GP DO JAPÃO: Vou te dizeruma coisa. Hoje em dia, só há um circuito que me parece desafiador e perigoso o suficiente para fazer um piloto relutar em acelerar mais ou frear menos em determinada curva. Não, não me refiro a Spa-Francorchamps, que nem anda proporcionando tantos desafios assim. Suzuka é uma das pistas mais temerárias do planeta. Anda-se muito rápido por lá e as pancadas são sempre fortes, dessas que doem até em nós. Antigamente, o GP do Japão era um dos mais esperados por duas razões em especial. Além de ter sido uma das poucas corridas noturnas durante um bom tempo, a prova costumava definir os títulos mundiais até alguns anos atrás – Ayrton Senna, por exemplo, confirmou seus três títulos no arquipélago. Infelizmente, após ter sido trocada por Fuji durante dois anos, Suzuka nunca mais conseguiu ter uma boa corrida, graças à dificuldade de se ultrapassar por lá. E os fãs mais novos tendem a achar até mesmo que a lendária pista japonesa é ruim e deveria sair do calendário. Considerando que alguns desses fãs mais novos devem ter ido ver o show do Justin Bieber ontem, creio que a criançada, por princípio, está errada.

RADIOATIVIDADE: Em 1986, o Grande Prêmio da Ucrânia, que seria sediado nas ruas de Kiev, foi cancelado graças à explosão do reator quatro da Usina de Chernobyl (pronuncia-se “tchernóbil”). Mentira, a Fórmula 1 nunca sequer sonhou em correr na Ucrânia, o que nos priva de contemplar algumas das melhores grid-girls do mundo. Em compensação, o Japão vive sob constante estado de alerta graças ao sério vazamento nuclear proveniente da usina de Fukushima, danificada após o terremoto seguido de tsunami no início do ano. Os europeus, temendo a assustadora possibilidade de orelhas nascendo na bunda, estão tomando todas as precauções necessárias, e mais algumas. O jornal alemão Bild am Sonntag afirmou que a Red Bull Racing está levando comida da Europa e também está orientando aos seus funcionários para que não inventem de comer nada diferente daquilo que a equipe está levando. A própria Red Bull desmentiu que estava fazendo isso, mas eu não duvidaria. Se considerarmos que, quando a MotoGP esteve em Motegi, Jorge Lorenzo só tomou banho com água engarrafada e Dani Pedrosa jogou todas as suas roupas fora, a sempre paranoica Fórmula 1 não poderia ficar atrás no excesso de cuidados.

UM: Um ponto. Nas próximas cinco corridas, Sebastian Vettel precisará de um único e estúpido ponto para ser bicampeão. Para perder o título, Sebastian teria de deixar de marcar pontos em todas as etapas daqui em diante e o inglês Jenson Button teria de vencer todas as corridas até o final. Portanto, é mais fácil nascer um pé de rabanete em plena Avenida Paulista. Só para desanimar mais um pouco o playboy da McLaren, a última vez que Vettel terminou fora dos pontos foi na Bélgica no ano passado, quando ele cruzou a linha de chegada em 15º após se envolver em um choque com o mesmíssimo Button. Fora isso, ele finalizou o GP da França de 2008 em 12º. Seu último abandono foi um motor estourado na Coréia do Sul no final do ano passado enquanto liderava. Quer dizer, nem Chris Amon conseguiria perder este título.

RÄIKKÖNEN: Pelo visto, a grande carta na manga da decadente Williams é Kimi Räikkönen. Sem lenço nem documento, a equipe de Rubens Barrichello e Pastor Maldonado sonha com o finlandês que se sagrou campeão do mundo em 2007 para atrair os petrodólares do Banco Nacional do Catar, que aceitaria conceder patrocínio caso Kimi seja um dos pilotos. Frank Williams, que foi o primeiro do paddock a estabelecer contato com os árabes no fim dos anos 70 e que chegou a aprender um pouco da língua deles para facilitar a comunicação, pensa em repetir a trajetória com o minúsculo país do Golfo Pérsico. Com isso, quem dançaria seria Rubens Barrichello, que custa caro e que não está trazendo resultados muito melhores do que o lucrativo Pastor Maldonado. Kimi, além da insígnia de campeão do mundo, poderia até fazer o papel do brasileiro com mais competência. Não é o que Rubens, que disse que ninguém faria um papel melhor que o dele, acha. Eu não sei. Barrichello pode até um ser bom ativo para a Williams, mas seria burrice para a equipe dispensar um pacote que inclui um campeão do mundo e um banco abastado. Isso se, é claro, o boato tiver fundamento.

BUTTON: Mas essecara tem tanta moral, mas tanta moral, que a McLaren decidiu renovar seu contrato até 2016. É incrível. Lewis Hamilton, o piloto preferido da armada prateada até duas horas atrás, não tem um contrato tão longo assim. Pode ser um sinal de que seu império romano particular esteja começando a ruir. Falemos de Button, pois. Este é um cara que concentrou a sorte de meio planeta em um único organismo. Além de muito rico, muito gente boa e muitíssimo bem acompanhado, Jenson conseguiu afastar de si o papel de Sancho Pança e cativou espaço próprio na McLaren. Nesse momento, é ele quem tem chances imaginárias de título. Com tantas qualidades assim, não é de se assustar que a equipe apareça com um contrato trilionário e de longuíssima duração. Assim, até a Hispania.

Deu duro? Tome uma Dreher

GP DA HUNGRIA: Há tempos, tornou-se sinônimo de corrida chata. Pudera, pois ultrapassagem é cometa Halley por lá e somente abandonos ou erros podem alterar as posições até o final. Eu recomendo que vocês mudem sua visão negativa com relação à prova húngara. O circuito é diferente de todo o resto, inclusive os tilkeanos, pois é totalmente travado e sinuoso, sem os retões e os cotovelos típicos destes suntuosos autódromos do novo século. É um palco legal para acompanhar o desempenho individual de cada piloto, o traçado que cada um deles toma, a capacidade de resistência do bólido e outros detalhes mais técnicos e menos lúdicos. Além disso, a beleza do cenário e das grid girls locais é uma história à parte. Por fim, a resistência húngara é um alento para quem está cansado da recente invasão asiática no calendário da Fórmula 1. Enfim, não é difícil encontrar motivos que ajudem a esquecer o fato de que Hungaroring sempre entrega corridas absurdamente entediantes.

GP DA HUNGRIA COM CHUVA: Em algum lugar obscuro da internet, li que havia possibilidade séria de chuva durante todo o fim de semana. O comentarista Martin Brundle e o piloto de testes da Lotus Luiz Razia andaram dizendo que não para de chover lá dos lados do Danúbio e as chances da situação permanecer assim até o fim de semana são enormes. Aos mortais, a felicidade! As características de Hungaroring, sinuoso como uma estradinha mineira, são altamente propícias para uma corrida de chuva daquelas inesquecíveis. Vale lembrar que a edição de 2006, única da história do circuito a ser realizada sob toró, foi uma das melhores corridas de Fórmula 1 da última década. Você não se lembra? Alonso errou, Räikkönen bateu em Liuzzi, Schumacher bateu em Heidfeld, Button ganhou sua primeira corrida, De la Rosa obteve seu primeiro pódio, Heidfeld completou a festa e Galvão Bueno tirou onda do engenheiro fleumático da Honda que comemorou a vitória de Jenson da maneira mais polida e seca possível. Cinco anos depois, a chance de ter uma corrida tão boa tanto. Preparem seus tambores!

SENNA: Não é do Ayrton que eu falo e nem do filme homônimo. Bruno Senna terá a melhor chance de sua curta carreira até aqui ao participar do primeiro treino livre da etapa húngara pela Renault. Ele substitui Nick Heidfeld, que andou sofrendo críticas ferozes do patrão Eric Boullier. O gordinho com cara de homossexual paulistano afirmou que Nick não estava liderando a equipe franco-luxemburguesa do jeito que se esperava. O oitavo lugar do alemão até aqui obviamente é brochante, pois o Renault R31 é um carro digno de título mundial e Robert Kubica certamente teria vencido todas as corridas até aqui com duas voltas de vantagem, não é? O caso é que o sobrinho mais celebrado da categoria terá sua chance. Vocês sabem que eu não sou parcial. Torço contra, menos por ser ele e mais pela sobrevivência da carreira de Heidfeld.

BUTTON: Como o tempo voa. Há onze anos, li em um jornal que a Williams havia contratado um garoto de 20 anos recém-completados para correr ao lado de Ralf Schumacher. O tal garoto era ruivo, branquelo e tinha cara de inglês tonto, mas havia enfiado uns dois segundos goela abaixo do brasileiro Bruno Junqueira, que também estava concorrendo pela vaga. De lá para cá, o garoto cresceu, deixou a barba crescer, namorou gente famosa, ficou rico, arranjou fãs ao redor do mundo e até ganhou um título. Hoje, pilota um McLaren, namora a mocinha mais desejada do paddock da Fórmula 1 e é um dos pilotos mais admirados do grid, ao menos segundo o censo feito neste sítio. Com apenas 31 anos de idade, Jenson Button completará 200 largadas na Hungria. Apenas dez pilotos registram números maiores que o dele. Como ultimamente a galera anda insistindo em correr até o falo apodrecer, imagino que Jenson poderá ter boas chances de ampliar este número drasticamente. A não ser que se canse de tudo e prefira passar o resto da vida aproveitando a grana com a amada nipo-argentina.

TRULLI: Em Nürburgring, o piloto mais niilista do grid deu lugar ao indiano Karun Chandhok, que está sendo preparado para correr no Grande Prêmio de seu país. Neste fim de semana, Jarno estará de volta. Ainda bem. Chandhok passou vergonha com o carro verde e amarelo, chegando a ficar atrás dos carros da Virgin e da Hispania, o que é notável para alguém que deixou imagem razoável no primeiro semestre do ano passado. Trulli, por outro lado, consegue ao menos andar no nível do companheiro Heikki Kovalainen. Falta apenas um pouco mais de alegria na alma. Como alguém que pilota carros de corrida, possui uma vinícola própria, fala quatro línguas, é milionário e nem precisou ter feito grandes coisas na carreira para seguir na Fórmula 1 pode ser tão infeliz? Diante disso, só resta a nós, pobres mortais, enfiarmos uma corda no pescoço e pular.

