Em 1988, apesar da disputa na Fórmula 3000, os olhos da Onyx estavam voltados para seu futuro na Fórmula 1

Em 1988, apesar da disputa na Fórmula 3000, os olhos da Onyx estavam voltados para seu futuro na Fórmula 1

Voltamos! Depois de duas semanas de bebedeiras e comedeiras, um heptacampeão acidentado e dois posts sem qualquer relação com a coisa, o Bandeira Verde retoma a série sobre a equipe mais legal e icônica da história da Fórmula 1? Ferrari? Williams? Lotus? McLaren? Nada disso. Estamos falando da Onyx, aquela que se tornou conhecida entre os fanáticos patológicos por automobilismo pela beleza de seus carros e pelo seu fracassado modelo administrativo. Tendo sobrevivido por apenas um ano e meio, a Onyx é um exemplo de como sepultar rapidamente uma equipe com bastante potencial.

Nos cinco primeiros capítulos, me esbaldei de falar sobre Fórmula 2, Fórmula 3000 e o diabo. Os acessos nesse blog não foram muitos, o que prova que a humanidade está errada de forma geral, mas é bem possível que o interesse se reacenda daqui em diante. Depois de acumular sucessos (e também vários fracassos) nas categorias de base, o já veterano Mike Earle estava disposto a alçar sua escuderia ao mais alto dos patamares do automobilismo: a Fórmula 1.

Onde parei? Ah, sim, em 1988, o melhor ano de todos os tempos.

A Onyx tinha tido uma temporada lamentável na Fórmula 3000. Apesar da bufunfa que a Marlboro injetava em seus cofres, a equipe sofreu com um chassi March incapaz de superar os Reynard e também com a incompetência de seus pilotos. No fim das contas, apenas cinco pontos foram marcados com o alemão Volker Weidler. Uma tristeza.

Mas Mike Earle não estava muito preocupado. A Fórmula 3000 era apenas uma forma de sua escuderia não ficar de fora de qualquer competição em 1988. Seu foco era outro naquele momento.

Desde o fim de 1987, a Onyx já vinha falando seriamente em Fórmula 1. Bem que ela tentou adiantar algumas coisas para ver se dava para estrear ainda em 1988, mas como as primeiras ideias haviam surgido meio tarde, Earle decidiu fazer tudo com mais calma visando a temporada de 1989, quando todos os carros já estariam andando com motor aspirado.

Certas coisas, no entanto, foram definidas desde muito cedo. O primeiro carro de Fórmula 1 da escuderia seria projetado pelo inglês Alan Jenkins e utilizaria o motor Ford Cosworth DFR preparado por Brian Hart, exatamente o último homenageado por este blog. O patrocínio da Marlboro estava garantido, sendo que ela aparentemente teria o direito de escolher ao menos um dos pilotos. Os nomes mais citados em meados de 1988 eram os de Stefano Modena, campeão de Fórmula 3000 no ano anterior com a própria Onyx e piloto da Eurobrun na F-1, e J. J. Lehto, finlandês que vinha barbarizando no campeonato inglês de Fórmula 3. Não obstante, a dupla de pilotos para a temporada de estreia não era um assunto para ser resolvido tão logo.

A Marlboro continuaria patrocinando a Onyx, mas só com alguns trocados

A Marlboro continuaria patrocinando a Onyx, mas só com alguns trocados

Durante o ano de 1988, as notícias que surgiam sobre a Onyx não eram muitas e talvez nem tão animadoras ou positivas, o que denotava certa falta de fé dos jornalistas com relação ao projeto. Apesar da redução drástica de custos que o novo regulamento de motores proporcionaria, a esquadra de Mike Earle teria enormes dificuldades para encontrar pelo menos os dez milhões de dólares necessários para a sobrevivência de uma equipe pequena. A Marlboro, que já despejava um caminhão de dinheiro na McLaren e também apoiava outras equipes e pilotos, certamente não poderia contribuir com muito. Durante um período, surgiu um boato de que o grupo japonês Leyton House, que já apoiava a March, poderia também patrocinar a Onyx, mas tudo não passou de bullshit.

Nos meses finais de 1988, enquanto Ayrton Senna e Alain Prost se engalfinhavam pelo título da temporada, a FISA coçava a cabeça com uma lista de inscritos que não parava de crescer. Na mais absurda das hipóteses, a Fórmula 1 poderia ter até 46 (!) carros tentando largar para os 16 GPs a serem realizados em 1989. Quer saber a relação das vinte e três equipes que poderiam participar? McLaren, Ferrari, Williams, Benetton, March, Lotus, Arrows, Tyrrell, Rial, Minardi, Larrousse, Ligier, AGS, Dallara, Coloni, Zakspeed, Eurobrun, Osella, Brabham, First Racing (equipe de Lamberto Leoni que competia na Fórmula 3000), Life (aquela mesma, que obviamente não pretendia usar o carro da First como acabou acontecendo em 1990), ATMOS (projeto do francês Jean Mosnier, que comandava as operações da Lola na Fórmula 3000) e a nossa querida Onyx. Diante de tal possibilidade, a Federação acabou cancelando a obrigatoriedade de inscrição de dois carros, algo que ela queria ter implantado já em 1989.

Bons tempos. Havia até mais vagas disponíveis do que pilotos e estes obviamente tinham totais possibilidades de escolha. Caras como Michele Alboreto, Stefan Johansson e Stefano Modena conversavam com várias equipes ao mesmo tempo e sabiam que caso perdessem uma vaga na Escuderia A, poderiam assinar com a Escuderia B numa boa e garantir seu emprego em 1989. As crianças que competiam na Fórmula 3000 também estavam muito animadas. Ao contrário de 2014, haveria em 1989 um monte de lugares onde elas poderiam estrear na Fórmula 1.

Nesse mercado extremamente aquecido, a Onyx saía em desvantagem em relação às demais equipes pequenas. Em estágio inicial de estruturação, ela ainda não tinha como provar a um piloto experiente que poderia ser uma casa melhor que a Eurobrun, por exemplo. Quem assinasse com ela saberia que estaria dando um tiro no escuro. Com uma pré-classificação inchadíssima, quem poderia garantir que a Onyx conseguiria escapar dela com alguma dignidade?

Em setembro, enfim, uma boa notícia: o milionário inglês Paul Shakespeare surgiu do nada e decidiu comprar a maior parte das ações da equipe. Com isso, a Onyx conseguiu um importante reforço financeiro que lhe permitiria não só desenvolver o carro sem tanto medo de quebrar a cara como também provar ao mercado que a equipe tinha algum cacife e não estava vindo para a Fórmula 1 para brincar.

A chegada de Shakespeare permitiu que a Onyx tivesse alguns bons avanços nas semanas seguintes. Para melhor acomodar a estrutura de fabricação dos carros, os chefões da escuderia adquiriram um amplo espaço industrial na mansão Westergate House, em Fontwell. Os primeiros motores Ford Cosworth DFR começaram a chegar na nova sede e o próprio chassi já estava em fase final de desenvolvimento, embora ainda houvesse um bocado a ser feito até ele poder entrar na pista para testes.

Stefan Johansson e sua cara de roqueiro decadente: o sueco foi o primeiro piloto a ser confirmado pela Onyx

Stefan Johansson e sua cara de roqueiro decadente: o sueco foi o primeiro piloto a ser confirmado pela Onyx

Nos dias seguintes ao Grande Prêmio da Austrália, última etapa da temporada de 1988, a mídia inglesa divulgou a informação de que o sueco Stefan Johansson poderia assinar com a Onyx para a temporada de 1989. Experiente, veloz e não muito caro, Johansson era exatamente o tipo de cara que uma equipe novata e desesperada necessita. E ele mesmo precisava de ares novos, já que sua passagem pela Ligier havia sido desastrosa. Um casamento conveniente para os dois lados, em suma.

No dia 29 de novembro, Mike Earle confirmou que Stefan Johansson seria o primeiro piloto da Onyx em 1989. O nórdico sabia que havia acabado de pegar uma pedreira: teria de liderar todo o desenvolvimento do novo carro e também arriscar seu pescoço e sua reputação nas pré-classificações mundo afora. Mas ele, que nunca foi um cara muito esquentado, parecia bem tranquilo: “Se você tem fé no projeto da sua equipe, então não há problemas”.

Mike Earle demoraria um pouco mais para confirmar o companheiro de equipe de Johansson. Stefano Modena era o candidato favorito ao segundo carro, mas ele também conversava com os caras da Eurobrun e da Brabham. Caras? Um cara só. No fim de 1988, tanto a Eurobrun como a Brabham pertenciam a um só cara, o magnata suíço dos jogos de azar Walter Brun. Caso as conversas com Brun não avançassem, Modena teria caminho livre para ir para a Onyx. Mas havia outros nomes em consideração.

Um deles, acredite, era o do ferrarista Michele Alboreto. Este daqui vinha passando por uma fase conturbada: foi descartado dos planos da Ferrari para 1989 ainda muito cedo, assinou um contrato com a Williams, teve esse contrato rasgado depois que Frank Williams decidiu continuar com Riccardo Patrese e acabou tendo de caçar alguma vaga aberta por aí. Além da Onyx, Alboreto considerava várias outras possibilidades, algumas delas totalmente indignas: Benetton, Lotus, Tyrrell, Brabham, Rial, Coloni, Eurobrun, Zakspeed, First, até mesmo a campeoníssima McLaren no caso da comentada possibilidade de aposentadoria de Ayrton Senna. Quer dizer, o cara estava atirando para todos os lados torcendo para que ao menos um dos alvos fosse atingido.

