Automobilismo é, definitivamente, um negócio cruel. O cara investe sua vida, seu tempo, o dinheiro e a paciência dos pais para realizar o sonho de ser um piloto de Fórmula 1. Se ele dá errado logo no kart, tudo bem, o sonho acaba, a realidade volta à tona e resta fazer uma faculdade ou cuidar da quitanda da mãe. O problema é quando a carreira engrena e o jovem piloto começa a perceber que possui talento o suficiente para brilhar no topo. Ele chega à World Series ou à GP2, anda muito bem e descobre que… a Fórmula 1 continua tão inacessível como sempre. Este é o caso do português Álvaro Parente.

Álvaro Parente é um dos melhores pilotos do mundo fora da Fórmula 1. Exagero meu? Deve ser, sou apegado a hipérboles. Mas o caso é que o cara tem um currículo muito melhor do que o de muito piloto da Fórmula 1 e da Indy. Álvaro já foi campeão da Fórmula 3 inglesa em 2005 e da World Series by Renault em 2007. Além disso, contabiliza vitórias na Fórmula 3 espanhola, na Superleague e na GP2. Na pista, é veloz e muito raramente comete erros. Pela lógica, deveria estar na Fórmula 1 e, no mínimo, em uma equipe média. Mas quem disse que há lógica na Fórmula 1?

Parente é um dos casos mais lamentáveis de pilotos talentosos sem dinheiro. Em seu país, as empresas demonstram pouco interesse em patrocinar seus pilotos. Nem sempre foi assim. No início dos anos 90, empresas como a petroleira Galp patrocinavam maciçamente pilotos como Pedro Chaves, Diogo Castro Santos, Pedro Lamy, Manuel Gião e Pedro Couceiro.  Lamy fez a Fórmula 3000 em 1993 com um batalhão de patrocinadores que incluía até mesmo a gigante japonesa dos videogames Nintendo. Com o passar do tempo , o Grande Prêmio de Portugal saiu do calendário, as categorias portuguesas se enfraqueceram e sobraram apenas iniciativas individuais de gente como o próprio Parente e Antônio Félix da Costa, da Fórmula 3 européia.

Em várias ocasiões, a carreira de Parente quase foi interrompida por falta de fundos. No fim de 2007, mesmo com o título da World Series, ele cogitou abandonar tudo. Sua carreira foi salva pela Unicer, uma grande empresa lusitana que produz vários tipos de bebida. Dizem que a recomendação de Parente saiu do astro do futebol Cristiano Ronaldo, um dos patrocinados pela empresa. Com o apoio, Álvaro encontrou uma vaga na razoável Supernova para correr na GP2 em 2008. E assim ele levou o emblema da Soccerade, um dos produtos da Unicer, em seu carro.

Nesse ano, tudo indicava que a sorte dele mudaria. A Virgin o chamou para ser um dos dois pilotos reserva da equipe, ao lado do baiano Luiz Razia. Por pior que a Virgin fosse e por menos testes que houvesse, a oportunidade de se vincular a uma equipe de Fórmula 1 era um sonho para Álvaro Parente.  Logo, porém, o sonho desmoronou e se transformou em uma desagradável situação. Seu principal patrocinador na empreitada, o Instituto de Turismo de Portugal, o deixou na mão faltando apenas alguns dias para a apresentação oficial da equipe. E olha que foi o Instituto que o obrigou a assinar com a Virgin em detrimento de outras duas equipes. Enfim, Álvaro deu o azar de se envolver com gente que não valia a pena.

Neste último fim de semana, a Coloni o chamou às pressas para correr na etapa de Spa-Francorchamps da GP2 no lugar do dispensável Alberto Valério. Parente entrou no carro vestindo apenas um macacão branco sem qualquer sinal de patrocínio. É visível que Paolo Coloni o convidou apenas por camaradagem e por uma questão de emergência. Mesmo assim, Álvaro fez uma grande apresentação. Apesar de ter feito apenas o 16º tempo na classificação, ele ganhou cinco posições na primeira volta e tentou uma muitíssimo bem sucedida estratégia de permanecer na pista pelo maior tempo possível. No final da corrida, o português se encontrava na liderança com mais de 23 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. Fez a parada e voltou com tudo, quase tomando a vitória de Pastor Maldonado. Terminou em segundo. No dia seguinte, Álvaro também fez uma corrida agressiva e se envolveu em uma das melhores manobras de ultrapassagem dos últimos anos, mostrava no vídeo aí embaixo. Terminou em terceiro.

Como um cara desses está fora da Fórmula 1?

MCLAREN 8,5 – Na semana passada, todo mundo estava dizendo que era um carro a se temer em Spa. Os primeiros treinos chegaram e ficou provado que ao menos a Ferrari estava no mesmo nível. Veio a corrida e a equipe de Hamilton e Button deixou todo mundo para trás nas primeiras voltas. Jenson foi tirado da pista pelo aloprado Vettel. Lewis venceu de maneira austera. É a equipe mais confiável do grid.