Depois de longos meses de análise de dados, acusações infundadas de manipulação de resultados, estatísticos passando noites em claro, recontagens e milhares de reais e bits gastos, finalmente exibimos aqui os números finais do censo e alguns pitacos sobre isso.

No total, 79 pessoas se dispuseram a comentar sobre seus três pilotos favoritos e 54 dissertaram sobre os três pilotos mais odiados. Não é a amostra mais abundante da cidade, mas dá para chegar a algumas conclusões bem interessantes.

Primeiramente, falemos sobre a metodologia dos resultados. Contabilizei três tipos de coisa: número de pessoas que citaram cada piloto, número de vezes em que o piloto foi citado como o mais admirado ou o mais rejeitado e número de pontos. Este último é simples de entender: considerando as três escolhas de cada pessoa, a primeira vale três pontos, a segunda vale dois e a terceira vale um. Por que isso? Se você coloca entre seus favoritos Kobayashi, Button e Pérez nesta ordem, devo supor que você torce mais para o japa do que para o mexicano. Os pontos contabilizam melhor esse tipo de coisa.

Por fim, não considerei meus votos. Depois de contabilizar os resultados, me arrependi. Fizeram falta.

Piloto por piloto, apresento os resultados. Os números se referem ao número de pessoas que votaram. Em parênteses, a “posição” na lista:

SEBASTIAN VETTEL:

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 8 (7º)

O FAVORITO: 2 (9º)

PONTOS: 17 (7º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 3 (16º)

O MAIS REJEITADO: 1 (13º)

PONTOS: 5 (19º)

Nenhum dos números aí impressiona. À primeira vista, Vettel é um cara mais admirado do que rejeitado, mas não há nada de muito gritante aqui. Devo concluir que, no geral, o povo não cai na balela ferrarista de odiá-lo e nem na balela rubrotaurina de elevá-lo aos céus. Para um campeão do mundo e atual líder do campeonato, os resultados aí beiram a indiferença.

“Desde 2007 torço pra ele, por ser naturalmente veloz, bom de chuva e ter uma alegria de viver e encarar o automobilismo de uma forma como não é mais encarada ultimamente, com genuíno prazer. Além do que, um cara que tem a coleção inteira dos Beatles em vinil, e tem vontade de conhecer Neil Armstrong, só pode ser gente fina “ – Lucas Carioli

MARK WEBBER

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 0 (-)

O FAVORITO: 0 (-)

PONTOS: 0 (-)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 8 (7º)

O MAIS REJEITADO: 3 (7º)

PONTOS: 15 (9º)

Fiquei assustado aqui. Não que Mark Webber seja o cara mais legal do grid, mas me impressiona o fato de absolutamente ninguém elegê-lo ao menos como um de seus três pilotos preferidos. Por outro lado, oito não gostam dele. Sua temporada ruim deve estar fazendo a diferença. No ano passado, creio que o resultado seria bem mais favorável.

“Era para se aposentar ano passado. Tem um carro de ponta, mas pensa como piloto mediano. Não gosto dele” – José Carlos

LEWIS HAMILTON

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 23 (4º)

O FAVORITO: 8 (4º)

PONTOS: 46 (4º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 6 (9º)

O MAIS REJEITADO: 4 (3º)

PONTOS: 15 (9º)

Polêmico e equilibrado. Lewis é o quarto mais admirado entre todos e oito pessoas o têm como piloto favorito. Por outro lado, seis não gostam dele e quatro o consideram mais insuportável do que qualquer outro. Resultados equilibrados, mas Hamilton é assim mesmo: você o ama ou o odeia, mas não consegue ficar indiferente.

“Na minha opinião, é o melhor piloto dos últimos tempos, desde o fim da chamada “era Schumacher”. É um piloto que tem um estilo de pilotagem espetacular, que sempre busca tirar algo além do limite do carro em que pilota, além de nunca desistir. Batalha até o fim em uma disputa, mesmo que as vezes pague um preço alto, como no Canadá” – Pedro Fonseca

JENSON BUTTON

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 37 (3º)

O FAVORITO: 12 (3º)

PONTOS: 76 (3º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 1 (21º)

O MAIS REJEITADO: 0 (-)

PONTOS: 2 (22º)

Jenson é aquele cara alto, boa pinta, bem-humorado, rico e campeão do mundo, o sujeito que você deveria odiar pelo fato da sua namorada não parar de olhá-lo. Por outro lado, você também gosta dele. Doze pessoas o têm como favorito e um único cara não gosta dele. É uma quase unanimidade. Como a pesquisa foi feita após a avassaladora vitória em Montreal, creio que o resultado tenha ajudado. Mas não creio as coisas fossem muito diferentes em outros momentos.

“Gente boa, boa pilotagem e namorada boa” – Silvio Siqueira

FERNANDO ALONSO

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 15 (5º)

O FAVORITO: 4 (5º)

PONTOS: 30 (5º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 19 (2º)

O MAIS REJEITADO: 10 (1º)

PONTOS: 45 (1º)

Essa eu estava esperando para ver. Muita gente gosta de Alonso, mas essa turma não é páreo para os que odeiam. Alonso é o segundo piloto mais rejeitado e dez pessoas o odiavam mais do que qualquer outro, nada menos que o dobro do segundo colocado. Resumindo: há quem goste, mas quem odeia o faz com muito mais força.

“Fui fã do espanhol até 2006, porque quando se mudou para a McLaren ficou óbvio que não sabia lidar com um companheiro ao seu nível. Desde então envolveu-se em quase todas as polémicas da F1 (normalmente sendo beneficiado), e tem uma mentalidade de “ganhar, mesmo que seja com batota, é que importa” que eu odeio solenemente” – formulapt

FELIPE MASSA

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 4 (14º)

O FAVORITO: 1 (10º)

PONTOS: 8 (13º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 7 (8º)

O MAIS REJEITADO: 4 (3º)

PONTOS: 18 (8º)

Confesso ter ficado um pouco incomodado. Apenas quatro pessoas disseram gostar bastante dele, sendo que apenas um o tem como favorito. Chato para alguém que, provavelmente, lideraria essa lista tranquilamente em 2008. São sete os que o rejeitam, sendo que quatro o fazem mais do que com qualquer outro. Teria Hockenheim/2010 afetado drasticamente o resultado?

“Guerreiro, lutador, rápido, agressivo em suas ultrapassagens, e assim como eu e Rubens, um piloto emotivo. Inesquecível o gesto, batendo com o punho fechado no peito após a derrota em Interlagos 2008. Um grande exemplo de competidor, como disse Sir Jack Stewart”– Lucas Rodrigues

MICHAEL SCHUMACHER

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 12 (6º)

O FAVORITO: 3 (6º)

PONTOS: 25 (6º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 10 (5º)

O MAIS REJEITADO: 3 (7º)

PONTOS: 19 (6º)

Esse daqui é outro rei da polêmica. O heptacampeão mundial não é bem-visto por uma grande parcela dos antigos fãs de Ayrton Senna e também por fãs de Barrichello, Hill, Villeneuve, Montoya, Coulthard e por aí vai. Por outro lado, há aqueles que o consideram inegavelmente o melhor de todos os tempos. A balança com os que gostam e os que repudiam está equilibradíssima.

“É o cara. O Maior de Todos (exceto Fangio). Continuo torcendo por ele – em vão, é verdade, mas torço. Assim como torceria pelo Piquet se voltasse a correr pela Hispania, e pelo Villeneuve se ressuscitasse e corresse na Virgin. (PIquet e Villeneuve pais, bem entendido)” – Pandini

NICO ROSBERG

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 2 (16º)

O FAVORITO: 0 (-)

PONTOS: 2 (19º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 5 (11º)

O MAIS REJEITADO: 3 (7º)

PONTOS: 13 (11º)

Gostei muito desse resultado. Sempre achei que só eu não gostava dele, mas vi que o número de pessoas que não gostam dele é maior do que eu pensava (com destaque para três que o detestam mais do que qualquer outro). E folgo em saber que ele foi pouco citado em ambos os lados. Valeu mais a indiferença do que qualquer outra coisa.

“Ele não tem nenhuma característica detestável, mas nenhuma característica admirável, é tão neutro que chega a ser irritante. Podia ao menos deixar um bigodão ESTILOSO como o pai” – Zé D’Agostini

NICK HEIDFELD

UM DOS TRÊS FAVORITOS: 8 (7º)

O FAVORITO: 3 (6º)

PONTOS: 15 (8º)

UM DOS TRÊS MAIS REJEITADOS: 10 (5º)

O MAIS REJEITADO: 4 (3º)

PONTOS: 19 (6º)

Vocês me decepcionaram. Os dez que não gostam dele já foram reportados para a KGB. Os quatro que realmente o odeiam receberão em até 24 horas telegramas os convocando para o próximo trem com destino a Auschwitz. Pelo menos, oito gostam dele e três o consideram seu piloto preferido. Falando sério, eu realmente acreditava que Nick seria ignorado pela esmagadora maioria de vocês. É o embate da idolatria cult contra aqueles que o acham um conservador chato.

“Peca por não ter aquela “discrição agressiva” ou “agressivdade discreta” do Button. Aparenta se contentar com o fato de ser (um pouqinho) melhor do que outros pilotos de testes, como o de la Rosa. Acho que a F1 não é pra ele, mas sim o mundo dos protótipos” – Victor Ferreira

Amanhã, a segunda e a terceira parte. Os dois pilotos mais admirados ainda não apareceram.

