Ele não fala inglês. Ele me atrapalhou. Duas vezes. Três. Ele é um cuzão. Ele é francês e nem toma banho todo dia. Convide o piloto alemão Timo Glock para algumas canecas de cerveja preta. Após a terceira ou quarta, faça a pergunta fatal: o que você acha de seu companheiro Charles Pic? Já ruborizado pelo efeito implacável do fermentado de malte e lúpulo, Glock começará a disparar uma série de ofensas e xingamentos sobre o colega. Ele não fala inglês. Ele tem cara de otário. O sobrenome dele não é de gente séria. Ele me atrapalhou. Seis vezes.

O clima na Marussia não anda bom, nem um pouco. No treino oficial do GP da Hungria, o novato Pic ignorou os retrovisores de seu carro e deu uma bela fechada justamente em Glock na última curva do circuito de Hungaroring. O alemão estava em sua volta rápida e graças ao incidente, não conseguiu nada além do 22º lugar no grid, logo atrás de Charles. Timo desceu do carro espumando, xingou todo mundo, chamou Pic de filho da puta, não conseguiu ser compreendido e depois ainda reclamou que “ele não entende inglês”. Surge aí uma nova rivalidade na Fórmula 1.

Uma guerrinha entre os companheiros é a última coisa que uma equipe pequena gostaria de ter. Como há problemas muito maiores, como a lerdeza do carro, a falta de fundos ou o preconceito da maioria das pessoas, um chefe de equipe de uma Marussia da vida não irá querer despender  tempo e energia para fazer com que seus dois pupilos fiquem de bem. São adultos, oras, eles que se resolvam. Mas às vezes, não dá. E isso obviamente contamina o restante da equipe.

Geralmente, colegas de uma escuderia pequena se dão bem, pois a união é sempre a melhor saída quando todos estão afundados na ruindade. As inimizades costumam acontecer sempre nas equipes maiores, onde as pressões e os egos são multiplicados por mil. Mas isso não é uma regra. Mesmo que boa parte das histórias não venha à tona, a Fórmula 1 já presenciou muitos casos de companheiros de escuderias pobres que simplesmente se odiavam. O Top Cinq de hoje relembrará alguns desses casos.

5- ERIC VAN DE POELE E GIOVANNA AMATI

Por três milhões de dólares, a bela Giovanna Amati comprou uma vaga na Brabham como se tivesse adquirido um par de sapatos numa grife londrina. A loura balzaquiana, de histórico pífio no automobilismo, foi contratada obviamente por questões marqueteiras. Bonita, rica, cheia do tal do glamour, briguenta, vítima de sequestro na adolescência, amigada com o sequestrador, flerte de Niki Lauda e Flavio Briatore, um perfeito chamariz para uma Brabham que devia até as calças e precisava urgentemente de patrocinadores.

Apesar de tudo, Giovanna era vista pela Brabham apenas como um mal necessário. Trazia dinheiro e audiência, mas não era digna de pilotar nada além de fogão, pensava o pessoal da equipe. Por causa dessa mentalidade, ela não fez um teste de pré-temporada sequer e recebeu um carro totalmente zicado. O companheiro era o bom Eric van de Poele, um belga que havia causado furor na Fórmula 3000 em 1990.

Van de Poele e Amati não tiveram muito tempo para se conhecer. Cada um deles parecia ter um propósito diferente. Enquanto o cara queria apenas fazer seu BT60B andar num nível minimamente competitivo, a garota estava apenas preocupada em se divertir um pouco e atrair todos os holofotes. Não por acaso, nos três primeiros GPs da temporada, ela e Ayrton Senna foram os pilotos mais procurados por jornalistas, fotógrafos e punheteiros.

Mas a moça era antipática, dizem alguns. Não que os jornalistas não sejam malas, mas Giovanna costumava tratar todos com rispidez. Reagia mal a perguntas sobre sua feminilidade, perdia a paciência com facilidade e evitava dar entrevistas. Sem TPM nem nada. Na Brabham, ninguém a levava a sério. Poucos toleravam sua presença. O próprio Van de Poele não gostava dela. No GP da Espanha, quando Amati não fazia mais parte da Brabham, ele se mostrou aliviado, pois “além de não andar nada, ela enchia muito o saco”. Nada como uma patricinha para irritar uma escuderia inteira.

4- AGURI SUZUKI E BERND SCHNEIDER

Na verdadeira feira da fruta que era a temporada de 1989, a concorrência pelo título de equipe mais incompetente da temporada era talvez até mais ferrenha do que aquela entre as melhores equipes. A Onyx tinha dinheiro, um carro bom e um corpo técnico sólido, mas sua administração era uma piada. A Rial teve um fim de ano horroroso, mas a equipe ao menos conseguiu um quarto lugar em Phoenix. A Osella fez um carro razoável, mas totalmente frágil. A Coloni, tadinha… E a Eurobrun foi a única que não se qualificou para nenhuma corrida.

Mas e quando a equipe tem boa organização, um ótimo patrocínio, dois pilotos competentes, Gustav Brunner e o apoio oficial de uma montadora japonesa e mesmo assim não consegue nada além de duas qualificações durante todo o ano? Esta é a história da Zakspeed, time da Alemanha Ocidental que era comandado por um ex-funcionário da Ford, Erich Zakowski. Após vários anos insistindo em um motor próprio, a Zakspeed tomou vergonha na cara no fim de 1988 e anunciou para 1989 a parceria com a Yamaha, que forneceria um motor V8 novinho em folha.

Os prospectos eram bons. A Zakspeed conseguiu roubar da inimiga Rial o projetista Gustav Brunner e ainda tirou da Ferrari o engenheiro Nino Frisson, ui. A dupla de pilotos era composta por Bernd Schneider, que viraria o rei do DTM alguns anos depois, e Aguri Suzuki, ao meu ver o melhor japonês depois de Kamui Kobayashi. O dinheiro era garantido pelos cigarros West, aqueles mesmos que patrocinaram a McLaren durante quase dez anos. Como esse pacote daria errado?

