Depois de um período andando nas montanhas russas da Disney, aproveitando uma praia em Miami e brigando com alguns caminhoneiros bêbados no Arizona, o Calendário do Verde entra em sua reta final. Restam apenas quatro pistas, todas elas muito boas e localizadas em países de terceiro mundo. Afinal de contas, estávamos cansados da organização e da limpeza dos países engomadinhos. Era hora de correr em praças mais selvagens. E começamos com um país de cara tipicamente terceiro-mundista: o México, de pessoas calorosas e clima mais caloroso ainda. Na minha visão preconceituosa e pateticamente elitista, considero que as duas melhores coisas que o país produziu foram o feijão com chili e o circuito de Hermanos Rodriguez, localizado na capital Cidade do México.

O Autódromo de Hermanos Rodriguez é o mais famoso do México, tendo sido o único do país a sediar corridas de Fórmula 1 entre 1962 e 1970 e entre 1986 e 1992. Até um tempo atrás, recebeu também corridas da NASCAR Nationwide Series, da ChampCar e da A1 Grand Prix. Hoje em dia, ela anda meio distante do automobilismo internacional, mas ainda recebe corridas de campeonatos locais, entre os quais se destaca a NASCAR Corona Series, o campeonato de stock cars organizado pela famosa grife da família France. O relativo esquecimento tem lá seu motivo. A pista, que nunca foi lá muito bem estruturada nem em seus dias de ouro, está completamente defasada com relação ao que se pede hoje em dia. Mas apesar dessa precariedade, há muita história pra contar.

O circuito surgiu a partir de uma daquelas típicas ações políticas que você para e reflete sobre as reais intenções dos criadores. Em 1956, políticos das instâncias municipal e federal iniciaram a construção de um complexo conhecido como Cidade Esportiva Magdalena Mixhuca, localizado no bairro homônimo da região nordeste da Cidade do México. A intenção era ter um espaço público para o desenvolvimento de atividades esportivas, culturais e sociais para a população e também um local para a realização de grandes eventos. O tal complexo impressionava pela grandeza: 30 campos de futebol (um deles sediava o time feminino do Estrellas DF), 10 de beisebol (um deles é a sede do Diablos Rojos), um anfiteatro para grandes shows, um enorme ginásio para a realização de provas olímpicas e, posteriormente, uma pista para corridas.

A tal pista de corridas foi idealizada pelo presidente Adolfo López Mateos, que sugeriu a utilização de algumas estradas internas do Magdalena Mixhuca para corridas de carros e bicicletas. Mateos, junto com um grupo de diretores que incluía D. Pedro Rodriguez, pai de dois futuros astros do automobilismo mexicano, encomendou um projeto de autódromo ao engenheiro Gilberto Valenzuela, que deu um pulo em alguns dos melhores circuitos mundiais para ter uma idéia do que fazer. Pelo visto, as visitas lhe deram boa inspiração.

O Autódromo Magdalena Mixhuca foi concluído em 1959. O circuito principal é basicamente aquele que todos nós conhecemos, com cinco quilômetros de extensão, a Peraltada e todo aquele miolo. Além dele, havia também configurações de traçado oval e até mesmo um kartódromo de um quilômetro de extensão. A primeira corrida, uma de 500 milhas com carros esporte, foi realizada no fim de 1959 e teve como pódio uma trinca que seria vista na Fórmula 1 posteriormente: Pedro Rodriguez, Moisés Solana e Ricardo Rodriguez.

E os irmãos Rodriguez, tão jovens quanto atrevidos, começaram a chamar a atenção de todo o mundo automobilístico muito rapidamente. Em 1961, Ricardo foi chamado para correr o GP da Itália de Fórmula 1 pela Ferrari, tornando-se, com pouco mais de 19 anos, o piloto mais jovem a competir em uma corrida da categoria até então. Com a influência do pai e os resultados dos filhos, o México conseguiu trazer uma corrida extra-campeonato para o autódromo Magdalena Mixhuca em 1962. Tudo ia muitíssimo bem até a tragédia dar as caras: pilotando um Lotus de Rob Walker, o astro do fim de semana Ricardo Rodriguez errou na traiçoeira curva Peraltada e sofreu um violento acidente no primeiro treino livre, falecendo no local. O México ficou em choque. E a direção de Magdalena Mixhuca decidiu homenagear o piloto, renomeando o autódromo para Autódromo Ricardo Rodriguez.

