Ele não fala inglês. Ele me atrapalhou. Duas vezes. Três. Ele é um cuzão. Ele é francês e nem toma banho todo dia. Convide o piloto alemão Timo Glock para algumas canecas de cerveja preta. Após a terceira ou quarta, faça a pergunta fatal: o que você acha de seu companheiro Charles Pic? Já ruborizado pelo efeito implacável do fermentado de malte e lúpulo, Glock começará a disparar uma série de ofensas e xingamentos sobre o colega. Ele não fala inglês. Ele tem cara de otário. O sobrenome dele não é de gente séria. Ele me atrapalhou. Seis vezes.

O clima na Marussia não anda bom, nem um pouco. No treino oficial do GP da Hungria, o novato Pic ignorou os retrovisores de seu carro e deu uma bela fechada justamente em Glock na última curva do circuito de Hungaroring. O alemão estava em sua volta rápida e graças ao incidente, não conseguiu nada além do 22º lugar no grid, logo atrás de Charles. Timo desceu do carro espumando, xingou todo mundo, chamou Pic de filho da puta, não conseguiu ser compreendido e depois ainda reclamou que “ele não entende inglês”. Surge aí uma nova rivalidade na Fórmula 1.

Uma guerrinha entre os companheiros é a última coisa que uma equipe pequena gostaria de ter. Como há problemas muito maiores, como a lerdeza do carro, a falta de fundos ou o preconceito da maioria das pessoas, um chefe de equipe de uma Marussia da vida não irá querer despender  tempo e energia para fazer com que seus dois pupilos fiquem de bem. São adultos, oras, eles que se resolvam. Mas às vezes, não dá. E isso obviamente contamina o restante da equipe.

Geralmente, colegas de uma escuderia pequena se dão bem, pois a união é sempre a melhor saída quando todos estão afundados na ruindade. As inimizades costumam acontecer sempre nas equipes maiores, onde as pressões e os egos são multiplicados por mil. Mas isso não é uma regra. Mesmo que boa parte das histórias não venha à tona, a Fórmula 1 já presenciou muitos casos de companheiros de escuderias pobres que simplesmente se odiavam. O Top Cinq de hoje relembrará alguns desses casos.

5- ERIC VAN DE POELE E GIOVANNA AMATI

Por três milhões de dólares, a bela Giovanna Amati comprou uma vaga na Brabham como se tivesse adquirido um par de sapatos numa grife londrina. A loura balzaquiana, de histórico pífio no automobilismo, foi contratada obviamente por questões marqueteiras. Bonita, rica, cheia do tal do glamour, briguenta, vítima de sequestro na adolescência, amigada com o sequestrador, flerte de Niki Lauda e Flavio Briatore, um perfeito chamariz para uma Brabham que devia até as calças e precisava urgentemente de patrocinadores.

Apesar de tudo, Giovanna era vista pela Brabham apenas como um mal necessário. Trazia dinheiro e audiência, mas não era digna de pilotar nada além de fogão, pensava o pessoal da equipe. Por causa dessa mentalidade, ela não fez um teste de pré-temporada sequer e recebeu um carro totalmente zicado. O companheiro era o bom Eric van de Poele, um belga que havia causado furor na Fórmula 3000 em 1990.

Van de Poele e Amati não tiveram muito tempo para se conhecer. Cada um deles parecia ter um propósito diferente. Enquanto o cara queria apenas fazer seu BT60B andar num nível minimamente competitivo, a garota estava apenas preocupada em se divertir um pouco e atrair todos os holofotes. Não por acaso, nos três primeiros GPs da temporada, ela e Ayrton Senna foram os pilotos mais procurados por jornalistas, fotógrafos e punheteiros.

Mas a moça era antipática, dizem alguns. Não que os jornalistas não sejam malas, mas Giovanna costumava tratar todos com rispidez. Reagia mal a perguntas sobre sua feminilidade, perdia a paciência com facilidade e evitava dar entrevistas. Sem TPM nem nada. Na Brabham, ninguém a levava a sério. Poucos toleravam sua presença. O próprio Van de Poele não gostava dela. No GP da Espanha, quando Amati não fazia mais parte da Brabham, ele se mostrou aliviado, pois “além de não andar nada, ela enchia muito o saco”. Nada como uma patricinha para irritar uma escuderia inteira.