Deu. O Zakspeed 891 parecia um carro bastante convencional, mas na pista ele era uma desgraça completa. Para se ter uma ideia, a equipe fez pouquíssimas voltas na pré-temporada porque o motor não aguentava meia dúzia de voltas antes de explodir espetacularmente. E além de frágil, ele era fraquíssimo. A Yamaha anunciou um propulsor que poderia render 600cv, mas ele só produziu 560cv na vida real. Isso representava um déficit de 60cv em relação aos Judd e Cosworth DFR. E de até 150cv em relação ao Honda da McLaren.

O clima desandou por completo. E os pilotos entraram em guerra porque cada um culpava uma coisa diferente. O alemão Schneider, protegido da alemã Zakspeed, afirmava peremptoriamente que o grande responsável pelo fracasso era o motor V8 da Yamaha. Já Suzuki, japonês como a própria Yamaha, dizia que o motor era bom e o problema maior residia no chassi alemão. Em suma, cada um puxava a sardinha para sua pátria, e a guerra Alemanha-Japão ganhou corpo durante o ano. No fim das contas, o problema era o pacote, que incluía também a má vontade dos pilotos.

3- SÉBASTIEN BUEMI E JAIME ALGUERSUARI

Uma coisa que a Toro Rosso adora ver é seus dois pilotos em pé de guerra. Helmut Marko em si não vê quase nada, mas o sonho de consumo da Red Bull é apenas um piloto jovem, saudável, boa pinta, barato, muito veloz, muito carismático, muito inteligente e que tem estômago o suficiente para aturar uma equipe em chamas e um companheiro mascarado. Tipo assim, um Sebastian Vettel melhorado. Se não cumprir todas as exigências, nem adianta insistir. O cara que vá procurar emprego em outra roça.

Depois de ter dado um murro em Scott Speed, mandado Vitantonio Liuzzi catar coquinho lá na Índia e demitido Sébastien Bourdais por SMS, o patrão Franz Tost acreditava que tinha finalmente achado uma dupla digna dos anseios da turma do energético. Sébastien Buemi podia não ser o cara mais bonito da esquina, muito menos do planeta, mas andou bem o suficiente em 2009 para conquistar um espaço mais ou menos cativo na Toro. O companheiro Jaime Alguersuari é DJ e pega as menininhas. E ainda tinha um título na Fórmula 3 britânica, obtido quando ele tinha apenas 18 anos.

Buemi e Alguersuari acreditavam piamente que a Red Bull chamaria um deles para correr ao lado de Vettel num futuro não tão distante. Provavelmente, a própria Toro Rosso alimentava esta vã esperança. Cada um deles queria mesmo era ver o outro morto. Isso não ficou visível em 2010, quando os dois pilotos tiveram um ano apenas razoável e o clima da equipe estava aparentemente normal.

A panela de pressão explodiu no GP da Austrália de 2011, primeira etapa do ano. Graças a, quem diria, Nick Heidfeld. Após a corrida, o piloto da Renault explicou que não marcou pontos porque “um piloto da Toro Rosso bateu na traseira do meu carro nas curvas 10 e 11, o que o fez perder muita performance a partir daí”. Imediatamente, os dois colegas rubrotaurinos reagiram.

Alguersuari respondeu que “não era o responsável pelo acidente com Heidfeld. Eu estava exatamente atrás dele e vi o que aconteceu. Sébastien estava na curva 10 brigando com a Renault quando houve o toque”. Furioso, Buemi retrucou dizendo que quem teve a culpa foi o espanhol. E ainda aproveitou para reclamar sobre um toque entre ambos na primeira curva da corrida. “Não foi a primeira vez que isso aconteceu e preciso conversar com ele”, declarou o suíço.

A relação azedou de vez. No avião rumo à Malásia, eles ficaram 12 horas sem conversar mesmo tendo sentados um ao lado do outro. A relação não melhorou até o fim do ano, ainda mais quando ficou claro que ao menos um deles seria demitido. O ácido Alguersuari ainda sentenciou que “estava à frente de Buemi. O suíço é muito talentoso e pode ser mais rápido em uma volta que eu, mas há outras coisas necessárias para chegar à frente: solidez, ritmo, maturidade, força mental… No geral, acho que estou à frente dele”. Irrelevante. Os dois acabaram tendo o mesmo destino: a rua da amargura.

2- CHRISTIJAN ALBERS E TIAGO MONTEIRO

Em 2006, a obscuríssima MF1 Racing tinha um carrinho lento e simpático, um piloto lento e simpático e outro veloz e antipático pra cacete. Tiago Vagaroso Monteiro e Christijan Albers foram os pilotos escolhidos pela esquadra anglo-russo-canadense para pilotar o jurássico mas boa-pinta M01 na temporada. Monteiro tinha alguma experiência na estrutura, pois havia corrido por ela no ano anterior, quando ainda era amarela e se chamava Jordan. Já Albers era um calouro vindo da Minardi. Dos pilotos que pagaram pecados nas equipes pequenas de 2005, Monteiro e Albers eram os mais interessantes.

Os dois tinham famas opostas. Vagaroso, o luso, era uma figuraça que sabia rir até mesmo de seu curioso nome do meio, um verdadeiro cartão de visitas às avessas para um piloto de corridas. Albers fazia o tipo de “piloto holandês turrão e metido”, comportamento semelhante ao de Jos Verstappen. Na pista, a personalidade também era completamente diferente. Monteiro era calmo, sensato, nada agressivo e muito confiável. Albers era ousado, propenso a erros, irregular e muito rápido. Os dois eram, verdadeiramente, água e óleo.

