Fernando Alonso e o choro incontido no pódio do GP da Europa. Estaria o esporte preenchendo uma lacuna na felicidade do povo espanhol?

Eurocopa. Assisti ao jogo da final, entre a antipática Espanha e a barulhenta Itália. Foi difícil escolher para quem torcer. Acabei escolhendo a Itália por maior afinidade genética e étnica, vide Mario Balotelli. Para mim, um jogo humilhante e frustrante. Os italianos mal conseguiram avançar ao campo espanhol, deixaram passar umas bolas patéticas da armada hispânica e acabaram tomando quatro gols. Se bem conheço o comportamento italiano, os jogadores devem estar chorando até agora.

Mas o jogo foi histórico para os vencedores, os espanhóis. A seleção que conta com nomes como Iniesta, Fàbregas, Busquets, Juan Alba, Casillas, Fernando Alonso e Nelsinho Piquet ganhou o terceiro título da história do país na Eurocopa. Como desmerecer? Não entendo porcaria alguma de futebol, mas fiquei maravilhado especialmente com a precisão e a velocidade dos passes, que desconcertavam os pobres italianos azulados.

Os espanhóis ficaram malucos de felicidade, é óbvio. Assim como, há uma semana, pularam de alegria quando Fernando Alonso venceu o GP da Europa em casa e chorou copiosamente no pódio. Assim como costumam celebrar quando Rafael Nadal, o atual número 2 no ranking da ATP, vence uma partida de tênis. Assim como aplaudem Jorge Lorenzo, campeão da MotoGP em 2010 e atual líder do campeonato, quando este vence uma corrida. Dios es español.

Seja no futebol, no esporte a motor, no tênis ou no campeonato mundial de arremesso de abacates patrocinado pela Red Bull, a Espanha comanda quando se trata de competição esportiva. De algum tempo para cá, o país começou a vencer em praticamente todos os esportes importantes do planeta. Vai lá entender o motivo. É fato que o esporte espanhol ganhou um fôlego novo após as Olimpíadas de Barcelona. É fato também que dois dos clubes de futebol mais poderosos do planeta estão lá. Da mesma forma, suas empresas costumam despejar uma cachoeira de euros em seus esportistas e times. É, deve ser tudo isso. O que importa é que deu certo e o hino espanhol, que não tem letra desde o fim do governo Franco, está sendo tocado nos alto-falantes da vida por aí.

Nunca fui muito fã da Espanha. Questão de gosto. Mas é impossível não se solidarizar minimamente com o povo hispânico neste momento de débâcle econômico. Hoje, a o governo espanhol anunciou que 100 mil pessoas saíram do desemprego em junho. Um número incrível, mas que não ajuda muito quando sabemos que o país é o que mais tem desempregados na União Européia, com 4,6 milhões de pessoas economicamente ativas que não estão fazendo rigorosamente nada, a exemplo do ex-piloto Andy Soucek.

A comemoração da seleção espanhola, campeã da Eurocopa.

A dívida pública espanhola, que despencou durante dez anos, explodiu desde 2008 e hoje ultrapassa 70% do PIB nacional. A arrecadação dos impostos de renda e patrimônio, que chegou à casa dos 100 bilhões de euros em 2008, não alcançará sequer a metade disso neste ano. Em junho, a capacidade de solvência dos bancos privados espanhóis e do próprio governo estava tão baixa que o Banco Central Europeu e o FMI tiveram de injetar 100 bilhões de euros para evitar que o sistema bancário da Espanha quebrasse. A inflação ao menos está controlada, mas do que isso adianta se ninguém tem dinheiro para comprar?

Sobrou para o automobilismo, é claro. Você se lembra daquele monte de pilotos espanhóis que apareceram ao mundo até alguns anos atrás? A maioria deles está em casa, lendo a sessão de empregos do jornal, ou deu a sorte enorme de encontrar emprego em qualquer outra coisa. Na Fórmula 1, só Fernando Alonso está sorrindo à toa. A HRT vive na corda bamba, Pedro de la Rosa vai na garupa, Jaime Alguersuari faz bicos aqui e acolá, Dani Clos tomou um pé na bunda da filha do Hristo Stoichkov e está sem padrinho e até mesmo o Santander, cuja avaliação de risco foi rebaixada em dois pontos pela Standard & Poor’s em abril, já teve dias mais sossegados.

A dureza espanhola tem sua face mais visível nas suas duas corridas, o GP da Espanha e o GP da Europa. Tanto os organizadores da etapa de Barcelona como os de Valência estão quebrados e foram obrigados a se unir para que não morressem à míngua. A partir do ano que vem, as duas pistas se revezarão na realização do GP da Espanha. Num ano, os fãs se aborrecerão em Barcelona. No outro, dormirão à sombra do porto de Valência. Tudo para conter custos e minimizar prejuízos.

A etapa de Valência, realizada na semana passada, não escondeu de ninguém suas enormes dificuldades. A organização disponibilizou apenas 45 mil ingressos para a corrida deste ano. Em 2008, primeiro ano do GP valenciano, foram vendidos 100 mil ingressos. Quatro anos depois, nem sequer os parcos 45 mil ingressos foram esgotados: no domingo, ainda havia sete mil deles mofando nas bilheterias. O problema nem é relacionado à histórica chatice das corridas do circuito portuário. Ninguém tem dinheiro, mesmo.

Por isso que o resultado final foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Mesmo havendo apenas 38 mil testemunhas, a maior parte delas vindo do estrangeiro, a festa nas arquibancadas após Fernando Alonso ter cruzado a linha de chegada à frente do resto foi legal demais da conta. Depois, no pódio, enquanto escutava o hino nacional de seu país destroçado, a emoção não pôde ser contida. O mesmo Alonso que desembestou a gritar após ganhar seu primeiro título mundial no chuvoso GP do Brasil de 2005 desabou em lágrimas no pódio valenciano. Quem viu, aplaudiu.

Alonso vencendo em Valência.

Sei lá eu o que ele estava pensando na hora. Tanto poderia ser a grave situação de sua pátria como uma vaga lembrança de seu chinchila que morreu em 1988. Para não perder o fio da meada desse texto, dou um pouco de crédito à primeira possibilidade. Alonso deve ter percebido ali, enquanto escutava emotivamente aquele arquivo MIDI entoando los yunques y las ruedas, que sua vitória não era apenas mais um triunfo em sua carreira. Naquele exato instante, mesmo com tanta gente desempregada e tantas complicações, o espanhol poderia sentir orgulho de seu país. Demos certo em algo.

O esporte tem dessas coisas. Às vezes, quando tudo parece estar dando errado, um esportista ou um time pode se aproximar, ganhar alguma coisa de importante e aplacar um pouco o sofrimento de um bocado de gente. Eu sempre critiquei pra caramba esta postura de nego que acompanha o esporte pra se esquecer dos problemas, como se estivesse entornando uma garrafa de cachaça da bobônica. Baita insensibilidade a minha. Às vezes, qualquer coisa, por mais banal ou despropositada que seja, serve para diminuir um pouco o sofrimento e a falta de esperança generalizada.

Nós sabemos mais ou menos o que é isso. Do mesmo jeito que a seleção espanhola está tendo sua melhor fase justamente no pior momento de sua história econômica, o escrete brasiliano ganhou algumas de suas cinco Copas em períodos altamente conturbados. Em 1970, Pelé, Rivellino, Tostão e companhia venceram a primeira Copa colorida da história enquanto noventa milhões em ação celebravam o auge do “milagre econômico” ao mesmo tempo em que choravam seus filhos barbudos e subversivos nas dependências da Oban.

Vinte e quatro anos depois, a seleção comandada por Bebeto, que havia virado pai, e Romário, que havia recuperado seu pai, se sagrou a primeira tetracampeã mundial nos Estados Unidos. Quem não teve a oportunidade de ver esta Copa ao vivo deve se arrepender de não ter nascido antes. No Brasil, o título foi um sopro de felicidade no meio de uma época em que todos ainda lamentavam o passamento de Ayrton Senna, temiam a chegada de mais um plano econômico e se viam obrigados a escolher entre um sociólogo e um sindicalista para liderar a barca. Dias conturbados. Ainda bem que sempre há uma bola, um campo e alguns peladeiros para acalmar os ânimos.

Em 2002, as coisas estavam mais tranquilas. Havia regime democrático e moeda estável. Ou não? O sociólogo ganhou a peleja acima e teve um governo com um bocado de acertos e outro bocado de erros. Ele estava no fim de seu mandato. Quem iria substituí-lo? Muita gente estava com medo do sindicalista acima, que liderava as pesquisas e tinha uns amigos meio comunas. O Risco Lula afastou um monte de capitais externos e o resultado foi um dólar que bateu na casa dos quatro reais. No meio desta cerração, um revigorado Ronaldo de cabelo bizarro celebrava com seus colegas o quinto título mundial.

Ayrton Senna, que foi o único grande motivo de felicidade do brasileiro no final dos anos 80 e início dos anos 90

Mas futebol nenhum causou a comoção de Ayrton Senna. Este cara aqui, além de um puta piloto, deu a sorte de ser o maior ídolo brasileiro justamente na época em que o país mais procurava um ídolo. Enquanto Ayrton ganhava suas corridas, o Brasil afundava em inflação acachapante, moratória, planos econômicos criados por economistas campineiros com merda na cabeça, overnight, SUNAB, imperadores maranhenses, caçadores de marajás, Elba, Chevette Junior, lambada, mullet e cabelos volumosos. Os dez anos de Senna na Fórmula 1 foram a verdadeira década perdida para quem não respirava automobilismo.

Impossível não estabelecer um paralelo entre Alonso hoje em dia e Senna em, sei lá, 1988. Na verdade, as coisas eram sempre um pouco mais dramáticas aqui. O Brasil era uma coisa ainda mais subdesenvolvida naqueles dias, abarrotado de gente totalmente empobrecida e iletrada. Tentemos nos colocar no lugar dos desafortunados da época. Deve ser uma desgraça você ter de trabalhar feito um filho da puta para ganhar uns bilhões de cruzeiros que não valerão meia pataca no final do mês. Deve ser triste você ir ao supermercado para comprar carne e ver que não há mais porra alguma no estoque. Deve ser uma merda inominável ser casado com uma mulher com o cabelo da Cindy Lauper.

Você, obviamente, quer que tudo isso mude, só que simplesmente não sabe como. Confiar em político não dá. Sair do país também está difícil. Quem vai querer emitir visto pra brasileiro cucaracha? Não queria ter nascido aqui, você pensa. Pois é, a depressão está te consumindo. Sua auto-estima foi para o brejo.

De repente, surge um brasileiro orelhudo, magrelo e com o mesmo sobrenome que o seu lá na Fórmula 1. Veni, vidi, vici. Muito rapidamente, ele chega à Fórmula 1, marca pontos, ganha corridas, leva para casa três títulos mundiais. Nas glórias, desfila com a bandeira brasileira. O mundo percebe que alguém tem, ou aparenta ter, orgulho de ter nascido no Brasil. Milhões de pessoas aqui olham para a imagem da flâmula tremulante associada a um legítimo vencedor e passam a pensar que o país onde deram o azar de nascer não é tão ordinário assim. Surge uma esperança no fim do túnel. Ayrton Senna passa a ser o único motivo de orgulho de uma nação de 150 milhões de pessoas entre o fim dos anos 80 e o início dos anos 90.

Como contestar isso? Eu e mais muita gente assumimos, do alto de nosso elitismo orgulhoso de quem nunca viveu aquela época, não gostar de toda essa teatralidade com ares de épico, esse roteiro maniqueísta que só serviria para exaltar um sujeito coxinha. Não me furto em torcer o nariz para o fanatismo tacanho e cego que circunda o nome de Ayrton Senna. Posso até estar certo, e acho que realmente estou. Mas o que significa “estar certo” diante de uma situação onde falamos de auto-estima, desespero e esperança? O racional não simplesmente cabe nestas horas, devo admitir.

O fato é que todos precisamos de um motivo para sorrir nos piores momentos, qualquer que ele seja. Sorte de quem pode contar com um Fernando Alonso ou um Ayrton Senna.

Antigamente, quando se falava num Senna e num Mika, lembrávamos de Ayrton e Häkkinen dividindo a McLaren no fim de 1993. Hoje em dia…

Em 1993, o tricampeão Ayrton Senna e o imberbe Mika Häkkinen dividiram a mesma equipe nas últimas três corridas da temporada. Insatisfeita com o americano Michel Andretti, a McLaren decidiu mandá-lo mais cedo para a grande fazenda ianque e colocou Häkkinen, então apenas uma promessa do automobilismo mundial, para comboiar Senna nas suas últimas corridas pela equipe. Se Mika fizesse bonito, quem sabe ele não ganharia de presente a titularidade em 1994?

Era um relacionamento pacífico. Häkkinen foi um raro companheiro de equipe que não era visto por Ayrton Senna como um capacho ignóbil ou uma ameaça nuclear. Pudera: o finlandês é um sujeito tipicamente laid-back, agradável e de convivência facílima. Só mesmo Michael Schumacher num dia de sol em Macau poderia ser capaz de irritá-lo. Como Ayrton também estava de saída para a Williams e não estava disposto a arranjar mais confusão, ele nem ligou pelo fato de ter sido superado pelo finlandês logo nos primeiros treinos oficiais que disputaram juntos, os de Estoril.

Ah, as analogias são dos recursos literários favoritos de alguém que escreve bobagens.

“Não há Mika Salo no mundo que me convença que o Bruno teve alguma culpa naquele choque com o Kobayashi. E se é pra ser maldoso, o Mika Salo é um piloto finlandês. Tem um cara que é reserva na equipe do Bruno Senna que é finlandês também. Pronto, já fiz a maldade”. Que proferiu tais palavras foi o narrador Galvão Bueno, claramente puto da vida com o acidente que o sobrinho sofreu com Kamui Kobayashi. Para Galvão, a culpa foi toda do japa, que é uma vaca-brava de olhos puxados. Eu não vi culpa na manobra dele, mas isso não importa agora.

O sexagenário locutor também não estava satisfeito com o fato de Mika Salo ter sido o ex-piloto escolhido para fazer as de comissário desportivo em Valência. Para ele, o acidente de Kobayashi e Senna só resultou em punição para o brasiliano porque o diabólico comissário Salo quis prejudicá-lo na cara dura, visando deixá-lo sem moral na Williams, que se veria forçada a olhar com mais ternura para o reserva Valtteri Bottas.

Além de comissário domingueiro, ex-piloto de Fórmula 1 e sobrinho de Cid Moreira, Mika Juhani Salo é comentarista nas transmissões finlandesas da MTV3, que não tem nada a ver com a emissora favorita das meninas bobinhas que pintam o cabelo de rosa. Salo ficou conhecido recentemente por ser um árduo defensor dos pilotos de seu país, embora eu já tenha ouvido falar que ele costuma pegar pesado com o próprio Bottas nas transmissões. É um pacheco sami, mas bate e assopra ao mesmo tempo. Vai entender.

No Brasil, o então olvidado Salo tornou-se um dos inimigos públicos dos nacionalistas ao fazer comentários negativos a respeito de Felipe Massa e Bruno Senna. Sobre Massa, o nórdico afirmou que “não acredita que ele seguirá na Ferrari na próxima temporada. Na verdade, é surpreendente que a equipe tenha ficado com ele neste ano”. Não mentiu. Os fãs brasileiros também não reagiram mal, aqueles mesmos fãs que perturbavam a ordem quando alguém cometia o pecado de tecer qualquer crítica que fosse ao piloto paulista em 2008. Para felicidade de Salo, os brasileiros não estão entre os 15.000 povos mais fiéis aos seus ídolos.