4- AGURI SUZUKI E BERND SCHNEIDER

Na verdadeira feira da fruta que era a temporada de 1989, a concorrência pelo título de equipe mais incompetente da temporada era talvez até mais ferrenha do que aquela entre as melhores equipes. A Onyx tinha dinheiro, um carro bom e um corpo técnico sólido, mas sua administração era uma piada. A Rial teve um fim de ano horroroso, mas a equipe ao menos conseguiu um quarto lugar em Phoenix. A Osella fez um carro razoável, mas totalmente frágil. A Coloni, tadinha… E a Eurobrun foi a única que não se qualificou para nenhuma corrida.

Mas e quando a equipe tem boa organização, um ótimo patrocínio, dois pilotos competentes, Gustav Brunner e o apoio oficial de uma montadora japonesa e mesmo assim não consegue nada além de duas qualificações durante todo o ano? Esta é a história da Zakspeed, time da Alemanha Ocidental que era comandado por um ex-funcionário da Ford, Erich Zakowski. Após vários anos insistindo em um motor próprio, a Zakspeed tomou vergonha na cara no fim de 1988 e anunciou para 1989 a parceria com a Yamaha, que forneceria um motor V8 novinho em folha.

Os prospectos eram bons. A Zakspeed conseguiu roubar da inimiga Rial o projetista Gustav Brunner e ainda tirou da Ferrari o engenheiro Nino Frisson, ui. A dupla de pilotos era composta por Bernd Schneider, que viraria o rei do DTM alguns anos depois, e Aguri Suzuki, ao meu ver o melhor japonês depois de Kamui Kobayashi. O dinheiro era garantido pelos cigarros West, aqueles mesmos que patrocinaram a McLaren durante quase dez anos. Como esse pacote daria errado?

Deu. O Zakspeed 891 parecia um carro bastante convencional, mas na pista ele era uma desgraça completa. Para se ter uma ideia, a equipe fez pouquíssimas voltas na pré-temporada porque o motor não aguentava meia dúzia de voltas antes de explodir espetacularmente. E além de frágil, ele era fraquíssimo. A Yamaha anunciou um propulsor que poderia render 600cv, mas ele só produziu 560cv na vida real. Isso representava um déficit de 60cv em relação aos Judd e Cosworth DFR. E de até 150cv em relação ao Honda da McLaren.

O clima desandou por completo. E os pilotos entraram em guerra porque cada um culpava uma coisa diferente. O alemão Schneider, protegido da alemã Zakspeed, afirmava peremptoriamente que o grande responsável pelo fracasso era o motor V8 da Yamaha. Já Suzuki, japonês como a própria Yamaha, dizia que o motor era bom e o problema maior residia no chassi alemão. Em suma, cada um puxava a sardinha para sua pátria, e a guerra Alemanha-Japão ganhou corpo durante o ano. No fim das contas, o problema era o pacote, que incluía também a má vontade dos pilotos.

3- SÉBASTIEN BUEMI E JAIME ALGUERSUARI

Uma coisa que a Toro Rosso adora ver é seus dois pilotos em pé de guerra. Helmut Marko em si não vê quase nada, mas o sonho de consumo da Red Bull é apenas um piloto jovem, saudável, boa pinta, barato, muito veloz, muito carismático, muito inteligente e que tem estômago o suficiente para aturar uma equipe em chamas e um companheiro mascarado. Tipo assim, um Sebastian Vettel melhorado. Se não cumprir todas as exigências, nem adianta insistir. O cara que vá procurar emprego em outra roça.

Depois de ter dado um murro em Scott Speed, mandado Vitantonio Liuzzi catar coquinho lá na Índia e demitido Sébastien Bourdais por SMS, o patrão Franz Tost acreditava que tinha finalmente achado uma dupla digna dos anseios da turma do energético. Sébastien Buemi podia não ser o cara mais bonito da esquina, muito menos do planeta, mas andou bem o suficiente em 2009 para conquistar um espaço mais ou menos cativo na Toro. O companheiro Jaime Alguersuari é DJ e pega as menininhas. E ainda tinha um título na Fórmula 3 britânica, obtido quando ele tinha apenas 18 anos.

Buemi e Alguersuari acreditavam piamente que a Red Bull chamaria um deles para correr ao lado de Vettel num futuro não tão distante. Provavelmente, a própria Toro Rosso alimentava esta vã esperança. Cada um deles queria mesmo era ver o outro morto. Isso não ficou visível em 2010, quando os dois pilotos tiveram um ano apenas razoável e o clima da equipe estava aparentemente normal.