RED BULL 6 – Com a pole-position de Webber e o quarto lugar de Vettel, a corrida poderia ter sido legal para os taurinos. Mas o australiano perdeu uma miríade de posições na largada devido a um problema na embreagem e o alemão acabou com sua corrida ao bater em Button e ao tocar em Liuzzi. Corrida feita para nós nos lembramos que a equipe continua incapaz de fazer na corrida o que faz nos treinos.

RENAULT 7,5 – O carro é bom e o primeiro piloto é ótimo. Kubica andou bem o tempo todo e poderia ter terminado em segundo se a equipe não tivesse se complicado na sua última parada dos pits. Mesmo assim, um bom pódio. Por outro lado, Petrov poderia ter ido bem melhor se não tivesse batido no sábado. Como de costume, rápido e muito inconsistente.

FERRARI 7 – A promessa de um bom desempenho ficou na sexta-feira, quando Alonso liderou os dois treinos livres. Sofreu na classificação de sábado e só salvou sua corrida porque Felipe Massa foi discreto e eficiente. O espanhol pintou e bordou e terminou com o carro quebrado em um canto qualquer. Sempre espalhafatoso, o tal de Alonso.

FORCE INDIA 8 – Equipe marcada por um imenso desnível entre seus pilotos. Enquanto Adrian Sutil anda sempre entre os ponteiros e leva dez pontos para casa, Vitantonio Liuzzi só se arrasta no meio do pelotão. Quanto à equipe, a competência de sempre em uma pista veloz.

MERCEDES8,5 – Após a classificação de sábado, tudo parecia perdido para a equipe de três pontas. Um dos pilotos havia sofrido uma punição e o outro teve de trocar o câmbio. Ainda assim, ambos vieram para a corrida como dois franco-atiradores e se deram muito bem. Leva 14 pontos para casa.

SAUBER6 – Menos espetacular do que em outras ocasiões, era outra equipe que tinha muito a lamentar após os dois pilotos terem saído da pista no Q1 da classificação. Na corrida, Kobayashi se recuperou e chegou em um bom oitavo lugar. De La Rosa bateu na trave, mas não teve os problemas costumazes. Para uma equipe que vem marcando pontos com frequência, um fim de semana apenas normal em termos de resultados.

TORO ROSSO 3 – Desempenho normal, nada além ou aquém do esperado. A novidade foi ver Jaime Alguersuari andando na frente de Sebastien Buemi. O espanhol terminou em décimo, mas foi punido e perdeu três posições. Buemi também não pontuou. Se estabeleceu definitivamente como a típica equipe do meião do grid.

WILLIAMS 2 – Com os dois pilotos largando entre os dez primeiros, esperava um grande resultado. Mas Barrichello abandonou seu seu tricentésimo grande prêmio na primeira volta após bater em Alonso e Hülkenberg teve problemas no acelerador.

LOTUS 7 – Com o 13º de Kovalainen e o 15º de Trulli no grid, tinha todos os motivos do mundo para comemorar no sábado. A corrida aconteceu, a realidade reapareceu e os dois pilotos perderam as posições que tinham de perder. Ainda assim, Kovalainen foi o melhor entre a turma do fundão e Trulli, apesar da rodada perigosa no final, também terminou.

VIRGIN 5 – Lucas di Grassi andou bem novamente e por pouco não foi o melhor entre os pilotos das equipes novatas. Por outro lado, Timo Glock teve uma prova recheada de problemas. Os dois carros terminaram, algo muito raro no reino de sir Richard Branson.

HISPANIA 4,5 – Sábado dos sonhos com Bruno Senna largando em 18º e Sakon Yamamoto saindo em 19º. O carro, razoável em retas, não era suficiente para mantê-los nessa forma na corrida. A suspensão do carro de Senna foi pro saco e Yamamoto só terminou. Em termos de posições na pista, foi o melhor fim de semana do ano. Sakon chegou a andar em 13º no comecinho, um milagre digno de Nossa Senhora da Aparecida.

TRANSMISSÃOÉ O PET, É O PET!Sem comentários. E Gary Paffett não é engenheiro, querido Galvão Bueno.

CORRIDA TRIFÁSICA – Para quem estava esperando uma corrida de powerboats no melhor estilo 1998, a prova de ontem pode não ter sido a melhor do mundo. Choveu apenas nas primeiras e nas últimas voltas, e mesmo assim não foi o suficiente para transformar o grande prêmio em uma competição de patinação no gelo. Mesmo assim, Spa-Francorchamps é Spa-Francorchamps e a corrida raramente decepciona. Com Lewis Hamilton tendo dominado desde o início, as disputas aconteciam da segunda posição para trás. Em uma delas, o saltimbanco Sebastian Vettel atropelou Jenson Button e os dois foram alijados do pódio. Mais atrás, pilotos como Nico Rosberg, Michael Schumacher, Kamui Kobayashi e Vitaly Petrov se envolviam em inúmeras brigas, garantindo a diversão na prova. Para quem esperava por acidentes, apenas Rubens Barrichello e Fernando Alonso, este por duas ocasiões, deram o ar da graça. Jarno Trulli quase causou uma pancada monstruosa, mas ficou no quase. No fim, sem ser inesquecível, a corrida já garantiu mais diversão do que a maioria das outras corridas desse campeonato.