O que pegou mais foi a crítica a Bruno Senna. Nesse caso, o pacheco uralo-altaico Salo falou um monte de coisas. Num primeiro instante, Mika afirmou que “a dupla da Williams é uma das piores do grid. Tanto Pastor Maldonado como Bruno Senna são suscetíveis a erros. O brasileiro teve algumas boas corridas no ano passado, mas decaiu muito no final da temporada”. Muita gente se sentiu como se tivessem ofendido suas respectivas progenitoras. A reação geral foi à base de extensivo ad hominem. Quem é Mika Salo?

Mika Salo, que andou falando um monte sobre Bruno Senna e arranjou um bocado de inimigos no Brasil

Não satisfeito, o finlandês seguiu batendo pesado. “Senna é um cara legal, mas incapaz de pilotar no nível exigido por Frank Williams”, proclamou há não muito tempo. Em seguida, encaixou sua dose de protecionismo. “Valtteri Bottas é extremamente respeitado por Frank Williams, que o elogia muito e diz que seu lugar é nas corridas”. Para terminar, a insinuação maior: Bruno Senna não terminará a temporada. Levará uma botinada nos fundilhos.

Quem é Mika Salo para dizer umas merdas dessas?, perguntou a nação. Eu respondo quem é Mika Salo.

Em termos de pilotagem, Salo é um que uma pessoa que entende um pouco mais do esporte sabe que não teve seus talentos devidamente aproveitados. Em 1990, ele duelou contra o xará Häkkinen nas pistas inglesas da Fórmula 3. Foi uma rivalidade legal de se ver e a mídia britânica adorava. Os destinos dos dois, depois disso, se distanciaram. Häkkinen foi para a Fórmula 1 já em 1991 e fez uma carreira frutífera. Com Salo, isso não aconteceu.

“O outro Mika” foi pego dirigindo totalmente chapado ainda em 1990 e acabou em cana. Ken Tyrrell tinha lhe oferecido uma vaga para 1991, mas rasgou a proposta após perceber que estava contratando um moleque bêbado e inconsequente. Salo se viu obrigado a ir para o Japão tentar reconstruir a carreira e a imagem. Comeu uma boa mulherada e arranjou uma namorada que trabalhava como dançarina e modelo – sim, eu sei que alguns de vocês interpretaram uma terceira profissão implícita.

Depois de algum tempo, Salo foi meio que resgatado pelo automobilismo internacional para disputar duas corridas pela Lotus no fim de 1994. Depois, passou por Tyrrell, Arrows, Sauber, Ferrari, BAR e Toyota. Demonstrou ótimo desempenho em corridas malucas, fez provas excepcionais em Mônaco e superou seus companheiros de equipe sem grandes problemas. Na Ferrari, fez seis corridas e chegou ao pódio em duas. Por outro lado, Mika não era um gênio na chuva, raramente andava bem em treinos oficiais e não costumava cuidar do físico. Não foi uma carreira brilhante, portanto. Mas dá para jogar na conta da falta de uma oportunidade decente.

Esta é a parte boa de Mika Salo. A ruim se refere à fama de sujeito arrogante, egoísta e pouco agregador. O cara conseguiu brigar com a maior parte das equipes por onde passou. Tem um histórico de declarações infelizes e até meio desrespeitosas. Na Inglaterra, onde as pessoas realmente entendem de automobilismo, são poucos os que gostam dele.

Vamos às histórias. Nos anos 90, Salo atraiu um bocado de antipatia quando falou que “o melhor Mika não era o Häkkinen”. Em 2000, apesar de ter feito uma boa temporada na Sauber, seu Peter não quis ficar com ele, já que o piloto finlandês não era um sujeito que criava um bom ambiente na equipe. Alegação parecida foi feita pela Toyota em 2002, quando ela anunciou de forma até surpreendente que não permaneceria com Salo no ano seguinte.

Em resposta, o finlandês soltou cobras e lagartos sobre suas antigas empregadoras. Quando Kimi Räikkönen sofreu um acidente no GP de San Marino de 2001 após uma quebra na barra de direção, Salo afirmou algo como “é por essas que a Sauber nunca será uma equipe importante na Fórmula 1”. Com relação à Toyota, em uma entrevista concedida à F1 Racing no fim de 2002, ele falou mal de praticamente tudo referente à equipe japonesa. Apenas o projetista Gustav Brunner e a cúpula japonesa foram poupados da língua ferina.

Valtteri Bottas, o cara que Mika Salo quer colocar de todo jeito na Williams

Mas a melhor amostra da personalidade de Mika Salo é uma entrevista que ele concedeu ao jornal finlandês Turun Sanomat no início de 2002. O jornalista pediu para que ele comentasse sobre os demais pilotos do grid. Péssima idéia.

Schumacher: “Tem uma equipe que faz tudo por ele. A única coisa que ele precisa fazer é manter o carro na pista”.

Barrichello: “Ele é praticamente um nada. Tem dias bons e ruins, e os ruins são sempre mais frequentes”.

Coulthard: “Muito bonzinho pra Fórmula 1. É piloto pra ganhar uma corrida ou outra e só. Vivia tomando tempo do Häkkinen”

Ralf: “Fiquei surpreso pelo fato dele ter vencido corridas em 2001. Nunca achei que ele tivesse capacidade para isso”.

Montoya: “Comete muitos erros”.

Heidfeld: “Nunca o achei tão bom como dizem. Só o Peter Sauber acha isso, na verdade”.

Massa: “Dirige de maneira estranha. É um selvagem que já destruiu um monte de carros”.

Fisichella: “Erra pra caralho. E olha que ele é o melhor italiano do grid”.

Sato: “Não o conheço. Mas sei que ele só entrou na Fórmula 1 graças à Honda”.

Villeneuve: “Está sem motivação já faz um bom tempo”.

Trulli: “É um cara veloz, mas sempre perde concentração e geralmente abandona as corridas por causa disso”.

Button: “Nunca demonstrou lá um grande potencial na Fórmula 1. Desanimou de vez após não conseguir ser contratado por uma equipe grande”.

Irvine: “Um cara rápido, mas que não tem atitude de primeiro piloto. Não deveria ter ficado com esse papel na Jaguar”.

De La Rosa: “Bom em corridas, mas fraco nos treinos”.

Bernoldi: “Um ninguém”.

Frentzen: “É um cara rápido e experiente, mas sempre está batendo ou indo para a caixa de brita”.

Yoong: “Um cara que toma seis segundos por volta. O que mais preciso dizer?”.

McNish: “Fala muito. MUITO. E pelo tanto que fala, não consegue ter tempo para correr”.

Salo: “O melhor, claro”.

Façam seus próprios julgamentos. Eu lavo minhas mãos. Fecho os parênteses.

Bruno Senna, o cara que toma as porradas

Eu sempre achei que o pachequismo, assim como a jabuticaba, era uma invenção latina. Apenas brasileiros, espanhóis e demais povos barulhentos e de péssima auto-estima eram capazes de deixar a realidade de lado e exaltar todas as coisas boas de seus países, como o ETA e o PCC, o Generalíssimo Franco e o General Geisel. Felizmente, sempre existe um Mika Salo pronto para provar que eu estou errado, como de costume. A idiotia nacionalista acomete a todos, sem distinguir classe social, credo e religião.

Para Salo, apenas seus fellas de país Räikkönen, Kovalainen e Bottas merecem respeito, carinho e atenção. O resto é lixo. Na Espanha, eles fazem a mesma coisa quando se fala em Fernando Alonso. No Brasil, bem, dispenso comentários.

Aliás, falando em Brasil, eu acho incrível a capacidade da torcida local em rebaixar ainda mais um estúpido debate de verve nacionalista. Andei lendo alguns comentários feitos a respeito das declarações de Mika Salo sobre Bruno Senna. É estarrecedor. O problema maior nem é a incapacidade ortográfica e gramatical dos comentaristas, mas a total ausência de imaginação e capacidade crítica das réplicas. Nem seria tão difícil dizer que Valtteri Bottas ainda não passa de um campeão de GP3, que Mika Salo está falando merda como sempre, que apenas a própria Williams pode apontar quem corre para ela ou não e que o Bruno calará a boca dos críticos num dia, talvez o de São Nunca.

Mas não. A incapacidade de argumentação é um mal que deveria ser combatido imediatamente por qualquer ministro da Educação que se preze. Em tese, eu não deveria me incomodar com um punhado de gente que não sabe replicar corretamente uma declaração sobre um assunto tão besta quanto a Fórmula 1. O problema é que um sujeito que não argumenta corretamente no âmbito do esporte geralmente também não sabe fazer isso em assuntos ligeiramente mais sérios. Ser burro quando se fala, por exemplo, de política ou economia é um pouco mais grave. Seguimos.

“Mika Salo foi um péssimo piloto”. Não, não foi. O fato dele falar bosta e de agir como um babaca não o torna inapto para dirigir. E ele fez pequenos milagres na época em que correu por equipes pequenas. No GP de Mônaco de 1997, conseguiu ser o único piloto da história recente a completar uma corrida (dificílima, diga-se) sem parar uma única vez nos boxes. No ano seguinte, na mesma pista monegasca, levou um lamentável Arrows A19 ao quarto lugar. E suas performances na temporada de 2000 foram excelentes.

Mas o argumento que sempre dói mais é o “quem é Mika Salo?”. Nunca entendi a lógica desses que fazem questão de replicar uma opinião desmerecendo seu emissor mesmo estando em situação muito pior. O finlandês pode não ter sido o piloto de maior sucesso de todos os tempos, mas tem muito mais moral e bagagem para fazer o comentário que for do que qualquer um de nós. A propósito, a maioria das pessoas não tem condição mental para escolher entre duas marcas de extrato de tomate, quanto mais emitir um juízo sobre algo um pouco mais complexo. Salo, por outro lado, viveu ali no meio durante anos. Ele mesmo pode ser um acéfalo com relação a extrato de tomate. De Fórmula 1, no entanto, ele entende.

Este é Mika Salo

Eu vislumbro aí uma deliciosa guerra entre imbecis abraçados a bandeiras. Quem perde, é claro, é a verdade. Falando na dita cuja, o que podemos dizer sobre os pilotos da Williams envolvidos na história?

Bruno Senna, sinto muito aos defensores, não está fazendo aquela temporada dos sonhos. É verdade que ele é bem mais inteligente do que macacos, peixes e pilotos venezuelanos, mas isso não seria uma obrigação de um homo sapiens? Sendo bem franco, eu o considero um cara legal, um sujeito honesto e um piloto com algumas qualidades. Fez boas corridas na Malásia e na China, mas sumiu de umas corridas para cá. E tem bem menos sangue nos olhos do que seu companheiro. Diz o senso comum que é mais fácil domar um piloto veloz e selvagem do que fornecer velocidade a um cara comportado e conservador. É verdade. Mesmo sendo um asno hoje em dia, Maldonado é um cara que tem bem mais chances de evoluir e virar um gênio.

Valtteri Bottas, sinto muito aos pachecos fineses, ainda não é nada além de um piloto reserva com um título na GP3 e outro numa Fórmula Renault qualquer por aí. Eu o acompanhei na temporada 2010 da Fórmula 3 Euroseries e posso dizer que não fiquei tão impressionado. Longe de insinuar que ele seja um mau piloto, gostaria apenas de lembrar que Bottas precisa de um pouco mais de quilometragem para comprovar o talento que parece ter. Fora isso, qualquer tipo de idolatria exacerbada a um sujeito desse tipo é representada na Classificação Internacional de Doenças pelo código F52.4: ejaculação precoce.

O nacionalismo é uma merda desgraçada. Último refugo dos canalhas, como dizia Nelson Rodrigues. Antes, quando falávamos na guerra entre um Senna e um Mika, nos referíamos apenas às belas corridas do final da temporada de 1993. Hoje em dia, o Mika em questão é apenas um tonto que insiste em cavar espaços para um compatriota. O Senna em questão é apenas um piloto razoável que não merece as pancadas que vem levando. E estamos aqui, os comentaristas da internet vomitando suas asneiras de sempre e eu escrevendo uma tonelada de coisas que também não servem para merda alguma.

Todos são idiotas, como sempre. E Galvão, maldoso sou eu.

FERRARI9 – Quando você vê um piloto chegando em primeiro e o outro em 16º, fica quase impossível avaliar se o F2012 e a equipe italiana são bons de verdade. Ninguém nega que o desempenho no treino oficial, com Fernando Alonso e Felipe Massa largando em 11º e 13º, foi uma tristeza só. No domingo, os dois tiveram sortes diferentes: Alonso fez uma das melhores corridas de sua vida e venceu na frente de 38 mil fãs. Felipe Massa se deu mal com os pneus novamente e ainda tomou uma paulada daquelas de Kamui Kobayashi. É bom destacar o excelente trabalho de boxes que a equipe fez, em especial o 2s9 que permitiu que Alonso ganhasse boas posições ainda na primeira parte da prova.

LOTUS8 – É incrível o que uma merda de alternador pode fazer com um ser humano. Eu já fiquei parado no meio de uma estradinha sem acostamento por causa desta porcaria. Romain Grosjean teve prejuízos um pouco mais desagradáveis: abandonou na volta 40 quando estava em segundo e perdeu talvez sua melhor chance de vitória até aqui. Uma pena, já que ele vinha fazendo um fim de semana impecável. Quem herdou a segunda posição foi exatamente Kimi Räikkönen, que segue nessa de não ir tão bem nos treinos oficiais, aparecer pouco nas primeiras voltas e ganhar posições no final. O carro estava muito bom e, não se enganem, a vitória virá logo.

MERCEDES7,5 – O resultado do domingo pouco refletiu o sábado meia-boca que a equipe de três pontas teve. Michael Schumacher obteve seu primeiro pódio desde 2006 após um final de corrida espetacular, no qual ultrapassou vários carros e ainda se aproveitou das maldonadices alheias. Foi um pódio que o próprio piloto disse não acreditar que viria, pois o fim de semana vinha sendo bem discreto até então. Menos surpreendente, Nico Rosberg largou em sexto e terminou na mesma posição após se enrolar um pouco com os pneus. A grande sacada da Mercedes, que sempre se complica com os compostos, foi deixar seus dois pilotos em ótimas condições na última volta. Funcionou legal.

RED BULL5,5 – Para este fim de semana, trouxe uma modificação nos sidepods que teria aumentado drasticamente a pressão aerodinâmica na parte traseira. Graças à novidade, Sebastian Vettel conseguiu uma pole sossegada no treino classificatório de sábado. No dia seguinte, liderou com autoridade até a volta 33, quando a mesma porcaria de alternador que fodeu com Romain Grosjean acabou com sua festa. Quem teve de compensar o dia foi Mark Webber, que largou numa indecorosa 19ª posição e conseguiu o quarto lugar nas últimas voltas. Alternador à parte, a equipe ainda é a melhor da Fórmula 1, ao menos nesta fase intermediária do campeonato.