A panela de pressão explodiu no GP da Austrália de 2011, primeira etapa do ano. Graças a, quem diria, Nick Heidfeld. Após a corrida, o piloto da Renault explicou que não marcou pontos porque “um piloto da Toro Rosso bateu na traseira do meu carro nas curvas 10 e 11, o que o fez perder muita performance a partir daí”. Imediatamente, os dois colegas rubrotaurinos reagiram.

Alguersuari respondeu que “não era o responsável pelo acidente com Heidfeld. Eu estava exatamente atrás dele e vi o que aconteceu. Sébastien estava na curva 10 brigando com a Renault quando houve o toque”. Furioso, Buemi retrucou dizendo que quem teve a culpa foi o espanhol. E ainda aproveitou para reclamar sobre um toque entre ambos na primeira curva da corrida. “Não foi a primeira vez que isso aconteceu e preciso conversar com ele”, declarou o suíço.

A relação azedou de vez. No avião rumo à Malásia, eles ficaram 12 horas sem conversar mesmo tendo sentados um ao lado do outro. A relação não melhorou até o fim do ano, ainda mais quando ficou claro que ao menos um deles seria demitido. O ácido Alguersuari ainda sentenciou que “estava à frente de Buemi. O suíço é muito talentoso e pode ser mais rápido em uma volta que eu, mas há outras coisas necessárias para chegar à frente: solidez, ritmo, maturidade, força mental… No geral, acho que estou à frente dele”. Irrelevante. Os dois acabaram tendo o mesmo destino: a rua da amargura.

2- CHRISTIJAN ALBERS E TIAGO MONTEIRO

Em 2006, a obscuríssima MF1 Racing tinha um carrinho lento e simpático, um piloto lento e simpático e outro veloz e antipático pra cacete. Tiago Vagaroso Monteiro e Christijan Albers foram os pilotos escolhidos pela esquadra anglo-russo-canadense para pilotar o jurássico mas boa-pinta M01 na temporada. Monteiro tinha alguma experiência na estrutura, pois havia corrido por ela no ano anterior, quando ainda era amarela e se chamava Jordan. Já Albers era um calouro vindo da Minardi. Dos pilotos que pagaram pecados nas equipes pequenas de 2005, Monteiro e Albers eram os mais interessantes.

Os dois tinham famas opostas. Vagaroso, o luso, era uma figuraça que sabia rir até mesmo de seu curioso nome do meio, um verdadeiro cartão de visitas às avessas para um piloto de corridas. Albers fazia o tipo de “piloto holandês turrão e metido”, comportamento semelhante ao de Jos Verstappen. Na pista, a personalidade também era completamente diferente. Monteiro era calmo, sensato, nada agressivo e muito confiável. Albers era ousado, propenso a erros, irregular e muito rápido. Os dois eram, verdadeiramente, água e óleo.

Ainda assim, ninguém esperava que houvesse algum problema. Não tão cedo. Sempre nas últimas posições, Monteiro e Albers tiveram alguns entreveros durante a temporada que só serviram para torná-los inimigos. Tudo começou em Mônaco, quando Albers não teve o menor pudor em apertar Monteiro contra a mureta interna da “reta curva” dos boxes na hora da largada. O carro do português raspou no muro e não se descontrolou por muito pouco. Tivesse isso acontecido, os dois MF1 enganchariam e causariam um fuzuê bacana lá no fim do grid. Culpa do holandês, é claro.

Não muito depois, em Montreal, os dois voltaram a se pegar. Novamente, na primeira volta. Monteiro tentou ultrapassar Albers no hairpin, mas não calculou a manobra corretamente e acabou atropelando o carro de Christijan, que rodou e ficou de cara para o mundo. Irritadíssimo, Albers abandonou e apenas o lusitano seguiu em frente. Em uma entrevista após a corrida, o holandês foi lacônico, mas direto: “ficou claro para todos o que aconteceu”.