Ainda assim, ninguém esperava que houvesse algum problema. Não tão cedo. Sempre nas últimas posições, Monteiro e Albers tiveram alguns entreveros durante a temporada que só serviram para torná-los inimigos. Tudo começou em Mônaco, quando Albers não teve o menor pudor em apertar Monteiro contra a mureta interna da “reta curva” dos boxes na hora da largada. O carro do português raspou no muro e não se descontrolou por muito pouco. Tivesse isso acontecido, os dois MF1 enganchariam e causariam um fuzuê bacana lá no fim do grid. Culpa do holandês, é claro.

Não muito depois, em Montreal, os dois voltaram a se pegar. Novamente, na primeira volta. Monteiro tentou ultrapassar Albers no hairpin, mas não calculou a manobra corretamente e acabou atropelando o carro de Christijan, que rodou e ficou de cara para o mundo. Irritadíssimo, Albers abandonou e apenas o lusitano seguiu em frente. Em uma entrevista após a corrida, o holandês foi lacônico, mas direto: “ficou claro para todos o que aconteceu”.

O ambiente pesou de vez na MF1. Albers e Monteiro já não se bicavam mais. As coisas pioraram drasticamente para o lado do português quando começaram a surgir boatos de que a MF1 seria vendida para uma joint venture holandesa que incluiria aí até mesmo o sogrão do próprio Christijan Albers. Tanto na pista como fora dela, a vitória foi do branquelo de Eindhoven. Mesmo assim, o duelo encarniçado continuou. Em Monza, Monteiro e Albers quase bateram enquanto disputavam uma posição na Variante del Rettifilo. Puto da vida, Christijan levantou o braço e o mandou para o inferno. Quer inferno maior do que a MF1 em 2006?

1- CHRISTIAN FITTIPALDI E PIERLUIGI MARTINI

 

“Eu não tenho respeito nenhum por um cara desses”. Frase forte, não é? Ela foi proferida pelo brasileiro Christian Fittipaldi numa ótima entrevista concedida ao Tazio Autosport. O cara em questão era ninguém menos que o italiano Pierluigi Martini, seu companheiro de equipe na segunda metade da temporada de 1993.

Christian e Martini dividiram a Minardi entre os GPs da Inglaterra e de Portugal daquele ano. Cada um deles estava lá sob circunstâncias diferentes. O sobrinho de Emerson Fittipaldi ainda era aquele jovem piloto que sonhava com voos mais altos na Fórmula 1. Havia debutado na categoria no ano anterior pela escuderia de Giancarlo Minardi, levava alguma grana e estava obtendo resultados muito bons para uma equipe pequena. Martini, por outro lado, era apenas um velho piloto italiano que queria prosseguir com a sua já decadente carreira. Ele havia sido chamado para substituir Fabrizio Barbazza, que não tinha mais dinheiro para custear sua vaga.

Fittipaldi até tinha seu espaço na Minardi, mas a equipe pertencia mesmo a Martini, verdadeiro patrimônio desde 1985. Com exceção de dois anos na Fórmula 3000 e da temporada de 1992, Pierluigi vestiu as cores de Faenza durante quase uma década. Portanto, seria difícil competir com ele em termos de atenções.

Mas bem que Pierluigi Martini não colaborou. Nos metros finais do GP da Itália, os dois protagonizaram uma das cenas mais inacreditáveis da história do automobilismo. Martini estava em sétimo e Christian vinha logo atrás, a apenas poucos décimos de distância. Eles entraram na reta dos boxes e o brasileiro queria tentar ultrapassar o colega ali na bandeirada. Mas Martini foi sacana e deliberadamente tirou o pé do acelerador. Fittipaldi não conseguiu desviar a tempo. E o resultado foi esse daí, imortalizado na foto.

Tão logo o carro parou, Christian desceu do carro e foi tirar satisfações com quem quer que fosse. Estava tão aliviado quanto revoltado. Martini logo se preocupou em dizer que “a telemetria mostrou que não tirei o pé do acelerador”. Mentira. Algum tempo depois, o piloto brasileiro checou a telemetria com um amigo, também do Brasil, que trabalhava na Minardi. A tecnologia prova que, na hora do impacto, a diferença de velocidade entre os dois era de 30km/h, coisa pra caramba quando dois carros estão quase colados.

Fittipaldi não engoliu sequer as desculpas que Pierluigi pediu após a corrida. Um já não confiava muito no outro antes daquele incidente. Depois daquilo, cada um ficou no seu lado. Mas Martini não precisava se preocupar. Duas corridas depois, Christian foi substituído por Jean-Marc Gounon por questões financeiras. Voa, canarinho, voa.

A Besta Holandesa. Jos Verstappen, lembram-se dele? Pois o cara parece fazer questão de ser uma besta intercontinental, esta é a verdade. Não me refiro apenas aos seus acidentes na Fórmula 1, mas também ao seu comportamento típico de um sujeito desequilibrado e incapaz de conviver em sociedade. Nesta semana, todos fomos surpreendidos pela notícia de que Jos, prestes a completar 40 anos de idade, foi preso por tentar atropelar sua ex-namoradinha de 24 anos de idade. Ela foi levada para o hospital toda machucada, mas está bem.

OK, muitos foram realmente surpreendidos, mas eu não. Não é a primeira vez que Verstappen apronta esse tipo de coisa. Com a mesma moça, ele já tinha quebrado o pau com ela violentamente no final de novembro. Sua ex-mulher, a pequena Sophie, foi aos tribunais em dezembro de 2008 acusá-lo de tê-la espancado, furado os pneus de seu carro e ainda tê-la ameaçado de coisas ainda piores via SMS, forma preferida de comunicação de Franz Tost. Em 2000, Jos e seu pai foram acusados de terem enchido de porrada um sujeito de 45 anos pouco antes de uma corrida de kart em 1998. O sujeito teve traumatismo craniano. Quanto a Verstappen, ele conseguiu escapar da cadeia em todas as ocasiões. Dessa vez, será um pouco mais difícil. Que a justiça seja feita.

