Pitacos


ISTAMBUL: Cidade sensacional, pista sensacional. Porém, paradoxalmente, nunca rendeu uma corrida que preste. E olha que até Shanghai conseguiu essa façanha neste ano. Curvas de alta velocidade, largura o suficiente para fazer dois carros andarem lado a lado, uma primeira curva digna de bons acidentes e a curva 8, a mais desafiadora de todo o calendário atual da Fórmuka 1 (sorry, Eau Rouge). Não consigo entender o que se passa com este circuito. Devo confessar até que, mesmo reconhecendo sua qualidade, nunca esperei essa corrida com muita ansiedade. No entanto, após Mônaco e Barcelona, qualquer pista é um alento.

HISPANIA: Mudou tudo. Os espanhóis rasgaram o contrato com a Dallara e, a partir de agora, vão tocar o desenvolvimento do carro sozinhos. Desenvolvimento? Carro? Hahaha. Bruno Senna e Karun Chandhok, muito provavelmente, terão de aturar suas diligências do jeito que estão até o final da temporada. De quebra, a equipe anunciou total reestruturação lá no topo: um bocado de espanhóis ricaços, como o ex-ministro da economia Miguel Boyer, ocuparão cargos de gerência da equipe. Um monte de chefes sem a menor ligação com o automobilismo para uma equipe pobre e ridícula.

MASSA: No café da manhã, é Vettel. No almoço, Webber. No jantar, Kubica. A cada momento, aparece alguém querendo ocupar seu lugar. Tudo bobagem. A equipe gosta dele e Stefano Domenicali deverá renovar seu contrato logo. Os brasileiros não aguentam ver um esportista em má fase (se é que Massa está em má fase) e já cavam a cova para ele.

DE LA ROSA: Andei lendo que o GP da Turquia é a sua corrida de despedida. Em seu lugar, entrará alguém com muita grana para salvar a Sauber. Os italianos juram que é Luca Filippi o dono da vaga. A conferir depois.

PIRELLI: Período tão fraco de notícias que o negócio é encher linguiça e anunciar que a Pirelli já pode ser considerada como a virtual fornecedora de pneus para a próxima temporada. Dizem que, das 12 equipes desta temporada, apenas três ainda não assinaram nada com os italianos.

Mandei um e-mail à Cypher semana passada. Lembram-se dela? É aquele grupo americano que criou conta no Facebook e no Twitter para anunciar sua inscrição à temporada 2011. Bastante curioso, insisti em uma entrevista com a equipe. Disse baboseiras como “estou muito interessado no projeto de vocês” e “tenho certeza que os brasileiros passarão a apoiar esta iniciativa assim que a descobrirem”. Como os caras são meio obscuros, não achei que estariam dispostos a responder o e-mail de alguém do baixo clero como eu.

Mas eles responderam.

Olá Leandro,

Agradecemos pelo e-mail e pedimos desculpas pela demora em responder. Como você pode perceber, a questão da Fórmula 1 na América é bastante complicada. E como nós respeitamos nossos fãs e parceiros, esperamos que você entenda nossa posição.

Nesse momento, nós não estamos prontos para divulgar informações a respeito de nossa empreitada. Nós evitamos fazer isso para evitar que qualquer coisa nos distraia ou atrapalhe o rumo que pretendemos tomar. Portanto, evitamos comentar sobre quem está envolvido de fato e espero que você compreenda.

Tudo o que posso dizer é que a idéia da equipe gira em torno da intenção da Fórmula 1 em ter uma equipe americana. No entanto, garantimos que Ken Anderson e Peter Windsor não estão envolvidos nessa história. E nós pretendemos nos estabelecer no estado da Carolina do Norte, algo que faz sentido por inúmeras razões.

Com relação à presença de antigos membros da USF1, nós temos conhecimento sobre o que falado por aí sobre isso e digo que as pessoas frequentemente ouvem apenas o que elas querem ouvir. Mesmo que nós tenhamos alguns ex-funcionários da USF1 em nosso staff, a Cypher não surgiu a partir de um grupo de membros desta equipe. O Grupo Cypher e seus membros internacionais simplesmente perceberam um enorme potencial em ter uma equipe americana e o sonho, alimentado por muitos engenheiros americanos, de estarem em uma equipe nacional. Nós queremos dar à América o que ela merece.

Nós reconhecemos que o momento não é o ideal para se fundar uma equipe. No entanto, sabendo que há uma vaga disponível no grid, a Cypher acredita que a oportunidade deverá ser aproveitada. Porém, nós deixamos bem claro: não faremos uma inscrição definitiva antes de conseguirmos completar o orçamento necessário.

Saudações,

Grupo Cypher 

Novidades até aí? Pra dizer a verdade, nenhuma que tenha chamado a minha atenção. Apenas algumas confirmações: a equipe quer se instalar na Carolina do Norte, alguns de seus funcionários são da USF1 e Ken Anderson e Peter Windsor não estão entre eles. A inscrição foi feita, mas não há dinheiro para levar tudo isso a sério ainda.

Duas coisas me chamaram a atenção. Uma delas é que, ao contrário do que andaram dizendo, a equipe não é uma iniciativa de ex-funcionários da USF1. Os caras da Cypher, a princípio, são neófitos com relação à Fórmula 1.

Outra coisa: nós pretendemos nos estabelecer no estado da Carolina do Norte, algo que faz sentido por inúmeras razões. Que razões seriam essas? Sabe-se que o estado, e sua maior cidade Charlotte (correção by Samuel), concentra a maioria das sedes das equipes da NASCAR. Teria alguém da categoria envolvido nisso? Outra coisa: Charlotte é onde fica a sede da USF1. Sabe-se, porém, que os poucos bens da equipe foram leiloados para pagamento de dívidas. Será que algo teria sobrado para os cypherianos?

Enfim, um e-mail que me trouxe mais perguntas do que respostas.

Tenho, porém, duas peças de quebra-cabeça em minhas mãos.