FORCE INDIA9 – Vem se recuperando de maneira notável e foi premiada com 16 pontos somente na etapa valenciana. Os dois pilotos andaram muitíssimo bem nos treinos livres e se classificaram em oitavo e décimo no grid. No domingo, Nico Hülkenberg e Paul di Resta adotaram estratégias diferentes e até meio estrambólicas, como a tática de uma única parada no caso do escocês. Ambos se deram bem e foram vistos andando lá na frente no final da corrida, com Hülkenberg quase pegando seu primeiro pódio. Infelizmente, os pneus dos dois carros apodreceram nas últimas voltas, mas tanto Paul como Nico terminaram muito bem.

MCLAREN2,5 – Um dos pilotos é uma anta e o outro apagou desde as brumas chinesas. Os mecânicos parecem sofrer de esclerose múltipla e o carro, sem aquele degrau medonho, definitivamente perdeu aquela vantagem confortável das primeiras etapas. Em Valência, a equipe de Woking foi para casa com apenas quatro pontos no bolso e uma baita enxaqueca. Jenson Button foi mal de novo e só marcou pontos no final porque foi um dos poucos que não se envolveram em besteiras. Infelizmente, isso não aconteceu com Lewis Hamilton. Ele fez seu trabalho direito, largou na segunda fila e estava em segundo até poucas voltas para o fim. Pastor Maldonado, sempre ele, acabou com sua corrida e seu dia. Antes disso, no segundo pit-stop, um mecânico também fez alguma burrada e atrasou um pouco mais a vida do piloto inglês. Tudo errado.

SAUBER5 – Seus dois pilotos faziam corridas tão opostas que era improvável apontar um destino em comum para eles no fim da corrida. Kamui Kobayashi mandou bem pacas nos treinos, obteve o sétimo lugar no grid de largada e ainda ganhou algumas boas posições no início da corrida. Enquanto isso, Sergio Pérez se complicou no treino oficial e ficou travado no meio do pelotão da merda nas primeiras voltas. Conforme o tempo passava, a fortuna dos dois pilotos se invertia. O japa bateu nos dois pilotos brasileiros, perdeu o bico na primeira porrada e o rumo na segunda. Já Pérez fez a lição de casa direito e conseguiu salvar a honra suíça com dois pontos. O trabalho de pits foi um dos pontos negativos dos sauberianos.

WILLIAMS4 – Você olha para aquele belo carro azul escuro e pensa que ele está sendo subaproveitado por causa de seus pilotos. O venezuelano é rápido e esquizofrênico. O sobrinho apenas faz seu trabalho honesto, e às vezes nem isso. Pastor Maldonado andou muito bem nos treinos e tinha totais chances de chegar ao pódio, mas atirou tudo pela janela ao surrar a lateral da McLaren de Lewis Hamilton numa manobra digna de um buscapé aceso. Bruno também se envolveu em um acidente com Kamui Kobayashi e foi punido por isso. Na minha irrelevante opinião, merecidamente. Marcou um ponto, mas na mais pura cagada. Nesse horário, Frank Williams até suspira de saudade pelos doentios Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher.

TORO ROSSO0,5 – Nunca antes na história deste touro vermelho ele esteve em uma fase tão apagada. Nesta altura, a equipe azulada parece estar mais próxima das agruras da Caterham do que das concorrentes estabelecidas. Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne foram superados por Heikki Kovalainen no treino classificatório e deixaram o sempre agradável Helmut Marko com apenas um olho aberto de reprovação. Na corrida, as coisas não melhoram. Ricciardo não fez nada e Vergne ainda causou um acidente babaca com Kovalainen, o que resultou em um pneu furado e uma merecida multa. A Red Bull já anunciou que o francês, que ganha 400 mil euros por ano, arcará sozinho com os 25 mil euros da multa. Coitado.

CATERHAM7 – Será que ela, após dois anos e meio, finalmente chegou lá? Pelo segundo grande prêmio consecutivo, a equipe verde conseguiu deixar ao menos um Toro Rosso para trás. Neste fim de semana valenciano, foi até melhor: Heikki Kovalainen deixou os dois carros da equipe italiana para trás e ainda enrabou Mark Webber, da poderosa Red Bull Racing. Só que o carma de 2010 se repetiu para ele: um carro rubrotaurino voltou a lhe atingir durante a prova. Dessa vez, Heikki conseguiu seguir em frente e chegou ao final. Menos espetacular, Vitaly Petrov também foi bem e até andou em décimo. Finalizou em 13º, seu melhor resultado até aqui. Numa corrida tão amalucada quanto esta, já dá para apontar a Caterham como uma possível pontuadora.

MARUSSIA2 – Assim como a Caterham, a Marussia também está mudando. Só que para pior. Sem Timo Glock, que comeu dobradinha e foi internado com um nó no estômago, a equipe russa teve de depender unicamente dos esforços do novato Charles Pic. Ele ficou atrás dos dois carros da HRT no treino oficial e ainda foi prejudicado pelo trabalho porco dos mecânicos da Marussia, talvez os piores da categoria. Pelo menos, chegou ao fim e à frente de Felipe Massa. Se muitas coisas não mudarem, não seria de todo descabido pensar que o time soviético poderá ser rebaixado para o honroso papel de lanterninha da Fórmula 1.

HRT5 – Esta daqui também não é nem um pouco genial em se tratando de estratégias de corrida e trabalho nos pit-stops, mas ao menos vem melhorando a cavalgadas. Na sexta-feira, Pedro de la Rosa estampou uma barreira de pneus com força e deu o maior trabalho aos mecânicos, que tiveram de se matar para consertá-lo a tempo para o sábado. Na qualificação, De la Rosa e Narain Karthikeyan deixaram Charles Pic para trás e escaparam da última fila. Os dois terminaram a corrida sem grandes dores de cabeça, embora o indiano tenha sido punido por ser ligeiro demais nos boxes – e só lá.

TRANSMISSÃOAS MALDADES – A transmissão brasileira, que anda iniciando com vinte minutos de antecedência e incomodando aqueles que preferiam assistir às novas técnicas de cultivo de jenipapo, acertou em cheio ao mostrar trechos da corrida de GP2 antes da largada. Pronto: Luiz Razia se transformou no mais novo ídolo instantâneo do automobilismo brasileiro, mas tudo bem. Uma corrida como a desse domingo teve vários momentos de destaque, mas minha memória falha me impede de lembrar deles. A revolta do narrador sobre o acidente entre Bruno Senna e Kamui Kobayashi foi particularmente interessante. É incrível como um cara pode se tornar o maior energúmeno do planeta se bater em um sujeito nascido por aqui. O mais engraçado é que o nacionalismo tacanho extrapola fronteiras. Na Finlândia, há um ex-piloto que faz o trabalho de lobbista de seus compatriotas na Fórmula 1. Por desejar ver Bruno Senna empalado, frito, assado ou morto para abrir uma vaga na Williams para seu protegido, ele angariou a antipatia de um Brasil inteiro. O narrador aqui não deixou barato: “Não há Mika Salo no mundo que me faça acreditar que o acidente foi culpa do Bruno. Vou fazer uma maldade: o reserva da Williams é finlandês e o Mika Salo também é finlandês. Pronto, fiz a maldade”. Não, não foi maldade. Foi apenas uma constatação certeira. Nacionalismo besta versus nacionalista besta. Quem perde somos nós, é claro.

CORRIDAQUEM DIRIA, VALÊNCIA – Alguém poderia imaginar que uma das pistas mais odiadas do calendário atual poderia render uma das corridas mais emocionantes da temporada? Estamos falando da Fórmula 1 2012, onde qualquer bizarrice pode acontecer. Após as divertidíssimas corridas da GP2, todo mundo imaginou que haveria uma chance ínfima de diversão para a prova principal. Mas ninguém esperava tanto. Até antes do acidente entre Jean-Eric Vergne e Heikki Kovalainen, que trouxe o safety-car à pista, o GP da Europa vinha morno como chuveiro vagabundo em dia frio. De repente, os dois líderes, Sebastian Vettel e Romain Grosjean, abandonaram com o alternador alternado e tudo ficou mais legal. Diante de uma torcida alucinada, Fernando Alonso assumiu a ponta e de lá não saiu mais. Atrás dele, as brigas foram inúmeras e intensas. Nomes como Pastor Maldonado e Kamui Kobayashi serviram para deixar as coisas ainda mais picantes. E o pódio foi o máximo. Em suma, somente uma pessoa de caráter duvidoso e inteligência limitada não pôde ver graça neste que foi um dos melhores GPs dos últimos anos.

GP2BORA BAHÊA – No ano passado, Luiz Razia era só mais um participante discreto e sem futuro que servia apenas para encher linguiça na GP2. Neste ano, algum espírito maligno se apoderou de seu corpo e fez do piloto baiano um sério candidato ao título. Em Valência, ele começou mal e só fez o 11º lugar no grid de largada. Numa pista de rua sem grandes possibilidades de ultrapassagem, o fim de semana parecia acabado logo de cara, mas ainda bem que as coisas mudaram logo no sábado. O pole-position James Calado vinha para uma vitória fácil, mas foi prejudicado pela infinita sequência de interrupções com safety-car e acabou ficando para trás. Ganhou Esteban Gutiérrez, que precisou atropelar Giedo van der Garde e foder com Fabio Leimer para se dar bem. Enquanto isso, Razia ganhava posições e terminava em terceiro. No domingo, o piloto de Barreiras passou um monte de gente nas três últimas voltas e saiu da sexta para a primeira posição meio que do nada. Com o resultado, Luiz ficou a apenas um ponto do líder Davide Valsecchi. Nunca um piloto brasileiro esteve tão próximo do título da GP2, essa é a verdade.

GP3OS MAIS PROFISSIONAIS – Por incrível que pareça, a criançadinha da GP3 demonstrou mais profissionalismo e sensatez do que os adolescentes da GP2, que fizeram bobagem atrás de bobagem em Valência. Na corrida de sábado, m verdadeiro sonífero, os pilotos foram econômicos em barbeiragens e as emoções praticamente inexistiram. Quem venceu foi o neozelandês Mitch Evans, que largou na pole e liderou de ponta a ponta. É bom ficar de olho no cara, que fez 18 anos no fim de semana. A corrida de domingo foi um pouquinho mais movimentada. A vitória ficou com o suíço Patrick Niederhauser, mas o destaque fica para a bela briga pelo terceiro lugar, que envolveu uns duzentos pilotos. O cipriota (!!) Tio Ellinas levou a melhor, mas ele foi desclassificado por ter batido no carro de Kevin Ceccon. Com isso, perdeu o troféu do pódio e voltou para Chipre chifrado. O grid de 24 carros não animou ninguém. A GP3 não seduz já faz um bom tempo.

FERNANDO ALONSO10 – Qualquer elogio para este cara é pouco. El Fodón das Astúrias. O melhor piloto do grid atualmente. O cara. A corrida inteligente, agressiva e esperta que fez em Valência, um circuito onde seu retrospecto era risível, foi digna de um desses grandes campeões que todos idolatramos. O mais incrível de tudo é que Fernando havia largado lá da 11ª posição, pois não tinha conseguido sequer vaga no Q3 da classificação. Mas sendo o grande piloto que é, conseguiu superar as adversidades e fez uma de suas melhores corridas na vida. Largou bem, fez ultrapassagens a rodo, foi beneficiado por um trabalho de boxes excepcional da Ferrari e ainda contou com a sorte quando Sebastian Vettel e Romain Grosjean abandonaram. Vitória excepcional, comemoração fantástica, choro tocante. Para mim, e graças a ele, foi uma das melhores corridas que já vi na vida.

KIMI RÄIKKÖNEN8,5 – Fez uma excelente corrida, mas não chamou tanto a atenção como seus outros dois colegas de pódio e ainda saiu insatisfeito, pois achava que poderia ter vencido. Não há como discordar, já que seu carro era realmente muito bom. O ébrio finlandês voltou a largar atrás de Romain Grosjean e também se viu preso atrás de carros mais lentos, como o de Pastor Maldonado, no início da corrida. No fim da corrida, tinha pneus em ótimo estado e conseguiu ultrapassar Lewis Hamilton, assumindo a segunda posição. Em termos de mérito, não merecia tanto este resultado como seu companheiro. Mas o esporte é assim mesmo. Estar na hora certa, às vezes, vale mais a pena que o simples esforço.

MICHAEL SCHUMACHER9 – Foram necessários dois anos e meio e 46 corridas de espera até que este dia chegasse. Após um início de ano tenebroso, repleto de azares, o heptacampeão mundial finalmente obteve um resultado à altura de seu talento. É verdade que o desenrolar foi meio fortuito e o próprio piloto não esperava obter um resultado tão genial, mas ele veio. Michael andou bem nos treinos livres, mas empacou no Q2 da classificação e saiu apenas em 12º. No início da corrida, chegou a ser tocado por outro piloto e se viu preso no meio do pelotão. O que o salvou foi a estratégia de largar com pneus médios e utilizar os macios lá na frente. Nas últimas voltas, tinha um carro bom o suficiente para pular de 11º para terceiro em apenas 16 voltas. Dessa vez, a sorte colaborou e Schumacher pode celebrar seu primeiro pódio desde o GP da China de 2006.

MARK WEBBER8 – Não deixou de fazer uma corrida muito boa, embora a posição no grid de largada tenha sido horrível. Devemos, neste caso, responsabilizar a porcaria da asa móvel, que ficou travada durante o Q1 da classificação. Para tentar contornar o desastre do sábado, o australiano decidiu largar com pneus médios e ver no que dava. Durante a corrida, recuperou-se bastante e andou sempre próximo de Michael Schumacher, que utilizava tática semelhante. No final da corrida, também tinha pneus em ótimo estado e conseguiu ganhar uma baciada de posições, finalizando na quarta posição. Assumiu uma inesperada vice-liderança do campeonato e parece estar recuperando, pelas beiradas, parte do ânimo de 2010.

NICO HÜLKENBERG8,5 – Melhor corrida no ano e melhor resultado na vida. O campeão da GP2 em 2009 vinha devendo um resultado destes, especialmente após as sucessivas boas atuações de Paul di Resta. Em Valência, Nico andou surpreendentemente bem nos dois treinos livres em que participou e qualificou-se numa ótima oitava posição. Deu trabalho para Fernando Alonso nas dez primeiras voltas e apostou numa interessante estratégia de dois stints com pneus médios. No final da corrida, após ter herdado várias posições, chegou a sonhar em ocupar a terceira posição por instantes, mas foi ultrapassado por Schumacher e Webber por não ter mais pneus. Mesmo assim, não tem do que reclamar.

NICO ROSBERG7,5 – Ninguém viu, mas diz a lenda que ele participou da corrida, terminou numa boa sexta posição e ainda fez a melhor volta da prova. O alemão obteve uma interessante sexta posição no grid e prometia uma corrida competitiva, mas ameaçou colocar tudo a perder numa péssima largada. Ele imaginava poder fazer apenas uma parada, mas se viu obrigado a parar pela segunda vez para colocar pneus macios. Não foi uma estratégia ruim assim, já que ele pulou de 11º para sexto nas duas últimas voltas da prova. Mesmo assim, foi, sem a menor sombra dúvida, o mais discreto entre os seis primeiros colocados.