Jos Verstappen está longe de ser o primeiro e infelizmente não será o último piloto famoso a ter cometido algum crime do tipo. Muitos pilotos de automobilismo são turrões ou simplesmente problemáticos a ponto de atropelarem a lei e o bom convívio sem dó. Há casos de pilotos americanos que possuem ficha criminal muito maior do que um currículo de bons resultados, casos de Salt Walther, John Paul Jr. e Randy Lanier. E é óbvio que não são somente pilotos que se envolvem neste tipo de problema. Chefes de equipe, engenheiros, jornalistas e todas as demais espécies também não estão isentos de exercitarem sua criminalidade.

O Top Cinq de hoje fala de um tipo especial de crime, o relativo à violência contra a mulher. No Brasil, a famosa lei de número 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, foi sancionada no dia 7 de agosto de 2006 pelo ex-presidente Lula. O Artigo 1º diz que “esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência familiar contra a mulher”. Entre outras coisas, a Lei Maria da Penha prevê, por meio do Artigo 44, uma alteração no Código Penal na qual uma lesão praticada contra qualquer ente do sexo feminino resultará em detenção de três meses a três anos. Sabendo disso, lembre-se: procure não espancar sua mãe, sua mulher ou sua filhinha, pois é coisa de filho da puta. Não quero ver você metido em uma história como estas daqui:

5- FLAVIO BRIATORE

Flavio Briatore é uma das figuras mais grotescas do automobilismo. Não me refiro ao fato dele ter obrigado um de seus pilotos a bater no muro de propósito para beneficiar seu companheiro. Nem ao fato dele ter destruído a carreira de tantos outros jovens pilotos. Nem ao fato dele ser cara-de-pau. Nem ao fato dele ignorar qualquer questão ética no esporte. Nem ao fato dele ser barrigudo pra caramba e ainda comer mulheres por cujas Playboy você paga muito caro. Falo de sua atitude escrota com Naomi Campbell.

Briatore e Naomi tiveram um relacionamento conturbado e interrompido em várias ocasiões entre os anos de 1998 e 2002. Após o término, eles ainda mantiveram um relacionamento que alternava entre uma amizade protocolar, brigas entre quatro paredes e um atribulado litígio judicial. A mídia britânica, que adora xeretar o lado humanamente sombrio das personalidades, adorava e vivia estampando manchetes com quebra-paus entre os dois. Ao mesmo tempo, cada um seguia sua vida. Tão logo os dois se separaram, Flavio logo se arranjou com a modelo de sangue azul Lady Victoria Hervey e comentava-se que Naomi Campbell havia tido uns affairs com Bono Vox e Robert de Niro. OK, OK!

Briatore está longe de ser uma flor que se cheire, mas Naomi Campbell tem um histórico tão duvidoso quanto. A modelo inglesa de origem jamaicana e chinesa (!) já foi internada em uma clínica de reabilitação para cocainômanos e foi acusada nada menos que dez vezes de ter agredido funcionários, colegas e até mesmo dois policiais. A história mais absurda, no entanto, foi o diamante que ela recebeu de presente com muito grado do presidente liberiano Charles Taylor. Como se sabe, a exploração de diamantes na África é uma das atividades mais sanguinárias no planeta e o presidente Taylor definitivamente não é um cara legal.

É óbvio que um relacionamento entre Flavio e Naomi teria de ter algum tipo de confusão maior. Em 2001, o chefão italiano agrediu a modelo em um cruzeiro de fim de semana. Naomi ameaçou processá-lo, mas Briatore conseguiu escapar das garras da justiça com um belo acordo: ele prometeu que lhe compraria algumas casas como forma de reparar a besteira. Esperta, Naomi foi atrás de propriedades caríssimas em Los Angeles, Nova York e Londres. A alguns amigos, afirmou que “foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida”. Que dupla, hein?

4- AL UNSER JR.

Se a história de Flavio Briatore tem seus tons de folclore, extravagância e marketing, a de Al Unser Jr. é ligeiramente mais dramática. Campeão da Indy em 1990 e 1994, Alfred certamente foi um dos melhores pilotos de seu país. A herança genética de seu pai, Al Senior, e do tio, Bobby, foi realmente muito boa. Infelizmente, o sucesso nas pistas não foi acompanhado por uma vida tranquila.

Não, Unser não foi estuprado pelo tio Bobby na infância. Ele tampouco viveu na pobreza ou em uma família desestruturada. Seu grande problema foi o álcool. O garoto-prodígio de Albuquerque era um alcóolatra de terminar a noite desmaiado em uma sarjeta ao lado de uma poça de vômito amarelado e fétido. A quem interessar possa, sua bebida preferida é a root beer, cerveja feita a partir da raiz de sassafrás.

Al sempre foi de beber bastante, mas as más consequências começaram a aparecer com força a partir do momento em que sua carreira na Indy perdeu força. Em 2002, durante um dos momentos mais difíceis de sua vida, Unser Jr. foi preso sob acusação de ter agredido Jena Solo, sua namorada de 38 anos de idade e quatro de relacionamento. Como aconteceu? Tudo começou quando Jena estava dirigindo o carro do namorado, que estava completamente chapado e incapacitado de dirigir. Eles seguiam à casa de Al, que ficava próxima ao circuito de Indianápolis. Era de madrugada e o carro estava em plena Interstate 465, longe de tudo.

Sem noção de nada, Unser Jr. não parava de mexer no câmbio enquanto Jena dirigia. Irritada, ela bateu no namorado, que ficou possesso. Como represália, o piloto americano enfiou uma bolacha na cara de Jena, deu um jeito de parar o carro, chutou-a para fora e foi embora, deixando ela no meio de uma rodovia deserta às três da manhã. A mulher sacou o celular e ligou para o 911 pedindo socorro. Não demorou muito e a ágil polícia americana prendeu Al Unser Jr., que só conseguiu se libertar após pagar fiança de trinta mil dólares. A partir daí, ele iniciou uma batalha para se curar do alcoolismo. Até este, posso dizer que o vício está ganhando de goleada.