Outro nome bastante mencionado era o do também italiano Nicola Larini. Ele estava competindo pela malfadada Osella e sabia que não chegaria a lugar nenhum se continuasse por lá. Como Larini era um dos muitos pilotos patrocinados pela Marlboro, ele poderia ingressar na Onyx por meio da tabaqueira no caso de Stefano Modena assinar com a Brabham. Suas possibilidades, no entanto, não pareciam muito altas.

Dentro do universo “pilotos italianos apoiados pela Marlboro”, um nome que ressurgia das cinzas era o de Emanuele Pirro. Se vocês se recordam bem, Pirro foi piloto da Onyx na Fórmula 2 e na Fórmula 3000 entre os anos de 1984 e 1986. No ano de 1988, ele trabalhou exaustivamente como piloto de testes da McLaren no circuito de Suzuka. Dizem as boas línguas que Emanuele foi um dos grandes responsáveis pelo brilhantismo do MP4/4. Para a Onyx, ele seria uma ótima opção.

A contratação surpreendente: Bertrand Gachot

A contratação surpreendente: Bertrand Gachot

Por fim, ainda havia a possibilidade de J. J. Lehto fazer sua estreia antecipada na Fórmula 1. O finlandês dominou a temporada de 1988 da Fórmula 3 britânica e já havia sido confirmado como primeiro piloto da Pacific na Fórmula 3000 no ano seguinte. Mas ele, no entanto, tinha pressa. Lehto chegou a conversar com o pessoal da Dallara visando um carro de Fórmula 1 em 1989, mas os homens da Marlboro vetaram as negociações. A Onyx poderia ser sua casa caso as negociações com Modena, Alboreto, Larini e Pirro falhassem. Um cenário pouco provável, é bom que se diga. Tudo indicava que a dupla da Onyx em 1989 seria composta por Johansson e Modena.

Pois é, só faltou avisar o piloto italiano. No fim de dezembro, Stefano Modena assinou contrato com a Brabham e deixou Mike Earle com as mãos vazias. Dessa forma, Nicola Larini passava a ser o favorito ao posto de companheiro de Stefan Johansson. Os jornalistas ingleses diziam que Nicola levaria cerca de 1 milhão de libras esterlinas e ainda satisfaria um suposto patrocinador italiano que estava interessado em investir uma caralhada de liras na Onyx. Esse dito patrocinador, como o tempo haveria de provar, não existia.

O que fazer? Como Michele Alboreto já havia sido confirmado pela Tyrrell, seria Larini realmente a opção mais confiável? Ou seria mais interessante pegar alguém de fora, como Pirro ou Lehto? Os diretores da Onyx, Mike Earle, Jo Chamberlain e Paul Shakespeare, discutiram muito a respeito. E tomaram uma decisão definitiva na semana após o Natal. Decisão essa que só seria anunciada oficialmente após o Ano Novo.

Nem Larini, nem Pirro, nem Lehto. O nome escolhido para o segundo carro da Onyx é o do belga Bertrand Gachot, 26 anos. Todos ficaram bastante surpresos com o anúncio, já que Gachot jamais havia sido mencionado como candidato à vaga na equipe inglesa. Até então, ele estava prestes a assinar com a Rial e também vinha conversando com a First Racing.

Gachot foi um dos personagens de destaque na Fórmula 3000 em 1988, tendo feito uma pole-position e obtido dois pódios com uma equipe que não estava entre as melhores. Nas categorias menores, notabilizou-se por um quebra-pau ferrado com o brasileiro Marco Greco e uma capotagem assustadora em Zandvoort nos tempos da Fórmula Ford. Apesar disso, tratava-se, sim, de um bom piloto.

“Estou feliz pra caramba. Acredito no projeto e, ao que parece, o carro ficará bastante bonito. Se a equipe estivesse interessada somente em dinheiro, poderia ter escolhido qualquer piloto italiano. Estou empolgado em conseguir fazer minha estreia na Fórmula 1 com a Onyx”, afirmou Gachot com sua característica voz fina de boiola. Ele tem razão, mas não muita. A Marlboro, que o patrocina desde o início da carreira, foi um fator determinante para sua contratação.

A salvação?

A salvação?

Com Stefan Johansson e Bertrand Gachot, a Onyx finalmente resolveu um de seus grandes problemas. Mas havia outro, de resolução bem mais difícil: o orçamento.

Até o início do ano, a equipe de Mike Earle, Jo Chamberlain e Paul Shakespeare havia amealhado apenas 2,5 milhões de dólares. Essa quantia, a bem da verdade, estava mais para a realidade da Fórmula 3000 do que para a da Fórmula 1, onde qualquer equipe pequena gastava pelo menos o quádruplo disso durante uma temporada. O dinheiro de Shakespeare, o apoio histórico da Marlboro e a grana que Gachot trouxe por meio da CAPA não eram suficientes para uma existência digna. Caso não ocorresse um milagre, a Onyx não conseguiria fazer sua tão esperada estreia na Fórmula 1.

Vocês acreditam em milagres?

Bertrand Gachot sabia que precisava ajudar a Onyx de alguma forma. Mesmo que ele não tivesse entrado por conta de muito dinheiro, não era possível dar-se ao luxo de cruzar os braços e esperar o navio afundar. Caso ele obtivesse ao menos uns 100 milhões de francos belgas, o equivalente a pouco mais de três milhões de dólares, já daria para resolver alguns problemas. A mídia belga, ávida por ver mais um piloto que representasse seu país na Fórmula 1 (Thierry Boutsen já estava lá), concedeu razoável espaço ao drama de seu pupilo.

A partir daí, a história fica razoavelmente nebulosa. Não sei dizer qual dos lados fez o primeiro contato, cada um afirma que a iniciativa foi tomada por ele próprio, atualmente os dois nem se falam, mas o fato é que a aproximação aconteceu. Como não quero arriscar uma injustiça, conto as duas versões que encontrei e deixo o veredito para vocês.

Bertrand Gachot afirma que, ainda na ávida busca por dinheiro que ajudasse a salvar o sonho da Onyx, acabou se interessando pela história recorrente em jornais e revistas da época sobre um economista que ficou multimilionário com um programinha de computador. Impressionado, Gachot foi atrás desse economista e apresentou sua história. O homem de negócios se compadeceu da situação do piloto e decidiu lhe ajudar, fazendo uma proposta ao mesmo tempo dura e irrecusável à própria Onyx. Essa é a versão contada a partir do ponto de vista do piloto.

Em entrevista à Autosport, o tal economista contou uma história ligeiramente diferente. Diz o cara que ele tinha ouvido falar sobre a preocupante situação de Bertrand Gachot, que precisava de pelo menos 100 milhões de francos belgas para garantir a participação da Onyx na Fórmula 1. Como essa quantia não poderia ser arranjada de um dia para o outro, o bondoso economista decidiu salvar a carreira do jovem piloto procurando a Onyx e lhe fazendo uma proposta salvadora. Quer dizer, são versões com diferenças sutis, mas marcantes. Ambos querem, cada um a seu modo, puxar a sardinha para seu lado.

Mas do que estou falando? Lógico que o economista em questão é ninguém menos que o mítico, folclórico, bizarro e inacreditável Jean-Pierre Van Rossem, criador de um troço tão espaventoso quanto obscuro chamado Moneytron. Segurem a barra, pois o próximo capítulo vai dissecar a vida desse enigmático barbudo.

O tempo passa, o Alonso voa e o Massa continua numa boa. Nossa, sou muito criativo. Nessa semana, o sempre competente Américo Teixeira Junior, cara que leio desde os dias da Racing, divulgou que a Ferrari já bateu o martelo e decidiu pela permanência de Felipe Massa em 2013. Confio na fonte. A Ferrari foi sensata e optou pela continuidade. Muitos acham que seguir com um cara que ocupa a 14ª posição no campeonato pilotando um F2012 não é exatamente aquilo que consideramos uma continuidade saudável. Raciocinemos.

Segundo Teixeira, a Ferrari não ficará com Felipe Massa por causa de seus resultados na pista nestes últimos três anos. Sua semelhança com o Zacarias pouco ajudará neste sentido, da mesma forma. O que o mantém lá é puramente um sentimento conservador que aponta que o certo é melhor que o duvidoso. Não há tantos ótimos pilotos disponíveis para a próxima temporada. E mesmo que haja, qual deles conseguiria se adaptar tão bem e tão rapidamente a Maranello? Mais ainda: quem garante que os resultados seriam tão melhores?

Massa não é uma incerteza. A Ferrari sabe que não poderá mais contar com ele para vitórias e títulos. No entanto, crente que o brasileiro é um piloto bom o suficiente para atrapalhar os adversários quando está numa boa fase, os ferraristas preferem apostar em sua melhora no ano que vem do que apostar num Heikki Kovalainen ou Kamui Kobayashi da vida. Por isso, é melhor manter o segundo carro da equipe nesta posição meio nebulosa e cruzar os dedos.