GP2 PANAMERICANISMO BOLIVARIANO – O jovem revolucionário Simón Bolívar não poderia ficar mais feliz. Seu sonho de uma América Latina que pudesse peitar os imperialistas europeus está se realizando… na GP2. Pastor Maldonado, o piloto preferido de Hugo Chavez, venceu pela sexta vez consecutiva uma corrida de sábado e disparou na liderança do campeonato. Dessa vez, sua vitória foi extremamente sortuda. Álvaro Parente, o líder durante a maior parte do tempo, fez uma parada e voltou em terceiro. À sua frente, Jerome D’Ambrosio e Maldonado, que havia tomado uma bela ultrapassagem do belga. Porém, o sempre azarado D’Ambrosio teve problemas no motor e abandonou a prova, deixando o caminho livre para Maldonado vencer. Na corrida do domingo, o mexicano Sergio Perez fez a festa pela quarta vez no ano. Destaco o segundo pódio seguido de Parente, substituto de Alberto Valério na Coloni. Pelo visto, Pastor Maldonado só perderá o título se houver uma conspiração estadunidente e primeiro-mundista capitaneada pelos yankees.

LEWIS HAMILTON 9,5 – Com a McLaren sendo considerada uma forte candidata à vitória, Lewis não decepcionou. Fez o segundo tempo na classificação, largou bem, tomou a liderança antes mesmo da primeira curva e permaneceu por lá até o fim da corrida. Só não leva o dez porque perdeu a pole-position e quase perdeu a própria corrida ao escapar da pista no momento em que a chuva se iniciou pela segunda vez. Volta a liderar o campeonato.

MARK WEBBER 7,5 – À primeira vista, um resultado bastante negativo para quem havia largado na pole-position. Por outro lado, um ótimo resultado pra quem teve uma largada horrorosa devido a um problema na embreagem. Recuperou posições com o acidente de Vettel e Button e com o problema de Kubica na última parada de boxes. No fim das contas, apesar de ter perdido a liderança do campeonato, o australiano só tem motivos para sorrir.

ROBERT KUBICA 9 – Melhor apresentação do ano até aqui. Largou em terceiro, subiu para segundo e só perdeu duas posições porque escapou da pista em um momento de chuva. Voltou ao segundo lugar após o acidente à sua frente e caiu para terceiro após ter um pequeno problema na sua última parada. Pódio merecidíssimo.

FELIPE MASSA 8 – Mineiramente, fez uma ótima corrida. Largou muito à frente de Alonso e, ao contrário do espanhol, não se envolveu em confusões. Aproveitou-se dos abandonos à frente para terminar em um interessante quarto lugar. Pelo visto, foi o máximo que um piloto da Ferrari poderia conseguir em Spa.

ADRIAN SUTIL 9 – Outro que fez um corridão. Largou em oitavo e sempre se manteve por ali, entre os primeiros. Depois de duas corridas infelizes, um excelente quinto lugar. Vem se mostrando um notável especialista em pistas velozes.

NICO ROSBERG 8,5 – Dessa vez, fez uma corrida bastante movimentada. Trocou o câmbio antes da classificação e perdeu cinco posições, sendo obrigado a partir em 14º. Apostou em um acerto de pista molhada, algo que deu muito certo. Largou muito bem, se envolveu em boas brigas, tomou ultrapassagens de Schumacher e Petrov e ultrapassou Schumacher e Kobayashi no final. Ótimo sexto lugar, uma de suas melhores atuações no ano.

MICHAEL SCHUMACHER 7,5 – Em uma pista onde estreou há 19 anos e onde venceu em várias ocasiões, Michael teve uma boa atuação. Saiu da 21ª posição devido a uma punição referente à pataquada húngara, ganhou um monte de posições na primeira volta e seguiu fazendo ultrapassagens a rodo. Chegou a ocupar a quinta posição, mas acabou terminando em sétimo. Deve ter se divertido um bocado.

KAMUI KOBAYASHI 8 – Prejudicou sua classificação ao sair da pista ainda no Q1. Na corrida, largou muito bem e se envolveu em brigas durante quase todo o tempo. Sem os azares que o perseguiam durante o ano e com o bom trabalho de estratégia e de pits de sua equipe, conseguiu terminar em um ótimo oitavo lugar. Os pontos estão virando rotina.

