Para meu enorme sentimento de vergonha, antes deste último fim de semana, nunca tinha ido a um grande evento de automobilismo na minha vida. Já vi uma ou outra corrida de kart aqui em Campinas e até dei uma de piloto em duas ocasiões, mas nunca tive oportunidade, dinheiro ou simplesmente saco para ir a outra cidade ver alguma coisa relevante. Mas quem mantém um blog sobre corridas deve frequentá-las, simples assim. Por isso que decidi comprar duas entradas para a São Paulo Indy 300 deste último fim de semana. Uma para mim e outra para minha namorada. Dois amigos acompanharam. Setor J.

Não, não vou contar todos os detalhes, assim como fiz sobre minha viagem a Monte Verde. Também não vou analisar a corrida, pois acho chato demais escrever análises e resumos sobre algo que é muito mais legal assistir com os olhos que a terra hão de apodrecer. Simplesmente farei alguns comentários sobre o que foi este evento realizado no Sambódromo do Anhembi na visão turva de um marinheiro de primeira viagem.

SETOR J: Enquanto pesquisava sobre todos os setores existentes no autódromo, pensava apenas em cifrões e dólares. Como nasci quebrado e não evoluí muito com o passar do tempo, não estava disposto a torrar muitos reais apenas para ver uns vultos coloridos passarem diante dos olhos. Achava que o que mais valeria a pena seria o ambiente festivo e principalmente o contato com os carros, os engenheiros, os pilotos e todos aqueles diretamente envolvidos com a Indy. Pensava que o pavilhão de exposições do Anhembi seria um lugar meio anárquico, onde todos andavam livremente entre rebimbocas e parafusetas. Por isso, a corrida se tornaria um propósito menor. Alerto para quem quiser ir à Indy pensando assim: você está sendo ingênuo pra caramba.

As impressões no pavilhão ficam pra depois. Falo apenas do Setor J. Se você possui escorpiões no bolso e pretende economizar, mate os escorpiões e prefira gastar um pouco mais. Nossa arquibancada era uma das mais baratas, mas você precisava se desdobrar para conseguir ter uma boa visão. Dependendo do lugar, a chance de você só conseguir enxergar manchas velozes durante milissegundos na reta do Sambódromo é altíssima. Mesmo assim, se quiser ignorar meus conselhos e comprar um tíquete para a J, o negócio é ficar nos degraus mais altos ou nas partes mais próximas do S do Samba (pior nome de curva que eu já vi), onde era possível acompanhar a freada dos carros. Caso contrário, você não conseguirá acompanhar muita coisa.

Eu tentei ficar o mais próximo possível do S do Samba, praticamente colado à cerca da arquibancada. Era um lugar bastante concorrido, ainda mais para as largadas e relargadas. Deu para ver, por exemplo, a rodada de Dario Franchitti e o engavetamento das últimas voltas. Além disso, foi possível acompanhar como cada piloto freava, reduzia as marchas e atacava a zebra. Sabe de uma coisa? Will Power e Dario Franchitti não são os dois melhores pilotos atuais da Indy por acaso.

RONCO DO MOTOR: Minha audição não é das melhores. Nunca foi. Há histórico de surdez na minha família. Portanto, qualquer opinião minha sobre as diferenças entre Chevrolet, Honda e Lotus não vale muita coisa. Para dizer a verdade, tentei identificar cada uma das marcas apenas pelo som e não consegui. O motor Lotus fazia um ruído um pouco mais grave e sofrido, mas nada que destoasse demais. Na prática, é tudo muito barulhento.

TOP SERIES: Logo após a qualificação da São Paulo Indy 300, houve a primeira etapa deste campeonato de endurance que surgiu a partir do racha da antiga GT3. Durante duas horas, Ferraris, Porsches, Ginettas, Lotus, Mercedes e protótipos abertos desfilaram no Sambódromo do Anhembi com alguns pilotos consagrados e muitos velhos ricos ao volante. Como era de se esperar, ninguém – e isso me inclui – teve saco para ficar vendo um punhado de grã-finos se divertindo. Mas uma coisa deve ser notada: o barulho dos carros era até maior que os da Indy. Tudo bem, algumas diligências pareciam estar equipados com motores de Brasília e um alto-falante no escapamento, mas eu gostei bastante.

TROCA DE MARCHA: GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRAHAM RAHAL. Quem estava na reta do Sambódromo sabe do que estou falando.

ESTILOS DE PILOTAGEM: As diferenças entre um e outro piloto não são tão gritantes assim. Para quem já disputou centenas de corridas, não é tão difícil assim reduzir marchas, frear, esterçar, aumentar as marchas e acelerar. Mas se você tiver um olho clínico (coisa que eu, ex-míope, não tenho), poderá perceber algumas particularidades. Se tivesse de destacar um nome que me chamou mais a atenção, este seria o de Mike Conway, da AJ Foyt Racing. O inglês era um que freava bem mais tarde que os demais, fritando pneus em algumas ocasiões e pulando sobre a zebra do S do Samba sem dó. Era um estilo pilotagem bacana de se ver, ainda que não muito eficiente.

Não sei qual macumba Will Power e Dario Franchitti fizeram para serem mais rápidos no S do Samba, mas ela deu certo. Os dois freavam tarde, entravam na curva com o carro sob controle, não perdiam tempo e seguiam em frente numa boa. Não erravam e nem passavam com tudo sobre a zebra. Um estilo de pilotagem elegante sem ser demasiado conservador. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito sobre Scott Dixon, um dos pilotos para quem mas torço na Indy. Dixon costumava frear com uma incômoda antecedência, sempre entrando na curva com alguém colado em sua traseira. Pode estar aí a explicação para tamanha diferença de resultados dentro da Chip Ganassi Racing.

Quem mais deu dó foi a coitadinha da Katherine Legge, que estava pilotando no Anhembi pela primeira vez na vida. Pilotando um carro ruim, ela raramente fazia o S do Samba da mesma maneira em duas voltas seguidas. Às vezes, fritava pneus e saía da pista. Outros que judiaram dos pneus e passearam fora com alguma frequência no fim de semana foram os dois britânicos da Dale Coyne Racing, Justin Wilson e James Jakes. Seria bom se a equipe aprendesse a regular os freios de seus monopostos.

DRENAGEM: Cá entre nós, os cinco milhões de reais que o Gilberto Kassab diz ter gastado para aperfeiçoar o sistema de drenagem do circuito foram na verdade utilizados para contratar um pai-de-santo que afastasse a chuva. Se foi isso mesmo, a decisão se provou correta: apenas algumas gotículas caíram durante as duas horas de corrida. Mas a chuva que caiu durante a madrugada de sábado para domingo simplesmente encharcou as arquibancadas. A passagem do setor J ficou um pouco alagada e alguns espectadores até se dispuseram a tirar um pouco da água com seus copos vazios de cerveja. Que tal o Kassabão reservar mais uns dois, dez ou duzentos milhões de reais para evitar que a egrégia família que paga caro pelo ingresso não tenha de atravessar um verdadeiro lago para encontrar um espaço na arquibancada?