Se Massa realmente permanecer na escuderia até o fim do contrato, se o calendário do próximo ano realmente tiver vinte etapas e se mola nenhuma entrar no meio do caminho, o paulista terá participado de 141 GPs pela Ferrari até o fim do ano que vem. OK, 140: aquele do acidente no treino oficial de Hungaroring não conta. De qualquer jeito, é um número respeitabilíssimo. Felipe é o segundo piloto em número de corridas disputadas pela equipe italiana. Ele só perde para… Bom, o Top Cinq de hoje mostra aqui quais são os cinco pilotos que, “Felipe Passa” à parte, fizeram mais corridas vestindo o vermelho de Maranello.

5- JEAN ALESI (79 GPs)

Poucos pilotos tiveram uma passagem tão marcante pela Ferrari quanto Jean Alesi. Os cartesianos que só olham para números, contas e ábacos desprezam o francês por ele ter vencido apenas 1,2% de suas corridas disputadas pela equipe vermelha. Veja como é fácil transformar uma inofensiva porcentagem numa inverdade maldosa. Por isso que desrespeito quem só analisa as coisas por meio dos números, do empirismo bocó e do “se eu não vi, não existe”. Quem viu Alesi viu um dos melhores pilotos que a Fórmula 1 teve nos últimos trinta anos.

Alesi foi contratado pela Ferrari a peso de ouro como o cara que substituiria Alain Prost qualquer dia desses. O tetracampeão já estava velho e parecia não ter muito saco para aquele histrionismo típico da Itália. Mas o jovem francês de olhos preguiçosos e cuore siciliano, aziago como só ele, mergulhou de cabeça numa equipe que estava entrando em uma de suas piores crises. Mudanças de gestão, carros ruins, inovações furadas e resultados tristes foram as marcas da Ferrari dos tempos de Jean Alesi.

Mas ele não desanimou. Em 1991, realmente, foi difícil brilhar. O ambiente estava muito ruim. Por incrível que pareça, a situação melhorou muito para Alesi em 1992. O piloto de Avignon era praticamente a única coisa que prestava lá. De vez em quando, Jean improvisava e arrancava suspiros dos fãs das corridas. Em Barcelona, ele largou feito um foguete, duelou com carros muito mais velozes e terminou num pódio que seria impossível para a maioria dos outros pilotos. Em 1993, o carro continuou ruim e Alesi terminou apenas duas corridas no pódio.

1994 foi talvez o ano mais difícil de Alesi no mundo ferrarista. Um acidente em testes em Mugello não o deixou confinado a uma cadeira de rodas por pouco. Ele perdeu duas corridas, teve dificuldades durante a temporada e acabou tomando uma naba de Gerhard Berger. Sua última temporada na Ferrari foi a de 1995. Foi só neste ano derradeiro que Alesi conseguiu vencer uma corrida, a do Canadá. Ele acabou trocando a Ferrari pela Benetton após uma série de desentendimentos com a cúpula italiana. No fim, Jean disputou 79 GPs entre 1991 e 1995. Ganhou uma corrida e os corações de milhares de tifosi. “Mais vale um Alesi hoje que cem Schumachers amanhã”.

4- MICHELE ALBORETO (80 GPs)

Em outubro de 1983, a Ferrari fez talvez um dos anúncios mais aplaudidos de sua história. O francês Patrick Tambay, que nunca foi lá um gênio, daria lugar ao jovem italiano Michele Alboreto, astro da Fórmula 3 e da Tyrrell. Aos 26 anos, Alboreto era talvez a grande esperança de uma Itália que havia acabado de completar trinta anos sem um título de pilotos. Como a Ferrari havia conquistado os dois últimos títulos de construtores, todos imaginavam que a entrada do promissor piloto milanês poderia trazer uns bons troféus para a pátria azulada nos anos seguintes.

Mais ou menos. Na verdade, não. Alboreto certamente era um cara bastante talentoso, mas talvez não o suficiente para comandar a Ferrari. Acontece. Muita gente realmente competente acaba não conseguindo aguentar o rojão de liderar uma escuderia grande e histórica. E também existe o contrário: picaretas que acabam mandando bem com uma Williams da vida, como aquele irmão que rende pela metade. Michele não conseguiu.

Em 1984, Alboreto não teve trabalho para derrotar o relaxado René Arnoux. Venceu o GP da Bélgica e se estabeleceu bem na equipe. Para 1985, a Ferrari conseguiu acertar a mão e – milagre! – criou um bom chassi e um bom motor. Michele começou o ano com tudo, ganhou duas corridas e liderou o campeonato até o GP da Alemanha. Depois, o 156/85 não evoluiu e acabou ficando para trás. Alboreto foi vice-campeão, mas viu o campeão Alain Prost pelo binóculo.

Infelizmente, foi seu último grande ano na Ferrari. Quiçá, na Fórmula 1. Em 1986, a Ferrari arranjou uma tonelada de estrume e criou a partir dele um carro conhecido como F1/86, um negócio que até andava rápido, mas que tinha tanta resiliência quanto um Kinder Ovo sob o sol. Alboreto marcou pontos em apenas quatro corridas e desanimou. Nos dois anos seguintes, ele conquistou apenas alguns pódios e foi derrotado com alguma folga pelo novo contratado Gerhard Berger. Em meados de 1988, a Ferrari anunciou que traria Nigel Mansell para correr em seu lugar. O prestígio de Michele Alboreto, aquele que foi contratado para ser o mais novo campeão italiano, esvaiu e ele teve de voltar para sua casa original, a decadente Tyrrell.

3- GERHARD BERGER (96 GPs)

“Fui o último piloto contratado por Enzo Ferrari”. O orgulhoso Gerhard Berger, um dos melhores amigos de Ayrton Senna, contou a um repórter britânico que o entrevistou há alguns anos alguns detalhes obscuros daquele que foi o ritual que sacramentou sua primeira passagem pela equipe italiana, entre 1987 e 1989. “Fui vendado e colocado dentro de um carro, que seguiu até não sei aonde. Quando tiraram a venda, eu estava em uma sala escura e lá estava o Comendador“. Não foram exatamente estas as palavras, mas o teor foi exatamente este. Berger foi contratado pela Ferrari em novembro de 1986 após seus bons préstimos à Benetton naquele ano.

A Ferrari iniciou o ano de 1987 numa pior, com um carro que padecia com problemas de confiabilidade. As coisas melhoraram bastante no segundo semestre, quando os italianos conseguiram resolver tanto a questão das quebras como a falta de velocidade. Nas últimas corridas, a F1/87 alcançou o status de melhor carro do grid. E Berger acabou vencendo os dois últimos GPs da temporada. É uma pena que a excelente forma do final de 1987 não foi mantida em 1988. Não só a McLaren estava impossível como a própria Ferrari havia derrapado no desenvolvimento do F1/87, que virou 88C durante o ano. Berger acabou vencendo apenas o GP da Itália, única corrida do ano onde a McLaren não terminou com nenhum dos carros.

Em 1989, a Ferrari mudou tudo. Câmbio semiautomático, carroceria em formato de garrafa, Nigel Mansell… É uma pena que o ano tenha sido desastroso para Berger. O acidente de Imola e a inacreditável sequência de abandonos que se seguiu até o GP da Bélgica acabaram com qualquer chance de título. Mesmo assim, Berger terminou o ano com a reputação lá no alto, tanto que a McLaren não pensou duas vezes ao contratá-lo para substituir Alain Prost.

A passagem pela esquadra de Ron Dennis não foi tão feliz e Berger acabou voltando para a Ferrari em 1993, meio que com o rabo entre as pernas. Teve um primeiro ano horroroso e só voltou à antiga forma em 1994, quando ganhou o GP da Alemanha e fez 41 pontos, sendo um dos poucos pilotos com algum motivo para sorrir naquela temporada. 1995 foi seu último ano com os ferraristas. Não venceu corrida alguma, ficou 11 pontos atrás de Jean Alesi e saiu da equipe coberto de críticas. Seus 96 GPs na Ferrari foram bem típicos dele: uma dúzia de corridas geniais, uma série de erros bobos, alguns acidentes assustadores e uma simpatia desconcertante fora do carro.

2- RUBENS BARRICHELLO (104 GPs)

Falei dele exatamente na semana passada, né? Inicio este post com uma frase dita numa entrevista concedida à revista F1 Racing no início de 2010: “Fui mais feliz guiando uma Honda de merda do que na Ferrari tendo de ouvir o que fazer o tempo todo”. Aí você olha a razoável quantidade de GPs disputados pela equipe italiana e torce o nariz. Tudo bem, muitos de nós acabamos permanecendo num emprego que odiamos por razões puramente pessoais. Não há nada de errado disso. O problema reside nos intermináveis elogios que Rubens Barrichello não se cansou de proferir durante suas seis temporadas pela Ferrari.

Barrichello foi anunciado pela escuderia do cavalo que empina em setembro de 1999. Começou todo cheio de prosa, dizendo que seria piloto 1B, que teria os mesmos direitos que Michael Schumacher e que o título só dependia dele. Enfim, fantasiou um monte de promessas que a grande massa ignara, obviamente, veio cobrar lá na frente. Eu não caí nessa. Continuei torcendo pelo ótimo piloto Rubens Barrichello que ele sempre foi. Tapei os ouvidos e segui acreditando em seu talento. Mas sua boca é grande demais. Chegou um momento que eu comecei a dar razão aos seus críticos. Rubens fala demais. E quase nada que sai da sua boca presta.

