Boa tarde a todos. Bom dia e boa noite aos dois ou três leitores que se encontram em um fuso horário diferente.

Em outubro do ano passado, o leitor Marcelo Druck me enviou um relato bastante interessante sobre sua viagem à Coréia do Sul, aquela cheia de prédios altos e gente de cabelo colorido. Fã de Fórmula 1, Marcelo aproveitou a ocasião para assistir ao GP da Coréia, realizado no dia 14 de outubro de 2012. A corrida em si foi uma merda, creio que eu mesmo devo ter dormido depois da segunda ou terceira volta, mas isso não importa. O intrépido viajante esteve lá em Yeongam naquele dia e suas impressões sobre o GP estão no relato postado abaixo. Para quem nunca esteve numa corrida internacional de Fórmula 1, o que é o meu caso e certamente é o de 97,8% dos meus leitores, é uma leitura imperdível.

A propósito, a melhor parte de sua viagem ao noroeste asiático certamente não foi a corridinha de Fórmula 1. Em abril deste ano, o portal G1 apresentou as histórias de alguns brasileiros doidos que contrariaram as opiniões ortodoxas de amigos e parentes e decidiram conhecer a Coréia do Norte, conhecida como o país mais fechado do planeta. Marcelo foi um destes. Na reportagem, você poderá ler algumas de suas impressões sobre a misteriosa nação norte-coreana. Detalhe para a foto com o militar, impressionado com a presença de um sujeito branco, bigodudo e orgulhosamente trajado com a camiseta do Grêmio.

(Só eu fiquei gratuitamente incomodado com o outro brasileiro, que fazia questão de tirar foto com cara de tonto com os norte-coreanos?)

Inspirador. Meu sonho de conhecer o Cazaquistão se tornou um pouco menos inalcançável depois disso.

Eu deveria ter postado esse texto ainda no ano passado. Não o fiz por inúmeras razões, a maior parte delas relacionada à absoluta falta de tempo. Hoje, tomei vergonha na cara. Peço desculpas novamente ao Druck pela demora. E ainda conclamo aos leitores para que enviem suas histórias. Já assistiu a uma corrida em outro país? Teve algum contato interessante com o mundo do automobilismo? Já foi piloto, chefe de equipe ou dono judeu de alguma categoria internacional? Mande seu relato. Prometo que não demorarei onze meses para postar.

Chega de parlatório. Vamos ao texto.

 

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Antes de mais nada, este é um relato sobre pilantragem.

In you we trust

In you we trust

Os coreanos são um povo muito organizado e honesto, ao menos para o olhar leigo. O país parece funcionar como um relógio suíço. O grande exemplo disso (e que diferença para quem vem de São Paulo!) é o transporte público. Lá eles primeiramente esperam os outros passageiros saírem e só depois entram no vagão do metrô, sem desespero nem empurra-empurra. Também é impressionante ver que os ônibus e estações do metrô não costumam ter catracas e as pessoas pagam mesmo assim.

Não houve pilantragem em nenhum transporte público. Usei meu T-Money, o Bilhete Único deles com nome de rapper ruim, em todos meus deslocamentos.

Quando comprei meu ingresso para assistir à corrida em Yeongam, não sabia que a Coréia do Sul era assim. Faltavam alguns meses para as minhas férias e eu não acreditava que nenhum povo pudesse ser tão organizado. Acabei por escolher o ingresso mais barato, só para ir na corrida mesmo.

O autódromo de Yeongam fica nos arredores de Mokpo, uma aprazível cidade na costa sudoeste do país. Pelo que havia lido, diziam que era um cu de mundo, mas foi fácil chegar lá de trem-bala. O preço era bem justo, cada passagem custava uns R$ 80 para uma distância maior que o trajeto São Paulo – Rio de Janeiro, mas a viagem só durou umas três horas. Também havia ônibus gratuitos da estação para o autódromo.

"Se tu quiser mostrar essa bizarrice". Sem problemas, até porque bizarro mesmo seria uma foto dessas com o Psy

“Se tu quiser mostrar essa bizarrice…”. Sem problemas, até porque bizarro mesmo seria uma foto dessas com o Psy

Como comprei meu ingresso pela internet, deveria retirá-lo perto da entrada da reta dos boxes. Fiquei espantado ao ver que o funcionário era um tiozão inglês com cara de pilantra. Como faltavam cerca de duas horas da corrida, fiquei por ali para dar uma olhada nas lojas das equipes antes de ir para meu lugar. Esperava ter qualquer produto das equipes pequenas e a única coisa que me interessou foi uma jaqueta da Force India. Mas tudo era muito caro e deixei pra lá.

Vi que dava pra subir para a arquibancada livremente, sem ninguém pra me revistar ou pedir meu ingresso. A princípio, eu queria apenas tirar umas fotos, ver os boxes, a preparação dos carros, o desfile dos pilotos. Imaginei que mais cedo ou mais tarde ia aparecer alguém pra conferir o ingresso de todo mundo. Não era possível que fosse tão fácil assim ver a corrida num lugar dez vezes mais caro do que o que eu paguei.

Patota

Patota

Resolvi brincar com a sorte, até porque precisava muito ir ao banheiro. Aproveitei que ainda faltava uma hora pra começar a corrida, tempo de sobra para ir ao meu lugar de direito caso me barrassem agora. Que nada, entrei tranquilamente e até dei um olá (“anneyong hasiminika” em coreano, só pra você imaginar como é o negócio) para uns policiais.

A largada é impressionante. Todo o barulho, a expectativa, o cheiro de gasolina, o Romain Grosjean pronto pra fazer alguma merda. É um negócio até meio assustador, mas todo fã de automobilismo precisa ver isso antes de morrer, ou acabarem com o motor a combustão, o que seria muito pior do que morrer.

Começa a brincadeira

Começa a brincadeira

Sobre a corrida, nem tenho muito para falar. Até porque, além de não acontecer muita coisa, da reta dos boxes não dava pra ver nenhuma outra parte do circuito. Só pelos telões que colocaram em cima do paddock. Torci para dar algo errado, algum carro pegar fogo ou algo parecido, mas os pit-stops também foram divertidos.

Depois da corrida, até deu pra ficar relativamente perto do pódio. Mas aí eu já estava mais preocupado em voltar logo pra estação e estava com medo de ter gastado toda a sorte do dia fazendo o penetra. Precisava voltar pra Seoul.

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RED BULL10 – Mais humilhante do que o fim de semana coreano, só batendo em aleijado. A equipe rubrotaurina só não conseguiu a ponta no primeiro treino livre, comandado por Lewis Hamilton. A liderança no segundo e no terceiro treino livre, a primeira posição nas três sessões da qualificação, a pole-position, a vitória, o segundo lugar e a volta mais rápida ficaram nas mãos de Sebastian Vettel ou Mark Webber. O RB8 de Adrian Newey achou em Yeongam um habitat ideal: pista cheia de trechos lentos, curvas desgraçadas e uma reta interminável. Deu tudo certo, até mesmo o salto daquele austríaco doidão em Roswell.

FERRARI9 – A Red Bull era a dona do melhor carro, tudo bem. Quem de certa forma surpreendeu foi a Ferrari, que superou a McLaren com folga neste fim de semana. Fernando Alonso e Felipe Massa tinham um carro para, ao menos, angariar uma das garrafas de champanhe do pódio. O espanhol obviamente foi o que se deu melhor, embora às custas de ordem de equipe, que obrigou Massa a ficar atrás de Alonso mesmo tendo um carro melhor. Coisas de Maranello. Mas os dois pilotos andaram muitíssimo bem e pegaram o terceiro e o quarto lugar sem maiores problemas. Tristeza maior para os ferraristas é ver a Red Bull dominando estas últimas corridas.

LOTUS7,5 – Se a Red Bull foi a melhor equipe e a Ferrari foi a segunda melhor, a medalha de bronze vai para a Lotus preta de guerra. Kimi Räikkönen e Romain Grosjean não brilharam nos treinos livres, mas conseguiram boas posições no grid de largada e terminaram bem no domingo. O finlandês pode não ter sido o mais agressivo dos moicanos, mas chegou em quinto e somou mais dez pontos para o portfólio. Grosjean escapou dos perigos, que não foram poucos, e finalizou em sétimo, marcando seis pontos bem úteis. E a primeira vitória da equipe, ninguém fala mais nisso?

