizadas e mais profissionais  com o advento da GP2. A Arden até chegou a brigar pelo título em 2005, mas acabou estagnando no meio do pelotão. Em 2010, com dois pilotos novatos, a equipe não conseguiu lá muita coisa. Charles Pic ainda fez uma pole-position em Hockenheim e venceu a primeira corrida de Barcelona após herdar a liderança. Fora isso, apenas um pódio na Alemanha foi obtido. Ainda assim, ano razoável para um estreante. Já seu companheiro, o venezuelano Rodolfo Gonzalez, marcou apenas quatro pontos e só fez bobagem. Sua participação pode ser explicada por uma palavra: PDVSA.

Se a Arden fez um ano apenas mediano, o que dizer da Supernova? Os carros azuis (sim, aquilo é um azul bem escuro) de David Sears tiveram talvez sua pior temporada desde o início da GP2. Lentos, eles não facilitaram a vida de seus pilotos. Que, diga-se, também não colaboraram muito. Marcus Ericsson, o sueco que entrou na categoria ostentando o título da Fórmula 3 japonesa e uma excelente participação no campeonato britânico, foi uma das decepções do ano. Chegou em sétimo na primeira corrida de Valência, venceu a segunda e fez um sexto lugar na primeira prova de Hockenheim. E só. Onze magros pontos e a desagradável impressão de que Ericsson não é aquele gênio que parecia ser até o início do ano.

Josef Kral, seu companheiro, foi ainda pior. Ninguém esperava absolutamente nada de sua temporada, e ele cumpriu. Só apareceu quando sofreu o acidente mais violento do ano, em Valência. Se arrebentou todo e precisou se ausentar por cinco rodadas. Retornou em Abu Dhabi e marcou três pontos. Será que o acidente o transformou em um piloto razoável? O matusalém Luca Filippi o substituiu em cinco rodadas e foi ligeiramente melhor, marcando cinco pontos em Hungaroring e em Spa-Francorchamps. Também, com quase 100 provas disputadas na GP2, não deixa de ser sua obrigação.

Outra das equipes que “brilhavam muito na Fórmula 3000” é a DAMS. Há uns quinze anos, ela era a queridinha de todo mundo e fez vários dos campeões da antiga categoria. Hoje em dia, na GP2, ela até tem a expertise, a tradição e o polpudo apoio oficial da Renault, mas não consegue concretizar sua estrutura em resultados. Jerôme D’Ambrosio, pelo terceiro ano seguindo, insistiu em seguir com a equipe de Jean-Paul Driot, acreditando que, dessa vez, ela iria. Não foi. Como de hábito, o carro da DAMS apresentou um índice de quebras maior que o normal e D’Ambrosio teve um início de temporada tão azarado quanto decepcionante, apesar da vitória na segunda corrida monegasca, a primeira de sua carreira na categoria. Em Hockenheim, ele foi substituído por Romain Grosjean. O período sabático lhe fez bem: no seu retorno, ele marcou pontos em Hungaroring e em Monza. Poderia ter vencido a primeira corrida de Spa-Francorchamps, mas o azar manifestou e seu carro quebrou no finalzinho. Apesar disso, Jerôme é um bom piloto e tem o ótimo apoio da Gravity por trás. Tem boas chances de subir para a Fórmula 1 no ano que vem.

Michael Herck: apesar de algumas surpresas, ainda não passa de um mauricinho limitado

O outro piloto foi o chinês Ho-Pin Tung. Confesso que, até o ano passado, o achava um tremendo de um injustiçado. Campeão da Fórmula 3 alemã, ele teve passagens bem infelizes na GP2 correndo pelas fracas BCN e Trident. Na DAMS com apoio da Renault, ele poderia mostrar seu pretenso talento. Mas ele não mostrou. Andou mal pra caramba em treinos de classificação e não conseguiu se recuperar nas corridas. De quebra, ainda se envolveu em um forte acidente em Hungaroring, fraturou uma vértebra e acabou ficando de fora de várias etapas. Retornou na última como um convidado pela Racing Engineering e também não fez nada. Seu substituto foi o franco-suíço Romain Grosjean. E esse merece um destaque especial.

Terminado o ano de 2009, Grosjean deixou a Fórmula 1 desmoralizado. Sua breve passagem pela Renault havia sido desastrosa, cheia de erros e problemas de adaptação em um carro muito ruim. Silenciosamente, retornou ao automobilismo em 2010 fazendo corridas no FIA GT e no AutoGP. Andou muitíssimo bem e deixou ambos os campeonatos na liderança. No último, aliás, sagrou-se campeão, mesmo disputando menos corridas que os concorrentes. Voltou à GP2, de mansinho, para fazer algumas corridas pela DAMS. Fez dois pódios e 14 pontos. Poderia até ter feito mais, se não tivesse sido atingido por Maldonado em Hockenheim. Um dos destaques do ano, sem dúvida. Merece pensar em um retorno à Fórmula 1.

Das demais equipes sem brasileiros, a que mais se destacou foi, acredite, a DPR. A equipe, criada pelo respeitável David Price, foi vendida por uma ninharia a André Herck, famoso dentista romeno que quis ter sua própria estrutura para empregar seu filho Michael. Desde então, a DPR veio ladeira abaixo e poucos se dispuseram a correr como segundão do filho do dono em uma equipe precária. Apenas o experiente Giacomo Ricci, que não tem dinheiro nenhum, não tem outra opção. Ricci, aliás, fez uma belíssima temporada. Com um carro muito precário, brigou pela vitória na primeira etapa de Barcelona e conseguiu vencer na segunda de Hungaroring, dando à equipe a primeira vitória desde 2005. Como sempre, acabou chutado sem dó ainda antes do fim do ano.  E Michael Herck? Bem, ele evoluiu.  Até pole-position em Spa e pódio em Valência ele conseguiu. Mas ninguém se ilude. Só a influência do papai vai conseguir alguma coisa além da GP2. No ano que vem, não teremos a DPR no grid e Michael Herck correrá pela Coloni. Há quem diga que é mais uma manobra de fagocitose de André Herck.

Sem a Durango e a BCN, quem passou a competir com a DPR pelo título de pior equipe é a italiana Trident. Ela, que começou ambiciosa, organizadinha e cheia da grana, se transformou em uma lamentável equipe de fundo de grid. Em 2010, o experiente Adrian Zaugg e o promissor Johnny Cecotto Jr. competiram juntos na maior parte do tempo. O sul-africano Zaugg, único negro do grid, fez o de sempre: andou rápido em algumas ocasiões, errou em outras e, acima de tudo, tomou porrada de outros pilotos como ninguém. Pobre Adrian. Quanto a Cecotto, ele também conseguiu andar bem ocasionalmente, como em Mônaco, mas faltou um pouco de constância. No fim do ano, a equipe o chutou e trouxe o mediano Edoardo Piscopo e o lamentável Federico Leo para seu lugar. Piscopo até conseguiu o milagre de marcar dois pontos, mas foi na base da cagada pura e simples.

Luiz Razia: começo bom, metade decepcionante e final razoável

E a última colocada da temporada, pobrezinha, foi a Ocean, equipe portuguesa de propriedade de Tiago Monteiro. A Ocean surgiu do espólio da BCN e prometia ser uma equipe bem mais profissional e competente que a ex-equipe espanhola. Em 2009, com os experientes Álvaro Parente e Karun Chandhok, conseguiu. Nesse ano, ela apostou nos novatos Max Chilton e Fabio Leimer e se deu muito mal. Chilton, filho do dono da Carlin Motorsports, demonstrou que não é do ramo e só marcou três pontos. O esquecido Leimer, campeão de Fórmula Master, foi melhor e até venceu a segunda etapa de Barcelona. Ambos erraram muito em corridas. Melhor sorte para o time luso em 2011.

Deixei por último as equipes que tiveram brasileiros. Nesse ano, apenas dois competiram: Luiz Razia e Alberto Valério. Pelo visto, ficou para trás aquele boom de brasileiros na categoria. Razia assinou com a Rapax, a equipe do campeão Maldonado, e vinha com boas expectativas para 2010. De fato, ele começou muito bem o ano, pontuou em seis corridas seguidas e terminou em segundo em duas oportunidades, nas Sprint Races de Barcelona e Istambul. Após o fim de semana turco, ele estava bem próximo dos ponteiros na tabela.

Infelizmente, a partir de Valência, a temporada se transformou em um calvário para o baiano. Uma série de azares e problemas o atingiu de maneira implacável. Acidentes como o da largada da primeira prova em Valência e o com Valsecchi na primeira prova de Hockenheim, ambos sem sua responsabilidade direta, também complicaram sua vida. No fim, um segundo lugar na última prova de Abu Dhabi representou um fecho bacana para um campeonato algo decepcionante. Afinal, ficar 59 pontos atrás de seu companheiro nunca é legal, mesmo que não consigamos saber o que realmente se passou lá dentro da Rapax. Toda a sorte do mundo para Luiz Razia em 2011.