Enfim, voltemos à Ferrari. O primeiro ano, 2000, foi de aprendizado, se é que dá para dizer assim. Rubens venceu de maneira magistral o GP da Alemanha e terminou a temporada em quarto, atrás de Schumacher e dos dois pilotos da McLaren – fez a tarefa de casa, em resumo. Em 2001, com um carro melhor, Barrichello não foi bem: errou, perdeu corridas fáceis e não venceu uma corrida sequer. 2002 foi mais interessante e Rubens foi vice-campeão após ganhar quatro provas. Enquanto isso, Schumacher abocanhava títulos e recordes.

Diz a lenda que o melhor ano de Barrichello foi 2003. Estava bem de pilotagem, de cabeça e ganhou duas corridas na maior competência. Não terminou o ano em posição melhor porque seu carro esteve muito ruim em alguns momentos da temporada. Em 2004, Barrichello foi vice-campeão novamente, fez um ano apenas correto e se aproveitou do fato de seu F2004 ter sido o carro de Fórmula 1 mais rápido de todos os tempos. O último ano, 2005, foi uma lástima. Rubens se desentendeu com a equipe, rescindiu o contrato e saiu da Ferrari repleto de mágoas. E duvido que ele tenha sido tão mais feliz assim na “Honda de merda”.

1- MICHAEL SCHUMACHER (181 GPs)

O único homem que esteve vestindo o macacão da Ferrari em mais GPs do que Felipe Massa é o senhor Michael Schumacher da Silva, heptacampeão de Fórmula 1. Este, aliás, é mais um dos inúmeros recordes que Schumacher detém na categoria, o de maior números de GPs disputados por uma mesma equipe. O alemão fez parte da famiglia italiana entre 1996 e 2006, dez anos redondinhos. Apenas dezessete pilotos completaram, em toda carreira, mais do que esses 181 GPs nos quais Schumacher era o homem maior da Ferrari.

É óbvio que tem GP aí que nem deveria contar, como o da Inglaterra em 1999, onde um acidente na primeira volta arrebentou uma perna sua e anulou a largada. Mas não falemos das exceções. Schumacher foi contratado pela Ferrari por míseros 25 milhões de dólares anuais em meados de 1995. Os italianos estavam sem ganhar um título de pilotos desde 1979 e decidiram apelar com o melhor condutor de um carro de Fórmula 1 desde Ayrton Senna. Modesto, Schumacher sequer previa um longo futuro com os ferraristas. “Não me vejo correndo na Fórmula 1 por mais do que quatro ou cinco anos”, disse em 1995. Errou feio.

Em 1996, Schumacher teve um ano difícil que até fazia parte do script, pois a Ferrari estava se reestruturando com nomes sugeridos pelo próprio alemão, como os geniais Ross Brawn e Rory Byrne. Os frutos apareceram já em 1997, quando Michael disputou o título com Jacques Villeneuve até a última corrida e perdeu naquela patacoada de Jerez. Em 1998, voltou a disputar o título até a última corrida e voltou a perder, dessa vez para Mika Häkkinen. Em 1999, houve o acidente de Silverstone e Schumacher teve de esperar mais um ano para ser campeão. Naquela altura, os impacientes italianos já estavam de cara feia. Será que esse alemão antipático e queixudo poderá conquistar um título para nós algum dia?

Schumacher respondeu a dúvida ganhando um, dois, três, quatro, cinco títulos consecutivos. Tá bom pra vocês, italianada? Em 2000, um campeonato suado contra Mika Häkkinen e uma McLaren impecável. Em 2001, Williams e McLaren ameaçaram, mas não chegaram nem perto do alemão. 2002 foi pura humilhação e 2003 serviu para mostrar que nem mesmo os bons pneus Michelin seriam o suficiente para impedi-lo de vencer. O último título, o de 2004, foi de constranger o resto do grid. Ainda bem que a Ferrari nunca mais conseguiu repetir um carro como aquele F2004. E ainda bem que Fernando Alonso apareceu. Mesmo assim, Schumacher teve um 2006 de tirar o chapéu e anunciou sua “primeira” aposentadoria após a vitória no GP da Itália. Mesmo sendo antipático e queixudo, deixou saudades lá em Maranello.

Hoje, termino a série que homenageia o italiano Michele Alboreto, falecido há dez anos. Depois de recordar a corrida que o projetou ao grupo dos pilotos de ponta e de comentar sobre sua melhor atuação na vida, é hora de falar da parte mais chata da sua carreira. Após ser demitido da Ferrari no fim de 1988, o vice-campeão de 1985 peregrinou por várias equipes vagabundas até terminar esquecido na Minardi no fim de 1994. Ainda assim, houve um ou outro bom momento que só confirmava seu enorme talento. Seu último pódio ocorreu em Hermanos Rodriguez, no ano de 1989.

Por muito pouco, Alboreto não ficou sem vaga na Fórmula 1 em 1989. Seria uma situação ridícula, considerando que o grid da categoria chegou à marca histórica de 39 carros inscritos para todas as corridas e até mesmo virtuoses ao avesso como Volker Weidler, Joachim Winkelhock e Philippe Alliot haviam encontrado lugar. O italiano, que já sabia havia algum tempo que não permaneceria na Ferrari, cortejou por alguns meses a Williams, que estava disposta a demitir Riccardo Patrese. Alboreto e Williams chegaram a concretizar um contrato inicial, mas Frank Williams decidiu ficar com Patrese e trazer Thierry Boutsen da Benetton. Como foi uma decisão tardia, Alboreto acabou sobrando em um momento no qual a maioria das boas vagas já estava fechada.

Quem salvou Alboreto da aposentadoria precoce foi o velho Ken Tyrrell, exatamente o homem que lhe deu a primeira oportunidade na Fórmula 1 no início dos anos 80. Naquele ano, a Tyrrell estava pobrezinha, coitada. Os dois patrocinadores principais, a Courtalds e a Data General, caíram fora no fim de 1988 e a tentativa de acordo com os refrigerantes Schweppes não deu certo. Em 1989, a equipe iniciaria o campeonato com a velha pintura em azul escuro. Emblemas no carro? Apenas o nome da equipe, “Tyrrell”, posicionado nos sidepods. O próprio Alboreto só conseguiu a vaga porque tinha um patrocinador pessoal, os cigarros Marlboro.

A falta de dinheiro era tamanha que a equipe foi uma das que mais atrasou no desenvolvimento do novo carro para a temporada. Desenvolvido por Harvey Postlethwaite e Jean-Claude Migeot, o 018 era um carro diferente do resto, com um bico bem fino e linhas esguias. O destaque maior era um sistema de um único amortecedor central interligado. Este amortecedor funcionava muito bem em pistas de asfalto impecável, mas sofria demais em pistas com muitas ondulações. Por isso, muita gente ficou surpresa com a performance do 018 em Hermanos Rodriguez, o circuito com o pior asfalto de todo o campeonato.

Desanimado, Michele Alboreto começou mal o campeonato. Em Jacarepaguá, correndo com o antigo 017, largou e terminou atrás do companheiro Jonathan Palmer. Em Imola, Alboreto foi o único contemplado com o carro novo nos treinos. Como o 018 não havia sido testado e estava repleto de problemas, Michele não conseguiu sequer tempo para largar na corrida. Palmer, que se classificou com o 017, utilizou o 018 na corrida e marcou um pontinho.

Em Mônaco, as coisas começaram a melhorar para o lado do italiano. Ele se recusou a pilotar o 017 na quinta-feira e sequer marcou tempo. No sábado, primeiro dia no qual os dois pilotos da equipe dispunham do 018, Alboreto fez um ótimo 12º tempo, mais de um segundo mais rápido que o tempo de Palmer. Na corrida, andou com prudência e terminou em um bom quinto lugar. A próxima etapa seria realizada no circuito mexicano de Hermanos Rodriguez, no dia 28 de maio de 1989.

Hermanos Rodriguez era uma das pistas mais interessantes do campeonato. O asfalto ondulado era apenas um dos desafios. Insegura, a pista tinha pontos perigosíssimos, como a lendária curva Peraltada. Além disso, a altitude da Cidade do México privava os motores de alguns bons cavalos. E o calor tornava tudo isso ainda pior. Logo, a corrida mexicana não premiava apenas o mais rápido: era necessário ser constante e inteligente. E Michele Alboreto era ambos.

O Tyrrell 018 apareceu muito bem em Hermanos Rodriguez, contrariando o esperado. No primeiro treino de sexta-feira, Palmer terminou em quarto e Alboreto ficou três posições atrás. No segundo, o destaque foi o italiano, que ficou em nono. Nos treinos oficiais, a equipe repetiu o bom desempenho e Alboreto fez o ótimo tempo de 1m20s066, que lhe deu a sétima posição no grid de largada. Apenas os pares da McLaren e da Ferrari, o Williams de Riccardo Patrese e o notável March de Ivan Capelli estavam à sua frente.