PREÇOS: Sim, tudo era caro pra cacete no autódromo. Uma garrafa de água de 300ml custava quatro reais. Um copo de cerveja Itaipava comia horrendos seis reais de sua carteira. Um cachorro-quente custava dez. Um espetinho de carne era ligeiramente mais barato, tabelado em quatro reais – mas não espere ter encontrado mais do que uns cinco nacos de matéria bovina no palito. Se você quisesse comprar uma lembrança, as cifras alcançavam proporções geométricas. Uma jaqueta da Williams (Williams?) alcançava facilmente os 700 reais. A recomendação: tente não comprar absolutamente nada por lá.

ESTACIONAMENTO: Você poderia até aceitar pagar cem reais para deixar seu belo carro num dos estacionamentos próximos ao Anhembi, mas saiba que esta não é a decisão mais inteligente. Havia alguns oportunistas que cobravam um preço mais baixo apenas para você largar o carro em uma calçada – solução que acabei tendo de aceitar. O ideal era pegar um daqueles trocentos ônibus que a Prefeitura deixou de utilizar nos bairros pobres para alocá-los especialmente para a corrida. Por dez reais (não morra de susto), você poderia sair de qualquer ponto central de São Paulo e seguir até o autódromo tranquilamente. Com direito a ar-condicionado e ônibus vazio (obviamente, isso não valeu logo após o fim da corrida). Quem vinha de fora poderia até acreditar que o sistema de transporte coletivo paulistano era realmente um primor. Por fim, você poderia pegar um metrô até a estação da Barra Funda, mas aí seria necessário completar o caminho com uma longa caminhada.

OTÁVIO MESQUITA: Durante a corrida, ele apareceu lá embaixo, ao lado da arquibancada A. Todo mundo – eu estava no meio, é claro – começou a cantar “Otávio viado!”. O cara é sensacional. Olhou para todos, deu risada, levantou os braços e fez sinal de que estava de mal. O coro foi substituído por aplausos. Gente que leva as brincadeiras na esportiva é outra coisa.

HINOS: Luiza Possi cantou o americano. Oh, say, can you see by the dawn’s early light? Tudo bem, é tradição da Indy, faz todo o sentido nos Estados Unidos da América, mas a maioria das pessoas permaneceu com cara de paisagem enquanto a filha de Zizi Possi entoava a canção com notável competência. Quando acabou, alguns aplausos isolados e só. O hino brasileiro foi regido pelo maestro João Carlos Martins. Achava eu que, neste caso, as pessoas prestariam atenção, cantariam junto, ergueriam a bandeira brasileira, sei lá. Nada disso aconteceu. Ninguém deu bola, como costuma acontecer nos outros eventos por aqui. Por que o brasileiro que não canta o hino nacional é o mesmo que enche o saco quando uma pessoa diz não torcer pelo Brasil?

AVIÕES: “E agora uma surpresa para todos os que estão acompanhando a corrida. Olhem para a reta do Sambódromo!”, anunciou o locutor. Todos olharam. Dois caças da FAB deram rasante sobre o autódromo, deixando todo mundo doidão. Pouco depois, eles retornaram e passaram com tudo novamente. O sentimento geral era um misto de admiração e galhofa, típico do brasileiro. Em seguida, um pombo sobrevoou as arquibancadas A e J. O povo, que não perde a piada, também gritou e reverenciou a cada vez que a pobre ave voava sobre nossas cabeças. Foram poucas as vezes que eu ri tanto.

FAUNA: Num evento como a São Paulo Indy 300, você encontra tudo quanto é tipo de gente. Se você é elitista e não gosta de se misturar com a ralé, pode ficar aliviado: o nível dos espectadores é bem maior do que o de um Corinthians x Ponte Preta. Tiozões brancos de classe média compõem a esmagadora maioria, mas mulheres e crianças não são incomuns. Praticamente não vi estrangeiros: apenas um ou outro peruano e um branquelo que estava na arquibancada enrolado com a bandeira da Alemanha. Só não vá pensando que você irá encontrar um monte de aficionados por Fórmula Indy ou algo do tipo. A maior parte dos espectadores vê corridas apenas de vez em quando, ou nem isso: frequenta este tipo de evento deste tipo somente por ser internacional e propagandeado por alguma emissora de TV. Quase todo mundo conhecia Rubens Barrichello, Tony Kanaan ou Bia Figueiredo, a maior parte sabia quem eram Will Power e Dario Franchitti e praticamente ninguém conhecia o resto. Mas e daí? Você vai lá para ver a corrida e não para procurar fãs solitários de James Hinchcliffe.

LEITORES: Puxa vida, não é que encontrei por lá gente do bem que me lê ou ao menos diz que me lê ocasionalmente? Desnecessário falar da Bets, que é uma das poucas pessoas da Unicamp que não merecem a guilhotina. Junto dela, estava o Marco Antônio, o filho da mãe que conseguiu entrar no pavilhão sem credencial e que tem como seu messias Sir Frank Williams. E como não poderia deixar de mencionar o Álvaro e a Débora, que até apareceram numa reportagem do Sportv? Pura simpatia, os dois. Esbarramos no saguão do hotel Formule 1 e ficamos conversando alguns bons minutos, deixando minha namorada e meus amigos morrendo de raiva pela demora.

ARROZ DE FESTA: Eu esperava encontrar uma enxurrada de famosos, mas não foi bem assim. Otávio Mesquita à parte, vi poucas pessoas e nenhuma delas foi tão relevante assim para minha vida. Felipe Andreoli, repórter do CQC, passou perto de mim acompanhado por uma verdadeira comitiva de funcionários da Bandeirantes. Luciano Burti também apareceu, tirou foto comigo e deu autógrafo. Raul Boesel, idem. No meio de uma multidão, fui o único que reconheceu o Celso Miranda, narrador da TV Bandeirantes – ele retribuiu com um sinal de positivo.

PILOTOS: Ah, a parte mais interessante. Comento sobre os pilotos com quem tive algum contato:

ARIE LUYENDYK: Não sou modesto. Era o único cara naquele pavilhão que conseguia reconhecer pilotos antigos e obscuros, puta orgulho de bosta. O Holandês Voador passou na minha frente, com as mãos no bolso e semblante humilde. Gritei “Arie!” e pedi uma foto. Ele ficou surpreso: caramba, um moleque brasileiro sabe quem eu sou! Um detalhe me deixou surpreso: sua pele é bem mais morena que a minha. Devem ser os bons anos de praia e curtição na Flórida.