E o Alberto Valério? Esse daqui, infelizmente, não tem muito jeito. Em seu terceiro ano, Valério demonstrou que até consegue andar muito rápido em algumas ocasiões, principalmente nos treinos oficiais, mas sempre há uma cagada a ser feita durante a corrida. Na segunda corrida de Mônaco, ele bateu sozinho após tentar ultrapassar Luiz Razia. Em Valência, ele acertou com tudo o carro de Sergio Perez na largada da segunda prova. Ele também rodou sozinho nas duas corridas de Istambul. Alberto deve ter algum talento natural, mas coloca tudo a perder com erros grosseiros, resultantes provavelmente de algum tipo de insegurança ou ansiedade. Ao menos, ele derrotou, tanto em velocidade como em pontos, o búlgaro Vladimir Arabadzhiev. Que, aliás, também fez besteiras aos montes.

Alberto Valério, uma vaca brava

Pobre Coloni… aliás, pobre é o caralho. A equipe é uma das mais picaretas da GP2, sendo conhecida por existir unicamente para tirar o dinheiro dos bolsos dos pilotos endinheirados. Enzo Coloni era um homem respeitável e que amava o automobilismo, mas seu filho Paolo, o atual chefe da equipe, é apenas um mercenário que não tem a menor intenção de construir uma equipe competitiva. Me arrisco a dizer que a Coloni da Fórmula 1, apesar de pobre, era bem mais profissional e séria do que a Coloni atual da GP2.

Ao menos, ela se tocou e decidiu mandar tanto Valério como Arabadzhiev embora no final do ano. No lugar de Valério, o excelente Álvaro Parente, que andou demais em Spa-Francorchamps e quase venceu a corrida de sábado. O búlgaro foi substituído por Brendon Hartley, ex-piloto Red Bull, que conseguiu marcar um pontinho na última etapa de Abu Dhabi. Isso prova que, se a Coloni investisse mais em pilotos, ela poderia brigar por vitórias e até mesmo pelo título.

Há mais o que falar? Comento rapidamente sobre as corridas. A GP2 foi aquela de sempre: algumas corridas excepcionais, outras bastante modorrentas, muito mais disputas do que na Fórmula 1 e a diversão de sempre. Os erros aconteceram à exaustão, mas os acidentes não foram tantos. Foram, sim, doloridos: Josef Kral, Jules Bianchi, Ho-Pin Tung e Dani Clos tiveram problemas com vértebras após suas pancadas.

Se eu tiver de dar uma nota à GP2, eu daria um 7,5. E talvez seja realmente essa nota que a categoria mereça. As corridas são boas, o carro é ótimo e os pilotos são talentosos, mas os problemas de organização, custos, promoção e credibilidade são os mesmos de 2005. Espero que as coisas sejam aprimoradas em 2011. Como esperei para 2010, 2009, 2008, 2007…

Cena comum em 2010

Oba, um texto sobre a GP2! Pois é, pequenos gafanhotos. Nos próximos dois dias, o Bandeira Verde só falará sobre a categoria mais legal do mundo nos dias atuais. Há quem ache uma tremenda forçada de barra dizer que a GP2 é tão legal assim. Mas ela é, embora já tenha tido dias mais interessantes.

O calcanhar de Aquiles da categoria, atualmente, é o carro. A atual geração do Dallara-Renault, que começou a ser utilizada em 2008 e que felizmente foi abandonada após os últimos testes em Abu Dhabi, não conseguiu permitir que os pilotos tivessem o mesmo nível de disputas como tinham com os carros da geração antiga. Dizem que o que mais pega é a questão do efeito solo, que foi quase suprimido com a introdução de um fundo 100% plano no Dallara atual. O antigo, com fundos curvados, gerava efeito solo o suficiente para garantir a aderência necessária na hora de se pensar em uma ultrapassagem. Se a próxima geração do chassi, a ser utilizada entre 2011 e 2013, terá o tal fundo curvado? Mistério, mistério.

O caso é que o novo carro ficará muito parecido com a nova especificação da Fórmula 1, que exige carros com asas dianteiras mais largas e asas traseiras estreitas. Receio que essa conexão cada vez mais paulatina com a Fórmula 1 possa, a médio prazo, até matar a GP2. As equipes, que serão 13 no ano que vem, estão reclamando dos altíssimos custos, que ficaram ainda maiores após a troca de carros. E o pior é que o aumento será repassado aos pilotos. Nesse ano, a ART chegou a cobrar absurdos 2 milhões de dólares para correr em um de seus valiosos caros. É verdade que correr na ART é o máximo, mas 2 milhões para uma categoria-base é inaceitável. E a situação ficará ainda pior. Há estimativas que dizem que, em 2011, correr na GP2 poderá custar até 2,5 milhões de dólares. Quem vai pagar tudo isso pra competir em um campeonato que, sejamos honestos, só eu e mais uns 16 dão importância? Por causa disso, aposto: 2011 será o ano de aberrações como Rodolfo Gonzalez na iSport e Josef Kral na Addax.

Se o futuro parece nebuloso, falemos do presente e do pretérito perfeito. 2010 foi um ano bom, nada além disso. Campeão e vice, o venezuelano Pastor Maldonado e o mexicano Sergio Perez, fizeram uma temporada impecável e foram, de longe, os dois melhores pilotos do ano. Sergio Perez já arranjou um lugarzinho na Sauber para o ano que vem, e Maldonado deverá ser confirmado como companheiro de Rubens Barrichello na Williams nas próximas semanas. A ascensão é merecida. Juntos, os dois ganharam onze das vinte corridas. Se parece ter faltado adversários para entrar aí na briga, por outro lado não há como creditar um mérito extra aos dois por terem dominado um campeonato com carros teoricamente iguais.

Sam Bird, um dos destaques

Começamos pelos dois, portanto. Pastor Maldonado deve ter sido um dos pilotos mais mencionados nesse site nos últimos meses. O venezuelano, que fez sua quarta temporada, conseguiu a proeza de vencer seis Feature Races, aquelas de sábado, consecutivas. Em Istambul, Silverstone, Hockenheim e Hungaroring, ele foi simplesmente imperial e não teve adversários. Em Valência, ultrapassou Jules Bianchi em duas ocasiões e Perez para assumir a ponta. Em Spa-Francorchamps, aproveitou-se do abandono de Jerôme D’Ambrosio e ainda conseguiu suportar a pressão de Álvaro Parente na última volta. É verdade que, apesar do ano impecável, o sempre agressivo piloto da Rapax não podia deixar de cometer seus erros. O maior deles ocorreu em Monza, quando Maldonado bateu com tudo no DAMS de Romain Grosjean ainda no comecinho da prova.

Sergio Perez foi considerado, por muitos, o melhor piloto do ano. Os que compartilham da opinião pensam que Maldonado só dominou porque tinha quatro anos de experiência. Perez, por outro lado, estava em sua segunda temporada, sendo a primeira em uma equipe grande. Venceu duas corridas Feature e três Sprint, aquelas menores de domingo. Poderia ter vencido mais, como a corrida de sábado de Barcelona, que foi jogada no lixo após um mau trabalho de sua equipe, a Addax, nos pits. O destaque maior vai para a segunda corrida de Silverstone, na qual ele ultrapassou três pilotos e venceu com maestria. Agressivo, inteligente, confiante e pouco propenso a erros, o mexicano mostrou que está pronto para a Fórmula 1.

E o restante da galera? A categoria teve outros trinta pilotos que fizeram de tudo e mais um pouco para conter o domínio dos hispanohablantes da América Latina. Vou comentar sobre as equipes e acabo comentando sobre todos esses pilotos. E falo dos dois brasileiros por último.

Começo falando da Addax. Como o brilhante ano de Sergio Perez já foi apresentado acima, só me resta falar de seu companheiro, o superestimado Giedo van der Garde. Sétimo colocado no campeonato, o holandês, enteado de um dos homens mais ricos de seu país, teve apenas algumas poucas atuações de brilho, como os três terceiros lugares nas corridas dominicais de Mônaco, Valência e Spa-Francorchamps. O estilo agressivo de pilotagem apresentado no ótimo 2009, quando ele venceu três corridas pela iSport, parece ter ficado para trás. Com 25 anos e competindo em monopostos há bastante tempo, VDG já não tem mais o que fazer em categorias de base. Pleiteia um lugar na Fórmula 1 para o ano que vem.

Davide Valsecchi, uma das decepções

E a ART, hein? A equipe rica e bonitona do Nicolas Todt se deu ao luxo de meter a faca em seus dois pilotos, Jules Bianchi e Sam Bird, tirando quase 2 milhões de dólares de cada um deles. O francesinho se garantiu como o primeiro piloto porque tem apoio direto da Ferrari por trás. Restou a Bird, que tem patrocinadores razoáveis, entrar como o segundo piloto, esperando colher apenas os restos deixados por Jules. Mas por incrível que pareça, Bianchi decepcionou um bocado e Bird surpreendeu positivamente. A única vitória da equipe aconteceu em Monza, exatamente com o subestimado inglês. Além disso, Sam chamou a atenção com duas belas ultrapassagens na segunda corrida de Monza. Enquanto isso, Bianchi até fez três poles, mas não venceu nenhuma corrida. E ainda se envolveu em acidentes imbecis, como os de Istambul e Barcelona. Curiosamente, a vítima em ambos foi Charles Pic. Já Bird sofreu como azares de todo tipo. Ano infeliz para a ART, que já confirmou Esteban Gutierrez para 2011 e deverá continuar com Bianchi no outro carro.