GP DA EUROPA: Muito antes dos burocratas do Velho Continente se unirem em algo chamado União Europeia, a Fórmula 1 já reservava um espaço para uma corrida disputada em um circuito europeu aleatório qualquer que pudesse substituir uma eventual prova cancelada. Esta corrida já foi disputada em Brands Hatch, Jerez, Donington Park e Nürburgring antes de ganhar uma sede definitiva, a cidade portuária de Valência. Muita gente não gosta deste circuito, por ser travado, feio e criado pelo mal-amado Hermann Tilke. Eu gosto, por lembrar Long Beach lá de longe. Além do mais, convenhamos, uma região portuária de uma velha cidade europeia é sempre muito mais simpática do que aquelas cidades de mentira do Oriente Médio.

DIFUSOR SOPRADO: Taí um negócio que já ganhou inúmeras denominações: difusor aquecido, difusor soprado, ignição tardia e por aí vai. Pelo que minha limitada compreensão captou, trata-se de um sistema que espirra um pouco de gasolina para o motor de modo a mantê-lo acelerado no momento em que o piloto tira o pé do acelerador. Este sistema permitia que o motor funcionasse a quase 90% quando o acelerador é “desligado” – é um punta-taco eletrônico, por assim dizer. Bacana, assim como boa parte das inovações sutis dos últimos anos. Mas a FIA, sempre ela, pisa em cima da meritocracia e anuncia o fim do tal difusor para Silverstone. Houve, no entanto, quem quis adiantar o banimento para Valência. E a distinta Federação, desta maneira, segue matando o pouco que resta de criatividade e ousadia na outrora gloriosa Fórmula 1.

BUTTON: É o cara, ainda mais depois de vencer de maneira primorosa o Grande Prêmio do Canadá. Recentemente, o jornal Marca até andou sugerindo que a Ferrari poderia colocá-lo no lugar de Felipe Massa em 2012 – algo veementemente rechaçado pelos italianos hoje mesmo. De qualquer maneira, Jenson é um cara que consegue ser uma quase unanimidade: é veloz, inteligente, simpático, tem cara de artista e uma namorada fora de série. No Censo, que terá resultados publicados semana que vem, ele foi um dos mais citados. É o cara.

SILLY SEASON: Para quem escreve sobre Fórmula 1, a silly season é um dos períodos mais aguardados. Afinal, é aquela época na qual podemos divergir sobre quem vai para aonde, podendo apostar nas possibilidades mais esdrúxulas e torcer por fulano ali, sicrano acolá e beltrano na puta que o pariu. Mas até agora, muito pouco foi falado sobre o ano que vem. Não há boatos, não há equipe querendo entrar, não há piloto com medo do desemprego, não há mafioso russo querendo comprar equipe pequena, não há gente devendo até as calças, não há nada além de silêncio e bolas de feno voando. Lembre-se: estamos entrando em julho. Já está mais do que na hora da boataria começar.

PIETSCH: Sem grandes assuntos, comento sobre a notícia mais importante dos últimos tempos: o alemão Paul Pietsch, o piloto de Fórmula 1 mais antigo entre os que ainda vivem, completou 100 anos hoje, sendo o primeiro ex-piloto a fazê-lo. Curiosamente, Pietsch já foi citado por cima em um post meu, quando falei sobre o circuito de Nordschleife. O cara é tão antigo que seu primeiro Grand Prix foi o da Alemanha em 1932! Naquela corrida, disputada no mesmo Nordschleife, Pietsch abandonou ainda na primeira volta, com o radiador de seu Bugatti furado. Correram contra ele gente como Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola, Louis Chiron e René Dreyfus. E, em pleno 2011, Pietsch está aí, lúcido e saudável. Pode parecer bizarro falar isso, mas que venham mais anos para Paul Pietsch!

BANDEIRA VERDE: Normalmente, eu só comento sobre cinco assuntos aleatórios. No entanto, uso esse espaço para dizer que esta semana está uma correria dos infernos para mim e que não teremos post na quarta-feira. Farei, sim, a continuação do Censo, dessa vez com outra pergunta. Não me deixem só. Ainda.

Carl Jung, o pai da psicologia analítica

Primeiramente, sou completamente leigo em Psicologia. Confesso que gostaria de me aprofundar mais no assunto, mas o que me sobra de preguiça me falta de tempo. Mas é sempre bom saber o que se passa na cabeça das pessoas, até mesmo para você conviver melhor com elas ou para utilizá-las a seu favor no caso de você ser um maquiavélico filho da puta e desalmado. Portanto, se seu interesse no assunto é nulo, até amanhã. Vou falar um pouco sobre isso, misturar o assunto com automobilismo e ver no que dá.

O fato de nunca ter estudado Psicologia não me impede de falar um pouco sobre tipos psicológicos junguianos. Vamos à Wikipedia para falar sobre Carl Jung, o criador da bagaça. Pai da psicologia analítica, o suíço Jung gostava de analisar sonhos e de identificar comportamentos e características pessoais, bem como algumas de suas peculiaridades, como os complexos e a oposição entre introversão e extroversão. Resumindo: Jung é o típico sujeito que tomaria um chope com você e, em três horas, faria uma radiografia da sua personalidade, colocando-te em determinada categoria. Ele é dos meus.

A coisa mais legal que Jung criou foi a Teoria dos Tipos Psicológicos. Em 1921, após duas décadas de intensa pesquisa, ele desenvolveu a obra “Tipos Psicológicos”, espécie de bíblia do assunto. Serei breve e simplificarei o que for necessário, ou seja, quase tudo. Segundo esta obra, os seres humanos são divididos entre os extrovertidos e os introvertidos. Os primeiros são ligados à externalidade das coisas: dão importância à estética, são comunicativos e abertos, gostam de interação. Os introvertidos, por outro lado, são ligados ao aspecto mais interno das coisas: tendem a prestar mais atenção nos detalhes e nas minúcias, preocupam-se mais consigo do que com outras pessoas ou coisas, são mais fechados e menos comunicativos.

Mas há diferenças fundamentais dentro de um mesmo grupo, seja ele o dos extrovertidos ou o dos introvertidos. Estas diferenças são definidas pelas chamadas funções psíquicas, conjuntos de habilidades e atributos que determinam o relacionamento do indivíduo com o mundo.  Estas funções psíquicas podem ser categorizadas em três categorias de oposição: sensação/intuição, pensamento/sentimento e julgamento/percepção.

Em suma, o indivíduo pode ser extrovertido (E) ou introvertido (I), sensorial (S) ou intuitivo (N), pensador (T, de thinking) ou sentimental (F, de feeling) e julgador (J) ou perceptivo (P). Conforme você define, para cada categoria, qual dos comportamentos é o seu, você vai unindo as letras e acaba formando um tipo psicológico completo composto pelas quatro letras que te caracterizam: ESTJ, INFP ou ISTP, por exemplo. São 16 possibilidades.

Explico cada letra:

EXTROVERTIDO (E): Pessoa que gosta do contato com o mundo externo. Tende a ser sociável, “simpática” e empática aos problemas dos outros. Simplificando, é aquela que gosta de música alta, festa no apê e telefone. Exemplo: Ivete Sangalo.

INTROVERTIDO (I): Pessoa que prefere a reclusão e o autoconhecimento, deixando de lado o contato excessivo com outras pessoas e coisas. Tende a ser mais tímida, solitária e tranquila. É aquela que gosta de ouvir música no fone de ouvido, ler e andar sozinha. Exemplo: Thom Yorke.

SENSAÇÃO (S): Pessoa que se dá melhor no contato com coisas concretas, que utiliza os cinco sentidos para receber informações do meio e agir. Tende a ter boa coordenação motora e a ser boa com trabalhos manuais e corporais. Exemplos: engenheiros, marceneiros e agricultores.

INTUIÇÃO (N): Pessoa que tende a pegar as coisas por meio do pensamento, da abstração e da imaginação, buscando observar algo além do que os cinco sentidos permite. Tende a ter coordenação motora terrível, mas é boa para chegar a conclusões estrambólicas sobre os mais variados assuntos. Exemplos: intelectuais em geral, críticos de arte, compositores.

PENSADOR (T): Pessoa que acredita na razão. Todas as suas ideias e atitudes são baseadas em conceitos racionais, sem a intervenção da emoção. Exemplo: físicos e matemáticos.

SENTIMENTAL (F): Pessoa que acredita na emoção. Para ela, não há como não agir sem a emoção, pois a razão é muito fria para ser levada a cabo pelos seres humanos. Exemplo: aquela menina chata de 15 anos que gosta de filmes de vampiros.

JULGADORES (J): Pessoa metódica que acredita na ordem. Um julgador acredita que as coisas devem ser feitas de maneira organizada e estritamente ortodoxa, sem abrir espaços para contratempos e arestas. Exemplos: militares, religiosos e positivistas.

PERCEPTIVOS (P): Pessoa que acredita na liberdade, no improviso e na relatividade. Para ela, não há uma única maneira de fazer as coisas, um sistema que deva ser consensual, um cronograma. O perceptivo, teoricamente, tem um leque maior de opções. Exemplos: hippies, liberais clássicos e anarquistas.

Quer fazer o teste para saber qual você é? Tenta este, em inglês.

Kimi Räikkönen, representante dos ISTP

Tá, mas e daí?

E daí que, sem muitos assuntos, decidi aplicar estes tipos junguianos a alguns personagens do automobilismo. Não sou psicólogo e nem conheço ninguém pessoalmente, ou seja, posso estar falando um monte de besteira e sendo injusto com os caras. Em alguns casos, a conclusão pode até soar forçada, mas tive de fazer isso para citar o maior número possível de exemplos. Enfim, não ligo para nada disso, escrevo e sigo em frente.

KIMI RÄIKKÖNEN – Um típico ISTP. Sujeito recluso e estranho que tende à misantropia. Não faz o tipo intelectualizado, mas é bom pra caramba na arte de pilotar. É tão emotivo quanto um boneco de neve. E definitivamente não é organizado e nem seguidor de consensos.