VITALY PETROV 7 – Após bater na classificação do sábado, não estava esperando por porra nenhuma. Mas fez uma ótima largada e também ganhou posições durante a corrida, tendo como destaque a boa ultrapassagem sobre Rosberg. Terminou em nono, mas poderia ter ido melhor se não tivesse colocado tudo a perder no dia anterior.

VITANTONIO LIUZZI 4 – Terminar em décimo após a desclassificação de um gaiato qualquer não é exatamente um grande resultado, ainda mais considerando que o companheiro terminou em quinto. Ainda assim, o italiano não deve reclamar, já que seu toque com Vettel quase acabou com qualquer chance de um bom resultado. Continua devendo, e muito.

PEDRO DE LA ROSA 4 – Após ter largado em último, tentou fazer uma corrida dessas de quem não tem nada a perder. Com algumas escapadas de pista, disputas por posição e estratégias diferenciadas, ele realmente conseguiu fazer uma corrida animada. Faltou só pontuar. Observando a performance do seu companheiro, não há muito o que celebrar.

SEBASTIEN BUEMI 3 – Ficou atrás de Alguersuari na classificação e ainda perdeu mais três posições no grid por ter bloqueado Rosberg no Q2. Na largada, foi tocado por trás e teve um pneu e o difusor danificados. Diante disso, não teve como fazer muito mais do que o 12º.

JAIME ALGUERSUARI 4,5 – Um de seus melhores fins de semana no ano. Largou à frente de Buemi e, mesmo tendo problemas ao escolher os pneus corretos, conseguiu terminar em um bom décimo lugar. Porém, foi punido com o acréscimo de 20 segundos por ter feito ultrapassagem irregular na Bus Stop e perdeu o ponto. Uma pena.

NICO HÜLKENBERG 5,5 – Razoável nos treinos, fez um bom início de corrida. No entanto, o acelerador começou a falhar e a dirigibilidade foi bastante afetada, o que lhe causou algumas rodadas. Terminou a alguns anos-luz de pontuar.

SEBASTIAN VETTEL 0 – Absolutamente nada de bom para falar. Largou três posições atrás de Webber, bateu em Button de maneira grosseira na Bus Stop, se envolveu em um outro toque com Liuzzi e ainda por cima escolheu os pneus errados no momento em que choveu pela segunda vez. Diante disso, até que o 15º não foi um mal resultado.

HEIKKI KOVALAINEN 8 – Ninguém prestou atenção, mas fez uma excelente corrida. Largou em um irreal 13º lugar, teve problemas na largada, danificou o bico na primeira volta e ainda fez uma escolha errada de pneus no momento da primeira chuva. Depois disso, se recuperou e ganhou as posições de todos os outros pilotos das equipes novatas. Me arrisco a dizer que foi o melhor fim de semana de um piloto das equipes novatas até aqui.

LUCAS DI GRASSI 7 – Outro que fez uma grande corrida dadas as circunstâncias. No treino oficial, foi atingido pelo Lotus de Trulli e acabou não conseguindo fazer uma volta competitiva. Na corrida, fez uma excelente largada e, com o bom trabalho de sua equipe, esteve sempre competitivo. No fim da prova, ganhou a posição de Trulli e perdeu uma para Kovalainen, que teria feito uma ultrapassagem irregular. Ainda assim, um fim de semana acima das expectativas.

TIMO GLOCK 3 – Só teve motivos para sorrir quando conseguiu passar para o Q2 da classificação. Foi punido por ter bloqueado Yamamoto e perdeu cinco posições no grid. Na primeira volta, perdeu posições ao ser empurrado para fora na primeira curva e ainda quebrou o bico no momento do acidente de Barrichello. Depois, só restou seguir em frente para terminar.

JARNO TRULLI 3,5 – Teve um fim de semana daqueles. Bateu com Di Grassi no Q1 da classificação, mas conseguiu largar em um improvável 15º lugar, duas posições atrás de seu companheiro de equipe. Largou bem e sempre liderou a turma das equipes novatas, mas cometeu um erro perigoso na última relargada, rodou na Pouhou e quase causou um acidente cinematográfico. Só restou terminar.

SAKON YAMAMOTO 6 – É até assustador dizer isso, mas fez, de longe, sua melhor corrida na Fórmula 1. Conseguiu largar em 19º, ganhou seis posições na largada e fez o possível para tentar se manter no meio do bolo. Como seu Hispania é ruim de doer, só restou a ele cair para último e seguir por lá até o fim. Ainda assim, fim de semana digno de se contar para os netos.

FERNANDO ALONSO 3 – O engraçado em Alonso é que as descrições sobre suas atuações, no geral, são as maiores desse blog, seja pelo lado bom ou pelo ruim. Seu melhor momento no fim de semana ocorreu na sexta-feira, quando ele liderou os dois treinos livres. No sábado, ficou em último no Q3 porque decidiu guardar o melhor jogo de pneus para utilizar no final do treino, estratégia prejudicada pela chuva. Na corrida, foi abalroado por Barrichello na primeira volta e caiu para o fim do grid. Com relação aos pneus, teve dificuldades para fazer as escolhas certas. No fim, quando começou a chover pela segunda vez, sua Ferrari pisou na zebra, rodou e bateu nos pneus. Voltou para casa encharcado e sem pontos.

