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Boa noite, macacos. De laboratório.

De laboratório? Exatamente. Hoje, o Bandeira Verde será utilizado para outros propósitos, de caráter um pouco mais pessoal. Estou cursando uma matéria na faculdade relacionada a Marketing. Quero ser um Bernie Ecclestone lá na frente.

E daí? E daí que precisarei fazer uma pesquisa de campo. Sobre, veja só, suco de maçã. Como é que é?

Simples. Preciso perguntar a um grupo de pessoas o que elas acham de suco de maçã, que é o produto escolhido para a tal aula de Marketing. Por que suco de maçã? Sei lá. Poderia ter sido qualquer outro produto, desde incenso de mirra até chiclete de abacate. Foi escolhido suco de maçã. Paciência.

Onde vocês entram? Eu preciso dos rins de vocês para injetar uma mistura de suco de maçã com estricnina. Mentira. Vocês só precisam responder a este questionário. Coisa rápida.

– Nome

– Idade

– Gosta de suco de maçã?

– Se sim, qual marca você costuma comprar?

– Se sim, por quê?

Viu só? Basta um minuto ou dois, a não ser que você use um modem 14.400. Mas isso não é problema meu.

P.S.: Não poderia postar algo que não seja relacionado ao automobilismo. Veja esta bela foto de um carro da IMSA patrocinado por uma agroindústria de maçãs. Não sei mais nenhuma informação sobre ela. Os leitores mais hardcore podem dar seus palpites.

Pastor Maldonado, o mal da temporada até aqui

Pátria, socialismo ou morte. Qual escolher? Nosso querido venezuelano Pastor Maldonado, piloto da Williams, talvez um tanto incerto com a questão política de seu país, optou pela última. Seu negócio é a morte. De preferência, a dos outros. Até aqui, Maldonado foi o grande causador de confusões desta temporada. Uma tonelada de pilotos pode dizer, sem o menor medo de errar, que o sul-americano arruinou suas corridas sem a menor piedade.

Esta pauta aqui estava pronta para ser escrita logo após o GP da Inglaterra, quando Maldonado atropelou o mexicano Sergio Pérez após uma disputa de posição lá no pelotão intermediário. Infelizmente, por motivos de total falta de tempo (sabem como é, vida de universitário na reta final do curso é isso aí), tive de postergar o artigo. Como não queria perder a ideia, fiquei secando o piloto venezuelano nas últimas etapas. Lógica simples: ele bate no domingo e eu escrevo alguma coisa na terça ou quarta-feira.

Em Hockenheim, Maldonado se comportou de maneira estranhamente exemplar e eu tive de deixar de lado a ideia. Droga, ele finalmente aprendeu a lição. Felizmente para mim, não era bem assim. Em Hungaroring, sede da última etapa, Pastor bateu no carro alaranjado de Paul di Resta e os dois não abandonaram a corrida por pouco. Este foi o gatilho que faltava. Tenho um mês para escrever sobre Pastor Maldonado, pensei. Aqui está.

Maldonado é a verdadeira besta dessa temporada. No mau sentido. Uma tremenda besta quadrada. Até aqui, tendo sido realizadas onze etapas, o cara sofreu acidentes em nada menos que seis delas. Logo na primeira corrida, em Melbourne, Pastor estampou o inglório muro australiano enquanto perseguia Fernando Alonso. Na última volta. Como consequência, um sexto lugar jogado na lata de lixo.

Na Malásia, o venezuelano foi um pouco mais sutil e apenas aplicou uma leve surra no carro do companheiro Bruno Senna durante a largada, causando um pouco mais de prejuízo na Williams. Após um período tranquilo e até vencedor, ele decidiu desligar o cérebro de vez a partir de Mônaco. Num inofensivo treino livre, Maldonado jogou seu carro para cima do de Sergio Pérez e causou um acidente perigoso e completamente desnecessário que lhe rendeu a punição de ter de largar lá do fim do grid. Não satisfeito, ele largou como um esquizofrênico e atropelou o modesto HRT de Pedro de la Rosa logo na primeira curva. Fim de prova logo de cara.

Não acabou aí. Em Valência, Pastor vinha disputando com Lewis Hamilton um lugar no pódio, mas jogou fora outro belíssimo resultado com um toque estúpido sobre o piloto inglês. Com o carro soltando pedaços, ainda se arrastou até o décimo lugar. Na corrida de Silverstone, Maldonado arremessou seu Williams FW34 sobre Pérez novamente e os dois rodopiaram de forma sincronizada, um belo momento olímpico da Fórmula 1. Por fim, o toque com Di Resta em Hungaroring. A lista de incidentes só não foi maior porque Pastor Maldonado ainda conseguiu evitar por pouco que seu carro batesse no Muro dos Campeões no Q2 da classificação do GP do Canadá após mais um erro grotesco.

Graças a tanta confusão, tanto pedaço de carro espalhado pelo caminho, tanto piloto indo ao PROCON, ao Juizado de Menores e à puta que o pariu reclamar, Pastor Maldonado obteve, da mesma forma, o título de rei das punições por má conduta nesta temporada. Conte comigo: uma em Mônaco pelo chega-pra-lá em Pérez, uma em Valência pelo acidente com Hamilton e uma em Hungaroring pelo toque com Di Resta. Some-se a isso as três punições (Bahrein, Mônaco e Canadá) ocasionadas por troca de câmbio e temos aí todos os elementos de uma temporada não menos que bizarra.

Com sua total falta de amor à própria vida e de respeito à integridade alheia, Pastor Maldonado se tornou um dos pilotos mais rejeitados desta temporada. O magistral vencedor do GP da Espanha não precisou de mais do que apenas alguns GPs para assumir o posto de vilão da Fórmula 1. O que, de alguma forma, é positivo para o espectador. Neste ano, um dos motivos pelos quais aceitamos acordar às nove da madrugada ou pagar centenas de cruzeiros por um tíquete numa arquibancada descoberta é exatamente esperar pela próxima burrada do piloto de Maracay. Em quem será que ele baterá? Em qual volta? Será que o carro vai capotar ou explodir?

Vocês acham que o comportamento animalesco de Pastor Maldonado é recente, mas isso não é verdade. Nem um pouco. Na verdade, a primeira vez em que eu li uma notícia a seu respeito foi no início de 2005, mais precisamente no dia 19 de maio.

Sua carreira no automobilismo quase acabou após um bizarríssimo incidente ocorrido na etapa de Mônaco da World Series by Renault em 2005

Pastor Maldonado era apenas um piloto de 19 anos que havia ganhado o título italiano da Fórmula Renault em 2004. Em 2005, ele assinou com a tradicional equipe Draco para fazer sua estreia na World Series by Renault. Faria parte de um grid que tinha nomes como Robert Kubica, Will Power, Markus Winkelhock, Simon Pagenaud, Karun Chandhok, Alex Lloyd e Giorgio Mondini. Uma turma forte, desnecessário dizer.

A segunda etapa da World Series by Renault em 2005 seria realizada no Principado de Mônaco. Corrida única. Diante dos barões da Fórmula 1 e da GP2. Um bom lugar para deixar uma ótima impressão. O pior lugar do planeta para sofrer uma suspensão de quatro corridas e ser tachado de lunático e perigoso.

No dia 19 de maio, foi realizado o primeiro treino livre da categoria, uma pequena sessão de quarenta minutos onde os 26 pilotos poderiam tomar contato com as malditas e apertadas ruas monegascas. Nessa sessão, o francês Patrick Pilet rodou sozinho na Beau Rivage e bateu de traseira. Os fiscais de pista acionaram imediatamente a bandeira amarela e alguns deles correram para pista para retirar o carro de Pilet do meio do caminho.

A bandeira amarela, você sabe, é uma importantíssima indicação de perigo adiante, ainda mais nas vielas de Mônaco. Ao avistá-la, um piloto de corrida minimamente responsável enfia o pé no freio, reduz as marchas e passa cuidadosamente pelo local impedido. Todos nós sabemos que Pastor Maldonado não se enquadra na categoria de “pilotos de corrida minimamente responsáveis”. Ele preferiu manter o pé cravado no acelerador, ignorando aqueles pedaços amarelados de pano que tremulavam agitadamente.

A merda aconteceu. Quando Maldonado passou pela Beau Rivage, deu de cara com uma patota de vários fiscais de pista. Assustado, o venezuelano tentou fazer alguma coisa, frear, reduzir a marcha, desligar o carro, ligar para o 911, mas nada disso deu certo. Em alta velocidade, seu Dallara-Renault atropelou um dos pobres fiscais de pista, que voou longe e tombou no chão todo quebrado. A coluna vertebral havia se esfacelado.

Seria injusto da minha parte deixar de lado que outros pilotos também não respeitaram as bandeiras amarelas. O italiano Matteo Meneghello (ex-Fórmula 3000), o americano Colin Fleming (melhor amigo de Scott Speed) e o austríaco Andreas Zuber (outro demente) também passaram como jatos descontrolados pelo local e foram punidos com o banimento sumário daquela corrida. Meneghello também foi impedido de participar das duas etapas duplas seguintes.

Mas nenhum deles atropelou um sacro fiscal de pista. O único que cometeu tamanha barbaridade foi justamente Maldonado, aquele venezuelano de aparelho na boca e voz esquisita. Ele não só foi impedido de largar naquele fim de semana como também foi suspenso pelas próximas quatro rodadas duplas (nada menos que oito corridas seriam perdidas!) e nunca mais poderia voltar a correr em Mônaco. É isso mesmo: Pastor estava proibido de participar de qualquer competição no pequeno país mediterrâneo. Para sempre.

Maldonado precisou recorrer ao seu pai, um homem rico pra caramba na Venezuela, para que ele negociasse diretamente com o Automobile Club de Monaco alguma outra solução que evitasse qualquer tipo de banimento vitalício. Então, a família Maldonado se dispôs a custear todo o tratamento do fiscal de pista ferido no acidente. Com isso, o pequeno desastrado poderia voltar a disputar corridas no principado. A suspensão de oito corridas, no entanto, não foi revogada.

Pastor Maldonado aprendeu a lição? Não sei dizer. É verdade que ele nunca mais atropelou fiscal algum, mas não é exatamente isso que costumamos esperar de um piloto de Fórmula 1. Em compensação, os resultados começaram a aparecer. Ele foi terceiro colocado na World Series by Renault em 2006 e ganhou o título da GP2 em 2010. Ironicamente, Maldonado venceu três corridas em Mônaco entre 2006 e 2009 e se tornou uma espécie de especialista do circuito monegasco.

Esse é o Maldonado que eu espero ver no futuro

Que ninguém me leve a mal. Eu realmente torço por Pastor Maldonado. Mesmo que eu o ache um completo tonto, que seu aspecto físico seja digno de um cadáver de fuinha e que sua posição política seja diametralmente oposta à minha, penso que o automobilismo precisa de pilotos assim, irresponsáveis e muito velozes. Na GP2, ele era um dos mais divertidos dentro da pista. Realizava ultrapassagens improváveis, improvisava traçados malucos e às vezes pagava o preço com acidentes toscos. Mas tudo isso fazia parte do show.

O único ponto contrário é se toda essa pirotecnia fará bem à sua carreira. Após o GP da Inglaterra, a vítima Sergio Pérez afirmou sem papas na língua que “todo mundo tem sérias desconfianças dele”, que “Maldonado é um sujeito que não respeita os outros” e que “ele é somente um piloto estúpido”. Pérez falou mais um monte de coisas, mas eu não vou reproduzir tudo porque mexicanos falam demais. Esta é apenas uma amostra do que os seus colegas pensam dele.

Fórmula 1 não é NASCAR e um piloto não pode devolver a burrada do adversário simplesmente jogando seu carro sobre o dele na próxima corrida. Mas Maldonado poderá arranjar problemas de outra forma. A opinião dos pilotos pode até não ser fundamental, mas a de seus chefes é. Se o venezuelano se envolve em tantos problemas e arranja tantos inimigos, quem é que será pirado o suficiente para contratá-lo? O garoto até pode ser veloz, revolucionário, rico pra cacete, mas se ele coloca tudo a perder na curva seguinte, do que adiantará? Infelizmente, a cada acidente, as portas de Pastor Maldonado poderão se fechar mais e mais.

É verdade que a história mostra que alguns pilotos de perfil muito parecido, tapados e extremamente velozes, se deram muito bem na vida. O sul-africano Jody Scheckter era uma besta quadrada no início dos anos 70, daqueles que conseguiam causar engavetamentos históricos em Silverstone. Mas ele também era bestial e não teve problemas para transitar por equipes como a Tyrrell, a Wolf e a Ferrari.  Terminou campeão do mundo.

Outro bom exemplo, Nigel Mansell. Esse daí, no início da carreira, era um Maldonado britânico: caricatural, feio, desprestigiado e totalmente desastrado. Uns quinze anos depois, devo admitir que as coisas pouco mudaram, mas o caricatural, feio, desprestigiado e desastrado Mansell acabou ganhando um título mundial na Fórmula 1 e outro na CART. Sem precisar aprender nada. Viu? Às vezes, funciona.

Gostaria que a trajetória de Maldonado seguisse os mesmos passos. Sou daqueles que acham que um grande piloto é aquele que pilota sem se lixar para nada nas categorias de base e nos primeiros anos de Fórmula 1, aprende com as cagadas, refina o estilo de pilotagem e amadurece até chegar a um nível ideal de inteligência e velocidade. Um piloto que seguiu exatamente esta receita? Ayrton Senna. Outro exemplo? Michael Schumacher.

Gente como Maldonado, Kamui Kobayashi e Romain Grosjean costuma ter muito mais potencial do que homens burocráticos, friamente eficientes e politicamente corretos como Lucas di Grassi, Jérôme D’Ambrosio e até mesmo Bruno Senna. O sobrinho de Ayrton sofre menos acidentes que o companheiro, mas está sempre largando lá atrás e costuma fazer apenas corridas de sobrevivência. Marca pontos, mas não brilha. Se não chama a atenção pelo pecado, também não se destaca pela exuberância. Qual é o futuro de pilotos assim? Nem todo cara discreto é Graham Hill, devemos nos lembrar.

Só que Pastor Maldonado precisa, primeiramente, controlar a cabeça e parar de achar que resolve tudo em uma curva. Se ele quer crescer no automobilismo, primeiramente precisará obter resultados bons com o material que tem. E resultados bons só aparecem para quem termina as corridas. E termina as corridas quem não bate e não atropela os outros, sejam eles pilotos mexicanos ou fiscais monegascos.

Ele não fala inglês. Ele me atrapalhou. Duas vezes. Três. Ele é um cuzão. Ele é francês e nem toma banho todo dia. Convide o piloto alemão Timo Glock para algumas canecas de cerveja preta. Após a terceira ou quarta, faça a pergunta fatal: o que você acha de seu companheiro Charles Pic? Já ruborizado pelo efeito implacável do fermentado de malte e lúpulo, Glock começará a disparar uma série de ofensas e xingamentos sobre o colega. Ele não fala inglês. Ele tem cara de otário. O sobrenome dele não é de gente séria. Ele me atrapalhou. Seis vezes.