FORCE INDIA6,5 – Teve corridas totalmente diferentes com seus dois pilotos. Nico Hülkenberg fez os indianos parecerem a quarta força do fim de semana coreano, mesmo com todos os inúmeros problemas financeiros que assolam o patrão Vijay Mallya. Andou bem no treino oficial e sentou a bota na corrida, com direito a ultrapassagem dupla sobre Lewis Hamilton e Romain Grosjean. Acabou o domingo na sexta posição. Paul di Resta, o escocês, não apareceu em momento algum e teve problemas tanto com os pneus macios como com os supermacios. Terminou mais perto do Quirguistão do que dos pontos. E acabou sendo superado novamente pelo colega na tabela de classificação de pilotos.

TORO ROSSO8,5 – Grande fim de semana. OK, para uma equipe que já chegou a vencer corrida, marcar seis pontos com os dois pilotos não é exatamente o resultado dos sonhos para ninguém. Devemos, contudo, nos lembrar da eterna falta de velocidade do STR7 que Daniel Ricciardo e Jean-Éric Vergne são obrigados a dirigir neste ano. Os dois tiveram performances parecidíssimas: largaram no meio do bolo, ganharam posições e terminaram em oitavo e nono, isso tudo com estratégias diferentes. Que a jovem dupla, muito melhor do que a anterior, continue progredindo.

MCLAREN0 – Ah, deu dó da equipe prateada neste fim de semana. Só faltou pegar fogo nos boxes da McLaren nestes dias. Nem posso dizer que o carro estava tão ruim, pois Lewis Hamilton foi o mais veloz do primeiro treino livre. O que acontece é que os astros se alinharam de modo que tudo desse errado tanto para Hamilton como para Button. O sósia de Chris Martin foi mal pacas no treino oficial e sequer passou da primeira volta, pois foi engolido pelo kamizake Kamui Kobayashi. Lewis estava nas primeiras posições no começo, mas os espíritos ruins atacaram seu carro e ele foi perdendo posições até o fim da corrida. Só finalizou em décimo pela sorte da mais pura. De bom, apenas o calor que ele deu em Kimi Räikkönen pouco antes de um de seus pit-stops.

SAUBER2 – É uma equipe acostumada com altos e baixos. De uma semana para a outra, deixou de ser uma das principais forças da categoria para ser apenas mais uma equipe apagada e modorrenta. Kamui Kobayashi fez todo mundo se esquecer do pódio de Suzuka com uma lambança daquelas na primeira volta coreana, tirando da corrida os pobres Jenson Button e Nico Rosberg. Para compensar o mau resultado no treino oficial, Sergio Pérez tentou driblar os outros largando com pneus macios, mas acabou sendo driblado e ultrapassado por muita gente, finalizando fora dos pontos. Ao que parece, o C31 é um carro mais adequado para pistas extremas, pecando um pouco nos traçados intermediários de Hermann Tilke.

MERCEDES1 – A futura equipe de Lewis Hamilton terminou o domingo com as mãos no bolso novamente. Não levou nem um pontinho para casa como recordação. Não há muito o que recordar, para dizer a verdade. O W03 continuou ruim e Nico Rosberg e Michael Schumacher não fizeram muito mais do que colocá-lo na quinta fila do grid de largada. Esta foi a melhor parte do GP coreano, por incrível que pareça. Na prova, Rosberg abandonou logo cedo e Schumacher teve uma atuação apática como poucas, aparecendo mais como um sujeito velho e cansado que não conseguia conter os ataques de moleques com quinze anos a menos de vida. Trágico, trágico.

WILLIAMS3 – Pode ao menos se dar ao luxo de comemorar zero carros quebrados ou batidos, uma proeza para quem tem Pastor Maldonado e Bruno Senna como pilotos. Os dois não bateram, não rodaram, não tiraram os outros da pista, mas também não andaram nada. Largaram lá no meio do pelotão e por lá ficaram. Maldonado, o chavista, ainda tentou algo diferente, uma corrida com apenas um pit-stop. Não funcionou. Já o sobrinho ficou naquela toada conservadora de sempre. Foi o último colocado entre os pilotos das equipes que contam. À equipe, o consolo de todos os carros terem terminados com as quatro rodas.

CATERHAM3 – Tarefa mais difícil é a de dar notas às equipes nanicas, pois elas quase nunca trazer algo de novo para análise. Desta vez, Vitaly Petrov superou Heikki Kovalainen no grid de largada e nos resultados finais da corrida, embora Kova tenha sido o cara dominante da equipe verde durante a prova. Não incomodaram ninguém à sua frente e também não tiveram trabalho com os de trás.

MARUSSIA2,5 – Charles Pic é o único piloto do grid que já estourou o limite de oito motores permitidos por temporada – teve problemas e utilizou o nono em Yeongam, sendo punido com a perda de dez posições no grid, nada que altere muito sua vida. Timo Glock, que havia sido até mais lento do que Pic no treino oficial, teve mais uma daquelas típicas procissões lentas e terminou em 18º, uma posição à frente do companheiro francês.

HRT2 – O carro quebrou com Narain Karthikeyan no treino oficial e com Pedro de la Rosa na corrida – é melhor a pequena equipe ficar de olho no controle de qualidade de sua produção, pois os abandonos estão ocorrendo com uma frequência incômoda. No mais, os dois pilotos continuaram se arrastando nas últimas posições e não apareceram em momento algum. Ufa, acabou este negócio de ficar dando nota pra equipe sem esperança.

TRANSMISSÃOCOELHO DA PÁSCOA – Como mal prestei atenção nas palavras de narrador e comentaristas neste fim de semana, confio no que li por aí. Em 2004, Michael Schumacher obteve no Canadá sua centésima vitória na temporada. Para enaltecer o mérito do heptacampeão, o narrador brasileiro soltou um “ele tem uma plantação de coelhos”. Depois, na maior esportiva, riu e corrigiu a informação, pois coelho não se planta, oras bolas. Neste último fim de semana, de volta ao microfone, o narrador IMPRESSIONANTE nos proporcionou um belo flashback daquele momento único da história das transmissões brasileiras. Durante o treino de classificação, provavelmente baqueado pelo sono, nosso querido amigo disse que Fernando Alonso, ele próprio, tem uma “plantação de coelhos”. A mesma horta de coelhos de Schumacher! Incrível! Impressionante!

CORRIDAMELHOR DE TODAZZZZZZZ – A corrida foi tão boa, mas tão boa, que dormi após vinte voltas. Estava cansado pra caramba, havia tido uma semana infernal e tudo o que eu não queria era um GP chato que me privasse de algumas boas horas na cama. Sebastian Vettel largou na pole-position, liderou todas as voltas e ganhou, sem nenhum tropeço. Mark Webber também não teve problema algum para terminar em segundo e o mesmo vale para Fernando Alonso, terceiro colocado. Lá atrás, podemos destacar a bela briga entre Lewis Hamilton e Kimi Räikkönen, abortada pelo pit-stop do inglês, e a excepcional ultrapassagem feita por Nico Hülkenberg sobre o mesmo Hamilton e Romain Grosjean. São aqueles parcos e preciosos instantes que garantiram que o GP da Coréia não representasse duas horas jogadas no lixo. Ainda bem que esta foi a última prova desta temporada transmitida de madrugada para nós, brasileiros de Buenos Aires. Misturar uma pista proibitiva para ultrapassagens com um piloto dominante e um horário desfavorável só pode resultar em bastantzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

SEBASTIAN VETTEL9,5 – O dez não veio por estúpidos 74 milésimos de segundo, que representam o que lhe faltou para tomar a pole-position de Mark Webber. No mais, o alemão foi estupendo novamente – infelicidade enorme para mim, fã de Fernando Alonso. Líder nos dois últimos treinos livres, o bicampeão só perdeu a ponta no grid por mero detalhe, já que havia sido o primeiro colocado também nas duas primeiras sessões da qualificação. Na corrida, compensou tudo ultrapassando Webber sem dificuldades na primeira curva e despachando o resto do povo. Sem problema algum, ganhou pela 25ª vez na vida. Verde chora. E reverencia.

MARK WEBBER8 – Atuação de funcionário público no domingo. Não tem o direito de reclamar do carro, pois Adrian Newey é o verdadeiro mestre dos magos dos circuitos tilkeanos. Sem ser brilhante em momento algum, o ponto alto do australiano foi a pole-position conseguida de maneira até meio fortuita no sábado. Apático, deixou Sebastian Vettel fugir na liderança logo na primeira curva. Tentou dar o troco, mas não tinha gás para isso. Depois disso, ficou naquela de deixar um olho para tentar enxergar o companheiro no binóculo e outro olho para espiar no retrovisor se havia algum carro vermelho se aproximando. Terminou em segundo, chorou e também foi obrigado a reverenciar o vencedor.