Os oriundos da Fórmula 3 europeia sofreram bastante, e não foi só Bianchi que acabou decepcionando. Na Racing Engineering, todo mundo começou o ano depositando todas as fichas em Christian Vietoris, vice-campeão da F3 em 2009 e ex-protegido da BMW. O espanhol Dani Clos, o outro piloto, era só o mauricinho que levava a grana que faz a equipe funcionar e que só o eterno otimista Alfonso de Orleans e Bourbon acreditava. Mas assim como na ART, as coisas se inverteram na Racing. Dani Clos foi uma das sensações do campeonato ao fazer um início de campeonato excelente, chegando a peitar Maldonado e Perez na pontuação.  Os destaques ficam para a pole-position em Mônaco e para a vitória de ponta a ponta na segunda corrida de Istambul. Apesar da queda de rendimento após a rodada de Silverstone, Dani conseguiu terminar o ano em quarto, algo inacreditável. E Vietoris? Teve muitos azares, mas também não conseguiu andar próximo de Clos em boa parte da temporada. Ao menos, fez uma ótima Sprint Race em Monza e conseguiu sua única vitória no ano. 2011 será um ano decisivo para “Fítorris”: ou vai ou racha. Apoiado pela Gravity, ele sabe que tem muita gente na empresa que está em posição melhor do que ele para subir para a Fórmula 1.

A iSport, uma das minhas equipes favoritas na categoria, teve outro ano como aquela típica equipe que sempre está lá na frente e que ganha umas duas ou três corridas por ano, mas que não consegue chegar com fôlego pra brigar pelo título na reta final. Ao menos, a pintura do carro, branca com quadrados vermelhos e azuis, ficou ótima. Cortesia da Racing Steps Foundation, empresa de gerenciamento esportivo que apoiou o inglês Oliver Turvey, um dos destaques do campeonato. Sexto colocado na pontuação, Turvey não venceu nenhuma, mas teve ótimas atuações e conseguiu alguns pódios. Sua melhor corrida foi a primeira de Abu Dhabi: pole-position e segundo lugar, após perder a ponta para um impecável Perez. Oliver conseguiu convencer mais do que seu companheiro Davide Valsecchi, que também fez uma pole e até venceu a segunda corrida de Abu Dhabi. Mas Valsecchi está em seu terceiro ano na GP2 e parece não sair daquela condição de piloto mediano que anda bem de vez em quando e comete mais erros do que o aceitável. Oitavo lugar minguado na classificação final para o italiano.

Amanhã, a segunda parte.

Para infelicidade de muitos brasileiros que, de maneira quase pueril, levam a rivalidade com a Argentina a sério, o Calendário deste aqui que escreve passa por lá também. Alguém de longe pode ficar curioso sobre o motivo de brasileiros e argentinos não se bicarem. Motivos históricos, políticos, bélicos, territoriais, religiosos ou econômicos? Nada disso. O ódio existe por causa de futebol, caso único no mundo. Não é exagero meu: conheço gente que odeia a Argentina de verdade por causa disso. Dizem que os argentinos nem são tão encanados assim com o Brasil, já que o problema real é com a Inglaterra, rivalidade que vem lá dos tempos da Guerra das Malvinas.

A rivalidade é uma bobagem, é claro. Os argentinos têm muita coisa para oferecer, como a belíssima Buenos Aires, o churrasco, o alfajor e uma presidenta boa como Cristina Kirchner.  E o circuito de Potrero de los Funes, localizado na cidade de San Luis, capital da província homônima. Potrero é a penúltima pista do Calendário do Verde. E, na minha modesta opinião, é simplesmente a melhor pista construída na atual década no mundo.

Os argentinos, ao contrário dos brasileiros, adoram corridas. Mesmo tendo uma economia bem mais combalida e instável que a nossa, com um parque automobilístico que nem chega perto do que existe hoje em dia no Brasil, nossos vizinhos desfrutam de ótimos campeonatos internos, com bons pilotos, patrocinadores e carros. Não por acaso, enquanto as corridas por aqui são jogadas às moscas, as provas argentinas atraem um ótimo e fiel público. Se eu tenho um palpite sobre o porquê disso acontecer? O meu mais polêmico diz respeito ao clima e à influência europeia maior nas mentes de lá.

O circuito de Potrero de los Funes foi oficialmente inaugurado em 2008, mas já houve provas realizadas na região em tempos remotos. Em 15 de agosto de 1987, um grupo de gatos pingados das corridas de Turismo Carretera decidiu realizar uma rodada dupla em um traçado que utilizava as ruas do pequeno povoado que circundava a represa Potrero de los Funes. O objetivo era reproduzir um circuito longo e desafiador como Nürburgring Nordschleife ao redor de um lago, no melhor estilo Enna-Pergusa. De fato, ele não só reproduziu os desafios como também as tragédias: na primeira corrida, um acidente causou a morte de dois espectadores. Na segunda, um outro acidente deixou um piloto gravemente ferido. Acabou a brincadeira. Esqueçam essa loucura.

Durante 20 anos, a ideia realmente ficou esquecida. No entanto, em um ato que nunca seria visto no Brasil, a província de San Luis se uniu à comunidade automobilística local e decidiu construir na região de Potrero de los Funes um autódromo semipermanente que utilizaria um traçado muito parecido com aquele de 1987. A construção foi feita em apenas alguns meses e custou 18 milhões de dólares, troco de pinga perto de alguns circuitos muçulmanos que temos por aí. O objetivo dos argentinos não era ter o circuito mais luxuoso ou coisa do tipo, mas um que pudesse entrar no rol dos “grandes circuitos do mundo”, como Spa-Francorchamps, Le Mans e Bathurst. Ambiciosos e pretensiosos, sem dúvida. Mas bem-intencionados. E competentíssimos.

A inauguração do autódromo, que comporta 52 mil pessoas e possui graduação B da FIA, ocorreu no dia 23 de novembro com um verdadeiro festival de corridas: TC2000, Fórmula Renault 1.6, Campeonato Histórico de Carros de Turismo e, como cereja do bolo, o FIA GT. O campeonato mundial de carros GT da FIA seria o teste definitivo para comprovar se os latinos conseguiram fazer o serviço direito.

Conseguiu, e com louvor. Pilotos, equipes, jornalistas e espectadores adoraram a pista, bastante veloz, técnica e seletiva.  Infelizmente, o FIA GT não voltou à Argentina em 2009, mas a turma europeia consertou o erro e a última etapa do FIA GT1 está marcada para o dia 5 de dezembro. Após uma corrida em Interlagos, Potrero de los Funes definirá o campeão pela segunda vez. Um final sensacional em uma pista sensacional. Aprende, Fórmula 1!

E falando em Fórmula 1, será que ela pisaria por lá? Bom, a licença B dá direito à realização de corridas de GP2 e, na mais otimista das hipóteses, de testes com carros da categoria máxima. Como a possibilidade de uma equipe se dispor a testar na Argentina é basicamente nula e a possibilidade de ter uma corrida da GP2 europeia ou asiática na América do Sul é negativa, fiquemos com as corridas locais e o FIA GT. Até porque, se a Fórmula 1 viesse, muitas coisas teriam de ser modificadas. E todos nós sabemos como isso pode ser prejudicial.

TRAÇADO E ETC.

Não sei quanto a vocês, mas acho o traçado um dos mais bonitos do mundo. À primeira vista, Potrero de los Funes parece bicar em Nürburgring Nordschleife, Enna-Pergusa, Thruxton, Bathurst e Silverstone antigo, só pista legal. Mas o circuito é muito melhor do que um mero desenho engraçadinho. Além do traçado atraente, ele também possui uma vista deslumbrante e um relevo acidentado. Não precisa de mais nada.

Potrero de los Funes é uma pista mista de alta velocidade. Com 6,27 quilômetros de extensão, 14 metros de largura e 22 curvas, o recorde do FIA GT foi obtido em 2008 por Marcel Fässler e seu Chevrolet: 2min13s236, média de quase 170 km/h. Pode parecer pouco, mas é uma média alcançada, com os mesmos carros, em Spa-Francorchamps, por exemplo. O traçado é bastante variado, contemplando curvas velozes, algumas falsas retas, chicanes e ziguezagues. Por ser uma pista semipermanente, o muro está presente durante todo o tempo. De um lado, morros e casinhas. Do outro, a represa.

O que mais chama a atenção, no entanto, é a variação de relevo. As subidas e descidas são tantas que faz até lembrar o circuito de Bathurst, localizado em um morro. Porém, ao contrário da pista australiana, Potrero é larga o suficiente para permitir boas brigas. Para se dar bem aqui, o carro deve ter um equilíbrio de downforce que permita ter boa aderência nas curvas lentas sem perder tempo nos trechos velozes. Na verdade, assim como em Nordschleife, o ideal é ter um carro absolutamente versátil.