– No Twitter, a Cypher soltou hoje algo como Cypher – Ferrari, has a ring to it!, o que significaria algo como “Cypher-Ferrari, muito interessante”. Sabe-se que a montadora italiana quer apoiar uma equipe americana. E aí?

– O Youtube quer se envolver, de fato, com uma equipe de Fórmula 1. No entanto, os caras aprenderam com a USF1 e, dessa vez, pretendem patrocinar, investir ou até comprar uma equipe pronta. Se o projeto for minimamente mais confiável, não seria o caso de pensar em uma parceria?

Indy 500, idolatro.

Em verdade, nunca dei muita importância à Indy atual, ou à antiga Indy Racing League, ou a algo que o valha. Gostava, sim, da CART, aquela categoria que conseguia entregar corridas ótimas mesmo em soporíferos citadinos como Detroit. Mas a Indy que corre com aqueles malditos Dallara em ovais no meio de nadas como Kansas nunca foi do meu apreço. As 500 Milhas de Indianápolis, no entanto, sempre foram uma exceção para mim.

Não há uma razão lógica para isso. Para quem não gosta de ovais, as corridas em Indianápolis são tão imbecis como qualquer outra nesse tipo de circuito. A diferença está na atmosfera, no significado da corrida. A primeira Indy 500 foi realizada em 1911, tempo em que os Estados Unidos ainda eram aquele país emergente e moderno que colocaria a então vigente supremacia britânica em xeque. O estado de Indiana, onde a corrida é sediada, é um próspero produtor de leite e podemos perceber como o insumo é importante para o estado no pódio da corrida, no qual uma garrafa é entregue ao vencedor. Nas arquibancadas, temos famílias inteiras comendo cachorro-quente, tomando refrigerante e carregando brindes e autógrafos distribuídos por pilotos, equipes e patrocinadores. A Indy 500 deixa de ser apenas uma corrida de carros e se torna um evento que une a cultura americana do trabalho e do orgulho com aquele ambiente meio provinciano e simplório típico dos estados do “meião”.

E a 94th Indy 500, que será realizada no próximo domingo, terá tudo para ser sensacional.

O favorito

É verdade que os Dallara-Honda são horríveis e geram tanto downforce que qualquer movimento mais heterodoxo resultará em uma bela pancada e uma visita às enfermeiras do Methodist Hospital. É verdade que o interesse geral pela corrida diminuiu um bocado desde a cisão entre a CART e a IRL. É verdade que o nível de pilotos, embora não esteja ruim neste ano, já foi melhor. É verdade que a briga pela vitória deverá ficar apenas entre Penske e Ganassi. Tudo isso é verdade. Mas qual categoria pode se gabar de estar em um grande momento?

Hélio Castroneves marcou sua quarta pole-position neste circuito e dará as caras por lá visando sua quarta vitória. É o típico caso do piloto que nunca ganhou um título de biribol na vida, mas que conseguiu se consagrar por ser um supervencedor em uma única e importantíssima corrida. Boa sorte para ele, embora prefira que ele ganhe um título na Indy de uma vez por todas. Ademais, minha torcida vai para outro.

Alex Tagliani, este é o nome do outro. O cara formou um grupo com uns amigos de sobrenomes peculiares como Azzi e Freudenberg, comprou uns “assets” da antiga Roth, criou uma equipe com o horrível nome FAZZT e está incomodando as equipes de ponta desde o início do ano. Em Indianápolis, depois de andar nas cabeças durante a maior parte do tempo, conseguiu uma excepcional segunda fila e é o primeiro piloto do grid que não corre na Penske ou Ganassi. Seu companheiro, Bruno Junqueira, é outro que merece minha torcida. O mineiro está na FAZZT por uma dívida de gratidão de Tagliani, que tomou seu lugar na Conquest para esta mesma corrida no ano passado e fez apenas alguns quilômetros antes de ser o mais rápido do Bump Day e obter a 25ª posição. Simpaticíssima, a FAZZT.

O azarão

O Bump Day, aliás, é a coisa mais legal que existe em toda a temporada da Indy. Sem brincadeira, é o momento pelo qual eu mais espero. Um punhado de pilotos desesperados brigando para ver quem consegue largar em Indianápolis sempre rende boas histórias. Jay Howard, por exemplo, estava garantido no grid, mas eis que o cretino decide voltar à pista unicamente para andar devagar e ceder seu lugar ao colombiano Sebastian Saavedra, que descobriu estar no grid quando estava no hospital se recuperando de um acidente sofrido momentos antes. E Tony Kanaan?

Coitado dele, sempre azarado em Indy. O baiano até conseguiu largar na pole em 2005, mas nunca conseguiu brigar diretamente pela vitória. No ano passado, sofreu um acidente feio e até precisou dar um pulo ao Methodist. Neste ano, conseguiu sofrer dois acidentes em dois dias seguidos e ficou seriamente ameaçado de não participar. No fim das contas, se achou na 32ª posição. Quer saber? Torço pra ele também.

Ficaram de fora Milka Duno (nenhuma novidade), Jaques Lazier (não faz falta), Jay Howard (Darwin explica) e Paul Tracy (este, sim, fará falta). 38 pilotos, no total, participaram dos treinamentos. AJ Foyt IV, neto do homem, chegou a participar de alguns treinos, mas acabou substituido pelo Lazier.

O azarado

E os outros brasileiros? Teremos, neste ano, um recorde de participantes tupiniquins: oito. Destaco Ana Beatriz, a melhor entre as cinco mulheres que tentaram classificação. Em sua primeira participação em um oval na categoria, vai largar em 21º e tem boas chances de obter um bom resultado. Os outros serão outros. Raphael Matos sai em 12º, uma posição à frente de Mario Moraes. Mario Romancini larga em 27º e Vitor Meira, em 30º. Torço mais para o Matos, pois gosto da Luczo Dragon, e para o Meira, que precisa acabar com seu tabu de vitórias, algo improvável de acontecer neste domingo.

