Números e mais números. Neste fim de semana sul-coreano, uma tradicional equipe inglesa estará completando sua corrida de número 700. A Onyx? Infelizmente, não. Fundada pelo Bruce McLaren há mais de quarenta anos, a McLaren celebrará neste próximo domingo a impressionante marca. Somente a interminável Ferrari conseguiu participar de mais corridas, 827. Como qualquer tentativa de superar a equipe rampante neste quesito soa como total perda de tempo, resta à turma de Martin Whitmarsh celebrar a perenidade em relação aos demais. O tempo conseguiu dar cabo da antiga Lotus, da Brabham e da Tyrrell, mas a McLaren ainda segue firme e forte.

Até a chegada deste momento histórico, muita gente teve de dar o sangue e a alma para fazer da McLaren uma das equipes mais bem-sucedidas da história do automobilismo. Alguns, como Mika Häkkinen e David Coulthard, criaram raízes em Woking e só saíram de lá com uma Erja Honkanen pentelhando ou com a chegada de um colombiano adiposo, mas forneceram inestimável contribuição. Outros, como Ayrton Senna, Alain Prost e Emerson Fittipaldi, não precisaram ficar tanto tempo por lá para deixar suas marcas na história da equipe. O caso é que até mesmo os pilotos que ficaram na McLaren por pouquíssimo tempo também se responsabilizaram por alguns tijolinhos que ergueram a equipe até o seu patamar atual.

O Top Cinq de hoje faz uma menção a um caso ainda mais específico, o de pilotos que só representaram a McLaren em um único fim de semana. Mesmo que eles não tenham tido nada a ver com os demais 699 grandes prêmios da equipe, o fato deles terem sido o dono da bola por alguns instantes já os credencia como singelos capítulos de uma bela história. Afinal de contas, o que seria da nave espacial se o parafuso não estivesse lá? Péssima analogia, reconheço. Mas funciona.

PS: Sim, aquela foto era do Chico Serra na Indy. Boa parte dos leitores acertou. Tenho orgulho deles. E também me orgulho dos que não acertaram. E daqueles que nem participaram – na certa, haviam encontrado algo melhor para fazer.

5- STEPHEN SOUTH

Há quem diga que este foi um lamentabilíssimo casos de grande talento perdido pelas nuances do destino. De talentos perdidos, todos estamos por aqui de tantos exemplos. Mas não dá para negar a existência de alguma capacidade em um sujeito que vence várias corridas na Fórmula 3 britânica e que é reconhecido como o maior rival de um certo Alain Prost na Fórmula 3 europeia. Este é Stephen South, um britânico que tinha tudo para ter construído, ao menos, uma carreira sólida na Fórmula 1.

South obteve certa fama na Inglaterra ao se sagrar vice-campeão do campeonato BP da Fórmula 3 britânica em 1977 e também ao conseguir vencer uma corrida de Fórmula 2 com a equipe de Ron Dennis dois anos depois. Não que ele fosse o maior gênio da próxima estação, mas era alguém a ser considerado com atenção em um futuro próximo. Na verdade, este futuro nem demorou tanto assim para se transformar em presente quando Alain Prost quebrou o pulso no GP da África do Sul de 1980. Por recomendação do próprio francês, a McLaren decidiu chamar Stephen South para substituí-lo na corrida seguinte, em Long Beach. Nada mal estrear pela McLaren, não?

Na verdade, era péssimo. O McLaren M29 era um carro absurdamente ruim e até mesmo os mestres Prost, então em seu primeiro ano na Fórmula 1, e John Watson estavam tendo sérias dificuldades para fazê-lo andar. Sem qualquer contato prévio com o M29, South desembarcou na Califórnia todo perdido, sem saber o que fazer naquele ingrato circuito de rua. 27 pilotos estavam inscritos, mas apenas 24 seriam admitidos para a largada. Era uma atitude sensata, pois algumas curvas precisariam de meia marcha para serem completadas. Mal cabia um Fusca em alguns trechos, quanto mais um monte de carros esquisitos e cheios de penduricalhos e asas.