PAUL DI RESTA7,5 – Assim como o companheiro de equipe, também esteve competitivo durante os três dias de grande prêmio, embora não tenha sido tão chamativo. No grid, foi o último colocado do Q3 e largou de uma razoável décima posição. Para o domingo, decidiu apostar em uma ensandecida estratégia de apenas uma parada, com um primeiro stint de mais de 20 voltas com pneus macios, uma doideira só. Deu certo em partes, já que ele perdeu algum tempo antes do pit-stop. No fim da corrida, assim como Nico Hülkenberg, tinha pneus em boas condições até as voltas finais, quando foi ultrapassado por alguns pilotos. Ainda assim, terminou em sétimo e somou mais seis pontos.

JENSON BUTTON4,5 – Sua má fase é um mistério. Nos treinos livres, andou bem mais próximo de Lewis Hamilton do que vinha acontecendo nas corridas anteriores e até ponteou a terceira sessão. Tinha bons prognósticos para o treino classificatório, mas só obteve um discreto nono lugar no grid. Para piorar tudo, largou muito mal e caiu para 13º. Foi o primeiro piloto a fazer seu pit-stop e ficou com pneus médios entre a volta 10 e a bandeirada. Graças a isso, conseguiu ganhar algumas boas posições do nada nas últimas voltas e foi o único piloto da McLaren a pontuar.

SERGIO PÉREZ5,5 – Corrida discreta, mas muito mais eficiente do que a do companheiro de equipe. Voltou a andar mal no treino oficial e só conseguiu a 15ª posição no grid. No domingo, optou por uma estratégia esquisita, como é a regra na Sauber: largar com pneus médios e dar o mínimo de voltas possível para depois fazer dois stints com pneus macios. Não foi a melhor das decisões, mas ele ao menos conseguiu chegar ao fim e marcar dois pontos, coisa que Kamui Kobayashi não fez.

BRUNO SENNA3 – É aquele caso que você não entende muito bem como é que o piloto conseguiu marcar algum ponto. O único grande momento de Bruno Senna no fim de semana foi o quinto lugar no segundo treino livre. Na qualificação, tomou quase sete décimos de Pastor Maldonado no Q2 e teve de largar em 14º. Com uma estratégia de apenas um pit-stop, poderia ter se dado muitíssimo bem, mas causou um acidente estúpido e perigoso com Kamui Kobayashi na volta 20, o que resultou em um pneu traseiro furado e uma posterior punição aplicada pelo comissário Mika Salo, seu nêmesis. Depois disso, o brasileiro apenas tentou se aproveitar dos pneus médios para tentar ganhar algumas posições no finalzinho. Terminou em 11º, mas herdou uma posição a mais com a desclassificação de Pastor Maldonado. Um resultado até bom para um fim de semana magérrimo.

DANIEL RICCIARDO3 – Não consegue marcar pontos nem mesmo em uma corrida onde tudo vira de ponta-cabeça em questão de segundos. Mal nos treinos, o australiano da Toro Rosso apostou tudo em um segundo stint bem longo. Em determinado momento, quando o safety-car estava na pista, chegou a ocupar a quarta posição. Prejudicado pela entrada do carro de segurança, acabou perdendo um monte de posições no segundo pit-stop. Com isso, a chance de pontos evaporou. Fase muito ruim.

PASTOR MALDONADO3,5 – É um especialista em jogar pontos no lixo e estragar corridas perfeitas. Nesse caso, nem adianta muito ser o piloto veloz que é. E olha que ele caprichou aqui: líder no primeiro treino livre de sexta-feira e piloto mais rápido do Q1 da classificação. No Q3, chegou perto da pole-position, mas teve de se contentar com a ainda ótima terceira posição. O domingo foi bem típico de um cara desequilibrado como o venezuelano. Logo na largada, quase se pegou com os dois pilotos da Lotus. Nas voltas seguintes, se complicou com os pneus e foi ultrapassado facilmente por alguns adversários. Só se recuperou no final da corrida, quando tinha pneus em bom estado e era mais rápido que Lewis Hamilton. Só que o cara, cabeçudo como ele só, tentou uma ultrapassagem arriscadíssima sobre Lewis numa curva estreita. Resultado: toque, bico arrebentado e uma bela corrida evaporada. Pastor ainda cruzou em décimo, mas tomou vinte segundos de punição e ficou chupando o dedo. Como seu torcedor, digo o seguinte: bem feito!

VITALY PETROV5 – Não foi mal, mas fez tanto pit-stop nesta corrida que nem deveria precisar parar mais nas corridas restantes deste ano. Uma das quatro paradas foi feita para troca de bico e somente a última delas serviu para o russo colocar pneus médios. Se formos considerar o desempenho individual de Petrov, não há muito o que reclamar. Não foi para o Q2 por pouco e fez uma corrida honesta, sem se envolver em problemas maiores. Em determinado momento, chegou a andar em décimo. É justo que se ressalte, no entanto, que ele só terminou à frente de Heikki Kovalainen por causa da encrenca que o finlandês se envolveu.

HEIKKI KOVALAINEN5,5 – Foi bem pra caramba no sábado, quando conseguiu uma milagrosa 16ª posição no grid. Poderá contar aos netos que deixou nada menos que três carros Red Bull (Webber, Ricciardo e Vergne) para trás na classificação. Na corrida, deu o maior trabalho a Jean-Eric Vergne, mas este lhe deu ainda mais trabalho ao bater na asa dianteira de seu Caterham e estragar sua corrida. Heikki voltou lá no fim do pelotão, mas aproveitou-se dos azares alheios e terminou em 14º. Com o bico inteiro, felizmente.

CHARLES PIC4 – Nunca vou entender a Marussia, que comete erros babacas no pit-stop e ainda faz seu bom piloto francês andar apenas 11 voltas com um set de pneus médios. Charles Pic anda sofrendo pra caramba com a lerdeza ainda pior do que o normal de sua Marussia e voltou a largar atrás dos dois carros da HRT. Na corrida, pelo menos chegou ao fim e ainda deixou as duas diligências espanhóis para trás correndo na casa do adversário. E, olha só, finalizou à frente de uma Ferrari!

FELIPE MASSA1,5 – Fernando Alonso anda bem e é sortudo, Felipe Massa anda mal e é azarado. Esta frase aí é mais do que o suficiente para explicar como um vence a corrida e o outro chega em 16º. O paulista não foi bem nos treinos, mas Alonso também não foi e muita gente passou a enxergar isso como uma positiva aproximação entre os dois. Na classificação, ficou em 13º, a apenas duas posições do espanhol. A corrida começou muitíssimo bem, com uma ótima largada e uma sequência de ataques a Paul di Resta. De repente, a Ferrari perdeu bastante desempenho e Massa se distanciou de Alonso. Como se não bastasse, quando já não tinha chances de pelejar pelas primeiras posições, tomou uma pancada dolorosa de Kamui Kobayashi e teve de ir aos pits trocar o pneu furado. Pelo menos, não morreu e nem cruzou com um gato preto ou uma mola perdida no meio do caminho.

PEDRO DE LA ROSA4,5 – Equipe pequena é uma merda, mesmo. O espanhol quarentão tinha boas chances de ter terminado a corrida à frente de Charles Pic (e, quem sabe, até mesmo à frente de Felipe Massa), mas algum energúmeno na HRT decidiu fazê-lo andar com um único set de pneus macios durante 29 intermináveis voltas. Assim não dá, né? O chato é que Pedro fez um trabalho muito bom, tendo largado novamente à frente da Marussia de Charles Pic e se esforçado ao máximo para fazer os pneus funcionarem. Mas não dá para fazer milagres, mesmo em casa. A propósito, que pancada dolorida aquela da sexta-feira, hein?

NARAIN KARTHIKEYAN3,5 – O indiano estava bem rápido neste fim de semana. Tão rápido que deixou Charles Pic para trás no treino oficial, escapando da última fila. Tão rápido que até punição por excesso de velocidade nos pits ele tomou. Seu Narain, rapidez não é tudo, ainda mais quando não se tem um carro veloz. Exatamente por isso, ele só tentou levar o carro até o fim sem problemas. Fez seu serviço.

LEWIS HAMILTON8 – Esse cara, definitivamente, nunca terá tranquilidade em sua carreira na Fórmula 1. Neste fim de semana, ele trabalhou direito, não fez bobagens e seu único crime foi não ter cedido espaço ao perigoso Pastor Maldonado nas últimas voltas. Chega a ser, sei lá, meio revoltante. No treino classificatório, Lewis obteve uma boa primeira fila ao lado de Sebastian Vettel. Partiu bem e manteve a segunda posição, mas tomou uma boa ultrapassagem de Romain Grosjean ainda no começo e teve de parar nos pits para colocar pneus médios. Após o safety-car e o abandono de Vettel, voltou à segunda posição e parecia destinado a terminar por lá. Só que ele não contava com o desgaste de pneus, que possibilitou a ultrapassagem de Kimi Räikkönen e as investidas de Maldonado, uma das quais resultou no acidente. Com isso, Hamilton ficou bem longe da liderança do campeonato. Sem culpa no cartório, diga-se de passagem.

ROMAIN GROSJEAN9 – Se Fernando Alonso não existisse, eu diria que o franco-suíço foi o piloto mais impressionante da corrida. Sua evolução é notável. Fica provado que quando ele sobrevive aos primeiros metros, é capaz de fazer maravilhas com a Lotus. Neste domingo, quase que isso não aconteceu: ele chegou a se bicar com Kimi Räikkönen nos primeiros metros e poderia ter causado um belo e custoso acidente doméstico. Nas primeiras voltas, Romain atacou Lewis Hamilton e chegou a ultrapassá-lo na volta 10. Após o safety-car retornar aos boxes, ele ganhou a posição de Sebastian Vettel e perdeu uma para Fernando Alonso, mantendo-se em segundo. Infelizmente, a merda do alternador quebrou e a corrida acabou para ele na volta 40.

SEBASTIAN VETTEL9,5 – Se os deuses da velocidade não fossem asturianos, a vitória neste GP da Europa seria a 23ª da carreira do bicampeão alemão. Sua pole-position, com três décimos de vantagem sobre o segundo numa pista onde todo mundo estava andando embolado, foi humilhante. A largada foi limpa e tranquila, assim como o decorrer da corrida. Antes do safety-car, ele já tinha aberto quase 20s para Romain Grosjean. Vettel entrou nos boxes, fez sua parada e voltou para a pista pronto para prosseguir com o desfile até a bandeirada. Mas o alternador não deixou. E Vettel, sempre cirúrgico, teve de deixar o caminho livre para a vitória de Alonso.

KAMUI KOBAYASHI4 – Se dependesse somente da velocidade mostrada em pista, mereceria uma nota até acima de oito. Como a Fórmula 1 também envolve variáveis como cérebro, prudência e até mesmo sorte, fui obrigado a rebaixar a avaliação. O japa mandou bem no treino oficial e obteve um ótimo sétimo lugar no grid. Na largada da corrida, foi melhor ainda e subiu para quarto. Mas as coisas começaram a dar errado a partir do primeiro pit-stop, quando um mecânico teve problema com uma das rodas e perdeu um bocado de tempo. Kobayashi voltou à pista no meio do pelotão e teve de remar para tentar recuperar posições. Em uma dessas brigas, bateu em alta velocidade com Bruno Senna e teve de ir aos boxes fazer reparos. Não demorou muito e ele se envolveu em outro acidente, dessa vez com Felipe Massa. Dessa vez, os danos foram extensos e Kamui teve de abandonar. Pô, cara, se não gosta de brasileiro, é só não chegar perto!

JEAN ERIC-VERGNE1 – Treinos horrorosos, corrida pior ainda. O francês definitivamente não se dá bem com esse negócio de andar o mais rápido possível contra o cronômetro. No treino oficial, apanhou de uma Caterham novamente e não perdeu para Vitaly Petrov por pouco. Na corrida, irritado com aqueles carros esverdeados, perpetrou um acidente bobo com Heikki Kovalainen e destruiu um dos pneus traseiros de seu carro, causando o safety-car que mudaria a vida de muita gente. Esta foi a única coisa de bom que o francês fez durante o fim de semana.

TIMO GLOCKS/N – É injusto dar uma nota a alguém que não teve sequer condições físicas de participar do treino oficial e da corrida. Diagnosticado com uma infecção estomacal, o alemão só participou dos três treinos livres e terminou dois deles em último, mostrando que não tinha condições sequer de jogar peteca. Arregou no treino oficial e preferiu nem dar as caras no autódromo no domingo. Diante da assombrosa possibilidade de caganeira no cockpit, fez bem.

GP DA EUROPA: Deixa eu dizer uma coisa que não consigo entender nas mentes obscuras das pessoas por aí. Todo mundo elogia Long Beach, o circuito praieiro, guerreiro e californiano que realiza corridas de Fórmula Indy desde os anos 80. Aí vem o Hermann Tilke e cria um circuito parecido, com algumas curvas de alta velocidade, um miolo absurdamente travado e muros altos. E o povo, o mesmo povo que se delicia com Long Beach, reclama e diz que a pista valenciana é a maior bosta que o arquiteto alemão criou na vida e na morte. Para mim, é o mesmo raciocínio de quem diz não gostar do sertanejo universitário atual porque acha que Leandro e Leonardo e suas músicas choradas são melhores. Valência, o Michel Teló dos circuitos atuais, é injustiçado porque surgiu na época errada. O engraçado é que em 2008, primeiro ano de existência da pista espanhola, muita gente elogiou o traçado, incluindo aí Felipe Massa. Mas nada como um amontoado de corridas ruins para mudar a cabeça de todos, ainda que Spa-Francorchamps e Suzuka estejam entregando provas tão enfadonhas quanto. A situação financeira da Espanha também não ajuda. Neste ano, os organizadores disponibilizaram apenas 45 mil ingressos para a corrida, 20 mil a menos que no ano passado e 55 mil a menos que em 2008. Mesmo assim, apenas 38 mil foram adquiridos, a maior parte deles por estrangeiros em melhor saúde monetária. Sem contar com a simpatia dos fãs e a grana ilimitada do governo, Valência só voltará a aparecer no calendário revezando o GP da Espanha com o circuito de Barcelona. Isso se as coisas não piorarem ainda mais.

ALONSO: Uma das coisas que mais me impressionam em Fernando Alonso é a capacidade de comentar assuntos espinhosos com a maior naturalidade do planeta, extrapolando qualquer limite imaginável de cara-de-pau. Eu, que torço por ele desde 2001, não ligo para isso. Vejo nele uma mistura de Michael Schumacher com Alain Prost que consegue ser ainda mais descarada. Durante a coletiva de pilotos nesta sexta, o asturiano fez alguns comentários sobre como a Ferrari funciona. “Qualquer que seja o meu companheiro, não haverá problemas e nós trabalharemos com ele da mesma forma que fazemos hoje com Felipe”, afirmou acreditando piamente que um GP da Alemanha de 2010 acontece todo dia com todo piloto. Sobre Massa, ele fez outro comentário que transita entre o amigável e o desdenhoso: “ele não é um mau piloto, embora, olhando por fora, até possa parecer”. Puxa, como ele é legal. Um elogio destes me faria sair de casa com uma sacola na cabeça. Por fim, de maneira sutil, Alonso explicou qual é a sua real influência na hora da Ferrari escolher um segundo piloto: “no passado, isso não acontecia. Aqui na Ferrari, acontece. Eu apareço na Itália toda semana e me encontro com Stefano Domenicali de vez em quando. Nós falamos sobre o futuro da Fórmula 1, o desenvolvimento dos carros e o futuro dos meus companheiros de equipe”. É isso aí. Alonso manda e tem juízo quem obedece.