FERNANDO ALONSO7,5 – Um progresso para quem não havia sequer completado a primeira curva em Suzuka e uma injúria para quem era líder do campeonato até sábado. Longe de ter o melhor carro do fim de semana, Alonso fez o que pôde: não muito. Não andou estritamente mal nos treinos livres, mas quase ficou no Q1 da classificação no sábado. Partindo da quarta posição no grid, Fernando passou Lewis Hamilton na primeira curva e até sonhou em ameaçar a dupla da Red Bull no retão coreano. Sonhos não necessariamente condizem com a realidade e ele teve de se contentar em ficar em terceiro. Na segunda metade da corrida, começou a render bem menos que Felipe Massa e só conseguiu o pódio devido à famigerada ordem de equipe. Está agora seis pontos atrás de Sebastian Vettel no campeonato.

FELIPE MASSA8,5 – Está em ótima fase, o que me deixa bastante feliz. Pela segunda corrida consecutiva, o brasileiro demonstrou um nível de competitividade à altura de um piloto da Ferrari. Continua apanhando um pouco nos treinos, mas pelo menos assegurou um sexto lugar no grid, um avanço em relação a Suzuka. No domingo, foi um dos melhores pilotos na pista. Ultrapassou Kimi Räikkönen logo no começo, largou Sergio Pérez e Lewis Hamilton para trás quando estes não estavam em boa forma e só não tomou o pódio das mãos de Fernando Alonso porque, bem, vocês sabem o porquê. Mas andou bem pra caramba e, como prêmio, assegurou um lugar na Ferrari em 2013. Prêmio? Dadas as circunstâncias, Felipe pode se considerar um sortudo por ter um emprego remunerado na Fórmula 1 no ano que vem.

KIMI RÄIKKÖNEN7 – Aqueles papos de “maior rival de Alonso” e  “a primeira vitória está próxima” já viraram coisa de museu. O finlandês segue fazendo seu trabalho discreto de formiguinha, conseguindo pontos aqui e acolá e se acotovelando nas primeiras posições da tabela de pilotos. Na terra do PSY, Kimi mineiramente fez o quinto tempo no Q3 do treino oficial. Logo no começo da corrida, Felipe Massa o deixou para trás, mas o nórdico não se abateu. Envolveu-se numa excelente briga com Lewis Hamilton, embora só tenha conseguido assumir sua posição após o inglês entrar nos pits. Terminou em quinto – não dava para fazer muito mais que isso, mesmo.

NICO HÜLKENBERG8,5 – Outro bom destaque da corrida. Foi muito mais rápido do que o companheiro Paul di Resta durante todo o tempo, terminou a corrida numa excelente sexta posição, ultrapassou Di Resta no campeonato de pilotos e ainda foi para casa sorrindo por ter feito uma das melhores ultrapassagens do ano. Competente no treino oficial, conseguiu um bom lugar na quarta fila do grid. Passou Romain Grosjean na largada e só foi superado pelo franco-suíço após a segunda rodada de pit-stops. Sem esmorecer, aproveitou-se do duelo homicida entre Grosjean e Lewis Hamilton e ganhou as posições dos dois num único movimento, coisa legal de se ver. Mesmo não sendo o perfil mais emocionante do grid, certamente merece um lugar numa equipe melhor. Mas não no lugar do Kobayashi, por favor.

ROMAIN GROSJEAN6,5 – Esteve irreconhecível na Coréia: ficou atrás de Kimi Räikkönen no treino oficial e não se envolveu em estultice alguma na corrida. Muito estranho. Não brilhou nos treinamentos e ficou apenas em sétimo no grid, sempre prometendo a todos que seria um bom garoto nas primeiras curvas. Bem que o destino tentou complicar sua vida novamente, com algumas confusões acontecendo perto dele na primeira curva, duelos com os igualmente perigosos Pastor Maldonado e Lewis Hamilton e até um quase-acidente com Nico Hülkenberg nos pits. Felizmente para ele, nada conseguiu barrá-lo e a recompensa foi o sétimo lugar.

JEAN-ÉRIC VERGNE8 – Sua melhor corrida no ano até agora. Não se enganem: foi boa, mesmo. Os treinos livres indicavam que a vida de JEV seria a mesma lamúria dos demais fins de semana, mas tudo mudou da água para o vinho no sábado. No Q1, sabe-se lá como, ficou em sexto. No Q2, garantiu um razoável 16º lugar no grid. O domingo é que foi realmente bacana. O francês fez ultrapassagens em gente como Bruno Senna e Lewis Hamilton e ainda deixou o companheiro Daniel Ricciardo para trás, provando que é ele o cara para liderar a Toro Rosso nos dias de carro bom. Nesse momento, está três pontos a frente do australiano.

DANIEL RICCIARDO7,5 – Esteve tão bem quanto Jean-Éric Vergne, mas terminou atrás dele novamente. Tristeza para ele, que sempre fica atrás do francês no dia em que o carro colabora. No mais, o desempenho dos dois foi bastante semelhante durante todo o fim de semana. No Q2 da qualificação, Ricciardo até conseguiu superar Vergne, mas precisou trocar o câmbio e teve de largar em 21º. Sem grandes apuros, recuperou boas posições durante a corrida e esteve à frente do companheiro até as últimas voltas, quando foi superado por ter pneus mais lentos. Mesmo assim, não pode reclamar do nono lugar.

LEWIS HAMILTON1 – Quem imaginaria, após o primeiro lugar no primeiro treino livre, que Lewis Hamilton teria seu fim de semana mais difícil na temporada? Pois é, mas tudo começou a ficar bastante ruim a partir do sábado, quando ele não sobrou no Q1 da classificação por muito pouco. No Q3, conseguiu o terceiro lugar no grid e esboçou um sorriso, mas o domingo foi um desastre de proporções épicas. O inglês não largou bem e foi superado por Fernando Alonso logo de cara. Seu ritmo não esteve tão ruim até a volta 20, quando Felipe Massa surgiu das trevas e o superou. Depois disso, o carro da McLaren piorou demais e Hamilton só foi perdendo posições. No fim da corrida, após ter feito uma terceira parada meio que no desespero, ainda passeou fora da pista e levou junto um pedaço de grama sintética no sidepod. Marcou um ponto, mas praticamente deu adeus à disputa pelo título.

SERGIO PÉREZ2 – O dia estava tão ruim para a McLaren que nem mesmo ele, contratado de Woking para 2013, conseguiu andar bem. O carro da Sauber não parecia tão competitivo para esta pista, mas o mexicano ainda conseguiu superar Kamui Kobayashi na qualificação. Sendo um dos poucos a largar com pneus macios, Checo esperava fazer o de sempre: surpreender a todos, ganhar dezenas de posições e terminar com o sorrisão latino no pódio. Não deu. Ele chegou a estar lá na frente, mas começou a perder desempenho rapidamente e a tal estratégia maluca não funcionou desta vez. No fim da corrida, ainda tinha um carro bom e conseguiu ultrapassar Paul di Resta e Michael Schumacher, mas lhe faltou apenas um teco para roubar o ponto de Lewis Hamilton.

PAUL DI RESTA2,5 – Fim de semana ruim. Mesmo tendo um treino livre a mais à disposição, não conseguiu superar Nico Hülkenberg em momento algum. Não passou para o Q3 da classificação e culpou o tráfego pelo infortúnio. Apostou em pneus macios para o primeiro stint e foi penalizado pela decisão, perdendo desempenho logo no começo. Com os supermacios, também não melhorou muito. Poderia até ter feito um pontinho, já que Lewis Hamilton estava muito lento, mas a ultrapassagem de Sergio Pérez na volta 53 acabou com qualquer possibilidade.

MICHAEL SCHUMACHER1,5 – Pois é, a carreira do heptacampeão está chegando ao fim e de maneira melancólica. Na Coréia, Michael Schumacher teve um desempenho simplesmente indigno de alguém que frequentemente é comparado a nomes como Ayrton Senna e Juan Manuel Fangio. A culpa nem foi tanto dele, pois o carro da Mercedes está fraquinho, tadinho. Mas o alemão, que nem foi tão horrivelmente mal assim nos treinos, apanhou de vara da molecada durante a corrida. Discreto, ele ainda tinha alguma chance de marcar um pontinho, mas foi ultrapassado por três na segunda parte da corrida e terminou lá atrás.