O clima na Marussia não anda bom, nem um pouco. No treino oficial do GP da Hungria, o novato Pic ignorou os retrovisores de seu carro e deu uma bela fechada justamente em Glock na última curva do circuito de Hungaroring. O alemão estava em sua volta rápida e graças ao incidente, não conseguiu nada além do 22º lugar no grid, logo atrás de Charles. Timo desceu do carro espumando, xingou todo mundo, chamou Pic de filho da puta, não conseguiu ser compreendido e depois ainda reclamou que “ele não entende inglês”. Surge aí uma nova rivalidade na Fórmula 1.

Uma guerrinha entre os companheiros é a última coisa que uma equipe pequena gostaria de ter. Como há problemas muito maiores, como a lerdeza do carro, a falta de fundos ou o preconceito da maioria das pessoas, um chefe de equipe de uma Marussia da vida não irá querer despender  tempo e energia para fazer com que seus dois pupilos fiquem de bem. São adultos, oras, eles que se resolvam. Mas às vezes, não dá. E isso obviamente contamina o restante da equipe.

Geralmente, colegas de uma escuderia pequena se dão bem, pois a união é sempre a melhor saída quando todos estão afundados na ruindade. As inimizades costumam acontecer sempre nas equipes maiores, onde as pressões e os egos são multiplicados por mil. Mas isso não é uma regra. Mesmo que boa parte das histórias não venha à tona, a Fórmula 1 já presenciou muitos casos de companheiros de escuderias pobres que simplesmente se odiavam. O Top Cinq de hoje relembrará alguns desses casos.

5- ERIC VAN DE POELE E GIOVANNA AMATI

Por três milhões de dólares, a bela Giovanna Amati comprou uma vaga na Brabham como se tivesse adquirido um par de sapatos numa grife londrina. A loura balzaquiana, de histórico pífio no automobilismo, foi contratada obviamente por questões marqueteiras. Bonita, rica, cheia do tal do glamour, briguenta, vítima de sequestro na adolescência, amigada com o sequestrador, flerte de Niki Lauda e Flavio Briatore, um perfeito chamariz para uma Brabham que devia até as calças e precisava urgentemente de patrocinadores.

Apesar de tudo, Giovanna era vista pela Brabham apenas como um mal necessário. Trazia dinheiro e audiência, mas não era digna de pilotar nada além de fogão, pensava o pessoal da equipe. Por causa dessa mentalidade, ela não fez um teste de pré-temporada sequer e recebeu um carro totalmente zicado. O companheiro era o bom Eric van de Poele, um belga que havia causado furor na Fórmula 3000 em 1990.

Van de Poele e Amati não tiveram muito tempo para se conhecer. Cada um deles parecia ter um propósito diferente. Enquanto o cara queria apenas fazer seu BT60B andar num nível minimamente competitivo, a garota estava apenas preocupada em se divertir um pouco e atrair todos os holofotes. Não por acaso, nos três primeiros GPs da temporada, ela e Ayrton Senna foram os pilotos mais procurados por jornalistas, fotógrafos e punheteiros.

Mas a moça era antipática, dizem alguns. Não que os jornalistas não sejam malas, mas Giovanna costumava tratar todos com rispidez. Reagia mal a perguntas sobre sua feminilidade, perdia a paciência com facilidade e evitava dar entrevistas. Sem TPM nem nada. Na Brabham, ninguém a levava a sério. Poucos toleravam sua presença. O próprio Van de Poele não gostava dela. No GP da Espanha, quando Amati não fazia mais parte da Brabham, ele se mostrou aliviado, pois “além de não andar nada, ela enchia muito o saco”. Nada como uma patricinha para irritar uma escuderia inteira.

4- AGURI SUZUKI E BERND SCHNEIDER

Na verdadeira feira da fruta que era a temporada de 1989, a concorrência pelo título de equipe mais incompetente da temporada era talvez até mais ferrenha do que aquela entre as melhores equipes. A Onyx tinha dinheiro, um carro bom e um corpo técnico sólido, mas sua administração era uma piada. A Rial teve um fim de ano horroroso, mas a equipe ao menos conseguiu um quarto lugar em Phoenix. A Osella fez um carro razoável, mas totalmente frágil. A Coloni, tadinha… E a Eurobrun foi a única que não se qualificou para nenhuma corrida.

Mas e quando a equipe tem boa organização, um ótimo patrocínio, dois pilotos competentes, Gustav Brunner e o apoio oficial de uma montadora japonesa e mesmo assim não consegue nada além de duas qualificações durante todo o ano? Esta é a história da Zakspeed, time da Alemanha Ocidental que era comandado por um ex-funcionário da Ford, Erich Zakowski. Após vários anos insistindo em um motor próprio, a Zakspeed tomou vergonha na cara no fim de 1988 e anunciou para 1989 a parceria com a Yamaha, que forneceria um motor V8 novinho em folha.

Os prospectos eram bons. A Zakspeed conseguiu roubar da inimiga Rial o projetista Gustav Brunner e ainda tirou da Ferrari o engenheiro Nino Frisson, ui. A dupla de pilotos era composta por Bernd Schneider, que viraria o rei do DTM alguns anos depois, e Aguri Suzuki, ao meu ver o melhor japonês depois de Kamui Kobayashi. O dinheiro era garantido pelos cigarros West, aqueles mesmos que patrocinaram a McLaren durante quase dez anos. Como esse pacote daria errado?

Deu. O Zakspeed 891 parecia um carro bastante convencional, mas na pista ele era uma desgraça completa. Para se ter uma ideia, a equipe fez pouquíssimas voltas na pré-temporada porque o motor não aguentava meia dúzia de voltas antes de explodir espetacularmente. E além de frágil, ele era fraquíssimo. A Yamaha anunciou um propulsor que poderia render 600cv, mas ele só produziu 560cv na vida real. Isso representava um déficit de 60cv em relação aos Judd e Cosworth DFR. E de até 150cv em relação ao Honda da McLaren.

O clima desandou por completo. E os pilotos entraram em guerra porque cada um culpava uma coisa diferente. O alemão Schneider, protegido da alemã Zakspeed, afirmava peremptoriamente que o grande responsável pelo fracasso era o motor V8 da Yamaha. Já Suzuki, japonês como a própria Yamaha, dizia que o motor era bom e o problema maior residia no chassi alemão. Em suma, cada um puxava a sardinha para sua pátria, e a guerra Alemanha-Japão ganhou corpo durante o ano. No fim das contas, o problema era o pacote, que incluía também a má vontade dos pilotos.

3- SÉBASTIEN BUEMI E JAIME ALGUERSUARI

Uma coisa que a Toro Rosso adora ver é seus dois pilotos em pé de guerra. Helmut Marko em si não vê quase nada, mas o sonho de consumo da Red Bull é apenas um piloto jovem, saudável, boa pinta, barato, muito veloz, muito carismático, muito inteligente e que tem estômago o suficiente para aturar uma equipe em chamas e um companheiro mascarado. Tipo assim, um Sebastian Vettel melhorado. Se não cumprir todas as exigências, nem adianta insistir. O cara que vá procurar emprego em outra roça.

Depois de ter dado um murro em Scott Speed, mandado Vitantonio Liuzzi catar coquinho lá na Índia e demitido Sébastien Bourdais por SMS, o patrão Franz Tost acreditava que tinha finalmente achado uma dupla digna dos anseios da turma do energético. Sébastien Buemi podia não ser o cara mais bonito da esquina, muito menos do planeta, mas andou bem o suficiente em 2009 para conquistar um espaço mais ou menos cativo na Toro. O companheiro Jaime Alguersuari é DJ e pega as menininhas. E ainda tinha um título na Fórmula 3 britânica, obtido quando ele tinha apenas 18 anos.

Buemi e Alguersuari acreditavam piamente que a Red Bull chamaria um deles para correr ao lado de Vettel num futuro não tão distante. Provavelmente, a própria Toro Rosso alimentava esta vã esperança. Cada um deles queria mesmo era ver o outro morto. Isso não ficou visível em 2010, quando os dois pilotos tiveram um ano apenas razoável e o clima da equipe estava aparentemente normal.

A panela de pressão explodiu no GP da Austrália de 2011, primeira etapa do ano. Graças a, quem diria, Nick Heidfeld. Após a corrida, o piloto da Renault explicou que não marcou pontos porque “um piloto da Toro Rosso bateu na traseira do meu carro nas curvas 10 e 11, o que o fez perder muita performance a partir daí”. Imediatamente, os dois colegas rubrotaurinos reagiram.

Alguersuari respondeu que “não era o responsável pelo acidente com Heidfeld. Eu estava exatamente atrás dele e vi o que aconteceu. Sébastien estava na curva 10 brigando com a Renault quando houve o toque”. Furioso, Buemi retrucou dizendo que quem teve a culpa foi o espanhol. E ainda aproveitou para reclamar sobre um toque entre ambos na primeira curva da corrida. “Não foi a primeira vez que isso aconteceu e preciso conversar com ele”, declarou o suíço.

A relação azedou de vez. No avião rumo à Malásia, eles ficaram 12 horas sem conversar mesmo tendo sentados um ao lado do outro. A relação não melhorou até o fim do ano, ainda mais quando ficou claro que ao menos um deles seria demitido. O ácido Alguersuari ainda sentenciou que “estava à frente de Buemi. O suíço é muito talentoso e pode ser mais rápido em uma volta que eu, mas há outras coisas necessárias para chegar à frente: solidez, ritmo, maturidade, força mental… No geral, acho que estou à frente dele”. Irrelevante. Os dois acabaram tendo o mesmo destino: a rua da amargura.

2- CHRISTIJAN ALBERS E TIAGO MONTEIRO

Em 2006, a obscuríssima MF1 Racing tinha um carrinho lento e simpático, um piloto lento e simpático e outro veloz e antipático pra cacete. Tiago Vagaroso Monteiro e Christijan Albers foram os pilotos escolhidos pela esquadra anglo-russo-canadense para pilotar o jurássico mas boa-pinta M01 na temporada. Monteiro tinha alguma experiência na estrutura, pois havia corrido por ela no ano anterior, quando ainda era amarela e se chamava Jordan. Já Albers era um calouro vindo da Minardi. Dos pilotos que pagaram pecados nas equipes pequenas de 2005, Monteiro e Albers eram os mais interessantes.

Os dois tinham famas opostas. Vagaroso, o luso, era uma figuraça que sabia rir até mesmo de seu curioso nome do meio, um verdadeiro cartão de visitas às avessas para um piloto de corridas. Albers fazia o tipo de “piloto holandês turrão e metido”, comportamento semelhante ao de Jos Verstappen. Na pista, a personalidade também era completamente diferente. Monteiro era calmo, sensato, nada agressivo e muito confiável. Albers era ousado, propenso a erros, irregular e muito rápido. Os dois eram, verdadeiramente, água e óleo.

Ainda assim, ninguém esperava que houvesse algum problema. Não tão cedo. Sempre nas últimas posições, Monteiro e Albers tiveram alguns entreveros durante a temporada que só serviram para torná-los inimigos. Tudo começou em Mônaco, quando Albers não teve o menor pudor em apertar Monteiro contra a mureta interna da “reta curva” dos boxes na hora da largada. O carro do português raspou no muro e não se descontrolou por muito pouco. Tivesse isso acontecido, os dois MF1 enganchariam e causariam um fuzuê bacana lá no fim do grid. Culpa do holandês, é claro.

Não muito depois, em Montreal, os dois voltaram a se pegar. Novamente, na primeira volta. Monteiro tentou ultrapassar Albers no hairpin, mas não calculou a manobra corretamente e acabou atropelando o carro de Christijan, que rodou e ficou de cara para o mundo. Irritadíssimo, Albers abandonou e apenas o lusitano seguiu em frente. Em uma entrevista após a corrida, o holandês foi lacônico, mas direto: “ficou claro para todos o que aconteceu”.

O ambiente pesou de vez na MF1. Albers e Monteiro já não se bicavam mais. As coisas pioraram drasticamente para o lado do português quando começaram a surgir boatos de que a MF1 seria vendida para uma joint venture holandesa que incluiria aí até mesmo o sogrão do próprio Christijan Albers. Tanto na pista como fora dela, a vitória foi do branquelo de Eindhoven. Mesmo assim, o duelo encarniçado continuou. Em Monza, Monteiro e Albers quase bateram enquanto disputavam uma posição na Variante del Rettifilo. Puto da vida, Christijan levantou o braço e o mandou para o inferno. Quer inferno maior do que a MF1 em 2006?

1- CHRISTIAN FITTIPALDI E PIERLUIGI MARTINI

 

“Eu não tenho respeito nenhum por um cara desses”. Frase forte, não é? Ela foi proferida pelo brasileiro Christian Fittipaldi numa ótima entrevista concedida ao Tazio Autosport. O cara em questão era ninguém menos que o italiano Pierluigi Martini, seu companheiro de equipe na segunda metade da temporada de 1993.

Christian e Martini dividiram a Minardi entre os GPs da Inglaterra e de Portugal daquele ano. Cada um deles estava lá sob circunstâncias diferentes. O sobrinho de Emerson Fittipaldi ainda era aquele jovem piloto que sonhava com voos mais altos na Fórmula 1. Havia debutado na categoria no ano anterior pela escuderia de Giancarlo Minardi, levava alguma grana e estava obtendo resultados muito bons para uma equipe pequena. Martini, por outro lado, era apenas um velho piloto italiano que queria prosseguir com a sua já decadente carreira. Ele havia sido chamado para substituir Fabrizio Barbazza, que não tinha mais dinheiro para custear sua vaga.

Fittipaldi até tinha seu espaço na Minardi, mas a equipe pertencia mesmo a Martini, verdadeiro patrimônio desde 1985. Com exceção de dois anos na Fórmula 3000 e da temporada de 1992, Pierluigi vestiu as cores de Faenza durante quase uma década. Portanto, seria difícil competir com ele em termos de atenções.

Mas bem que Pierluigi Martini não colaborou. Nos metros finais do GP da Itália, os dois protagonizaram uma das cenas mais inacreditáveis da história do automobilismo. Martini estava em sétimo e Christian vinha logo atrás, a apenas poucos décimos de distância. Eles entraram na reta dos boxes e o brasileiro queria tentar ultrapassar o colega ali na bandeirada. Mas Martini foi sacana e deliberadamente tirou o pé do acelerador. Fittipaldi não conseguiu desviar a tempo. E o resultado foi esse daí, imortalizado na foto.

Tão logo o carro parou, Christian desceu do carro e foi tirar satisfações com quem quer que fosse. Estava tão aliviado quanto revoltado. Martini logo se preocupou em dizer que “a telemetria mostrou que não tirei o pé do acelerador”. Mentira. Algum tempo depois, o piloto brasileiro checou a telemetria com um amigo, também do Brasil, que trabalhava na Minardi. A tecnologia prova que, na hora do impacto, a diferença de velocidade entre os dois era de 30km/h, coisa pra caramba quando dois carros estão quase colados.

Fittipaldi não engoliu sequer as desculpas que Pierluigi pediu após a corrida. Um já não confiava muito no outro antes daquele incidente. Depois daquilo, cada um ficou no seu lado. Mas Martini não precisava se preocupar. Duas corridas depois, Christian foi substituído por Jean-Marc Gounon por questões financeiras. Voa, canarinho, voa.