Veloz, bonita, moderna, desafiadora e passível de ultrapassagens. Não há nada de ruim a falar sobre Potrero de los Funes. Há aqueles que só acham que ela seria perfeita se não ficasse na Argentina…

Conheça as curvas:

1: É aqui onde os carros largam. Potrero é uma daquelas pistas em que a largada não é feita em linha reta. Para ser bem exato, os carros que largam mais à frente saem exatamente no ápice da curva. Veloz e de raio largo.

2 e 3: Os desafios começam logo aqui. Tão logo o carro completa a linha de chegada na curva 1, ele defronta com a curva 2, feita à esquerda em descida.  Como ela é larga, o piloto deixa o carro escorregar um pouco ao completá-la, de modo a reduzir menos a velocidade. Logo em seguida, há a curva 3, feita à direita em baixa velocidade. A redução de velocidade da curva 2 é intensificada aqui, já que o trecho é bem mais lento.

4: Bathurst tem um trecho parecidíssimo. O piloto atravessa uma reta que mais lembra um tobogã, iniciando-se em descida íngreme para depois subir e se aproximar desta curva de 90° feita à direita. Para completá-la na maior velocidade possível, o carro deve pular por sobre a zebra.

5 e 6: É uma das chicanes do circuito. A 5 é uma perna feita à direita e a 6 é feita à esquerda. A zebra é baixa, o que indica que dá pra passar por cima dela numa boa. Ainda assim, por ser um trecho muito pequeno e estreito, não dá pra ir com muita sede ao pote, até porque há um muro sempre à espreita.

7 e 8: Seria um esse? Mais ou menos. É um dos trechos mais velozes do circuito, se não o mais veloz. A 7 é uma curva feita em descida à esquerda. Por ser de raio longo, é de altíssima velocidade e o piloto nem precisa frear para mergulhar por ela. Logo em seguida, há a curva 8, feita em subida à direita. Também é uma curva de alta, e o piloto só precisa acelerar o máximo que puder. Nessas duas curvas, apesar da alta velocidade, não dá pra ter um carro com pouco downforce.

10: Diria que é o início do trecho misto do circuito. O piloto sai da curva 9, uma curva normal feita à direita, e começa a contornar a curva 10, uma curva de raio considerável que segue continuamente à esquerda, como se completasse um balão. Ele precisará dosar acelerador e freio, pois é um trecho de média velocidade e não há como “folgar” na movimentação do volante. É um dos trechos mais bonitos do circuito.

11, 12 e 13: É talvez o trecho mais lento do circuito. Quando o piloto termina de completar a curva 10, ele é obrigado a esterçar ainda mais para esquerda para completar a curva 11. Logo em seguida, ele vira para a direita para completar a 12, feita à direita. A partir daí, ele começa a reacelerar e imediatamente vira à esquerda para atravessar pela curva 13. É um ziguezague daqueles.

14: Em Long Beach, tem, ou tinha, um trecho muito parecido, só que invertido. O piloto vem de um descidão e é obrigado a frear forte para completar a curva 14, feita à direita. Apesar da curva em si não ser tão fechada, o ladeirão faz com que o carro venha muito rapidamente.

15: Aqui, respira-se um pouco de Bathurst. É uma curva feita em descida à direita. Por ser de alta velocidade, estreita e com o muro bem próximo, lembra demais a The Dipper do circuito australiano. Nada de tirar o pé.

16, 17 e 18: É, mas se o piloto também não aliviar um pouco na 15, ele terá problemas para completar esse completo de curvas de baixa velocidade. O piloto inicia na 16, curva feita à direita em baixíssima velocidade. Logo depois, ele esterça tudo para a esquerda para completar a curva 17. Como o raio dessa daqui é maior, é possível reiniciar a aceleração. Mas não dá pra acelerar demais porque há a curva 18, feita em 180° à esquerda. O piloto deve esperar até mais ou menos o fim dessa curva para reacelerar. É um ziguezague dos mais complicados, talvez o trecho mais difícil de toda a pista.

19: Após o complexo 16, 17 e 18, o piloto enfrenta a curva 19, feita à esquerda. É uma curva de difícil tangenciamento, pois não é possível determinar seu ápice. O piloto entra nela freando até mais ou menos à metade, quando ele começa a ver o restante da pista. A partir daí, ele segue reacelerando e virando levemente para a esquerda.

20 e 21: Mais uma vez, Bathurst na veia. A curva 20 é feita em descida e em alta velocidade. Ela também se assemelha à The Dipper devido à aparência de ziguezague e aos muros próximos. A longa curva 21 que vem logo à seguir é feita à direita e em aceleração.

Mosley: eu não gosto dele, você não gosta dele, mas ele fez muito pela segurança

Um dos esportes preferidos do fã contemporâneo de automobilismo é malhar Max Mosley. Filho do nazista Oswald Mosley e presidente da Federação Internacional de Automobilismo entre o fim de 1991 e 2007, Max foi impiedosamente crucificado pelos inúmeros erros que tornaram o automobilismo mundial algo chato e extremamente comercial partir dos anos noventa e também pelos desvarios sadomasoquistas protagonizados há alguns anos. Enquanto enchemos o saco por acharmos erradamente que tudo que era antigo era melhor e damos uma de moralistas por condenarmos o que o cara faz entre quatro paredes, nos esquecemos de um legado altamente positivo deixado por Mosley: a segurança, principalmente na Fórmula 1. Completamos uma década inteira sem ter um piloto morrendo em competição. No GP do Bahrein de 2011, se tudo correr bem, teremos completado uma década inteira sem ninguém morrer na categoria. Nem piloto e nem fiscal de pista.

Esse negócio de década é bem polêmico. A Wikipedia diz que a atual começou em 2000 e terminou em 2009. Por outro lado, há quem diga que começou em 2001 e 2010. Dane-se. Seja o que for, a idéia vale para qualquer categorização de década.

Pra dizer a verdade, Mosley nunca foi desonesto. Dois de seus maiores objetivos para a Fórmula 1 e o restante dos campeonatos aprovados pela FIA eram o aumento da segurança e a limpeza técnica e financeira dos grids. Após 18 anos de mandato, ele conseguiu os dois com perfeição. Os grids, que eram maravilhosamente lotados e variados, foram pasteurizados e drasticamente reduzidos. E a segurança cresceu absurdamente. Hoje em dia, o cara só morre se tudo conspirar contra. Ou nem isso, para a tremenda infelicidade de @RealMORTE.

Quando Mosley tomou o lugar do francês Jean-Marie Balestre no final de 1991, o automobilismo já não era mais aquele moedor de carne que ceifava a vida de dezenas e criava novas viúvas e órfãos. A última morte na Fórmula 1 havia ocorrido em 1986, quando a asa traseira do Brabham do italiano Elio de Angelis voou longe e, descontrolado, o bólido se arrebentou em um guard-rail qualquer do circuito de Paul Ricard. Desde aquele período, alguns pilotos passaram bem perto da morte, como Philippe Streiff e Martin Donnelly, mas todos se safaram incólumes. Ainda assim, morrer fazia parte do negócio. Naquele mesmo ano, o irmão mais novo de Derek Warwick, Paul, falecia em um acidente tenebroso em Oulton Park enquanto disputava uma etapa do inglês de Fórmula 3000.

Com Mosley, no entanto, as coisas evoluíram drasticamente. Em 18 anos de gestão, houve apenas quatro mortes na Fórmula 1, uma na Fórmula 3000 Internacional, três no Mundial de Rali e uma na Fórmula 2, citando apenas os campeonatos oficialmente promovidos pela FIA. É verdade que nos primeiros anos, Mosley não era tão assíduo assim com a questão da segurança. Mas não dá pra negar que o inglês se esforçou muito. Mesmo que, para isso, a Fórmula 1 tenha de ter perdido Ayrton Senna.

Nos três primeiros anos de gestão, Mosley pegou um período no qual o automobilismo sofria com custos altos e crescentes e com corridas aborrecidas. Basicamente todos os campeonatos da FIA perdiam competidores a granel e os torcedores demonstravam cada vez menos interesse pelas corridas europeias e cada vez mais por campeonatos “alternativos”, como a Indy. Ainda assim, impávido, ele manteve sua política de eugenia: vamos expulsar os pobres e melhorar o nível da bagaça, mesmo que as corridas fiquem chatas e os torcedores façam bico. A segurança fazia parte do cronograma, mas certamente estava em uma escala abaixo nas prioridades.

Senna: a última morte, há 16 anos

O que realmente mexeu com Mosley foi aquele fim de semana de Imola. Rubens Barrichello se arrebentou em um acidente na sexta-feira e teve como consequência mais grave um nariz quebrado. Ufa! Mais um acidente feio e mais um piloto escapando numa boa. A Fórmula 1 parecia perfeitamente segura e todos estavam absolutamente tranquilos e acomodados. Quer um exemplo? A Veja, revista odiada pelos esquerdistas, publicou em sua edição de 04 de maio de 1994 uma reportagem celebrando a sobrevivência de Barrichello e como os carros de Fórmula 1 estavam seguros e a morte era coisa démodé. O fechamento da edição se deu na sexta-feira, 29 de abril. No sábado, a tragédia retornava à Fórmula 1.