AYRTON SENNA: O tricampeão brasileiro é um bom ISFJ. Sempre muito tímido, Senna era um mestre em perceber problemas em seu carro e sentir as condições da pista, além de extremamente hábil ao pilotar. Emotivo, costumava chorar em suas maiores vitórias. E era um sujeito absolutamente organizado e compenetrado. Creio que Felipe Massa seja outro ISFJ.

NELSON PIQUET: O outro tricampeão brasileiro era INTP. Apesar de não ser propriamente tímido, certamente era alguém que não gostava muito de ser incomodado em alguns momentos. Mesmo sendo um ótimo acertador de carros, Piquet era um cara com boa capacidade de abstração e imaginação, algo que podíamos ver pelas suas declarações. Ele também não era um padrão Räikkönen de falta de emoção, mas parecia ser bem mais racional que a média. E improviso e contrassenso são com ele.

RON DENNIS: Um ISTJ dos bravos. Ron Dennis, definitivamente, não era o cara mais simpático e sociável de todos. Como a maioria das pessoas ligadas ao automobilismo, era um bom tipo sensorial. É também totalmente racional e completamente metódico. Fernando Alonso e Michael Schumacher poderiam ser outros ISTJ.

JAMES HUNT: Fiquei um pouco em dúvida, mas o classifiquei como ESFP. Um cara que comeu o tanto de mulheres que comeu e que fez um monte de amigos não pode ser introvertido. Bon vivant, exercia os cinco sentidos da melhor maneira possível. Não fazia o tipo racional, já que se acabava em drogas e bebida. E organização e obrigações não eram com ele. Juan Pablo Montoya, mesmo com outro perfil, é outro ESFP.

RUBENS BARRICHELLO: ESFJ. Esse daqui é absolutamente extrovertido, completamente sensorial (o que dizer de alguém precisa ler autoajuda?), totalmente emotivo e, convenhamos, não é um irresponsável heterodoxo. O oposto de Piquet. Explica muita coisa.

NICK HEIDFELD: INTJ.  Como a maioria dos alemães, não é exatamente extrovertido. Por gostar de arte, gastronomia e umas coisas bizarras, o considerei como intuitivo. É racional e não é do tipo que costuma fazer coisas bizarras demais ou sair da linha.

JACQUES VILLENEUVE: ENTP. Bocudo, não é tão introvertido quanto poderia se imaginar. Parece gostar mais de música e livros do que de carros, é um sujeito racional e costuma ser meio transgressor.

GERHARD BERGER: Seria ele um ESTP? Vejamos: era bastante extrovertido, um exímio sensorial no trato com os carros, racional especialmente em termos políticos e, pelas brincadeiras com Senna e por algumas manobras no início da carreira, um doido avesso a padrões.

KAMUI KOBAYASHI: Talvez um INFP. Claramente introvertido, sujeito relativamente avoado em seus pensamentos (quem mais diria que gostaria de ter sido comediante ou que, se não corresse, acabaria fazendo sushis?), bastante emotivo para um japonês e mais inventivo do que metódico.

LUCAS DI GRASSI: Fico em dúvidas, mas vou de ENTJ. Não é introvertido, é alguém que, ex-estudante de Economia e participante do Mensa, tem um lado intuitivo forte, é racional e é metódico e organizado, meio avesso a loucuras.

GILLES VILLENEUVE: Penso que era um ISTP. Bastante introvertido, especialista em controle do carro, não muito emotivo (só assim para conseguir sobreviver às disputas nas quais ele se metia) e totalmente doido.

JENSON BUTTON: Um ESTJ? Vejamos: extrovertido, bastante sensorial, relativamente racional e, como visto várias vezes em sua carreira, bastante cauteloso e conservador na pilotagem.

Confesso que não consegui exemplos para os outros três tipos (ENFP,ENFJ,  INFJ). Se quiserem mandar sugestões, aceito.

Aliás, eu sou INTP. Assim como Einstein, Darwin e o próprio Jung. Sabia que era um gênio.

Tá acabando, pessoal. Hoje, último dia da semana reservado às apresentações das equipes da temporada 2011, falo da última equipe grande a ter se apresentado: a tradicionalíssima McLaren.

VODAFONE MCLAREN MERCEDES

A gênese de uma das maiores equipes da história do automobilismo mundial se inicia lá na Nova Zelândia, aquele distante e pacato arquipélago localizado no sul da Oceania. Um de seus filhos era Bruce McLaren, talvez um dos pilotos mais talentosos da história da Fórmula 1 a não obter um título. Filho de um engenheiro e portador de uma síndrome que degenerava os músculos de seu quadril, McLaren saiu diretamente das corridas de subida de morro em seu país para a Fórmula 2 na Europa, e depois para a fama na Fórmula 1. Venceu quatro corridas e terminou duas temporadas em terceiro. Faleceu tragicamente testando um carro Can-Am em Goodwood em 1970.

Apesar dos bons resultados de Bruce na Fórmula 1, seu maior legado foi a criação de uma equipe, a McLaren Racing Team, em 1963. Inicialmente criada para competir na Tasman Series, a McLaren começou a chamar a atenção na Fórmula 1 e na Can-Am no fim dos anos 60. Em sua equipe, Bruce pilotava, testava e projetava os carros, reconhecidos pela cor alaranjada. Vivo, pôde celebrar dois títulos nas temporadas de 1967 e 1969 da categoria americana de carros-esporte.

Após sua morte, quem assumiu a liderança da McLaren Racing Team foi o americano Teddy Mayer, um advogado da Pensilvânia que já estava envolvido com a equipe desde sua inauguração, quando seu irmão Timmy pilotou o Cooper alaranjado na Tasman Series. Não demorou muito e o sucesso começou a aparecer. A chegada de fortes patrocinadores (a Yardley e, posteriormente, a Marlboro) permitiu que bons investimentos pudessem ser feitos, como a contratação dos campeões Emerson Fittipaldi e Denny Hulme. Emmo ganhou o primeiro título da história da equipe, em 1974.

Após a passagem de Emerson, a McLaren mergulhou em um período um tanto quanto negativo. O apoio da Marlboro e a contratação de bons pilotos não eram o suficiente para fazer a equipe se destacar em uma época na qual as inovações pululavam e concorrentes como Lotus, Brabham, Ferrari e Renault sempre apareciam com novidades mirabolantes. Houve um momento que as pessoas não acreditavam mais no retorno da McLaren nas cabeças. O que fez as coisas mudarem, então?

A participação cada vez menor de Mayer na administração certamente representou a diferença maior. Em 1980, após pressões externas, ele aceitou juntar as tralhas com Ron Dennis, na época um próspero dono de equipe na Fórmula 2. Com Dennis, um perfeccionista obcecado, as coisas melhoraram bastante e a equipe até inovou com a criação do primeiro chassi construído com fibra de carbono, mas ainda faltavam algumas coisas para que a McLaren voltasse a ser vencedora.  Parcerias boas, mais precisamente.

Em 1982, esse problema foi resolvido. Ron Dennis convidou um empresário francês de origem árabe, Mansour Ojjeh, a investir na equipe com sua empresa, a TAG. Naquele ano, os dois correram atrás da Porsche e pediram a ela o desenvolvimento de um supermotor para 1984. De quebra, contrataram o bicampeão Niki Lauda. E no fim de 1983, tiraram Alain Prost da Renault. O dream team para 1984 estava montado. A McLaren voltava a ser uma equipe de ponta – e nunca mais deixaria de sê-la.

Entre 1984 e 1993, nada menos que sete títulos de pilotos, seis de construtores e 74 vitórias foram obtidos. O forte da equipe, nesse período, era a altíssima qualidade de seus parceiros e funcionários: Porsche entre 1984 e 1987, Honda entre 1988 e 1992, Steve Nichols, Gordon Murray, Lauda, Prost, Ayrton Senna e Gerhard Berger. O dinheiro e o profissionalismo jorravam como nunca visto antes na história da categoria.

Mas, aos poucos, o império começou a ser desfeito. A saída de Senna e as sucessivas mudanças de motores representaram o início de uma fase ruim da equipe. Porém, podemos interpretá-la como uma entressafra.

Em 1998, já com a pintura prateada e motores Mercedes, a equipe voltou a vencer corridas. De lá para cá, ela teve temporadas ótimas, boas, medianas e terríveis, mas nunca deixou de ser respeitada como um time de ponta. É verdade que os títulos não foram muitos (um de construtores, três de pilotos), mas ninguém nunca se esquece da McLaren quando se fala em candidatas ao título. Desde o ano passado, ela não é mais a equipe oficial da Mercedes. Semi-independente, o sonho é o da construção de um carro 100% completo, com motor e tudo. É o sonho de Bruce McLaren sendo levado a cabo.

MCLAREN MP4-26

Após o escândalo de espionagem de 2007 e a saída do carrancudo Ron Dennis, a impressão que tenho é que a McLaren decidiu apostar em uma imagem mais amigável e simpática ao verdadeiro fã do automobilismo. Ver Lewis Hamilton e Jenson Button juntos cantando Wonderwall, por exemplo, seria impossível nos tempos de gestão do Uncle Ron.

O lançamento do MP4-26 foi feito de maneira bastante criativa. A equipe foi a Berlim, reservou um espaço na Potsdamer Platz e fez com que os mecânicos montassem o bólido em dez minutos, na frente dos transeuntes. E o carro a ser apresentado ficou prontinho para quem quiser ver, com os dois pilotos sorridentes posando ao lado.

Inventivo como a apresentação, o MP4-26 tem algumas novidades bem interessantes. A entrada de ar do sidepod tem formato de L e é uma das maiores entre os carros apresentados. Mais acima, atrás da entrada de ar sobre a cabeça do piloto, há um pequeno duto pelo qual passa o ar que refrigera o sistema de transmissão e o sistema hidráulico. No mais, o bico ficou mais curto, um pouco mais largo e mais reto. A asa traseira também encolheu um pouco. E a barbatana tomou Doril e sumiu.