Quanto ao restante do grid, torço por Scott Dixon, Justin Wilson, Tomas Scheckter, Ryan Hunter-Reay, Ernesto Viso, Simona de Silvestro e chega. Destaco o belíssimo Lotus-faced KV de Takuma Sato. Não que eu torça por ele, muito pelo contrário. O problema é que seria uma judiação ver um carro bonito como aquele no muro.

Faço minhas apostas desde já. Ganha Will Power. Castroneves termina em quarto. John Andretti, Ryan Hunter-Reay, Bertrand Baguette, Mario Romancini e Dario Franchitti irão para o muro. Podem cobrar o oráculo aqui.

No post de hoje, farei algo que detesto ver outros fazendo: vou comentar sobre um assunto no qual não tenho conhecimento. Falo um pouco sobre futebol. Antes de tudo, deixo bem claro: não tenho nada contra ou a favor do ludopédio, não entendo nada sobre ele e nem ligo para isso. Na Copa do Mundo, vou torcer pelo Brasil unicamente para poder ser liberado do trabalho e da faculdade. Para contrabalancear a minha ignorância futebolística, darei um jeito e colocarei a Fórmula 1, assunto que me interessa um pouco mais, no meio. Vamos à salada esportiva!

Para o "sensato" e "racional" torcedor, um burro

O técnico Dunga anunciou, na semana passada, a lista dos 23 jogadores convocados para a Copa. Como de costume, o nobre povo brasileiro não gostou. O motivo? A ausência de alguns jogadores bastante considerados pela mídia e pelos torcedores, como os santistas Neymar e Ganso. E Dunga virou burro. Os críticos, e eles são muitos, acusam o técnico de montar uma seleção conservadora, burocrática e pouco criativa, muito mais próxima da frieza eficiente européia do que da alegria exuberante brasileira. 

Não vou comentar os aspectos técnicos da escalação porque, como disse, não entendo patavinas de futebol. Nunca vi os tais santistas jogarem, nem sabia da existência do tal Ganso antes do oba-oba midiático e se me mostrarem, por exemplo, o Adriano e a bola correndo, não sei distinguir quem é quem. Deixo isso para quem sabe. Vou falar mal, como de costume, da torcida. Ah, a torcida, sempre chata na Fórmula 1 e extremamente chata no futebol.

Li os argumentos de Dunga para a escalação. Ele disse que escolheu os jogadores pelo seu comprometimento, nada mais justo. Além do mais, não chamou os pirralhos da Vila por considerar a falta de experiência de ambos em momentos decisivos, algo assim. Argumentos sensatíssimos de um cara que já foi campeão do mundo e que supostamente entende mais de futebol do que os torcedores por aí. O time não precisa ser alegre, emocionante ou bobagens do tipo. Precisa, sim, marcar gols, evitar tomá-los e ganhar o título, e só. Qualquer coisa fora desse objetivo é pirotecnia.

Uma coisa que me irrita na torcida latina, tanto no futebol como na Fórmula 1, é essa necessidade do caminho épico às vitórias. Não basta vencer, tem de chegar lá da maneira mais dramática possível. Na Fórmula 1, seja por meio da chuva, de câmbios quebrados ou de padres irlandeses correndo no meio da pista, a vitória deve emocionar. No futebol, tem de ter gol de bicicleta, dribles e caneta. E, é claro, o resultado deve vir após uma virada. Afinal de contas, é feio vencer de 1 a 0 ou vencer uma corrida de ponta a ponta, mesmo que tudo seja feito de maneira impecável e que o resultado tenha sido absolutamente incontestável e merecido. Oras, o objetivo no esporte é unicamente a vitória! Esse negócio de “ganhar feio” ou, pior ainda, “perder bonito, perder com dignidade” é ridículo. Quem quer ver o esporte unicamente esperando o momento da firula, que vá ver o Harlem Globetrotters.

Outra coisa: os torcedores tratam jogadores, técnicos, pilotos, chefes de equipe e todos envolvidos no esporte como se fossem retardados. Afinal de contas, o Dunga, tetracampeão do mundo, não entende porra nenhuma sobre futebol, quem entende é o Ademir, 41 anos, desempregado, com ensino fundamental incompleto e absolutamente perna de pau na pelada domenical. O Dunga, aquele que recebe 173 mil reais por mês pelo seu trabalho e que, provavelmente, atravessa noites em claro assistindo a VTs de dezenas de jogos brasileiros e europeus, escrevendo relatórios e desenvolvendo táticas, não entende nada, caro leitor. Quem entende é você, que compra seu Lance toda manhã, toma seu café e acusa o técnico de burro. O Dunga não deve ir contra o clamor popular, diria você. Ele é o nosso ombudsman!

O mesmo vale para a Fórmula 1. Nem comento sobre Rubens Barrichello, assunto cansativo e que já deu o que tinha que dar. Falo sobre Felipe Massa, piloto de excelente qualidade técnica e de uma sensatez ímpar que fala com a mídia e com torcedores misturando otimismo e cautela. O que ele recebe em troca? Críticas ferozes de periódicos como o italiano La Repubblica e comentários maldosos de brasileiros que suspiram e esperam sentados por um novo Ayrton Senna desde 1994. Para essa gente, Felipe Massa perdeu velocidade com o acidente na Hungria e é muito inferior ao seu companheiro Fernando Alonso. Qual é o fundamento para o torcedor explicar tudo isso? Relatórios de telemetria, tabelas de resultados de treinos e corridas ou depoimentos de mecânicos e engenheiros? Nada disso. Ele se baseia no que ele vê na TV e no que seus colegas de trabalho comentam. 