OITO: Jenson Button, Fernando Alonso, Nico Rosberg, Sebastian Vettel, Pastor Maldonado, Mark Webber e Lewis Hamilton. Falta mais alguém? Difícil dizer. Nunca antes na história desta Fórmula 1 houve uma temporada que teve sete vencedores diferentes nas sete primeiras corridas. Valência, neste próximo domingo, será a oitava corrida. É improvável que o recorde seja ampliado, pois não há mais ninguém que tem condições claras de vitória. Michael Schumacher já ganhou umas noventa vezes, mas anda tão azarado que é melhor apostar que uma horda de alienígenas bárbaros e assassinos invadirá a pista no caso dele estar liderando a última volta. Romain Grosjean poderia ser uma boa aposta, mas ninguém garante que ele esteja apto a sobreviver à quarta volta da corrida. Kimi Räikkönen é diletante e sossegado demais para isso. Sergio Pérez passou perto da vitória na Malásia, mas precisaria de um novo fim de semana genial e a permissão da Sauber para ganhar sua primeira corrida. Kamui Kobayashi vencendo seria o sonho de todos, mas isso infelizmente não acontecerá tão cedo. E Felipe Massa, infelizmente, não tem mais condições para ganhar alguma coisa. Aposto na vitória de Alonso, que se dá bem porque é mais esperto e cuzão que os demais.

TORO ROSSO: Ela não me surpreende mais. Na verdade, fiquei apenas assustado pelo clima ter azedado mais cedo do que eu imaginava. Nesses últimos dias, o caolho Helmut Marko não moderou a língua e destilou a primeira flecha contra o novato Jean-Eric Vergne: “ele é muito selvagem. Não há nada de errado em ser agressivo, mas a agressividade dele precisa ser controlada”. Marko é isso aí, um sujeito de visão pouco apurada que acha que pilotos bons são apenas aqueles que ganham com um Toro Rosso. Como Vergne não passou nem perto disso, a crítica mordaz dá as caras. É verdade que o francês anda precisando apertar um pouco mais o pedal do acelerador nos treinos oficiais, mas é igualmente verdadeira a incômoda lerdeza do STR7. E os dois pontos a mais que Jean-Eric possui a mais que Daniel Ricciardo também não são fictícios. Mas o ambiente definitivamente pesou. O próprio Ricciardo já andou alfinetando o companheiro, dizendo que ele “anda bem em corridas porque tem pneus novos para gastar, já que ele não os usa nos treinos”, ironia referente ao fato de Vergne sempre sobrar no Q1. A guerra entre os dois moleques está a um pavio de ser iniciada, para deleite sádico do pouco visionário Helmut Marko.

COSWORTH: Fico triste a cada ocasião em que um resquício do passado fica definitivamente para trás. Algumas coisas deveriam ser proibidas de decaírem. A Williams era uma delas. A Cosworth, inglória fornecedora de motores da Marussia e da HRT, é outra. Nesta semana, representantes de duas prováveis fornecedoras de motores a partir de 2014 demonstraram ceticismo acerca da permanência da fábrica fundada por Mike Costin e Keith Duckworth na Fórmula 1 a médio prazo. Um diretor da Renault, que poderá fornecer motores para até seis equipes em 2013, afirmou que “a Cosworth está acabada, pois não consegue fazer mais nada hoje em dia”. Como discordar? Outra voz pessimista foi a de Craig Pollock, o sujeito sempre honesto e idôneo que lidera o projeto PURE, provável quarta fornecedora de motores a partir de 2014: “a Cosworth não possui capital tecnológico para permanecer na Fórmula 1. Ela é um dinossauro que poderá ser extinto em breve”. Difícil apontar qualquer tipo de maldade pura nas declarações acima. Infelizmente, a Fórmula 1 não é uma coisa sustentável para ateliês mantidos unicamente pela paixão e pela tradição. Os dias de Jackie Stewart ganhando títulos a rodo com um DFV barato, confiável e veloz viraram lenda. O negócio é tomar um antiácido e tentar sorrir com a chegada da empresa de Blergh Pollock.

MCLAREN7 – Não é porque Lewis Hamilton ganhou a corrida que a equipe merecerá lá uma grande nota. O campeão de 2008 fez boa parte do trabalho pesado e poderia ter perdido a corrida em mais um erro cometido no trabalho de pit-stop, mais precisamente na roda traseira direita. Na verdade, a turma de Woking deve agradecer e muito pela pilotagem de Hamilton, pois o carro estava longe de qualquer brilhantismo em Montreal. O companheiro Jenson Button foi um exemplo claro dessa dificuldade. Largou em décimo e terminou, vixe, lá na conchinchinésima posição, com enormes problemas nos pneus. É uma equipe que anda fazendo de tudo para se complicar.

LOTUS7,5 – Se querem saber, o resultado de Montreal foi bastante fiel à realidade da equipe preta e dourada. Não tem carro para peitar diretamente as equipes de ponta, mas pode apostar em estratégias mais heterodoxas e sabe que seu piloto mais veloz atualmente é Romain Grosjean, que só precisa parar de fazer merda nas primeiras voltas. O suíço largou em sétimo e obteve um segundo lugar sensacional por ter parado para colocar pneus macios mais cedo. Kimi Räikkönen, sempre mais badalado, esteve sumido novamente. Tentou uma estratégia mais ou menos oposta à de Grosjean ao parar mais tarde que os demais, mas não conseguiu nada além do oitavo lugar.

SAUBER8 – Kamui Kobayashi pode até se esforçar muito e andar mais rápido, mas o cara que obtém os resultados mais expressivos para a esquadra de Peter Sauber se chama Chapolin Colorado, também conhecido com Sergio Pérez Mendoza. O mexicano não vinha bem no fim de semana, mas decidiu parar mais tarde que os demais e acabou varrendo a concorrência até chegar ao pódio. Koba dançou, pois optou por uma estratégia mais conservadora e não passou do nono lugar. De brilhos esporádicos em 2012, a Sauber vai seguindo na dignidade.

RED BULL7,5 – Tinha o melhor carro neste fim de semana novamente, o que poderia indicar um período de recuperação dos rubrotaurinos em relação ao início do ano. No entanto, não conseguiu nem mesmo o pódio. Sebastian Vettel deu as cartas nos treinos e largou na pole-position, mas ficou para trás no trabalho de boxes de sua equipe e na estratégia furada que o fez sofrer com pneus ruins durante várias voltas na segunda metade da prova. Mark Webber não apareceu e ainda terminou pior do que começou. Em Montreal, a esquadra sofreu da síndrome mclarenística que alija favoritos das primeiras posições.

FERRARI5,5 – É uma equipe que não está tão mal como parecia, mas que também não dá para confiar durante todo o tempo. No Canadá, os dois pilotos voltaram a sofrer com o alto desgaste dos pneus Pirelli e terminaram a corrida tomando ultrapassagens de tartarugas e preguiças. Fernando Alonso ainda deu uma de Schumacher e, em trabalho conjunto com os mecânicos, conseguiu assumir a liderança da corrida por alguns instantes após algumas voltas voadoras. Uma pena que os pneus e o baixo desempenho nas retas impediram o espanhol de obter algo melhor que a quinta posição. Felipe Massa não apareceu tão mal, mas a rodada e a questão dos pneus não ajudaram muito.

MERCEDES4 – Michael Schumacher saiu da corrida graças a um problema digno de HRT. A danada da asa móvel de seu W03 travou graças a um problema hidráulico e Schumi não pôde continuar, dando adeus a mais uma corrida neste ano infeliz. Como nos velhos tempos, os mecânicos tentaram resolver o abacaxi com a mais primitiva das soluções: a porrada. Não deu e o alemão mais velho teve de continuar assistindo à corrida por uma televisão Sharp. Nico Rosberg, como sempre, salvou as honras da casa e terminou em sexto. Mas ele também teve lá suas dores de cabeça com um carro lento no início da corrida. É outra escuderia a quem não se deve dar muito crédito mesmo nos bons momentos.

FORCE INDIA3 –Está aí uma equipe que tinha carro, pilotos e condições para ter saído de Montreal com vários pontos na conta-corrente, mas que terminou o fim de semana com uma mão na frente e outra atrás. Paul di Resta tinha como trunfo maior a boa oitava posição no grid. Nico Hülkenberg, por outro lado, havia optado pela estratégia mais eficaz, a de largar com pneus macios. Ambos se deram fragorosamente mal com o desgaste dos pneus e terminaram fora da zona de pontuação. O escocês desapareceu logo após seu primeiro pit-stop. O alemão em momento algum esteve em uma boa posição e ainda foi prejudicado pela equipe nas duas paradas.

WILLIAMS1 – Horrorosa a corrida da equipe de Grove, horrorosa! Os pilotos não colaboraram, o carro não colaborou, os mecânicos não foram tão ágeis, os muros canadenses não colaboraram e a sorte também não deu as caras. Pastor Maldonado se complicou com um câmbio quebrado (pelo segundo fim de semana consecutivo) e um erro na qualificação. Bruno Senna bateu sozinho em um dos treinos livres, largou lá atrás e passou boa parte da corrida atrás de gente da Caterham. Pelo menos, os dois sobreviveram às agruras típicas de Montreal e chegaram ao fim. Mas atrás de muita gente.

TORO ROSSO2 – Anda numa fase complicada. Os dois pilotos, reconhecidamente bons, sofrem como porcos no abate no sábado e não conseguem se recuperar na corrida. O pior é que cada um deles parece se complicar mais em um determinado dia. Enquanto Jean-Eric Vergne se embanana no treino oficial, Daniel Ricciardo costuma por tudo a perder na corrida. O francês largou atrás dos dois carros da Caterham e, por isso, mereceu ter terminado lá atrás. O australiano errou feio na primeira curva e não tem muito o que comentar. Com um carro ruim e uma estratégia sem-graça, a Toro Rosso passou mais uma em branco.

CATERHAM6 – Apareceu muito bem, até. Tudo bem, não estamos esperando que ela brigue pau a pau com as equipes do meio do pelotão, mas os esverdeados conseguiram até mesmo largar à frente de um Toro Rosso que não teve problemas. Na corrida, Heikki Kovalainen meteu-se no meio dos carros de Toro e Williams e pôde experimentar um pouco a vida de um piloto minimamente competitivo, assim como aconteceu em Mônaco. Vitaly Petrov não foi tão bem assim, mas chegou ao fim da corrida. Muito, mas muito lentamente, se aproxima das equipes mais tradicionais.

MARUSSIA0 – Seu maior pesadelo virou realidade. Pela primeira vez em três anos, a equipe preta e vermelha deixou uma impressão ainda pior do que a arquirrival HRT. No primeiro treino de sexta, para se ter uma ideia, Timo Glock e Charles Pic dividiram as duas últimas posições na tabela. No treino oficial, os dois ficaram atrás de Pedro de la Rosa por uma margem razoável. Na corrida, somente Pic chegou ao fim, pois o alemão teve problemas nos freios. E o trabalho nos pits foi pura vergonha alheia: dois dos três piores tempos de parada se referiram exatamente aos trabalhos nos carros de Glock e Pic. Muito feio.

HRT6 – Chupem, detratores. O que aqueles que diziam que a equipe não sobreviveria, que nunca conseguiria sair das últimas posições, pensaram após este fim de semana? Em todos os treinos, ao menos um carro espanhol deixou os dois da Marussia para trás. E o mais legal é que, no treino oficial, Pedro de la Rosa ficou a menos de um segundo do Toro Rosso de Jean-Eric Vergne. Uma pena que o outro bólido seja ocupado por Narain Karthikeyan, que definitivamente não tem cancha para explorar o máximo a evolução da equipe. Uma pena também que os dois abandonaram em questão de minutos por causa de problemas nos freios. A HRT, apesar de tudo, ainda é um time nanico e problemático.

TRANSMISSÃODANÇA IMPRESSIONANTE – Corrida narrada pelo Sr. Impressionante é uma coisa linda de se ver. Tudo é bonito, tudo é legal, as flores estão sempre coloridas, os coelhinhos pulam pelo vale verdejante, o carrinho vermelho duela com o carrinho prateado e o “Regi” sempre sabe das coisas. Que os leitores me perdoem, mas o narrador titular da transmissão brasileira faz falta, e como. Mas já que ele estava ocupado com jogos de ludopédio, a tarefa acabou sobrando nas mãos do segundão. Não me lembro de nada muito escabroso ou engraçado, talvez apenas o “Reginaldo, você já se inscreveu para a Dança dos Famosos”. A resposta de “Regi” foi uma risadinha amarela, meio que com vontade de tomar um gole de estricnina por ouvir tal pergunta. Devo destacar, no entanto, o bom espaço que a emissora oficial anda dando à Fórmula 1, com a geração de imagens sendo iniciada cerca de vinte minutos antes. Diz-me um passarinho azedo, fonte de lá de dentro, que a intenção da supracitada emissora realmente é emular a qualidade oferecida pelas televisões de outros países. Curiosamente, uma das transmissões inspiradoras seria a dos EUA, que nem tem tanta tradição de Fórmula 1 assim. Mas falei.

CORRIDADEZ ÚLTIMAS VOLTAS – As últimas corridas em Montreal vinham sendo pautadas pelo nonsense total. É chuva que não acaba mais, é acidente de piloto polonês, é asfalto que se desfaz, é piloto batendo em outro nos boxes, é nego sendo punido por sair dos boxes com a luz vermelha e a lista não para. Neste domingo, as coisas ficaram um pouco mais tranquilas. Ninguém bateu, a primeira curva foi mais ou menos limpa, a chuva não deu as caras e quase todos estavam comportados no início da corrida. Até parecia que a gente terminaria o dia chateado com a falta de ação. Mas eis que as coisas mudaram drasticamente nas últimas voltas. Os apuros que os dois primeiros, Alonso e Vettel, passavam com os pneus dariam uma graça especial ao grande prêmio. Lewis Hamilton parou nos boxes para colocar pneus novos e ganhou a corrida graças a esta decisão. Outros também se deram muito bem no final, como Romain Grosjean e Sergio Pérez. No fim, todos ficaram contentes. O GP do Canadá nunca decepciona.

 

A matéria acima não tem nada de espetacular. Nela, a repórter global Mariana Becker faz uma interessante entrevista com o venezuelano Pastor Maldonado, vencedor do GP da Espanha e uma das boas surpresas desta temporada de 2012. À beira do Mediterrâneo, sentado numa confortável varanda monegasca, Maldonado tece alguns comentários sobre a vitória em Barcelona, a descrença dos críticos, a relação com Bruno Senna e até mesmo as suas habilidades linguísticas – segundo o venezuelano, ele fala espanhol, italiano, inglês e um pouco de português e francês. Sou meio maldoso. Pelo que já escutei, seu inglês é digno de um chimpanzé.

Esta reportagem, olhando à primeira vista, não tem nada de mais. A repórter em questão é regiamente remunerada para viajar ao redor do mundo e perguntar frivolidades a pilotos e poderosos da Fórmula 1 – um emprego que eu não hesitaria em aceitar. Quando a Maldonado, trata-se de um piloto muito bem articulado e até simpático. A entrevista, por si só, é inocente. Mas o contexto que a rodeia pode indicar uma nova era no relacionamento entre Globo, Fórmula 1 e espectador brasileiro.