Tá vendo minha cara estranha aí? Um certo desconforto, medo de estar tomando o valioso tempo do supremo tetracampeão das galáxias

SÉBASTIEN BOURDAIS: Sabe aquela cara de nerd azedo que ele tem nas fotos? Pois ele é exatamente daquele jeito, um nerd azedo. A única coisa que chama a atenção é o gogó, quase um tumor que ocupa metade da garganta. Um senhor que estava do meu lado perguntou quantos anos o francês tinha. Quando respondi que Sébastien tinha por volta de trinta anos de idade, o senhor se assustou e disse que ele parecia ter uns quinze, de tão magrela e frágil que era sua aparência. A simpatia é aquela típica dos franceses, inexistente. Bourdais tirou fotos com todos, mas mal se aproximou dos fãs, manteve-se quieto e nunca tirou da cara aquele assustador e dúbio sorriso de Monalisa. Exigir simpatia em excesso é coisa de bobo, mas o cara é chato pra cacete.

DAVEY HAMILTON: Era um anônimo no Anhembi. Mesmo andando de macacão, ninguém se interessava pelo tiozão com cara de piloto da NASCAR. Mas eu o reconheci. Gritei “Davey!” e solicitei uma foto. Gente boa, deve ter ficado feliz por ter sido lembrado em plena selva amazônica e tirou a foto. Um playboy otário se aproximou e também tirou uma foto com ele. Depois, perguntou a mim quem era o ilustre com quem havia acabado de tirar uma foto. Quando respondi, o playboy desdenhou e comentou que “nunca tinha ouvido falar, mano”.  Pô, se nunca tinha ouvido falar, para que tirar a porra da foto e ainda fazer cara de desprezo? Um idiota, mesmo.

RUBENS BARRICHELLO: Impossível pensar em tirar foto com ele. Havia umas 100 milhões de pessoas aglomeradas se estapeando por uma mísera assinatura do ex-piloto de Fórmula 1. Nem me arrisquei, pois não queria ser pisoteado e morto.

KATHERINE LEGGE: A lanterninha do grid é a mais simpática das moças. Reconheci meio de longe e pedi uma foto. Uma legião de caras veio atrás, ao saber que ela era uma das três pilotas do grid. Legge não reagiu mal, tirou fotos com todos e manteve o sorriso no rosto. Um dos cidadãos ao meu lado comentou algo como “a minha mulher nunca vai acreditar que essa daí é pilota de corridas”. Depois das fotos, gritei um good luck, Kath. Ela sorriu e fez um sinal de positivo. Mas a minha zica já estava lançada. A inglesa bateu e abandonou cedo.

SIMONA DE SILVESTRO: Esta daqui foi um tremendo golpe de sorte para mim. E um azar danado dela. Estava saindo do pavilhão, resignado por não ter visto muitos pilotos, quando dei de cara com ela, totalmente desarmada. Estava dando autógrafo para uma família, mas com um semblante de pressa. Corri e pedi uma foto. Ela fez uma cara de “merda, quando esta gente vai parar de me encher o saco”, mas aceitou. Tirou a foto e até esboçou um sorriso amarelo. Depois, ainda mandei um “boa sorte” e ela não respondeu, apressada que estava. Deveria ter respondido. Caso contrário, não teria abandonado cedo a São Paulo Indy 300.

JOSEF NEWGARDEN: Esta é, sem dúvida, a melhor história que eu tenho para contar desta São Paulo Indy 300. Estávamos todos na cerca que separava os mortais do pessoal que tinha acesso ao pavilhão. Um bocado de gente esperando pelos pilotos brasileiros ou pelos Franchittis da vida. De repente, surge um moleque que, segundo a minha namorada, tem a cara do Ken, melhor confidente da Barbie. Será que é o Josef Newgarden?

Meio sem muita certeza, gritei “Hey, Josef, come here!”. Ele sorriu e veio correndo. Perguntei a ele se eu tinha sido o único que o reconheceu aqui?”. O cara deu risada e respondeu algo como “foi, sim. Eu estava andando ao lado do Dario Franchitti agora pouco e o pessoal só gritava FRANCHITTI, FRANCHITTI. Você foi o primeiro que me reconheceu aqui no Brasil”. Tirou uma foto e foi gente boa pra caramba. Outras pessoas se aproximaram e perceberam que o Ken ali era um dos astros da Indy. Newgarden aproveitou e tirou fotos com todas elas, feliz pelo fato de ter sido notado como piloto.

Em Long Beach, o pessoal da Indy o havia colocado para fingir que era um repórter qualquer. Josef perambulava pelas arquibancadas perguntando às pessoas “o que você acha daquele tal de Newgarden que fez o segundo tempo no treino classificatório?”. Sem reconhecê-lo, os espectadores diziam que acharam o resultado ótimo e o garoto muito bom, mas que nunca o tinham visto antes. Aí Josef se apresentava: “prazer, eu sou Josef Newgarden”. Bem-humorado, o campeão da Indy Lights no ano passado sabia que era provavelmente o menos conhecido entre todos os inscritos. Por isso, a real felicidade quando eu gritei seu nome.

PARÊNTESES: Somos todos idiotas. Os pilotos são figuras ariscas. Fogem dos fãs, não gostam de tirar fotos e não se preocupam em parecer simpáticos. É um pouco chato, pois são os otários que correm atrás de seus autógrafos que, na teoria, pagam seus salários e justificam suas longas e bem-sucedidas carreiras no automobilismo. Além do mais, realmente não consigo ver sentido em ser deliberadamente antipático. Um sorriso, um cumprimento ou um tapinha nas costas podem representar a diferença entre um novo torcedor e um eterno detrator. Felipe Massa e Ayrton Senna que o digam.

Por outro lado, os fãs e os espectadores são inconvenientes pra caramba. Sou obrigado a me incluir aí no meio. Quando Dario Franchitti passou por perto, gritei algo como “ei, Dario, deixa o Will Power ganhar um título”. Uma gracinha minha que, sinceramente, não tinha nada a ver. Todos exigimos do piloto que ele seja bom e ainda cumprimente, ature nossas bobagens e sorria como se fosse um candidato a presidente. Se ele não satisfaz nossas expectativas, torna-se um idiota, um filho da puta arrogante. Vi uma menina gritando “Bia, sua nojenta” só porque a pilota brasileira não sorriu e não tirou 314 fotos com toda a pátria. Patético. Por mais que não aceitemos, celebridades também têm o direito de não querer dar um autógrafo ou exibir um sorriso amarelo para agradar a meia dúzia de manés. Somos todos idiotas.

Mas que o Bourdais é um nerd azedo, isso ele é.

Você, que deu o azar de nascer na década de 90, não deve reconhecer o título. Antigamente, quando o Casseta & Planeta, Urgente! tinha algum resquício de graça, Claudio Manoel e Bussunda interpretavam dois pitboys que só se preocupavam em exercitar os músculos e encher precários bonecos de pano de porrada. Maçaranduba, o personagem de Claudio Manoel, era o mais famoso. O bordão era simples e forte: eu vou dar é porrada!