Mas o bom momento da Tyrrell foi interrompido por um violento acidente de Palmer na Peraltada durante o warm-up. O britânico não sofreu nada e a equipe conseguiu arrumar seu carro a tempo para a largada. De qualquer jeito, um prejuízo desses nunca é bom para a equipe com menos patrocinadores entre as vinte inscritas no campeonato. Mas paciência, acidentes acontecem.

A corrida começou movimentada. A primeira largada foi anulada após uma confusão com o pessoal do meio do grid. Por alguma razão que me escapa da cabeçorra, Ivan Capelli foi obrigado a trocar de carro para a segunda largada e teve de sair dos pits, o que deixou sua vaga em aberto no grid. Portanto, na prática, Alboreto passaria a largar da sexta posição. Muito bom, né?

Infelizmente, o italiano não se saiu tão bem nessa segunda largada e Thierry Boutsen tomou a sexta posição na primeira curva. Durante as quinze primeiras voltas, o pelotão da frente estava todo sincronizado, com as duas McLaren liderando as duas Ferrari e as duas Williams. O primeiro estraga-prazeres era exatamente Alboreto, que segurava o Benetton de Nannini. De repente, o FW12C de Boutsen começou a apresentar problemas elétricos e o belga foi obrigado a abandonar a prova. E Alboreto passava a entrar na zona de pontuação.

Pouco depois, foi a vez de Gerhard Berger abandonar. Naquele início de temporada, o austríaco estava tendo enormes dificuldades com o novo câmbio semiautomático de sua Ferrari, que voltou a quebrar em terras mexicanas. Três voltas depois, Alain Prost entrou nos pits para trocar pneus. Sua estratégia consistia no uso de pneus macios, o que o obrigaria a fazer ao menos uma parada. Ayrton Senna, seu rival, estava com pneus duros e não faria parada nos boxes.

Com tudo isso, Alboreto acabou caindo de paraquedas na quarta posição. É injusto, no entanto, desconsiderar sua condução sensata e agressiva que o permitia ficar à frente do sempre combativo Alessandro Nannini. E as coisas permaneceram iguais até a volta 44, quando a outra Ferrari, pilotada por Nigel Mansell, também teve o mesmo maldito problema de câmbio. Semiautomático do diabo!

Ironicamente, quem acabou tomando o lugar de Mansell no pódio foi exatamente o cara que foi substituído pelo próprio, o esquecido Alboreto. Enquanto os adversários sofriam com inúmeros erros e problemas, ele seguia tranquilamente na terceira posição, melhor posição ocupada por um carro de Ken Tyrrell desde o GP dos EUA de 1985, quando Martin Brundle andou por muito tempo na segunda posição. A ansiedade na Tyrrell era enorme. Um resultado desses definitivamente afastaria para longe o fantasma da pré-classificação, que assustava toda a gente do meio do grid para trás naquela época.

Alboreto chegou a esboçar uma aproximação sobre Patrese, mas o piloto da Williams reagiu nas últimas voltas. Ayrton Senna acabou vencendo a corrida vantagem de 15 segundos para Patrese. E em terceiro, 16 segundos atrás do Williams, chegava Michele Alboreto. A festa nos boxes da Tyrrell era impressionante, como se Jackie Stewart tivesse acabado de ganhar um título. E o próprio Alboreto estava feliz pra caramba. Enquanto os safados da Ferrari estavam com a borboleta do câmbio na mão, lá estava ele tomando banho de champanhe no pódio.

Foi o último pódio da carreira de Michele Alboreto na Fórmula 1. Infelizmente, foi seu último bom momento em 1989. Algumas semanas depois, Ken Tyrrell conseguiu angariar o patrocínio da Camel. Como Alboreto era patrocinado pela Marlboro, o italiano se reuniu com Ken para ver como sua situação ficaria na equipe. Em um episódio exemplar de gratidão, o dirigente disse que “isso não é problema meu”. E demitiu Alboreto sem mais nem menos. E há quem ache que os donos de equipe de antigamente eram mais escrupulosos…

Alboreto acabou completando a temporada na pequena Larrousse. Nos anos seguintes, teve mais baixos do que altos andando na Footwork, na Scuderia Italia e na Minardi. Abandonou a Fórmula 1 aos 38 anos, com cabelos grisalhos e autoestima no chão. Depois, ele foi fazer sua vida na Indy Racing League e nos protótipos. E a morte veio no auge de sua carreira de protótipos, quando era um dos favoritos para vencer as 24 Horas de Le Mans de 2001 com a Audi.

Pouco, muito pouco, para um vice-campeão de Fórmula  1.

Continuando com a minissérie que homenageia o italiano Michele Alboreto, falecido há dez anos, falo hoje de sua melhor corrida na vida. Embora o vice-campeão de 1985 tenha feito várias corridas memoráveis, especialmente na primeira metade de sua carreira, uma se destacou pelo arrojo e pela perseverança que o caracterizavam. Com vocês, o Grande Prêmio de Mônaco de 1985. Nessa prova, o vencedor foi o francês Alain Prost, da McLaren. Mas quem brilhou mesmo foi Alboreto.

Em 1985, parecia que a Ferrari havia conseguido acertar a mão. Seu 156/85 era um carro completamente diferente do malsucedido antecessor e, pelo que os primeiros resultados indicaram, peitaria a impecável McLaren na briga pelos títulos de construtores e pilotos. O motor 1.5 V6, calcanhar de Aquiles nos últimos anos, havia finalmente conseguido unir as já tradicionais potência e resistência a um bom nível de consumo, questão problemática para os ferraristas na primeira metade dos anos 80. E o chassi aparentava ser bastante estável. Adesso va bene!

Nas primeiras corridas, Michele Alboreto havia sido o grande rival de Alain Prost na briga pelo título. Os dois ainda estavam atrás de Elio de Angelis, que havia herdado uma vitória em Imola e prezava pela extrema constância, mas ficava claro que Alboreto e Prost acabariam protagonizando a disputa pelo caneco. Em Jacarepaguá e em Estoril, Michele terminou em segundo. Em Imola, um problema elétrico o tirou da disputa. A quarta corrida do campeonato seria realizada no principado de Mônaco, dia 19 de maio de 1985.

O circuito de Mônaco dispensa apresentações. Alguns amam, outros odeiam e uns poucos conseguem transitar pelas esquinas estreitas com destreza tamanha que acabam se eternizando nos anais da história. Nos dois treinos livres, Michele Alboreto conseguiu marcar o melhor tempo, superando os favoritos Prost e Ayrton Senna, mestre em voltas únicas. No treino classificatório, a concorrência melhorou e Senna conseguiu fazer sua primeira pole-position na cidade-estado.  Em segundo, o emergente Nigel Mansell. Alboreto sairia em terceiro, ao lado do surpreendente Eddie Cheever, que pilotava uma Alfa Romeo de papel. O italiano estava furioso com Senna, que teria andado devagar na parte final da última sessão de treinos oficiais unicamente para impedir que seus adversários batessem seu tempo.

Na largada, tudo em paz. Senna conseguiu resistir ao ataque de Mansell e manteve a ponta. Alboreto manteve-se em terceiro. Ao abrir a segunda volta, Michele encontrou uma brecha na reta dos boxes e engoliu Mansell na freada para a Saint Devote, subindo para a segunda posição. E as posições se mantiveram assim durante as doze voltas seguintes. Sempre brilhante em Mônaco, Ayrton chegou a construir uma distância de 12 segundos para Alboreto.

Mas o motor Renault EF15 aprontou mais uma das suas e deixou Senna na mão no início da volta 14. Assim, Alboreto acabou herdando a liderança. Em quatro voltas, Michele ampliou sua vantagem para Alain Prost de cinco para oito segundos. A vitória parecia vir tranquila, mas eis que seu compatriota Riccardo Patrese quase acabou com sua corrida indiretamente.

Patrese, que pilotava o outro Alfa de papel, estava metido em um duelo com Nelson Piquet pelo distante 13º lugar. Em um instante, Piquet conseguiu uma brecha na reta dos boxes, mas Riccardo o fechou de maneira irresponsável. Os dois se tocaram, esbarraram no guard-rail interno da reta dos boxes e escorregaram em alta velocidade até o guard-rail da Saint Devote. Muito óleo e vários destroços ficaram espalhados na pista. Quem veio imediatamente atrás, se deu mal. E este foi o caso do líder Michele Alboreto, que escorregou no óleo e passou reto na Saint Devote, quase batendo no guard-rail. Após parar o carro, o ferrarista deu ré e conseguiu manobrar o bólido de volta à pista, enquanto Prost passava e assumia a liderança.  Mas não por muito tempo.

Alboreto não demorou mais do que duas voltas para grudar na traseira do McLaren do francês. Os dois ficaram grudados até o início da volta 24, quando Michele tentou uma loucura: se posicionou por fora na reta dos boxes e deixou Prost para trás em uma belíssima ultrapassagem na aproximação para a Saint Devote. E o italiano reassumia a liderança. Agora, sim, a justiça foi feita.

Mas a vida, a vida é uma caixinha de surpresas. Na volta 31, a sujeirada que o imbróglio do Patrese deixou na Saint Devote acabou furando o pneu traseiro esquerdo da Ferrari de Alboreto e o italiano acabou tendo de ir aos boxes para colocar um pneu novo. Trabalho competente, como de costume nos boxes da escuderia do cavalo, e Alboreto é devolvido à pista sem qualquer contratempo. O problema é voltar na quarta posição, a mais de 42 segundos de Prost.