3- GIOVANNA AMATI

Em um esporte machista como o automobilismo, chega a ser curioso que algum personagem do meio tenha sido vítima de alguma coisa. Bernie Ecclestone diz que levava muito sopapo da ex-mulher, a grandalhona Slavica. Mas Bernie não conta porque ele é de outro planeta. Conto uma historinha antiga de Giovanna Amati, a princesinha da Fórmula 1 do início dos anos 90.

Sua vida é uma maluquice digna daqueles roteiros estúpidos de novela das sete. Giovanni Amati, o patriarca, é o dono de uma rede de 51 cinemas de Roma. Anna Maria Pancani, a mãe, é uma atriz já aposentada que certamente se casou com Giovanni por amor e não pelas liras que garantiriam seu conforto eterno. Eles tiveram a pequena Giovanna em 1959. Ou 1962? Tenho várias fontes que apontam para os dois anos. Sejamos simpáticos com ela e vamos considerar que ela nasceu em 1962. Afinal, toda mulher gosta de ter menos idade do que a realidade.

A futura pilota da Brabham era uma verdadeira porra-louca. E adorava velocidade. Aos 15 anos, comprou uma modesta moto Honda de 500cc e conseguiu a proeza de escondê-la na garagem de casa durante dois anos. Quando completou dezoito anos, Amati se matriculou em uma escola de pilotagem ao lado de Elio de Angelis, outro nobre. Mas Giovanna alcançou a fama ainda em 1978, quando ela ficou sequestrada durante 74 dias.

Vamos aos detalhes. Na noite do dia 12 de fevereiro de 1978, Giovanna havia acabado de sair de um cinema, aonde tinha acabado de ir com dois amigos. Ela parou o carro a um lugar próximo à sua casa e começou a comer uma pizza. De repente, uma van estacionou ao lado e de dentro dela saltaram três homens encapuzados. Giovanna e amigos desconfiaram dos caras e entraram no carro, mas os sequestradores conseguiram arrebentar o vidro e raptaram a patricinha. Ela ficou em cativeiro durante 74 dias. Presa em uma caixa de madeira.

Os sequestradores queriam um milhão de dólares de resgate. Receberam 800 mil liras – não faço a menor ideia do que isso significava em dólares. Mesmo assim, o sequestro só acabou mesmo quando a polícia prendeu alguns dos membros da quadrilha, que já havia sequestrado mais de setenta pessoas. Os sequestradores que sobraram libertaram Giovanna em uma praia a cem quilômetros de Roma. Um dos membros era um francês alto e bem apessoado, Jean Daniel Nieto, 31 anos, casado e pai de dois filhos.

Após ser libertada, Giovanna ligou para Nieto e os dois marcaram um encontro em Via Veneto. Ao chegar ao local marcado, um policial à paisana reconheceu Nieto e o prendeu. Por incrível que pareça, Amati chorou por não querer que um de seus sequestradores fosse preso. Puro amor. Mas só o coração não serviu para salvar o marselhês da cadeia em 1980. Nove anos depois, Jean Daniel Nieto fugiu da cadeia e está foragido até hoje. (MENTIRA: o Ivan, da comunidade F1 Brasil do Orkut, disse que ele foi preso em 2010. Danke!) Enquanto isso, Giovanna Amati virou pilota de Fórmula 1. Aguinaldo Silva, faça melhor!

2- DIDIER CALMELS

O que você acha de um cara que, aos 38 anos, é bem-sucedido o suficiente para abrir uma equipe de Fórmula 1? Pois Didier Calmels preenchia perfeitamente esta descrição. Filho da alta sociedade parisiense, Calmels se formou em Direito e em Economia e fez grana como empresário e como administrador judiciário do Tribunal de Comércio das regiões de Nanterre, Saint-Denis e Saint-Pierre de l’Ile de la Réunion.

No início dos anos 70, Calmels se casou com Dominique, uma bela advogada que decidiu largar a carreira para se dedicar à vida de mamãe. Os dois criaram quatro filhos e todos viviam uma bela, confortável e alegre vida. Ou não? Didier ocupava grande parte do seu tempo com seu trabalho e com sua equipe de Fórmula 1, a Larrousse & Calmels, fundada em parceria com o amigo Gerard Larrousse em 1987. Enquanto isso, Dominique ficava em casa.

Calmels era apaixonado pela esposa, mas ela já estava cansada de ficar tanto tempo sem o marido. Em junho de 1988, Dominique conheceu um artista, perfil completamente diferente do workaholic Didier. Os dois tiveram um caso. Três meses depois, ela decidiu contar tudo o que aconteceu para o marido. Que não se conformou com os chifres, é claro. O casamento começou a ruir aí.

Madrugada do dia 1 de março de 1989. Didier e Dominique estavam bêbados. A mãe de Dominique estava presente. O casal, que estava prestes a se separar, começou a brigar. Briga séria de três horas. De repente, Didier pegou sua espingarda e apontou para sua própria cabeça. Incrédula, Dominique começou a rir e sugeriu que ele não teria coragem de cometer suicídio. Calmels respondeu “ah, não tenho? Pois vou provar para você”. E disparou um tiro no peito de Dominique, que morreu na hora.

Didier Calmels foi preso e levado a julgamento. O Tribunal Criminal de Paris sentenciou o ex-sócio de Gerard Larrousse a seis anos de prisão, mas ele acabou tendo a pena reduzida. Hoje, Calmels é dono de um fundo de investimento. Quanto à Larrousse, ela sobreviveu aos impulsos assassinos de um de seus criadores originais. Mas não resistiu à falta de dinheiro e tomou seu próprio tiro de espingarda em 1995.

1- ??????????????

Esta história eu ouvi de um cara que eu conheci aqui no meu trabalho. Não vou citar nomes, é claro. Caso você queira especular sobre o nome do cara e publicar aqui, sinto dizer: terei de fazer uma pequena censura. Só quero evitar um problema grande para mim e para vocês.