O austríaco Roland Ratzenberger se chocou contra um muro desprotegido a 314km/h com seu Simtek e morreu no local, vítima de pescoço quebrado e ferimentos na cabeça. Todos entraram em pânico, é claro. Como alguém poderia morrer na Fórmula 1? Enquanto pilotos e jornalistas se descabelavam e pediam para que algumas regras, como a proibição das ajudas eletrônicas, fossem revistas, Max Mosley e demais dirigentes da categoria e das equipes mantinham o nariz empinado e diziam que estava tudo certo. A Fórmula 1 continuava a ser extremamente segura e não seria uma mortezinha de um merdinha backmarker qualquer que faria mudar a opinião dos paladinos da verdade.

Se Ratzenberger morre, beleza. Faço aqui uma alusão a uma máxima cruel do jornalismo, que diz que a vida de um francês vale tanto quanto a de vinte peruanos. Roland era apenas mais um peruano. Mas eis que no dia seguinte, 1 de maio de 1994, morre o francês Ayrton Senna. E agora, FIA?

E agora que o mundo começou a contestar não só a segurança da categoria como também a viabilidade de um esporte assassino. Enquanto alguns jornais italianos mais emotivos simplesmente pediram o fim da Fórmula 1, outros só indagavam se era sensato continuar participando de um esporte como esse. A ficha de Max Mosley caiu a partir daí. Se ele quisesse manter a existência do automobilismo, mudanças drásticas teriam de ser feitas a partir daí. A tranquilidade deu lugar à paranoia. E a segurança se tornou o assunto mais importante da gestão de Mosley.

A partir daí, as coisas melhoraram visceralmente. Karl Wendlinger entrou em coma após se arrebentar no fim do túnel de Mônaco e Mika Hakkinen precisou de uma traqueostomia para ser salvo após um acidente em Adelaide, mas a morte nunca mais deu as caras. Comparar a segurança de um carro de 1994 com um de 2004 chega ao absurdo: nesses dez anos, o cockpit ficou mais alto e muito mais resistente, os crash-tests se tornaram mais severos, o santantônio cresceu e passou a aguentar capotagens muito mais violentas, as rodas pararam de voar devido à introdução de mais braços de suspensão e novos apetrechos como o HANS Device salvaram a vida e a integridade de muitos.

Kubica: hoje em dia, nem assim o cara morre

E o resultado é que os acidentes, apesar de terem aumentado em número e até mesmo em força, não matam mais. E também não andam causando grandes ferimentos. E olha que já tivemos cada pancada… em 2003, Rubens Barrichello bateu de frente a quase 300km/h após a roda traseira esquerda de seu carro voar no GP da Hungria. Saldo: uma língua mordida. Em 2007, Robert Kubica bateu a mais de 300km/h em uma mureta no GP do Canadá. Capotou e terminou de cabeça para baixo. Saldo: uma luxação no tornozelo. Nesse ano, no GP da Europa, Mark Webber bateu na traseira de Heikki Kovalainen, capotou e se esborrachou na barreira de pneus. Saldo: nada. Luciano Burti, Felipe Massa, Olivier Panis e Michael Schumacher podem até ter se machucado um pouco mais. Mas perto do que tínhamos até os anos oitenta, nada a lamentar.

As duas últimas mortes que aconteceram na Fórmula 1 envolveram fiscais de pista. Em 2000, seis pilotos se arrebentaram na primeira volta do GP da Itália. Uma das rodas do Jordan de Heinz-Harald Frentzen voou e acertou a cabeça de Paolo Ghislimberti, 33 anos, casado e esperando um filho. Os médicos tentaram ressucitá-lo, mas ele acabou falecendo. Poucos meses depois, no GP da Austrália de 2001, após tocar no carro de Ralf Schumacher e decolar, o BAR de Jacques Villeneuve acabou acertando Graham Beveridge, 52 anos, que faleceu no local. Beveridge foi a última morte registrada na categoria. Logo, sob qualquer prisma, a década de 2000 foi a primeira da história da Fórmula 1 sem uma única morte de piloto. Foi uma das coisas que me veio à cabeça após a corrida de Abu Dhabi. E no dia 4 de março de 2011, completaremos dez anos sem ninguém, absolutamente ninguém, morrer durante uma corrida.

É evidente que isso não significa que a Fórmula 1 está imune a mortes. Se o Red Bull de Mark Webber tivesse acertado alguma coisa enquanto voava lá em Valência, o australiano poderia estar brincando com cangurus em alguma dimensão diferente da nossa. E se a mola do Brawn de Rubens Barrichello tivesse acertado a cabeça de Felipe Massa um ou dois centímetros acima, Ayrton Senna não teria sido mais o último piloto brasileiro a morrer na categoria. Os dois calcanhares de aquiles da categoria ainda são a exposição da cabeça do piloto e as rodas traseiras descobertas. Ainda dá pra morrer levando algo na cabeça ou voando com seu carro. Basta um pouco de azar e voilà!, Dona Morte faz seu trabalho.

Ainda assim, celebremos. Max Mosley tornou a Fórmula 1 um saco, cara e entediante. Mas ele não é o diabo. Apesar de ter demorado para fazer alguma coisa, ele conseguiu elevar a segurança a níveis impressionantes em seu mandato. Entre 2001 e 2010, ninguém morreu pilotando na Fórmula 1. É a primeira vez que a categoria atravessa uma década sem presenciar uma tragédia. O único que gosta de sofrer, pelo visto, é o próprio dirigente sadomasô.

Nesse fim de semana, o nosso querido e idolatrado Autódromo de Interlagos voltará ao cenário do automobilismo mundial. Quase um mês após receber penúltima etapa da temporada 2010 da Fórmula 1, o circuito paulistano sediará a penúltima etapa do glorioso FIA GT1, o campeonato de carros-esporte mais relevante do mundo.

Deve ser a primeira vez que menciono o FIA GT aqui nesse espaço. Confesso, sou ignorante com relação à categoria. Até hoje, vi apenas um compacto de uma corrida de GT3 em Paul Ricard. Não dei muita bola, até porque os pilotos que competiam eram de segunda linha e a corrida foi encerrada com bandeira vermelha após um daqueles acidentes que envolvem gregos e troianos. Pois deveria. O FIA GT, principalmente a categoria GT1, é uma das melhores categorias do mundo, com excelentes pistas, pilotos e, acima de tudo, carros. Pra quem não tem mais o que fazer em Sampa nesse fim de semana, recomendo um pulo ao autódromo. São apenas cinco reais.

Interlagos é a meca do automobilismo brasileiro, mas alguns gringos também se metem a competir por aqui. A corrida da GT1, primeira da categoria no Brasil, não é a primeira iniciativa estrangeira no autódromo que recebe o nome do saudoso José Carlos Pace. Várias categorias internacionais já passaram por aqui, e não estou falando apenas da Fórmula 1. O Top Cinq de hoje se lembra de algumas dessas categorias.

5- FÓRMULA BMW DAS AMÉRICAS (2008)

 

Alexander Rossi em uma pista que não é Interlagos

 

Até o ano passado, quando ainda havia uma equipe da BMW na Fórmula 1, a montadora de Munique fazia questão de manter alguns campeonatos realizados ao redor do mundo com monopostos pequenos e pilotos que acabaram de sair do kart. A Europa tinha o campeonato mais importante, a Fórmula BMW Européia. A Ásia tinha a Fórmula BMW Pacífico. Alguns países, como a Alemanha e a Inglaterra, tinham seus próprios campeonatos. E a América do Norte tinha a Fórmula BMW das Américas.

Realizada entre 2004 e 2009, a Fórmula BMW das Américas era uma interessante alternativa para aqueles que queriam uma formação europeia, visando a Fórmula 1. Os pilotos, que não eram muitos, competiam em circuitos mistos como Lime Rock, Montreal, Laguna Seca e Elkhart Lake. Em 2008, a categoria incluiu no calendário uma etapa a ser realizada em novembro em Interlagos. A criançada teria a oportunidade de disputar a última etapa do campeonato na frente dos chefões da Fórmula 1, que também teria sua última etapa no Brasil.

13 pilotos se inscreveram para a rodada dupla, realizada nos dias 1 e 2 de novembro, sábado e domingo. Para surpresa geral, o público ocupou bons espaços nas arquibancadas, acompanhando aquela desconhecida categoria e as muitas disputas entre a molecada. O único que não deve ter se divertido foi o americano Alexander Rossi, que venceu as duas etapas na maior moleza. Alexander, que não tem parentesco nenhum com o Valentino, havia chegado ao Brasil com o título conquistado com antecedência e só aumentou ainda mais a distância para o segundo colocado no campeonato, o brasileiro Ricardo Favoretto.

4- TELEFONICA WORLD SERIES (2002)

 

Justin Wilson

 

Em 2002, a então apagada Fórmula Nissan espanhola recebeu uma bela de uma repaginada e se transformou em uma das categorias mais interessantes daquele ano. Um grande patrocinador, a Telefonica, um novo carro, o Dallara-Nissan com 465 cavalos de potência, e um calendário internacionalizado atraíram a atenção de equipes, pilotos e torcedores de fora da Espanha.