PASTOR MALDONADO2 – Um pit-stop só? Péssima ideia, cara. Já faz algum tempo que Pastor Maldonado não apronta alguma. Deve ter levado uma bela dura dos capos da Williams. Na Coréia, ele nunca teve um carro bom e também não quis levar o que tinha na mão ao limite. Largou apenas em 15º e decidiu dar uma de Sergio Pérez, apostando em apenas uma parada nos boxes. A estratégia não funcionou e Maldonado ficou se arrastando com o carro durante várias voltas. Mesmo assim, ainda foi o melhor piloto da Williams no fim de semana.

BRUNO SENNA1 – E ele, com estratégia normalzinha e tudo, ainda conseguiu terminar atrás do companheiro Pastor Maldonado. O brasileiro teve mais um fim de semana medonho, mas dessa vez não bateu em nada ou ninguém, nem mesmo na largada. Foi mal nos treinos e não passou sequer pelo Q1 na qualificação. Na largada, partiu bem e chegou a ganhar algumas posições, mas não conseguiu segurá-las durante muito tempo. Foi o pior das equipes normais.

VITALY PETROV4 – Bom grande prêmio, um dos raros em que ele conseguiu superar Heikki Kovalainen tanto no grid de largada como na chegada. Mesmo sem ter feito um dos treinos livres (Giedo van der Garde entrou em seu lugar), o russo foi o melhor das equipes pequenas no treino oficial. Na corrida, Kovalainen chegou a ficar à sua frente na maioria das voltas, mas Vitaly recuperou a posição no finalzinho. Interessante atuação para quem corre sério risco de ficar de fora da Fórmula 1 no ano que vem.

HEIKKI KOVALAINEN3 – Teve um único rival neste fim de semana, o companheiro Vitaly Petrov, e perdeu. Andou na mesma tocada de sempre e não teve grandes dificuldades ou emoções no fim de semana coreano. Passou a maior parte da corrida na frente de Petrov, embora não tenha conseguido desafiar ninguém à sua frente. Nas últimas voltas, perdeu a posição para o russo e ficou em 17º.

TIMO GLOCK2,5 – Segundo o próprio, teve um fim de semana difícil. O carro da Marussia não avançou muito e o alemão não conseguiu desafiar os caras da Caterham. Ainda fez um tempo pior do que o de Charles Pic na qualificação, mas largou mais à frente porque o francês foi punido com a perda de posições no grid. Numa corrida apenas normal, não dava para esperar muito. Ficou em 18º.

CHARLES PIC3 – Nos quatro treinos em que tomou parte, inclusive o oficial, ficou em 21º. Teria largado à frente do companheiro Timo Glock se não tivesse tido de trocar o motor Cosworth, o que lhe rendeu a perda de dez posições no grid – ele teria de largar lá na Coréia do Norte, portanto. Na corrida, sem grandes ambições, deixou o indiano Narain Karthikeyan para trás e finalizou atrás de Glock. Nada de novo no front.

NARAIN KARTHIKEYAN3 – É sempre melhor ter um problema no treino oficial do que na corrida, não acha? O indiano não conseguiu fazer muita quilometragem na sexta-feira, pois teve de ceder o carro a Dani Clos. No sábado, seu carro quebrou logo no comecinho da qualificação e ele não completou nenhuma voltinha, mas ainda lhe permitiram a participação na corrida. Chegou a ganhar algumas posições na largada, mas retornou ao seu lugar de direito, o último, pouco tempo depois. Pelo menos, viu a bandeira quadriculada.

PEDRO DE LA ROSA2 – Primeira corrida sua em Yeongam. Fez o máximo de quilometragem possível na sexta-feira e se qualificou em 22º no sábado graças aos infortúnios de Narain Karthikeyan e Charles Pic. Logo na quinta volta da corrida, começou a ter problemas com o acelerador. O carro, que já não é aquela delícia de se dirigir, começou a se comportar de maneira cada vez pior e a equipe achou melhor retirá-lo da corrida. Nada que mude a cotação do milho, porém.

KAMUI KOBAYASHI0,5 – O herói de Suzuka não demorou mais do que uma semana para virar o vilão coreano, o que faz todo o sentido em se tratando do eterno conflito entre japas e coreanos. O carro da Sauber não colaborou em momento algum, assim como o próprio Kamui. No treino oficial, diz ter perdido meio segundo por ter pegado bandeiras amarelas. Com isso, largou no meio do bolo. Na corrida, não demorou mais do que uma volta para atropelar alguém, o McLaren de seu freguês Jenson Button. Koba conseguiu permanecer na corrida, mas ficou tão para trás e com o carro tão torto que preferiu se retirar voluntariamente na volta 16.

NICO ROSBERG1 – Tá numa maré de azar danada. Pelo segundo fim de semana consecutivo, não conseguiu andar mais do que alguns metros. A Mercedes não consegue preparar um bólido legal e a loira alemã não está contando com a sorte. Seus resultados nos treinos não foram tão deprimentes, mas abandonar por causa da barbeiragem de outrem novamente é de sair por aí matando todo mundo com um AK47. Dessa vez, quem bateu em seu carro foi o desesperado Kamui Kobayashi. Rosberg tentou seguir em frente, mas abandonou na segunda volta e foi pra casa tomar sorvete de framboesa e chorar para as amigas.

JENSON BUTTON0,5 – Outro que foi esquecido pela sorte em Yeongam. Como sempre, o algoz foi Kamui Kobayashi, o mesmo que o impediu de subir ao pódio em Suzuka. Jenson não foi brilhante nos treinos livres, mas também não contava com a não-classificação para o Q3 do treino oficial. Na largada, enquanto planejava uma prova de recuperação, foi atropelado sem dó nem piedade por Kobayashi. Com a suspensão destruída, teve de abandonar a corrida no ato.

Sim, existem pilotos coreanos

GP DA CORÉIA: Uma corrida estranha localizada num país esquisitíssimo. A Coréia do Sul pode não ter um ditador maluco com cara de bunda, mas compensa com a gastronomia local à base de matéria-prima canina, uma marca de carros pra lá de antipática e um gordinho que dança de maneira bizarra. O GP de Fórmula 1 foi anunciado com toda a pompa possível, pois faria parte de um complexo urbanístico que contaria com prédios suntuosos, avenidas largas e discos voadores. Pois bem, os prédios não foram construídos, as avenidas largas o Maluf não fez e o disco voador foi pra casa. Restou um autódromo, meio abandonado, coitado. Por questão contratual, ele só pode funcionar uma vez por ano, no fim de semana da categoria. Ou seja, entre o GP de 2011 e o deste ano, absolutamente nada aconteceu em Yeongam, circuito que nem é tão ruim assim. Mesmo que as latinhas de cerveja e as embalagens de cachorro-quente do ano passado não tenham sido recolhidas, não posso reclamar da pista, que é bem técnica e faz da vida do piloto um inferno, especialmente nas curvas finais. Não tem velocidade e nem paisagem, mas desde quando isso é necessário para a Fórmula 1? Espero que a edição deste ano seja boa. A de 2010, com todos os seus atrasos por causa da chuva, foi revoltante. A do ano passado, vencida por Sebastian Vettel em pista seca, foi mais ou menos, tanto que não me lembro de nada de extraordinário. Vettel também quase venceu em 2010 e virá com tudo para ganhar a corrida do próximo domingo. Tenho certeza que ele encontrará no pódio a rolha do seu Moët & Chandon de doze meses atrás.

MONISHA: Mulher no volante, perigo constante, dizia o bom garoto Ayrton Senna. Mesmo que minha namorada dirija bem melhor do que eu, concordo plenamente porque sou babaca e prepotente. A Fórmula 1, ambiente dos mais misóginos que existe, nunca tinha tido uma mulher com papel de relevância em seus sessenta anos de história. As poucas pilotas que apareceram sempre foram vistas com ceticismo e não foram poucos os que relacionaram o acidente de María de Villota (que está muito bem, graças a Deus) com seu alto índice de progesterona. Por isso, a notícia da efetivação de Monisha Kaltenborn no cargo máximo de chefe da equipe Sauber não deixou de ser bem interessante. O velho Peter Sauber, que mexe com automobilismo há boas décadas, anunciou que está pulando fora da direção-geral de sua equipe e que confiará no talento gerencial de Monisha, advogada de 41 anos que nasceu na Índia, se formou na Áustria, arranjou o sobrenome chique com o marido e descolou um trampo na Sauber em 2000. Obteve respeito, foi subindo de cargo aos poucos e até ganhou de presente de Herr Peter um terço das ações da equipe há algum tempo. Agora, a balzaquiana herdará todo o império carregando a responsabilidade de ser a primeira mulher mandachuva na história da Fórmula 1. Poucos se lembram de Cecilia Ekstrom, uma sueca que tentou sem sucesso abrir uma equipe em 1986, mas a memória não dá espaço para os que ficam no “quase”. Que nossa querida indiana faça um bom trabalho dirigindo a equipe. Espera aí, eu falei dirigindo?