A lenda é boa, digna de um livro policial. Consta que, há algum tempo, um piloto que se tornou razoavelmente bem-sucedido na Fórmula 1 cursava uma universidade razoavelmente badalada em determinada região do universo. Quando eu digo badalada, quero dizer que somente filhos de empresários, políticos e demais categorias de gente pobre estudavam lá. Assim como todo universitário que não tem a menor obrigação de prestar contas a ninguém, este piloto curtia festinhas, putarias, bebedeiras e sabe-se lá mais o quê.

Em certa ocasião, entupido de álcool e farinha, o piloto e mais alguns amigos bacanas cometeram a cagada de violentar e matar uma menina. Novinha. Ela provavelmente deve ter sido levada a uma festa, onde o pessoal literalmente deitou e rolou. Morta a menina, o clima pesou. A melhor solução foi sumir com o cadáver dela, que estava em condições deploráveis. Como todo mundo envolvido ali era rico e tinha bons contatos, nada aconteceu. Tanto que um deles, ao invés de virar noivinha de penitenciária, acabou indo parar na Fórmula 1.

Não vou entrar em mais detalhes, é claro, até porque a única fonte que eu tenho é este testemunho, algo longe de ser muito confiável. Pode ser que seja apenas mais uma lenda. Pode ser que o piloto em questão não tenha qualquer envolvimento com isso. O fato é que esta história surpreenderia a muitos, como, aliás, me surpreendeu. E é por essas e outras que sou meio cruel no julgamento do íntimo das pessoas, sejam elas públicas ou privadas. Tenho certeza de que muito mais gente proba e bem-reputada do que nossa vã imaginação prevê tem umas histórias tão bizarras quanto esta aí.

Essa notícia quase passou despercebida por nós. A espanhola Maria de Villota, 32, testou em algum dia não informado deste mês um Renault R29 no circuito de Paul Ricard. Maria, filha do ex-piloto Emílio de Villota, deu algumas voltas em um carro de 2009 com a pintura preta e dourada do R31 deste ano. Na atual Fórmula 1, os testes são proibidos, a não ser que a equipe faça um teste aerodinâmico ali, promova alguma filmagem acolá ou proporcione a algum novato uma sessão de degustação. Sendo este um teste ou não, o fato é que a moça deve ter se divertido um bocado.

De Villota não é lá aquelas coisas contornando curvas, mas se destaca muito por outros tipos de curva. Na Superleague Formula, ela faz o Atlético de Madrid passar vergonha lá no fundão do grid. Após 25 corridas, seu melhor resultado foi um quarto lugar na segunda corrida da etapa de Nürburgring em 2010. Em treinos classificatórios, o panorama é ainda mais triste: um 12º em Magny-Cours no ano passado foi sua melhor posição no grid. Mas nada disso é relevante se pensarmos na beleza dela.

Engana-se quem acha que ela é a primeira moça a pilotar um carro da quase misógina Fórmula 1. Em 2005, a inglesinha Katherine Legge participou da última sessão de testes da história da Minardi. Deu 27 voltas em Vallelunga até bater nos pneus. Foi a última vez que uma mulher pilotou um carro da categoria. Que já teve cinco delas inscritas para corridas na categoria. O Top Cinq de hoje contará um pouco de cada uma delas.

Só um detalhe: tirando a primeira colocada, nenhuma se destaca muito pelas qualidades que interessam diretamente a nós. As meninas da Indy, principalmente a Danica Patrick e a Simona de Silvestro, dão de dez a zero na lista aí.

5- MARIA TERESA DE FILIPPIS

Maria Teresa parece nome de avó. De fato, ela já está com 85 anos de idade e tem dois netinhos vivendo lá em Milão. Quem a vê sem conhecê-la imagina que se trata de mais uma simpática idosa que vive em casa fazendo deliciosos bolos de fubá e tricotando cachecóis para “suas crianças”. Nada disso. De Filippis ainda é uma mulher ativa no mundo do automobilismo. Mesmo não estando muito longe do centenário, ela preside o Clube Maserati de seu país e também atua como vice-presidente do Clube de Ex-Pilotos de Fórmula 1.

E pensar que sua primeira paixão era o hipismo. O que a fez trocar os cavalos do estábulo pelos cavalos de potência em 1948 foi uma provocação de seus dois irmãos, que afirmaram que ela nunca conseguiria pilotar um carro de corrida. Irritada, ela se inscreveu para a corrida de Salerno-Cava dei Tirreni. De maneira surpreendente, pilotando um modesto Fiat 500s, Maria Teresa conseguiu vencer logo de cara em sua categoria.

Daí para frente, De Filippis disputou várias corridas na Itália e se deu bem na maioria delas. Sofreu alguns acidentes violentos, sendo o mais grave o ocorrido no Tour da Sardenha de 1954, mas nunca pensou em abandonar o esporte. Além disso, conseguiu desenvolver um bom relacionamento com os demais pilotos e com as construtoras OSCA e Maserati, que se interessou por ela após um vice-campeonato no Campeonato de Carros-Esporte da Itália.

Maria Teresa De Filippis conseguiu, enfim, estrear na Fórmula 1 em 1958. Pilotando seu próprio Maserati 250F, não se classificou em Mônaco e terminou numa boa décima posição na Bélgica. O fato mais curioso, no entanto, aconteceu na etapa seguinte, na França. Naqueles tempos, a mulher só servia para obedecer ao marido, cozinhar e transar. Surpreso com a inscrição de De Filippis para a etapa, o diretor de prova vetou sua participação, alegando que “o único capacete que uma mulher deveria utilizar é o do cabeleireiro”. Não se irrite, cara leitora.

Em 1959, impressionado com a pilota, o francês Jean Behra a convidou para correr em sua equipe no ano seguinte. Na complicada pista de Mônaco, De Filippis acabou não conseguindo se classificar com um carro muito ruim. Além disso, ela estava cada vez mais desiludida com o automobilismo. No ano anterior, seu amigo e incentivador Luigi Musso faleceu na mesma corrida francesa da qual ela foi vetada. Em 1959, a morte de Jean Behra em uma corrida em AVUS enterrou de vez sua vontade de seguir correndo. Mais prudente do que a esmagadora maioria dos homens, Maria Teresa de Filippis decidiu abandonar as pistas.