Eu não via o programa, mas conhecia este quadro. Alguns anos depois, um piloto de Fórmula 1 até então conhecido pela calmaria e pela elegância protagonizou um episódio que faria Montanha e Maçaranduba aplaudirem de pé. O alemão Adrian Sutil, que se orgulha de tocar piano, andar de bicicleta e falar baixo, foi o personagem central do barraco de 2011. Horas após o fim do GP da China, o pessoal da equipe Renault decidiu promover uma festinha na sala VIP de uma discoteca em Shanghai. Todo mundo estava lá. Tudo corria bem, com direito a todo o álcool e putaria que pilotos, mecânicos e diretores consomem a granel, quando…

Acompanhados por um guarda-costas, os amigos Adrian Sutil e Lewis Hamilton, que já estavam na boate, decidem entrar na festinha privê. Mas eles não estão na lista de convidados. Mesmo assim, continuam tentando entrar e acabam arranjando confusão com o pessoal que controlava as entradas. Eric Lux, diretor executivo do grupo GENII e um dos idealizadores da festa, apareceu e confirmou que não havia espaço para eles. Revoltado e já chapado, Sutil pegou um copo e jogou em Lux. O vidro do copo acabou cortando o pescoço do diretor, que ficou empapado em sangue. Enquanto Sutil e Hamilton caíam fora, Eric Lux seguiu ao hospital, onde lhe foi feito uma costura de vinte pontos no corte.

Deu merda, é claro. Eric Lux decidiu processar Adrian Sutil para exigir uma indenização de nada menos que dez milhões de euros, dinheiro que nenhum de nós nunca terá. Tudo isso aconteceu em maio do ano passado. Ontem, foi iniciado o julgamento do caso em Munique. Se condenado, Adrian Sutil poderá pegar até um ano de cadeia. Se isso acontecer, não vai haver Williams, HRT ou sequer um emprego na Filarmônica de Anapolina.

Na semana passada, escrevi um Top Cinq sobre casos que envolveram violência à mulher e automobilismo. Hoje, o Aqui Agora segue com sua série de reportagens envolvendo sangue, fúria e impulsividade. Comento sobre cinco brigas envolvendo um piloto e um não-piloto, isto é, um chefe de equipe, um mecânico ou um contínuo. Como tratam-se de brigas que envolvem gente do mundo do automobilismo, casos como o de Bertrand Gachot não serão apresentados. Só um detalhe: às vezes, é o piloto que apanha.

5- MARTY ROTH E MECÂNICO DA LUCZO DRAGON

O empresário Marty Roth era um dos grandes motivos de piada na Indy há alguns anos. O canadense, que fez sua estreia na categoria nas 500 Milhas de Indianápolis de2004 com um carro todo colorido preparado por sua própria equipe, raramente escapava das últimas posições, batia com alguma frequência e atraía a antipatia de todos no paddock. Ainda assim, a presença dele e de sua Roth Racing era conveniente para os dois lados. Marty adorava correr. Além disso, a Indy não estava conseguindo ter mais de 18 carros no grid e mesmo um Roth poderia servir para inflar um pouco o número de participantes.

No fim de 2008, Marty Roth brigou com a organização da Indy e disse que não pretendia mais voltar à categoria. Nesta briga, eu dou total razão a ele. Depois que Tony George conseguiu absorver uma parte dos participantes da ChampCar, a presença de Marty Roth já não se fazia mais necessária. Ou melhor, sua presença como piloto, já que sua equipe era bacana e até vinha crescendo aos poucos.

Então, na maior cara de pau, um dos diretores da Indy, Jim Freudenberg, propôs que Roth participasse apenas de “algumas corridas em ovais” e da etapa de Toronto, sua cidade-natal, na temporada seguinte, pois os organizadores consideravam sua presença inútil e perigosa nas outras etapas. Ofendido, e com razão, Marty não deixou barato. “Como pode essa gente vir me falar que eu só posso correr em ‘uns ovais’ e em Toronto? Pois eu digo quais etapas eu vou disputar em 2009: nenhuma”. Puxou o carro e vendeu a equipe.

Por outro lado, Tony George e companhia tinham motivos para tal atitude. Na etapa de Kansas da temporada de 2008, nosso Marty Roth vinha entrando nos pits para um reabastecimento quando cometeu mais um de seus erros. Enquanto esterçava o carro em direção ao seu espaço, ele cravou o pé no freio e o carro escorregou, atingindo a perna de Simon Morley, chefe de mecânicos da equipe Luczo Dragon. Morley, que trocava o pneu dianteiro direito do carro de Tomas Scheckter, teve apenas um joelho machucado. Curiosidade mórbida: Morley era o mecânico responsável pelo reabastecimento do carro do perigoso Jos Verstappen em Hockenheim em 1994! Ele foi o único mecânico envolvido no incêndio que teve de passar uma noite no hospital. Catorze anos depois, Marty Roth veio para cima dele. Ô zica…

Os mecânicos da Luczo Dragon decidiram dar uma força e empurraram o carro de Roth para trás. O problema é que o piloto canadense não foi tão cuidadoso e acelerou antes da hora, passando por cima do pé de outro pobre mecânico. Revoltado com tantas barbaridades, o mecânico se aproximou e enfiou uma bolacha no capacete de Roth, que não sentiu nada e seguiu em frente. Tony George certamente expulsou Marty Roth de seu feudo pensando no enfurecido mecânico preto e amarelo.

4- NICOLAS MINASSIAN E MECÂNICO DA BRAND

Nicolas Minassian não é o exemplo de cara paciente, do tipo que faz ioga, bebe chá de Santo Daime e acha tudo maravilhoso e psicodélico. Fã de Che Guevara, Minassian também adota o estilo guerrilheiro quando é obrigado a lidar com situações adversas. Ele ganhou fama em 1997, quando jogou pedras na cabeça do pobre do Michael Bentwood após um acidente na última volta de uma corrida da Fórmula 3 britânica. Quatro anos depois, ele se envolveu em uma pequena discussão com Christian Fittipaldi após um acidente na CART. Belo retrospecto.

Mas o que pegou mal mesmo a Minassian foi uma confusão que ele arranjou quando fez sua única corrida pela Brand Motorsport na Fórmula 3000 Internacional em 2003. Fundada pelo empresário das comunicações Martin Kendrick, o objetivo da Brand era começar na Fórmula 3000, disputar algumas corridas na ChampCar e terminar na Indy Racing League. Ambicioso, ele contratou o experiente Nicolas Minassian e o promissor Gary Paffett para pilotarem o Lola-Zytek vermelho e branco na categoria de base. Os dois não precisavam levar patrocinador. Na verdade, os dois ganhariam salário, um verdadeiro luxo na Fórmula 3000.