O ambiente pesou de vez na MF1. Albers e Monteiro já não se bicavam mais. As coisas pioraram drasticamente para o lado do português quando começaram a surgir boatos de que a MF1 seria vendida para uma joint venture holandesa que incluiria aí até mesmo o sogrão do próprio Christijan Albers. Tanto na pista como fora dela, a vitória foi do branquelo de Eindhoven. Mesmo assim, o duelo encarniçado continuou. Em Monza, Monteiro e Albers quase bateram enquanto disputavam uma posição na Variante del Rettifilo. Puto da vida, Christijan levantou o braço e o mandou para o inferno. Quer inferno maior do que a MF1 em 2006?

1- CHRISTIAN FITTIPALDI E PIERLUIGI MARTINI

 

“Eu não tenho respeito nenhum por um cara desses”. Frase forte, não é? Ela foi proferida pelo brasileiro Christian Fittipaldi numa ótima entrevista concedida ao Tazio Autosport. O cara em questão era ninguém menos que o italiano Pierluigi Martini, seu companheiro de equipe na segunda metade da temporada de 1993.

Christian e Martini dividiram a Minardi entre os GPs da Inglaterra e de Portugal daquele ano. Cada um deles estava lá sob circunstâncias diferentes. O sobrinho de Emerson Fittipaldi ainda era aquele jovem piloto que sonhava com voos mais altos na Fórmula 1. Havia debutado na categoria no ano anterior pela escuderia de Giancarlo Minardi, levava alguma grana e estava obtendo resultados muito bons para uma equipe pequena. Martini, por outro lado, era apenas um velho piloto italiano que queria prosseguir com a sua já decadente carreira. Ele havia sido chamado para substituir Fabrizio Barbazza, que não tinha mais dinheiro para custear sua vaga.

Fittipaldi até tinha seu espaço na Minardi, mas a equipe pertencia mesmo a Martini, verdadeiro patrimônio desde 1985. Com exceção de dois anos na Fórmula 3000 e da temporada de 1992, Pierluigi vestiu as cores de Faenza durante quase uma década. Portanto, seria difícil competir com ele em termos de atenções.

Mas bem que Pierluigi Martini não colaborou. Nos metros finais do GP da Itália, os dois protagonizaram uma das cenas mais inacreditáveis da história do automobilismo. Martini estava em sétimo e Christian vinha logo atrás, a apenas poucos décimos de distância. Eles entraram na reta dos boxes e o brasileiro queria tentar ultrapassar o colega ali na bandeirada. Mas Martini foi sacana e deliberadamente tirou o pé do acelerador. Fittipaldi não conseguiu desviar a tempo. E o resultado foi esse daí, imortalizado na foto.

Tão logo o carro parou, Christian desceu do carro e foi tirar satisfações com quem quer que fosse. Estava tão aliviado quanto revoltado. Martini logo se preocupou em dizer que “a telemetria mostrou que não tirei o pé do acelerador”. Mentira. Algum tempo depois, o piloto brasileiro checou a telemetria com um amigo, também do Brasil, que trabalhava na Minardi. A tecnologia prova que, na hora do impacto, a diferença de velocidade entre os dois era de 30km/h, coisa pra caramba quando dois carros estão quase colados.

Fittipaldi não engoliu sequer as desculpas que Pierluigi pediu após a corrida. Um já não confiava muito no outro antes daquele incidente. Depois daquilo, cada um ficou no seu lado. Mas Martini não precisava se preocupar. Duas corridas depois, Christian foi substituído por Jean-Marc Gounon por questões financeiras. Voa, canarinho, voa.

Quarta-feira, pessoal. Falta pouco para o início da temporada 2011 da Fórmula 1. Hoje, falo da última equipe que realmente está garantida para o campeonato até primeira instância – a anglo-indiana Force India.

FORCE INDIA F1 TEAM

Apesar de preparada com muito curry e iogurte, a Force India tem sangue britânico – ou melhor, sangue irlandês – correndo em suas veias. Para os que não se lembram, a equipe surgiu a partir da compra da Spyker, que havia comprado a MF1, que havia comprado a Jordan, que não havia comprado ninguém e que não se casou com J. Pinto Fernandes. Então, falemos da origem de tudo, da equipe do roqueiro Eddie Jordan.

Ao contrário de boa parte dos chefes de equipe britânicos, sorumbáticos e mal-humorados, Eddie Jordan é um sujeito que não leva basicamente nada a sério. De aparência extravagante (quem não se esquecesse de seus horrendos óculos arredondados no início dos anos 90?), semblante sorridente e ar de molecão, Eddie abandonou sua pífia carreira de piloto para fundar sua própria equipe e gerenciar a carreira de alguns pilotos a partir do fim dos anos 70. A Eddie Jordan Racing ganhou corridas e títulos na Fórmula 3 britânica e na Fórmula 3000, revelando ao mundo nomes como Martin Brundle, Johnny Herbert, Jean Alesi e Eddie Irvine.