Tudo muito legal no papel, mas o carro tem sido uma das decepções da pré-temporada até aqui. Em Barcelona, o MP4-26 teve sérios problemas de saída de traseira e alguns boatos negativos davam conta que ele podia ser até dois segundos mais lento do que os concorrentes diretos. Lewis Hamilton e Jenson Button preocupam-se em deixar claro que o buraco não é tão fundo assim, mas seus sorrisos amarelados de constrangimento parecem deixar claro que há algo muito errado.

3- LEWIS HAMILTON

É o Robinho? É o Obama? Não. Lewis Carl Davidson Hamilton é simplesmente um dos melhores pilotos do mundo nos dias atuais. Campeão de 2008, o inglês de 25 anos é o cara que, na minha visão torta, mais se assemelha com Ayrton Senna. Veja só: Hamilton usa capacete amarelo, é agressivo, comete erros bobos de vez em quando, voa na chuva, é bom de ultrapassagem, melhor ainda em treinos de classificação e é amado pela McLaren. Uma corruptela do tricampeão brasileiro.

Hamilton sempre foi bonzão nesse negócio de corrida de carro. Em 1995, em um curioso momento altruísta, Ron Dennis decidiu apoiar alguns kartistas britânicos que se destacavam mais. Um deles, de cor negra, era bom pacas. E ter um piloto de uma minoria absolutamente desprezada pelo automobilismo poderia trazer uns bons dividendos à McLaren.

Desde então, Lewis Hamilton é apoiado ostensivamente pela equipe. E agradeceu ao apoio levando para casa os títulos da Fórmula Renault inglesa, da Fórmula 3 europeia e da GP2. Após ser campeão desta última, Hamilton finalmente estreou na Fórmula 1 em 2007. Chamou a atenção logo de cara, obtendo pódios, vitórias e deixando todos de boca aberta. Lewis foi simplesmente o melhor calouro de todos os tempos.

O título de 2008 veio após muito sufoco e uma ultrapassagem polêmica sobre Timo Glock na última curva da última corrida. Os dois últimos anos não foram tão bons, já que a McLaren não conseguiu fazer um carro tão bom. Ainda assim, Hamilton carregou o carro nas costas e deu algumas boas demonstrações de seu talento. Fora das pistas, sua vida se assemelha a de um astro pop americano: multas, polêmicas bestas e um namoro com Nicole Scherzinger, vocalista do Pussycat Dolls.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Antes de Scherzinger, Lewis Hamilton namorou por quatro anos uma patricinha de Hong Kong chamada Jodia Ma. Eu me arriscaria a dizer que a fama obtida na Fórmula 1 fez com que ele a dispensasse para pegar mulheres mais famosas – e mais bonitas. E a coitada da Jodia Ma ainda viu o pai ser acusado, em 2009, de lavagem de dinheiro e fraudes que ultrapassavam as 80 milhões de libras.

4- JENSON BUTTON

Se Eddie Irvine era o bon vivant britânico dos anos 90, Jenson Alexander Lyons Button cumpre esse papel com bastante desenvoltura nos dias atuais. Rico, boa-pinta, campeão de Fórmula 1, gente boa, divertido e namorado de uma das mulheres mais bonitas do paddock, a modelo nipo-argentina Jessica Michibata. Logo, é um cara que deveria despertar inveja em muitos homens, mas não desperta exatamente por ser muito gente fina. Não conheço ninguém que não goste dele – Jacques Villeneuve seria uma exceção, mas este é exceção para tudo.

Button chegou à Fórmula 1 após uma carreira-relâmpago. Antes de chegar lá, ele foi campeão de Fórmula Ford em 1998 e terceiro colocado na Fórmula 3 britânica em 1999. Antes de ocupar o segundo carro da Williams, Jenson precisou destroçar o brasileiro Bruno Junqueira no vestibular promovido pela equipe. Entrou e deu certo. Mas sua carreira virou uma montanha russa até 2009.

Antes de ser campeão pela efêmera Brawn, Button representou as equipes Williams, Benetton, Renault, BAR e Honda. Ganhou o GP da Hungria de 2006, terminou a temporada de 2004 em terceiro e teve algumas atuações muito boas, mas nunca conseguiu nada de muito relevante. No fim de 2008, após a saída da Honda, estava basicamente desempregado, mas Ross Brawn salvou sua carreira e lhe entregou um carro que o permitiu ganhar seis corridas e o título de 2009. Desde o ano passado, corre pela McLaren. É do tipo que come-quieto: excelente estrategista, destaca-se por ser veloz sem pirotecnias. É bom de corridas molhadas ou confusas.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: No início de carreira, Jenson Button era conhecido pelo seu lado marqueteiro. Pouco antes do Natal de 1999, quando ele ainda não tinha estreado na Fórmula 1, sua assessoria enviou cartões a um bocado de jornalistas da Fórmula 1. Muitos nem faziam ideia de quem era aquele cara. Com o tempo, descobriram.

PILOTOS DE TESTES: GARY PAFFETT E PEDRO DE LA ROSA

Curiosamente, os dois pilotos de testes da equipe têm mais tempo de casa do que os pilotos titulares. Pedro de la Rosa fez inúmeras sessões com a McLaren entre 2003 e 2009 e só saiu para disputar a temporada de 2010 pela Sauber. Depois de ser chutado da equipe suíça, o espanhol de 40 anos retornou silenciosamente. Com toda a limitação de testes, De la Rosa não terá muito o que fazer. Seu colega Gary Paffett, que completará 30 anos daqui a uma semana, ao menos corre na equipe oficial da Mercedes no DTM. O inglês é piloto de testes desde 2006 e até já pleiteou uma vaga como piloto titular, mas disputar contra Lewis Hamilton não dá. Atualmente, é outro enfeite da equipe.

É época de vestibulares… na Fórmula 1, é claro. Enquanto jovens de classe média comemoram suas aprovações nos principais vestibulares brasileiros enchendo a cara com pinga vagabunda e pintando até o rabo, dois pilotos serão colocados à prova amanhã, no árido circuito de Jerez de la Frontera, na briga pela vaga de substituto de Robert Kubica na Renault. De um lado, o soturno Nick Heidfeld, apoiado por mim, pelos seus outros 18 fãs e talvez pela sua família. Do outro, o boa-praça Bruno Senna, apoiado por milhares de fãs e saudosos dos feitos de seu tio. O favorito é Heidfeld, mas esse assunto já deu o que tinha que dar. Vamos à história.

Decidir uma vaga por meio de uma sessão de testes é a coisa mais normal do mundo. Na Fórmula 1, quem não consegue completar sua dupla de pilotos com muitos meses de antecedência acaba tendo de recorrer a esse tipo de medida. Para quem escreve sobre o esporte é bom, pois há assunto para um período tão pobre de notícias. Em tempos não tão remotos, alguns pilotos derrotaram outros na briga direta por única vaga. Lembro de cinco histórias:

5- BRUNO SENNA VS LUCAS DI GRASSI

Bruno Senna

Os dois contendores do teste da Renault já participaram de outros vestibulares antes. No fim de 2008, dois brasileiros, Bruno Senna e Lucas di Grassi, se enfrentaram no circuito de Barcelona visando tomar a vaga de um terceiro brasileiro, Rubens Barrichello. Naquele momento, Rubinho estava com um pé e meio na aposentadoria e a Honda, equipe que estava em péssima fase, precisava mudar alguma coisa. Apostar em um piloto jovem que representasse um mercado em expansão poderia ser um primeiro passo.

Cada um teve direito a dois dias de testes: Bruno andaria nos dias 17 e 19 de novembro, enquanto que Lucas pilotaria nos dias 17 e 18. Ambos utilizariam o RA108, um carro ruim em todos os sentidos. Não se sabe até quando havia isonomia nas condições do teste, embora alguns técnicos da Honda tenham apontado que o fato de poder utilizar a pista no último dia, quando ela está bem mais emborrachada e aderente, poderia representar uma vantagem a Bruno Senna.

Mas não vou encontrar empecilhos aqui. Bruno entrou na pista e deu uma surra daquelas em Di Grassi. No primeiro dia, Di Grassi andou de manhã e fez 1m25s512. Senna entrou na pista à tarde e fez 1m24s343, quase 1s2 mais rápido. Se por um lado a pista estava em melhores condições para Bruno, por outro era necessário considerar que era seu primeiro contato com um Fórmula 1, enquanto que Di Grassi já havia feito oito sessões de testes.

No segundo dia, Di Grassi andou sozinho, deu 110 voltas e fez 1m22s283. Bruno Senna teve a pista para si no último dia, deu 107 voltas e fez 1m21s676. Não dá pra negar: vitória inconteste de Bruno Senna. No entanto, nenhum dos dois acabou levando a vaga, já que a Honda anunciou sua retirada da Fórmula 1 poucas semanas depois. E a equipe que a substituiu manteve Rubens Barrichello.

4- CHRISTIAN KLIEN VS VITANTONIO LIUZZI

Vitantonio Liuzzi utilizando um layout provisório

Esse vestibular aqui extrapolou os testes de pré-temporada e vigorou até as primeiras etapas da temporada de 2005. A Red Bull, equipe que estreava na Fórmula 1 após comprar o espólio da Jaguar, queria um companheiro jovem, promissor, descolado e cheio de piercings para correr ao lado de David Coulthard. E quem teria mais piercings do que Christian Klien e Vitantonio Liuzzi? Os dois foram escalados para uma bateria de testes para ver quem ficaria com a vaga. O sueco Bjorn Wirdheim também foi convocado, mas acabou recusando devido à possibilidade de acabar ficando sem a vaga de titular.

Klien e Liuzzi fizeram um monte de testes e os resultados eram absolutamente alternados, não havendo um padrão. Ou seja, um par ou ímpar seria mais justo para definir quem pegaria a vaga. Então, Christian Horner decidiu pelo seguinte: já que não soava justo ficar com apenas um e manter o outro apenas como piloto de testes, que se coloquem os dois para correr! Klien faz algumas corridas, Liuzzi faz outras e quem se sair melhor fica com a vaga até o fim do ano.