O problema é que Martin Kendrick queria chegar à Lua quando não conseguia sequer andar até a padaria da esquina. Ainda na pré-temporada, a Brand perdeu alguns de seus poucos funcionários originais e Kendrick teve de contratar outros meio que às pressas. O próprio Minassian, vice-campeão da categoria em 2000, não queria fazer uma nova temporada em 2003, mas decidiu correr na semana anterior à primeira rodada pensando nas corridas de ChampCar que faria com a equipe na Europa. O caso é que o crédito não era muito grande, mas a esperança ainda estava lá.

Imola, primeira rodada da temporada 2003 da Fórmula 3000. Segundo relatos, a Brand era tão mais precária que as demais equipes que o próprio Minassian teve de buscar água mineral na Super Nova, sua antiga equipe! Além disso, o francês passou a maior parte do tempo conversando com seus antigos mecânicos, deixando seus novos colegas da Brand de lado. E quando teve de lidar com eles, o resultado não foi bom. Por alguma razão, Nicolas e um mecânico começaram a discutir e o piloto chegou a ameaçá-lo cobrir de porrada. A turma do deixa-disso impediu que um barraco à la programa vespertino do SBT fosse protagonizado.

O clima na Brand estava pesadíssimo e o resultado na corrida não foi grandes coisas. Dias depois, Martin Kendrick demitiu Nicolas Minassian por “comportamento inadequado”. O francês não deu muita bola e arranjou um carro para correr em Le Mans. Mais alguns dias e Kendrick anunciou que sua equipe estaria fechando as portas. Os grandes sonhos da Brand Motorsport duraram apenas um fim de semana. Seu maior feito foi ter servido de palco para uma briga entre Nicolas Minassian e um mecânico.

3- ARIE LUYENDYK E AJ FOYT

Mexer com o mercurial AJ Foyt, que já chegou a destruir um laptop de sua equipe por causa do erro de um mecânico seu durante um pit-stop, não é algo recomendável. O vovô, que é considerado um dos grandes nomes da história do automobilismo, não costuma deixar barato qualquer provocação. Ainda mais quando alguém contesta um trunfo seu.

Em 1997, os pilotos da então americaníssima Indy Racing League debutaram no desafiador e sanguinário oval do Texas. O atual campeão da NASCAR Sprint Cup Tony Stewart liderou a maior parte da prova, mas teve um problema de motor, rodou e bateu faltando apenas duas voltas para o fim. Com isso, quem assumiu a liderança foi Billy Boat, que corria pela AJ Foyt Racing. Sob bandeira amarela, Boat apenas conduziu seu carro à bandeirada de chegada. Festa na equipe do vovô AJ!

Mas espera aí, nem todos estão felizes. Na Victory Lane, aquele espaço onde o piloto executa o ritual de comemorar a vitória com seu carro, sua equipe e alguns jornalistas enxeridos da ABC, surge um holandês amalucado que diz que Billy Boat não ganhou porcaria nenhuma. O vencedor era ele mesmo, o holandês de nome Arie Luyendyk. Pois AJ Foyt não gostou da intromissão. Ele se aproximou e deu um sopapo na parte de trás da cabeça de Luyendyk. Não satisfeito, ainda agarrou a cabeça do holandês e arremessou o coitado no chão. Atordoado, Luyendyk foi reclamar com a organização, que acabou multando Foyt em 20 mil dólares. Mas Arie também acabou tendo de desembolsar 14 mil de multa. Talvez por ter arregado, o que é um motivo pra lá de justo.

Luyendyk pode ser um doido arregão, mas não estava errado. Um dos sistemas de cronometragem da pista estava com problema e não contabilizou várias voltas de alguns pilotos, incluindo aí as de Arie. Refazendo contas aqui e acolá, os organizadores concluíram que Luyendyk havia sido o vencedor da corrida e tiraram a vitória das mãos de Billy Boat. Foyt não quis saber de devolver o troféu. Ele está lá na coleção do cara até hoje.

2- SCOTT SPEED E FRANZ TOST

Eu sempre falei mal da Toro Rosso, uma equipe que só serviu para revelar o atual bicampeão do mundo, Sebastian Vettel. O que pode parecer um grande favor à humanidade também tem sua faceta bastante negativa, que faz com que o nível de exigências seja elevado a um ponto irreal. Quem não ganhar em Monza e não apontar o dedo para as nuvens não merece nada além da lata de lixo. Sem falar que o convívio com Franz Tost deve ser um tremendo pesadelo. Não é, Scott?

Scott Speed foi mais um daqueles muitos pilotos que entraram de corpo e alma no programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull. Embora seu título na Fórmula Renault europeia e sua excelente participação na GP2 sejam bons predicados, o forte de Speed era o marketing. Seu sobrenome é curioso, sua nacionalidade deixava Bernie Ecclestone com tesão, sua aparência é a de um californiano com cabelo de parafina e sua história de superação de uma grave doença no intestino fazem do americano um personagem excelente para a Red Bull a longo prazo.

O problema é que os resultados não vieram. Speed até mostrou bom desempenho em algumas corridas em 2006, mas chamou muito mais a atenção pela arrogância e pela antipatia no paddock. Além disso, ele conseguiu criar um clima ruim na própria família da Red Bull: em Melbourne, irritado por ter sido desclassificado, Speed xingou um bocado seu “companheiro” David Coulthard, que corria na Red Bull Racing. Segundo ele, Coulthard reduziu a velocidade durante uma bandeira amarela e Scott acidentalmente o ultrapassou. Aham.

Em 2007, as coisas não melhoraram e a equipe já estava de saco cheio do americano. Em Nürburgring, chovia cachoeiras nas primeiras voltas e Speed foi um dos milhões de pilotos que escaparam na curva 1, ficando travado lá na caixa de brita. Ao voltar para os pits da Toro Rosso, ele deu de cara com um Franz Tost irritadíssimo. O chefe começou a reclamar pela saída de pista. Igualmente incomodado, Speed lhe deu as costas. A coisa desandou a partir daí.

Tost seguiu Scott e lhe deu um murro nas costas. Os mecânicos se entreolharam e perceberam que um barraco dos bons estava prestes a começar. Speed seguiu em frente, mas Tost ainda não estava satisfeito e ainda empurrou o piloto contra a parede. Naquele momento, o americano ficou furioso, mas não reagiu. Detalhe: este relato foi feito pelo próprio Scott. Tost desmentiu dizendo que o negócio não foi bem assim. Enfim, nunca saberemos a verdade. O que sabemos é que Scott Speed nunca mais foi visto em um paddock da Fórmula 1.

1- PAUL TRACY E BARRY GREEN

Paul Tracy é um caso de circo, de polícia ou de sanatório. Ele tem mais de vinte anos de carreira só na Indy, ganhou um título na ChampCar em 2003 e já fez muita, mas muita besteira mesmo. Em termos de brigas, Paul já chegou a aparecer na segunda posição de um outro Top Cinq aqui, que falava sobre os quebra-paus entre dois pilotos. Pois não são apenas Sébastien Bourdais e Alex Tagliani que sentiram a fúria gordurosa de Tracy. Sobrou até mesmo para seu chefe de equipe no fim dos anos 90.