Após cansar de vencer nas categorias de base, Eddie Jordan decidiu levar sua equipe à Fórmula 1 em 1991. Arranjou uma oficina em Silverstone, conseguiu umas ferramentas, remanejou alguns mecânicos da Fórmula 3000 e voilà: surgia aí uma das equipes mais interessantes dos últimos tempos. Sua primeira temporada, na qual colocou na pista o belíssimo 191 pintado de verde, foi um tremendo sucesso e todo mundo pensou que estava vindo aí uma nova McLaren ou Williams.

Infelizmente, não foi bem assim. Nos anos 90, a Jordan passou por uma série incômoda e irregular de altos e baixos. Ela viu o céu (1994, 1998 e 1999), o purgatório (1995, 1996 e 1997) e o inferno (1992 e 1993) em vários momentos e nunca conseguiu penetrar lá no panteão das equipes de ponta. Seu melhor ano, de longe, foi 1999: com Heinz-Harald Frentzen na liderança, a equipe marcou 61 pontos, venceu duas corridas, obteve uma pole-position e terminou o ano em terceiro lugar. O alemão chegou a brigar diretamente pelo título e muita gente estava prevendo um futuro brilhante para a equipe a partir dali.

Só que, depois disso, a equipe entrou em uma cruel espiral descendente e nunca mais conseguiu sequer passar perto desse nível de desempenho. Apesar de contar com o apoio oficial da Honda em algumas temporadas, seus carros sempre apresentavam problemas de confiabilidade e os pilotos acabavam ficando desmotivados. E a partir de 2002, o dinheiro começou a ir embora. Em 2004, a Jordan estava praticamente falida. No fim daquele ano, Eddie Jordan decidiu largar tudo e vendeu sua estrutura a um punhado de russos escusos.

A equipe ainda competiu como Jordan em 2005, mas mudou de nome e de cara em 2006, transformando-se em MF1 Racing. Com uma cúpula altamente misteriosa, todo mundo sabia que aquilo não teria futuro. De fato, após uma temporada terrível, os russos venderam a equipe para a Spyker, pequena construtora holandesa de carros esportivos. E esta também não tinha dinheiro e cacife técnico para reerguer o time, passando-a para frente no fim de 2007. Dessa vez, o novo dono seria um indiano. O ceticismo era generalizado. Mais um pra usufruir do luxo de competir na Fórmula 1 por um único ano para largar tudo nas mãos de outro otário, pensamos todos.

Até agora, Vijay Mallya nos manteve caladinhos. Sua equipe, a Force India, esteve aí por três temporadas e parte para mais uma, firme e forte. Ou nem tão firme e forte assim, já que, vira e mexe, surge algum problema com o Fisco britânico. Dentro das pistas, longe de ser genial, a equipe evolui a cada ano que passa e vem fazendo um trabalho notável até aqui. Em 2010, ela frequentou o meio do pelotão e estava entre as seis melhores até o fim do campeonato. A partir de agora, é hora de pensar em dar voos mais altos. Assim como queria Eddie Jordan.

FORCE INDIA VJM04

Você sabe o que é cubismo? Segundo a Wikipedia, o cubismo foi um movimento artístico surgido no início do século XX no qual as coisas eram representadas de modo geométrico e multidimensional, o que distorceria o senso de profundidade e a aparência real por trás das imagens. Na Fórmula 1, o cubismo é a solução adotada pela Force India neste ano. Seu carro, o VJM04, abusa tanto das formas quadráticas que poderia ser reproduzido com Lego.

Ainda assim, a meu ver, é um carro bem mais bonito e harmônico que o do ano passado, todo cheio de traços exagerados. As mudanças foram várias. Os sidepods ficaram ligeiramente mais gordinhos, de modo que o KERS pudesse ser comportado sem problemas. A horrenda barbatana desapareceu e a cobertura do motor passou a ter aquele declive retilíneo clássico. A asa traseira, mais estreita, perdeu todo aquele formato esquisito e se transformou em uma peça com ângulos retos e aparência bem mais agradável.