O programa que exibiu esta entrevista foi o Esporte Espetacular, aquele que exibe jogos interplanetários de verão e qualquer esporte onde haja a possibilidade de acionar a vinheta BRASIL-SIL-SIL. Ele dura três horas. Em tese, dá para enfiar qualquer coisa num programa tão longo e tão voltado para um tema específico. Mas a realidade não é bem esta. Geralmente, quem acorda cedo aos domingos e se aventura a ligar a televisão se depara com bonecos infláveis apatetados, histórias emotivas sobre jogadores de Caiocó da Pindaíba que vão parar num grande clube do Sudeste e banalidades do tipo. Embora seja um espaço aparentemente grande e democrático para o esporte, ele só se resume a apresentar mais do mesmo.

Por isso que a reportagem sobre Pastor Maldonado me impressionou. Ela durou pouco mais de quatro minutos, uma eternidade em se tratando de um esporte que já não cativa mais ninguém no Brasil e um piloto que, oh, não é brasileiro. Até algum tempo atrás, só poderíamos imaginar na telinha global Felipe Massa falando de seu filho gorduchinho ou Bruno Senna bisbilhotando os karts velhos de seu tio na fazenda da família. Piloto estrangeiro é tabu. É proibido. Se torcemos contra eles, por que daríamos espaço a um inimigo?

Pelo visto, a filosofia andou mudando um pouco lá em terras cariocas. A Globo começou a perceber que se nada fosse feito, sua Fórmula 1 não demoraria muito para se tornar um dos grandes micos de sua programação. Na verdade, o caminho já estava sendo devidamente trilhado. Vamos falar um pouco de números. Audiência.

No GP da Austrália, primeira etapa da temporada, o IBOPE registrou média de 5,8 pontos. Em 2011, a pontuação média havia sido de 7,5.

Na Malásia, foram registrados 6 pontos de audiência. Na China, a coisa piorou: 5 pontos, um dos piores registros de audiência da Globo no ano. Tudo bem, todas estas etapas foram realizadas de madrugada, vamos dar um desconto. Quem sabe as coisas não melhoram nas corridas matutinas?

Não melhoraram tanto assim. No Bahrein, a média foi de 9,4 pontos. Na Espanha, a Globo teve 11 pontos no IBOPE. Por fim, as elegantes ruas de Mônaco só atraíram parcos 10,1 pontos.

Em relação ao mesmo período do ano passado, a média de audiência das seis primeiras etapas foi 15% menor. Por sua vez, os números de 2011 já eram considerados baixos em relação aos anos anteriores. No ano passado, a média no IBOPE durante toda a temporada foi de 10 pontos. Em 2008, ano em que Felipe Massa quase foi campeão, ela era de 17 pontos. Nos tempos de Ayrton Senna, aqueles em que praticamente todo mundo fazia questão de acordar cedo para ouvir a surrada musiquinha, o IBOPE registrava números monstruosos, algo em torno de 40 pontos nas melhores corridas. Outros tempos.

Você, que odeia matemática, não deve ter tido dificuldades para entender que a audiência está decaindo rapidamente. Isso, obviamente, dói no bolso da Rede Globo. Segundo a mídia especializada, a emissora carioca só conseguiu reajustar as cotas de patrocínio para a Fórmula 1 em apenas dois milhões de reais cada, de 60 para 62 milhões de reais. Ainda que não deixe de ser uma grana bruta, trata-se de um mau sinal para aquele que é considerado um dos produtos mais sofisticados e valorosos de sua grade de transmissão.

Sem audiência, a Fórmula 1 tenderá a perder seus anunciantes. Com isso, a Globo terá menos razões comerciais para continuar torrando algumas horas de sua programação no fim de semana com carros rumando a lugar nenhum. Para nós, os tontos que acordam cedo para se embriagar com este tipo de diversão infrutífera e duvidosa, esta sequência de fatos poderia até mesmo significar o fim da festa. Teríamos de tentar acompanhar a categoria em outro canal. Ou, pior ainda, nos contentar com alguma transmissão perdida na internet.

Para nossa alegria, me parece que a Globo não tem o menor interesse em perder a Fórmula 1. Trata-se de um negócio ainda bastante vantajoso para ela. Veja bem: que outra atração poderia atrair mais de 300 milhões de reais anuais de patrocínio e uma audiência média de 10 pontos em horários completamente obscuros? Nem mesmo o Esporte Espetacular velho de guerra obtém números tão notáveis. Além disso, o GP do Brasil é um de seus eventos oficiais. Uma Fórmula 1 desinteressante significaria um grande prêmio enfraquecido.

Por isso que a Fórmula 1, aconteça o que acontecer, nunca será maltratada na telinha global. Se for preciso, mais grana, tempo e recursos técnicos e humanos serão investidos para recuperar ao menos parte do interesse do Homer Simpson (utilizando o vocabulário do âncora de cabelo bicolor) pelas corridas.

No GP de Mônaco, a Globo decidiu aprimorar a qualidade e a profundidade da transmissão da categoria. Coisas pequenas, mas marcantes. Narrador e comentaristas começaram a ser mostrados, talvez para dar um ar maior de proximidade entre quem passa a informação e o fato propriamente dito. Lá no autódromo, Mariana Becker passou a ter mais liberdade e agora faz matérias e entrevistas até mesmo de dentro do grid de largada. Mas o mais interessante é esse negócio da transmissão ser iniciada vinte minutos antes da largada. Agora, será possível até mesmo exibir algumas curiosidades sobre a Fórmula 1 e falar algumas bobagens a mais para animar o telespectador. Nem mesmo o futebol anda tendo este tipo de regalia. Tudo para salvar a categoria no Brasil.

As mudanças, num primeiro momento, não surtiram efeito na audiência, mas o trabalho será realizado a médio prazo. É uma iniciativa louvável. A Globo percebeu pela primeira vez que não adianta mais depender apenas do desempenho dos pilotos brasileiros, pois eles estão fodidos na conjectura atual. Felipe Massa anda se contentando com um sexto lugar e Bruno Senna tem o simpático mas perigoso costume de assumir todos os seus erros, que não são poucos. O sujeito que gozava vendo Ayrton Senna e Nelson Piquet ganhando título atrás de título não quer saber: para ele, brasileiro bom é quem chega em primeiro e ponto final. Se chegou em segundo ou em posição pior, nem adianta torcer porque é perda de tempo. Embora somente gente cretina e analfabeta pense assim, a Globo sabe que seu espectador médio é exatamente assim. Pode ela se dar ao luxo de desagradá-lo? Claro que não.

Por isso que a emissora está tentando outras táticas. Uma delas é exatamente esta de tornar a própria transmissão mais rica e interessante. A outra é tentar desviar a atenção destinada inicialmente aos pilotos brasileiros para qualquer outra coisa. Por exemplo, o próprio Pastor Maldonado, latino como um tupinquim e vencedor de corrida. Se o cara tem mais semelhanças do que diferenças, por que não apoiá-lo? Mais ainda: por que não criar um novo ídolo sul-americano, o cara que peita os europeus arrogantes, acerta seus carros e obtém bons resultados quando sobrevive? Não acho que seja loucura pensar assim. Não quando Mariana Becker faz uma matéria de quatro minutos sobre ele e Galvão Bueno se empolga ao narrar sua vitória em Barcelona.

Para nós, que gostamos um pouquinho mais deste esporte besta do que o resto da humanidade, a mudança no enfoque da cobertura poderá ser bastante interessante. Uma transmissão mais caprichada, longa e detalhada nunca é ruim para quem gosta. Vale lembrar que, até uns dez anos atrás, a Globo até costumava ter um esmero maior com a Fórmula 1. Me lembro de várias corridas lá pelos idos de 1999 e 2000 que iniciavam quinze minutos antes e apresentavam matérias e boletins sobre a história da categoria, os bastidores ou simplesmente o que pintava de novo. E as próprias reportagens na programação da Globo eram bem melhores do que as de uns tempos para cá, que não chegam a durar um minuto inteiro e mal apresentam os três pilotos que sobem ao pódio.

Abro minha memória. Antes do GP da Alemanha de 1999, foi mostrada uma pequena matéria sobre todos os imprevistos ocorridos nas etapas anteriores que bagunçaram o campeonato até ali. No GP da Bélgica do mesmo ano, exibiram uma reportagem apresentando o circuito de Spa-Francorchamps. Teve até mesmo repeteco do engavetamento de 13 carros do ano anterior. Na mesma corrida, fizeram um infográfico apresentando a provável lista de participantes da temporada seguinte.

No ano seguinte, estas matérias especiais foram exibidas em apenas algumas corridas. No GP de Mônaco, a Globo pôde mostrar algumas reportagens especiais sobre a história do circuito citadino graças a um acidente que havia interrompido a primeira largada. Foi nesse dia que eu vi, pela primeira vez, a capotagem de Patrick Tambay na Mirabeau em 1986. Pouco antes do GP do Japão, foram exibidas imagens sobre os títulos de Ayrton Senna em 1990 e 1991, ambos obtidos em Suzuka. Se você se lembrar de mais reportagens e matérias legais daquela época, pode postar aqui.

Com o passar do tempo, este tipo de regalia acabou sumindo das transmissões de Fórmula 1. Houve, é claro, exceções: todo mundo aqui viu pela primeira vez a célebre briga entre Raul Boesel e Chico Serra num pequeno flashback apresentado antes do GP do Canadá de 2007. Mas essas matérias apareciam de vez em quando e de maneira arbitrária.

Fora isso, a Globo investia pesado em programas especiais sobre a Fórmula 1 num passado um pouco mais remoto. Quem não se lembra do Sinal Verde, aquele boletim que costumava passar antes do Jornal Nacional de sábado apresentando informações sobre a corrida do dia seguinte? Os mais idosos hão de se lembrar dos especiais que a emissora apresentava no início e no final das temporadas, fazendo uma retrospectiva da temporada que passou ou apresentando o ano que estava por vir. Keke Rosberg viu um destes especiais e fez um comentário que encheu o jornalista Reginaldo Leme de orgulho na época: “você vive me entrevistando por aí e eu nunca tinha visto o resultado destas entrevistas. Agora que eu vi, quero cumprimentá-lo porque é o tipo de programa que deveria ser feito em todos os países onde tem Fórmula 1”. Você, que sempre desanda a falar mal da cobertura da Rede Globo, poderia imaginar que o campeão mundial de 1982 teve opinião contrária?

Vamos ver até onde vai esta guinada da transmissão global rumo à qualidade apresentada pelas emissoras britânicas. É talvez a maior aposta que a empresa brasileira já fez para tentar segurar o sucesso da Fórmula 1 por aqui. Sinal de que ela não vai desistir tão cedo do seu circo. Nem que todo mundo seja obrigado a pintar o rosto de azul, amarelo e vermelho enquanto reza pelo pastor.

RED BULL9,5 – Em uma temporada onde todas as equipes têm seu fim de semana dos sonhos, Mônaco pertenceu aos touros avermelhados: Mark Webber foi o grande vencedor e Sebastian Vettel foi um dos grandes nomes da corrida. O australiano herdou a pole-position a partir da punição de Michael Schumacher e permaneceu na liderança até o fim. Já Vettel brilhou com uma excelente estratégia de fazer um primeiro stint bem longo com pneus macios. Beneficiado pelo excelente trabalho da Red Bull nos pits, conseguiu ganhar duas posições e terminou em quarto. Mesmo sem ter o melhor carro do ano, a Red Bull já lidera o campeonato de construtores com facilidade.

MERCEDES8 – O velho pode até ser heptacampeão, tirar seus coelhos da cartola e arrancar uma pole-position do nada, mas quem anda pondo comida à mesa é Nico Rosberg, segundo colocado na prova. O alemão mais menininha do grid largou da segunda posição e tão somente escoltou o vencedor Mark Webber, sendo bastante conservador e consciente. Sem sua pole-position, Michael Schumacher teve um domingo do cão. Foi tocado por Romain Grosjean na largada e voltou a ter problemas no carro, desta vez relacionados à bomba de combustível. Em compensação, o trabalho nos pits anda muito bom. Com Schumacher, seus mecânicos fizeram o melhor pit-stop do ano: 3s2.

FERRARI8,5 – Estou vendo que esse negócio de carro vermelho ruim é o maior mito do ano até aqui. Se o F2012 é tão desastroso assim, como é que Fernando Alonso chega ao pódio e assume a liderança isolada do campeonato? E como Felipe Massa obtém um sexto lugar após uma corrida razoavelmente forte? O brasileiro chegou a dar calor a Alonso na primeira metade da corrida, mas acabou perdendo uma posição para Vettel após o pit-stop. Fernando das Astúrias, por outro lado, foi o oportunista rabudo de sempre. Os cavalos rampantes definitivamente já tiveram dias piores.

MCLAREN2 – Quem teve um fim de semana daqueles foi a McLaren. Dessa vez, não teve pole-position de Lewis Hamilton, que não anda lá em uma grande fase. Para piorar, seu companheiro parece estar mergulhado num inferno astral ainda pior. Hamilton ao menos largou em terceiro e terminou em quinto, embora tenha penado novamente com o precário serviço de boxes da equipe. Button sequer avançou ao Q3 da classificação e perdeu uma corrida inteira atrás do Caterham de Heikki Kovalainen. No fim das contas, foi até bom ter abandonado a corrida com um pneu furado, pois o vexame acabou sendo menor. Para quem tinha o melhor carro nas primeiras etapas, a McLaren é uma das decepções do ano.

FORCE INDIA7,5 – Melhor atuação dos indianos até aqui. Nico Hülkenberg foi o melhor piloto da equipe nos dias de treinos, mas Paul di Resta simplesmente brilhou no domingo. Um dos poucos que largaram com pneus macios, o escocês se aproveitou dos imprevistos ocorridos à sua frente e do fato de ter um carro em ótimas condições na metade da corrida para assumir a sétima posição. Hülkenberg, discreto como sempre, também fez seu trabalho corretamente e terminou logo atrás. Seria a Force India uma equipe boa para pistas de rua?

LOTUS4 – Ouvi aqui e acolá que a equipe preta e dourada seria a favorita para o GP de Mônaco. Teria um carro ótimo, dois pilotos excelentes e ainda haveria aquela macumba de ter uma equipe vitoriosa para cada corrida até então. Mas a Lotus decepcionou a todos. Kimi Räikkönen largou apenas em oitavo, arrastou-se durante todo o tempo e terminou em nono. O homenageado James Hunt não poderia ter se sentido mais ultrajado. Romain Grosjean fez o de sempre: andou muitíssimo bem no treino oficial e bateu logo na primeira volta. Chega a ser incrível a incapacidade da equipe de Eric Boullier em fazer um fim de semana totalmente perfeito. Bahrein e Espanha foram dois pontos fora da reta, pelo visto.

WILLIAMS3,5 – A equipe vencedora do GP da Espanha não conseguiu nada além de um mísero ponto, obtido pelo sensato Bruno Senna. O brasileiro não foi brilhante em momento algum, mas ao menos não se envolveu em celeumas, sobreviveu aos vários abandonos, herdou uma posição a partir da estratégia infeliz de Jean-Eric Vergne e terminou grudado em Kimi Räikkönen. Pastor Maldonado, o fodão de Barcelona, fez tanta merda que não dá nem para apontar todas aqui. A equipe afirmou que tinha carro para fazer um amontoado de pontos. Não há como discordar.