JENSON BUTTON 7 – Um pobre infeliz que foi atingido pela falta de cérebro de um piloto alemão. Jenson foi apenas correto no treino oficial, mas fez um ótimo começo de corrida e ganhou três posições. Manteve-se em segundo por um bom tempo até ser atingido na Bus Stop por um Vettel que não sabe como iniciar uma ultrapassagem sem quebrar o carro alheio. Sua corrida acabou ali.

BRUNO SENNA 4 – Sua 18ª posição no grid representou apenas uma felicidade efêmera, já que as poucas voltas completadas na corrida foram infelizes. Na largada, quebrou o bico no toque com um adversário. Algumas voltas depois, a suspensão traseira quebrou e Bruno sofreu uma rodada em alta velocidade. Após isso, só restou encostar o carro nos boxes.

RUBENS BARRICHELLO 3,5 – Que maneira de comemorar o GP de número 300, hein? Sua corrida se resumiu a uma batida na traseira da Ferrari de Alonso ainda na primeira volta. Culpa da chuva, aliada de Rubens em tantas corridas de sua carreira. Foi o fim abrupto de uma prova que prometia bastante, a começar pelo 7º lugar no grid.

E a Fórmula 1 desembarcou, nestes últimos dias da semana, na pista de Spa-Francorchamps, a verdadeira queridinha do calendário atual. Já falei sobre a pista antiga e a pista nova, ambas indescritivelmente sensacionais. É o tipo de circuito que simplesmente não tem pontos fracos. Do traçado até o cenário, tudo é bom. No entanto, sempre há alguma coisa que se destaca mais. No caso da pista belga, não há como pensar nela sem se lembrar da curva Eau Rouge. É um conceito único entre os circuitos do mundo: uma sequência de duas pernas de raio longo feitas em um trecho incomum de subida sucedendo imediatamente a uma descida. Esta descrição, absolutamente fria e técnica, não consegue expor o misto de temor e admiração gerado em pilotos e entusiastas.

Os pilotos temem e admiram a Eau Rouge porque, acima de tudo, ela é perigosa como xingar a mãe do Maguila. Nos dias atuais, um carro de Fórmula 1 obrigatoriamente deve passar pela dita curva em aceleração total. O piloto chega a receber forças de até cinco vezes a gravidade em sua cabeça e o uso do downforce é máximo. Um trecho como este exige precisão total do conjunto piloto-máquina. E aí que entra o perigo. Alterando a famosa frase de Nelson Piquet, se qualquer passarinho sujar a pista, o resultado pode ser uma visita indesejada à UTI e um carro completamente depenado. Não por acaso, a Eau Rouge já foi o palco de inúmeros acidentes de várias categorias do esporte a motor. Alguns, como Stefan Bellof, nem tiveram a oportunidade de contar a história. Outros, como Alex Yoong, Ricardo Teixeira, Stefano Coletti e Andrea Chiesa, tiveram de usar muito Gelol pra apaziguar as dores.

O Bandeira Verde conta a história de cinco pilotos que foram pegos de surpresa pela curva mais impressionante da Fórmula 1 atual. Só um detalhe: alguns dos acidentes aqui aconteceram na Radillon, mas se iniciaram na Eau Rouge. Por isso, contam como acidentes da Eau Rouge. Critérios meus, pois.

5- RYAN BRISCOE

Briscoe? Piloto de Fórmula 1? Só no seu planeta, amigo.

O fato é que o australiano, que corre atualmente na Indy pela poderosa Penske, já foi o piloto reserva da Toyota em 2004. É algo que poucas pessoas se lembram. O interessante é que, desde aquela época, Briscoe apresenta uma perigosa propensão a acidentes violentos. É o caso dessa pancada do vídeo, ocorrida aos oito minutos da segunda sessão de treinos livres de sexta da corrida belga.

O vídeo não é muito claro, mas indica que Ryan já vinha com o carro arrebentado desde a descida que precede a Eau Rouge. Segundo a Toyota, um pneu furado fez com que o TF104 se descontrolasse, atingindo uma mureta à direita. Após este choque, o carro seguiu se arrastando até bater de leve na barreira de pneus da Eau Rouge. Briscoe saiu do carro com um arranhão do braço e foi ao centro médico dar um oi para as enfermeiras. No fim das contas, tudo bem com ele. Para quem sofreria aquele acidente monstruoso em Chicagoland no ano seguinte na Indy Racing League, a pancada belga foi coisa de criança.