O calendário internacionalizado contemplava etapas em Monza, Magny-Cours, Curitiba e Interlagos. Sim, o Brasil teve duas rodadas duplas da categoria! Elas foram realizadas no começo de dezembro, com o espaço de apenas uma semana entre uma e outra. Na capital paranaense, o ex-Fórmula 1 Ricardo Zonta venceu as duas etapas e confirmou o título da categoria. Interlagos, portanto, seria apenas um fim de semana de festa.

Para infelicidade de todos, choveu horrores em São Paulo no dia 8 de dezembro. Muita gente que iria ver as participações de Zonta, dos irmãos Sperafico, de Tuka Rocha, de Wagner Ebrahim, de Jaime Melo e da então desconhecida Milka Duno acabaram desistindo. No caso de Zonta e de Duno, os dois se acidentaram na primeira etapa e, sem carro, acabaram nem alinhando para a segunda. Os futuros pilotos de Fórmula 1 Franck Montagny e Justin Wilson acabaram vencendo as duas corridas. Wilson, aliás, teve um 8 de dezembro dos sonhos. No mesmo dia em que venceu a corrida, acabou acertando um acordo com Paul Stoddart para correr na Minardi em 2003.

3- FÓRMULA 3000 INTERNACIONAL (2001 e 2002)

 

Ryan Briscoe na edição de 2002

 

A melhor categoria de todos os tempos, segundo este daqui, não carregava a alcunha de internacional só porque era bonito. Quando a Fórmula 2 acabou, Bernie Ecclestone quis fazer dessa tal de Fórmula 3000 um campeonato baratinho e que fosse disputado em outros lugares além da Europa. Em 1986, a categoria confirmou duas etapas para o fim do ano em Interlagos e em Goiânia. Infelizmente, deu errado, mas a categoria nunca se esqueceu do Brasil. Em 1994, as conversas voltaram mas foram engavetadas. E a categoria, com exceção de uma ou outra prova extra-campeonato na Argentina ou na África do Sul, só competiu em pistas europeias até 2000.

No fim de 2000, no entanto, a boa notícia virou realidade: em 2001, a Fórmula 3000 iria para Interlagos realizar uma etapa como preliminar da Fórmula 1. Eram tempos férteis para o Brasil na F3000, com muitos pilotos competindo e uma equipe nacional andando lá na frente, a Petrobras Junior. Um dos pilotos, no entanto, chamava mais a atenção, tanto pelo seu currículo como por sua origem: Antonio Pizzonia, amazonense, campeão da Fórmula 3 inglesa e maior esperança do Brasil naquele momento.

As arquibancadas lotaram e a torcida estava louca para ver aqueles cinco pilotos, em especial o tal do “Jungle Boy”, mostrando para o mundo quem é que mandava. Ironicamente, para infelicidade geral, um dos brasileiros estragou a festa. Pole-position, Jaime Melo manteve a liderança na largada. Mais atrás, Ricardo Sperafico bateu forte no S do Senna e obrigou a entrada do safety-car na pista. Melo, sacana, freou com tudo e fez com que Antonio Pizzonia, Tomas Enge e Rodrigo Sperafico o ultrapassassem sem querer sob bandeira amarela. Punição de dez segundos para os três. Pizzonia e os Sperafico, logo no começo, já estavam de fora da briga. Melo não conseguiu segurar a liderança e a vitória ficou com Justin Wilson.

No ano seguinte, com seis brasileiros no parco grid de 20 carros, as coisas pareciam mais promissoras. Antonio Pizzonia e Ricardo Sperafico, os dois da Petrobras, eram candidatos sérios à vitória e ao título. Só que ninguém contava com o domínio assustador de Sebastien Bourdais e de Tomas Enge, que lideraram de maneira covarde até quebras tirarem os dois da corrida. E Rodrigo Sperafico herdou a liderança, seguido por Mario Haberfeld, Ricardo Mauricio e Antonio Pizzonia, que vinha sendo atacado ferozmente por Bjorn Wirdheim. No fim, o quarteto brasileiro manteve as posições e deu ao país aquele que considero o melhor resultado do Brasil em uma corrida de caráter internacional.

Apesar da boa aceitação da corrida, a Fórmula 3000 não voltou ao Brasil em 2003. Os motivos? Era muito caro sair da Europa. E a saída da Petrobras Junior reduziu drasticamente as atenções do país para a categoria.

2- LE MANS SERIES (2007)

 

O Spyker de Andrea Belicchi, Andrea Chiesa e Jonny Kane

 

Quando o promotor Antônio Hermann e o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab anunciaram que as Mil Milhas Brasil passariam a fazer parte do calendário da Le Mans Series em 2007, muitos ficaram estupefatos. A famosa corrida, realizada desde 1956, passaria a ter projeção mundial ao ser considerada a última etapa do campeonato de protótipos mais famoso do mundo. Nos anos anteriores, ela já vinha recebendo carros e pilotos do exterior e a inclusão no calendário da LMS só representaria a consagração da competição.

Sexta etapa do campeonato de 2007, a Mil Milhas foi a primeira corrida que a categoria realizou fora da Europa e também a primeira a ter mais de mil quilômetros de extensão. A novidade, no entanto, não conseguiu seduzir os pilotos europeus, que não compareceram em quantidade esperada. Para piorar, os próprios brasileiros, temendo a concorrência duríssima da turma europeia, também não apareceram. No fim das contas, apenas 23 carros se inscreveram, sendo que apenas seis deles tinham ao menos um piloto brasileiro. O negócio ficou tão feio que apenas a categoria LMGT2 tinha número de carros o suficiente para contabilizar 100% dos pontos. Com poucos inscritos, as outras categorias, LMP1, LMP2 e LMGT1, tiveram de dar apenas metade dos pontos aos participantes.

Mesmo com carros tão poderosos e com ingressos não muito caros, o público não compareceu, nem mesmo aquele cativo que comparecia na corrida quando ela era quase amadora. E os pouquíssimos que deram as caras devem ter se arrependido, já que a corrida não foi lá aquelas coisas. O inegavelmente belíssimo Peugeot 908 fez a pole com Pedro Lamy e Stéphane Sarrazin, mas o portuga teve problemas com a embreagem na volta de apresentação, caindo para último. A partir daí, o outro 908, pilotado por Nicolas Minassian e Marc Gené, tomou a ponta e não saiu mais de lá. Lamy e Sarrazin ainda conseguiram fazer uma fácil corrida de recuperação e terminaram em segundo.

O melhor brasileiro foi Fernando Rees, cujo Aston Martin venceu a LMGT1 e terminou em sexto na classificação geral. Ninguém deu bola. E a Le Mans Series nem quis saber de voltar em 2008

1- 500CC (1992)

 

Wayne Rainey em uma pista que não é Interlagos

 

Quando se fala em Mundial de Motovelocidade no Brasil, todo mundo se lembra das saudosas e cruelmente quentes corridas em Goiânia e em Jacarepaguá. Sucesso de público e de crítica, as duas pistas sediaram provas inesquecíveis e fazem o pessoal do Mundial sentir falta do Brasil, das praias do Rio e das mulheres goianienses até hoje. Mas poucos se lembram que o país teve uma terceira pista que esteve no calendário da categoria em 1992. Interlagos, é claro!

Os gringos não gostaram. São Paulo não é exatamente aquilo que um europeu ávido por sol, mar e diversão espera encontrar no Brasil. Além do mais, Interlagos e suas tradicionais ondulações não era exatamente a pista mais adequada para uma corrida de motos desse porte. Como eram tempos em que a Fórmula 1 dominava o coração dos brasileiros, ninguém dava muita bola para as categorias que não tinham brasileiros competindo em alto nível. Havia o subestimadíssimo Alexandre Barros, mas sua Cagiva não era páreo para as poderosas Yamaha e Honda.

Sendo assim, o público não compareceu. E para piorar as coisas, choveu forte e fez um frio daqueles em São Paulo naquele fim de semana de agosto. Pô, estávamos no Brasil ou na Escócia? Ninguém parecia muito animado, mesmo sabendo que a corrida marcava o retorno de Michael Doohan às pistas. Doohan havia sofrido um violentíssimo acidente nos treinos para a corrida de Assen e, após quase perder a perna esquerda e até mesmo a vida, retornou à categoria para tentar salvar o título daquele ano. Fazia apenas uma semana que Mick havia abandonado sua cadeira de rodas.

Os pilotos não estavam muito dispostos a enfrentar uma pista com tantas ondulações, ainda mais se a chuva viesse com tudo na corrida. Wayne Rainey, Eddie Lawson e o próprio Doohan não estavam com saco para participar da corrida. Mas ficar de bico não resolveu e os 29 pilotos foram à pista. John Kocinski fez a pole-position, mas perdeu a ponta logo no começo para Rainey, que logo abriu uma boa distância para o resto do povo. A briga pela segunda posição, entre Kevin Schwantz, Doug Chandler, Kocinski e Gardner era muito boa e Kocinski chegou a fazer uma bela ultrapassagem dupla sobre Chandler e Schwantz.