Ainda assim, o povo da Europa gostou do circuito e o México foi agraciado com uma etapa no calendário oficial da Fórmula 1 a partir de 1963. O Grande Prêmio do México era um sucesso, as pequenas arquibancadas lotavam e os pilotos adoravam o traçado veloz, técnico e desafiador. No entanto, ele tinha vários problemas. Construído sobre um pântano, a superfície não era estável o suficiente, o que resultava em inúmeras e enormes ondulações por toda a pista. Em tempos de carros sem asas e freios de aço, o perigo era imenso. Além disso, as altas velocidades eram malvistas pelos mais politicamente corretos. E a torcida tinha o desagradável costume de invadir a pista durante a corrida. Diante de tantos problemas e com o aumento no número de mortes, a Fórmula 1 resolveu pular fora e cancelou o Grande Prêmio do México a partir de 1971.

No ano seguinte, a morte de Pedro Rodriguez, que vinha em seu auge na Fórmula 1, comoveu o país e fez com que o presidente Luis Echeverría incluísse seu nome no Autódromo Ricardo Rodriguez, que acabou se tornando o Autódromo Hermanos Rodriguez. Nos anos 70 e no início dos anos 80, o circuito recebeu duas corridas da Fórmula Indy e algumas categorias menos importantes. Em 1980, ele foi reformado pela primeira vez, perdendo o trecho original da Horquilla. Mas os organizadores queriam trazer de todo o jeito a Fórmula 1 de volta. E em 1985, empreenderam uma outra grande reforma, mudando a primeira curva e ampliando o trecho que sucede o Esse do Lago. No ano seguinte, a FIA gostou do que viu e o México foi recolocado no calendário da categoria.

O autódromo tinha instalações surpreendentemente modernas, mas ainda era considerado bastante inseguro. Ayrton Senna sofreu três violentos acidentes na Peraltada, dois deles em anos consecutivos (1991 e 1992, além do de 1987). E o asfalto continuava lamentável, um dos piores do mundo. O último acidente de Senna acendeu o sinal amarelo para a corrida. Max Mosley, o presidente da FIA, cobrou reformas e até chegou a renovar o contrato com a pista para até o fim de 1997, mas todos perceberam que aquilo não daria certo e o contrato foi quebrado. E a Fórmula 1 nunca mais voltou para lá.

Desde então, Hermanos Rodriguez recebeu corridas da ChampCar, da NASCAR Nationwide Series e da A1 GP. Em 2002, visando diminuir a velocidade, a organização cometeu um verdadeiro assassinato: picotou a Peraltada e criou uma sequência de curvas de baixa velocidade dentro dela. Se perguntar pra mim, digo que, unicamente por isso, acho a pista atual uma merda. Fico com o traçado que vigorou entre 1986 e 2001.

TRAÇADO E ETC.


Vamos dizer que Hermanos Rodriguez é um traçado que mistura tendências de Hermann Tilke com trechos absolutamente incompatíveis com o automobilismo moderno. Ela lembra um projeto do arquiteto alemão por combinar retas quilométricas com freadas fortes. Por outro lado, ela também tem um curvão velocíssimo, esses de alta velocidade e curvas arredondadas, verdadeiros crimes na cartilha contemporânea de construção de pistas. A versão a ser analisada tem 4,421 quilômetros de extensão e 17 curvas. A pista é bastante larga, o que facilita as ultrapassagens e o traçado das curvas.

Eu assumo que a coisa que mais me chama a atenção nessa pista é exatamente seu maior defeito, o excesso de ondulações. Imagine o trabalho que o piloto deve ter ao ser obrigado a enfrentar trechos de altíssima velocidade com o carro trepidando a todo momento. As ondulações obrigam o piloto a procurar traçados com o mínimo de bumps possível e até mesmo a frear mais cedo. Por outro lado, o sistema de suspensões deverá estar o mais macio possível para absorver o máximo de trepidações. Como a pista é de alta velocidade, o carro deverá ter o mínimo downforce possível. O pessoal só deverá ter o cuidado de, estando sem downforce, não perder o controle após passar por uma ondulaçãozinha qualquer, no melhor estilo Senna em 1992. Por fim, o motor é importantíssimo, até porque o circuito está localizado em uma região de grande altitude e o ar rarefeito faz o carro perder potência. Enfim, é um circuito no qual absolutamente tudo é testado.

Resumindo, Hermanos Rodriguez tem tudo o que eu gosto: um retão, um curvão quase inclinado, esses, muitas ondulações e pouca segurança. É uma autêntica pista terceiro-mundista, absolutamente desafiadora e desprovida de frescuras típicas dos engomadinhos.

Conheçam os trechos:

RECTA PRINCIPAL: Com 1,192 quilômetro de extensão, é um exagero de reta, uma das maiores do mundo e a maior da Fórmula 1 até um tempo atrás. O piloto senta o pé no acelerador e recebe centenas de milhares de pancada das ondulações do asfalto. Ao redor, muitas árvores. Não sei quanto a vocês, mas acho um trecho visualmente interessantíssimo.