O inexperiente South apanhou da pista e do carro. No primeiro treino classificatório, foi o último colocado com um tempo 1,1s mais lento que o do penúltimo. Só a presença de um santo e um pajé poderiam ajudá-lo. Como o pajé não conseguiu chegar aos Estados Unidos a tempo, South não conseguiu sair da última posição no segundo treino oficial. Na verdade, ele ficou a 2,6s do penúltimo, um verdadeiro passo para trás em relação ao primeiro treino. Não deu para largar, é claro. E o pior é que, meses depois, até mesmo um passo para trás se tornaria algo difícil. Stephen teve parte de uma perna amputada após um acidente na CanAm no fim de 1980. E a bela carreira do primeiro grande rival de Alain Prost acabou aí.

4- PHILIPPE ALLIOT

Philippe Alliot não está na minha lista de pilotos preferidos. Nem na de Martin Brundle, que perdeu um segundo lugar em Detroit graças a uma estripulia do cara. Nem na de Nigel Mansell, que quase deixou de vencer o GP de Portugal de 1990 após esbarrar nele. Nem na de Ayrton Senna, que foi criminosamente bloqueado por ele enquanto liderava o GP da Espanha de 1990. Não eram muitos os que apreciavam seus feitos. Embora Alliot nunca tivesse tido uma grande oportunidade na carreira, os acidentes, as atitudes duvidosas e as confusões só serviram para justificar sua marginalização na Fórmula 1.

Mas não dá para dizer que ele é um coitado. Sua carreira foi razoavelmente longa e quase teve um final feliz. No início de 1994, Alliot foi chamado para fazer alguns testes pela McLaren. A equipe precisava de um companheiro para Mika Häkkinen e a Peugeot, fornecedora de pilotos, havia sugerido exatamente o piloto francês, que havia defendido a marca do leão no Mundial de Protótipos. Ron Dennis não ia muito com a cara mexicanizada de Alliot e preferiu ficar com Martin Brundle. Não que Dennis acreditasse muito em Brundle, mas qualquer coisa era melhor que Philippe Alliot.

Mas o ex-piloto da Larrousse não precisou ficar triste. O próprio Häkkinen lhe deu aquela força quando sofreu dois acidentes, em Silverstone e em Hockenheim, que lhe renderam férias compulsórias de uma corrida, pleonasmo para encobrir o fato do finlandês ter sido punido sem dó pelos desastres sucessivos. Sem grandes opções disponíveis no mercado, a McLaren foi obrigada a recorrer a Philippe Alliot para substiuir Häkkinen no Grande Prêmio da Hungria de 1994.

Grato pela oportunidade, Alliot agradeceu mostrando aquilo que sabia fazer de melhor: logo em sua primeira volta cronometrada, o francês quarentão se embananou com os freios, rodou na chicane e ficou atolado na brita. A McLaren teve de emprestar o carro de Martin Brundle para Philippe conseguir ao menos se classificar para a corrida. Ele se comportou, obteve um 14º no grid, andou em 12º na maior parte do tempo em que esteve na corrida e foi obrigado a abandonar quando seu carro começou a apresentar um vazamento de água. Pelo menos, o carro chegou inteiro aos boxes. Morrendo de sede, mas inteiro e aliviado por ter sobrevivido a Philippe Alliot.

3- JAN MAGNUSSEN

Quando alguém ganha 14 das 18 corridas de uma temporada de Fórmula 3, é natural que todo mundo fique de queixo caído. Da mesma forma, é natural que os chefões da Fórmula 1 disputem o novo garoto de ouro a tapa, oferecendo a ele um carro bom, muita grana, algumas prostitutas e até uma casa para os pais. Em 1994, Jan Magnussen estraçalhou a concorrência sem o menor sentimento de altruísmo ou piedade e impressionou até mesmo a Ron Dennis, que não se impressiona com qualquer coisa.