Se o Tony Fernandes desse ouvido aos torcedores, nenhum dos dois estaria na equipe

Mas não é só Felipe Massa que é perturbado pela mídia e pelos torcedores. Todo mundo, em determinado momento, é aborrecido com críticas superficiais e imediatistas. Ninguém busca entender o motivo do piloto andar daquele jeito, do chefe de equipe contratar determinado piloto ou do técnico tomar tal decisão. Lembro-me, por exemplo, da Lotus anunciando, no final do ano passado, Jarno Trulli e Heikki Kovalainen. Muitos chiaram, alegando que a dupla era muito conservadora, velha e discreta. Mas e aí? O que o Tony Fernandes poderia fazer? Contratar um cara que só tinha duas corridas boas no currículo, como Kamui Kobayashi? Dar espaço a um novato cujo risco é alto, como Pastor Maldonado ou Fairuz Fauzy? Tony agiu sensatamente e colocou dois pilotos experientes que trouxessem mais conhecimento e menos possibilidades de risco.

Não insinuo no texto que devemos dar amém a todas as atitudes tomadas por técnicos, chefes de equipe, jogadores e pilotos. Eles erram, e muito. Mas erram porque a vida é assim, ninguém acerta o tempo todo. Antes de cometer o erro, o cara trabalhou duro para fazer sua idéia funcionar. A seleção do Dunga tanto pode voltar para casa sem o título como pode ser coroada hexacampeã, sendo que tudo dependeria não só da escalação, mas também da dedicação e do aspecto psicológico dos jogadores, da condição dos outros times e da sorte. Uma seleção ou uma equipe de Fórmula 1 não entra em uma competição se enxergando como vencedora unicamente porque aparenta ter um pacote melhor que o resto. E se a vitória não vem, não é com a corneta de um torcedor ou um jornalista que a situação poderia ser revertida.

 

MÔNACO: É uma quase unanimidade. Quase porque eu não gosto, mas tudo bem. O circuito é datado de 1929 e realiza corridas de Fórmula 1 desde o primeiro ano da categoria. Já consagrou nomes como Senna, Graham Hill e Schumacher, além de outros menos cotados como Panis, Trulli e Beltoise. Alguns trechos, como a Saint Devote, o túnel e a Loews, são dos mais famosos do automobilismo mundial. Além disso, a elite européia costuma dar um pulo por lá no verão para exibir seus Mercedes e suas roupas Armani. Mal comparando, é a Ilha de Caras da Fórmula 1. Minha repulsa por Montecarlo deve existir por causa dessa breguice. É, deve ser.

Q1: A cruzada contra as equipes novatas continua em Mônaco. A idéia de Bruno Senna fez coro e, se não fosse o veto da Lotus, teríamos um bizarríssimo sistema no qual apenas ela, Virgin e HRT andariam na primeira parte do treino de classificação. Seriam café-com-leite, em suma. Uma idéia completamente tétrica que só poderia surgir em uma época no qual todo mundo se estarrece com qualquer aumento no número de carros.

WILLIAMS: Não seria no principado que a equipe estrearia um novo pacote de mudanças em seu carro? A conferir. Rubens Barrichello carregou seu carro nas costas em Barcelona. Como o brasileiro costuma andar bem em Mônaco, espero algo melhor dele, assim como espero sentado a primeira boa corrida de Nico Hülkenberg na Fórmula 1.

MASSA: O povo enche demais o saco. Agora, andam falando que ele irá para a Red Bull no próximo ano. Duvido. Assim como duvido que haja algo errado com o pai do Felipinho. O F10 é um carro mediano e Fernando Alonso, que é bicampeão do mundo, não está fazendo tanto a mais do que Massa. Teve, sim, bastante sorte e prudência em Barcelona. Felipe não tem um grande retrospecto de resultados em Montecarlo. Conseguiu ir muito bem em 2004 devido aos problemas dos carros da frente e liderou a corrida de 2008, mas não me lembro de nada muito além disso. Se a sequência ruim dos resultados por lá continuar na edição desse ano, a encheção de saco na segunda-feira vai ficar pior.

CHUVA: 40% de chances no dia da corrida em Mônaco. Espero que venha, embora não confie nem um pouco nos 40%. Mônaco sem chuva é chatíssimo. Aliás, durmam com essa: existe uma sequência de corridas a cada 12 anos em que chove uma barbaridade desde 1972. Tivemos pista encharcada em 1972, 1984, 1996 e 2008. Se não me engano, 1982 e 1997 foram exceções. Se a sequência seguir, só daqui a dez anos.

A temporada da GP2 Series começou oficialmente hoje com a pole-position do francês Jules Bianchi. Como a categoria é sensacional e é dever cívico de todo mundo acompanhá-la, exibirei uma sequência de fotos das doze equipes que irão participar do campeonato.

ART GRAND PRIX

1- Jules Bianchi
2- Sam Bird

Favorita ao título com Bianchi. Bird fará o papel de escudeiro de luxo. O carro, branco com laterais vermelhas e aerofólio preto, tem pintura de campeão.

BARWA ADDAX TEAM

3- Giedo van der Garde
4- Sergio Perez

Tem dois pilotos experientes e velozes e será a maior adversária da ART na briga pelo título. A pintura é bem sem-graça.

SUPERNOVA RACING

5- Josef Král
6- Marcus Ericsson

Já foi equipe de ponta um dia. Hoje, é integrante do pelotão intermediário. A pintura preta e amarela do carro já é tradicional nas categorias de base.

FAT BURNER RACING ENGINEERING

7- Dani Clos
8- Christian Vietoris

Vietoris é candidato à nova sensação alemã. Dani Clos é apadrinhado do dono da equipe. Carro feio, parece que foi pintado com catchup e mostarda.

ISPORT INTERNATIONAL

9- Oliver Turvey
10- Davide Valsecchi

É outra equipe com boas chances. Turvey é bem cotado pelos ingleses e Valsecchi é o atual campeão da GP2 asiática. Bela pintura com partes em quadriculado remetendo à Arrows de 1994.

RENAULT F1 JUNIOR TEAM (DAMS)

11- Jerôme D’Ambrosio
12- Ho-Pin Tung

Dupla mais experiente do grid. Ambos competirão pelo título e pelas atenções da Renault na Fórmula 1. A pintura retrô baseada na equipe-mãe é sensacional.