4- LELLA LOMBARDI

Se você ficou impressionado com Maria Teresa de Filippis, saiba que houve uma mulher ainda mais apaixonada por carros. Maria Grazia Lombardi, mais conhecida como Lella Lombardi, foi a pilota de maior sucesso da história da Fórmula 1. Ela se inscreveu para dezessete corridas, largou em doze e até marcou meio pontinho, no Grande Prêmio da Espanha de 1975. Como a corrida havia sido interrompida após um acidente, os seis primeiros receberam apenas metade dos pontos. Chovia pra caramba e Lella foi uma dos únicos oito pilotos que terminaram.

Embora este currículo não seja o mais impressionante da história da categoria, o fato dela ter conseguido isso em uma época na qual as mulheres só estavam começando a desbravar os ambientes masculinos torna tudo especial. E é claro que não dá para considerar apenas a Fórmula 1 para falar da competência de Lella Lombardi.

Filha de um açougueiro cujo interesse por automobilismo era mínimo, nada indicava que Lombardi se tornaria uma pilota de corridas no futuro. Diz a lenda que sua paixão por carros começou quando ela era apenas uma menininha. Jogando beisebol com seus amigos, Lella levou uma bolada daquelas no nariz e rumava para um hospital quando um Alfa Romeo azul parou e o motorista se ofereceu para levá-la ao tal hospital. Apressado, ele ziguezagueava sua Alfetta no trânsito, subia em cima das calçadas e acelerava com tudo. Lombardi achou tudo aquilo o máximo. Naquele momento, ela descobriu sua grande paixão: a velocidade.

Aos nove anos, ela aprendeu a dirigir o Fiat Topolino de seu pai. Aos treze, ela já circulava tranquilamente na cidadezinha de Frugarolo. Aos dezoito, tirou a desejada carta. Aos 25, contra a vontade da família, estreou no automobilismo. Conheceu um piloto de rali, que a convidou para ser sua navegadora. Após alguns resultados ruins, Lella pediu para inverter os papéis. Em seu primeiro rali como pilota, ganhou. A partir daí, sua carreira decolou. E ela até sacrificou três casamentos para realizar o sonho de ser uma pilota de sucesso.

Lella sempre se saiu muito bem nas categorias pelas quais passou e até ganhou um campeonato de turismo no México em 1973. No ano seguinte, fez sua estréia na Fórmula 1 com um carro da Brabham. O interessante é que seu patrocinador era uma rádio de Luxemburgo cuja freqüência era 208 FM. Para fazer uma média, Lombardi se inscreveu com o número 208. Foi o número mais alto já utilizado na história da Fórmula 1.

No ano seguinte, Lombardi foi chamada para disputar algumas corridas pela equipe oficial da March. Apoiada pelo industrial Vittorio Zanon, ela não fez feio e conseguiu largar em dez corridas. Terminou em sexto na Espanha e em sétimo na Alemanha. Na última corrida, trocou a March pela Williams e também conseguiu se classificar, mas não largou por ter tido problemas de ignição no warm-up. No ano seguinte, Lella largou em mais duas corridas pela March e RAM. Após a Fórmula 1, ela disputou corridas de turismo e só desistiu da carreira para se tratar de um câncer que a acabaria matando no início de 1992.

3- DIVINA GALICA

O que dizer, então, de uma pilota de Fórmula 1 que também era esquiadora? Divina Mary Galica é uma inglesa de origem italiana que caiu de pára-quedas no automobilismo em meados dos anos 70. Até 1974, ela nunca havia pensado em correr profissionalmente. Uma estúpida corrida de celebridades a fez mudar de idéia.

Galica era uma conceituada esquiadora que havia liderado a equipe inglesa de esqui nas Olimpíadas de Inverno de 1964, 1968 e 1972. Apesar de nunca ter ganhado medalhas nestas competições, Divina obteve trunfos em outros campeonatos e, por muito tempo, deteve o recorde de velocidade em descida na Inglaterra, com uma marca de mais de 200km/h.

Em 1974, ela foi convidada para participar de uma corrida de celebridades em Brands Hatch. Divina Galica entrou em um Ford Escort e andou muito bem, conseguindo a segunda posição no final. O ótimo desempenho atraiu as atenções de John Webb, diretor do autódromo, que decidiu apoiá-la em sua inédita carreira no automobilismo. Webb a levou para disputar uma corrida contra pilotas profissionais. Galica não decepcionou e terminou em segundo novamente. A partir daí, ela deixou os esquis de lado e decidiu se concentrar nas corridas de carro.

Em 16 de julho de 1976, Divina Galica chamou a atenção de todos ao quebrar cinco recordes britânicos de velocidade na pista do aeroporto de Fairford. Pilotando um Surtees TS equipado com motor especial de 16,3 litros, ela conseguiu aniquilar, com folga, a antiga marca, que esteve intacta por 50 anos. No dia seguinte, ela estava em Silverstone tentando se classificar para sua primeira corrida de Fórmula 1 com um antiquado Surtees-Ford da equipe privada Shellsport. Infelizmente, não conseguiu. Deve ter sido culpa do número 13 de seu carro, utilizado pela segunda (e última) vez na história da Fórmula 1.

Dois anos depois, Divina Galica foi anunciada como a única pilota da equipe Hesketh. Na imprensa, ela era tão visada quanto os campeões James Hunt, Niki Lauda e Emerson Fittipaldi. Para se ter uma idéia, até mesmo a Rede Globo, em seus anúncios na mídia impressa, dizia que uma das atrações da temporada 1978 era a presença da britânica. As entrevistas eram inúmeras e o assédio sobre ela era enorme, mas Galica diz nunca ter sido desrespeitada por ser mulher. Eram tempos diferentes dos de Maria Teresa de Filippis.