4- MIKA SALO

(2:32)

Mika Salo nunca foi um cara de batidas pirotécnicas. Seu estilo minimalista de pilotagem raramente resultava em erros e as equipes pequenas o valorizavam muito por isso. Mas é claro que acidentes acontecem. O problema de Salo é que seu pior acidente na carreira veio a acontecer justamente na Eau Rouge.

Em 1998, o fim de semana da Fórmula 1 em Spa foi marcado por um dilúvio desses de fazer Noé borrar as calças. Chovia uma barbaridade e arriscar demais em uma pista veloz como a belga nestas condições soa como pura irresponsabilidade e falta de amor à vida. Nos treinos livres de sábado, Mika estava muito esperançoso com uma  nova especificação de motor que estreava naquele fim de semana. Com muita sede ao pote, ele veio para a pista ligeiramente molhada com seu belo Arrows preto. O desastre veio a acontecer logo na primeira volta rápida: o finlandês perde o controle de seu carro na Eau Rouge, rodopia e acerta a barreira de proteção com tudo. Após a batida, seu carro rodopia um pouco e para no meio da pista.

Todo mundo ficou preocupado em um primeiro instante, mas a tranquilidade voltou a reinar tão logo Salo se movimentou para sair do carro. O resultado da porrada foi uma baita de uma dor de cabeça durante o restante do dia, uma língua mordida e um monte de dores pelo corpo. Uma visita no hospital, uma bateria de exames e tudo voltava ao normal. Mika Salo ainda se envolveria no megaacidente do dia seguinte. Um fim de semana de arromba, sem dúvidas.

3- ALESSANDRO ZANARDI

Essa é a pancada mais dolorida de todas. Na verdade, é uma dessas em que o piloto deve agradecer a todos os deuses por ter saído vivo. Alessandro Zanardi, aquele que tragicamente perdeu as duas pernas em um acidente em Lausitzring em 2001, teve um outro incidente quase tão violento quanto oito anos antes na Fórmula 1.

Era o primeiro treino livre do Grande Prêmio da Bélgica de 1993 e Zanardi veio à pista com seu Lotus meia-boca. Após apenas quatro voltas, seu carro pegou uma das ondulações da Eau Rouge e, muito baixo, se descontrolou. No entanto, ao contrário dos dois casos acima, o Lotus seguiu reto e se arrebentou de frente em um guard-rail completamente desprovido de pneus de proteção a uma velocidade de 250 km/h. Após o choque, o bólido seguiu rodopiando em altíssima velocidade até parar de vez, também com violência, no guard-rail nu da curva Radillon. Uma senhora pancada.

É um desses acidentes que deixam as pessoas atônitas. Muitos não acreditavam encontrá-lo vivo dentro do carro. Quando os primeiros fiscais de pista se aproximaram, Zanardi estava, de fato, inconsciente e com a boca sangrando. Alguns segundos se passam e um McLaren para por ali. É Michael Andretti, que estaciona o carro no meio da pista para ver o que está acontecendo. Pouco depois, outro McLaren aparece por ali. É Ayrton Senna, que é pego de surpresa pela confusão, tenta evitar o carro de Andretti, roda e bate a apenas poucos metros do carro de Zanardi. Por pouco que a merda não fica realmente grande.

Zanardi é levado ao hospital e por lá fica por alguns dias. O italiano teve um dente quebrado, um belo estiramento no pescoço e um pequeno edema cerebral. Diz a lenda que o estiramento foi tão forte que o pescoço dele chegou a crescer em alguns centímetros. E é lenda séria! A recuperação foi rápida e ele pôde testar um Lotus algumas semanas depois em Silverstone. Fez apenas duas voltas, rodou várias vezes e a Lotus concluiu que não dava para colocá-lo para correr tão cedo. Em seu lugar, entrou o português Pedro Lamy.

2- RICARDO ZONTA

Treinos oficiais do Grande Prêmio da Bélgica de 1999. Pouco após o acidente de Jacques Villeneuve e a bandeira vermelha, seu companheiro na BAR Ricardo Zonta entrou no seu BAR 01 nº 23 para voltar para a pista. O curitibano estava um pouco asssustado com a possibilidade da saída de traseira que motivou o acidente do Villeneuve se repetir com ele. Mas a vida é assim mesmo e um piloto de Fórmula 1 nunca deve sucumbir à paúra.

Zonta vai à pista e anda por alguns minutos. O carro parece normal, não sai nem de frente e nem de traseira. Ele abre uma volta rápida e desce em direção à Eau Rouge. Ao adentrar a curva, vira para a direita e, em seguida, começa a girar o volante à esquerda de maneira sutil. De repente, a traseira escapa violentamente. O carro rodopia, toca a caixa de brita e sai capotando violentamente. Felizmente, o BAR não ficou de cabeça para baixo e terminou rodopiando até parar na brita da Radillon. O mundo fica embasbacado com a cena, que foi captada ao vivo. Dois acidentes de uma mesma equipe em uma mesma curva em questão de minutos. Como pode?