RAPAX TEAM

14- Luiz Razia
15- Pastor Maldonado

Pior nome de equipe da história. Maldonado tentará pela quarta vez o título da categoria, enquanto Razia é o brasileiro mais capacitado do grid. Pintura sem graça, não chama muito a atenção.

ARDEN INTERNATIONAL

16- Charles Pic
17- Rodolfo Gonzalez

Oriundo da World Series, Pic é um dos mais promissores franceses do automobilismo mundial. Gonzalez só está lá pelo patrocínio do Hugo Chavez. A pintura é a utilizada pela equipe nos tempos da F3000, um belo vermelho claro.

OCEAN RACING TECHNOLOGY

18- Max Chilton
19- Fabio Leimer

A equipe do Tiago Monteiro deverá ficar no meio do pelotão, e Leimer é bem melhor que Chilton. Preto e azul combinam um bocado.

PPR.COM SCUDERIA COLONI

20- Alberto Valério
21- Vladimir Arabadzhiev

Equipe picareta composta pela pior dupla do grid. Por incrível que pareça, o búlgaro é melhor. A pintura é bonita, mas até o ano passado não se destacava por ser muito parecida com a da DAMS.

TRIDENT RACING

24- Johnny Cecotto Jr.
25- Adrian Zaugg

Zaugg retorna à GP2 tentando espantar a fama de azarado e desastrado. Cecotto Jr. quer repetir a boa impressão do ano passado. Carro feio e desarmônico. Equipe fraca.

DAVID PRICE RACING

26- Michael Herck
27- Giacomo Ricci

Muito lentamente, Herck vem melhorando. Ricci é um ótimo piloto esquecido por mídia, torcedores e patrocinadores. Branco com azul é uma combinação antiga da equipe e sempre dá certo.

OUCH!

BARCELONA: Nada a comentar sobre a cidade, a melhor da Espanha. O circuito de Montmeló é daqueles que você olha o traçado e pensa “puxa, deve ser muito legal”. Aí você vê uma única corrida realizada lá e muda de idéia rapidamente. É um circuito baseado em retões e curvas de alta velocidade. Por ser relativamente estreito e por ter curvas velozes que demandam muito downforce (vá fazer a Repsol sem asa pra ver o que acontece), as ultrapassagens são quase inexistentes. Costuma sediar a corrida mais chata da temporada. No início da semana, andaram falando em chuva. Hoje, li que o tempo deverá estar bom no circuito catalão. A Sutton Images mostra fotos com um belo céu azul. Se tiverem algo melhor a fazer, nem percam tempo com a corrida.

MERCEDES: Remodelaram o W01 para essa corrida. A distância entre-eixos aumentou visando o ganho de performance em trechos mais velozes. A distribuição de pesos foi refeita. E a tal entrada de ar revolucionária, dividida em duas e implantada imediatamente atrás da cabeça do piloto, estreará também neste fim de semana. É o vai ou racha da equipe. Se essas mudanças não derem certo, é melhor os prateados pensarem no ano que vem. 

KLIEN: Tanto se falou em Sakon Yamamoto que o terceiro piloto da HRT neste fim de semana será o austríaco. Nos treinos de amanhã, ele pegará o lugar de Karun Chandhok. Vale uma lembrança: as duas últimas equipes dele foram a BMW Sauber e a Honda, e ambas deixaram a Fórmula 1. A HRT não vai bem das pernas. Seria Christian um amuleto de azar?

RED BULL: Virá com novas asas dianteiras e traseiras que, segundo Helmut Marko, darão três décimos de presente à equipe. Diz a lenda que o consumo de pneus era o calcanhar de Aquiles do carro. Era nada. O problema do RB6 é a zica que ele carrega. Fazer quatro poles e perder três corridas por circunstâncias exógenas já é meio caminho andado para entregar o título para a concorrência. Um pé de coelho e um ramo de alecrim já seriam o suficiente.

VIRGIN: Assim como meio mundo, virá com modificações no VR01. Mas só em um deles, o de Glock. Graças ao caos aéreo que atingiu a Europa nas últimas semanas, a equipe teve problemas logísticos e não conseguiu deixar dois carros prontos para a etapa espanhola. Lucas di Grassi vai ter de se virar com a versão anterior. O curso das coisas do mundo não vai ser alterado devido a isso, pode ter certeza.

Este é um tema amargo que chega a escapar do escopo automobilístico e entrar no sociológico. Concordo que tentar levar um assunto lúdico como uma rivalidade besta de dois pilotos de corrida para um campo mais intelectual e sério é inútil e patético, mas o Bandeira Verde é isso mesmo. Um lugar aonde um assunto banal como automobilismo pode ser levado à filosofia mais barata.

Vamos aos fatos mais puros e crus. Ayrton Senna, tricampeão de Fórmula 1 nascido no Brasil, é reverenciado até os dias atuais como o maior ídolo esportivo da história do país ao lado de Pelé tanto aqui em Terra Brasilis como no exterior. Nelson Piquet, tão tricampeão e tão brasileiro como Senna, é simplesmente esquecido pela mídia não- especializada (às vezes, até mesmo pela especializada) e pelo povão. Quando alguma alma pia se recorda do “outro tricampeão”, é por algum aspecto negativo. “O Piquet é invejoso”. “O Senna é muito melhor do que ele”. “O Piquet é arrogante”.

Por quê?

Primeiramente, deixo claro algumas coisas. Acho Ayrton Senna um piloto claramente superior a Nelson Piquet, embora prefira este último por afinidade intelectual e comportamental. É minha opinião e ponto final. Não vou me ater também a casuísmos cretinos como “a mídia manipuladora”, pois são coisas de discussão de aluno de ensino médio. O fenômeno é mais interessante e mais complexo do que isso. Dito o que havia para ser dito, vamos lá. O texto é longo, chato pra caralho e quem gosta de discussões sobre motores e pistas deve parar por aqui.