As novidades não param por aí. Os retrovisores e aquela inexplicável peça aerodinâmica localizada à frente do sidepod foram modificados e a traseira foi toda remodelada de modo a ocupar o menor espaço possível. No entanto, as maiores diferenças estão no bico e na entrada de ar. O bico continua alto, mas tem agora um formato retangular e inclinação para baixo. E a entrada de ar sob o santantônios sumiu: agora, o carro possui aquela entrada dividida ao meio nos mesmos moldes do Mercedes do ano passado e do Lotus deste ano. E a pintura perdeu os contornos arredondados e agora apresenta grafismos retangulares. Haja mudanças no carro de Lego!

14- ADRIAN SUTIL

Sim, nós temos um humanista! Enquanto os demais pilotos não sabem nem comer com um garfo direito, Adrian Sutil é o que mais se aproxima da personalidade elegante e artística do falecido Elio de Angelis. O alemão, filho de um violinista uruguaio, é um sujeito diferente de seus pares. De fala tranquila, semblante despretensioso e uma personalidade meio zen, ele é avesso a badalações, polêmicas e confusões. Seus hobbies favoritos são andar de bicicleta ao ar livre e tocar piano. Isso mesmo: piano.

Como filho de concertistas da Filarmônica de Munique, Sutil estudou piano até os 14 anos de idade, quando desistiu da carreira musical para ser piloto de corridas. E o talento que ele demonstrou com as partituras também veio à tona dentro da pista: Adrian venceu inúmeros campeonatos de kart, a Fórmula Ford suíça em 2002 e a Fórmula 3 japonesa em 2006. Ele chegou a correr também como companheiro de Lewis Hamilton na Fórmula 3 europeia. Como o alemão era o segundo piloto, sobraram apenas migalhas para ele, o vice-campeão. Ao menos, sua amizade com o piloto da McLaren persiste até hoje.

Sutil estreou na Fórmula 1 em 2007 pela Spyker. E desde então, ele se mantém como piloto da estrutura, que foi renomeada como Force India em 2008. Nos seus três primeiros anos, apesar dos pontos terem sido escassos, Adrian deixou a imagem de piloto veloz e arrojado, ainda que bastante propenso a erros. No ano passado, acompanhando a melhora da Force India, ele fez um ano muito bom e marcou 47 pontos. Chegou a um ponto da carreira em que precisa deslanchar de vez e arranjar uma equipe que consiga explorar melhor seu talento. E errar menos será fundamental. Aquela corrida maluca na Coréia no ano passado foi uma das coisas mais grotescas que já vi.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: No início de sua carreira nos monopostos, Adrian Sutil precisava muito de um empresário. Ele foi atrás de Manfred Zimmermann, diretor de uma conhecida empresa de gerenciamento de carreiras em Düsseldorf. Em um primeiro instante, Zimmermann não se interessou pelo piloto alemão, alegando que ele não tinha currículo o suficiente. Então, Sutil iniciou a temporada de Fórmula Ford suíça em 2002 e conforme ganhava corridas, ligava para Zimmermann, que insistia em recusar. Após ganhar todas as doze corridas da temporada, Sutil bateu na porta de Zimmermann e foi curto e grosso: “O que mais preciso para você me gerenciar?”. Impressionado com a petulância, Manfred Zimmermann finalmente aceitou gerenciá-lo. E ele é o empresário de Adrian Sutil até hoje.

15- PAUL DI RESTA

A princípio, o nome Paul di Resta pode não significar muito a você. Se o caro leitor acompanha apenas a Fórmula 1, tenderá a pensar que o escocês é apenas mais um bração que paga para correr. Errado, muito errado. Di Resta, 26 anos, está seguramente entre os melhores pilotos do mundo que não competiram na Fórmula 1 no ano passado. Neste ano, finalmente, ele ganhou sua chance de ouro na Force India.

A família de Di Resta, carcamana em suas origens mais remotas, respira velocidade. Louis di Resta, o patriarca, ganhou quatro títulos de Fórmula Ford na Escócia há um bom tempo. Os primos Dario e Marino Franchitti são pilotos em atividade, sendo que o primeiro foi tricampeão da Indy e é também o mais famoso de todos. Mas Paul di Resta tem um currículo tão relevante quanto o do primo famoso. Além do título da DTM obtido no ano passado, ele foi campeão da Fórmula 3 europeia em 2006 batendo ninguém menos que Sebastian Vettel. Entre os que conviveram com ambos, não são poucos os que dizem que Di Resta é mais completo do que o alemão da Red Bull. Quem sou eu pra discordar?