KOBAYASHI: Quem não ficou feliz com o pódio de Kamui Kobayashi da Silva? O japonês, cuja história de filho de sushiman que queria desafiar Fernando Alonso, Sebastian Vettel e Lewis Hamilton no Olimpo da velocidade emocionou muitos de coração mole, conseguiu seu melhor resultado na Fórmula 1 no último fim de semana. Diante de mais de cem mil fãs, Kamui largou em terceiro e finalizou na mesma posição após conter os ataques brutais de Jenson Button, seu freguês desde 2009. Não gostaria de saber que algum de meus valorosos leitores não ficou feliz pelo excelente resultado do nipônico. Foda é saber que mesmo sendo produto de um dos países mais ricos do planeta, Kobayashi não tem garantia nenhuma de que permanecerá na Fórmula 1 na próxima temporada por não ter dinheiro. A própria Monisha Kaltenborn afirmou que não será apenas o pódio em Suzuka que fará o cara continuar na Sauber em 2013. É verdade. Tem um milhão de pilotos loucos para ocupar os carros suíços, alguns deles com os bolsos recheados com moeda sonante. Kamui não leva dinheiro algum, recebe salário e ainda está atrás do pagante Sergio Pérez no campeonato. Não representa o melhor dos negócios, portanto. Uma pena. A Fórmula 1, que sempre foi um negócio e dos bons, está virando um verdadeiro leilão, onde quem não tem milhões de dólares na conta-corrente não arranja vaga nem mesmo em estacionamento. Bem possível que ele perca seu assento para um Fabio Leimer da vida, o que seria lamentável. E onde estão as empresas japonesas? Paguei uma fortuna pelo PlayStation 3 no final do ano passado. E aí, Sony, que tal ajudar o filho do sushiman?

GROSJEAN: Aí o Bernie Ecclestone, que entende muito de visão, declarou ao jornal The Times que seria bom “tirar Romain Grosjean de outro GP e mandá-lo fazer alguns exames para nos certificarmos de que está tudo bem com sua visão periférica”. Foi a gota d’água. Grosjean, que já havia sido banido da corrida de Monza por causa do pandemônio causado por ele no GP da Bélgica, voltou a cagar na primeira curva de uma corrida e acabou com as chances de Mark Webber na etapa japonesa. O australiano, sempre sincero, afirmou após a corrida que “Grosjean precisava de novas férias”, sugerindo nova suspensão ao franco-suíço. Tá todo mundo puto da vida com ele. A própria Lotus já está cansada de tanto prejuízo, de tanto bico quebrado, de tanta gente das outras equipes ligando para reclamar. “Ele precisa encontrar o equilíbrio. E só ele pode fazer isso, ninguém mais”, afirmou o chefe Eric Boullier. O oportunista Jackie Stewart, que já tinha oferecido seus serviços de aconselhamento, shiatsu e massagem tântrica a Grosjean, refez a proposta. “Eu adoraria ajudar o Romain, porque ele tem um ótimo potencial”, disse o tricampeão. É muita gente falando, dando pitaco, se intrometendo. Mas isto é a Fórmula 1 e Romain Grosjean deverá se habituar a ler e ouvir coisas que não gosta. Para ele evitar tanta crítica e desaforo, que tal completar uma primeira volta sem estragar a corrida alheia? Se conseguir se comportar em dois fins de semana seguidos, ninguém mais balbuciará em seu nome com os punhos cerrados. Veja, ninguém mais fala no outrora maníaco Pastor Maldonado. Nem todos têm boa memória e visão periférica.

GANGNAM: Era uma vez um coreano gordinho e com cara de biscoito Trakinas que criou uma música ininteligível e uma dancinha pra lá de esquisita, inspirada nos movimentos de um cavaleiro. Esta música nunca deveria ter saído das fronteiras da península coreana, mas saiu. Os ocidentais a descobriram. Resultado: 432 milhões de visualizações em apenas três meses. Psy e seu “Gangnam Style” viraram um destes fenômenos bobos típicos da internet contemporânea. Pelo que entendi, a música meio que ridiculariza os caras que moram em Gangnam, uma espécie de Itaim Bibi de Seul, um bairro infestado de coxinhas idiotas. Se for isso, não deixa de ser engraçado que os mesmos coxinhas idiotas estejam ouvindo esta música à exaustão. Um ambiente cheio de coxinhas idiotas, como todos sabemos, é a Fórmula 1. Nestes dias anteriores ao GP da Coréia, vários pilotos e integrantes de equipes apareceram fazendo a dancinha cavalar. Os dois da Williams, Bruno Senna e Pastor Maldonado, tentaram alguns movimentos ao lado de algumas moças que trabalham na equipe. Outros que também apareceram dançando foram os alemães Nico Rosberg e Nico Hülkenberg. Alemão é desajeitado pra caralho nessas coisas, mas beleza, tudo é permitido em nome da arte. Deve ter tido mais gente fazendo gracinha, mas não corri atrás para ver. E para quem nunca ouviu falar do refrão “Oppa Gangnam Style!”, confira aqui.

GP DA ÍNDIA: Olha, digo-lhes uma coisa. Fazia tempo que eu não esperava por uma pista nova com tanta ansiedade. Os prognósticos são positivos e há quem diga que Buddh poderá ser a segunda pista mais veloz da Fórmula 1, perdendo apenas para a inigualável Monza. Buddh? O nome é horrível, mas não dá para exigir muito da Índia de Karun Chandhok, Narain Karthikeyan e Parthiva Sureshwaren. Mesmo assim, Buddh não aparenta ser um nome sonoro para nossos tímpanos ocidentais. Como se pronuncia? “Bud”? Não seria melhor um “Gandhi Internacional Raceway”? Clichê pacas, mas mais fácil. Dane-se. A pista aparenta ser legal, sim. De tantas subidas e descidas, se assemelha a uma montanha russa. A curva 10 é uma rotatória, algo inédito no calendário atual. E há mais curvas de alta e média do que insuportáveis cotovelos de primeira e segunda marcha. Afirmo tudo isso, no entanto, às cegas. Talvez o circuito seja outra decepção de Hermann Tilke. Mas não vamos agir como Jarno Trulli, que sempre acha que vai chover logo após lavar o carro. A pista será boa, conto com isso. Afinal de contas, a esperança é a única motivação para mais uma corrida em um horário de merda.

FAZENDEIROS: Não são todos os infinitos indianos que estão roendo suas unhas nojentas de ansiedade pela corrida. Na verdade, o que mais tem na região de Greater Noida, onde o circuito de Buddh foi construído, é gente irritada com o playground dos brancos. Se você não se atenta a esse tipo de coisa, resumo o que aconteceu: o governo central ofereceu uma mixaria pelas terras para erguer um autódromo para a Fórmula 1 em Greater Noida. Ludibriados, os locais aceitaram a oferta, mas não demoraram muito para perceber que haviam se dado mal. Hoje, fazendeiros e habitantes do entorno do circuito exigem uma espécie de indenização que cubra o parco valor da venda e também clamam por melhoras na infraestrutura local e pela criação de indústrias que gerem emprego e renda em Greater Noida. Caso nada disso seja atendido, todo mundo vai invadir a pista e proporcionar um verdadeiro armageddon hindu. Eu não acho que dê em algo. São todos de castas inferiores e o governo não lhes dará nada além de algumas cacetadas na cabeça e uns jatos de água. Se bem que boa parte dos indianos precisa mesmo de um bom banho.