ESSE MOISES SOLANA: É o complexo imediatamente posterior ao retão dos boxes. É composto por três curvas que formam uma chicane. A primeira é feita à direita, com o carro freando bruscamente e reacelerando logo a seguir. A segunda é feita à esquerda, e o carro já reacelera com tudo para completar a terceira, feita à direita. Como a pista é larga, não há muitas dificuldades e o piloto não precisa reduzir tanto. O problema está nas zebras altas: não é recomendável pisar nelas.

HORQUILLA: Trecho de média velocidade feito à direita em 180°. Na verdade, não é exatamente uma única curva, mas sim duas curvas de 90° que são feitas com um único movimento do volante à direita, sem qualquer necessidade de frenagem entre a primeira e a segunda.

ESSES: Você gosta de esses? Então delicie-se com isso aqui. Pra mim, este trecho só perde para aquela célebre sequência de Bathurst. É nada menos do que um ziguezague sete curvas arredondadas e de média ou alta velocidade. Em algumas, o piloto precisará esterçar bastante o volante e reduzir a aceleração. Em outras, ele esterçará menos e poderá acelerar mais. Dependendo do movimento de reaceleração e das ondulações do local, o piloto poderá perder a traseira perigosamente. De qualquer jeito, um trecho divertidíssimo para pilotos e espectadores.

PERALTADA: Inequivocadamente, uma das curvas mais polêmicas do mundo e o verdadeiro terror dos pilotos, que temem perder o controle em uma das ondulações e seguir em direção aos pneus. É basicamente um curvão de 180° feito à direita com um número indecente de bumps e inclinação de 9°. O piloto sai de uma reta e entra nesta curva cuidadosamente, sempre esterçando levemente à direita (devido à força centrípeta gerada pela inclinação, não há necessidade de esterçar muito), acelerando e mantendo total cuidado para não se descontrolar ao passar por uma ondulação. Para quem olha por fora, parece fácil de completar. Para quem está lá dentro, é o trecho mais difícil de toda a pista.

O nome da curva vem da palavra espanhola peralte, que designa a inclinação das curvas. “Peraltada”, portanto, significa “inclinada”.

Onboard com Philippe Streiff e seu Tyrrell-Renault em 1986.

Em um mundo que está de cabeça para baixo, a geografia de pilotos do automobilismo não poderia deixar de completamente bagunçada. Países outrora fornecedores viscerais de uma miríade de pilotos bons sofrem com um período de entressafra que parece nunca terminar. Por outro lado, alguns países que nunca tiveram lá grande tradição em lançar pilotos ao automobilismo de ponta decidiram por as manguinhas de fora para mostrar que não estão relegados ao eterno segundo plano. Enquanto França, Itália, Finlândia e Brasil parecem não ter lá grandes expectativas a médio prazo, dois países fazem a festa no automobilismo mundial. Um deles é a Austrália de Mark Webber, Will Power, Ryan Briscoe e Daniel Riccardo. Falo da ilha outro dia. O outro é, ¡caramba!, o México!

Pedro Rodriguez, o último mexicano a fazer algo de relevante na F1

No dia 11 de julho de 1971, um acidente com uma Ferrari 512M em uma etapa da Interseries realizada em Paul Ricard ceifava a vida daquele que foi o último mexicano a trazer alguma esperança para o país na Fórmula 1. Pedro Rodriguez, duas vitórias na Fórmula 1 e uma vitória indiscutível nas 24 Heures du Mans de 1968, era um dos pilotos mais aguerridos e versáteis de seu período. Nove anos antes, seu irmão Ricardo também havia falecido nos treinos para o GP do México. Após a ascensão e o sumiço dos hermanos Rodriguez, o país dos Astecas só conseguiu ser representado na categoria-máxima pelo saltimbanco Hector Rebaque, 10º colocado na temporada de 1981 a bordo de um Brabham-Ford.

Não que o país não tivesse pilotos. A Indy, por exemplo, recebeu vários deles: o pródigo Josele Garza, o combativo Adrian Fernandez, o injustiçado Michel Jourdain Jr, o picareta Mario Dominguez e alguns domingueiros como Jorge Goeters, Roberto Gonzalez e David Martinez. No Velho Continente, me lembro de Fernando Plata e Giovanni Aloi chegando a competir na Fórmula 3000 internacional em 1990. Restou a Plata prosseguir sua carreira no México e Aloi mudou de esporte, se tornando um conhecido toureiro. O mais próximo da Fórmula 1 que o país chegou foram alguns testes esparsos. Josele Garza pilotou um Minardi em 1988 e Mario Dominguez dirigiu um Jordan no fim de 2005. Além disso, Adrian Fernandez foi bastante sondado para correr na Tyrrell em 1998. Em todos esses casos, faltou um apoio de peso. Mas esse problema acabou, ao menos para alguns pilotos.