SAUBER2,5 – Outra equipe que tinha boas chances de ter marcado vários pontos. Mas não marcou nenhum. Kamui Kobayashi era a maior esperança da equipe, já que largava em 11º. Porém, foi pego de bobo no acidente da largada e ficou de fora. Sergio Pérez se envolveu em tantos problemas durante todo o fim de semana que até pode se considerar um sortudo por ter finalizado a corrida. Não há como avaliar corretamente a equipe quando os dois pilotos se metem em confusões.

TORO ROSSO2 – Em uma corrida sem grandes pegadinhas na hora de desenvolver uma estratégia, a Toro Rosso conseguiu a proeza de se embananar com os dois carros. Jean-Eric Vergne vinha numa sétima posição confortável nas últimas voltas, mas algum abençoado de sua equipe achou que iria chover e obrigou o francês a entrar nos pits para colocar pneus intermediários. Não choveu e Vergne perdeu os pontos de bobeira. Menos brilhante, Daniel Ricciardo também se deu mal com os pneus: teve de fazer um stint longo demais com pneus supermacios no início da corrida e se afastou de qualquer chance de pontos. Boa, Toro!

CATERHAM4 – Em termos de velocidade, aparenta já ter tido fins de semanas melhores: Vitaly Petrov ficou no mesmo segundo da Marussia de Timo Glock e da HRT de Pedro de la Rosa. A graça maior ficou reservada ao domingo. Heikki Kovalainen pulou para 13º na primeira volta e passou o dia inteiro segurando um feroz Jenson Button. Mesmo após o pit-stop, Heikki retornou à frente – e ainda se meteu num duelo complicado com Sergio Pérez. Esquecido no outro carro, Petrov não fez muita coisa e abandonou com problemas na bateria. Noto também que a equipe precisa melhorar um pouco no trabalho de boxes.

MARUSSIA3,5 – Por incrível que pareça, estou em dúvida se o fim de semana da equipe anglo-russa foi bom ou não. No treino oficial, os dois carros tiveram problemas para duelar com a tristonha dupla da HRT e Charles Pic chegou a largar atrás de Pedro de la Rosa. Por saírem tão lá no fundão, escaparam da meleca da primeira volta e subiram lá para o meio do pelotão sem problemas. Charles Pic teve problemas elétricos, mas Timo Glock conseguiu terminar em 14º, sua melhor posição no ano até aqui.

HRT3,5 – Pedro de la Rosa mandou muito bem ao superar Charles Pic e quase deixar Timo Glock para trás também. Pena que sua corrida não durou uma volta, graças ao desequilibrado do Maldonado. Narain Karthikeyan continuou na mesma de sempre, mas tomou apenas duas voltas e terminou em 15º. Era triste vê-lo tentando comandar aquele touro desgovernado pelas estreitas ruas monegascas.

TRANSMISSÃOSKY SPORTS BRASILEIRA – Geralmente, os fãs brasileiros de Fórmula 1 invejam os britânicos porque a cobertura televisiva da categoria no Reino Unido é fora de série. Reportagens detalhadas ao extremo, transmissão que se inicia dezoito horas antes, atenção maior aos detalhes técnicos e menos ao nacionalismo porco, companhia de gentes como Martin Brundle e Eddie Jordan e mimos afins. Neste fim de semana, talvez preocupada com a acentuada queda na audiência, a emissora brasileira decidiu fazer sua primeira transmissão caprichada na história. Iniciou a geração de imagens uns vinte minutos antes, colocou sua repórter loira para fazer matérias diretamente lá no grid de largada e até fez questão de mostrar os rostinhos dispensáveis do trio que faz os comentários. É óbvio que uma novidade sempre vem acompanhada de alguns deslizes, mas isso acontece nas melhores e principalmente nas piores famílias. Fora isso, o que há para ser dito? Que bullying é uma coisa muito feia, senhor narrador. “Do jeito que você anda batendo na Stock Car, é melhor ficar só comentando a Fórmula 1“. “Você trocou de capacetes com o Alain Prost. Digo que você saiu no lucro, hein?”. E, por fim, uma pequena curiosidade: não, a Red Bull não é sediada na Suíça.

CORRIDAFILA MONEGASCA – Quem gosta de Mônaco, gosta. Quem não gosta, não gosta. Estas duas frases geniais clarificam qual é o estado de espírito dos que assistiram ao GP deste último fim de semana. Os apreciadores não se importam com a impossibilidade de ultrapassagens, a estreiteza indecorosa de alguns trechos e as filas que se formam no decorrer da prova. Os detratores ignoram a beleza do cenário, a história do grande prêmio, algumas das curvas mais desafiadoras do calendário e o fato do circuito monegasco ser um árduo teste para carros e pilotos. Eu estou no segundo grupo, é claro. Mas convenhamos que a corrida esteve muito longe da animação das etapas anteriores. Mark Uéba largou na pole-position e ganhou. Nico Rosbife largou em segundo e chegou em segundo. Quem veio atrás pouco pode fazer. De destaque, apenas os dois ex-rivais de Fórmula 3 Euroseries, Sebastian Vettel e Paul di Resta, que se aproveitaram da estratégia para ganhar posições. Somente os imprevisíveis Pastor Maldonado, Romain Grosjean, Sergio Pérez e Michael Schumacher puderam animar um pouco a festança, se bem que as fechadas de Heikki Kovalainen entram para os anais desta temporada como um dos melhores momentos até aqui.

GP2PAIS E FILHOS – Não é bonito quando o filho continua a obra do pai? Não que Jonathan Palmer e Johnny Cecotto tenham lá deixado um grande legado no automobilismo. O negócio de Cecotto era andar de motos, enquanto que Palmer é médico de formação. Mas os dois tiveram totais motivos para sorrir em Mônaco. Na sexta-feira, Johnny Amadeus Cecotto Jr. ganhou sua primeira na GP2 após ter largado da pole-position, liderado quase todas as voltas e resistido aos ataques de Marcus Ericsson. Corrida mediana, sem grandes apelos. No dia seguinte, a piração ficou reservada para a primeira volta. O pole-position Stéphane Richelmi (outro filho de piloto) foi tocado por James Calado na largada e rodou na Saint Devote, sendo acompanhado pelo compatriota Stefano Coletti. Os dois monegascos, a propósito – que tristeza para os pachecos do principado. Alguns metros depois, nosso querido Cecotto Jr. acabou rodando em plena Beau Rivage em decorrência de um pneu furado, atrapalhando o caminho de quem vinha atrás. A partir daí, carnificina. Felipe Nasr voou por cima de Victor Guerin e não saiu do circuito por pouco. Outros cinco pilotos se envolveram na bagunça e não houve mortos ou feridos. Jolyon Palmer, que assumiu a ponta na primeira curva, aproveitou-se da lerdeza de James Calado para abrir enorme distância e vencer pela primeira vez na GP2. Um verdadeiro Dia dos Pais adiantado.

GP3TODOS DOIDOS – Nunca antes na história deste blog eu tinha comentado sobre a GP3 neste meio. Pois falo dela hoje. A categoria imediatamente anterior à GP2 realizou sua primeira corrida em Mônaco acreditando que tudo daria certo. Mais ou menos. A primeira corrida, mais longa e tranquila, foi vencida pelo finlandês Aaro Vainio, que não teve trabalho para conter a sanha do húngaro Tamas P’al Kiss (SIC!). Loucura, loucura, loucura mesmo foi a segunda corrida, realizada no pôr-do-sol do sábado. Na largada, William Buller foi tocado pelos compatriotas Alice Powell e Alex Brundle e terminou de ponta-cabeça na Saint Devote. Mas incrível mesmo foi a presepada entre o bielorrusso Dmitry Suranovich e o americano Conor Daly. Após um toque entre os dois, o carro preto e vermelho de Suranovich ficou sem a asa traseira, mas o diabo do soviético decidiu seguir em frente por mais algumas voltas. Impaciente, Daly tentou ultrapassá-lo na saída do túnel. Suranovich não facilitou e fechou a porta, o que acabou causando um dos maiores acidentes do ano até aqui. Conor decolou, bateu no alambrado e caiu de volta à pista para se arrastar por alguns metros. Ninguém se machucou, mas Dmitry brigou com a equipe e com a organização da prova, aparentando ser um cara de cabeça quente. Dizem que perdeu o emprego. A ver. Quem ganhou foi o filipino Marlon Stöckinger, que resistiu à forte pressão de Antônio Felix da Costa. Foi a primeira vitória de um piloto das Filipinas na Europa, exatos vinte anos após a morte de Jovy Marcelo em Indianápolis. Muito legal!

MARK WEBBER10 – O sexto vencedor da temporada vinha devendo uma atuação destas já fazia algum tempo. Nos treinos livres, nada indicava que seu domingo terminaria tão bem. As coisas melhoraram bastante com o segundo tempo no Q3 da classificação, que virou pole-position após a punição aplicada a Michael Schumacher. No domingo, resolveu sua vida largando bem e completando a primeira curva em primeiro. Após isso, só levou o carro ao fim. Algumas vezes pressionado por Nico Rosberg, outras sossegado na dianteira, o australiano não teve problemas para segurar a fila de cinco carros que se formou atrás nas últimas voltas.

NICO ROSBERG9 – Fez a lição de casa com primor, ainda que não tenha tido nenhum momento de brilhantismo como seu companheiro. Liderou a terceira sessão livre e esteve sempre competitivo nas demais sessões. No treino oficial, embora tenha sido mais lento que Michael Schumacher no Q3, acabou abocanhando uma boa primeira fila. Se quisesse ter vencido, deveria ter ultrapassado Mark Webber logo na primeira curva. Como não o fez, somente dirigiu seu Mercedes rumo ao segundo lugar. Terminou a corrida com quatro carros grudados em seu cangote.

FERNANDO ALONSO8 – Também fez a lição de casa direitinho e acabou premiado com a liderança isolada no campeonato. Não tinha o melhor carro em Mônaco, mas fez da água vinho e logrou um ótimo quinto lugar no grid. Seu ritmo não era dos melhores no início da prova e Felipe Massa lhe deu algum trabalho durante algumas voltas, mas a impossibilidade de se ultrapassar deixou o espanhol tranquilo. Tentou adiar sua parada para ver se aproveitava o início da chuva, mas ela não veio. Assim como os dois primeiros, terminou a corrida na mesma posição em que largou, algo longe de ser ruim. Não por acaso, Fernando era o mais feliz dos homens do pódio.

SEBASTIAN VETTEL9,5 – O grande destaque da corrida. Pena que seu desempenho nos treinos não foi tão genial – o que, de alguma forma, também se sucedeu com o vencedor Mark Webber. Largando apenas da nona posição, o bicampeão decidiu largar com pneus macios para ver se conseguia parar após todo mundo. A ideia funcionou bem e Vettel ganhou as posições de Lewis Hamilton e Felipe Massa após seu pit-stop. Nas últimas voltas, conseguiu se juntar aos três primeiros e terminou na mesma foto do vencedor. O resultado final não fez jus à atuação do cara.

LEWIS HAMILTON6 – Fim de semana insatisfatório, embora o resultado final não tenha sido dos piores. Sem ter o melhor carro, Lewis teve dificuldades nos treinos e passou longe do brilhantismo das primeiras etapas. Cavou um terceiro lugar no grid, mas largou mal e só não perdeu posições porque Mônaco é um lugar triste para quem está atrás. No decorrer da corrida, não conseguiu andar tão rápido e se afastou dos dois primeiros. No pit-stop, os mecânicos da McLaren voltaram a bobear e Hamilton acabou perdendo duas posições de graça. Também terminou grudado entre os primeiros, mas totalmente distante do pódio.

FELIPE MASSA6,5 – Finalmente uma boa corrida no ano. OK, um sexto lugar não é lá um resultado genial. Mas para quem vinha trocando posições com Toro Rosso e Force India, terminar apenas seis décimos atrás do vencedor pode ser considerado uma façanha. Felipe esteve razoavelmente bem em todos os treinos e largou da sétima posição. No início de corrida, tinha mais carro que Fernando Alonso e chegou a pressioná-lo, mas não dava para ultrapassar. No pit-stop, perdeu uma posição para Sebastian Vettel. Mesmo assim, seguiu em frente e foi o último do trenzinho dos ponteiros.

PAUL DI RESTA8,5 – Grande corrida, uma de suas melhores na Fórmula 1 até aqui. Não foi bem nos treinos, é verdade, mas sua caranga alaranjada, verde e branca não é das melhores em treinos. Apostou na melhor estratégia de todas, a de largar com pneus macios. Ganhou boas posições na largada graças aos acidentes e tratou de não perder tanto tempo mesmo usando pneus mais lentos que os supermacios. Fez seu pit-stop muito depois do resto e galgou mais algumas boas posições. Para quem havia saído do meio do pelotão, terminar em sétimo foi excepcional.

NICO HÜLKENBERG7 – Fez sua melhor corrida no ano até aqui, mas acabou driblado pela estratégia genial de Paul di Resta. Sempre esteve muito melhor que Paul di Resta no principado monegasco, chegando a liderar o Q1 da classificação. Conseguiu um bom lugar na quinta fila e tinha totais chances de ter sido o salvador da pátria da Force India. De fato, ele andou direitinho, não cometeu erros e chegou ao fim em oitavo. Mas quando o companheiro consegue subir sete posições em uma pista como Mônaco e termina na frente, não dá para ficar totalmente feliz.

JAMES HUNT3 – Fim de semana estranhíssimo para o piloto finlandês. Antes da corrida, todo mundo estava dizendo que a Lotus teria o melhor carro para o travado circuito monegasco. Isso não aconteceu e Kimi só largou da oitava posição. Na corrida, seu carro milagrosamente piorou muito e nas poucas vezes em que foi visto, estava segurando um pelotão de pilotos insatisfeitos atrás. Tomou uma fechada bizarra de Sergio Pérez na entrada dos pits e quase bateu. Terminou num nono lugar sofrido, poucos palmos de distância à frente de Bruno Senna.

BRUNO SENNA4 – Fim de semana fraquinho, mas ainda pode esfregar na cara de todos que o único ponto marcado pela Williams em Mônaco veio com ele. Largou lá do meio do grid e se beneficiou muito com o acidente da primeira curva, ganhando quatro posições de bandeja. Perdeu muito tempo atrás de Kimi Räikkönen, que pilotava uma lesma negra. No final da corrida, só subiu para décimo porque Jean-Eric Vergne decidiu estragar sua corrida ao ir para os pits colocar pneus intermediários. Terminou grudado em Räikkönen e só não pegou o nono lugar porque ultrapassar em Mônaco não é pra qualquer um.

CHAPOLIN COLORADO2 – Teve um fim de semana que os anglo-saxões costumam chamar de eventful: aconteceu de tudo com ele. No grande prêmio em que decidiu homenagear o humorista Chespirito, ficou de fora dos pontos após passar por várias barras. No último treino livre, foi atacado por um imprevisível Pastor Maldonado e quase danificou seu carro. No Q1 do treino oficial, teve um problema na suspensão e bateu no guard-rail pelo segundo ano seguido, sendo obrigado a largar do fim do grid. Na corrida, conseguiu ter problemas com os dois finlandeses: fechou Kimi Räikkönen escandalosamente na entrada dos pits, sendo devidamente punido por isso, e tomou boas fechadas de Heikki Kovalainen. Só chegou ao fim porque não contavam com sua astúcia.