Christian fez as corridas da Austrália, da Malásia e do Bahrein. Largou entre os sete primeiros nas três, batendo o companheiro Coulthard em duas ocasiões. Marcou pontos nas duas primeiras etapas e deixou excelente impressão, algo que não havia conseguido em 2004. Nas quatro corridas seguintes, Liuzzi entrou em seu lugar. Fez uma boa apresentação em Imola, saiu da prova por erro nas duas corridas seguintes e terminou em nono em Nürburgring. Não foi tão bem nos treinos e marcou apenas um ponto. A partir daí, Horner não precisou pensar muito e declarou que Klien seria o piloto da equipe até o final da temporada.

3- JOS VERSTAPPEN VS GIL DE FERRAN

Gil de Ferran

No final de 1993, dois jovens e promissores pilotos do automobilismo base se encontraram no circuito luso do Estoril para um duelo que poderia valer uma vaga na Footwork. Um deles era brasileiro, Gil de Ferran, um dos líderes da Fórmula 3000 naquele ano. O outro era um moleque holandês que havia arrepiado na Fórmula 3 e na Fórmula Opel, Jos Verstappen.  Cada um tinha lá seu trunfo. Gil era mais experiente e tinha a boa experiência de haver testado pela Williams. Verstappen era orientado pelo ex-piloto Huub Rothengatter, de bom trânsito na Fórmula 1.

O teste seria realizado na semana seguinte ao do GP de Portugal. Os dois dividiriam um carro, que também seria pilotado por Christian Fittipaldi, e teriam um único dia para mostrar serviço. O melhor largava na frente na briga por pelo menos uma das vagas.

Verstappen, como de costume, não demonstrou qualquer medo e sentou a bota, marcando um excepcional 1m14s5. Para se ter uma ideia, nos treinos oficiais da corrida da semana anterior, o inglês Derek Warwick, primeiro piloto da Footwork, havia feito 1m14s3. Seu companheiro Aguri Suzuki fez 1m15s5, um segundo mais lento do que o holandês, cujo tempo o colocaria na décima posição do grid!

E o Gil? Bem, ele entrou na pista, deu 20 voltas e fez exatamente 1m16s0. O brasileiro se sentia mal em um cockpit que não o comportava direito, já que seu corpo era mais largo do que os outros pilotos que andaram no carro. Então, ele deixou o carro e pediu que os mecânicos fizessem alguns ajustes para aumentar o espaço. E enquanto isso, ele foi dar uma volta por aí.

Foi quando, ao passar por um dos caminhões da equipe, Gil deu aquela cabeçada em uma porta, o que lhe rendeu quatro pontos na cabeça. Zonzo e dolorido, ele teve de abandonar o restante do teste e o projeto de correr na Footwork. No fim, ele ficou mais um ano na Fórmula 3000, enquanto que Verstappen assinou com a Benetton e se deu mal.

2- JENSON BUTTON VS BRUNO JUNQUEIRA

Bruno e Jenson

No fim de 1999, a Williams estava baqueada. A equipe, então acostumada com vitórias, teve uma temporada horrorosa e só se salvou graças às boas performances de Ralf Schumacher. O outro piloto, o italiano Alessandro Zanardi, nem fazia lembrar aquele que foi bicampeão da CART e terminou o ano zerado. O que, para um time como a Williams, era inaceitável. Segundo seu contrato, Zanardi tinha mais um ano na equipe, mas Frank Williams deu um jeito e chutou os fundilhos do italiano. Havia um carro livre, portanto.

Como uma vaga na Williams nunca é ruim, um batalhão de pilotos foi bater às portas de Grove visando um emprego na equipe: Olivier Panis, JJ Lehto, Jörg Müller… Frank Williams não levou nada disso a sério. Ele mesmo resolveria quem iria correr no lugar de Zanardi. E haveria apenas dois candidatos: o brasileiro Bruno Junqueira e o inglês Jenson Button. Favorito, Bruno havia sido um dos destaques da Fórmula 3000 e já havia feito vários testes com a equipe. E Jenson?

Button era um moleque sardento com 20 anos recém-completados. Em 1999, havia feito duas curtas sessões de testes com a McLaren (prêmio dado em conjunto com a Autosport por ter sido o melhor piloto inglês em 1998) e com a Prost. Além disso, havia terminado a temporada da Fórmula 3 britânica em terceiro, deixando impressão até melhor do que a dos dois primeiros colocados. Para o ano 2000, ele pretendia correr um segundo ano na Fórmula 3. Ou pular para a Fórmula 3000. Fórmula 1, definitivamente, era coisa para o futuro.

Mas eis que, em um belo dia, enquanto estava em um pub com alguns amigos, Jenson Button recebe uma ligação de Frank Williams. Incrédulo, ele quase desligou o celular, pensando se tratar de um trote. Quando viu que não era, pegou suas coisas e viajou imediatamente para a Espanha. Lá, ele enfrentaria Bruno Junqueira pela segunda vaga. O brasileiro tinha o apoio da Petrobras, fornecedora de combustíveis da Williams. E o inglês teria todo o apoio de sua equipe e da poderosa mídia de seu país.

Button e Junqueira fizeram algumas voltas em Jerez, mas o tempo estava muito ruim e todo mundo decidiu ir para Barcelona. Por lá, os dois pilotos andaram nos dias 19 e 23 de janeiro. E Button surpreendeu a todos batendo Junqueira com facilidade: no primeiro dia, o inglês foi 1s1 mais veloz. Quatro dias depois, ele foi dois décimos mais veloz.

A decisão já estava tomada, mas não podia ser revelada. No dia 31, os dois pilotos foram chamados. Nenhum deles sabia o que iria acontecer. Frank Williams lhes informou quem venceu a disputa. Minutos depois, ele informou à mídia seu novo contratado. Aos 20, Jenson Button era o mais novo piloto do grid.

1- NICK HEIDFELD VS ANTONIO PIZZONIA

Nick Heidfeld no teste de Barcelona

Assim como Bruno Senna, Nick Heidfeld também já enfrentou uma espécie de vestibular. Foi em 2005, quando ele e o manauara Antonio Pizzonia disputaram a vaga de segundo piloto da Williams.

Foi uma novela. Tudo começou quando Ralf Schumacher e Juan Pablo Montoya, entregando muito mais dores de cabeça do que resultados, desertaram para outras praças. Com duas vagas disponíveis em sua equipe para 2005, Frank Williams começou a ir atrás de gente boa o suficiente para merecê-las. Primeiramente, tirou Mark Webber da Jaguar. Em seguida, anunciou Jenson Button, que vinha sendo a sensação de 2004 na BAR. Que dupla, hein?

É, mas o problema é que Button já tinha contrato com a BAR para 2005 e não conseguiu anulá-lo. Bem que o inglês tentou ao máximo retornar para sua primeira casa, mas o negócio foi parar nos tribunais e a BAR ganhou. Bom, paciência, né? Frank Williams, então, decidiu testar dois pilotos. Um deles era o alemão Heidfeld, que vinha pagando pecados na Jordan e que era do agrado da BMW. O outro era o brasileiro Pizzonia, que já estava trabalhando como test-driver e que agradava muito os químicos da Petrobras. Não era um simples vestibular, mas uma verdadeira guerra de influências. O vencedor seria aquele que conseguisse colocar no segundo carro seu piloto predileto.

Na pista, o negócio estava tão tenso como fora dela. Heidfeld e Pizzonia participaram de nada menos que três sessões diferentes de testes em três pistas espanholas (Jerez, Barcelona e Valência), totalizando oito dias para cada piloto. Os dois pilotos andaram com o FW26C nas mais diversas situações e puderam ser testados em todos os quesitos. No geral, Pizzonia foi o mais veloz em Barcelona e em Valência, perdendo apenas em Jerez. Nas sessões em que testaram juntos, Heidfeld foi o mais veloz em três e Pizzonia venceu em duas. Duelo equilibrado, mas o brasileiro aparentava ter alguma vantagem.

Só que a voz da BMW falou mais alto. Some seu poderio com o desempenho de Heidfeld, que esteve longe de ser ruim, e o veredito, que demorou uma eternidade para ser concluído, saiu no dia 31 de janeiro, dia da apresentação oficial dos pilotos da Williams. Minutos antes da apresentação, Frank Williams repetiu o que fez em 2000: chamou os dois pilotos no canto e os informou quem havia sido o escolhido. Deu Heidfeld. E Pizzonia seguiu como o piloto de testes.

Felipe Massa, um dos infelizes de 2010

Mas a Fórmula 1, felizmente, não é só feita dos quatro primeiros. Houve coadjuvantes para todos os gostos. Comecemos pelos outros dois, Felipe Massa e Jenson Button. Ah, Felipe. O que aconteceu?

Felipe Massa retornou à Fórmula 1 após passar alguns meses vestindo roupa de hospital e tomando sopinha de cenoura, consequências de uma mola que acertou sua cabeça durante os treinamentos do GP da Hungria do ano passado. Todos, muito felizes com seu retorno, esperavam ver aquele garoto atrevido e extremamente rápido mostrando a Alonso quem é que mandava em território ferrarista. Mas qual?

Felipe simplesmente não disse a que veio em 2010. Andou lá na frente no Bahrein, segurou um bocado de gente em Melbourne, fez um corridão em Hockenheim e subiu ao pódio em outras etapas. E só. Enquanto seu companheiro se desdobrava tentando levar seu limitado F10 à briga direta pelo título, Massa parecia perdido com atuações no mínimo conservadoras no meio do pelotão. No final do ano, estava claramente irritado e desmotivado. O golpe maior em sua felicidade, é claro, foi dado na Alemanha.