MCLAREN9,5 – Não levou seu primeiro dez porque Jenson Button, oh, terminou apenas em sexto. Não que a culpa tenha sido totalmente dele, mas não é o resultado que esperamos de alguém que larga na quarta posição em Hungaroring. De qualquer jeito, o piloto que mais importava foi o que se deu melhor. Lewis Hamilton estraçalhou a concorrência desde a sexta-feira, marcou uma pole-position facílima e liderou quase que de ponta a ponta, sem dar chance a piloto da Lotus algum. As atualizações implantadas a partir de Hockenheim parecem ter surtido efeito. E o trabalho nos pit-stops, tão ordinário no primeiro semestre, foi muito bom em terras húngaras.

LOTUS9 – Os dois pilotos quase bateram um no outro na volta 46, quando Kimi Räikkönen retornou do seu segundo pit-stop e assumiu a segunda posição. Foi o único momento de tensão lá pelos lados pretos e dourados do paddock. Fora isso, o fim de semana foi muito bom e tanto Kimi como Romain Grosjean terminaram no pódio. O suíço voltou a ser o melhor nome da equipe no sábado com o segundo lugar no grid, mas o finlandês foi mais esperto e ganhou várias posições na estratégia e no ritmo alucinante no segundo stint. O carro esteve muito bom, mas a pergunta fatal persiste: cadê a porra da primeira vitória?!

RED BULL7,5 – Fim de semana bom, mas muito longe do desejável, pois nenhum dos seus homens subiu ao pódio magiar. Sempre mais rápido, Sebastian Vettel largou em terceiro e esteve lá nas cabeças o tempo todo, mas não conseguiu ser páreo para os três primeiros colocados e nem mesmo a estratégia de três paradas ajudou. Mark Webber também parou três vezes, tendo sido um dos poucos a largarem com pneus médios, mas não conseguiu se recuperar muito do mau desempenho no treino oficial e terminou preso atrás de Bruno Senna. Quem realmente merece os aplausos são os mecânicos, que fizeram ótimos pit-stops e chegaram a devolver Vettel à pista após 18,9 segundos, a menor marca do fim de semana.

FERRARI6,5 – Dessa vez, confirmou aquilo que os fãs menos sensatos de Fernando Alonso sempre pregaram: o carro esteve muito abaixo de McLaren, Red Bull e Lotus. O espanhol não teve muito o que fazer sem um brinquedinho legal, largou em sexto e terminou em quinto, fugindo de encrencas e pensando apenas no campeonato. Num dia desses, é óbvio que Felipe Massa desapareceria na mediocridade. Ele largou em sétimo, mas caiu para nono logo no começo e terminou na mesma. Também fugiu de encrencas, se bem que a Ferrari não se importaria em ver um piloto mais ousado no carro nº 6. Esse mau fim de semana pode ter sacramentado o fim da era Massa na Ferrari.

WILLIAMS7 – Em Hungaroring, teve um carro bom e os dois pilotos provaram isso. A diferença é que, por incrível que pareça, Sir Frank Williams só está podendo confiar em Bruno Senna, que terminou o GP numa ótima sétima posição. O brasileiro teve um fim de semana formidável, foi rápido durante todo o tempo, passou para o Q3 pela primeira vez no ano, efetuou uma grande corrida e foi premiado com os pontinhos. Ainda bem que Senna gerou alguns dividendos, pois se dependêssemos de Pastor Maldonado… O cara conseguiu largar em oitavo, mas desperdiçou qualquer chance ao partir muito mal e bateu o último prego no caixão com o toque em Paul di Resta. É o verdadeiro Pastor Maldotado.

MERCEDES2 – Fim de semana bizarríssimo da equipe com o desempenho mais incerto na temporada. Os carros prateados podem brigar pela vitória em um fim de semana e amargar uma oitava fila tranquilamente no GP seguinte. Nico Rosberg foi o responsável pelo único ponto da equipe na corrida. O cara largou em 13º e ficou naquela boiada quase que o tempo inteiro. Pelo menos, ele não cometeu os mesmos vexames do famoso companheiro. Michael Schumacher fez tantas bobagens neste fim de semana que eu prefiro acreditar que era o Ralf Schumacher que decidiu enganar todo mundo assumindo o carro do irmão. Enfim, deu quase tudo errado. É uma escuderia que não evolui de jeito nenhum, uma Jaguar menos constrangedora.

FORCE INDIA4,5 – Um pouco de sorte e uma pitada de caldo de galinha talvez ajudassem. Os carros indianos não andaram exatamente mal, mas num fim de semana onde três equipes (Red Bull, Lotus e McLaren) dominaram e uma (Ferrari) ficou sempre à espreita, seria muito difícil pensar em pontos. Nico Hülkenberg até tentou. Novamente superior ao seu companheiro Paul di Resta no treino oficial, o alemão largou em 10º e terminou em 11º, ficando fora da zona de pontuação por meros detalhes. Di Resta fez outra corrida apagada e a ainda levou porrada de Pastor Maldonado. Pit-stops apenas razoáveis.

SAUBER1,5 – A Sauber competente e contente de Hockenheim ficou lá na Alemanha, mesmo. Na Hungria, a equipe suíça se complicou com o traçado sinuoso de Hungaroring e ficou lá trocando tapas com Toro Rosso. Sergio Pérez ainda foi melhorzinho, largou à frente e finalizou em 14º após ter tentado adiar ao máximo suas paradas. Kamui Kobayashi foi ainda pior, chegou a andar atrás da Caterham e abandonou a prova com problemas hidráulicos. Não há nada de bom para falar aqui.

TORO ROSSO2 – O que há para dizer de novidade? As rosas são vermelhas, o céu é azul e a Toro Rosso fede a cadáver de urubu. Os talentosos Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne largaram lá atrás, andaram lá atrás, terminaram lá atrás e, se bobear, voltaram para casa lá no fundo do avião. Sem carro, nenhum deles sequer sentiu o cheiro dos pontos. Enquanto nada mudar, continuo sem muito o que dizer dos rubrotaurinos italianos.

CATERHAM3 – Heikki Kovalainen e Vitaly Petrov fizeram o que se esperava deles: ambos chegaram ao fim da corrida com o carro inteiro e as quatro rodas grudadas nele. O finlandês foi o líder da equipe novamente, embora isso não signifique muita coisa. Ambos os pilotos tentaram três pit-stops, mas o efeito prático foi praticamente nulo. O que poderia ser bastante melhorado é o trabalho dos mecânicos nos pits, que continua terrível.

MARUSSIA2,5 – Como se já não bastassem os problemas financeiros, a equipe ainda teme a possibilidade de uma esdrúxula guerra aberta entre seus dois pilotos. O experiente Timo Glock voltou a perder para o companheiro Charles Pic, calouro, e está revoltado com tudo. Explica-se: Glock foi atrapalhado pelo próprio Pic na qualificação e não conseguiu algo melhor do que o 22º lugar no grid. Na corrida, ainda rodou sozinho e chegou a ficar atrás da HRT durante algum tempo. Pic foi bem melhor e terminou em 20º. Que a maré fique mais tranquila lá nos boxes russos.

HRT2 – A lanterninha do grid teve um dia normal para seus padrões. Apenas Pedro de la Rosa chegou ao fim, pois Narain Karthikeyan teve um problema à la Ayrton Senna em Imola e acabou batendo de leve no guard-rail, já que não anda rápido o suficiente para bater forte. Quanto a De La Rosa, ele teve um fim de semana tranquilo e sem problemas. Foda é que os mecânicos perdem muito tempo em seus pit-stops e as estratégias são ridículas. Assim, nunca chegará sequer aos pés da Marussia.

TRANSMISSÃOTCHÓÓÓAR! – Sem o locutor titular, que estava fazendo um frila num canal pago qualquer, restou à emissora brasileira colocar para narrar o Sr. IMPRESSIONANTE, aquele a quem o orvalho da madrugada ou o caminhar da joaninha, digamos assim, o impressiona bastante. Devo dizer, não obstante, que ele até narrou muito bem, sem grandes tropeços e sem exageros. Teria sido o desânimo da corrida? Ou seriam meus padrões, consideravelmente rebaixados neste fim de semana? Não importa. O highlight do GP foi o nome da namorada de Bruno Senna, Tchóóóóóar. Como é, querida repórter? Tchóóóóar. Mais uma vez: Tchóóóóar, uma gracinha de pronúncia.

CORRIDAO VELHO SONÍFERO HÚNGARO – Diz a piada que o homem foi ao médico e descobriu que tinha apenas um dia de vida. “O que faço agora que só me resta um dia, doutor?”. O sábio médico responde: “Vá assistir ao GP da Hungria. As duas horas de corrida parecerão dois anos”. OK, não teve graça na minha versão, foda-se. Eu gosto de Hungaroring, mas não por causa das provas de Fórmula 1, que historicamente são um porre. Nos últimos anos, principalmente em 2011, houve um pouco mais de emoção, mas este ano foi completamente desértico em termos de diversão. Lewis Hamilton largou na pole-position e ganhou principalmente porque a pista não permitia ultrapassagens, o que arruinou qualquer chance de vitória de Romain Grosjean ou Kimi Räikkönen. Lá no meio do pelotão, as disputas foram poucas, algumas deram certo (Senna x Pérez) e outras resultaram em desastre (Maldonado x Di Resta). E o heptacampeão Michael Schumacher aprontou um monte nos primeiros instantes. Para mim, duas horas de luta para manter os olhos abertos.

GP2ORGULHO DO PAPI – A tradição diz que Max Chilton, filho de um dos homens mais ricos da Inglaterra, sempre ganha sua primeira corrida em uma determinada categoria na terceira temporada – o que denota uma baixa capacidade cognitiva do britânico. Em 2009, ele venceu pela primeira vez na Fórmula 3 britânica após quase três anos na categoria. O mesmo se repete agora na GP2. Chilton fez o fim de semana da sua vida em Hungaroring: largou na pole-position, aguentou a pressão dos pilotos que vinham atrás no momento em que o tráfego atrapalhou e levou o troféu para casa. Davide Valsecchi e Luiz Razia, os líderes do campeonato, completaram o pódio após uma briga bastante encarniçada durante a prova. No domingo, o vitorioso foi Esteban Gutiérrez, que não teve dificuldade alguma para deixar Nathanaël Berthon para trás e ganhar. Razia foi novamente terceiro colocado e Felipe Nasr teve uma atuação de gente grande, saindo de 25º para terminar em oitavo. Lembre-se: estamos em Hungaroring, onde as ultrapassagens são quase impossíveis. Vai longe, o cara.

GP3O MUNDO GIRA, O LUSO GANHA – Que alguma boa alma endinheirada preste atenção em António Félix da Costa. O piloto português de 20 anos ganhou as duas corridas da rodada dupla de Hungaroring da GP3 Series e se aproximou perigosamente dos dois líderes da temporada, Mitch Evans e Aaro Vainio. O finlandês até largou na pole-position na primeira prova, mas se deu mal com uma largada ruim e permitiu que Da Costa assumisse a ponta. Na segunda corrida, toda encharcada, António só entrou na briga porque fez o pit-stop para colocar pneus slick na hora certa e, com um carrpo muito mais rápido, simplesmente engoliu os adversários nas últimas voltas. A Red Bull o apóia desde há algumas semanas. Que ele consiga chegar à Fórmula 1 no futuro.

LEWIS HAMILTON10 – O fim de semana pertenceu a ele. Dois treinos livres, as três fases do treino qualificatório, pole-position e liderança quase que de ponta a ponta. O que mais dizer? Nesse fim de semana, a McLaren voltou a ter um carro prateado razoavelmente veloz e Hamilton fez o que quis com ele. Na corrida, largou bem, não foi tão ameaçado por Romain Grosjean mesmo enquanto esteve com pneus médios e também não enfrentou maiores encrencas quando Kimi Räikkönen tentou assumir a liderança. Venceu pela segunda vez no ano e voltou à briga pelo título. Se mantiver a cabeça no lugar, poderá até conseguir alguma coisa de bom.

KIMI RÄIKKÖNEN9 – Um mistério da humanidade. Não treina bem, costuma comer pelas beiradas nas primeiras voltas e anda terminando sempre no pódio. Em Hungaroring, Kimi finalizou em segundo e só não venceu porque, em Hungaroring, a ultrapassagem é uma lenda. Competente quinto colocado no treino, o finlandês adiantou ao máximo seu primeiro pit-stop e colocou pneus macios, ao contrário do líder Lewis Hamilton, que escolheu compostos mais duros. Nesse segundo stint, Räikkönen sentou a bota e ganhou bastante tempo. No segundo pit-stop, o tempo ganho o permitiu voltar à frente de Romain Grosjean. No final da corrida, tinha um carro muito bom e poderia ter vencido. Não ganhou, mas ao menos subiu ao pódio e tomou champanhe.

ROMAIN GROSJEAN8 – E aí, seria nesse domingo que ele venceria pela primeira vez? Não foi. O franco-suíço subiu no pódio pela terceira vez no ano, mas terminou uma posição pior do que começou e ainda viu o preguiçoso companheiro chegando à frente. Romain apareceu muitíssimo bem na classificação e cavou uma primeira fila ao lado de Lewis Hamilton. Conteve o ataque de Sebastian Vettel nos primeiros metros e manteve a segunda posição. Esteve muito rápido, especialmente durante alguns momentos do segundo stint. A perda do segundo lugar aconteceu porque Kimi Räikkönen foi muito espertão e o derrotou na estratégia. Ainda assim, um terceiro lugar de respeito.

SEBASTIAN VETTEL7,5 – Não ganhou novamente, nem pódio conseguiu, mas ao menos descontou um pouquinho a diferença para Fernando Alonso na classificação da temporada. Está bom, de qualquer jeito. Vettel não tinha cancha de vencedor neste fim de semana. Não foi por falta de esforço, pois ele conseguiu um bom terceiro lugar no grid. O carro é que era mais ou menos, mesmo. O bicampeão largou bem e tentou ultrapassar Romain Grosjean, mas foi bloqueado e caiu para quarto. Durante a corrida, foi um dos que apostaram em três paradas. Valeu a pena nos momentos em que o bólido esteve bom, embora isso não tenha significado ultrapassagens. Nas últimas voltas, com pneus novinhos em folha, estava arrepiando. Merecia um pódio.

FERNANDO ALONSO7 – A Ferrari não lhe entregou o melhor dos presentes de aniversário. Um F2012 apenas razoável não permitiu que o espanhol prosseguisse com a série de resultados excelentes, mas ele ao menos conseguiu ampliar um pouquinho a vantagem para o segundo colocado no campeonato. Correto nos treinamentos, o asturiano apostou numa estratégia de dois stints com pneus mais duros. Sem ter qualquer chance contra Red Bull, McLaren ou Lotus, Alonso ainda tentou não comer muita poeira da galera da frente. Perdeu algum tempo com Sergio Pérez e acabou sendo ultrapassado por Kimi Räikkönen em um dos pits. Terminou em quinto. Com a calculadora na mão, Fernando apenas soma seus grãozinhos para encher o papo lá na frente.