CALENDÁRIOS: Entra uma, sai outra, o mundo gira e a lusitana roda. Nesta semana, meio que na surpresa, foi anunciada para 2013 uma corrida de Fórmula 1 em Nova Jersey, um dos cinquenta estados americanos. O circuito citadino passaria pelas margens do Rio Hudson e teria o condado de Manhattan, aquele mesmo, como cenário. Na prática, o supremo Bernie Ecclestone conseguiu finalmente realizar o sonho de realizar uma corrida de sua categoria em Nova Iorque. Vale lembrar que ele já tentou promover esta prova um zilhão de vezes, mas nunca chegou a lugar algum devido a problemas financeiros e políticos. Mas é claro que, neste jogo de soma zero que é o calendário da Fórmula 1, a felicidade de um é obtida às custas da tristeza de outro. Quem pode cair fora para dar lugar a Nova Jersey, por incrível que pareça, é a Coréia do Sul. Os japas da península tentaram negociar os altos valores a serem pagos anualmente a Ecclestone, mas o chefão inglês não quis saber e afirmou que se as taxas não forem quitadas normalmente, não haverá mais corrida em Yeongam. Para quem acreditava que as pistas asiáticas hi-tech tinham costas quentes com Sir Bernie, está aí a prova contrária.

HAMILTON: É, acabou. A má fase dentro das pistas? Não necessariamente. Lewis Hamilton e Nicole Scherzinger romperam a relação de… caham, um instante. Preciso conferir alguns dados. OK, encontrei. Quatro anos. Este foi o tempo do namoro, que chegou a virar noivado, das duas celebridades. A partir de agora, cada um vai poder se ocupar com seus respectivos e numerosos afazeres. Dizem que as agendas apertadas dos dois estavam reduzindo cada vez mais o tempo em que ficavam juntinhos comendo pipoca e trocando carícias sob o edredom. Há quem diga que Nicole, vocalista daquele tal de Pussycat Dolls, está sob pressão tentando agradar a Simon Cowell, que é seu chefe e colega de audição no reality show The X Factor. Os dois chegaram a trocar farpas em uma das audições, como pode ser visto neste vídeo. Enfim, OK, OK. Falei de tudo, menos do próprio Hamilton. Espero que ele volte a fazer o que ele sabe, acelerar e vencer.

HOMENAGENS: As mortes de Dan Wheldon há quase duas semanas e de Marco Simoncelli há quase uma semana ainda estão pesando na cabeça de todos. A Hispania homenageará ambos em seu carro, mas não tenho muitos detalhes sobre como eles farão isso. Fernando Alonso disse que, após o acidente da Indy, a ficha demorou para cair por uns dois ou três dias, além de ter sentido enorme tristeza e impotência pela morte de Simoncelli. Jenson Button relembrou os duelos com Wheldon no kart e na Fórmula Ford. Lewis Hamilton afirmou que os últimos meses têm sido trágicos, pois ele também perdeu duas pessoas razoavelmente próximas dele no automobilismo, seu mentor Martin Hines e o ex-colega Christian Bakkerud. Felipe Massa resumiu as duas tragédias em uma única palavra: inacreditável. Mas a opinião que mais ecoou no paddock foi compartilhada pelos pilotos supracitados e também pelos alemães Sebastian Vettel e Michael Schumacher: o esporte a motor é um esporte de risco e os pilotos assumem este risco quando entram na pista. No fim, as coisas seguem na mesma. E sabe o porquê? Porque é isso mesmo: o esporte a motor é um esporte de risco. Que todos nós amamos.

Uma hora e 42 minutos. Esse é o tempo que todos nós tivemos de esperar pela bendita largada da corrida coreana. Na calada da noite, irritado, eu olhava para as horas correndo e me sentia um completo idiota por ter de esperar por uma estúpida corrida de carros por tanto tempo. E fiquei com raiva de Bernie Ecclestone, dos pilotos homossexualizados, da pista mal-feita e até mesmo da mãe-natureza, que poderia ter mandado o dilúvio em uma pista que realmente precisasse dela para ter uma competição minimamente interessante, como Hungaroring ou Sakhir, e não em um negócio que nem havia sido finalizado direito.

Mas o fato é que a chuva apareceu e as condições para uma corrida debaixo d´água eram as mais desfavoráveis possíveis. É uma pena, já que a diversão aumenta exponencialmente quando os pilotos não têm qualquer aderência ou visibilidade e as rodadas, as ultrapassagens e os acidentes acontecem a granel. Para quem gosta de um pouco de bagunça, como é o meu caso, um prato cheio. Mas tem horas em que a organização simplesmente não permite ou a chuva simplesmente é forte demais e não há como ter toda essa diversão. Como não vou chegar nem perto de um PC até quarta-feira que vem, adianto o Top Cinq de hoje para falar de cinco corridas não tão remotas que acabaram tendo o andamento prejudicado devido à chuva.

5- JAPÃO/1994

Com seus famosos tufões, o Japão tem um histórico considerável de corridas chuvosas. Algumas delas decidiram títulos, como ocorreu em 1976, em 1988 e em 2000 (será que a lógica segue em 2012?). Em 2004, ocorreu até adiamento de treino oficial. Quando a Fórmula 1 segue em direção à Terra do Sol Nascente, todos ficam com aquela enorme expectativa de ver uma corrida absolutamente encharcada em uma das pistas mais velozes e desafiadoras do campeonato.

Em 1994, choveu horrores no sábado e no domingo da corrida, coisa de louco. Naquele ano, todos estavam completamente paranoicos com relação à segurança e o medo era geral. E se acontecesse alguma merda? E bater em Suzuka, ainda mais na curva 130R, não era pouca porcaria, não. Ainda assim, os organizadores deram a largada normalmente, com os carros saindo de suas posições do grid.

Mas a chuva estava intensa demais. E logo nas primeiras voltas, tivemos Heinz-Harald Frentzen escapando na primeira curva, Hideki Noda rodando na primeira volta e Johnny Herbert, Taki Inoue e Ukyo Katayama aquaplanando e rodando na reta dos boxes. Não dava para continuar assim e a direção de prova decidiu, então, colocar o safety-car na pista. No regulamento do período, constava que o carro de segurança só entraria na pista em caso de acidente que fosse muito forte ou que bloqueasse a pista, o que não era o caso naquele momento. Pela primeira vez na história da categoria, o safety-car entrava na pista para evitar mais problemas com a chuva.

Após sete voltas atrás do safety-car, a organização decidiu reiniciar a corrida no melhor estilo Indy, com os carros largando em movimento. Mas a chuva continuava forte e Franck Lagorce, Pierluigi Martini e Michele Alboreto rodaram logo na relargada. Poucas voltas depois, Martin Brundle e Gianni Morbidelli sofreram acidentes violentos e a turma decidiu dar bandeira vermelha logo de uma vez. Todos tiveram de esperar a chuva dar uma trégua por um bom tempo. Ela realmente diminuiu, mas nem tanto, e a corrida reiniciada foi uma das melhores daquele ano.

4- MÔNACO/1984

Se correr com chuva já é algo naturalmente temerário, correr em Mônaco com chuva é de deixar uma mãe de piloto rezando para todos os santos e orixás. Em 1984, o pequeno principado localizado às margens do Mediterrâneo foi atingido por um temporal daqueles de ensopar os cabelos cheios de laquê das madames locais. A turma esperou a chuva passar por cerca de 45 minutos, mas a nuvenzinha maligna teimava em permanecer sobre suas cabeças. Então vamos realizar a corrida assim mesmo, pensaram em uníssono os organizadores da prova.

Naqueles tempos, a Fórmula 1 era ligeiramente menos fresca e não havia essa de “ah, é perigoso fazer largada parada nessas condições”. Os 20 carros largaram normalmente, mas todos sabiam que poucos sobrariam no final. Logo na Saint Devote, três ficaram pelo meio do caminho: a dupla da Renault, Derek Warwick e Patrick Tambay, e o Ligier de Andrea de Cesaris. Tambay acabou quebrando uma perna e teve de se ausentar da etapa seguinte.

E a corrida foi uma loucura. Alain Prost liderou no começo, mas foi ultrapassado por Nigel Mansell, que vinha dirigindo seu Lotus como um doido. E sua loucura só poderia levar a um acidente na subida da Beau Rivage na volta 15. Recuperando a ponta, Prost passou a dirigir com bastante cautela. Enquanto isso, os jovens Ayrton Senna e Stefan Bellof ultrapassavam tudo quanto era gente e se aproximavam rapidamente da liderança. E a chuva permanecia violenta.