Para sua infelicidade, o carro era muito ruim e não foi possível se classificar para as duas primeiras etapas, em Buenos Aires e em Interlagos. No Brasil, aliás, ela foi acusada por Mario Andretti de tê-lo atrapalhado em um treino classificatório. Após a etapa brasileira, Divina Galica deixou a Fórmula 1 e foi disputar o campeonato Aurora, uma espécie de Fórmula 1 britânica. Em 1992, ela voltou a esquiar e disputou as Olimpíadas de Inverno. Em 1997, fez sua última temporada no automobilismo, lá na Fórmula Ford 2000 americana.

2- DESIRÉ WILSON

Uma pilota da África é praticamente um tabu. Nos dias atuais, só me lembro da sul-africana Jennifer Murray, que chegou a andar na A1GP. Na Fórmula 1 de mais de trinta anos atrás, havia outra, que estava longe de ser ruim. Desiré Randall, que adotou o sobrenome Wilson após se casar, foi talvez o maior desperdício de talento desta lista.

Ela não era tão bonita, mas compensava na pista. Na África do Sul, ganhou tudo o que foi possível. Ao chegar na Europa, barbarizou nos campeonatos de Fórmula Ford. John Webb, o mesmo que apoiou Divina Galica, decidiu dar uma força para Desiré inscrevendo-a no Aurora Championship, que utilizava carros antigos de Fórmula 1. Pilotando um antigo Tyrrell de Patrick Depailler, ela não decepcionou e terminou o campeonato de 1979 na sétima posição, com 28 pontos marcados. No ano seguinte, Desiré surpreendeu a todos vencendo, de ponta a ponta, a etapa de Brands Hatch a bordo de um Wolf. Foi a única vitória de uma mulher na Fórmula 1. Não era A Fórmula 1, mas era uma Fórmula 1 de qualquer jeito.

Pelo seu fantástico desempenho, a equipe RAM quis lhe dar uma oportunidade para disputar o Grande Prêmio da Inglaterra de 1980. Alguns dias antes, ela fez um teste com o bom Williams FW07 de Emilio de Villota e conseguiu o nono tempo entre 21 pilotos, algo incrível. Na corrida, no entanto, a RAM lhe deu o carro antigo de Eliseo Salazar, um FW07 que havia sido destruído em outra corrida e que estava uma merda. Com sérios problemas de pneus, Wilson não conseguiu se classificar para a corrida, única que consta nos seus registros oficiais na FIA.

Ela ainda disputou o Grande Prêmio da África do Sul de 1981 pela Tyrrell, mas esta corrida foi excluída dos registros por problemas políticos. Infelizmente, ela não tinha os 100 mil dólares que Ken Tyrrell precisava e acabou dando seu carro a Kevin Cogan e Ricardo Zunino. Nos anos seguintes, Desiré Wilson penou mais um pouco na Indy, mas conseguiu encontrar a felicidade nos carros de turismo. Hoje, ela e o marido Alan coordenam uma empresa de construção e reformas de circuitos lá na África do Sul.

1- GIOVANNA AMATI

Ela só é a primeira da lista porque foi a última a aparecer na Fórmula 1. E talvez por ser a mais bonita. Giovanna Amati destoa do resto das mulheres desta lista por ter sido uma tremenda patricinha – e que patricinha!

A história dela é digna de novela. Nascida em 1959, Giovanna é filha de um proprietário de uma enorme cadeia de cinemas em Roma. Rica, metida e ousada, ela conseguiu comprar uma moto Honda de 500cc aos 15 anos! E o mais incrível é que seus pais só descobriram a bela aquisição dois anos depois! No dia 12 de fevereiro de 1978, enquanto saía de carro com dois amigos, Amati foi abordada por três homens mascarados, que a levaram para um cativeiro e a mantiveram presa em uma caixa de madeira durante 74 dias. Após o pagamento de 800 mil libras, Amati foi libertada. Mas sua biografia extraordinária não acabou aí.

Após o seqüestro, Giovanna e um dos seqüestradores, o francês Daniel Nieto, mantiveram contato e se encontraram várias vezes. Síndrome de Estocolmo, sabe? Depois desse rápido, affair, ela decidiu que queria ser pilota de corrida. Se matriculou em uma escola de pilotagem junto ao amigo Elio de Angelis, foi aprovada e estreou na Fórmula Abarth em 1981. Nesta categoria e na Fórmula 3 italiana, ela chegou a vencer algumas corridas, mas nunca foi considerada uma futura campeã. Na Fórmula 3000, disputou corridas entre 1987 e 1991 e obteve um sétimo lugar como melhor resultado.

É óbvio que ela só estreou na Fórmula 1 em 1992, pela Brabham, por ser mulher, por ser bonitona e pela possibilidade de atrair alguns patrocinadores para a combalida equipe. As más línguas diziam também que dois supostos “rolos” seus, Niki Lauda e Flavio Briatore, deram uma forcinha. O problema é que, além dela não ser lá uma grande pilota, seu carro era uma bomba. Resultado: três tentativas de classificação, três fracassos.

Gostaria de falar sobre Giovanna Amati em um post mais detalhado. Por enquanto, conto apenas algumas fofocas dela fora do carro. Os jornalistas a detestavam, pois ela era insuportável e se recusava a dar entrevistas. Um deles chegou ao ponto de xingá-la de dondoca! Até mesmo o próprio companheiro de equipe, Eric van de Poele, chegou a afirmar que “além de não andar nada, Giovanna ainda enche o saco”. No Brasil, para relaxar um pouco, porque patricinha nenhuma é de ferro, Amati deu um pulo no Shopping Morumbi, comprou algumas roupas e duas fitas de sambas-enredo do carnaval paulista. Como se vê, pela precisão desses detalhes, dá para ver que ela não era rápida sequer para fugir dos paparazzi.