E a corrida terminou assim, com Rainey em primeiro, Kocinski em segundo e Chandler em terceiro. O título seria decidido apenas em Kyalami. A corrida em Interlagos não deixou saudades e ninguém lamentou quando ela não apareceu no calendário de 1993.

A força do touro vermelho

Em uma única corrida de Fórmula 1, o espectador é bombardeado com dezenas de marcas e logotipos. Grandes empresas de caráter global despejam milhões de dólares para estampar um mísero adesivo no spoiler dianteiro de uma equipe média buscando apenas a visibilidade mundial de 520 milhões de espectadores a cada corrida. E o retorno é muito, muito compensador.

Pode parecer um pouco estranho falar sobre retorno. Muitos de nós, que não temos contato com o mundo do marketing e da publicidade, indagam como é que uma empresa que gasta rios de dinheiro apenas para colocar sua marca em um carro obtém retorno. Afinal, na prática, não adianta nada ver uma marca que não significa nada para mim, como ocorre, por exemplo, com a cervejaria indiana Kingfisher ou com a companhia aérea malaia Air Asia, se eu sequer tenho lá um meio de consumir um produto seu. E quem garante que eu realmente vou comprar um produto unicamente porque sua empresa patrocina a Ferrari ou a Hispania ou a Penske?  

Não restrinjamos a mente dessa maneira. Um bom departamento de marketing e publicidade pensa muito além de um mero aumento nas vendas. A empresa, acima de tudo, quer simplesmente fortalecer sua marca e associá-la a coisas boas. É o chamado retorno de imagem. Ao aparecer na Fórmula 1, ela simplesmente quer agregar a si valores como a competitividade, a tecnologia, a capacidade de vanguarda e a esportividade. Na história do automobilismo, três marcas entenderam, mais do que qualquer outra, a força do esporte como instrumento de publicidade. Uma delas é a Martini, que ficou famosa principalmente nos ralis e nos campeonatos de protótipos. A outra é a Marlboro, que nos dias atuais só apoia discretamente a Ferrari. E a terceira, e única que ainda se mantém bastante ativa, é a Red Bull.

Vocês já repararam como, mais do que nunca, o nome da empresa austríaca de energético vagabundo prontinho para ser misturado com vodca nas baladas foi falado no ambiente do automobilismo? Em 2010, a Red Bull conseguiu aparecer tanto quanto a Ferrari, e ainda com uma vantagem: enquanto a marca italiana era associada à falta de esportividade e ao choro irritante e persistente de Fernando Alonso, os rubrotaurinos só traziam para si a simpatia e a torcida do povão. E por mais que o povão seja volúvel e pouco racional, é ele quem consome, e não gente de nariz empinado e falso senso crítico como eu. A Red Bull conseguiu o que queria: se tornou a reserva moral e esportiva da Fórmula 1. É pra ela que devemos torcer. E são seus produtos que devemos consumir.

Andei dando uma pesquisada bem rasteira sobre o quanto ela conseguiu aparecer. Começo pelo meu próprio site. A expressão “Red Bull” apareceu em 64 dos 290 posts até aqui. Na prática, a cada cinco posts, eu menciono a marca em um. A Ferrari, que é simplesmente a marca mais importante de todo o automobilismo mundial, apareceu em 119 posts. Além disso, contabilizei pelo menos 28 fotos nas quais o logotipo está lá, pra todo mundo ver. Fui além e consultei o Google. Para a expressão “formula 1”, temos 27.900.000 resultados. Se adicionarmos o “red bull”, temos 2.940.000 resultados. Em uma conclusão bem rasa, cerca de 10% do que é falado sobre a categoria na internet menciona a marca. Sentiu a força do negócio?

A Red Bull é uma marca que foi criada em 1987 por Dietrich Mateschitz, um austríaco que tem tanto de gênio como de louco. Em uma viagem feita à Tailândia nos anos 80, “Didi”, na época um mero executivo engravatado, descobriu uma bebida lotada de cafeína e taurina que os taxistas locais utilizavam como rebite. Interessadíssimo, ele levou a fórmula para a Europa e a desenvolveu por três anos antes de lançá-la ao mercado com este curioso nome. E logo no começo, a marca do touro vermelho se lançou como uma pequena patrocinadora pessoal de Gerhard Berger. Começava aí a cruzada da Red Bull pelo esporte mundial.

Ver estas cores no automobilismo e no esporte mundial virou algo rotineiro

Observando rapidamente alguns números, vemos que a abrangência é gigantesca. Em 2009, a Red Bull vendeu nada menos do que 3,9 bilhões de latinhas de seu energético em 140 países. A receita total foi de 3,2 bilhões de euros. O interessante é que Mateschitz tem como regra investir cerca de 35% da receita (em 2009, essa porcentagem chegou a 1,1 bilhão de euros) em publicidade. E apenas 20% desse bilhão e pouco, cerca de 220 milhões, é utilizado em marketing tradicional na televisão e em mídia impressa. O resto é empurrado em marketing agressivo, de preferência esportivo.

A Red Bull gastou, com suas duas equipes na Fórmula 1 (Red Bull Racing e Scuderia Toro Rosso), mais de 200 milhões de dólares em 2010. De cada seis carros do grid, um deles exibe ostensivamente a marca. E além da Fórmula 1, a marca se faz presente no WRC (dois de seus maiores astros, Sebastien Loeb e Kimi Raikkonen, são patrocinados por ela), na Fórmula 3 Inglesa, na World Series by Renault, nas 125cc do Mundial de Motovelocidade, no Rali Dakar e em outros campeonatos. No futebol, a Red Bull mantém vários times ao redor do mundo, como o Red Bull Salzburg e o Red Bull Brasil. E a marca se faz presente em mais um monte de esportes, de canoagem a prosaicos campeonatos de aviõezinhos de papel.

Qual é o objetivo de tudo isso? Simplesmente aparecer. A Red Bull quer associar paulatinamente sua imagem a tudo aquilo que é radical, ambicioso e competitivo. Como os jovens são o público-alvo da empresa, nada melhor do que fazer com que a Red Bull conquiste a atenção deles. E o resultado é esse: todo mundo imediatamente associa a marca com tudo aquilo que é diferente, que é ousado e divertido. Surgiu um novo esporte bizarro? A Red Bull está lá. Criaram um desafio novo? Os touros vermelhos se fazem presentes.

E em termos de vendas, isso funciona? O market share (ô expressãozinha filha da puta) da Red Bull é de cerca de 60% ao redor do mundo. O que isso quer dizer? Significa basicamente que ela domina qualquer mercado. Mesmo gigantes como a Coca-Cola e a Pepsi, por meio da Burn e da Rockstar, respectivamente, não conseguem o nível de aceitação dos austríacos. Outras marcas mais recentes e que buscam executar um marketing tão agressivo quanto, como a americana Monster, estão lentamente se aproximando. No Brasil, temos o TNT, da Cervejaria Petrópolis. Todos eles querem seguir o rastro de sucesso da Red Bull.

O energético, por si só, é ruinzinho. Segundo pesquisa feita, os consumidores o acham muito ácido e estranho. Eu mesmo o experimentei umas duas vezes e não gostei. Mas foi o único que me deu curiosidade de experimentar, exatamente pela fama da marca. O marketing da Red Bull funcionou comigo.

Entre as 12 equipes do grid atual da Fórmula 1, não gosto de quatro delas.  Não gosto da Ferrari porque o culto excessivo à marca faz com que Stefano Domenicali e seus barcelos ajam do jeito que quiserem, atropelando qualquer espírito esportivo. Afinal, para eles, a Ferrari está muito acima da Fórmula 1 e é a categoria que deve se adequar à equipe. Além do mais, nunca fui fã daqueles carros típicos de gente emergente que não sabe onde colocar seu farto dinheirinho. Não gosto da Red Bull porque é a típica empresa contemporânea que tenta passar uma imagem de ousada e descolada, quando no fundo ela é igual a todas as outras, o que não é exatamente um problema quando você assume isso. Não gosto da Virgin porque é apenas uma brincadeira altamente descompromissada do pirado do Richard Branson. Ainda assim, não fico torcendo pelo fim dessas três equipes. Há, no entanto, uma que eu realmente gostaria de ver dando adeus à Fórmula 1: a Toro Rosso.

Criada em 2006 a partir do espólio da italiana Minardi, a Scuderia Toro Rosso é literalmente uma filial da Red Bull Racing. Ela existe única e declaradamente para mostrar ao mundo os novos talentos que a empresa das latinhas criou nas categorias de base e para prepará-los para uma eventual ascensão à equipe principal. Seria como a Renault Driver Development ou a Ferrari Driver Academy criando uma equipe unicamente para empregar os Jules Bianchi e Jerôme D’Ambrosio da vida.