À frente de Alboreto, havia o Lotus de Elio de Angelis e o Ligier do desvairado Andrea de Cesaris. Em poucas voltas, Michele sumiu com a diferença de cinco segundos que o separava de De Cesaris e partiu para a luta. Mas sabe como é, é o De Cesaris quem está à frente, o perigo é sempre enorme. Na primeira tentativa de ultrapassagem, na freada para a Saint Devote, Michele tentou passar por dentro, mas foi impiedosamente bloqueado pela Ligier. Alguns momentos depois, Alboreto tentou passar De Cesaris na estreita Mirabeau. De modo altamente kamikaze, Andrea até jogou seu carro sobre a Ferrari, mas não conseguiu impedir a ultrapassagem. E Michele Alboreto assumiu a terceira posição na volta 49.

A diferença de De Angelis para Alboreto era grande, algo em torno dos 25 segundos. Mas o sempre obstinado Alboreto pisou fundo, emplacou nada menos que cinco voltas mais rápidas em um período de 18 voltas e aniquilou os 25 segundos de diferença. O sempre elegante Elio de Angelis ainda conseguiu segurar a Ferrari por algum tempo, mas não foi páreo para a esperta manobra de Alboreto na reta dos boxes no início da volta 64. Repetindo a ultrapassagem feita sobre Mansell, Michele passou De Angelis por dentro e já era o segundo colocado na Saint Devote.

Mas ele queria mais. Faltavam ainda 14 voltas e Prost estava 26 segundos à frente. O McLaren-Porsche do francês apresentava problemas de pressão no turbo e Alboreto poderia até sonhar com a vitória. Para facilitar as coisas, começou a garoar levemente em Mônaco. Como até a unha do meu pé sabe, Prost odeia correr em pista úmida. Era a chance do italiano da Ferrari.

A cada volta, Alboreto tirava alguns segundos de diferença. O desempenho de Michele era impressionante, mas todo o esforço não seria suficiente para tomar a liderança de Prost. E o francês da McLaren acabou vencendo a corrida, com a Ferrari cruzando a linha 7,5 segundos depois. Mesmo após uma saída de pista, um pneu furado e a necessidade de brigar com vários adversários, Michele Alboreto terminou relativamente próximo a Prost. Não fosse isso e ele teria vencido de maneira magistral em Mônaco.

Apesar do vencedor ter sido Prost, Michele Alboreto foi o homem mais festejado de Mônaco naquele dia de maio. Os dois estavam com 18 pontos, dois a menos do que o mestre da regularidade Elio de Angelis. Mas os ferraristas não estavam nem aí: o 156/85 aparentava ser o melhor carro do grid e era apenas uma questão de tempo para Michele Alboreto tomar a liderança do campeonato. E foi exatamente isso o que aconteceu na etapa seguinte, vencida por ele, que tomou a ponta da tabela.

Infelizmente, conforme o ano passava, o 156/85 se mostrava cada vez mais distante das boas expectativas iniciais. Tinha graves problemas de estabilidade e de velocidade de ponta, o que representava um enorme estorvo nas pistas de alta. E Alboreto acabou sucumbindo à McLaren de Prost. Graças à incompetência da Ferrari, a Itália foi privada de fazer um terceiro piloto campeão de Fórmula 1 em 1985.

Meio atrasado, um pouco doente, absolutamente carente de tempo e saco, vou fazer uma pequena homenagem a Michele Alboreto, o piloto italiano que morreu em um acidente besta em Lausitzring há dez anos. Alboreto, vice-campeão de Fórmula 1 em 1985, capotou seu Audi R8 após um pneu ter estourado, o que causou uma saída de pista e o consequente acidente. Tendo corrido pela última vez no GP da Austrália de 1994, o italiano foi o piloto mais recente de Fórmula 1 a falecer.

Nos próximos três dias, apresento três momentos cruciais da carreira de Michele Alboreto. Hoje, falo da ascensão. Amanhã, o auge. Na quinta-feira, a decadência. Sua carreira contemplou estas três fases e muitos, incluindo eu, acreditam que se ele tivesse tido à disposição um carro bom durante um período maior, o último campeão saído da bota não teria sido o longínquo Alberto Ascari. Paciência, enfim. Hoje, apresento a corrida que projetou Alboreto à tropa de elite da Fórmula 1: o Grande Prêmio de Las Vegas de 1982.

Já cansei de falar sobre o circuito de Caesars Palace, considerado por muitos o pior circuito de todos os tempos. Apesar do bom asfalto e dos pontos de ultrapassagem, os boxes eram minúsculos, o traçado era pouco criativo e o calor era mortificante. Muitos ficaram revoltados, pois eram tempos nos quais havia muito circuito legal por aí e a Fórmula 1, ávida pelos dólares de Las Vegas, acabou decidindo realizar a etapa derradeira da temporada de 1982 justamente naquela porcaria localizada no meio do nada americano.

Após um ano bastante atribulado, a Fórmula 1 desembarcava em Las Vegas com dois pilotos brigando pelo título. O sueco naturalizado finlandês Keke Rosberg liderava com 42 pontos, seguido pelo francês Didier Pironi, com 39, e pelo inglês John Watson, com 33. Como Pironi estava se recuperando das inúmeras fraturas sofridas em Hockenheim, Watson era o único que poderia impedir um trunfo de Rosberg. Estando nove pontos atrás, apenas um milagre tiraria o título do nórdico da Williams. E Alboreto?

Aos 25 anos, Michele Alboreto era uma das revelações da Fórmula 1 naquele início de década. Correndo com um limitado Tyrrell-Ford 011, o italiano havia marcado 16 pontos até a penúltima etapa, realizada em Monza. Sem a menor sombra de dúvidas, uma boa temporada em uma equipe que já via de binóculo seus bons momentos. A Tyrrell não vencia uma corrida havia quatro anos, o dinheiro dos dias da Elf e da Goodyear havia ido embora e o setor técnico carecia urgentemente de recursos. A coisa estava tão feia que, no ano anterior, Ken Tyrrell foi obrigado a reduzir o número de funcionários de 42 para 26 e a vender seu motorhome para comprar pneus novos!

Apesar dessas dificuldades financeiras, o material humano era de ótima qualidade. O projetista Maurice Philippe foi o responsável pelo desenvolvimento do 011, talvez um dos melhores e mais modernos chassis do grid em 1982 e seguramente o melhor entre as equipes que utilizavam motor aspirado. O problema maior era justamente a falta de potência do motor Ford, que não podia competir com os propulsores da Renault, da BMW e da Ferrari. Em pistas velozes, a Tyrrell acabava ficando para trás. No entanto, em pistas sinuosas, o 011 se mostrava um bólido ágil e de ótima capacidade de retomada e tração. Sendo assim, Caesars Palace era o palco perfeito para uma boa exibição da Tyrrell.

O fim de semana começou muitíssimo bem para Michele Alboreto, que fez o melhor tempo no treino livre de sexta. No primeiro treino oficial, o italiano conseguiu uma miraculosa segunda posição, ficando atrás apenas do Renault de René Arnoux. No segundo treino, Alain Prost, pilotando o outro Renault, fez uma excelente volta e marcou a pole-position. Alboreto ainda conseguiu melhorar sua melhor marca em mais de um segundo, mas não conseguiu se manter na primeira fila. Ainda assim, largar em terceiro seria um grande negócio para ele, que nunca havia largado em posição tão boa até ali.

Mas as atenções da Fórmula 1 estavam direcionadas ao sexto colocado no grid, Rosberg, e ao nono, Watson. Apesar de John ser especialista em corridas de recuperação espetaculares, seria difícil recuperar oito posições em uma corrida tão competitiva. Keke, por outro lado, só precisava manter a posição para o título ser seu. Lá na primeira fila, as duas Renault protagonizariam um duelo particular durante as 75 voltas. No meio dos leões, Alboreto parecia ser apenas fogo de palha.

Na largada, poucas coisas mudaram lá na frente. Alain Prost e René Arnoux mantiveram as duas primeiras posições, enquanto que Alboreto mantinha-se em terceiro após esbarrar na roda do Ligier de Eddie Cheever. Na volta dois, Arnoux tomou a ponta de Prost e ficou por lá até a volta 14, quando o motor Renault de seu carro começou a perder rendimento. Cinco voltas depois, o propulsor explodiu de vez e René teve de abandonar a corrida.

Prost assumiu a liderança e começou a abrir uma boa vantagem para Alboreto, que era o segundo. Para o italiano, o resultado já estava bom demais, pois superaria o terceiro lugar de Imola como o melhor resultado obtido por ele na temporada.  Em condições tão difíceis, o negócio para Michele era conduzir seu 011 preto com prudência. Realista, ele sabia que a vitória só viria com um problema de Prost. E o problema aconteceu.

A partir da volta 45, a distância entre Alain Prost e Michele Alboreto começou a cair vertiginosamente. O motor Renault vibrava tanto que o carro do francês estava ficando totalmente inguiável. E Alboreto não precisou de mais do que sete voltas para aniquilar os onze segundos que o separava de Prost e tomar a liderança do narigudo em uma ultrapassagem facilitada. Naquele momento, a Tyrrell entrou em polvorosa. Pela primeira vez desde o fim dos anos 70, um carro do madeireiro Ken ponteava a tabela.