No fim daquele ano, Dennis convidou o dinamarquês para um chá com biscoitos e lhe ofereceu uma proposta razoável. Magnussen assinaria um contrato como “piloto McLaren”, o que não lhe garantia nada além de um boné avermelhado e um afago semanal do chefão. Para ele, que nunca havia tido contato algum com a Fórmula 1, valia a pena. Em 1995, Jan decidiu disputar a DTM. Se aparecesse alguma oportunidade legal na McLaren, ele estaria pronto para assumir a titularidade.

Apareceu. Poucos dias antes do Grande Prêmio do Pacífico, o finlandês Mika Häkkinen teve de realizar uma desagradável cirurgia de apêndice e acabou tendo de ficar em casa. Ron Dennis não pensou muito para colocar Magnussen em seu lugar – a McLaren não estava disputando nada no campeonato e Aida era um circuito perfeito para um estreante, sacal e lento. O dinamarquês, que fumava feito um chaminé e adorava um Big Mac, partiu para a luta. Como Michael Schumacher fatalmente seria o campeão da temporada, nada como a estreia de uma promessa para animar um pouco as coisas naquela monotonia nipônica.

Magnussen não deixou ninguém insatisfeito em seu primeiro fim de semana. Não cometeu nenhum erro nos treinos, obteve o 12º lugar no grid com uma volta apenas sete décimos mais lenta que a do companheiro Mark Blundell e fez um trabalho muito bom na corrida. Chamou a atenção por se envolver em uma briga encardida com o futuro companheiro Rubens Barrichello e chegou a devolver, por fora, uma ultrapassagem realizada pelo brasileiro. Terminou em décimo. Grande desempenho. Esse cara será 124 vezes campeão do mundo, garantiam todos.

E aí?

2- ALEXANDER WURZ

Em 2005, o austríaco Alexander Wurz estava partindo para sua quinta temporada como piloto de testes da McLaren. Naquela altura, ninguém acreditava que Wurz, aos 31 anos, teria lá alguma chance de ser titular de alguma coisa na equipe de Ron Dennis. Ele havia aceitado o convite de testar solitariamente os carros prateados no fim de 2000, quando já não tinha mais nada para fazer na decadente Benetton. Esperto, Alexander acreditava que poderia acontecer com ele o mesmo que aconteceu com Olivier Panis, que trabalhou como piloto de testes da mesma equipe durante um ano, deixou impressão positiva e encontrou um lugar como titular na BAR no ano seguinte.

Mas não dá para confiar no futuro pensando unicamente no passado. Os convites não apareceram e Wurz estabilizou-se como piloto de testes da McLaren. Ganhou dinheiro e pôde pilotar alguns dos carros mais rápidos da Fórmula 1 sem ter de fazer nada além de descrever alguns problemas e sugerir acertos, mas nunca pôde sequer sonhar com uma vaga de titular. Com David Coulthard grudado em um dos carros e com o valiosíssimo Kimi Räikkönen no outro, não dava mesmo para acreditar que o simpático austríaco poderia encontrar algum espaço por lá.

Faltava um Montoya na vida de Wurz. Pois ele apareceu em 2005, gordo, falastrão e irresponsável. Pouco depois do GP da Malásia, o Eric Cartman da Fórmula 1 fraturou o ombro enquanto jogava tênis a bordo de uma moto, algo razoavelmente estúpido. A McLaren, que havia torrado uma nota para tirar o colombiano da Williams, teve de colocar Pedro de la Rosa em seu lugar no GP do Bahrein. O espanhol não agradou e deu lugar a Wurz, que voltaria a disputar um grande prêmio de Fórmula 1 após quase cinco anos e 70 mil quilômetros de testes. Valeu a pena esperar, hein, Alex?