A história dos dois começa nos anos 70. E começa de maneiras bastante diferentes. Nelson Piquet Souto Maior, filho de Estácio Souto Maior, ministro da saúde do governo João Goulart, iniciou no automobilismo literalmente contra a vontade do pai. Apesar da família rica, Piquet teve de ralar um bocado e sua ascensão se deu por meio da ajuda de amigos brasilienses. Os patrocinadores até existiam, mas não eram numerosos. Na Europa, Piquet morava em motorhomes e vivia de sanduíches. Não por acaso, seu esquema de assessoria de imprensa era basicamente nulo. A única coisa que segurava o piloto no Velho Continente era seu talento e sua vontade de chegar à Fórmula 1.

E as desavenças com os jornalistas começaram a partir daí. Nelson Piquet disputava campeonatos de Fórmula 3 no mesmo período que outro brasileiro, Chico Serra. Como Serra tinha mais patrocinadores, dinheiro e conselheiros ao redor, ele podia pagar para que jornalistas, principalmente os paulistas, registrassem seus feitos nas publicações brasileiras. Nelson não podia dispor desse artifício. O mais engraçado é que os resultados de Piquet chamavam muito mais a atenção, mas mesmo assim a mídia insistia em destacar Serra. Era comum ler uma manchete como “Serra chega em 6º na F3” em uma corrida vencida por Nelson Piquet. Não havia como Piquet ter uma boa relação com a mídia, tanto que nos seus primeiros anos na Fórmula 1, ele sempre respondia a um pedido de entrevista com um “vai me pagar quanto?”. Não acreditam? As informações acima foram retiradas do site oficial do autódromo de Interlagos.

Ayrton Senna iniciou de maneira muito diferente. Sensação do kart setentista, Senna tinha em seu pai, Milton da Silva, seu maior apoiador no início da carreira. Dinheiro não era problema para a família Senna, dona de propriedades. Desde cedo, Milton se preocupou em fazer a melhor assessoria possível ao filho. Para isso, desenvolveu um bom relacionamento com a mídia paulista, sempre pagando por espaços nos periódicos e publicando press releases sobre as excepcionais performances do seu filho. Ainda no kart, Senna já desenvolvia uma certa fama.

Sua ascensão para o automobilismo europeu foi festejada. Jornais e revistas como a Quatro Rodas deram toda a atenção ao piloto paulista desde sua incursão à Fórmula Ford 1600. A badalação se tornou ainda maior a partir de 1983, quando Senna subiu para a Fórmula 3 inglesa. Os patrocinadores corriam atrás de Ayrton, e ele se deu ao luxo de escolher os Jeans Pool e o Banerj. A Globo acompanhou seu primeiro dia de testes na Fórmula 1 com o carro da Williams em Donington e chegou ao ponto de transmitir, ao vivo e na íntegra, uma das etapas de Silverstone na Fórmula 3 inglesa. Com direito à narração de Galvão Bueno e comentários de Reginaldo Leme!

Senna e a bandeira. Os brasileiros gostavam

Ou seja, a tese do relacionamento com a mídia existe. Mas não é só isso. Quando Piquet estreou na Fórmula 1, a Globo cobria as corridas precariamente. Emerson Fittipaldi sofria com o Copersucar e a audiência das corridas andava tão baixa que a emissora chegou a deixar de transmitir as corridas em 1980. Com a boa performance de Piquet nesse mesmo ano, a emissora carioca voltou a transmitir em 1981. O bicampeonato de Nelson potencializou a febre do automobilismo no país. Quando todos viram que havia um outro piloto, o tal do Senna, chegando ao topo, o êxtase foi grande. Dá pra dizer, também, que Senna estreou na Fórmula 1 quando ela já era uma febre no país. Piquet, nem tanto.

Deixamos a mídia e vamos para o psicológico dos pilotos. Ayrton Senna é a expressão perfeita do self made man. Como? Sendo breve, é o indivíduo que obtém sucesso na vida por meios próprios e sem a ajuda de ninguém. É claro que quem conhece bem sua carreira nunca se atreveria a caracterizá-lo deste modo, mas a imagem que Senna passa é essa. Senna também tinha outras características que agradavam ao público: torcia para um time das massas, o Corinthians, era católico e avesso à política. Mesmo sua aparência física era a de um cidadão normal: pessoa branca, de estatura média e orelha proeminente como imperfeição. Não se destacava pela beleza ou pela feiura. Era um cara simplesmente normal, até mesmo no sobrenome Silva. E é isso que o povo gosta de ver: um cara normal que consegue chegar lá.

Nelson Piquet é o contrário. Desde sempre, cultiva uma aparência de bon vivant transviado e descuidado. Como era filho de um ministro e estudante da UnB, nunca mostrou ter uma vida exatamente normal. Na Fórmula 1, sempre aparecia com mulheres bonitas em iates. Nunca se caracterizou pela simpatia modesta e latina, mas por um elitismo irônico e pernóstico à la James Hunt. O brasileiro não se sentia identificado com a vida hedonista de Piquet. Chega a ser engraçado que o self made man tenha tido menos percalços no início de carreira que o playboy, mas é essa a imagem que todos têm. Para o brasileiro, Senna é o cara que começou do nada e obteve tudo. Piquet é o cara que nasceu em berço de ouro e é invejoso por não obtido as coisas como Senna.

As atitudes, é lógico, contam um bocado. Senna era um cara de fala pausada e tranquila. Seu discurso geralmente transmitia aquele otimismo que sugeriria que, sim, dias melhores virão. O ato de carregar a bandeira brasileira nas corridas e de chorar na frente da TV sugeria um amor épico à vitória e ao Brasil. Piquet é o oposto. Sempre sarcástico, e muitas vezes desnecessariamente agressivo, Nelson é um cara de discurdo absolutamente impolido e despretensioso. Até mesmo sua dicção, arrastada e remetente à antiga juventude carioca, não transmitia tanta credibilidade. As declarações sardônicas poderiam agradar a um inglês, mas nunca ao brasileiro médio, conservador, politicamente correto e não tão adepto à ironia. Não por acaso, a rivalidade entre os dois começou quando Senna declarou que “tinha sumido da mídia para dar espaço a Piquet”, mas muitos pensam que começou com Piquet e sua famosa insinuação sobre a homossexualidade de Ayrton, uma réplica agressiva à frase dele.