Ricardo saiu do carro ileso mas lívido. Com dois carros completamente destruídos, a BAR teve de encomendar às pressas os dois carros de testes que estavam parados na fábrica da equipe, localizada na cidade inglesa de Brackley. Alguns boatos começaram a correr sobre a má qualidade da engenharia da equipe inglesa. Duas explicações foram ventiladas sobre o acontecido. Uma delas dizia que o carro era baixo demais e se descontrolava a cada vez que o assoalho batia em uma ondulação da Eau Rouge. A outra explicação colocava em dúvidas uma espécie de cola utilizada para dar firmeza à suspensão traseira. No fim das contas, não se chegou a conclusão nenhuma e os dois pilotos da BAR participaram da corrida.

1- JACQUES VILLENEUVE

O canadense Villeneuve é um sujeito que se recusa terminantemente a fazer uma corrida em Spa-Francorchamps sem tomar algum susto. Em 2000, ele sofreu um acidente razoável na Kemmel com seu BAR 002 branco. Em 2005, ele deu uma bela escorregada de traseira na Eau Rouge com seu Sauber. Saiu ileso. No entanto, nem sempre isso acontece. JV é o único piloto desse ranking que teve dois incidentes na Água Vermelha, referência ao riacho que corre a cerca de alguns quilômetros do circuito belga.

“Foi o melhor acidente que eu sofri na Fórmula 1”, referia-se ironicamente Jacques ao seu primeiro acidente ocorrido por lá, em 1998. Nos treinos de sexta-feira, um dia antes do acidente do Mika Salo, Villeneuve vinha bem rápido com seu Williams na Eau Rouge quando o carro pisou em uma ondulação e escapou em direção à Radillon a quase 300 km/h. Sem ter qualquer possibilidade de reação, o canadense só poderia esperar pela sorte. E ela apareceu: o Williams rodou e bateu violentamente de traseira na Radillon. Apesar da barreira de pneus estar bastante danificada e da traseira do carro estar ainda pior, Jacques Villeneuve saiu do carro com apenas um arranhão em um dos joelhos.

O pior é que, exatamente um ano depois, a situação se repetiria. Villeneuve, agora na BAR, foi pego de surpresa em um contexto muito parecido. Nos treinos de classificação da corrida de 1999, o canadense vinha pela Eau Rouge quando o carro escorregou de traseira no meio da curva de um modo muito parecido com o que aconteceu no ano anterior, rodou e bateu de traseira na Radillon. Dessa vez, a batida aconteceu em um ângulo mais aberto, o que fez o BAR virar, tocar a barreira de frente e capotar. Após isso, ele parou de cabeça para cima e muito mais destruído do que o Williams.

Dessa vez, Villeneuve saiu completamente ileso. E completamente irritado. Como isso pode acontecer por duas vezes? Pois é, mais aconteceu. E Jacques, que não é primeiro em um ranking há muito tempo, lidera o Top Cinq dessa semana com essas duas obras de arte ao avesso.

Porque Flandres é um saco

SPA-FRANCORCHAMPS – Já escrevi sobre a pista antiga, um colosso de 14 quilômetros e algumas das curvas mais espetaculares da história do automobilismo. Vamos dizer que a descendente, embora não seja tão portentosa como a ancestral, ainda reserva fortes emoções. Seus pouco mais de sete quilômetros compõem aquela que é a melhor e mais completa pista do mundo atualmente. Imaginá-la fora do calendário da Fórmula 1, como já aconteceu recentemente, é algo que me incomoda um bocado. E a região em questão é conhecida pela suas excelentes fontes de águas termais e por um dos melhores chocolates do mundo. Não há nada de ruim para falar sobre Spa-Francorchamps, especialmente quando chove.

RAIKKONEN – O finlandês, campeão de Fórmula 1 em 2007, deu o ar das graças nesses últimos dias. Disse que sua carreira na categoria estava acabada e que o WRC é muito mais legal. Tendo a concordar, especialmente considerando o ambiente arredio da tal da Fórmula 1. Disse que Sebastian Vettel é o cara mais legal entre os pilotos do certame. Não comento, não o conheço pessoalmente, só digo que ele se parece com o Justin Bieber após um tempo em coma. Disse que Spa-Francorchamps é uma grande pista. Por mais óbvio que isso seja, o fato dele ter vencido por lá quatro vezes deve reforçar ainda mais a afirmação. Falando nisso, quem será que o substituirá no reinado belga? Entre os pilotos atuais, Michael Schumacher à parte, apenas Felipe Massa (2008) tem vitória por lá.

SMS – Michael Schumacher pediu desculpas a Rubens Barrichello pelo ocorrido em Hungaroring. Até aí, tudo bem. O inusitado da situação, todavia, é o fato dele ter feito isso por um SMS que não deve ter custado mais do que uns 30 ou 40 centavos de euro, menos que troco de bala para alguém bilionário. O caráter burocrático de um SMS mostra como a relação entre os dois é boa e sincera. Assim como mostrou como Sebastien Bourdais era bem quisto pela Toro Rosso quando foi demitido da mesma maneira.