JEAN ALESI3,5 – O francês da Toro Rosso perdeu uma belíssima chance de pontos por culpa de algum meteorologista aloprado. Foi mal novamente nos treinos e sobrou de novo no Q1, mas se recuperou bastante na corrida. Por ter largado mal e ficado preso atrás dos dois (!) carros da Marussia na primeira volta, decidiu antecipar sua primeira parada e colocou pneus macios. A estratégia funcionou e ele chegou a subir para a sétima posição. Só que, demasiado ambicioso, decidiu colocar pneus intermediários para ver se ganhava mais algumas posições. Como só caíram umas catorze gotas na pista, seu último pit-stop só serviu para cansar um pouco mais os mecânicos.

HEIKKI KOVALAINEN7 – Numa corrida sem grandes atrativos, o finlandês foi o grande animador do meio do pelotão. Não fez nada de novo nos treinos, mas se deu muito bem com o acidente da primeira volta, que o catapultou à 13ª posição, justamente à frente do McLaren de Jenson Button. Com destreza notável, Heikki manteve seu modesto Caterham à frente do piloto inglês durante 28 voltas. Após a rodada de pit-stops, conseguiu deixar Button para trás por alguns fios de cabelo. Não o deixou ultrapassar e também tornou a vida de Sergio Pérez um inferno. Sobreviveu aos assédios e obteve a melhor posição de sua equipe no ano até aqui. Merecia um pontinho.

TIMO GLOCK5,5 – Também obteve seu melhor resultado no ano, embora não tenha sido nenhum Kovalainen durante a corrida. Sofreu um bocado para ficar à frente da HRT no treino oficial e só conseguiu colocar dois décimos de vantagem sobre Pedro de la Rosa. Deu-se muitíssimo bem no acidente da largada e chegou a estar à frente de Vergne e Pérez. Mais à frente, teve problemas com a asa dianteira, mas conseguiu chegar ao fim. E fez a 15ª volta mais rápida da corrida.

NARAIN KARTHIKEYAN5 – Pelo pouco que deu para ver, foi praticamente um dos heróis do dia. Seu carro era inguiável e eu realmente não sei como ele conseguia completar a Mirabeau sem bater. Mas conseguiu e merece aplausos. Apesar de sua nacionalidade ser indiana, a estratégia de uso de pneus foi bastante portuguesa: dois stints longos com pneus supermacios e uma parada na volta 74 para colocar os pneus macios, que duram bem mais. Eita, HRT.

JENSON BUTTON1 – Este Jenson Button abandonado pela sorte é paraguaio, não é possível. Mais uma vez, o inglês esteve simplesmente desaparecido e terminou o fim de semana com as mãos abanando. De bom, apenas o fato de ter liderado o segundo treino livre. Na qualificação, não conseguiu passar para o Q3 e teve de largar em 13°. Quase foi envolvido no acidente da largada e acabou ficando atrás da Caterham de Heikki Kovalainen. A partir daí, sua corrida praticamente acabou. Mesmo com um carro infinitamente melhor, não conseguiu ultrapassá-lo sequer após os pit-stops. Acabou abandonando com um pneu furado, em decorrência de um toque com o finlandês.

DANIEL RICCIARDO2,5 – Outro que anda numa fase meio complicada. Sempre nas posições intermediárias, o australiano não conseguiu fazer muita coisa nem nos treinos e nem na corrida. Tentou adiar ao máximo seu primeiro pit-stop, mas não conseguiu ganhar tempo porque estava calçado com pneus supermacios que estavam o pó da rabiola em suas últimas voltas. Abandonou porque passou por cima de uma zebra e começou a sentir o volante meio solto. Dirigir assim, num lugar com guard-rails aqui e ali, não dá.

CHARLES PIC3 – Saiu da corrida e ninguém percebeu. Teve problemas elétricos. O domingo, contudo, não foi dos piores. O francês aproveitou-se das confusões da largada e subiu para 16º logo na primeira volta. Embora tenha tido dificuldades para segurar os carros que vinham atrás, fazia um trabalho bastante digno até o abandono da volta 64. Garoto notável, fez a 14ª melhor volta da corrida.

MICHAEL SCHUMACHER6,5 – Chega a ser inacreditável o que acontece com o heptacampeão mundial, que ficou conhecido como um sujeito de sorte apurada nos seus tempos de Benetton e Ferrari. Justamente no grande prêmio em que perderia cinco posições no grid pelo acidente com Bruno Senna em Barcelona, Michael decidiu mostrar o que ainda sabe e marcou o melhor tempo da Q1, o que lhe daria a pole-position. Punido, teve de se expor às loucuras do meio do pelotão. Foi tocado por Romain Grosjean na largada e quase ficou por ali. Ficou preso no trem do Räikkönen e perdeu um tempão nessa. Tentou se recuperar adiando ao máximo seu pit-stop, mas só conseguiu perder uma posição. Para finalizar um domingo horrível com chave de estrume, teve um problema na bomba de combustível e abandonou pela bilionésima vez. Tem apenas dois pontos marcados.

VITALY PETROV1,5 – Ao contrário do companheiro de equipe, teve um fim de semana horrível. No treino oficial, ficou a poucos décimos à frente da Marussia e da HRT de Pedro de la Rosa. Na largada, tomou uma pancada de Kamui Kobayashi e acabou ficando com o bico quebrado. Após isso, sua corrida não durou mais do que quinze voltas. Um problema elétrico foi o responsável pelo fim da festa.

KAMUI KOBAYASHI2,5 – Pelos resultados apresentados em alguns treinos livres e no Q1 da classificação, parecia estar em condições boas o suficiente para obter um grande resultado. Mas não conseguiu sair do Q2 e teve de largar no meio do grid. Na largada, foi atingido pelo carro descontrolado de Romain Grosjean e decolou, esbarrando em alguns azarados pelo caminho. Acabou tendo a suspensão de seu Sauber danificada e não conseguiu fazer mais do que algumas voltas.

PEDRO DE LA ROSA3 – Só ganha esta nota pela excelente volta que conseguiu fazer no Q1 da classificação, três décimos mais rápida que a de Charles Pic e apenas dois décimos mais lenta que a de Timo Glock. Nunca um HRT foi tão competitivo num treino oficial. Infelizmente, a corrida acabou bem cedo para ele. Pastor Maldonado confundiu freio com acelerador e cérebro com intestino e acabou fazendo um strike na traseira de seu carro na St. Devote. Sem aerofólio traseiro, o veterano espanhol não conseguiu continuar.

PASTOR MALDONADO0 – Se não me engano, é a primeira vez neste blog que um piloto ganha um zero redondinho logo após ter ganhado dez na corrida anterior. Mas ele, um tonto, mereceu. No terceiro treino livre, sabe-se lá a razão, arremessou o carro sobre o de Sergio Pérez na descida da Mirabeau Bas e tomou uma merecida punição pela gracinha. Tendo de sair da última posição, ele deve ter ficado ainda mais nervoso e descontrolado. Na primeira curva, não freou a tempo e encheu a traseira do carro de Pedro de la Rosa. Abandonou no ato. Ainda bem, pois poderia terminar o dia tendo matado uns quinze se tivesse seguido em frente.

ROMAIN GROSJEAN3 – Era um dos candidatos sérios à vitória, ainda mais se considerarmos o excelente desempenho apresentado nos dois primeiros treinos livres. Na qualificação, caprichou e obteve um bom quinto lugar no grid, novamente à frente do companheiro Kimi Räikkönen. Mas é óbvio que tudo acabaria mal logo no comecinho. Encurralado por Fernando Alonso nos primeiros metros, Romain decidiu ir o mais para a esquerda possível e acabou abalroando Michael Schumacher. Com isso, rodou e perpetrou uma confusão daquelas. Terminou ali, parado e sem perspectivas. Mais uma corrida perdida por alguma bobagem nos primeiros instantes.

GP DE MÔNACO: Até hoje, não sei o que pensar do GP de Mônaco. A cada ano, minha opinião sobre a corrida, a mais tradicional da Fórmula 1, muda escandalosamente. Em 2010, desci o sarrafo como se ela fosse uma coisa anti-cristã. No ano passado, provavelmente mais tranquilo com as vicissitudes da vida, ressaltei o caráter histórico, os desafios impostos aos pilotos e a beleza de algumas curvas. Se bobear, devo ter elogiado até mesmo a careca do príncipe Albert. Diante de tamanho desafio dialético, resta a mim prosseguir com a síntese final. Mônaco é, de fato, um lugar diferente. Tudo depende da maneira como você observa o evento. Se você é como eu, que acha o máximo uma corrida de Fórmula Ford em Thruxton num dia chuvoso de 1986, provavelmente desprezará todo aquela ostentação besta dos novos-não-tão-ricos-assim. Mas se você acha que não há nada como colocar um carro ultraveloz para tentar completar trechos traiçoeiros como a Loews, a Piscina e a La Rascasse no menor tempo possível, aí não há como reclamar de Montecarlo. É mais ou menos isso que boa parte dos puristas pensa da pista – e há como discordar? Mas é sempre bom considerar o que Bernie Ecclestone e os caciques da Fórmula 1 lucram com esta corrida. Em primeiro lugar, Mônaco é um tradicional paraíso fiscal. Em segundo lugar, boa parcela da elite empresarial e financeira mundial se reúne neste fim de semana para discutir cifrões, dinheiros, lucros, dividendos, parcerias e frivolidades que não estão ao nosso alcance. Por fim, a Fórmula 1 é uma ótima justificativa para levar uma galera a um iate e promover aquela festona inesquecível cheia de putas e pó.

ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA: Não gosto. Abomino. Sequer preciso ser de esquerda para pensar assim – como os senhores sabem, sou um reaça fiel ao liberalismo, ao nazismo e às práticas do mal. Simplesmente acho que esse negócio de especulação imobiliária é altamente prejudicial à dinâmica urbana, bem como à história e aos valores que nós aprendemos a nos apegar no passado. Afinal de contas, um prédio de 300 anos não pode ser demolido num dia e virar uma igreja neopentecostal no outro. Em relação ao automobilismo, a especulação imobiliária foi responsável pelo fim de alguns dos circuitos mais legais do mundo, como Riverside. Nestes últimos dias, apareceram algumas fotos na internet mostrando um prédio que estava sendo erguido alguns metros após a saída do túnel. Até há pouco tempo, aquele ponto era aberto e tinha visão total para o Mar Mediterrâneo. Era um lugar excepcional principalmente para o posicionamento das câmeras de televisão e para embelezar algumas das mais belas fotos relacionadas ao automobilismo. Agora, tudo isso acabou. A saída do túnel ganhou utilidade econômica e perdeu boa parte da sua graça. Você não dá importância? Acha tudo o que eu disse uma tremenda besteira? Tudo bem. Mas espere só até o dia em que a especulação imobiliária atacar alguma coisa relacionada à sua vida. O casarão da sua avó. A igreja onde você foi batizado. Sua primeira escola. Tudo aquilo que lhe é caro.

WILLIAMS: Viveu momentos dignos de roteiro de cinema na Espanha. Num dia só, celebrou o fim de oito anos de jejum de vitórias e lamentou o incêndio que corrompeu grande parte da estrutura da equipe. Pastor Maldonado, considerado apenas mais um lunático homicida sem futuro até alguns dias atrás, passou a ser visto como uma razoável aposta para a vitória em Montecarlo. O venezuelano tem um histórico dos mais incríveis no principado. Em 2005, atropelou e quase matou um fiscal de pista durante um treino da World Series by Renault. No ano seguinte, na mesma categoria, venceu a corrida. Em 2007, estreando na GP2, ganhou de ponta a ponta. Em 2008, largou na pole e terminou a primeira corrida em segundo. Em 2009, ganhou a segunda corrida do fim de semana. No ano passado, vinha andando em oitavo até ser tirado da corrida por Lewis Hamilton. Se vencer no domingo, não ficarei surpreso. Mas seu companheiro de equipe também não deve ser esquecido. Bruno Senna foi justamente o cara que tirou a vitória de Pastor Maldonado naquela corrida de GP2 em 2008. Assumiu a ponta na primeira volta e seguiu na mesma até o fim. O caso é que a Williams está bem servida de material humano para o próximo fim de semana. Ela merece. E se houver outro incêndio, há bastante água ali no mar.

LOTUS: Está todo mundo de olho na equipe preta e dourada. Na Austrália, ganhou a McLaren. Na Malásia, quem levou foi a Ferrari. Na China, venceu a Mercedes pela primeira vez. No Bahrein, ganhou a Red Bull. Na Espanha, foi a vez da Williams. Cinco equipes diferentes vencendo as cinco primeiras etapas. Para que o número de equipes vencedoras chegue a seis em seis corridas, a Lotus precisará colaborar neste fim de semana. Carro para isso, ela tem. Nos dois treinos livres realizados nesta quinta-feira, Romain Grosjean conseguiu fazer o segundo tempo. Jenson Button, que liderou uma das sessões, disse que a equipe de Eric Boullier será a mais forte em Mônaco. Não costumo duvidar de Button, já que ele raramente está errado. Mas a maior atração, sem dúvida nenhuma, será Kimi Räikkönen e seu capacete. Fã de James Hunt, Kimi deu as caras em Mônaco com um capacete todo preto, adornado apenas com alguns rabiscos coloridos e a inscrição “James Hunt”. Legal pacas, uma das melhores homenagens já feitas a um ex-piloto em um capacete. E Räikkönen tem chances de homenagear o campeão de 1976 de maneira ainda melhor. Vencedor da edição de 2005, ele não estaria tão longe de levar o capacete de Hunt ao primeiro triunfo no principado. James, que nunca havia vencido uma corrida por lá, ficaria muito orgulhoso. Lá do inferno, pois o céu seria monótono demais para ele.

CAPACETES: A homenagem de Kimi Räikkönen foi a mais hardcore, mas não foi a única. E talvez nem tenha sido a mais legal. O francês Jean-Eric Vergne, da Toro Rosso, decidiu carregar em seu casco as cores oficiais do xará Jean Alesi, que disputará as 500 Milhas de Indianápolis no próximo domingo. Vergne reproduziu a mesma pintura azul, cinza, vermelha e preta que consagrou Alesi nos anos 90. Por sua vez, o ex-piloto da Ferrari sempre utilizou esta combinação de cores em memória a Elio de Angelis, falecido em 1986. Se eu fosse Jean-Eric Vergne, permaneceria com esta pintura, muito melhor do que a gororoba que ele vem usando. Falando em gororoba, Fernando Alonso também mexeu na pintura de seu capacete neste fim de semana. Inspirado nos cassinos monegascos, ele decidiu vestir dourado e branco na cabeça, uma ideia sem muito sentido e pra lá de cafona. Quem merece aplausos de pé é Sergio Pérez. O mexicano decidiu homenagear em seu capacete ninguém menos que o humorista Chespirito, que ficará eternizado em nossas memórias como o superherói Chapolin Colorado e o órfão Chaves. Uma referência que eu nunca imaginaria ver sendo feita na Fórmula 1. Surpresa das mais legais. Não costumo torcer para o Pérez, mas ver o Chaves ganhando uma corrida em Mônaco seria mítico demais. Valeria mais do que uns 14 mil anos de aluguéis atrasados pagos.