Barry Green foi o cara que salvou a carreira de Tracy em 1998. Até então, Paul vinha vivendo um casamento repleto de altos e baixos, com larga predominância destes últimos. Ao mesmo tempo, Green e sua equipe planejavam voltar à disputa das primeiras posições: em 1997, ela viveu seu pior momento tendo o multifuncional Parker Johnstone como seu único piloto. Agora, Tracy e o promissor Dario Franchitti formariam a dupla verde. 1998 tinha tudo para ser um ano de sonho para o Team Kool Green.

Mas não foi. Paul Tracy estava ainda mais alucinado e aloprado do que o normal. Em Detroit, bateu em Christian Fittipaldi e foi colocado sob observação por Wally Dallenbach, diretor de corridas da CART. Em Portland, tomou multa de 20 mil dólares e ficou de fora de um dos treinos oficiais por ter batido em Michel Jourdain Jr. Em Cleveland, tirou Al Unser Jr. da pista nos pits. Em Vancouver, bateu em Tony Kanaan e foi desclassificado. Em Surfers Paradise, fechou Michael Andretti em plena reta, causou um acidente entre os dois e foi suspenso por uma corrida, punição paga apenas na primeira corrida do ano seguinte.

Mas o episódio mais lamentável foi sua briga com o patrão Barry Green na etapa de Houston. Naquela corrida, a Green vinha obtendo uma notável dobradinha, com Dario Franchitti em primeiro e Paul Tracy em segundo. Bastava apenas trazer o carro para a casa que o champanhe já seria espocado. Mas Tracy não pensava desta forma e tentou uma ultrapassagem estúpida em um lugar impossível. Os dois bateram, é claro. Franchitti, sempre sortudo, conseguiu seguir em frente, o mesmo não acontecendo com o canadense.

Ao voltar para os pits, Paul viu Barry Green fazendo um sinal indicando que o piloto havia sido uma besta. Revoltado, Tracy empurrou seu patrão e o clima quase esquentou. A briga não foi levada adiante, mas o canadense levou uma multa de cinco mil dólares por “mau comportamento e falta de esportividade”. Pelo menos, Tracy não foi demitido: ele permaneceu na Green até 2002. Em 2010, Paul e Barry trabalharam juntos nas 500 Milhas de Indianápolis. Porque um bom casamento sobrevive até mesmo a Paul Tracy.

Para mim, a maior atração do Grande Prêmio do Japão da MotoGP não será o atual líder Casey Stoner ou o incansável campeão Valentino Rossi, mas sim a presença silenciosa de um tiozão japa de 44 anos em uma Honda preparada pela HRT que não é aquela que conhecemos. O experiente Shinichi Itoh, um dos pilotos de testes da montadora japonesa, foi convidado por ela para disputar a corrida de Motegi da principal categoria da motovelocidade.

Quando falo em experiência, não me refiro somente à idade. Itoh faz parte do paddock do Mundial de Motovelocidade desde, pasmem, o início de 1988. Naquela época, o jovem de 21 anos tentou se classificar para a corrida de 500cc disputada em Suzuka, mas não conseguiu. Para se ter uma ideia do tempo que ficou para trás, o pódio daquela corrida foi formado por Kevin Schwantz, Wayne Gardner e Eddie Lawson. Nem Alexandre Barros, que barrichellou nas motos, rondou a categoria por tanto tempo. Posteriormente, Itoh participou de algumas temporadas completas nas 500cc e até obteve alguns pódios, mas nunca foi reputado como um gênio. Sua última temporada completa foi em 1996. A participação de Shinichi na corrida de Motegi é tão insólita quanto se, por exemplo, o Martin Brundle decidisse disputar a próxima corrida de Fórmula 1, em Suzuka.

Shinichi Itoh, o Pedro de la Rosa nipônico, disputou algumas corridas isoladas entre 1999 e 2007. Neste ano, foi contratado pela Honda para testar as motos de 990cc da MotoGP. A proposta de disputar esta corrida de Motegi surpreendeu o próprio Itoh, que nem imaginava poder voltar a uma corrida depois de tanto tempo. Vale notar que, ao contrário da melindrosa Fórmula 1, dá para uma equipe se inscrever do nada e participar de uma ou outra corrida. Além de Itoh, seu conterrâneo Kousuke Akiyoshi também disputa esta corrida como um convidado.

É bacana ver alguém como Itoh disputando corridas, mesmo que esporadicamente. Vários outros pilotos antigos ainda mantêm acesa a paixão pela velocidade. O Top Cinq de hoje conta a história de cinco sujeitos muito experientes que ainda competem de vez em quando, embora não estejam disputando nenhum campeonato completo. Alguns aí já passaram a casa dos cinquenta anos, outros estão bem próximos de chegar lá. Em comum, todos disputaram ao menos uma corrida em 2011. O importante aí é não ficar em casa cuidando do jardim.

5- DAVEY HAMILTON

Quando falamos em Hamilton, você pensa imediatamente no namorado da Nicole Scherzinger, certo? Alguns mais fanáticos, contudo, hão de se lembrar da existência de um segundo Hamilton, loiro e infinitamente menos badalado. Este que vos apresento é Davey Hamilton, americano de 49 anos que ainda disputa algumas corridas da Indy. Na considerável lista de inscritos das 500 Milhas de Indianápolis deste ano, Davey era o piloto mais velho. Até mesmo John Andretti, aquele que venceu a primeira corrida de carros em Surfers Paradise há vinte anos, ficou para trás nesse quesito. E a história de Davey Hamilton tem contornos tristes.

Apoiado pelo seu pai, Hamilton iniciou sua carreira nas pistas de terra e ganhou um monte de títulos. Sabe-se lá como, arranjou um Lola-Buick para tentar se classificar para as 500 Milhas de Indianápolis em 1993 e falhou. Dois anos depois, a Hemelgarn Racing lhe emprestou um Reynard-Ford roxo para uma nova tentativa, mas Davey fracassou novamente. Sua carreira nos monopostos só começou a engrenar em 1996, na nova Indy Racing League. Ele obteve alguns pódios e se estabeleceu rapidamente como um dos melhores pilotos do grid, mas a etapa de Texas em 2001 mudou sua carreira para sempre.

Davey Hamilton brigava por uma posição estúpida com Jeret Schroeder no velocíssimo oval texano quando os dois se tocaram e foram parar no muro. O Dallara amarelo e vermelho de Hamilton bateu de traseira de modo que a dianteira ricocheteou e se arrebentou no muro. A pancada arrebentou o bico e abriu um buraco que chegou aos pés do piloto, que estava consciente porém urrando de dor. As duas pernas estavam quebradas e os dois pés estavam esfacelados. A dor corporal era tão grande quanto a dor do fim do casamento: poucas horas antes da corrida, ele e a sua esposa haviam decidido se separar. Que dia, hein?