O GP da Alemanha de 2010 ocorreu no dia do aniversário de um ano do acidente húngaro. Massa, que largava em terceiro, conseguiu pular para a ponta logo no começo e se manteve por lá durante a maior parte do tempo. Merecia vencer, portanto. Mas a Ferrari pensou com a tabela de campeonato nas mãos. Felipe estava a longínquos 31 pontos de Fernando. O que importava era o título. Por mais que o brasileiro fosse querido e amado por todos em Maranello, em um momento decisivo, ele era apenas mais uma engrenagem da equipe. E a ordem veio. Felipe Massa deixou Fernando Alonso ir embora e sua única vitória no ano se esvaiu ali. E o brasileiro passou de herói a vilão no Brasil.

Que Felipe Massa, que passou a sofrer as mesmas críticas de Rubens Barrichello, consiga se recuperar em 2010. Que volte a ser o sujeito auspicioso e atrevido de outrora. E que ignore as críticas vindas do Brasil. Brasileiro, no geral, não sabe o que diz.

Mercedes de Schumacher. Ano razoável e só.

E Jenson? O filho de John Button decidiu assinar com a McLaren por um projeto pessoal, o de mostrar a todos que ele não era apenas “mais um campeão do mundo que deu a sorte de contar com um foguete”. Na equipe de Martin Whitmarsh, Jenson Button teria a fortíssima concorrência de Lewis Hamilton e buscaria provar a todos que, sim, ele também sabe fazer direito em um ambiente que não era exatamente favorável a ele.

Button ganhou duas corridas, em Melbourne e em Shanghai. Após a corrida chinesa, ele chegou a liderar o campeonato com dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Em Hockenheim, ainda era o vice-líder. Depois, com a queda de desempenho de seu McLaren, Jenson desapareceu. Ainda assim, um ano de razoável para bom. O que mais despertou a atenção de todos foi o uso extensivo de estratégias diferenciadas, com mudanças arriscadas no número ou na hora das paradas. E foi assim que o inglês ganhou as duas corridas e apareceu em outras.

No segundo escalão, temos a Mercedes e a Renault. A marca cinzenta de três pontas iniciou o ano esperando brigar com Ferrari, McLaren e Red Bull. Só que seu carro, o MGP W01, era conservador demais para dar alguma vantagem à equipe ou ao menos para permitir atualizações mais eficientes. O que vimos, além disso, foi uma surra de Nico Rosberg contra seu companheiro, o lendário Michael Schumacher: 142 contra 72.

Nico Rosberg fez seu primeiro ano em uma equipe de ponta. Muitos otimistas diziam que Schumacher e sua fralda geriátrica levariam a disputa interna com um pé nas costas, e restaria ao jovem alemão apenas ficar na sua, alisando seu cabelo de Barbie. Mas Nico foi humilde, discreto e altamente eficiente. Não foi espetacular, mas compensou garantindo pontos e resultados com a regularidade de um relógio suíço. Conseguiu três terceiros lugares e terminou o ano como um dos destaques. Faltou agressividade? Fica pro ano que vem.

E o Schumacher? Cheio da marra que lhe é característica, o homem está de volta. Muitos esperavam vê-lo botando pra quebrar, vencendo a molecada e mostrando que ainda tinha muita lenha pra queimar. Mas não foi bem assim. Na verdade, o que vimos na maior parte do ano foi uma corruptela de Michael Schumacher.

É evidente que ele teve lá seus momentos, como as ultrapassagens sobre Rubens Barrichello em Suzuka e, principalmente, aquela passada malandrona sobre Fernando Alonso na última curva do GP de Mônaco. Mas foram poucos. Michael passou a maior parte do ano desfilando com um carro meia-boca no meio do pelotão. Nem chegar perto do Rosberg ele conseguia direito. Em alguns momentos, como na China, Schumi esteve próximo do descalabro. Diz o cara que está se divertindo. Não sei como andar em 10º ou 11º pode ser divertido para um heptacampeão. Seria a vontade de pilotar sem holofotes?

Renault de Kubica. O renascimento

A Renault foi uma das equipes mais legais do ano. Ela terminou 2009 completamente desmoralizada, sem Alonso, sem Briatore, sem patrocinadores e com o carro mais feio do ano. Tendo 75% de suas ações compradas pelo obscuro grupo Genii Capital, a equipe renasceu das cinzas. Mudou a pintura, exibindo um psicodélico e nostálgico amarelo misturado com preto e alguns detalhes em vermelho. Mudou a gestão, colocando o discreto porém eficiente Eric Boullier na chefia. Mudou a dupla de pilotos, trazendo da BMW o espetacular Robert Kubica e fazendo estrear o vice-campeão da GP2 Vitaly Petrov, montado na grana russa. E fez um carrinho simples, simpático e veloz, o R30.

E o sapo virou príncipe. Com uma aparência rejuvenescida e bem mais simpática, a Renault foi uma das surpresas do ano. E o grande responsável foi o narigudo Robert Kubica, o melhor piloto do ano para mim. Kubica levou o quinto melhor carro do grid (não, não acho que o Mercedes tenha sido pior) às cabeças, pegou um segundo lugar em Melbourne, dois terceiros e terminou o ano a apenas seis pontos de Nico Rosberg. Alguns azares, como o problema nos pits em Spa e a roda estourada em Suzuka, tiraram a chance do polonês terminar o ano em quinto. Mas tudo bem. Kubica mostrou, em 2010, que ele é um sujeito que só precisa do carro para ser campeão do mundo.

A dupla do Leste Europeu foi completada por Vitaly Petrov, um dos pilotos mais insólitos que a Fórmula 1 já viu. Russo nascido em uma cidade que chegou a pertencer à Finlândia, assessorado pela mãe, patrocinado por uma apresentadora de TV, tímido pra caralho, desconhecia Michael Schumacher até alguns anos atrás e iniciou sua carreira em um Lada. Sujeito legal, portanto. Uma pena que seu ano não tenha sido lá dos melhores. É verdade que Vitaly chamou a atenção com suas superlargadas e com sua combatividade ao defender suas posições. Mas faltou regularidade e um pouco de calma.

Petrov marcou pontos em cinco ocasiões, tendo como melhor resultado um quinto lugar na Hungria. Fez corridas memoráveis, como em Shanghai, em Istambul, em Hungaroring e em Abu Dhabi. Mas bateu demais. E teve muitas dificuldades nos treinos de classificação. Merece uma segunda chance? Sim, porque é um piloto de ótimo potencial. Mas não pode seguir como uma vaca-brava soviética. Um pouco de maracujá não faz mal.

Williams de Barrichello. Pindaíba danada

Abaixo da Mercedes e da Renault, temos a Williams e a Force India. A Williams, tadinha, tá curtinha de grana. E o resultado foi um carro que só conseguiu render mais a partir da segunda metade do campeonato. O maior problema era o motor Cosworth, beberrão e de torque risível. E o FW32, convenhamos, também não é a maravilha absoluta da engenharia. Dito isso, Rubens Barrichello e Nico Hülkenberg fizeram trabalho digno.

Rubinho, que prometeu um título pela incansavelésima vez, fez um trabalho legal e deixou todo mundo boquiaberto na Williams, satisfeitíssima com seu conhecimento técnico, sua capacidade de liderança e, acima de tudo, sua motivação. Terminar o ano em décimo, com 47 pontos, não foi lá uma maravilha, mas o ano de Barrichello foi marcado por pequenas vitórias pessoais. A ultrapassagem sobre Schumacher na Hungria, embora nem tenha sido tão espetacular, representou uma boa lavada na alma. Ela pode nem ter sido assim tão significativa, até porque Schumacher continua sendo muito melhor do que ele, mas se o cara ficou feliz, que assim seja. E é de felicidade que Barrichello, um homem rico e que já fez bastante na Fórmula 1, precisa nesse momento.  

Nico Hülkenberg, campeão de qualquer coisa que você possa pensar, fez um ano legal. Longe de ter mostrado genialidade, Hülk mostrou que pode ao menos sonhar em fazer na Fórmula 1 o que fez nos outros campeonatos. Seu ponto alto, indiscutivelmente, foi a surpreendente pole-position em Interlagos, feita em um momento de inteligência e assustadora sorte. Nas demais corridas, alguns pontos, algumas boas atuações e outras bem medíocres. Para um estreante que não tem direito a muitos testes e que corre em uma Williams mambembe, nada mal. É chato contar com a possibilidade de não tê-lo em 2011.

Force India de Liuzzi. Melhor dentro do que fora das pistas

A Force India teve um 2010 bastante razoável. O VJM03, equipado com motor Mercedes, era um carro competente mas que não conseguiu se desenvolver muito. A equipe brilhou mais na primeira metade do campeonato, quando Adrian Sutil marcou 35 pontos e Vitantonio Liuzzi fez 12. Fora das pistas, o dono Vijay Mallya estava devendo as calças para meio mundo e até mesmo um problema relativo a atraso de declaração de bens na Inglaterra rendeu dores de cabeça ao flamboyant indiano.

Adrian Sutil deu uma boa evoluída em 2010. Parou de bater e de errar tanto e se tornou um respeitável piloto do meio do pelotão. E ainda pode crescer mais se conseguir um lugar em uma equipe de ponta.  Pontuou em nove ocasiões e foi figurinha fácil nos Q3 da vida. O que faltou? Manter a mesma forma no final da temporada. Mas o carro tem boa parcela de culpa aí. E errar um pouco menos também ajudaria. Sua aparição na Coréia foi uma das mais patéticas que já vi na vida.

Vitantonio Liuzzi, pelo visto, só seguirá conhecido pela aparência desleixada, pela surra no Schumacher no kart e pelo recorde de vitórias na Fórmula 3000. Discreto desde 2005, Tonio não conseguiu mudar sua imagem. Aliás, só fez piorar com um 2010 absolutamente fraco. O italiano voou em Sakhir, em Melbourne e em Yeongam, e só. No restante do ano, acidentes e performances fraquíssimas nos treinos. Como ele também não leva dinheiro, sua presença na Force India é basicamente inútil. Paul di Resta e Nico Hülkenberg competem por sua vaga.

Amanhã, a última parte.