JENSON BUTTON6,5 – Não foi tão bem como em Hockenheim, mas os dias negros do primeiro semestre parecem ter acabado. O inglês mais contente da Grã-Bretanha andou razoavelmente bem nos treinos livres e cavou um espaço na segunda fila. Meteu-se em um duelo com Sebastian Vettel na primeira volta e ganhou, assumindo a terceira posição. Seu pecado maior foi ter apostado numa estratégia de três paradas. Nada contra, mas o tráfego e o terceiro stint muito curto certamente atrapalharam. Terminou a corrida pertinho de Fernando Alonso.

BRUNO SENNA9 – Grande fim de semana, desde a sexta-feira. Nos dois treinos livres que fez, ficou em terceiro e quarto. Sempre veloz, ficou entre os dez primeiros nas três sessões da qualificação e obteve um ótimo nono lugar no grid, melhor posição no ano até aqui. Na corrida, com a mesma estratégia de duas paradas da maioria dos pilotos, o sobrinho esteve sempre competitivo na zona de pontuação, com direito a ultrapassagem por fora sobre Sergio Pérez. No final da corrida, mesmo sem pneus, conseguiu conter a aproximação de Mark Webber e marcou bons pontos novamente. Está se aproximando bastante de Pastor Maldonado.

MARK WEBBER3,5 –  É aquilo: quando o fim de semana é ruim para o australiano, não há Red Bull que ajude. Discretíssimo durante quase todos os treinamentos, só conseguiu sorrir quando liderou a última sessão de treinos livres, já no sábado. Na qualificação, decepcionante porém sem surpreender, não passou para o Q2. Para o domingo, foi um dos únicos a largar com pneus médios. A ótima largada até sugeriu que uma boa corrida de recuperação poderia ser feita, mas parar três vezes e utilizar os pneus mais macios no final não foi uma boa receita. No fim da prova, mesmo com compostos em ótimo estado, Mark ficou preso atrás de Bruno Senna e não conseguiu ultrapassá-lo. Teve de se contentar com quatro pontinhos mixurucas.

FELIPE MASSA3 – Treinos aceitáveis, corrida brochante. Num fim de semana onde o F2012 estava longe de qualquer padrão de excelência e numa pista onde as memórias não são boas, o brasileiro não poderia fazer nada de muito genial, mesmo. Até andou corretamente na sexta e no sábado, conseguindo um sétimo lugar no grid, mas o domingo foi dolorosamente risível. Massa perdeu duas posições na primeira volta e ficou em nono até o fim. A estratégia funcionou corretamente e não havia nenhuma pedra ou mola no caminho. O piloto é que se comportou como um funcionário público em vias de se aposentar. Aposentar.

NICO ROSBERG2,5 – É talvez o personagem que mais teve variações de desempenho até aqui no ano. Nestes últimos GPs, pelo visto, a alemã decidiu sossegar um pouco no meio do pelotão e brigar apenas pelas sobras dos pilotos de ponta. Num carro que anda precisando de reparos, Rosberg não se sobressai e fica por ali, cacarejando no meio de Force India e coisas afins. Discreto nos treinos, Nico só apareceu bem na boa largada que fez. Depois disso, praticamente permaneceu na mesma. Pelo menos, levou o último ponto para sua casa.

NICO HÜLKENBERG4,5 – Se alguém da frente tivesse abandonado, daria para ele ter saído da Hungria com alguns bons pontos na carteira. Como todos chegaram são e salvos ao fim, Hülk terminou lá na posição do bobo, o primeiro entre os que ficam chupando o dedo. E olha que ele não andou mal em momento algum. Foi o único piloto da Force India que entrou no Q3 e não precisava de muito para galgar um resultado decente. Infelizmente, não se deu tão bem no primeiro pit-stop e caiu para 11º. O alto consumo de pneus também complicou as coisas.

PAUL DI RESTA4 – Arrancou aplausos lá da Cortina de Ferro quando se meteu na segunda posição no Q1 da classificação. Felicidade irreal. No Q2, ele sequer conseguiu ficar entre os dez primeiros e acabou levando mais uma de Nico Hülkenberg. Durante a corrida, não andou na zona de pontuação em momento algum. Mas como ele também não ficou tão atrás, mesmo tendo sido acertado pelo tétrico Pastor Maldonado, seria injusto dizer que sua atuação foi vergonhosa. Ela só foi sonolenta. De novo.

PASTOR MALDONADO2 – É o maior negócio de risco da Fórmula 1. Pode te trazer uma enorme felicidade num dia, mas também pode arruinar sua vida nos quatro meses seguintes. Em Hungaroring, o chavista voltou a fazer bosta durante a corrida. Em uma briga desnecessária com Paul di Resta, ele não teve pudores em arremessar seu carro contra o do escocês e quase tirou os dois da corrida. Pela atitude, tomou um drive-through, sua sexta punição no ano. O chato é que tudo isso aconteceu após ele obter um bom oitavo lugar no grid. Depois de uma má largada, um ritmo de corrida caquético e o toque, não dá para elogiar. Toupeira! Anta!

SERGIO PÉREZ3 – Num dia em que seu carro não deu as caras, não teve muito o que fazer. Mal nos treinos, apostou numa estratégia de atrasar o máximo possível a primeira parada. Conseguiu, mas às custas de um bocado de tempo perdido. Não conseguiu ganhar as posições que esperava e acabou terminando longe dos pontos. Mesmo assim, os boatos envolvendo seu nome e a Ferrari brotam aos montes na Itália.

DANIEL RICCIARDO3 – Sem boas novidades. O carro continua ruim e o cara continua feio pra caralho. O único fato diferente foi ter sido o piloto contemplado pelo duvidoso direito de não passar pelo Q1 ao lado dos pilotos das equipes nanicas. Na corrida, tentou uma estratégia de três paradas e apenas um stint com pneus médios. Largou bem, mas ficou a corrida inteira sempre entre a 14ª e a 16ª posição. Terminou em 15º, bem no meio. No meio da merda.

JEAN-ERIC VERGNE3 – A boa da vez foi ter superado, pela primeira vez desde há muito tempo, o Q1 da classificação. A posição de largada, 16ª, não foi excepcional, mas é melhor do que 18º ou 19º. Na largada, o francês até ganhou algumas posições antes da primeira curva, mas perdeu tudo de uma vez na curva e acabou ficando atrás das Caterham. Recuperou-se logo, mas ficou anos-luz distante da pontuação durante todo o tempo e ainda teve de fazer quatro pit-stops, três previstos e um causado por superaquecimento. Neste último pit-stop, ele já estava atrás de Daniel Ricciardo.

HEIKKI KOVALAINEN3,5 – Num fim de semana onde poucos realmente brilharam, um piloto da Caterham dificilmente encontraria muito espaço para chamar a atenção. O piloto Angry Bird até se esforçou, como sempre, mas não entregou nada além do arroz-e-feijão de sempre. Obteve o 19º lugar no grid, largou bem de novo e tentou a estratégia de três paradas. Com um carro muito pior que a Toro Rosso, uma ou cem paradas não faz diferença alguma. Pelo menos, terminou mais uma.

KAMUI KOBAYASHI1 – Fim de semana ruim como poucos. Sempre muito mais lento que o companheiro Sergio Pérez, não alimentou grandes expectativas de sua cada vez menor base de fãs incondicionais. Vacilou na largada e fechou a primeira volta em 19º. Parando apenas duas vezes, não recuperou o tanto de posições que imaginava. No fim da corrida, teve problemas hidráulicos e abandonou. Mesmo assim, por ter completado mais de 90% das voltas, está lá na lista de classificados.

VITALY PETROV2,5 – Enquanto não tem GP em Sochi, esta corrida magiar é praticamente a etapa caseira de Vitaly Petrov. À frente de seus camaradas húngaros, não deu para fazer nada de novo com seu Caterham esverdeado. Largou e terminou atrás de Heikki Kovalainen. Assim como o finlandês, parou três vezes nos boxes. Poderia ter parado cem vezes que ele continuaria andando na mesma.

CHARLES PIC4,5 – Engraçado dizer isso, mas está em uma boa fase na temporada. Tudo bem, ele só marcará pontos se uns quarenta pilotos morrerem, mas o objetivo principal de bater Timo Glock com alguma frequência está sendo alcançado. Novamente, o francês foi o melhor piloto da Marussia no treino oficial, mesmo que isso tenha acontecido porque ele simplesmente fechou o próprio Timo Glock enquanto este estava em volta rápida. Houve um mal estar e os dois ficaram de mal. Na corrida, Pic chegou a peitar Vitaly Petrov, não cometeu nenhum grande crime e completou a corrida à frente de Glock. Seria muito injusto se ele realmente perdesse a vaga para Max Chilton.

TIMO GLOCK0,5 – Fase terrível, que deixaria qualquer ser humano totalmente deprê. Ficou atrás de Charles Pic em dois treinos livres e no grid de largada. Logo no começo da corrida, rodou sozinho e caiu para último. Depois, fez apenas o que lhe foi possível: passou os dois carros da HRT,  herdou uma posição com o abandono de Michael Schumacher e finalizou a prova.

PEDRO DE LA ROSA2,5 – Há seis anos, ele levou um carro da McLaren ao segundo lugar. Hoje, pilotando a cruz que é a HRT, teve de ficar feliz por ter terminado em 22º. No final da corrida, fez um stint absurdamente longo com pneus macios e perdeu ainda mais tempo nas últimas voltas. Ainda assim, foi o único de sua equipe que chegou ao fim.

NARAIN KARTHIKEYAN0,5 – Último colocado nos dois treinos livres, último colocado no grid de largada, dono da pior volta mais rápida da corrida, um dos dois pilotos que abandonaram. Este foi o fim de semana do indiano Karthikeyan, que deu lugar a Dani Clos em um dos treinos livres. Ele só não chegou ao fim porque a direção do carro quebrou e o mandou para o guard-rail. Eu ainda acho que a direção se revoltou com um piloto tão bizarro.

MICHAEL SCHUMACHER0 – Este cara foi heptacampeão do mundo e é sempre comparado a Ayrton Senna, Juan Manuel Fangio e Jim Clark. Por isso, chega a ser triste ver que um GP da Hungria de 2012 pode acontecer com ele. Não há absolutamente nada de bom para falar sobre Schumacher neste último fim de semana. Péssimo nos treinos, não passou da 17ª posição no grid de largada. Grid que, aliás, lhe trouxe um bocado de problemas. Na hora de se posicionar para a largada, Michael errou o lugar, parou antes de onde deveria e confundiu todo mundo que vinha atrás. A primeira largada foi abortada e Schumacher, ainda abestado, resolveu desligar o motor, ficando estacionado lá no meio do caminho. Após largar dos pits, ele ainda parou mais cedo para trocar os pneus, acelerou mais do que devia no pitlane e foi punido com um drive-through. No fim das contas, preferiu recolher para os boxes e ir para casa mais cedo. A mim, uma triste impressão de que o velho Schumacher pode estar realmente velho demais para a coisa.

Pegue a lista de inscritos da rodada dupla de Curitiba da AutoGP, aquela categoria de base conhecida por distribuir uma boa grana aos participantes. Pal Varhaug, Daniel de Jong, Francesco Dracone, Sergio Campana, Sergey Sirotkin, Antônio Pizzonia e… Como é que é? Sim, é isso mesmo que você leu. O manauara Antônio Pizzonia, 31 anos, pegou todo mundo de surpresa ao assinar com a Ombra Racing apenas para disputar esta etapa. E não fez feio: venceu as duas corridas do fim de semana curitibano. Na primeira, liderou quase que de ponta a ponta. Na segunda, aproveitou-se do erro do inglês Adrian Quaife-Hobbs e assumiu a ponta no finalzinho. Foram suas primeiras vitórias no automobilismo desde o distante GP da Alemanha de Fórmula 3000 em 2001.

A participação de Pizzonia nesta corrida ofuscou até mesmo o título obtido por Quaife-Hobbs, que fez uma temporada irrepreensível até agora. Os poucos brasileiros que compareceram ao Autódromo Internacional de Curitiba se perguntaram o que aquele cara, que disputou vinte corridas na Fórmula 1 entre 2003 e 2005, estava fazendo ali na várzea do automobilismo de base, enfrentando gente até quinze anos mais nova. Eu apostaria em um simples trabalho de freelancer. Pizzonia entra no carro, faz as corridas, dá dicas de acerto e embolsa algum. Mas pode não ser só isso.

No fundo, Antônio Pizzonia parece ainda ter algum tipo de unfinished business com os monopostos. A demissão sumária da Jaguar em meados de 2003 definitivamente não lhe caiu bem, assim como a rejeição da Williams em favor de Nico Rosberg para a temporada de 2006. O cidadão tentou ser feliz na falida e indigna ChampCar, algo impossível para um sujeito que não se chama Sébastien Bourdais. Depois, tentou correr na GP2 em 2007, fez uma pré-temporada excelente e acabou demitido após amarelar nas primeiras corridas. Como se não bastasse, o são-paulino ainda se sujeitou a representar o Corinthians na Superleague Formula. Talvez ele ainda acredite, lá no inconsciente, que a Fórmula 1 ainda não é uma página virada.

Mas pode ser também que eu esteja totalmente equivocado. Às vezes, o cara simplesmente é feliz pilotando seja lá o quê. Se a AutoGP lhe ofereceu uma oportunidade remunerada, por que não aceitar? Muito piloto com experiência de Fórmula 1 já aceitou descer um, dois, mil degraus no automobilismo para prosseguir com a carreira, ganhar dinheiro ou simplesmente se divertir. O Top Cinq de hoje relembra cinco desses casos.

5- LAMBERTO LEONI

Um piloto de fama duvidosa e resultados apenas medianos, Lamberto Leoni foi um desses sujeitos que sabiam que não teriam muitas oportunidades na Fórmula 1, mas que gostavam de seguir pilotando monopostos até quando desse. O italiano foi campeão de uma tal de Fórmula Italia, obteve alguns pódios na Fórmula 3 e até venceu uma corrida de Fórmula 2 em Misano, mas nunca foi o mais casca-grossa dos italianos. Nascido em um país que produzia toneladas de pilotos a cada ano, Leoni era somente mais um.

Após um punhado de corridas mais ou menos na Fórmula 2, Lamberto quebrou seu cofrinho e arranjou bufunfa o suficiente para alugar um carro da Surtees para disputar o GP da Itália de 1977. Não se classificou e voltou para sua Fórmula 2 para terminar a temporada. Em 1978, Leoni conseguiu levar suas liras para a Ensign, que havia perdido Clay Regazzoni. Tentou se classificar para quatro corridas, não se classificou para duas, não largou em uma e abandonou o GP da Argentina com o motor estourado. A Ensign não se impressionou e o trocou por ninguém menos que Jacky Ickx. E a vida de Lamberto Leoni como piloto de Fórmula 1 acabou aí.

Mas ele decidiu seguir em frente na condução de monopostos. Modesto, Leoni retornou à Fórmula 2 em 1979 sem grande alarde. Disputou provas na categoria esporadicamente até 1984 e conseguiu apenas um estúpido ponto na etapa de Silverstone em 1983. Quando participou de sua última corrida na Fórmula 2, já tinha 31 anos de idade e nem pensava mais em voltar à Fórmula 1. Hora de abandonar os monopostos, certo?