Hamilton foi levado de helicóptero ao hospital e a situação de seus pés era tão grave que os médicos, a princípio, haviam decidido pela amputação. Logo depois, mudaram de ideia e tentaram reconstruí-los. A decisão se mostrou certeira: após 21 complicadas cirurgias e um ano padecendo em cadeira de rodas, Davey Hamilton conseguiu se recuperar por completo. Ele decidiu não voltar para as pistas e passou a trabalhar como empresário de novos pilotos.

Em 2007, para felicidade de todos, Hamilton decidiu voltar a competir. Disputou as 500 Milhas de Indianápolis daquele ano pela Vision Racing e terminou em um excelente nono lugar. De lá para cá, Davey vem participando de todas as edições da tradicional corrida de Indiana. Neste ano, ele decidiu disputar também a rodada dupla da corrida de Texas, tentando apagar da memória o desastre que aconteceu dez anos antes. O piloto terminou as duas corridas lá atrás, mas só o fato de ter pilotado um carro de corridas após o acidente já pode ser considerado uma vitória. E ele não deve parar tão cedo.

4- ARIE LUYENDYK

Esse daqui era o piloto preferido de muita gente que acompanhava a Indy no fim dos anos 80 e início dos anos 90. Conhecido como “Holandês Voador”, Arie Luyendyk (pronuncia-se Luiendique) foi talvez o primeiro europeu a decidir desistir de uma carreira mais ortodoxa no próprio continente para tentar desbravar as inúmeras oportunidades dos Estados Unidos. O início foi complicado – Arie levou seus mecânicos dos tempos de Fórmula 3 para trabalhar com ele na Fórmula Supervee em 1984. Mas mesmo com as dificuldades iniciais, ele ganhou o campeonato e também uma vaga na Bettenhausen para correr na Indy em 1985. Não demorou muito e aquele magrelo de nome esquisito e cara mais esquisita ainda se transformou em uma das atrações da categoria.

Imaginem vocês que a primeira vitória de Luyendyk na Indy foi justamente a nas 500 Milhas de Indianápolis de 1990. Ninguém apostava muito nele, que pilotava um carro vermelho equipado com motores Chevrolet emprestados por Roger Penske e patrocinado pela Domino’s Pizza, que faz umas pizzas bem nota seis. Ele voltou a vencer a famosa corrida sete anos depois, dessa vez como piloto da Indy Racing League. Mas o que ficou na história foi sua volta a 237,498 milhas por hora no Pole Day da edição de 1996. Ninguém nunca conseguiu percorrer as 2,5 milhas do oval de Indiana tão rapidamente quanto ele.

Luyendyk, cujo sobrenome era pronunciado erroneamente como “Luiendáique” por Luciano do Valle, decidiu se aposentar após sofrer um violento acidente enquanto tentava se qualificar para as 500 Milhas de Indianápolis de 2003. Antes da retirada, ele já vinha disputando apenas algumas corridas por ano. De lá para cá, Arie vem ganhando dinheiro com o ramo imobiliário e com obras de arte. Ele também tentou impulsionar também a carreira do filho Arie Jr., que não era lá essas coisas e que foi preso em 2008 por estar dirigindo com a carteira vencida. Para quem acha que só o Nelsinho deu desgosto ao pai…

Nesse ano, Arie Luyendyk decidiu realizar um de seus grandes sonhos, o de disputar uma corrida em Spa-Francorchamps. O holandês assinou com a equipe americana United Autosports para disputar as míticas 24 Horas de Spa-Francorchamps. Ele pilotou um Audi R8 branco ao lado de três pilotos amadores. O desempenho não foi aquelas coisas na classificação e o carro nº 12 largou em 53º. A corrida foi melhor e “os amigos de Luyendyk” terminaram em 19º. Pelo menos, o bicampeão de Indianápolis conseguiu matar a vontade de andar em Spa.

3- MICHAEL WALTRIP

Nos Estados Unidos, se você fizer alguma menção sobre a família Waltrip, todo mundo vai se lembrar de Darrell Waltrip, tricampeão da NASCAR Cup Series, maior rival de Dale Earnhardt nos anos 80 e comentarista das corridas da categoria no Speed Channel americano. Nos dias mais recentes, no entanto, o nome que mais vem à memória é o de seu irmão mais novo, Michael Waltrip. Mesmo sem nunca ter vencido um título na Cup, Michael é um dos pilotos mais conhecidos dos últimos tempos.

Waltrip estreou na NASCAR Cup Series em 1985, ano no qual seu irmão ganhou o último título na categoria. Nos seus primeiros anos, não dava para dizer que ele repetiria os sucessos de Darrell. Na verdade, ele era visto como um Marco Andretti da NASCAR, como alguém que não tinha muito mais do que um sobrenome bonito. Ele ficou mais famoso por ter sofrido um dos acidentes mais violentos da história da categoria em Bristol no ano de 1990 e por ter dado dois socos de forma até covarde em Lake Speed após um entrevero entre os dois durante uma corrida em 1995.

As coisas começaram a melhorar na década de 2000, mais precisamente na primeira corrida da década. Após 462 corridas heidfeldescas, Michael Waltrip finalmente obteve sua primeira vitória na NASCAR. O lado positivo da notícia é que esta vitória ocorreu na Daytona 500 de 2001, a corrida mais importante da categoria naquela temporada. O lado negativo é que, pouco antes de cruzar a linha de chegada, Dale Earnhardt havia falecido instantaneamente após se envolver em um engavetamento. Além de maior astro da NASCAR, Earnhardt era seu patrão. Dois anos depois, Waltrip repetiu a vitória na famosa corrida. Dessa vez, sem tragédias.

Waltrip venceu mais duas provas e percebeu que nunca conseguiria chegar a lugar algum. Com o passar do tempo, começou a disputar menos corridas e a dar mais atenção à sua própria equipe, a Michael Waltrip Racing. Mesmo assim, Michael faz questão de participar de algumas provas a cada ano. Neste ano, ele apareceu na Nationwide Series e na Camping World Truck Series. De forma incrível, Waltrip ganhou a etapa de Daytona da Camping World Truck Series exatos dez anos após sua primeira vitória na Cup. Além disso, ele decidiu fazer sua primeira incursão na Europa. Assinou com a italiana AF Corse e pilotou uma Ferrari 458 nas 24 Horas de Le Mans. Michael não chegou a terminar a corrida, mas foi uma das grandes atrações da prova. Mesmo não sendo Darrell Waltrip, ele tinha lá sua relevância.