Primeiramente, reconheço que o título é um belo de um clichê. Já devo ter visto uns três ou quatro artigos, em português ou inglês, com essa referência ao filme do Benjamin Button. Eu até tentei evitar o assunto pra não ter de utilizar desse subterfúgio batido. Mas depois de assistir ao Grande Prêmio da China e de ver mais uma demonstração tão genial quanto minimalista do inglês, comecei a matutar “qual é a tua, Button?”. É realmente curioso, o caso de Jenson Button.

Mas qual é exatamente o caso de Jenson Button? Desde que ele estreou na Fórmula 1, o inglês nunca chamou a atenção por suas pirotecnias. Na verdade, eu mal consigo me lembrar de atuações mais agressivas dele. Porém, lá está Button andando muito rápido e superando seus companheiros de equipe, alguns de maneira humilhante. De Jarno Trulli a Lewis Hamilton, todos vem sofrendo ao lado de Jenson. Qual é o segredo?

Jenson e sua discrição 2 x 0 Lewis e sua pirotecnia

É uma pergunta retórica, é claro. Não tenho a resposta exata e nem sei se vou ter. O fato é que desde que ele estreou na Fórmula 1 em 2000, ele só foi visivelmente superado pelo seu companheiro em duas temporadas: em 2001, por Giancarlo Fisichella (na pontuação, 8 x 2 para o italiano) e em 2008, por Rubens Barrichello (11 a 3 para o brasileiro). Houve também o ano de 2000, no qual Button terminou atrás de Ralf Schumacher nas tabelas, mas vale dizer que o inglês estava em sua temporada de estréia e fez uma segunda metade de campeonato mais convincente. Nos outros anos, vitórias indiscutíveis do inglês.

Na pista, Jenson Button é um cara limpo na pilotagem. Vi uns vídeos onboard dele e de Rubens Barrichello para fazer a comparação com um piloto de ponta e, longe da minha análise ter algum tipo de precisão, a impressão é que Jenson utiliza o volante de maneira extremamente sutil, com golpes rápidos que buscam apenas manter o carro o mais preso possível ao traçado ideal. Nas saídas de curva, Button reacelera de maneira brusca. Já Barrichello faz movimentos progressivos tanto ao volante quanto nos pedais. E aí pode estar a primeira diferença: o minimalismo de Button ao volante leva o inglês a cometer menos erros. E a ser mais “exato”.

E na prática, é o que vemos. Jenson anda muito rápido, mas quase nunca erra. No ano passado, seu único abandono por acidente ocorreu em Spa, em um toque com Romain Grosjean na primeira volta. Além do mais, é um piloto cujos carros raramente quebram. Vimos Jarno Trulli (8 contra 5), Takuma Sato (9 contra 5), Jacques Villeneuve (6 contra 3) tendo mais carros quebrados do que Button. Quando temos três exemplos, é difícil argumentar apenas que “Button tem carros melhores”. Outra coisa interessante é que, nesses casos, a maioria dos problemas dos concorrentes eram relacionados a motor, enquanto que os de Button eram na sua maior parte problemas não-relacionados diretamente à pilotagem, como o sistema hidráulico. E mesmo contra Barrichello, durante os quatro anos em que correram juntos, a diferença a favor de Barrichello não foi tão grande, 6 quebras dele contra 9 de Button. Mas aí há de se considerar dois fatores subjetivos, sorte e estrela.

Olhando o que a Hortência disse, até que ela tem um pingo de razão ao dizer que falta estrela a Barrichello. Não só a ele como a outros pilotos de pilotagem similar a Button, como Nick Heidfeld e Giancarlo Fisichella. Mas a tal da estrela sobra ao inglês. Mesmo sem ter o melhor carro em vários anos de sua carreira, principalmente em 2007 e em 2008, Button sempre conseguiu chamar a atenção. Em 2007, fez 6 pontos com um carro péssimo, sendo que poderia até ter feito mais não fosse o acidente de Nurburgring. Em 2005, seu BAR não era páreo para as equipes de ponta. Mesmo assim, Jenson marcou pontos em todas as corridas do ano a partir de Magnycours.

Na mesma draga que era a Honda em 2007, Jenson 6 x 0 Barrichello

Falemos da sorte. Não há campeão sem sorte, já dizia o cidadão. E Button a teve aos montes em 2009. Nunca teve problemas em seu carro, enquanto que seu companheiro se perdia em atuações irregulares e problemas mecânicos no carro. Os demais concorrentes, também conhecidos como Red Bull Racing, também não conseguiam manter a regularidade nos resultados e também lamentavam problemas mecânicos. E olha que Button, até Fevereiro, estava desempregado. É aquela história de estar no lugar certo e na hora certa. A sorte e a estrela se manifestaram mais do que nunca em Jenson Button em 2000.

Citei tantos fatores externos que nem falei tanto de Jenson Button. E o cara, se não aparenta ser brilhante, o foi durante várias ocasiões. Em Barcelona, no ano passado, ele permaneceu atrás de Barrichello durante boa parte da corrida. Porém, antes de suas paradas nos boxes, deu uma de Schumacher e andou rápido o suficiente para tomar a ponta do brasileiro. Só nesse ano, venceu duas corridas na base da estratégia e da prudência. Seu companheiro Lewis Hamilton é o showman do ano, fez corridas de recuperação espetaculares e ultrapassou um monte de gente. Mas e daí? Quem lidera o campeonato é Button. Que é o segundo piloto da equipe.

Termino contando outra história. Em 1999, Jenson Button estrearia na Fórmula 3 inglesa pela poderosa Promatecme, equipe oficial da Renault na categoria. Sua credencial era um título na Fórmula Ford local no ano anterior. Seu companheiro de equipe seria o brasileiro Aluízio Coelho, piloto considerado até então muito promissor que havia feito até mesmo um teste na Williams um tempo antes. Todo mundo esperava que Coelho detonasse Button, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: o inglês, terceiro colocado nas tabelas, fez 123 pontos a mais que o brasileiro e impressionou até mais do que os dois primeiros no campeonato, Marc Hynes e Luciano Burti. Frank Williams gostou do que viu e contratou Button. E onde estão hoje Coelho e Hynes? Burti é coadjuvante na Stock Car e comenta as corridas da Globo aonde seu antigo rival brilha.

Essa sequência de fatos não explicou o curioso caso de Jenson Button. Mas deixou um fato maior no ar: Jenson Button é um cara diferenciado e está bem acima da média. Ninguém sabe o porquê. Mas cada vez menos gente contesta essa afirmativa.

O Bandeira Verde também é prestação de serviços: se você está perdendo noites de sono porque não sabe nada sobre as equipes da Fórmula 1 em 2010, se seus cabelos caem só de você não saber quantas corridas fez o Trulli ou se está quase entrando em depressão porque não consegue ver uma foto decente do novo Lotus, não precisa ficar preocupado. Nós (a.k.a. eu) faremos um guia completo sobre as 13 (11? 12? 14? 30?) equipes do Mundial. A cada dia, informações sobre uma equipe. E começaremos com a história, fenomenal, sensacional e britanicamente sisuda McLaren.

VODAFONE MCLAREN MERCEDES

Ah, a McLaren. Eu diria que, ao lado da Ferrari e acima da Williams, é a equipe mais importante da Fórmula 1 contemporânea, conhecida pela sua eficiência, antipatia e capacidade de juntar dois peixes beta em um mesmo aquário. Criada em 1966 por Bruce McLaren, a equipe do jeito que a conhecemos hoje surgiu em 1982, quando Ron Dennis e Mansour Ojjeh compraram a estrutura das mãos de Teddy Mayer. Desde então, a equipe teve muitos altos e alguns baixos, consagrando nomes como Alain Prost, Ayrton Senna e Mika Hakkinen. Hoje em dia, com Martin Whitmarsh à frente, a equipe tenta voltar aos bons tempos dos anos 80 e início dos anos 90. A sociedade com a Mercedes terminou no final do ano passado, quando os teutônicos pularam para o colo de Ross Brawn. Com dois britânicos campeões do mundo e egocêntricos até o fim, será uma equipe muito divertida de se ver em 2010.

Sediada em Woking, GB
8 títulos de construtores
665 corridas
164 vitórias
145 poles-positions
3381,5 pontos

1- JENSON BUTTON

Jenson e os bons tempos da Honda

O número 1 da temporada 2010 é um indivíduo que, até dois anos atrás, era visto pelo povo apenas como um enorme golpe de marketing. Maldade, pois. O cidadão, apesar de toda a pose de “mãe, sou uma celebridade inglesa”, é um dos pilotos mais completos do grid. É rápido, quase nunca erra e sempre supera seus companheiros de equipe. Só precisava de um carro de ponta. Quando conseguiu um, foi campeão com méritos. Por ser do interior inglês, tem o inglês mais incompreensível da Fórmula 1.

Inglês, de Frome, nascido em 19 de Janeiro de 1980
Campeão de F1 em 2009
170 GPs disputados
7 vitórias
7 poles-positions
327 pontos
colocado na F3 Inglesa em 1999

2- LEWIS HAMILTON

Essa é a cara que alguém faz quando perde um título como ele perdeu em 2007

Esse é outro marqueteiro, com a diferença de que sempre teve também uma McLaren minimamente competitiva ao seu redor. Apadrinhado por Ron Dennis em 1995, virou a menina dos olhos da equipe de Woking. Depois de vencer tudo o que tinha de vencer nas categorias menores, estreou na F1 em 2007 com o vice-campeonato. Em 2008, só venceu o título após um problema atingir Timo Glock na última volta da última corrida. Em 2009, demonstrou amadurecimento notável mas dessa vez não teve o melhor carro. É muito rápido, ultrapassa e voa na chuva. Mas também treme nas bases quando está sob pressão. E tem um péssimo gosto musical: adora hip-hop.

Inglês, de Tewin, nascido em 7 de Janeiro de 1985
Campeão de F1 em 2008
52 GPs disputados
11 vitórias
17 poles-positions
256 pontos
Campeão da GP2 em 2006, da F3 Européia em 2005 e da F-Renault Inglesa em 2003