No post de hoje, farei algo que detesto ver outros fazendo: vou comentar sobre um assunto no qual não tenho conhecimento. Falo um pouco sobre futebol. Antes de tudo, deixo bem claro: não tenho nada contra ou a favor do ludopédio, não entendo nada sobre ele e nem ligo para isso. Na Copa do Mundo, vou torcer pelo Brasil unicamente para poder ser liberado do trabalho e da faculdade. Para contrabalancear a minha ignorância futebolística, darei um jeito e colocarei a Fórmula 1, assunto que me interessa um pouco mais, no meio. Vamos à salada esportiva!

Para o "sensato" e "racional" torcedor, um burro

O técnico Dunga anunciou, na semana passada, a lista dos 23 jogadores convocados para a Copa. Como de costume, o nobre povo brasileiro não gostou. O motivo? A ausência de alguns jogadores bastante considerados pela mídia e pelos torcedores, como os santistas Neymar e Ganso. E Dunga virou burro. Os críticos, e eles são muitos, acusam o técnico de montar uma seleção conservadora, burocrática e pouco criativa, muito mais próxima da frieza eficiente européia do que da alegria exuberante brasileira. 

Não vou comentar os aspectos técnicos da escalação porque, como disse, não entendo patavinas de futebol. Nunca vi os tais santistas jogarem, nem sabia da existência do tal Ganso antes do oba-oba midiático e se me mostrarem, por exemplo, o Adriano e a bola correndo, não sei distinguir quem é quem. Deixo isso para quem sabe. Vou falar mal, como de costume, da torcida. Ah, a torcida, sempre chata na Fórmula 1 e extremamente chata no futebol.

Li os argumentos de Dunga para a escalação. Ele disse que escolheu os jogadores pelo seu comprometimento, nada mais justo. Além do mais, não chamou os pirralhos da Vila por considerar a falta de experiência de ambos em momentos decisivos, algo assim. Argumentos sensatíssimos de um cara que já foi campeão do mundo e que supostamente entende mais de futebol do que os torcedores por aí. O time não precisa ser alegre, emocionante ou bobagens do tipo. Precisa, sim, marcar gols, evitar tomá-los e ganhar o título, e só. Qualquer coisa fora desse objetivo é pirotecnia.

Uma coisa que me irrita na torcida latina, tanto no futebol como na Fórmula 1, é essa necessidade do caminho épico às vitórias. Não basta vencer, tem de chegar lá da maneira mais dramática possível. Na Fórmula 1, seja por meio da chuva, de câmbios quebrados ou de padres irlandeses correndo no meio da pista, a vitória deve emocionar. No futebol, tem de ter gol de bicicleta, dribles e caneta. E, é claro, o resultado deve vir após uma virada. Afinal de contas, é feio vencer de 1 a 0 ou vencer uma corrida de ponta a ponta, mesmo que tudo seja feito de maneira impecável e que o resultado tenha sido absolutamente incontestável e merecido. Oras, o objetivo no esporte é unicamente a vitória! Esse negócio de “ganhar feio” ou, pior ainda, “perder bonito, perder com dignidade” é ridículo. Quem quer ver o esporte unicamente esperando o momento da firula, que vá ver o Harlem Globetrotters.

Outra coisa: os torcedores tratam jogadores, técnicos, pilotos, chefes de equipe e todos envolvidos no esporte como se fossem retardados. Afinal de contas, o Dunga, tetracampeão do mundo, não entende porra nenhuma sobre futebol, quem entende é o Ademir, 41 anos, desempregado, com ensino fundamental incompleto e absolutamente perna de pau na pelada domenical. O Dunga, aquele que recebe 173 mil reais por mês pelo seu trabalho e que, provavelmente, atravessa noites em claro assistindo a VTs de dezenas de jogos brasileiros e europeus, escrevendo relatórios e desenvolvendo táticas, não entende nada, caro leitor. Quem entende é você, que compra seu Lance toda manhã, toma seu café e acusa o técnico de burro. O Dunga não deve ir contra o clamor popular, diria você. Ele é o nosso ombudsman!

O mesmo vale para a Fórmula 1. Nem comento sobre Rubens Barrichello, assunto cansativo e que já deu o que tinha que dar. Falo sobre Felipe Massa, piloto de excelente qualidade técnica e de uma sensatez ímpar que fala com a mídia e com torcedores misturando otimismo e cautela. O que ele recebe em troca? Críticas ferozes de periódicos como o italiano La Repubblica e comentários maldosos de brasileiros que suspiram e esperam sentados por um novo Ayrton Senna desde 1994. Para essa gente, Felipe Massa perdeu velocidade com o acidente na Hungria e é muito inferior ao seu companheiro Fernando Alonso. Qual é o fundamento para o torcedor explicar tudo isso? Relatórios de telemetria, tabelas de resultados de treinos e corridas ou depoimentos de mecânicos e engenheiros? Nada disso. Ele se baseia no que ele vê na TV e no que seus colegas de trabalho comentam. 

Se o Tony Fernandes desse ouvido aos torcedores, nenhum dos dois estaria na equipe

Mas não é só Felipe Massa que é perturbado pela mídia e pelos torcedores. Todo mundo, em determinado momento, é aborrecido com críticas superficiais e imediatistas. Ninguém busca entender o motivo do piloto andar daquele jeito, do chefe de equipe contratar determinado piloto ou do técnico tomar tal decisão. Lembro-me, por exemplo, da Lotus anunciando, no final do ano passado, Jarno Trulli e Heikki Kovalainen. Muitos chiaram, alegando que a dupla era muito conservadora, velha e discreta. Mas e aí? O que o Tony Fernandes poderia fazer? Contratar um cara que só tinha duas corridas boas no currículo, como Kamui Kobayashi? Dar espaço a um novato cujo risco é alto, como Pastor Maldonado ou Fairuz Fauzy? Tony agiu sensatamente e colocou dois pilotos experientes que trouxessem mais conhecimento e menos possibilidades de risco.

Não insinuo no texto que devemos dar amém a todas as atitudes tomadas por técnicos, chefes de equipe, jogadores e pilotos. Eles erram, e muito. Mas erram porque a vida é assim, ninguém acerta o tempo todo. Antes de cometer o erro, o cara trabalhou duro para fazer sua idéia funcionar. A seleção do Dunga tanto pode voltar para casa sem o título como pode ser coroada hexacampeã, sendo que tudo dependeria não só da escalação, mas também da dedicação e do aspecto psicológico dos jogadores, da condição dos outros times e da sorte. Uma seleção ou uma equipe de Fórmula 1 não entra em uma competição se enxergando como vencedora unicamente porque aparenta ter um pacote melhor que o resto. E se a vitória não vem, não é com a corneta de um torcedor ou um jornalista que a situação poderia ser revertida.

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