Wurz deu a sorte de pilotar um dos carros mais rápidos já construídos pela McLaren, o MP4/20. O austríaco cometeu alguns pequenos erros nos treinos, mas não teve dificuldades para conseguir largar na sétima posição. Na corrida, sempre muito constante e inteligente, ele herdou uma posição após a quebra de Kimi Räikkönen, ultrapassou Mark Webber e Takuma Sato nos pits e finalizou em quarto. Horas depois da corrida, o terceiro colocado Jenson Button foi desclassificado e Wurz herdou o pódio, seu segundo na carreira. Nada mal para alguém que só servia para testar partes novas nos cafundós de Paul Ricard.

1- JACKY ICKX

O primeiro da lista é também o melhor de todos que apareceram aqui, talvez um dos melhores da história. O polivalente Jacky Ickx, aquele que anda bem em Nordschleife, em Le Mans e no Saara, é dono de uma longa e relevante carreira na Fórmula 1. O belga fez boa parte de suas 122 participações a bordo de uma Ferrari, mas também já pilotou carros da Lotus, da Matra, da Brabham e, se bobear, até o da USF1.

Ickx também já dirigiu um carro da McLaren, mas só por uma corrida. A história é bem intererssante. Em 1973, Jacky era o principal piloto de uma Scuderia Ferrari que passava pela fase mais patética de sua existência. Tudo ia mal pelos lados de Maranello: o novo carro havia demorado um bocado para ser lançado, era extremamente frágil, não era rápido e o clima era de improviso e bagunça. Ickx, que já contabilizava dois vice-campeonatos, era o que havia de melhor na equipe.

Consciente de sua situação alarmante, a Ferrari decidiu deixar de participar de algumas corridas enquanto não resolvia os muitos problemas de seu carro. O problema é que uma destas corridas era exatamente a de Nürburgring Nordschleife, o circuito favorito de Jacky Ickx. Dessa prova aí, o belga fazia questão de participar. Ele pediu ao comendador Enzo Ferrari uma autorização especial para disputar o GP da Alemanha por uma outra equipe. Enzo, que gostava muito de seu pupilo, não criou qualquer impedimento.

Esperto, Ickx se ofereceu à McLaren. O argumento estava na ponta da língua: “o M23 venceu em Silverstone com o Peter Revson”. A equipe tinha um terceiro carro e, eventualmente, costumava inscrevê-lo para uma corrida ou outra. Ela sabia que poderia conseguir se dar bem em Nordschleife ao empregar o piloto da Ferrari e aceitou lhe dar um carro para aquele fim de semana. E foi isso mesmo.

Logo no primeiro treino livre, Ickx obteve o melhor tempo. Nos treinos oficiais, ele conseguiu colocar o limitado McLaren M23 na quarta posição do grid. Seu tempo foi impressionantes seis segundos melhor que os de seus companheiros de equipe, Revson e o ex-campeão Denny Hulme. Dizem, aliás, que Jacky só não andou melhor porque o motor Cosworth de seu carro explodiu em uma das sessões. Imagine se ele tivesse tido o carro inteiro durante todo o tempo…

Na corrida, Ickx chegou a perder a terceira posição para Niki Lauda, mas este sofreu um acidente ainda na primeira volta e abandonou. Lá na frente, os dois Tyrrell azulados de Jackie Stewart e François Cevert abriram enorme vantagem para o resto. O belga fez uma corrida tranquila e manteve-se em terceiro até a bandeirada, sendo ele o único piloto da McLaren a marcar pontos nesta prova. O chefão Teddy Mayer, logo depois, afirmou que Ickx só não brigou pela vitória porque a equipe havia feito uma escolha errada de pneus. Mas não dava para sonhar com algo muito melhor do que o terceiro lugar. Aquela corrida pertencia à Tyrrell e o piloto belga fez o que dava para fazer.

Ickx tentou seguir na McLaren em 1974, mas a equipe passou a contar com o apoio da Marlboro e a tabaqueira americana exigia a contratação de Emerson Fittipaldi. Restou ao belga ir para a Lotus, o que representou o início de sua fase decadente na carreira. Se lhe faltou o título na Fórmula 1, ao menos ele é o líder do Top Cinq desta sexta-feira que já é sábado.

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