Diante disso, o diretor de prova Jacky Ickx decidiu unir o útil ao agradável e acabou com a corrida na volta 31, dando a vitória a Alain Prost. A alegação oficial era a chuva, mas muitos desconfiaram que Ickx, ex-piloto de Fórmula 1 e piloto da Porsche no Mundial de Marcas, quis favorecer Prost, cujo McLaren utilizava motor… Porsche! O fato é que tanto Senna quanto Bellof se consagraram como os nomes a serem observados como futuros pilotos de ponta, enquanto que Prost, ao marcar apenas metade dos pontos, acabou perdendo o título para Niki Lauda no final do ano exatamente devido a isso: se a corrida tivesse sido finalizada mais à frente, Prost talvez nem venceria, mas os seis pontos do segundo lugar lhe daria o título. O destino é bem-humorado.

3- MALÁSIA/2009

Na semana do Grande Prêmio da Malásia de 2009, circularam algumas imagens na internet mostrando fotos de como andava o clima na região de Kuala Lumpur naqueles dias. O céu estava literalmente preto em alguns pontos, algo digno de filme de terror. A Malásia é um país localizado próximo à linha do Equador e o índice pluviométrico é amazônico: chove muito e chove todo dia à tarde. E ainda por cima, Bernie Ecclestone havia decidido que, a partir daquele ano, a largada ocorreria às 17h locais. Então, simplesmente não havia como contestar as possibilidades quase totais de temporal na hora da corrida.

Milagrosamente, a largada ocorreu em pista seca. Mas o céu estava absurdamente escuro, algo próximo do noturno. E conforme as voltas passavam, o negócio ficava cada vez mais dramático. Na volta 19, as primeiras gotas começaram a cair e a turma seguiu direto para os pits. Alguns colocaram pneus de chuva forte, outros foram mais corajosos e calçaram pneus intermediários. Estes últimos, encabeçados pelos teutônicos Timo Glock e Nick Heidfeld, se deram muito bem e ganharam várias posições.

Mas a tempestade era apenas questão de pouco tempo. E ela chegou de vez na volta 31. Rapidamente, a pista foi completamente coberta por uma espessa camada de água, que chegava a formar correntezas nos trechos em descida. E ninguém mais conseguia parar na pista.

Duas voltas depois, a direção de prova resolveu acionar a bandeira vermelha e todo mundo estacionou nos pits. Enquanto gente como Mark Webber demonstrava preocupação com um possível reinício, o iconoclasta Kimi Raikkonen entrou nos boxes, foi até um frigobar e pegou uma Coca-Cola e um Magnum de chocolate para forrar o estômago, protagonizando a cena mais curiosa da Fórmula 1 em 2009. Depois de um tempo, o pessoal percebeu que já estava anoitecendo e decidiu encerrar a corrida de vez.

2- JAPÃO/2007

Para quem reclamou um monte sobre o enorme período em que o safety-car ficou na pista na corrida coreana, saibam que a Fórmula 1 experimentou uma situação parecida há apenas três anos, na primeira corrida realizada no remodelado circuito de Fuji.

Para aborrecimento de alguns e felicidade de muitos, a chuva apareceu com força durante boa parte do fim de semana. No treino oficial, apesar de não ter chovido na hora, a pista estava molhada devido à precipitação ocorrida minutos antes. Mas ninguém imaginava que o dilúvio de Noé apareceria no dia seguinte, na hora da corrida.

Assim como no GP da Coréia desse ano, a corrida japonesa foi transmitida de madrugada para os brasileiros. Logo, qualquer atraso seria um incômodo extra para quem se dispôs a ficar acordado até altas horas da matina. Para mim, a situação não podia ser pior, já que eu tinha de viajar de manhã. Com a chuva torrencial que caía pouco antes da largada, a organização decidiu colocar o safety-car para andar à frente dos pilotos por algumas voltas. Ninguém chiou, até porque não era a primeira vez que a Fórmula 1 realizava uma largada lançada.

O que foi inédito para todos foi o tempo em que o safety-car permaneceu na pista: 19 voltas, pouco mais de 40 minutos de espera. Eu devo ter ficado até mais irritado naquele dia do que neste último fim de semana, mas a corrida que se seguiu foi sensacional, uma das melhores da década. O destaque fica para a briga pela sétima posição entre Felipe Massa e Robert Kubica na última volta. No melhor estilo Gilles x Arnoux, os dois dividiram todas as curvas e tocaram rodas até a bandeirada final. Valeu a pena esperar tanto.

1- AUSTRÁLIA/1991

E quem lidera a lista é a corrida mais curta da história da categoria.  O Grande Prêmio da Austrália, última etapa do campeonato de 1991, teve apenas 14 voltas, 52,92 quilômetros e 24 minutos e meio de duração. Agradeçam o registro histórico à chuva torrencial que caiu justamente na hora da corrida.

Sim, porque a manhã de domingo e os dois dias de treinos foram ensolarados como deve ser um bom dia de praia em Surfers Paradise. Mas sabe como é, o clima da Austrália é altamente imprevisível e aquele belo céu azul pode se transformar em um conluio de nuvens cumulonimbus prontas para despejar água abundante na cabeça dos pilotos. E foi o que aconteceu. Debaixo de muita chuva, os pilotos alinharam no grid e largaram.

Dois anos atrás, o GP da Austrália teve até mais chuva durante a corrida e poderia perfeitamente constar nessa lista. Mas a chuva da edição de 1991 era intensa o suficiente para formar poças e correntes de água no asfalto. Para piorar as coisas, o sistema de drenagem era péssimo, algo absolutamente comum em circuitos de rua, e os muros em volta do traçado só ajudavam a manter ainda mais água na pista. E o resultado foi um verdadeiro balé dos pilotos.

Nicola Larini bateu seu Lambo no retão Brabham, mesmo lugar aonde escaparam também Michael Schumacher, Jean Alesi e Pierluigi Martini. Michele Alboreto rodou na curva 5. Stefano Modena escapou da pista, assim como Gerhard Berger, que aquaplanou e rodopiou para fora da pista na curva 16. No entanto, os acidentes mais violentos foram os de Mauricio Gugelmin e Nigel Mansell. Gugelmin escapou na curva que antecede a reta dos boxes e bateu violentamente na mureta dos boxes. Seu March chegou a subir na tal mureta e ficou por lá. Já Mansell, que perseguia Ayrton Senna incessantemente, rodou na curva 3 e bateu de frente no muro, machucando a perna e tendo de ser levado ao centro médico.  

A chuva havia chegado a níveis intoleráveis e, na volta 17, Ayrton Senna começou a fazer sinais pedindo para a interrupção da corrida. Imediatamente, o diretor de prova acionou a bandeira vermelha. No final da volta 16, para se ter uma ideia, havia menos de dez carros na pista e os seis primeiros eram Senna, Piquet, Morbidelli, De Cesaris, Zanardi e Modena. Para evitar essa distorção, a organização preferiu considerar que a corrida foi interrompida na volta 14, duas voltas antes da última efetivamente concluída.

Apesar da corrida estar interrompida e da chuva estar inacreditavelmente forte, o diretor de prova queria retomar a corrida. Ele chegou a acionar a placa de 10 minutos, indicando o tempo que faltava para a nova largada, mas os pilotos, liderados por Ayrton Senna e Riccardo Patrese, pressionaram para que a corrida não fosse reiniciada e os resultados fossem considerados finais. Depois de muito trololó, a direção de prova cedeu e os resultados finais foram aqueles da volta 14: Senna, Mansell, Berger, Piquet, Patrese e Morbidelli.

A largada estava prevista para ocorrer às 15h no horário local, cerca de 4h da manhã no horário de Brasília. Mas a chuva, cuja probabilidade de aparecer na hora da corrida era de 60%, deu as caras e resolveram adiar a brincadeira em dez minutos. Esperavam por uma rápida colaboração da natureza, mas ela não veio. Então, decidiram largar atrás do safety-car. Deram três voltas. A chuva ainda estava muito forte. Alguém decidiu acionar a bandeira vermelha. Todos se regozijaram. Os pilotos estacionaram seus carros no grid.

45 minutos se passam. Alguns pilotos ficam no cockpit. Outros saem para ir ao banheiro. Outros vão tomar Coca-Cola com picolé de chocolate. Outros saem para uma cópula rápida com a esposa. Ou com a grid girl. Ou com o mecânico. Os espectadores coreanos, sempre frigidamente sorridentes, sacam suas câmeras Konica Minolta, Sony e Kodak para registrar imagens daquele evento diferente realizado por ocidentais loiros e bizarros. Enquanto isso, muitos e muitos milhões de otários ocidentais aguardavam a maldita relargada tomando uma Stella Artois ou roendo as unhas. No Brasil, a coisa era ainda pior. Sendo de madrugada, muitos sacrificaram o sono, a balada ou a cópula rápida para assistir ao diabo da corrida.