2- STEFAN JOHANSSON

O locutor Galvão Bueno insistia em chama-lo de Ióhansson, com o acento agudo na primeira sílaba. Não sei com quem o Galvão andou aprendendo sueco, mas o fato é que aprendeu errado. Stefan Iohânsson foi um dos pilotos mais subestimados da Fórmula 1 nos últimos trinta anos, e também o último piloto da Suécia a ter feito parte da categoria. Seu grande crime foi nunca ter vencido uma corrida. Não importa se ele fez grandes corridas na Ferrari, quase venceu o Grande Prêmio de San Marino de 1985 e levou um Onyx ao pódio. Não venceu, é ruim. Estamos conversados.

Johansson é dono de carreira bastante longa. Ele iniciou nos monopostos em 1975, quando finalizou o campeonato sueco de Fórmula Ford 1600 na sexta posição. Em 1980, sagrou-se campeão britânico de Fórmula 3 e tentou se classificar para um par de corridas de Fórmula 1 pela decadente Shadow, sem sucesso. Até entrar na Fórmula 1, Stefan se aventurou na Fórmula 2 europeia, na Fórmula 2 japonesa e em vários campeonatos de protótipos. Na categoria maior, fez sua segunda estreia em 1983 pela minúscula Spirit, passou pela Toleman e pela Tyrrell, obteve a melhor chance de sua vida na Ferrari em 1985, migrou para a McLaren em 1987, foi para a Ligier em 1988, enfiou-se na Onyx em 1989 e fez sua última temporada em 1991 pilotando as dragas da Footwork e da AGS. Não ganhou corridas. Merecia.

Mesmo velho e esquecido, Johansson decidiu seguir em frente nos monopostos. Assinou com a Bettenhausen para disputar a Indy a partir de 1992. Naqueles dias, a Bettenhausen não era um mau negócio, já que ela funcionava como uma espécie de equipe júnior da Penske e tinha o polpudo patrocínio da gigante dos alumínios Alumax. Stefan teve boas temporadas e obteve alguns pódios, incluindo aí aquele de sua corrida de estreia, em Detroit no ano de 1992.

Após sair da Indy, Johansson disputou corridas em vários lugares ao redor do mundo, desde a TC2000 na Argentina até a Speedcar no Oriente Médio. Hoje em dia, o ritmo de suas atividades como piloto diminuiu, já ele também trabalha como empresário. No entanto, ele ainda compete quando pode. Neste ano, Stefan pilotou um Audi R8 nas 24 Horas de Spa, um Ford GT na Merdeka (!) Endurance Race disputada na Malásia, e uma Ferrari 458 em um campeonato de turismo na Suécia. Aos 55 anos, ele tem mais disposição do que muito moleque por aí.

1- JAN LAMMERS

Este daqui é o meu caso favorito. Johannes “Jan” Lammers é um dos nomes mais legais que eu já vi. Nome de campeão, mesmo. Porque piloto campeão não pode ter nome muito complicado, do tipo Schumacher, Hawthorn ou Räikkönen. Uma pena que, ao Lammers, só faltou o título. Bem que ele tentou. Jan é um dos pilotos mais longevos em atividade, se não o mais longevo. Logo, logo, sua carreira completa quarenta anos.

Lammers estreou no automobilismo em 1973, quando seu padrinho decidiu lhe dar um velho Simca (UM SIMCA!) de presente para fazer sua estreia em um campeonato de turismo na Holanda. Mesmo com o Simca, ele ganhou várias corridas e se sagrou campeão da categoria. Em 1976, ele fez sua estreia nos monopostos pilotando um Crosslé em vários campeonatos europeus de Fórmula Ford. Em 1978, Lammers ganhou cinco corridas e obteve o título da Fórmula 3 europeia. Aos 23 anos, sem raciocinar muito, ele aceitou uma proposta meia-boca para correr pela Shadow na Fórmula 1. A Holanda suspirava: finalmente, o país teria um piloto de ponta na categoria. Carel Godin de Beaufort poderia, enfim, dormir em paz.

O problema é que Lammers só pegou carro ruim e pagou muito caro por isso. Em 1979, não conseguiu nada além de um nono lugar com a Shadow. Em 1980, fez corridas pela ATS e pela Ensign e não conseguiu se classificar para a maioria das corridas. Em 1981, voltou para a ATS, só participou de quatro fins de semana e caiu fora. Lammers foi mais uma das vítimas do temperamento irascível de Günter Schmidt, o mais carrasco entre os chefes de equipe. Em 1982, assinou com a Theodore para tentar largar em seis corridas, mas só conseguiu cumprir a tarefa em Zandvoort, na frente da torcida. Naquele ano, ele tentou assumir o lugar do falecido Gilles Villeneuve na Ferrari, mas as negociações não avançaram. Depois de tantos fracassos, a outrora sensação holandesa preferiu abandonar esse mundo cruel e infeliz da Fórmula 1.

Fez bem. Jan foi muito mais feliz nos protótipos e no turismo do que nos monopostos. Ganhou corridas e dinheiro na Renault 5 Turbo, no Mundial de Protótipos e nos campeonatos de turismo da FIA. Nos monopostos, ele só conseguiu terminar em terceiro nos dois Grandes Prêmios de Macau que disputou, nos anos de 1985 e 1986. Ele também esteve na Fórmula 3000 (e ganhou sua última corrida, uma irrelevante etapa extracampeonato realizada em 1995 em Kyalami, aos 39 anos!) e na Indy, mas não teve obteve o mesmo destaque que logrou quando defendeu a Jaguar nas corridas de protótipos no fim dos anos 80.

Em 1992, Lammers teve sua última chance de fazer algo na Fórmula 1 quando, aos 36 anos, foi chamado para disputar as duas últimas etapas da temporada pela March. 3.745 dias separaram o GP da França de 1982 do GP do Japão de 1992, a maior distância entre uma corrida e outra de um mesmo piloto na história da categoria. Jan não decepcionou nas duas provas e arranjou um contrato para permanecer na March em 1993, mas a equipe faliu a poucos dias do início da temporada e restou ao holandês ir para a Fórmula 3000. A verdade é que Jan Lammers sonhou com a Fórmula 1 até meados dos anos 90 – ele não se conformava em não ter sido um piloto de sucesso por lá.

Um dia, teve de se conformar. E continuou pilotando bem por aí. Hoje em dia, Lammers é o único da lista que corre regularmente. Nesse ano, após três anos de ausência, ele disputou as 24 Horas de Le Mans com um ORECA 01, mas não terminou a corrida. Mas não tem problema. Jan também disputou corridas na Scirocco Cup alemã, na BOSS GP (utilizando um Tyrrell 026 de 1998) e na HTC holandesa. Nesta última, pilotando um Porsche 997, ele até conseguiu uma bela vitória debaixo de chuva em Assen. Aos 55 anos.

É. Pensando bem, ele realmente merecia ter sido o grande piloto holandês da Fórmula 1.