Com Prost em situação cada vez pior e John Watson quase dez segundos atrás, Alboreto só teve de conduzir seu carro até a linha de chegada sem sobressaltos. E assim ele o fez. Após 75 voltas, Michele Alboreto obteve sua primeira vitória na Fórmula 1. Um belíssimo final de temporada para aquele tímido sujeito que havia conseguido conquistar a atenção da Tyrrell após vencer o campeonato europeu de Fórmula 3 em 1980.

No pódio, meio sem jeito, Alboreto celebrou o trunfo ao lado de John Watson e Eddie Cheever. O campeão Keke Rosberg também subiu ao pódio para celebrar seu título e todos posaram para fotos com a cantora Diana Ross. Com a vitória, Alboreto subiu para a oitava posição na tabela final do campeonato. Era seu primeiro ano completo na Fórmula 1. Notável, mas não surpreendente.

A vitória só confirmou aquilo que todo o paddock imaginava: aquele franzino italiano era um grande piloto que precisava apenas de um bom carro. Antes da corrida de Caesars Palace, Michele já havia recebido vários bons convites para a temporada de 1983. Um deles havia feito pela Ferrari, que o convidou por intermédio do comendador Enzo Ferrari alguns meses antes. Como havia um contrato a ser cumprido com a Tyrrell, Alboreto recusou todos os convites e ainda enviou uma carta à Ferrari agradecendo pela atenção. Enquanto isso, Ken anunciava que só cederia Alboreto para a escuderia italiana se recebesse, em troca, seus motores turbo em 1983. Eram tempos em que a Ferrari não fornecia motores para outras equipes e a declaração foi considerada uma piada pelos italianos. E Michele Alboreto seguiu na Tyrrell em 1983.

Amanhã, falo da melhor corrida feita por Alboreto na Fórmula 1. Vocês imaginam qual seria?

A ansiedade é imensa. Você, piloto de testes que está fazendo seu primeiro dia na sua nova equipe, não consegue conter a expectativa e a vontade de dirigir. Sua indumentária já está completa: o capacete, a balaclava, as luvas, o macacão e as botas. Após discutir com os engenheiros, receber algumas massagens nas costas e engolir um prato raso de macarronada ao sugo, você está dentro do carro esperando pelo início da primeira sessão de treinos livres da primeira etapa da temporada. Aí, chega a hora. As luzes verdes se acendem. Você liga o carro e é o primeiro piloto a entrar na pista. Sai dos pits, completa a primeira curva, acelera no trecho de alta, completa a segunda curva, traciona mal, perde o controle e se estatela no muro. E acaba aí sua estreia.

Este parágrafo resume perfeitamente o papel do indiano Karun Chandhok na primeira sessão de treinos livres desta etapa de Melbourne. Anunciado nesta semana como um dos quatro pilotos de testes da Lotus para este ano, Chandhok tomou a fórceps o lugar que já estava reservado para o italiano Davide Valsecchi e não conseguiu andar mais do que alguns metros com o novo Lotus T128, deixando tanto Valsecchi como Jarno Trulli, o dono do carro no restante do fim de semana, rangendo os dentes. Entregar um carro a um retardado desses?

Mas calma aí. Chandhok não é o primeiro e nem será o último a ter problemas logo após sair dos pits. Na verdade, a história do automobilismo mostra que inúmeros pilotos já tiveram problemas após deixarem os boxes. Alguns deles os tiveram enquanto saíam de lá, outros até conseguiram completar uma volta lenta, mas nenhum deles conseguiu fazer muita coisa após sair do casulo. Hoje, mostro que já houve tudo quanto é tipo de coisa. Sempre há piloto que sai dos pits e…

5- PERDE A RODA

Na volta 44 do fatídico GP de San Marino de 1994, o italiano Michele Alboreto leva seu Minardi aos boxes. Faz seu último reabastecimento e sua última troca de pneus e sai normalmente. O problema é que uma das rodas, a traseira direita, não havia sido fixada corretamente. Quando o carro entra em movimento, a tal roda simplesmente escapa e voa em direção aos mecânicos dos boxes vizinhos. Ainda dentro dos pits, Alboreto se arrasta com apenas três rodas e para logo à frente. Segundos depois, a tal roda surge dos pits e acerta o Minardi estacionado.

A roda havia acertado dois mecânicos da Ferrari e dois da Lotus, que acabaram feridos, mas não seriamente. Naqueles tempos, não havia limite de velocidade nos pits e os pilotos saíam como doidos de suas posições nos boxes. Quando a roda saiu, o carro de Alboreto já estava em velocidade considerável. A partir daquele incidente, a FIA decidiu implantar a regra de velocidade limitada dentro dos boxes.

O acidente nos pits foi apenas o último – e talvez o menos sério – incidente daquele que Murray Walker considerou ser “o fim de semana mais sombrio da história da Fórmula 1“. Após o acidente de Barrichello, as mortes de Roland Ratzenberger e Ayrton Senna e os vários espectadores feridos após o acidente de Pedro Lamy e JJ Lehto na largada, a roda voadora pode até ser considerado um caso benigno.

4- SE ENVOLVE EM CHAMAS

No início de 2009, a Stock Car V8 teve todos os seus antigos carros, os modelos Chevrolet Astra e Peugeot 307, substituídos por uma nova versão do 307 e um novíssimo Chevrolet Vectra. Rebaixados e com visual mais agressivo, os novos veículos se aproximaram bastante dos carros GT. E as mudanças não se restringiram à aparência das bolhas: por dentro, todos os aspectos mecânicos, tecnológicos e de segurança foram remodelados. Depois de tantas decisões polêmicas e tantos erros esportivos, a Stock finalmente parecia estar dando um passo à frente.

Mas nem mesmo esse passo à frente funcionou 100% a contento. Na pré-temporada, os carros tiveram inúmeros problemas relacionados ao mau posicionamento dos escapamentos, que chegavam a queimar os pés dos pilotos. A história mais grave aconteceu justamente com o piloto preferido da categoria, o atual tricampeão Cacá Bueno.

No primeiro dia de testes da pré-temporada, realizado no autódromo de Interlagos, Cacá levou seu Peugeot número 0 para conhecer seu novo amigo. Deu uma volta lenta e sentiu que o negócio não estava indo bem. O escapamento, que chegava a alcançar 1.000ºC, estava mal posicionado e a espuma anti-impacto recebia todo o calor do cano de escape. No caso do carro de Cacá Bueno, a tal espuma simplesmente começou a se incendiar. Nessa altura, ele estava completando o S do Senna e já havia tomado a decisão de voltar aos pits.

Não deu tempo. Pouco depois do S do Senna, a fumaça do incêndio tomou conta de todo o carro e o filho de Galvão Bueno só teve tempo para dar uma cotovelada na porta antes de quase desmaiar. Em segundos, as chamas tomaram conta do carro. Cacá foi resgatado, mas nada de grave aconteceu com ele. O treino foi imediatamente interrompido e todo mundo sentou-se à mesa para discutir o que seria feito com essa questão do escapamento. Felizmente, as equipes conseguiram mudar a posição do sistema de escape, os pilotos pararam de sofrer com o calor e Cacá Bueno levou o título daquela temporada.

3- LEVA O MACACO HIDRÁULICO EMBORA

O GP da Espanha de 1995, como costuma acontecer em toda corrida espanhola, estava um saco, já que nada de interessante estava acontecendo. Pole-position, o alemão Michael Schumacher dominava a prova com facilidade e as posições só mudavam nos pits ou com quebras dos adversários. Os bocejos eram generalizados. Mas eis que algo realmente bizarro acontece na volta 40.

Terceiro colocado, o inglês Johnny Herbert finalmente realizava uma boa prova naquele ano de 1995. Contratado pela Benetton no fim do ano anterior, Herbert havia levado uma surra do companheiro Schumacher nas primeiras etapas e precisava muito de um resultado em Barcelona, já que os boatos a respeito de uma substituição por Martin Brundle ou Jos Verstappen eram fortes. No segundo terço da prova, Herbert estava em terceiro e foi aos pits fazer sua segunda parada na volta 40.

Parada rápida, como a Benetton costumava fazer, e Johnny tinha caminho livre para voltar em uma boa posição. Mas houve um pequeno desentendimento entre o sujeito que controla o pirulito e o responsável pelo macaco hidráulico. Quando todos os mecânicos haviam terminado de trocar os pneus, o pirulito foi levantado sem que o macaco hidráulico houvesse sido retirado da traseira do B195. Então, o carro de Herbert arrancou com tudo e levou aquele enorme trambolho grudado na traseira!

Todos ficaram surpresos com o que acabaram de presenciar. Enquanto a Benetton se desesperava, Johnny nem sabia o que se passava. No rádio, a equipe começou a gritar “para, para, para”. Quando o inglês respondeu “o quê?”, o macaco se desprendeu na saída dos boxes e ficou no chão. Aí, a equipe passou a gritar “vai, vai, vai”. Herbert seguiu, subiu para terceiro e pegou a segunda posição na última volta, quando Damon Hill abandonou. Quase que ele perde seu primeiro pódio devido ao apetrecho que leva o nome do simpático símio.