Errado. A Fórmula 2 foi substituída pela Fórmula 3000 em 1985 e Lamberto Leoni foi um dos primeiros pilotos que se inscreveram na categoria. Iniciou a temporada pilotando um velho Williams FW08C (lembrando que a Fórmula 3000 daqueles dias permitia o uso de carros antigos de Fórmula 1) e terminou dirigindo um March novinho em folha, tendo obtido dois pódios em Pau e em Österreichring. Fazia tempo que Leoni não tomava champanhe logo após uma corrida.

E ele não desistiu. Em 1986, o piloto italiano fundou sua própria equipe, a ITI 3000, e assumiu um dos carros. Teve um ano difícil e não marcou pontos, mas ao menos percebeu que era um cara competente na arte de comandar uma equipe. No ano seguinte, a ITI 3000 virou First Racing, saudou patrocinadores novos e se tornou uma das forças da Fórmula 3000. Leoni ainda disputou a temporada inteira e até somou 12 pontos, mas preferiu, enfim, largar o volante e permanecer apenas como capo a partir de 1988.

4- RENÉ ARNOUX

 

Créditos na foto

Este conhecido nome pode causar estranhamento a muita gente. Como assim René Arnoux disputou corridas de categorias menores após sua carreira na Fórmula 1? Muitos ressaltarão que ele se aposentou do certame maior em 1989, quando já tinha 41 anos de bons desserviços prestados aos demais pilotos. Não, Arnoux não disputou nenhuma fórmula de base após a aposentadoria oficial. A história que eu narro aconteceu em 1985.

Como andei contando recentemente, René Arnoux iniciou a temporada em pé de guerra com sua equipe, a Ferrari. Além do desempenho claudicante em 1984, a equipe não gostou de vê-lo fazer uma cirurgia para corrigir uma cãibra sem avisar ninguém e também ficou tiririca da vida quando René deixou de aparecer num teste em Fiorano. Enzo Ferrari não teve o menor pudor em demiti-lo pouco depois do GP do Brasil, a primeira corrida de 1985. E ainda houve quem disse que os motivos reais da demissão eram ainda menos nobres do que o simples diletantismo do francês: drogas e pedofilia envolvendo filho de gente graúda, o que você acha?

Arnoux passou o resto da temporada parado. Estava com 37 anos, sua forma já não era mais a mesma e seu auge já fazia parte da história. Sem lenço nem documento, naquela altura da vida, qualquer coisa estava valendo. Até mesmo o convite para disputar qualquer coisa de Fórmula 3.

Mas não era uma corrida de Fórmula 3 qualquer, e sim o 32º Grande Prêmio de Macau, simplesmente a prova extracampeonato mais importante de todas as categorias de base. Uma vitória na ex-colônia portuguesa garante ao piloto fama, dinheiro e até mesmo mais moral com a mulherada. E deve ter sido exatamente a motivação sexual que levou Arnoux a aceitar a proposta da Murray Taylor Racing, tradicional equipe inglesa de Fórmula 3 patrocinada por uma empresa americana de logística, a Flying Tigers.

Arnoux recebeu algo em torno de 15 mil dólares, verdadeira esmola para um piloto de Fórmula 1 de ponta e bênção para um desempregado, para pilotar o Ralt-Volkswagen naquele fim de semana de novembro. Apesar de ter sido considerado o favorito, a concorrência do francês era fortíssima: não só os melhores pilotos de Fórmula 3 haviam se inscrito como também uma boa parte da turma da Fórmula 3000, a começar pelo campeão Christian Danner.

No difícil circuito, René começou mal, arrebentando seu Ralt branco em uma curva do malfadado Circuito da Guia durante um treinamento.  Após as sessões de qualificação, o velho francês obteve o 14º lugar no grid, posição razoável se considerarmos que largariam trinta pessoas. Na corrida, dividida em duas baterias, Arnoux escapou do tradicional engavetamento da primeira curva, pilotou numa boa, não fechou ninguém e terminou em sexto. Não foi exatamente aquilo que todos esperavam, mas pelo menos serviu como aperitivo para a temporada de Fórmula 1 que viria no ano seguinte com a Ligier.

3- ALLEN BERG

Mesmo para os padrões de um piloto de corridas, o canadense Allen Berg era um nanico. Quando subia nos pódios da Fórmula 3 britânica, geralmente ao lado de Ayrton Senna e Martin Brundle, Berg sumia da visão de todos. O que lhe faltava em altura, no entanto, o dinheiro compensava. Foram exatamente os dólares canadenses que o permitiram comprar a vaga de Christian Danner na Osella a partir do GP dos EUA de 1986.

O carro da Osella era a verdadeira cadeira elétrica daqueles dias. Um trambolho feio, gordo, opaco, inseguro e fraco. Era como se fosse aquele seu tio obeso e sedentário que decidiu correr nos fins de semana, mas não aguentou e parou após dois quilômetros. Seus fins de semana se resumiam a qualificar-se na última fila e tentar fazer o maior número possível de voltas no domingo. Raramente dava para chegar ao fim. Uma miséria de vida.

Berg esperava continuar na Fórmula 1 em 1987, pois tinha algum patrocínio e o interesse de algumas equipes minimamente menos deprimentes que a Osella. Porém, o anúncio do cancelamento do GP do Canadá arruinou tudo. Desempregado, Allen tentou de tudo para seguir em frente. Disputou corridas de protótipos na Europa, nos Estados Unidos e no Japão e tentou até mesmo a DTM. Como ainda sonhou com a Fórmula 1 durante um tempo, Berg chegou a fundar uma empresa de captação de patrocinadores, a Allen Berg Racing Limited. Só que a iniciativa durou pouco, pois alguns auditores fiscais descobriram um mundo de irregularidades em suas operações. Que coisa feia, Allen.

Berg demorou um pouco para compreender que nunca conseguiria nada no automobilismo internacional. Em 1992, ele aceitou uma razoável oferta da Marlboro para disputar a bizarra Fórmula 2 Mexicana. “Aceitei porque os grids são grandes, há muitos patrocinadores bons e os pilotos ganham bem”. Num lugar onde poucos tinham o mesmo nível de experiência, Berg virou rei. Logo em sua segunda temporada, o cara se sagrou campeão da tal Fórmula 2. A felicidade realmente existia, mas lá no meio dos desertos mexicanos.

Em 1994, Allen foi vice-campeão da Fórmula 2. Em 1995, ele desceu um degrau e disputou a temporada mexicana de Fórmula 3, terminando o ano em terceiro. Nos quatro anos seguintes, Berg permaneceu na categoria, ganhou três corridas e muitos pesos mexicanos. O cara só parou de correr, acredite, em 2001. Aos 40 anos de idade, Allen venceu quatro corridas na Fórmula de las Americas e ganhou seu último título na vida. Para quem acha impossível que um americano ou canadense vá ao México para se dar bem, o baixinho aí comprova o contrário.

2- MARCO APICELLA

Sua carreira na Fórmula 1 durou uns 200 metros. Em compensação, doze anos separando a primeira da última corrida de Fórmula 3000 na vida refletem bem como um piloto parece, às vezes, não se conformar com o fracasso de sua carreira nos monopostos. O talentoso italiano Marco Apicella foi talvez um dos casos mais injustos de gente veloz que não teve oportunidades na Fórmula 1 que fossem dignas de sua disposição de competir nas categorias menores.

Apicella fez sua primeira temporada na Fórmula 3000 em 1987. Quatro anos depois, ainda estava na categoria, dividindo freadas com gente bem mais nova que ele. Mesmo com vários bons resultados, Marco nunca conseguiu uma única vitória em 53 GPs disputados até 1991, o que deve ter deixado muito chefe de equipe na Fórmula 1 com alguns pontos de interrogação na cabeça. Aliada à falta de conquistas, pesou também a falta de sorte do cara. Ele tentou correr por equipes que acabaram desistindo de subir para a categoria maior, como a First em 1989 e a GLAS em 1991.

Depois de tantas frustrações, Apicella só veio a conseguir um convite sério em 1993, quando Eddie Jordan o chamou para pilotar seu carro no GP da Itália daquele ano. Foi um fim de semana difícil. A pressão desabou sobre seus ombros. O 193 era muito ruim. E feio. Marco bateu no treino oficial. No domingo, largou lá no fim do pelotão. Tentou evitar um acidente que acontecia à sua frente, rodou ainda antes da primeira curva e acabou fora da prova. Essa lástima aí foi a única grande chance de Marco Apicella, recordista de participações na Fórmula 3000.

Quem disputa cinco temporadas nessa merda pode correr seis, sete, dez, sei lá. Ainda em 1993, Marco disputou toda a temporada da versão japonesa da Fórmula 3000 e ficou em quarto. No ano seguinte, foi campeão, mas ninguém na Europa prestou atenção. Mesmo quando a categoria mudou de nome para Fórmula Nippon, Apicella não titubeou e permaneceu por lá até 1997.

Mesmo após seus dias no Japão, ele ainda queria correr de monopostos. Em 1999, aos 34 anos de idade, Apicella aceitou uma vaga para disputar a Fórmula 3000 italiana. Sua equipe seria a Monaco Motorsport, que pertencia a um tal de Lamberto Leoni. Motivado por correr em casa, Marco ganhou duas corridas e finalizou o ano em terceiro. De quebra, ainda arranjou tempo para tentar largar na etapa de Spa-Francorchamps da mesma Fórmula 3000 internacional que ele havia abandonado no fim de 1991. Só que os tempos mudaram. Apicella não conseguiu se qualificar. O automobilismo é implacável e persistência não é uma qualidade muito importante nesse meio.

1- JAN LAMMERS

Alguns caras abusam. O que você acharia se, por exemplo, Ricardo Rosset estivesse disputando a GP2 hoje em dia? Você pode achar bizarro, dar risada e até ser babaca a ponto de chamá-lo de “tosser”, mas um bom piloto holandês se sujeitou a algo muito parecido com isso há alguns anos.

Após ser campeão da Fórmula 3 europeia em 1978, Jan Lammers recebeu um convite duvidoso para correr pela Shadow na Fórmula 1. Tão ansioso quanto cabaço, Lammers não pensou duas vezes e topou a parada. Quebrou a cara. O carro era terrível. O jovem e cabeludo piloto nascido em Zandvoort conseguiu apenas um nono lugar em Montreal. Por incrível que pareça, sua vida na Fórmula 1 ficaria ainda pior.

Lammers disputou as três temporadas seguintes por suplícios como a ATS e a Theodore. Os pontos não vieram, mas as críticas da imprensa e as dores de cabeça foram tantas que ele largou a mão de ficar insistindo na categoria e foi tentar a sorte em outros quintais. Decisão esperta. Jan se tornou um dos bons pilotos do Mundial de Protótipos e chegou a obter o vice-campeonato da categoria em 1987, perdendo para o brasileiro Raul Boesel. Porém, pelo visto, o homem acreditava que ainda tinha contas para acertar com a Fórmula 1. Mesmo ganhando corridas nos protótipos, Lammers se aventurou nas categorias de base durante um bom tempo.

Só em Macau, o holandês disputou quatro edições do famoso GP de Fórmula 3. Terminou as corridas de 1985 e 1986 na terceira posição, foi segundo colocado em 1987 e sexto em 1988. Ainda em 1986, Jan aceitou o convite para disputar o GP de Le Mans da Fórmula 3000 pela equipe de Eddie Jordan. Tudo isso numa época na qual ele também disputava provas da Indy e do Mundial de Protótipos!

Nos anos 90, Lammers não sossegou. Chegou a interromper sua carreira nos protótipos apenas para correr na Fórmula 3000 japonesa em 1991. Como os resultados foram parcos e o dinheiro nem valeu tanto a pena, Jan decidiu voltar a correr de protótipos no ano seguinte. Acabou por aí?

Não. No fim de 1992, a quase falida March o convidou para disputar os dois últimos GPs de Fórmula 1 da temporada. Aos 36 anos, Lammers retornou à categoria dez anos após sua última corrida. Andou razoavelmente bem nas duas provas e conseguiu um contrato para disputar toda a temporada de 1993. Ele só não contava com o desaparecimento da equipe dias antes da primeira corrida do ano, na África do Sul. Pela segunda vez, Jan deixava o certame pela porta dos fundos.

A solução encontrada para não ficar parado foi das mais estranhas que eu já vi. A Il Barone Rampante, equipe da Fórmula 3000 internacional por onde Rubens Barrichello correu em 1992, ligou para Lammers e ofereceu a ele uma vaga na equipe e um salário sem exigir nada em troca. Ele obviamente aceitou. Disputou seis corridas contra pilotos quinze anos mais jovens e até marcou três pontinhos em Enna-Pergusa, mas o dinheiro acabou e a festiva Il Barone Rampante faliu.

Chega, né? Eu bem que gostaria de terminar o texto aqui, mas Jan Lammers não deixou. Em 1995, ele assinou um contrato com a Vortex para disputar mais uma temporada de Fórmula 3000. Estava com 39 anos de idade e teria na pista adversários que ainda cagavam nas fraldas na época em que ele já corria na Fórmula 1. Jan acabou disputando apenas três corridas da temporada, bateu com Marco Campos (20 anos mais jovem) em Barcelona e não pontuou em nenhuma. Em compensação, o quarentão obteve uma bela vitória numa corrida extracampeonato realizada em Kyalami, sua última nos monopostos de base. A criançada presente teve de aplaudir de pé o cara, já com filhos e cabelo grisalho.

Agora, sim, acabou.

GP DA HUNGRIA: Antes de tudo, uma pequena curiosidade étnica. Os húngaros, ao lado dos finlandeses e dos estonianos, são um dos três povos europeus que não são considerados brancos. Então eles são o quê, pombas? Amarelos, ora. Amarelos como coreanos, japoneses, indonésios, mongóis e os Simpsons. Mas como pode? Alguns antropólogos sugerem que os húngaros são um povo túrquico originário das planícies da Ásia Central cujas mães foram devidamente estupradas por Gengis Khan. A hipótese ganha força quando percebemos que alguns deles possuem cabelo escuro e até mesmo olhos ligeiramente puxados. Pois este bocado de alienígenas acampados às margens do rio Danúbio construiu, há 25 anos, um dos circuitos mais bizarros da Fórmula 1. Hungaroring é um traçado curtinho, lento, estreito e cheio de curvas de raio médio e velocidade baixa. Não se assemelha às pistas tilkeanas por não ter retas grandes e cotovelos, áreas de escape intermináveis e um monte de sheiks gordos no paddock. Ao invés de um cenário sofisticado e cheio de construções de gosto duvidoso, vilarejos e bosques. Nas arquibancadas, fãs de verdade, europeus de olhos puxados. Em seus primórdios, quando o comunismo ainda reinava na região, o autódromo era considerado moderno e seguro. O tempo passou e os bons adjetivos ficaram para trás. Hungaroring é um troço anacrônico, perdido em seu tempo e espaço. Assim como são os húngaros, os japas do Leste Europeu.