Apesar de estar fazendo carreira vitoriosa no DTM nos últimos anos, Di Resta vinha paquerando a Fórmula 1 há algum tempo. Desde 2009, ele era piloto de testes da equipe e frequentava os noticiários da silly season da categoria. No ano passado, além de competir pela equipe oficial da Mercedes na DTM, Paul fez testes pela Force India em oito treinos de sexta-feira e deixou boa impressão. Agora, é a hora da verdade.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Além de piloto, Paul di Resta trabalha como um dos diretores do conglomerado de entretenimento da família na região de West Lothian, que inclui uma cafeteria e a conhecida boate Bathgate.

PILOTO DE TESTES: NICO HÜLKENBERG

Há quem diga que temos uma injustiça aqui. Como Adrian Sutil e Paul di Resta poderiam ser titulares de uma equipe na qual Nico Hülkenberg é piloto de testes? Afinal, o alemão é considerado um dos maiores fenômenos do automobilismo de base nos últimos tempos. Não que eu veja lá deméritos em Sutil e Di Resta, mas Hülkenberg parece ter mais potencial que os dois. Antes de chegar à Fórmula 1, papou títulos na Fórmula BMW ADAC, na A1GP, na Fórmula 3 europeia e na GP2. No ano passado, fez sua estreia na Fórmula 1 pela combalida Williams. Começou mal o ano, mas se recuperou e conseguiu até marcar uma pole-position surpreendente em Interlagos. Infelizmente, por pura motivação financeira, Nico acabou demitido e terá de recomeçar sua vida na Force India. Ainda assim, é muito cedo pra dizer que sua carreira tende ao limbo.

E seguimos com a última parte da história da Dallara na Fórmula 1, história essa que terá continuação com a parceria com a HRT nessa temporada (não ponho a minha mão no fogo pelas outras).

Depois da Scuderia Italia, a Dallara continuou fazendo carros esporte e monopostos para a F3 e para a Indy Racing League. Mas em 1999, sete anos depois da última temporada dos italianos na Fórmula 1, a Honda anuncia que retornaria para a Fórmula 1 na temporada de 2000 com equipe própria. O carro seria feito pela Dallara e a direção técnica ficaria nas mãos do Harvey Postlethwaite, ex-Tyrrell.

A Honda que poucos conhecem

Durante a pré-temporada anterior ao GP da Austrália de 1999, a equipe até colocou um carro para o holandês Jos Verstappen andar junto com as outras equipes. Denominado RC99, o carro teve uma performance bastante satisfatória nos circuitos de Jerez, Silverstone e Barcelona. Porém, a tragédia maior aconteceu: vítima de ataque cardíaco fulminante, Postlethwaite faleceu em Abril e o projeto da Honda foi abortado semanas depois em decorrência disso. Isso porque a Dallara já havia fabricado cerca de seis chassis RC99 para testes durante o ano de 1999. No fim, a Honda voltou à Fórmula 1, mas como fornecedora da BAR.

E sete anos depois, a Dallara faz outro retorno. Dessa vez, como parceira da obscura MF1.

MF1

A MF1 era uma brincadeira de mau-gosto financiada por um grupo chamado Midland e liderada por um empresário russo chamado Alex Shnaider (o nome em si parece uma corruptela). A Midland comprou a Jordan em 2005, mas em 2006 ela quis dar uma nova aparência à já combalida equipe de Eddie Jordan. Para isso, ela foi atrás de motores Toyota, patrocinadores novos e… um novo chassi.

A encomenda foi feita, como não poderia deixar de ser, à Dallara. E dessa união saiu o M16, um carro que, no fundo, era muito parecido com o Jordan EJ15 utilizado no ano anterior. Como ele não era uma maravilha, o impaciente Shnaider não demorou muito e mandou a Dallara às favas antes mesmo do início do campeonato. O M16 acabou virando um frankenstein, um Dallara completamente remodelado. Um troço desses não tinha como dar certo, e não deu mesmo.

E agora a Dallara volta à Fórmula 1. Pela quarta vez. Espero que dê certo, apesar de tudo. É uma empresa com muito know-how. E é mais simpática que a Lola, acho eu.