2- BATE NO ADVERSÁRIO

Michael Schumacher foi o grande vencedor do Grande Prêmio do Canadá de 1998, mas nem todo mundo engoliu o resultado com facilidade. Um dos seus colegas, o compatriota Heinz-Harald Frentzen, estava inconformado com o que havia acontecido entre ele e Michael na volta 21.

A rivalidade entre os dois era antiga e encarniçada. E quem sempre iniciava uma situação ruim era Michael Schumacher. Em 1989, em uma corrida de Fórmula 3 em Österreichring, ele tirou Frentzen da pista em uma manobra realizada em altíssima velocidade. Dois anos depois, a ex-namorada de Heinz-Harald, Corinna Betsch, o largou para ficar com o desafeto. Frentzen nunca engoliu a perda, e os dois nunca se bicaram muito.

Na corrida canadense, Schumacher fez sua parada de 9,1 segundos na volta 20, momento no qual o safety-car estava na pista devido ao acidente de Mika Salo. O piloto da Ferrari era o líder e não estava disposto a facilitar a vida para ninguém no retorno para a pista. Ao voltar, Schumacher foi jogando seu carro no traçado correto e simplesmente ignorou a presença do Williams de Frentzen, que vinha em alta velocidade. Os dois carros se tocaram e Frentzen rodopiou até a caixa de brita, ficando preso por lá. Michael seguiu incólume rumo à vitória.

Frentzen ficou extremamente irritando, gesticulando para o adversário enquanto seu carro ainda rodopiava. Após o incidente, Patrick Head, diretor da Williams, foi à mureta da Ferrari falar umas boas para Jean Todt, diretor da Ferrari. Após a corrida, Schumacher revelou que não havia visto ninguém em seu retrovisor. E que se a culpa fosse realmente dele, pediria mil desculpas a Frentzen. O mea culpa não convenceu a muitos.

1- BATE LOGO AO VOLTAR PARA A PISTA

“O que que o Berger conseguiu fazer? Não, o Berger faz coisas que ninguém pode acreditar ou imaginar”. Estas foram as palavras do narrador Galvão Bueno ao testemunhar o que havia acabado de acontecer no Grande Prêmio de Portugal de 1993. À primeira vista, algo realmente impressionante.

Gerhard Berger, que vinha fazendo uma temporada terrível em 1993, havia ido aos boxes para troca de pneus na volta 34. Os quatro pneus foram trocados e a Ferrari é devolvida à ação. Mas sua corrida acabaria poucos segundos depois. A saída dos pits do circuito de Estoril tinha uma espécie de ondulação, e um carro que fosse muito baixo ou que tivesse um sistema de suspensões não tão eficiente teria problemas para passar por lá.

O assoalho do F93A de Berger bateu na tal ondulação e o bólido se descontrolou, atravessando o retão dos boxes e batendo no guard-rail do outro lado, estacionando alguns metros depois. Por muito pouco, o Footwork de Derek Warwick e o Sauber de JJ Lehto não o atingiram em altíssima velocidade, o que transformaria a patacoada em uma tragédia. A culpa não era do austríaco, que já estava atolado de críticas naquele momento. Mas foi um acidente que, definitivamente, não contribuiu com sua imagem.

FERRARI 10 – Depois de tanta dor de cabeça, nada como um bom fim de semana para trazer a felicidade de volta aos carcamanos vermelhos. Fernando Alonso fez uma pole-position histórica e venceu impiedosamente. Felipe Massa também não foi mal e subiu ao pódio. Os fãs italianos não se importam com ataques ao espírito esportivo ou à ética. Para eles, o que importa é o trunfo da equipe. Portanto, estão felizes.

MCLAREN 8 – Era a única equipe que poderia peitar a Ferrari, mas acabou não conseguindo nada além de um segundo lugar com Jenson Button. O atual campeão, por sinal, fez uma excelente corrida e liderou antes de sua parada nos pits. Lewis Hamilton bateu na primeira volta e jogou fora o que poderia ter sido uma ótima corrida.

RED BULL 8,5 – Levando em consideração que não tinha o melhor carro para esta pista, fez até mais do que o esperado. Sebastian Vettel terminou em quarto após apostar tudo em uma estratégia ousada e Mark Webber foi o sexto. Terminar com os dois carros intactos é o ponto alto do fim de semana dos rubrotaurinos.

MERCEDES 7 – Fim de semana típico. Rosberg terminou em quinto após boa largada e Schumacher só fez dois pontinhos com o nono lugar. Não brilhou e nem passou vergonha.

WILLIAMS 7,5 – Vem sofrendo uma mudança de tendência nas últimas corridas, com Nico Hülkenberg marcando mais pontos que Rubens Barrichello. Ambos pontuaram em Monza, mas apenas o alemão brilhou. De qualquer jeito, a equipe melhora a passos largos.

RENAULT 5,5 – Precisa melhorar urgentemente a qualidade do trabalho de pit-stops. Pela segunda vez seguida, Robert Kubica perdeu a chance de terminar em uma posição melhor devido a problemas nas paradas. Vitaly Petrov fez outra corrida ordinária e sua permanência na equipe em 2011 corre risco. Quanto ao carro, o mesmo de sempre, o que não é ruim.

TORO ROSSO 4,5 – Passou perto dos pontos com Sebastien Buemi, mas terminou zerada novamente. Nem ele e nem Jaime Alguersuari vêm chamando a atenção, e o carro também não ajuda. É triste constatar que foi nessa pista que a equipe obteve sua primeira e única vitória na Fórmula 1 há dois anos.

FORCE INDIA 2 – Fim de semana péssimo. Vitantonio Liuzzi teve problemas no motor e Adrian Sutil escapou da pista na primeira volta. Quando todos se deram conta, os carros indianos estavam lá no final do grid. Ambos terminaram, mas o sonho dos pontos era apenas utopia.

SAUBER 3 – Depois de alguns fins de semana de prestígio, volta à realidade nua e crua. Os problemas retornaram, como pôde ser visto com Kamui Kobayashi. Pedro de La Rosa, ao menos, levou o carro até o fim, mas não chamou a atenção em momento algum.

VIRGIN 5 – Com Timo Glock, tem motivos para comemorar. Andou razoavelmente bem e terminou à frente das outras duas equipes novatas. No entanto, tanto Glock quanto Lucas di Grassi tiveram problemas durante a corrida. Respectivamente, com os freios e com a suspensão. Mas já teve fins de semana piores.

LOTUS 3,5 – Heikki Kovalainen e Jarno Trulli dividiram a nona fila, algo bastante positivo. No entanto, o finlandês esteve discreto e o italiano teve problemas com o câmbio no final da prova. A equipe aproveitou o momento para anunciar o divórcio com a Cosworth. No ano que vem, Lotus-Renault. Diante disso, não há razões para deixar a Itália chateado.

HISPANIA 0 – Putz… Bruno Senna só apareceu quando tentou ligar seu problemático carro por três vezes em um dos treinos da sexta-feira. Sakon Yamamoto, por outro lado, só apareceu quando atropelou um engenheiro da equipe. O engenheiro estava errado ao entrar perigosamente em um espaço que não era seu. E o homem responsável pelo pirulito errou também. Gosto da equipe, mas reconheço que sua participação italiana foi uma piada.

TRANSMISSÃO GALVÃO NO BANHEIRO – Coitado do Lucas “desgraça”. Pô, Galvão, desgraça é o carro dele. Além disso, informo que Kamui Kobayashi, embora não esteja na melhor equipe do mundo, não está em uma situação tão ruim assim. Não é ele quem corre na Hispania, e sim seu compatriota Sakon Yamamoto. Japoneses não são todos iguais. Por fim, aquele áudio vazado na transmissão da internet é peça rara. Luciano Burti avisando ao produtor que Galvão Bueno foi ao banheiro beira o lisérgico.

CORRIDA MONÓTONA – Uma corrida em Monza nunca é mais ou menos. Ela pode ser inesquecível e sensacional ou absolutamente insípida. A de ontem se encaixa perfeitamente bem na segunda definição. As brigas e as ultrapassagens foram poucas e ficou latente o quão é difícil ultrapassar na Fórmula 1 atual. Apenas as atuações individuais, como as de Alonso e Button, salvaram a prova. Ao menos, ver os carros acelerando o tempo todo é bem melhor do que aquele esquema retão-cotovelo-sequência de curvas de primeira e segunda marcha, algo típico nas pistas asiáticas.

GP2 E DEU MALDONADO – Não foi bem do jeito que a gente esperava, mas o venezuelano Pastor Maldonado se sagrou campeão da temporada 2010 da GP2 neste final de semana. Após seis vitórias consecutivas em corridas de sábado, todo mundo esperava mais um domínio acachapante dele. No entanto, o que vimos foram dois acidentes do piloto da Rapax e zero pontos. Para sua sorte, o mexicano Sergio Perez, principal adversário, também não teve um fim de semana fácil e se envolveu em um forte acidente com o DPR de Michael Herck. Na corrida de sábado, venceu o inglês Sam Bird, uma das gratas surpresas deste ano. Virei fã do cara, que sempre anima as corridas com muitas ultrapassagens. No domingo, venceu Christian Vietoris, uma das decepções deste ano. Agora, só teremos GP2 em Abu Dhabi. Prevejo milhares de mudanças nas equipes até lá.