MAPEAMENTO: Adrian Newey e a Red Bull não perdem tempo. Vocês querem saber qual é a última deles? Em Hockenheim, a equipe deu uma volta no regulamento técnico da FIA e usou uma artimanha muito espertinha. Explico. Leiam com calma. O artigo 5.5.3 do regulamento técnico diz que quando o acelerador está acionado até o fim, o torque do motor deve ser igual ou superior ao torque esperado para uma dada velocidade. Em poucas palavras, não dá para pisar no acelerador e diminuir o torque. A Red Bull considerou que esse “torque esperado” era um conceito atemporal e aberto a interpretações. “Torque esperado” em relação a quê? Os engenheiros rubrotaurinos imaginaram que o torque esperado de Hockenheim, controlado por mapeamento, poderia ser menor do que o de outras pistas, por exemplo, algo que o regulamento não esclarece. Então, mapearam o motor de modo a permitir que quando o piloto pisasse no acelerador a uma rotação de 6.000rpm, o torque diminuísse em relação ao esperado. No entanto, esse torque ainda seria mais alto do que no mapeamento para outras pistas e o artigo 5.5.3 não poderia fazer nada. Genial. Mas mais genial ainda é a razão para diminuir o torque quando se pisa no acelerador, uma coisa que soa estúpida em um primeiro momento. Vocês sabem que o acelerador existe para injetar o ar necessário para a explosão no motor. O polêmico mapeamento de Hockenheim simplesmente atrasava o fluxo de ar que seguia para a combustão. Este atraso fazia com que parte deste ar quente se dissipasse pelos exaustores e escoasse rumo aos dutos de freio e ao difusor, gerando downforce extra. A consequência ilegal acabaria sendo a diminuição de torque, mas como a Red Bull driblou o regulamento com uma segunda interpretação, a tática não só não era pega pelas regras como deixava o RB7 ainda mais rápido nas curvas. Palmas para a Red Bull e para Adrian Newey, que arquitetou tudo. Eu sei que você não entendeu porra alguma. Sugiro que releia. Você compreenderá o porquê de Newey ser considerado o verdadeiro gênio da Fórmula 1 moderna. Pena que a FIA corta fora qualquer lampejo de genialidade.

CHUVA: De novo. Novamente. Outra vez. Pelo terceiro GP consecutivo, as gotas abençoadas por São Pedro poderão encharcar o asfalto e dificultar ainda mais a vida dos pilotos. Em Budapeste, as chances de chuva são de 30% na sexta-feira e 60% no domingo. No sábado, pelo visto, o sol reinará. Como Hungaroring fica lá pertinho, dá para crer que as possibilidades são semelhantes. A pista húngara fica legal demais com chuva. No ano passado, choveu um bocadinho, como dizem lá em Minas, e a corrida foi das melhores do ano. Em 2006, a monção foi ainda maior e o resultado foi Pedro de la Rosa no pódio. Só que as coisas mudaram um pouco de seis anos para cá. Hoje em dia, talvez inspirados pelo founding fathers das corridas em ovais, os reis da Fórmula 1 praticamente proibiram as disputas em pista molhada. Sabe como é, não é bom encharcar bolsa e sapato da Mrs. Bernie Ecclestone.

HAMILTON: Endoidou de vez. Está numa fase tragicômica na vida profissional e também na pessoal. Tudo parece conspirar contra: a falta crônica de sorte, os maus conselheiros, o carro insuficiente, a namorada pop-star, a mídia inglesa, as garotas da balada, o sorriso de Jenson Button, tudo. Em Hockenheim, Lewis conseguiu estourar o pneu logo no começo, perdeu um tempão, tomou volta e ainda arranjou uma pequena encrenca com Sebastian Vettel, que foi atrapalhado por ele enquanto tentava se aproximar do líder Fernando Alonso. Após a corrida, Vettel falou um monte de coisas sobre Hamilton, embora tenha posteriormente desmentido que as palavras “negão estúpido do caralho, volte para a África, heil Hitler!” tenham saído da sua boca. Pois é, mas Lewis Hamilton realmente anda se comportando de maneira bizarra. Hoje, ele desembestou a falar um monte de bosta no Twitter. “O que é importa é aquilo que te satisfaz e não o que os outros esperam de você”. “As pessoas sempre temem aquilo que é diferente, mas nós estamos sempre amadurecendo e mudando”. “Qual é a sua música favorita?”. “Você que me odeia: eu estou cuidando da minha vida, cuide da sua”. Pirou na batatinha. Este é Lewis, o piloto-popstar de 27 anos. Ops, eu falei popstar de 27? Tome cuidado, cara.

FÉRIAS: Depois desta corrida de Hungaroring, a Fórmula 1 parte para aquele seu famoso mês de férias. Não haverá atividades, portanto. Pilotos, mecânicos, jornalistas e aspones aproveitam o calorzão assassino do verão europeu e passarão alguns bons dias tomando sol e água de coco nas praias do Mediterrâneo. Para nós, que somos imbecis o bastante para não aproveitar os domingos de manhã na cama, quatro fins de semana seguidos sem GPs representam um puta alívio. E a espera valerá a pena. Depois deste hiato, teremos Spa-Francorchamps, Monza, Marina Bay e Suzuka. Pois é, amigos, o ano está chegando ao fim. Um a menos na nossa vida. Quem tem 27, como é o caso do nosso astro junkie Lewis Hamilton, deve se preocupar.

Felipe Massa. Por que ele é a melhor opção para a Ferrari e a Ferrari é a melhor opção para ele

Enquanto Fernando Alonso ganha corridas, arranja uma bela namorada nova, recebe elogios aqui e acolá e consagra-se como o homem mais feliz da Espanha, seu companheiro de equipe anda frequentando até mesmo sessões com psicólogo para tentar sair dessa fase altamente depressiva. Felipe Massa, piloto brasileiro com seis temporadas e meia de relevantes serviços prestados à Ferrari, está em um dos momentos mais tensos de sua vida. Incapaz de enfrentar Alonso na pista, o outrora agressivo Massa se contenta em terminar um domingo com dez ou doze pontos no bolso, sempre pensando em agradar aos ferraristas que pagam seu salário.

Dez corridas já foram realizadas até aqui neste ano. Neste exato minuto, Massa é o 14º no campeonato, com apenas 23 pontos. Está atrás de gente como Kamui Kobayashi, Pastor Maldonado e Paul di Resta, algo que soa inaceitável para um piloto da Ferrari. Se Alonso lidera o campeonato, faz o pessoal da Red Bull e da McLaren coçar a cabeça e dá seus sutis espetáculos, como é que Felipe não consegue sequer fazer duas corridas razoáveis seguidas?

Claro que esta é uma pergunta retórica. Todo mundo sabe que Massa levou uma molada na testa em Hungaroring há três anos e ficou um bom tempo de molho, perdendo um pouco do momentum. Todo mundo sabe, também, que Fernando Alonso tomou conta da equipe já em 2010 e a ordem de equipe do GP da Alemanha foi um duro golpe para um piloto que, diz a lenda, criticava a postura “subserviente” de Rubens Barrichello aos amigos íntimos. O mundo dá voltas, diz sua avó prudente.

Até aí, os três primeiros parágrafos não apresentam novidade alguma. Na verdade, o restante do texto também não trará nada de muito novo. Isso daqui é quase um editorial, se é que um blog tem dessas coisas. Se você perguntar a qualquer um que se interesse minimamente por Fórmula 1 se Felipe Massa deveria continuar na Ferrari, a resposta provável seria algo como “claro que não, cacete. Massa está fazendo um papel ridículo trabalhando como escudeiro de Fernando Alonso. Ele envergonha a nossa pátria, fere nosso orgulho e abobrinhas afins que fiz questão de censurar“.

Para a maioria das multidões, se Massa ainda tem algum interesse em voltar a ser um piloto respeitado na Fórmula 1, a única saída seria ele deixar a Ferrari e ir para qualquer outro lugar, nem que seja uma equipe péssima de tudo. Se eu realmente concordasse com isso, este monte de palavras mal agrupadas não existiria. Mas não concordo. Fica, Felipe, vai ter bolo.

 

Sergio Pérez, citado como o principal candidato à vaga de companheiro de Fernando Alonso em 2012. Vale a pena?

Não torço para Felipe Massa, mas acho que não há lugar melhor para ele que a Ferrari. E honestamente, não há piloto mais cômodo para a Ferrari do que Felipe Massa. Um precisa do outro.

Nos últimos meses, midiáticos e torcedores têm falado muito em Sergio Pérez Mendoza, um moleque com cara de índio que tem feito corridas bem interessantes nesta temporada a bordo de um eficiente porém apático Sauber. No GP do Canadá, por exemplo, ele saiu da 15ª posição rumo a um surpreendente pódio após apostar numa perigosa estratégia de apenas um pit-stop. Caracterizado pela pilotagem veloz e suave, Pérez vem batendo sistematicamente seu companheiro Kamui Kobayashi e impressionando muitas pessoas, algumas delas vestidas de vermelho.

No final de 2010, uma semana após assinar com a Sauber, o então vice-campeão da GP2 ingressou no Ferrari Driver Academy, aquele tal celeiro de jovens pilotos que são amamentados com leite de primeira para virarem ídolos em Maranello num futuro tão distante. Como mais novo contratado da Ferrari, Pérez passou a ser um assunto de relevo na equipe. 2010 havia sido um ano sofrível para Felipe Massa e o grupo comandado por Stefano Domenicali começou a filosofar se já não era hora de mandar o simpático piloto língua-presa para casa.

Pérez e Jules Bianchi, um mauricinho francês que tem muito crédito entre as torcedoras mais empolgadas, são as apostas para a Ferrari de amanhã. Uma Ferrari que pertencerá a Fernando Alonso até 2016. O bicampeão espanhol foi contratado para fazer exatamente aquilo que Michael Schumacher fez durante quase uma década: por ordem na casa e afundar o pé no acelerador dos carros italianos. Muito lentamente, a parceria rende seus frutos. Enquanto aproveita o melhor de Alonso, os italianos preparam as crianças para que possam assumir o seu lugar lá na frente.

Onde entra Felipe Massa nisso aí? Aí é que está.

O Ferrari Driver Academy não é uma escola de Bergers e Patreses. A Ferrari não gasta tempo, sola do sapato e dinheiro para criar pilotos que só servem para dar passagem e atrapalhar o curso dos caras das outras equipes. Ela quer vencedores. Pilotos decisivos, diferenciados, que são tão bons na pista molhada como na hora de motivar mecânicos e engenheiros. Hoje em dia, a equipe italiana tem Fernando Alonso e está muito feliz com ele. Portanto, não precisa de outro piloto com perfil semelhante. A McLaren, com seus célebres pares Senna/Prost e Alonso/Hamilton, demonstrou bem como é complicado manter dois gênios sob o mesmo Brasilit.

 

Jules Bianchi, terceiro piloto da Force India e cria da Ferrari. Este é outro que se enxerga em Maranello num futuro próximo

Portanto, se Pérez ou Bianchi quisessem entrar na Ferrari atual, eles poderiam trabalhar apenas como típicos escudeiros. O carro pior, os engenheiros menos nerds, o elevador de serviço, o vinho que dá ressaca, enfim, as sobras de Maranello seriam o que qualquer um desses meninos-prodígios teria direito hoje em dia. Dividir uma equipe com Fernando Alonso é isso aí. Eles sabem disso. Por isso, é melhor esperar um pouco. A própria Ferrari prefere ser paciente.

Mas a equipe precisa de um segundo piloto para 2013. Ela tentou tirar Mark Webber da Red Bull. O australiano é um perfil perfeito para a vaga: experiente, competente, sem grandes ambições para o futuro distante, camarada de Alonso e disposto a ser segundo piloto se isso significa pilotar um carro de ponta. Quase que a mudança aconteceu. A vitória de Webber em Silverstone reacendeu a chama de um casamento desgastado com a Red Bull. Dois dias após a corrida, Mark recebeu um contrato novo em folha na sua mesa. Assinou e deu uma banana aos italianos.

Sem poder contar com Webber e preferindo esperar um pouco para promover algum de seus jovens pilotos, a Ferrari se encontra sem muitas opções disponíveis no mercado. Para correr ao lado de Alonso, o piloto precisa ser ao mesmo tempo muito bom e muito pouco ambicioso. Ou muito desesperado. Quem poderia entrar aí neste balaio? Adrian Sutil, Jaime Alguersuari, Jarno Trulli, Vitantonio Liuzzi, Jerôme D’Ambrosio, Kamui Kobayashi, Timo Glock, Heikki Kovalainen, Bruno Senna, Luca Filippi, Davide Valsecchi, Davide Rigon e quem mais você quiser.

Qual desses aí vale mais a pena que Felipe Massa? Honestamente, não sei. Alguns aí, como Valsecchi e D’Ambrosio, definitivamente não perfazem o perfil dos sonhos de piloto da Ferrari. Outros, como Trulli e Liuzzi, deixaram seus melhores dias para trás há muito. Uma Ferrari mais cautelosa até poderia apostar num desses bons nomes que foram deixados de lado pelo destino, um Kovalainen ou Alguersuari da vida. Aí vem a segunda pergunta: um cara desses poderia fazer mais do que Felipe Massa vem fazendo hoje?

Considere vários fatores. Felipe é peça-chave da Ferrari desde 2006 e tem boas relações com Maranello desde 2001. Só Michael Schumacher teve um vínculo tão longo com a equipe em mais de 60 anos de história. O brasileiro deve conhecer mais do que qualquer um a forma de funcionamento da equipe, as pessoas que estão lá dentro, a filosofia ferrarista e a receita da macarronada da cantina. Nada que não possa ser aprendido por qualquer pessoa de fora, alguém diria. Nada que levará pouco tempo para ser agregado como uma espécie de cultura corporativa, eu responderia.

 

Mark Webber, que quase tomou o lugar de Felipe Massa na Ferrari em 2013. Uma rara opção tão boa como o brasileiro

Felipe está perfeitamente integrado à Ferrari e se dá muito bem com todo mundo que está lá dentro. Fico na dúvida se a troca por um Heikki Kovalainen da vida, cujo melhor predicado é a incerta possibilidade de obter alguns resultados melhores a curto prazo, valeria a pena. Entrando na Ferrari, um piloto vindo de fora poderia demorar algum tempo para se ambientar à equipe e começar a obter resultados. Se os ferraristas esperam dele boa colaboração logo de cara, esse período de ambientação não ajudará muito.

Há de ser pensar também se a Ferrari colaboraria com boas condições de trabalho. Ninguém aqui, eu e você, sabe o que se passa entre quatro paredes ferraristas. Vai lá imaginar o que o contrato de Felipe Massa diz e não diz. Pense que Alonso pode ter um carro mais moderno, veloz e polido. Uma estratégia mais inteligente. Um acerto mais adequado. Mais pão e vinho no almoço de domingo. Estamos falando de Fórmula 1. Esse negócio de “carros iguais, oportunidades iguais” dentro de uma mesma equipe é mito. Sempre foi, sempre será. Muita ingenuidade da parte de quem acredita.

É preciso ter uma enorme dose de otimismo e boa vontade para acreditar que Felipe e Alonso compitam em condições iguais. O espanhol não é bobo. Seu histórico de situações que lhe favoreceram é antigo. O motor 150cv mais potente que o de Tarso Marques nos tempos da Minardi. As estratégias que lhe favoreceram nos GPs da Austrália e de Mônaco de 2007 em relação ao colega Lewis Hamilton. A mediocridade do segundo carro da Renault em 2008 e 2009. A proteção onipotente de Flavio Briatore. Costumo defender Alonso, mas não consigo imaginar que as coisas sejam diferentes numa Ferrari que aprendeu com Schumacher que não dá para dividir todas as atenções com dois pilotos.