Todos que acompanham o automobilismo com alguma frequência já ouviram falar da Telmex, a maior empresa de telecomunicações do México. O CEO dessa empresa é Carlos Slim, dono de uma fortuna de 60 bilhões de dólares e, portanto, homem mais rico do mundo. Nos últimos anos, a Telmex vem empreendendo um plano de expansão internacional agressiva. Andou comprando operações da AT&T e Verizon em vários países latinos por aí e, no Brasil, comanda a Claro, a Embratel e a NET. Megalomaníaco, Slim quer fazer do nome da sua empresa algo conhecido e identificável por todos. Nada melhor, portanto, do que patrocinar alguns jovens talentos do automobilismo em suas empreitadas européias.

Dois nomes estão dando o que falar na Europa. O primeiro deles é Sergio Perez, um baixinho nascido em Guadalajara que está chamando a atenção de todo mundo na GP2. Quando ele estreou, no ano passado, confesso que não apostava um vintém nele. Afinal, além de correr na insuficiente Arden, Perez havia sido o quarto colocado na Fórmula 3 inglesa em 2008 e, na minha visão estreita, achava que os três primeiros obviamente tinham mais potencial. O que presenciei, no entanto, foi um garoto com cara tipicamente mexicana e exuberância incontida. A partir da corrida de Silverstone, na qual o filho da puta largou em último, passou quase todo mundo e terminou em quarto e colado na caixa de câmbio do terceiro colocado, virei torcedor.

Nesse ano, ele conseguiu pegar uma boa vaga na Barwa Addax e, com três vitórias, é o vice-líder da categoria. Sergio está 26 pontos atrás do líder Pastor Maldonado e dificilmente conseguirá alcançá-lo. No entanto, o que mais chama a atenção é a maneira na qual ele conseguiu as vitórias. Em Mônaco, sem muita cerimônia, tomou a ponta de Dani Clos na primeira curva. Em Silverstone, sem muita cerimônia, passou três pilotos nas cinco primeiras voltas e assumiu a liderança até o fim. Em Hockenheim, ele foi ainda mais impressionante e, saindo da sétima posição no grid, passou todo mundo e venceu também. O mexicano é o cara.

Sergio Perez. Seria ele o cara pra repetir o sucesso de Rodriguez?

Além de muito bom piloto, Sergio Perez é bastante endinheirado. Seu carro é coberto de patrocinadores importantes: além da Telmex, há também decalques da Lenovo e da Ericsson, duas multinacionais que apostam muito nele. A Virgin já demonstrou interesse em seu talento e em sua carteira. No entanto, o destino mais provável de Perez é a Sauber, equipe que precisa desesperadamente de dinheiro e que enxerga na Telmex uma possível parceria dessas de pintar o carro inteiro com as cores da empresa. Sem maiores incidentes, a ascensão de Sergio Perez à Fórmula 1 parece ser apenas uma questão de tempo.

O México pode até acabar batendo na trave da GP2, mas tudo indica que o país não perderá o título da GP3, aquela nova categoria do Bernie Ecclestone. Nascido em Monterrey e com 19 anos recém-completados, Esteban Gutierrez lidera o campeonato com 30 pontos de vantagem sobre o vice-líder Robert Wickens. Faltam apenas quatro corridas para o fim do campeonato e estão em disputa 40 pontos. Gutierrez só perde o título se decidir virar bailarino do Balé Bolshoi. Ele corre pela muito bem estruturada ART Grand Prix e já venceu quatro corridas. O provável título da GP3 será o segundo de sua carreira: em 2007, ele foi campeão da Fórmula BMW Européia com sete vitórias. Nunca o vi correr, mas pelo seu extenso histórico de vitórias, parece levar jeito para coisa.

Gutierrez ainda é um moleque e tem uma longa estrada pela frente. Ele já fez alguns testes pela BMW Sauber no final do ano passado e acabou assinando para ser terceiro piloto da Sauber, emprego mais inútil do que cabeleireiro para carecas. A equipe demonstrou muito interesse nele também, mas é muito improvável que Esteban suba diretamente para a Fórmula 1 em 2011. Eu consigo imaginar outro ano como enfeite da Sauber e como piloto da ART Grand Prix na GP2. Se o cara der certo por lá, a Fórmula 1 viria em 2012. Com o gordo patrocínio da Telmex, ele pode fazer o que quiser com bastante calma.

Com Perez e Gutierrez, o México pode vir a ser um dos países da velocidade em um futuro próximo. E, com certeza, não por causa do Ligeirinho.