Após este interminável período sabático, a organização decide recolocar os carros na pista. Atrás do safety-car, é claro. O pessoal quer saber como está a pista. A chuva, sempre intrépida, não para. Ela diminui e aumenta com a regularidade de uma pessoa com taquicardia. Os pilotos, milionários, politicamente corretos e criados no condomínio com achocolatado feito pela vovó, reclamam da chuva, da pista, da lama, da precariedade do sistema de drenagem, da falta de aderência dos pneus, da Dilma e do Serra. E tome volta após volta atrás do safety-car. 14, mais precisamente. Aquilo que podemos chamar de corrida de carro só começou, de verdade, na volta 18. Após 1h42 de espera, mais precisamente. E contra a vontade da maioria dos pilotos.

Tá todo mundo de brincadeira, né? Não me lembro de um atraso tão grande quanto esse na Fórmula 1 contemporânea. Talvez tenha acontecido em alguma corrida isolada de 1956 ou 1961, mas eram outros tempos, o televisionamento era incipiente e basicamente irrelevante. Hoje em dia, há uma série de coisas a serem respeitadas: os contratos com as televisões ao redor do mundo, os contratos com os patrocinadores e o compromisso com o espectador. Coisas estas que, ironicamente, se tornaram sine qua non exatamente devido à profissionalização extrema da categoria. E do mesmo jeito que não dá pra perdoar uma pista que só conseguiu ser finalizada faltando apenas dez dias para sua corrida de batismo, não dá pra perdoar duas horas de atraso. Se as condições de corrida estão tão ruins, que adiem a corrida para outro dia. É mais digno e os tais contratos, embora prejudicados, não deixam de ser respeitados. Ou, em último caso, recolham a bola e cancelem a brincadeira. Deixar o espectador coreano tomando chuva na cara ou o espectador ocidental chupando o dedo feito um idiota por quase duas horas é um tremendo desrespeito para com quem religiosamente garante a audiência dessa categoria superestimada e cheio de frescuras que é a Fórmula 1.

Ah, mas estava perigoso demais, dizem alguns. Puta que o pariu, respondo eu. Puta que o pariu! O circuito de Yeongam, por mais inacabado que estivesse naquele determinado momento, não é todo esse absurdo que muitos preconizavam logo nos primeiros treinos. Os trechos ditos mais perigosos não são tão velozes e há áreas de escape e pneus de proteção o suficiente. Vitaly Petrov bateu forte, destruiu o carro e só ficou absolutamente irritado. Além do mais, qualquer corrida de Fórmula 1 é amparada por várias UTIs móveis e helicópteros prontos para seguir para o primeiro hospital limpo e tecnologicamente impecável que há por perto. E olha que nem vou entrar no mérito da segurança praticamente perfeita do bólido contemporâneo de Fórmula 1. Dirigindo meu precário Corsa 99 nas ruas campineiras a 60km/h, eu me encontro em situação muito mais insegura e desprotegida do que um piloto qualquer. Na Fórmula 1, o cara só morre se for azarado demais. Ou nem isso, vide Felipe Massa.

Yeongam

E faço a pergunta: o fascínio do automobilismo não é exatamente o confronto contra o perigo? Se ninguém quer perigo em uma corrida de carro, acabem com o automobilismo e vamos todos jogar pôquer. Desde que o homem conseguiu construir uma geringonça que consegue se locomover sem a necessidade de ter um animal como força propulsora, há aquela tentação de fazê-lo andar mais rápido que o amigo sem se estrebuchar em uma árvore qualquer. Automobilismo é risco, e sempre foi assim. É evidente que ninguém quer ver o cara morrendo de maneira sórdida em um acidente. Mas se o sujeito se dispõe a pilotar um carro de corrida, é porque ele tem consciência de que faz algo extremamente perigoso e que a próxima corrida pode ser sua última. Mas os moleques da Fórmula 1 atual simplesmente se esqueceram disso. Pelo visto, os inegavelmente felicíssimos 16 anos sem uma morte deixaram os caras mal-acostumados.

Bato agora na organização. Eu concordo plenamente com o fato de que a chuva estava forte. E concordo também que era caso de adiar e de dar bandeira vermelha. E até engulo o fato dos pilotos ficarem algumas voltas atrás do safety-car. No GP do Japão de 2007, também ficamos esperando pela largada por quase uma hora. O que não dá pra aceitar é desrespeito ao espectador. E também não consigo entender o porquê de ter esperado por tanto tempo.

Fiquei com a impressão de que estavam esperando a pista ficar completamente seca. Em um determinado instante, nas últimas voltas atrás do safety-car, o inglês Lewis Hamilton (quem mais poderia ser?) disse pelo rádio que queria correr, que dava para correr e que a pista já permitia até mesmo o uso de pneus intermediários. Por isso que gosto do Hamilton. Me arrisco a dizer que, no grid atual, é o cara que mais entende que o automobilismo envolve riscos e desafios. E sobre a questão dos pneus intermediários, ele não estava errado. Alguns trechos consideráveis estavam praticamente secos e o problema maior residia na formação de poças em determinadas curvas, alegavam alguns.

Mas se há chuva, há formação de poças, santa mãe. Além disso, a esmagadora maioria dos circuitos não consegue escoar a água por completo, especialmente os mais antigos. Até um tempo atrás, ninguém reclamava ou adiava a corrida por isso. E muito me irrita essa aversão pela chuva. A insistência em manter o safety-car na pista apenas para esperar pela pista mais seca possível foi uma das coisas que mais me irritou desde que comecei a ver corridas. A chuva sempre foi um fator importante nas corridas de carro e os pneus para chuva forte existem exatamente para enfrentá-la. O caso é que eles mal estão sendo utilizados nos últimos anos. Tanto em Spa-Francorchamps quanto em Yeongam, os organizadores decidiram interromper a corrida ao menor sinal de chuva um pouco mais forte, esperando que a pista secasse o suficiente para não haver a necessidade de pneus para temporais. E o resultado é este: corridas castradas e pilotos bundões.

Será que a tendência é o fim dessas corridas?

E é por isso que, especialmente após a corrida coreana, comecei a acreditar que, a médio prazo, a FIA passará a evitar a chuva até mesmo por meio de regulamento, assim como ocorre com a NASCAR e com as corridas de ovais na Indy. Mas estes últimos casos são absolutamente compreensíveis, já que realizar corridas em ovais com chuva é simplesmente irresponsável. A Fórmula 1 não tem esse problema, mas deve passar pelas cabeças de Todt, Ecclestone e companhia que as corridas chuvosas são dispendiosas (um monte de gente bate), mais demoradas e até mesmo atrapalham a visibilidade de placas publicitárias e adesivos.  Além do mais, é perigoso e as tias solteironas do politicamente correto estão sempre aí para encher o saco.

Aos poucos, toda e qualquer chuva fará com que o safety-car entre na pista. Aí a FIA chega e acaba com a existência de pneus de chuva forte. Aí o calendário é remodelado de modo a pegar os períodos secos de cada país, como ocorreu com Interlagos e Indianápolis (felizmente, deu errado nos dois casos). E quando nós dermos conta, não há mais corridas com pista molhada. Paranoia? Provavelmente. Mas em se tratando da capacidade da FIA em destruir o automobilismo, acredito em qualquer coisa.

Antes que digam que corridas prejudicadas pela chuva já aconteceram antes, digo que tenho total noção delas. A largada do GP da Bélgica de 1989 foi adiada em meia-hora. E o GP da Austrália de 1991 foi interrompido após apenas 13 voltas. Sei disso. Mas não me conformo com esta tendência de transformar qualquer chuva em algo absurdo e cruel para os pilotos. Eles são muito bem pagos para correr. E a pista, por sua vez, teve um bocado de tempo para acertar a questão do escoamento de água, tão comezinha na construção dos circuitos atuais.

Aversão à chuva, punições a torto e direito, pilotos com a profundidade intelectual e emocional de um molusco, pistas insossas e com cara de estacionamento de shopping. Esta é a Fórmula 1 das frescuras e das reclamações. Do jeito que as coisas estão, será melhor deixar a corrida de lado e fazer uma cópula rápida. Ou não tão rápida assim.