Por fim, tenho lá minhas ressalvas com aqueles que dizem que o Felipe Massa de hoje é menos talentoso do que um Kovalainen, um Alguersuari ou um Glock. Perdoem-me, mas ainda não acredito nisso. Felipe é um vice-campeão com onze vitórias no currículo. Pode ter perdido um pouco de confiança no acidente de Hungaroring, mas não desaprendeu a pilotar. Ainda acredito que o episódio de Hockenheim/2010 foi muito mais danoso do que a mola da Brawn. Se continuar tratando o lado emocional, como ele vem fazendo ultimamente, terá boas possibilidades de recuperar a forma antiga. E um Felipe com uma cabeça um pouco melhor já é o suficiente para bater qualquer um dos que falei acima.

Portanto, Felipe deve se esforçar ao máximo para permanecer na Ferrari. Há boas motivações para isso. Uma delas, a mais vil de todas, é o dinheiro. Atualmente, Massa ganha algo em torno de 10 milhões de euros anuais. Apenas Alonso e a dupla da McLaren embolsam mais verdinhas nesta temporada. Corre um boato que diz que uma renovação de contrato com a Ferrari estaria condicionada à redução drástica seu salário. Se Felipe começasse a ganhar, sei lá, cinco milhões por ano, suas cifras ainda estariam muito maiores do que a de pilotos das equipes médias. Ainda compensaria ficar na Ferrari, portanto.

 

Heikki Kovalainen pilotando a McLaren em 2009. Duvido que ele realmente prefira ser a cabeça da formiga ao rabo do elefante

“Se Felipe ficar apenas por dinheiro, ele será o maior vendido de todos, um subserviente de merda”. Dou risada de quem argumenta assim. Quer uma pessoa mais vendida do que aquela que bajula o chefe, trabalha no que odeia, acorda cedo, aceita ser perturbado até mesmo nas férias e nem ganha tanto assim? Você que não pense que, fazendo seus R$ 7 mil por mês na melhor das hipóteses enquanto camela num emprego filho da puta, é mais digno de aplausos e elogios do que um cara que é pago em milhões para pilotar uma Ferrari ao redor do mundo. Por 1/10 do que Massa ganha hoje, eu trabalharia limpando as latrinas da Ferrari.  Com a língua.

Outra boa motivação é o carro. Sair do papel de coadjuvante da Ferrari para ser rei na Sauber ou Force India é a pior coisa que pode acontecer para um piloto profissional. Uma Ferrari ruim ainda é uma Ferrari, que sempre tem totais chances de melhora. Hoje em dia, mesmo nos dias muito ruins, Felipe Massa tem boa chance de pontuar, coisa que nem sempre acontece numa equipe média mesmo que você tenha feito a melhor atuação da sua vida. Numa equipe pequena, nem adianta pensar muito. Pergunte a Heikki Kovalainen se ele não preferia estar desmoralizado na McLaren andando em 10º a celebrar um 16º lugar na Caterham.

Falo tudo isso, é claro, na hipótese de Felipe Massa ter facilidade de encontrar emprego, o que corresponde à realidade. Se até Lewis Hamilton está relutando sobre esse negócio de deixar a McLaren por não haver outro lugar melhor no mercado, alguém acha que realmente Massa teria condições de escolher a dedo onde correr?

Por fim, a satisfação pessoal. Massa ainda aparenta adorar seu emprego e sua equipe. Se não gostasse, teria dado uma de Kimi Räikkönen e pedido as contas para andar de jet-ski no Guarujá pelo resto da vida. E se ele está contente onde está, por que mudar? Direito de felicidade todos nós temos.

Uma última coisa. No Brasil, um monte de gente está dizendo um bocado de merda a respeito do cara. Que ele deveria ter autoestima e não se sujeitar a isso, que sua atitude feriu o orgulho do país, que é um mercenário, isso e aquilo. Um conselho, Felipe: mande todo mundo tomar no cu. OK, não seja tão boca-suja: mande o povo cuidar de seus respectivos orifícios anais. Ignore a estúpida e desnecessária opinião do brasileiro, um povo espúrio, cínico e semianalfabeto que nunca será levado a sério pelos demais. Não deixe seu bem-estar ser afetado pelo que dizem aqui nestas bandas. Faça sua vida e dê satisfação apenas à sua equipe e aos seus próximos. Quanto ao resto, uma banana.

Fica, vai ter bolo. Mas não de banana.

FERRARI9 – Como sempre, resultados destoantes. Fernando Alonso ganhou mais uma, a terceira no ano. Marcou a pole-position, fez o que quis na corrida, controlou o ritmo, conteve os ímpetos de Sebastian Vettel e Jenson Button e venceu. Felipe Massa largou lá atrás, bateu na largada e terminou lá no pelotão do Deus-me-livre. Bom trabalho nos boxes, carro acertadinho e consumo baixo de pneus permitiram que os ferraristas celebrassem mais um fim de semana impecável. Mas com apenas um piloto.

MCLAREN8 – Trouxe para Hockenheim um carro todo novo, com pecinhas especiais, combustível de nave espacial e motor de urânio enriquecido. Faltou apenas pedir encarecidamente a Lewis Hamilton para que não saísse por aí atropelando pedaços de carro. Graças a isso, o polêmico piloto britânico estourou um pneu e perdeu uma boa chance de conseguir alguns pontos. Pelo menos, Jenson Button conseguiu sair da sexta para a segunda posição após uma excelente atuação. É bom destacar também o trabalho supersônico dos mecânicos no segundo pit-stop de Button, que teve os quatro pneus trocados em inacreditáveis dois segundos e 31 centésimos.

LOTUS6,5 – Aquela coisa de sempre. Na quinta-feira, alimenta as esperanças de todos. Na sexta-feira, anda razoavelmente bem nos treinos livres. No sábado, se complica com pelo menos um de seus pilotos na qualificação. Na corrida, lamenta mais uma corrida ruim de Romain Grosjean e celebra algum resultado inesperado de Kimi Räikkönen. Este script foi seguido à risca em Hockenheim. O franco-suíço se envolveu num acidente na largada e não conseguiu nem sequer sentir o cheiro dos pontos. Räikkönen, sempre discreto, andou forte sem exceder e foi premiado com um pódio no tapetão. Quando virá a tal primeira vitória?

SAUBER9 – Grande domingo. Para uma equipe média numa corrida onde 23 pilotos chegaram ao fim, ter seus dois pilotos terminando em quarto e sexto foi um feito e tanto para Peter Sauber. Os destemidos Kamui Kobayashi e Sergio Pérez não fizeram nada no treino oficial, mas compensaram com uma atuação fenomenal na corrida. O mexicano até começou melhor, mas o japonês reagiu na metade da prova e foi premiado com uma ótima quarta posição. Injusto, no entanto, desprezar a ótima atuação de Pérez, que foi devidamente atrapalhado por um problema no câmbio durante os treinos e um pneu quadrado na corrida. Não demita o Koba, seu Peter!

RED BULL7 – Era a única equipe com um carro bom o suficiente para derrotar a Ferrari, mas não conseguiu sequer o pódio. Só não se meta a dizer que os pilotos tiveram culpa. O pobre do Mark Webber conseguiu um terceiro lugar na classificação, mas uma troca de câmbio o fez largar em oitavo. Infelizmente, ele terminou na mesma posição no domingo. Sebastian Vettel largou da primeira fila, tentou dar alguma dor de cabeça a Fernando Alonso e conseguiu garantir a segunda posição na penúltima volta. No entanto, a ultrapassagem sobre Button foi considerada ilegal e Vettel foi rebaixado para o quinto lugar. Punição exageradíssima.

MERCEDES3,5 – Não merecia nem ter pontuado. Os dois pilotos se esforçaram ao máximo, mas foram amplamente atrapalhados pelo seu cinzento objeto de trabalho. Não que Nico Rosberg tenha feito miséria no treino classificatório, mas a punição por troca de câmbio não o deve ter animado muito. Largando lá de trás, ele foi talvez o único piloto que se deu mais ou menos bem com a estratégia de três paradas. Michael Schumacher não precisou trocar de câmbio, largou em terceiro, foi ultrapassado por um monte de gente e terminou em sétimo sem pneus. Quando terão um fim de semana bom para os dois pilotos?

FORCE INDIA5 – Sem muitos abandonos ou acontecimentos nonsense na corrida, a Force India não podia esperar mais do que um bocadinho de pontos. Eles, dois, vieram com Nico Hülkenberg, que andou muito bem no treino oficial e decaiu durante a prova graças ao alto consumo de pneus de seu VJM05. O alemão voltou a render mais do que Paul di Resta, que largou em nono e terminou em 11º. Ele até sofreu mais com os pneus, pois parou apenas duas vezes. Mesmo assim, ainda terminou à frente de bastante gente.

TORO ROSSO2 – Em fase muito ruim, a equipe italiana passou mais um fim de semana zerada. Como sempre, Daniel Ricciardo foi o melhor no treino classificatório e Jean-Eric Vergne se recuperou bastante na corrida. Mesmo assim, nenhum dos dois consegue sequer beliscar um ou dois pontinhos. O australiano largou em 11º e perdeu posições por causa da falta de estabilidade de seu carro. Vergne teve um pneu furado e passou a maior parte do tempo disputando posições inúteis com as equipes minúsculas. A humanidade caminha e a Toro Rosso fica para trás.

WILLIAMS1 – Pior fim de semana no ano com sobras. Não ganhou nota zero apenas porque Pastor Maldonado andou muitíssimo bem nos treinos livres e conseguiu o quinto lugar no grid. A felicidade acabou aí. O venezuelano perdeu todas as posições que conseguiu e só não passou mais vergonha porque não bateu em ninguém. Foi uma compensação ao acidente de Valtteri Bottas na sexta-feira, que atrasou o cronograma do pobre do Bruno Senna. O sobrinho, aliás, não fez nada a não ser se envolver num problema com Romain Grosjean na primeira volta. Chegou ao fim, mas atrás de Vitaly Petrov. Pois é.

CATERHAM4 – Ninguém contava com isso, mas Vitaly Petrov foi o cara deste fim de semana. O russo fez uma corrida muito boa e terminou à frente de gente com carro bem melhor. Um bom trabalho para um cara que está pagando seus pecados após dois anos correndo para Eric Boullier. O companheiro Heikki Kovalainen não foi mal, mas acabou sumindo graças aos quatro pit-stops. É uma pena que uma corrida boa da equipe signifique tão somente terminar em 15º, 16º, coisa assim.

MARUSSIA3 – Assim como a Caterham, viu a ordem das coisas ser invertida em Hockenheim. O novato Charles Pic foi o melhor piloto da equipe: largou em 20º e terminou na mesma posição, à frente dos dois carros da HRT e do companheiro Timo Glock. O alemão, por sinal, foi uma das decepções ocultas do fim de semana: esteve lento durante todo o tempo e apanhou de Pedro de la Rosa no final da corrida. Quanto aos mecânicos, continuam incompetentes.

HRT3,5 – Os dois pilotos pareciam muito satisfeitos após a corrida, mesmo após terem terminado em 21º e 23º. Pedro de la Rosa ultrapassou Timo Glock no final da corrida e ficou muito orgulhoso por isso. E a volta mais rápida de Narain Karthikeyan foi melhor que a de Timo Glock, algo notável em se tratando do indiano. Mas bem que os mecânicos poderiam caprichar um pouco mais nos pit-stops.

TRANSMISSÃOLEVAR A SÉRIO – “Grande Prêmio da Alemanha, aqui no circuito de Nürburgring… Circuito de Hockenheim. Eu errei, errar é humano, mas tem gente que leva tudo a sério, né?”. Estas sábias palavras foram proferidas pelo locutor oficial da transmissão brasileira, que não teve de narrar rinha de galo neste fim de semana. Pouco antes da largada, ele confundiu Hockenheim com Nürburgring, mas corrigiu logo em seguida e ainda soltou a frase de protesto citada logo acima. Calma, amigo. Não levamos tudo a sério. Gostamos apenas de rir um pouco dos pequenos deslizes humanos que acontecem na televisão, uma instituição humana, afinal. Para mim e para muitos, você continuará sendo o melhor narrador que o Brasil já teve. Então, um pequeno e singelo recado: seu Luciano do Valle, não leve tudo a sério.

CORRIDAOS ASTURIANO PIRA – Mais uma vitória de Fernando Alonso, não é? Os opositores suspiram e reclamam. Chega. Alonso é mau-caráter, cabeçudo e sobrancelhudo demais para ganhar tanto assim. Ele pode até ser isso tudo, mas também é bom pra caramba. Sua pole-position não foi obra do acaso, assim como a liderança fácil e totalmente controlada. O F2012, ademais, evoluiu muito do início do ano para cá. Hoje, é carro para ganhar título, sim, senhor. Bem que Sebastian Vettel e Jenson Button, a dupla dinâmica de 2011, tentaram impedir, mas tiveram de se contentar com pódio – ou nem isso, no caso do alemão. A propósito, que punição mequetrefe, hein? Eu não torço pro Vettel, mas reconheço que foi uma puta falta de sacanagem o que fizeram com ele. E que ninguém venha com legalismo aqui. Eu sei que as regras foram decididas no briefing, mas elas não deixam de ser inaceitáveis. Se o mundo fosse um lugar perfeito, apenas cortes de chicanes seriam passíveis de punição. Agora, até mesmo a embarrigada não é permitida. Automobilismo chato.

GP2CORAGEM – Você precisa ter dois colhões e meio para largar de pneus slick quando 24 pilotos optam por pneus mais adequados para pista molhada. Então, aplaudam o meio colhão a mais que Johnny Amadeus Cecotto tem em relação aos demais. O venezuelano largou da 17ª posição e se aproveitou de uma pista que secava rapidamente para ultrapassar todo mundo e assumir a liderança com a rapidez de um meteoro. Deu até para fazer o pit-stop tranquilamente e manter a liderança até o fim. Luiz Razia terminou em sétimo e pôde largar em segundo na corrida de domingo. Infelizmente, uma rodada logo no começo o impediu de abrir uma distância maior na liderança do campeonato. Quem venceu foi o rapidíssimo e confiável James Calado, que comandou a prova de ponta a ponta. O terceiro colocado foi exatamente o brasiliense Felipe Nasr, que fez um excelente fim de semana e pulou para a nona posição no campeonato.

GP3VOO LIVRE – Essas corridas curtas da GP3 ficam patéticas quando há intervenção do safety-car e bandeira vermelha. Na primeira prova de Hockenheim, um temporal assassino fez com que houvesse não mais do que seis voltas de corrida em bandeira verde. Um abraço aos que são a favor dessas interrupções monstruosas quando chove. Patric Niederhauser ganhou após superar Conor Daly por apenas seis décimos. A segunda corrida foi um pouco mais interessante. Na primeira volta, a pobrezinha da Vicky Piria causou um reboliço que envolveu vários carros, levantou voo duas vezes e destruiu seu carro azul e branco. A mocinha passou a noite no hospital, mas ficou bem. Outro que voou longe foi o brasileiro Fabiano Machado, que pegou uma ondulação na grama e decolou por alguns metros, mas não se machucou. Venceu Mitch Evans, o talentoso neozelandês que merece atenção lá no futuro. Esse deverá voar alto de verdade.