Por fim, a maneira como o sucesso foi obtido por cada um deles. Nos seus três títulos, Piquet nunca obteve mais do que três vitórias em cada temporada. Suas poles não foram transmitidas para o Brasil. O maior trunfo de Nelson não era mostrado na TV: sua extrema inteligência e sua capacidade ímpar de entender e acertar um carro, resquício dos tempos de mecânico. As corridas dele eram mais meticulosas e espertas do que exatamente fenomenais. Já Senna era o showman: fazia poles nos últimos instantes dos treinos, ganhava muitas corridas em um mesmo ano, fazia ultrapassagens, voava na chuva e levava um carro problemático de uma maneira que lembrava Gilles Villeneuve. É evidente que um estilo arrojado cativa muito mais do que um inteligente. E aí está o trunfo de Senna não só no Brasil mas também no mundo. Aqui também morre aquela idéia que “só no Brasil que Senna é mais valorizado”.

O auge de Senna ocorreu em um período particularmente conturbado da história brasileira. O país voltava à democracia e passava por um período turbulento na economia, com hiperinflação e planos econômicos heterodoxos inúteis e destrutivos. Até mesmo o futebol passava por uma fase ruim. A auto-estima do brasileiro andava baixíssima e um ídolo que mostrasse que o Brasil não era apenas o país da banana e da moratória era tudo o que todos desejavam. A Fórmula 1 era a única coisa que alegrava os brasileiros. E o período de Senna foi bem mais complicado que o de Piquet, cujo auge concorreu com assuntos igualmente otimistas como a abertura democrática.

O texto ficou grande e preciso parar por aqui. Apenas resumo que Senna é o cara normal que tinha tudo para ser ídolo, que sabia disso e que abraçou a causa com vontade. Um ídolo com direito a vilões, e aconteceu de Piquet, o típico antiherói que não tinha a menor vontade de agradar ninguém, ser eleito um deles. Parece coisa de HQ, mas é assim que funciona.

Pouco se fala sobre esse assunto. Nas últimas semanas, venho buscando de maneira doentia notícias a respeito. E não venho obtendo muito sucesso. As informações são vagas e pouco confiáveis. O Bandeira Verde, órgão de prestação de serviços ao público brasileiro, fará o relevantíssimo favor à nação de juntar tudo o que se sabe até aqui.

Nos Estados Unidos, o canal Speed noticiou o número de equipes que se inscreveram até o dia 15 de Abril de 2010: quinze. Dessas quinze equipes, uma será escolhida como a décima terceira equipe da Fórmula 1 e uma ficará como equipe-reserva para o caso de haver desistência de uma das 13.

É evidente que há projetos mais e menos sérios. Na verdade, vamos demorar para saber a respeito de todas as inscritas, se é que ficaremos sabendo de todas. Abaixo, os projetos conhecidos até aqui:

EPSILON EUSKADI – A intenção de Joan Villadelprat subir com sua equipe basca para a Fórmula 1 é conhecida por todos há algum tempo. E, aparentemente, é o que há de mais sólido entre os projetos. A Epsilon disputa com relativo sucesso corridas de protótipos, a Eurocup Renault 2.0 e a World Series by Renault. Seu cartão de visitas é uma gigantesca fábrica localizada no Parque Tecnológico de Álava pronta para a construção dos carros. Se a infraestrutura é o fator decisivo para a escolha da equipe, a Epsilon deve ganhar de goleada.

O Bandeira Verde informa que, nesse exato instante, Jean Todt está no País Basco fazendo uma visita às instalações da Epsilon Euskadi ao lado de Carlos Gracia, presidente da Federação Espanhola de Automobilismo, e Jaime Lissavetzky, secretário dos esportes. O objetivo é claro: vistoriar as condições técnicas e financeiras da equipe. Dizem que é a favorita de Todt.

STEFAN – E os sérvios estão de volta! Depois de tentarem, sem sucesso, uma inscrição-relâmpago para a temporada 2010, a equipe se divorciou da Toyota e decidiu encarar o desafio de competir na Fórmula 1 por conta própria. Para isso, lançou um site mostrando seus planos e também alguns bonés e canecas para vender. O plano mais ambicioso é a construção do Stefan Technology Park, um complexo localizado a 25km de Belgrado que sediará a fábrica da equipe e um circuito para testes. Ambição é o que não falta. Um pouco de credibilidade ajudaria.

DURANGO – A escuderia de Ivone Pinton possui larga experiência no automobilismo de base, tendo competido durante anos na Fórmula 3000 Internacional e na GP2. O sucesso, porém, nunca foi uma constante na equipe. Mesmo assim, Pinton anunciou que tentará a 13ª vaga. Para isso, diz já contar com patrocinadores. Honestamente? Me parece blefe. A Durango nunca foi nada. Na GP2, era uma equipe precária lotada de minúsculos patrocinadores italianos. Se vier, vai fazer o papel da Osella.

SHOTOVER JET – É aquela empresa neozelandesa que fabrica jet skis há mais de 40 anos. Seu maior trunfo é o domínio da dinâmica de fluidos computacional, embora um carro de Fórmula 1 seja ligeiramente mais complexo que um jet ski. Além do mais, a equipe diz que está em fase de negociação com patrocinadores e fornecedores de pneus. E já teria até mesmo uma pista para testes na Nova Zelândia. Diante da qualidade duvidosa de alguns concorrentes e da possibilidade de poder representar a Oceania, eu não descartaria a Shotover Jet. A empresa divulgou até mesmo um possível layout para o carro. Se depender dele, por mim, tá dentro.