Se eu acho isso ruim? Na verdade, acho a ideia legal e bastante pertinente. Se uma empresa que tem participação direta na Fórmula 1 faz questão de apoiar um piloto desde a categoria mais baixa até a GP2 ou a World Series, soa quase como um despropósito não ajuda-lo a subir para a categoria principal. Quantos pilotos não foram simplesmente desperdiçados porque as empresas que os apoiavam simplesmente não conseguiram cumprir o objetivo maior, o de colocá-los na Fórmula 1? Um piloto que quase serviu como exemplo é Lucas di Grassi, que recebeu apoio direto da Renault entre 2003 e 2009, mas que quase ficou de fora da Fórmula 1 devido à falta de planos da montadora sobre seu futuro e acabou tendo de competir pela Virgin.

O problema não é a ideia, mas sim a execução. E a da Toro Rosso é um desastre, que serve mais para destruir carreiras promissoras do que pra qualquer outra coisa.

Ontem, Franz Tost, o austríaco que comanda a equipe, fez um balanço sobre a temporada 2010. Foi bastante elogioso com o espanhol Jaime Alguersuari, que “está indo pelo caminho certo”, mas não demonstrou a mesma satisfação com o suíço Sebastien Buemi, que, segundo ele, teria tido um bom desempenho no início do ano mas que teria lutado pouco na parte final. No campeonato, Buemi marcou oito pontos e Alguersuari marcou cinco. Qual é a conclusão que dá pra tirar a partir de tudo isso? Absolutamente nenhuma.

Scott Speed, a primeira vítima

A verdade é que nem Buemi e nem Alguersuari podem ser verdadeiramente analisados em um carro tão precário como o STR5 e em uma equipe tão desorganizada e, acima de tudo, pouco motivadora. O suíço, aliás, é a nova vítima de descrença por parte da cúpula. A Toro Rosso possui um desagradável histórico de cobrança de resultados sem a contrapartida de fornecer um equipamento bom e apoio emocional. Em outras palavras, se a corrida é ruim, a culpa é do piloto. E não há discussões.

Com exceção de Sebastian Vettel, a estrela maior da Red Bull nos dias atuais, nenhum piloto da Toro Rosso deu certo. Sua primeira dupla, em 2006, foi composta pelo italiano Vitantonio Liuzzi e Scott Speed. Os dois, jovens e altamente promissores, eram vistos como potenciais candidatos a vagas na equipe principal da Red Bull. Naquele primeiro ano, a Toro Rosso correria com o carro utilizado pela Red Bull no ano anterior e com motores Cosworth V10, sendo a única equipe que conseguiu autorização pra competir com propulsores de dez cilindros. Além do mais, o staff foi renovado e boa parte dos funcionários da Minardi foi simplesmente enxotada. A tal filial poderia conseguir o sucesso que a simpática equipe italiana nunca conseguiu fazer em seus 20 anos de existência.

Mas não conseguiu. O carro era fraco e só andava na frente dos da MF1 e da Super Aguri, o que não passava de obrigação. Mas o problema maior não era esse. Nem Franz Tost e nem Gerhard Berger, que fazia parte da administração da equipe na época, faziam a menor questão de apoiar Liuzzi ou Speed, preferindo a comodidade de culpá-los pelos maus resultados. No final daquele ano, a equipe declarou abertamente que estava procurando astros para correr em pelo menos um dos carros. Juan Pablo Montoya, Mika Hakkinen e Sebastien Bourdais foram procurados, mas nenhum deles aceitou. Resignado, Tost aceitou renovar com Liuzzi, mas adiou ao máximo a renovação com Speed, crente de que iria encontrar alguém melhor que o americano. O que, na minúscula cabeça do dirigente austríaco, não era difícil.

Em 2007, a equipe manteve a dupla, mas tanto Tost como Berger não se furtavam em fazer críticas e cobranças públicas aos dois pilotos. O carro continuava uma bosta, os resultados continuavam não vindo e a culpa continuava sendo dos pilotos. O estopim do péssimo relacionamento entre os pilotos e a cúpula se deu em Nürburgring. Chovia canivetes e tanto Scott Speed como Vitantonio Liuzzi rodopiaram logo nas primeiras voltas. Ao voltar para os pits, Speed foi abordado por Franz Tost, que lhe encheu a cabeça de reclamações e broncas, culpando-o pelo abandono. Ainda aborrecido pelo abandono prematuro, o americano lhe deu as costas. E Franz Tost lhe deu um soco nas costas. A partir daí, os mecânicos tiveram de intervir para evitar um arranca-rabo entre os dois. E Speed foi demitido dias depois.

Sebastien Bourdais, demitido via SMS

No seu lugar, entrou Sebastian Vettel. Vitantonio Liuzzi permaneceu na equipe até o fim do ano, mas sem apoio nenhum de sua equipe, que babava pela possibilidade de ter Sebastien Bourdais em 2008. Vettel conseguiu boas atuações nas corridas molhadas de Shanghai e Fuji e agradou muito à exigente cúpula tororossiana (?). Para 2008, os dois tiões competiriam no carro utilizado pela Red Bull no ano anterior.

Na primeira metade do campeonato, Bourdais deixou uma impressão melhor. Vettel abandonou as quatro primeiras corridas, três delas devido a acidentes, e só marcou pontos a partir da sexta etapa. Com o passar do ano e a melhora do carro, Vettel começou a entregar resultados muito bons e chegou a vencer, de maneira inacreditável, o GP da Itália. Naquela altura, a Red Bull já havia confirmado seu nome como o companheiro de Mark Webber para 2009. Enquanto isso, Bourdais apanhava da sua falta de sorte. Ele, de fato, não acompanhou Vettel no final do campeonato, mas a diferença entre eles foi muito menor do que a pontuação demonstrou. Se considerarmos a quebra em Melbourne, o azar da chuva ter chegado nas últimas voltas em Spa, a quebra antes da largada de Monza e a desclassificação em Fuji, o francês deve ter perdido, por baixo, uns 10 pontos. Mas a Toro Rosso simplesmente fechou os olhos quanto a isso. Para ela, a culpa era unicamente do nerd de Le Mans.

Sebastien Buemi foi confirmado como o substituto de Vettel para 2009. A Toro Rosso adiou ao máximo a decisão sobre quem seria o outro piloto. Ela tentou trazer, sem sucesso, Bruno Senna, Takuma Sato e até mesmo Rubens Barrichello. No fim, acabou ficando com Bourdais mesmo. E o francês acabou perdendo boa parte da pré-temporada. Enquanto isso, Buemi havia feito quase todos os testes com a equipe e estava muito mais aclimatado ao STR4. É uma explicação razoável para a derrota sistemática do francês em 2009.

Bourdais e Buemi fizeram nove corridas juntos. Muitos, inclusive eu, esperavam que, dessa vez, o francês sobraria na frente do seu companheiro, mas não foi o que aconteceu. Buemi fez 7 x 2 em Bourdais nos treinos. Nos pontos, o suíço marcou um a mais que o francês enquanto correram juntos. Enquanto Tost babava com seu pupilo helvético, Bourdais se mostrava absolutamente desanimado com o carro e com o ambiente de sua equipe. Humilde, reconheceu que não estava conseguindo se adaptar ao STR4. Para piorar as coisas, Franz Tost declarou que o Sebastien de óculos era “muito negativo”. É a política motivacional da Toro Rosso.

Sebastien Buemi, o próximo?

O caso é que Bourdais seria demitido mais cedo ou mais tarde. Em Hockenheim, o clima de despedida era grande. Dias depois, em um ato de grandeza único por parte da equipe, o francês foi informado acerca de sua demissão por um estúpido SMS! Consideração nenhuma. Em seu lugar, o espanhol Jaime Alguersuari.

E agora, Buemi é quem está sistematicamente ameaçado. A turma da Red Bull adorou o desempenho do australiano Daniel Ricciardo nos treinos de novatos em Abu Dhabi e há quem o queira na Toro Rosso em 2011. Como Jaime Alguersuari é o novo queridinho da equipe, o suíço é quem sobraria. Há um contrato dele com a equipe em 2011, mas em se tratando de Toro Rosso, um contrato pode valer tanto quanto um papel higiênico usado.

É por isso que rechaço a Toro Rosso, uma equipe pequena com arrogância de grande, que acha que é dever dos pilotos andar bem com seus “esplêndidos” bólidos. Além de não ter ambições maiores do que ser uma mera filial da Red Bull, ela, ao invés de ajudar os talentos da empresa, acaba destruindo suas carreiras. Com exceção de Vettel, nenhum de seus pilotos deu certo. E até que se possa provar o contrário, nenhum deles passou vergonha, muito pelo contrário. Resumindo: é só um pessoal ordinário que nunca vai conseguir deixar a mediocridade mas que vai manter o nariz empinado sempre.

Pra terminar, uma frase muito curiosa de Helmut Marko, que parece ter perdido a visão de vez nos últimos anos: “Nós puxamos [Enrique] Bernoldi, [Christian] Klien, [Vitantonio] Liuzzi e [Scott] Speed sem sucesso”. Para os espirituosos líderes ligados à Red Bull, são todos incompetentes. Os únicos gênios são os próprios líderes. E Vettel. Espero que Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne fujam desse verdadeiro touro ruço.