FERNANDO ALONSO10 – Mais uma vitória do melhor piloto do ano até aqui. Se há dois anos o cara precisou da ajuda santa de Felipe Massa, dessa vez ele fez tudo sozinho e ainda driblou caras que aparentavam ter carros melhores. Na chuva, penou um pouco no segundo treino livre, mas fez sua parte na hora certa e marcou sua segunda pole-position no ano. A atuação de domingo foi digna de Alain Prost, aquele desgraçado que sempre conseguia ganhar pilotando o melhor carro ou não. O asturiano largou bem, teve dois ótimos pit-stops, segurou Vettel tranquilamente no segundo stint e conteve os sonhos de Jenson Button nas últimas voltas. Controlou a corrida do jeito que quis, não gastou muitos pneus e não teve problemas com retardatários. Faltou só o nariz.

JENSON BUTTON9 – Ele ainda vive. Depois de um longo e tristonho período de más atuações, o inglês finalmente voltou a fazer uma daquelas típicas corridas misteriosas e eficientes que só ele consegue. As novas atualizações da McLaren prometiam dar um novo gás à equipe na pista seca, mas choveu pra caramba tanto na sexta-feira como no sábado e o inglês não conseguiu nada além de um sexto lugar no grid. Ainda bem que o sol reinou no domingo. Button passou Pastor Maldonado, Nico Hülkenberg e Michael Schumacher sem grandes dificuldades, assumindo o terceiro lugar antes mesmo de seu primeiro pit-stop. Na segunda parada, tomou o segundo lugar de Sebastian Vettel e começou a ameaçar Fernando Alonso nas últimas voltas. Infelizmente para ele, os pneus acabaram no finalzinho e Vettel o ultrapassou na penúltima volta. Graças ao bom e velho tapetão, o alemão se deu mal e Button finalizou o dia numa ótima segunda posição.

KIMI RÄIKKÖNEN8,5 – Não sei como, onde ou por quê, mas o finlandês cachaceiro terminou o domingo com o troféu do terceiro lugar. A Lotus era outra equipe que tinha um carro bom para pista seca, mas choveu de novo e não deu para peitar Ferrari, Red Bull e McLaren. Kimi sofreu um pouco nos dois primeiros treinos livres, no Q2 e no Q3 da classificação, obtendo apenas o décimo lugar no grid. A melhor parte do fim de semana definitivamente ficou para a corrida. Ele partiu bem e ganhou muitas posições especialmente no segundo stint, quando utilizou seus últimos pneus macios. No final da corrida, estava andando em quarto sem sofrer pressão de ninguém. A punição de Sebastian Vettel o colocou no pódio, mesmo que não tenha havido champanhe. Räikkönen terminou o dia sem beber, mas com 15 pontos no bolso.

KAMUI KOBAYASHI8 – Inesperada ótima corrida, um alento para quem parece estar sendo aterrorizado pelo fantasma do desemprego. Não consegue andar bem nos treinos de jeito nenhum, mas ao menos se esforça para fazer um bom trabalho no domingo. Dessa vez, deu muito certo. Largando da 12ª posição, ele foi um dos poucos que partiram com pneus médios e preferiu se arrastar nas primeiras voltas para ver o que acontecia lá na frente. Graças a isso, seu primeiro pit-stop aconteceu apenas na volta 22. No segundo stint, mesmo com pneus médios, Koba subiu algumas boas posições e até ultrapassou o companheiro Sergio Pérez. No último trecho, já com os compostos macios, o cara marcou várias voltas mais rápidas e cruzou a linha de chegada numa confortável quinta posição. A punição de Sebastian Vettel o elevou para quarto. Que continue assim.

SEBASTIAN VETTEL9 – Segundo Derek Warwick, um criminoso digno de punição. Seu pecado capital foi aproveitar um pedaço da área de escape externa, asfaltada, para ganhar a segunda posição de Jenson Button nas últimas voltas. Graças a isso, ele foi punido com vinte segundos no tempo final e seu segundo lugar foi transformado em quinto. Injustiça. Vettel fez seu trabalho direitinho novamente e foi o cara que mais deu dor de cabeça a Fernando Alonso no fim de semana. Qualificou-se em segundo, conteve os ataques de Michael Schumacher na primeira volta e acompanhou Fernando Alonso durante todo o tempo. Nunca conseguiu esboçar uma tentativa de ultrapassagem, mas também nunca ficou para trás. No terceiro stint, foi ultrapassado por Jenson Button nos pit-stops, mas recuperou a posição no final. Só que a FIA não quis saber e puxou o tapete. Um saco, este negócio de ficar punindo a torto e direito.

SERGIO PÉREZ8 – Apesar do resultado, foi até mais convincente do que Kamui Kobayashi durante a maior parte do tempo. Faltou-lhe sorte, e talvez uma performance melhor no treino oficial, embora a perda de cinco posições no grid por punição também não anime ninguém. Com uma estratégia diferente da do japonês, Pérez teve um início de corrida melhor, embora tenha tido de parar um pouco antes do planejado graças a um problema no pneu. Mais adiante, com compostos mais duros, ele ficou preso atrás de Nico Hülkenberg por muito tempo e ainda acabou ultrapassado por Kobayashi não muito depois. Mesmo com tudo isso, ainda deu para terminar em sexto. Vem fazendo o estilo come-quieto.

MICHAEL SCHUMACHER6,5 – Tentar, ele tenta. O problema é que os resultados simplesmente não estão vindo, embora a onda de abandonos do início do ano pareça ter virado passado. Em casa, Michael até conseguiu se qualificar bem novamente, obtendo um bom terceiro lugar no grid. Na primeira volta, ameaçou roubar o segundo lugar de Sebastian Vettel e não conseguiu. Depois, seu carro começou a perder muito rendimento e ele se viu brigando com gente da Force India e Sauber. A estratégia de três paradas, tão genial no papel, não funcionou. Pelo menos, foi o único piloto da Mercedes a pontuar.

MARK WEBBER4,5 – Não teve sorte e também não brilhou. Como resultado, terminou apenas em oitavo. Um fim de semana discreto para o australiano, vencedor da etapa de Silverstone. As coisas até poderiam ter dado certo, mas a troca de câmbio o fez perder cinco posições no grid. Partindo da oitava posição, Webber não conseguiu fazer a corrida de recuperação que esperava. Seu carro não estava rápido e ele sofreu um bocado nas mãos de pilotos de equipes piores. Pelo menos, também não teve problemas durante a corrida, embora quase ninguém os tenha tido.

NICO HÜLKENBERG6 – Está em boa fase, embora o resultado da prova de Hockenheim não tenha sido excepcional. Andou bem nos treinos livres, ficou sempre entre os dez primeiros na qualificação e se qualificou numa excelente quarta posição no grid, atrás apenas dos patrões Vettel, Alonso e Schumacher. No início da corrida, tentou peitar o heptacampeão, mas não tinha carro para isso. Mesmo com a estratégia de três paradas, parecia não ter ritmo para tentar ultrapassar e foi mais visto tentando conter outros pilotos. Deu uma puta enxaqueca a Sergio Pérez na metade da corrida. No final, ainda agarrou dois pontos. Paul di Resta que comece a abrir os olhos.

NICO ROSBERG3,5 – Muito zicado em sua corrida natal, ainda saiu no lucro com um pontinho no bolso. Sua posição no grid já estava comprometida com a punição por ter de trocar o câmbio, mas largar de 21º já é um pouco demais. Sobrou a ele tentar uma estratégia desesperada de três pit-stops e ultrapassar o máximo de pessoas possível. Em partes, o plano deu certo especialmente nos dois primeiros stints. Um pouco mais de abandonos o teria ajudado bastante, mas o décimo lugar não foi um desfecho ruim para um fim de semana sofrível.

PAUL DI RESTA4 – Corrida normal. A perda do décimo lugar para Nico Rosberg, no final da corrida, não passou de mero detalhe. O escocês não brilhou em momento algum, teve dificuldades nos treinos livres e foi superado por Nico Hülkenberg no treino oficial novamente. Para a corrida, escolheu parar duas vezes e não se deu bem com isso, muito provavelmente pelo alto desgaste de seu carro. Terminou batendo na trave após ter andado algum tempo entre os dez primeiros.

FELIPE MASSA3 – O bom fim de semana de Silverstone esteve longe de se repetir em Nürburgring. O brasileiro foi mal no treino oficial e ainda se embananou num acidente na primeira volta. Após largar em 13º, Felipe acabou batendo na traseira de Daniel Ricciardo nos primeiros metros e estourou o bico. Teve de ir aos pits ainda na primeira volta e jogou fora qualquer chance de pontuar. Ainda fez uma razoável corrida de recuperação, mas isso é muito pouco quando se vê o companheiro de equipe ganhando mais uma.

DANIEL RICCIARDO3,5 – Obteve um 11º lugar no grid de largada que até empolgou algumas pessoas, mas a realidade crua e gélida se manteve a mesma no domingo. Um dos ímãs de problemas nas largadas deste ano, o australiano foi atingido por Felipe Massa logo no comecinho, mas pôde seguir em frente. Pena que seu Toro Rosso teve sérios problemas de saída de traseira durante a corrida e não o permitiu sonhar com pontos. Ao menos, terminou novamente à frente de Jean-Eric Vergne.

JEAN-ERIC VERGNE2,5 – Não adianta andar bem em corrida se os resultados nos treinos seguem sendo tão ruins. Não passou pelo Q3 pelo quarto GP consecutivo e só largou em 15º graças às milhares de punições aplicadas a pilotos que largaram à sua frente. Logo no começo da corrida, para piorar tudo de vez, teve um furo de pneu e despencou para o fim do pelotão. Até tentou se recuperar, mas passou longe dos pontos novamente. Dessa vez, pelo menos, ele tinha um carro muito rápido de reta, alcançando sempre a maior velocidade final tanto na qualificação como na corrida.

PASTOR MALDONADO3 – Não bateu em absolutamente ninguém, mas fez seus fãs passarem nervoso no domingo. Mandou muito bem nos treinos livres e chegou a liderar um deles. Na qualificação, ficou entre os seis primeiros nas três fases e galgou um sexto lugar no grid. Por causa disso, muita gente não entendeu a performance horrorosa do venezuelano no domingo. Ele até começou bem, mas perdeu posições freneticamente até o fim da corrida. A estratégia de três paradas não ajudou. Do que adiantou não esfolar o carro nos outros?

VITALY PETROV7 – Ótima atuação, talvez sua melhor neste ano até aqui. Terminou à frente de uma Williams, uma Lotus, o companheiro Heikki Kovalainen e as duas equipes pequeninas. Não superou o finlandês no treino oficial, mas se deu muito bem na largada e ganhou três posições. Parou três vezes e chamou a atenção por ter segurado Bruno Senna durante tanto tempo sem maiores encrencas.

BRUNO SENNA2 – Mais um fim de semana ruim e sem sorte. Na sexta-feira, teve de usar um carro todo torto porque Valtteri Bottas o danificou em um acidente no primeiro treino livre. Não foi bem em momento algum e acabou obtendo apenas o 14º lugar no grid, nove posições atrás de Pastor Maldonado. Na largada, para variar, teve problemas e acabou se encrencando com Romain Grosjean. Foi para os pits prematuramente e acabou perdendo qualquer chance na corrida. Ainda assim, ninguém esperava que ele terminasse atrás de um Caterham.

ROMAIN GROSJEAN0 – Tudo errado, absolutamente tudo. Já começou em desvantagem quando foi obrigado a trocar o câmbio, o que o faria perder cinco posições no grid. Não colaborou no treino oficial, onde passou para o Q2 por pouco, fez apenas o 15º tempo nessa parte e acabou apenas em 19º no grid definitivo. Na primeira volta, se envolveu numa batida com Bruno Senna e arrebentou todo o carro. Foi aos pits, consertou o que dava e voltou à ação. Dali até o fim, não andou rápido e terminou à frente apenas dos caras realmente lentos.

HEIKKI KOVALAINEN3,5 – Fim de semana normal, mas de resultado final bem inferior ao do companheiro Vitaly Petrov. Não fez nada de muito diferente nos treinamentos, embora tenha conseguido um bom 16º lugar no grid após tantas punições aplicadas aos rivais. Foi superado por Petrov logo na largada, mas pôde se recuperar lá na frente. O que o prejudicou em definitivo foram as quatro paradas, uma delas feita apenas para trocar o bico. Graças a isso, ele só conseguiu superar HRT e Marussia.

CHARLES PIC5 – Em uma pista onde andava bem desde os tempos da GP2, o ex-cabeludo fez um bom trabalho. No segundo treino livre de sexta-feira, terminou em 14º. Na qualificação, deixou Timo Glock para trás na casa do adversário e conseguiu, de quebra, um lugar à frente de Nico Rosberg. Também apareceu razoavelmente bem na corrida, embora tenha passado a maior parte do tempo com pneus mais duros. Foi, de longe, o melhor piloto da Marussia no fim de semana.

PEDRO DE LA ROSA5 – Outro que também logrou mais que o esperado neste fim de semana. Não fez nada de extraordinário nos treinos oficiais, mas surpreendeu ao ultrapassar Timo Glock nas últimas voltas. Segundo o próprio De la Rosa, foi a primeira vez que um HRT ultrapassou um Marussia em condições normais. Se foi isso mesmo, excelente.

TIMO GLOCK1 – Fim de semana dificílimo, talvez um dos piores da sua vida. Tirando um bom 15º lugar no molhado segundo treino livre de sexta, só passou agonia. Largou atrás do companheiro Charles Pic e tomou ultrapassagem da HRT de Pedro de la Rosa no final da corrida. Estava com um carro tão lento que sua volta mais rápida foi a pior de todas, inferior até mesmo do que a de Narain Karthikeyan. Que inferno, hein?

NARAIN KARTHIKEYAN3,5 – Terminou em último como sempre, mas disse ter feito sua melhor corrida no ano até aqui porque não ficou tão atrás de Glock ou De la Rosa. Cada um tem sua felicidade, né? No mais, não fez nada de muito diferente. Largou em último, andou lá atrás e chegou ao fim. Tá bom.

LEWIS HAMILTON2,5 – Fim de semana estranhíssimo e de resultado totalmente insatisfatório. Com um carro amplamente modificado, tinha boas chances na corrida. Chegou a ser o mais rápido do Q2, mas deslizou no Q3 e ficou apenas na sétima posição no grid. Deu um tremendo azar na segunda volta da corrida, quando foi o único que passou por cima de um destroço pontiagudo o suficiente para destroçar o pneu de seu carro. Foi para os boxes e despencou para as últimas posições. Como retardatário, se divertiu especialmente quando se intrometeu na briga entre Fernando Alonso e Sebastian Vettel. Atrapalhou o alemão e acabou sendo chamado de estúpido. Depois de aprontar um pouco, decidiu abandonar a corrida por conta própria.