CYPHER – É o projeto mais fanfarrão até aqui. Anunciado no Twitter e no Facebook, a equipe seria composta por ex-funcionários da USF1 que visam trabalhar sem as incômodas presenças de Ken Anderson e Peter Windsor. A equipe alega já ter infraestrutura pronta no estado da Carolina do Norte. Tudo indica que utilizará boa parte do esquema da USF1.

ANDERSON – Eu falei que a Cypher era a mais fanfarrona? Então estou sendo injusto com ela. O projeto mais bizarro é esse daqui. Reconheceu o sobrenome? Pois é. Ken Anderson está de volta! Depois do fracasso da USF1, ele tentará mais uma vez coordenar uma equipe de F1. Nada mais se sabe sobre a equipe.

E aí? O que acham desses projetos?

Nesse próximo fim de semana, teremos o início da sexta temporada da GP2 Series, a categoria preferida deste escriba hoje em dia. Duas corridas em Barcelona, uma no sábado e outra no domingo. A primeira é mais longa, tem parada obrigatória e distribui mais pontos. A segunda é menor, dá alguns pontinhos e costuma premiar os underdogs do meio do pelotão com o artifício do grid invertido. Enfim, é um ótimo aperitivo para as corridas européias da Fórmula 1.

Jules Bianchi e seu ART

A GP2 é a principal categoria de base do automobilismo mundial desde 2005, quando passou a substituir a Fórmula 3000 Internacional. Os cinco primeiros colocados de cada temporada recebem a superlicença, a carteira de motorista de um piloto de Fórmula 1. Quem chega à GP2 costuma ter um currículo impecável em categorias anteriores, muito dinheiro ou os dois, o que é mais comum. Os melhores, ou os mais endinheirados, costumam encontrar um lugar na Fórmula 1. E mesmo quem sobra não costuma se dar mal: muitos vão parar na Indy, no DTM, no WTCC ou em outros campeonatos de ponta. No grid atual da Fórmula 1, temos quatro campeões da GP2 (Nico Rosberg, Lewis Hamilton, Timo Glock e Nico Hülkenberg), quatro vice-campeões (Heikki Kovalainen, Lucas di Grassi, Bruno Senna e Vitaly Petrov) e mais alguns outros pilotos de destaque (Sebastien Buemi, Kamui Kobayashi e Karun Chandhok). Outros pilotos, como Mike Conway (Indy), Romain Grosjean (FIA GT1) e Scott Speed (Nascar) também encontraram seu lugar ao sol.

Porém, não são somente os pilotos que a utilizam como trampolim para o estrelato. Equipes, engenheiros e mecânicos procuram brilhar nessa etapa para conseguirem o passaporte para a Fórmula 1. A Campos, estrutura embrionária da HRT, teve de comer muito arroz com feijão na GP2 antes de pensar em subir para a F1. Ela pode não ter conseguido, mas demonstrou que não há limites para boa parte das equipes da GP2. Arden, Supernova e ART também já tiveram planos para subir em algum momento.

Em 2010, o grid terá 12 equipes, uma a menos que no ano passado, e 24 pilotos. Apenas duas vagas estão oficialmente abertas, uma na Arden e uma na Trident. Com relação aos 22 pilotos já confirmados, apenas 12 já possuem experiência prévia na categoria. Os mais antigos nos grid são Pastor Maldonado e Ho-Pin Tung, ambos estreantes em 2007.

Como de costume, a GP2 reúne a fina flor do automobilismo europeu. O Bandeira Verde tem um favorito para o título: o francês Jules Bianchi. sobrinho-neto do ex-piloto Lucien Bianchi, Jules é o atual campeão da Fórmula 3 européia e corre pela ART, a equipe mais poderosa do grid. Seu companheiro de equipe será o inglês Sam Bird, piloto de longa experiência na Fórmula 3 que fará o papel de escudeiro de Bianchi.

O melhor brasileiro do grid, Luiz Razia, e seu Rapax

Mas é bom o francês não chegar pensando que terá vida mole. Seus rivais na briga pelo título serão muitos, e de ótima qualidade. A Addax, maior adversária da ART na categoria, montou um “dream team” com o experiente Giedo van der Garde e o emergente Sergio Perez. A Rapax, antiga Piquet GP, também terá uma dupla forte composta por Pastor Maldonado e o brasileiro Luiz Razia. A iSport terá Davide Valsecchi, campeão do último campeonato asiático da GP2, e Oliver Turvey. A DAMS, equipe oficial da Renault na categoria, terá os experientes Jerôme D’Ambrosio e Ho-Pin Tung. E outros novos talentos como Marcus Ericsson, Christian Vietoris e Charles Pic correrão por equipes menos cotadas, a Supernova, a Racing Engineering e a Arden respectivamente.

Para infelicidade brasileira, a GP2 terá apenas dois pilotos, o menor contingente de pilotos tupiniquins na categoria desde 2005. Além de Razia, o mineiro Alberto Valério fará sua terceira temporada na categoria pela irregular Coloni. Por incrível que pareça, acho mais negócio apostar em seu companheiro de equipe, o búlgaro Vladimir Arabadzhiev. Dessa vez, não poderemos ficar muito otimistas com relação a um piloto daqui brigando por títulos.

O calendário terá 11 rodadas duplas, iniciando-se em Barcelona neste fim de semana e terminando em Abu Dhabi em meados de Novembro. Essa novidade, aliás, é uma das coisas mais estúpidas que a organização da categoria já fez. Entre o fim de semana de Abu Dhabi e a penúltima rodada em Monza, teremos longuíssimos dois meses de intervalo. Bem que poderiam ter colocado uma rodada “standalone” nesse interregno aí, que nem farão com Algarve em Junho.

Recomendo muito aos leitores que sigam a categoria. Nem digo para assistirem à etapa dominical, pois acordar antes das seis da manhã no domingo é complicado. Tentem assistir à corrida de sábado, que é a que vale mais. A SporTV transmitirá, pelo menos é o que eu creio.

« Página anteriorPróxima Página »