300 – Falando em Barrichello, Spa-Francorchamps será o seu fim de semana de número 300. Já falei sobre isso, assim como toda a torcida do Flamengo. Já que o assunto está esgotado, restrinjo-me a falar sobre suas possibilidades nesta corrida. Com um Williams cujo motor Cosworth tem sérios problemas de torque e velocidade final, o negócio é esperar pela chuva. Spa é a pista da primeira pole-position dele em 1994. No entanto, Rubens nunca conseguiu muito mais do que isso. Apenas dois pódios, nas impecáveis temporadas de 2002 e 2004, foram obtidos por lá.

PONTEIROS – A Red Bull está com medo de não andar direito nas grandes retas de Spa. A McLaren vai utilizar esta corrida como um teste para ver se o duto frontal será utilizado em Monza. Duto frontal este que será utilizado pela Renault pela primeira vez na temporada. A Ferrari está feliz com a evolução e a Mercedes, bem… O caso é que não está fácil apontar um favorito para a corrida belga. Se chover, o que não é nem um pouco improvável, o negócio ficará ainda mais bagunçado. Sem grandes certezas, vou pelo meu lado torcedor e aposto 400 milhões de rublos em Vitaly Petrov.

Nelson Piquet Souto Maior. Sujeito cuzão, odiável, pernóstico, invejoso, arrogante, prepotente, antipático, insuportável, calculista, misantropo, desagradável, um verdadeiro filho da puta.

Um viva aos cuzões, odiáveis, pernósticos, invejosos, arrogantes, prepotentes, antipáticos, insuportáveis, calculistas, misantropos e desagradáveis. Outro viva aos verdadeiros filhos da puta. Porque o mundo já está de saco cheio de heróis, de bonzinhos, de criações de condomínio, de politiqueiros e dos falsos filhos da puta.

58 anos. E espero que venha mais por aí.

Bélgica, idolatro. É a próxima parada do calendário do Verde.

Tenho para mim que é o melhor país da Europa ocidental por vários motivos. Em primeiro lugar, os números oitenta e noventa. Em francês normal, eles são quatre-vingt e quatre-vingt-dix, literalmente “quatro-vintes” e “quatro-vintes-dez”. Já na Bélgica, e também na Suíça, são huitante e nonante, muito mais agradável aos ouvidos. Também destaco os chocolates, as águas termais, a floresta das Ardennes e a histórica e interminável briga entre valões e flamencos. E temos também Spa-Francorchamps, um dos maiores circuitos da história do automobilismo mundial. Tenho apenas um porém: não vou falar daquele traçado que todos nós conhecemos e que vigora até hoje no calendário da Fórmula 1, mas sim daquele triangular que vigorou entre 1947 e 1978.

Mas por que o antigo? Com 14 quilômetros de extensão, Spa-Francorchamps era um emaranhado de estradas que, juntas, formavam um circuito de altíssima velocidade com curvas das mais perigosas do mundo em seu tempo. Com todo o respeito ao atual, que eu considero o mais completo circuito do mundo nos dias atuais, pista de cabra macho mesmo era a antiga. 

Jochen Rindt em 1970

Spa-Francorchamps surgiu em 1920, quando dois amigos decidiram criar um espaço para corridas de carros e motos na que pudesse aproveitar as numerosas e longas estradas da província de Liège. Esses dois amigos eram Jules de Thier, diretor do jornal La Meuse, e Henri Langlois van Ophem, diretor do Royal Automobile Club Belgium, importantes e influentes no meio automobilístico o suficiente para conseguirem tocar o projeto. Em agosto de 1921, o circuito foi inaugurado e receberia sua primeira corrida de carros. Porém, apenas um único piloto se inscreveu e a corrida foi cancelada…

A primeira prova realizada acabou sendo de motos e apenas em 1922 que Spa recebeu a primeira corrida de carros. O circuito, que atravessava as cidades de Francorchamps, Malmedy e Stavelot, se tornou muito popular rapidamente devido às altíssimas velocidades proporcionadas pelas estradas que o compunham.  Em 1924, era realizada a primeira edição das consagradas 24 Horas de Spa. No ano seguinte, Spa-Francorchamps recebeu o primeiro Grand Prix, vencido por Antonio Ascari, pai de Alberto.

Com a Segunda Guerra Mundial e o envolvimento da região das Ardennes em episódios como a Batalha do Bulge (megaofensiva alemã contra os aliados, culminando com a vitória destes), o circuito de Spa-Francorchamps teve de ser fechado por sete anos. Reaberto em 1947, o circuito voltou a receber inúmeras corridas de carros e motos. No primeiro campeonato da história da Fórmula 1, Spa-Francorchamps constava como a quinta corrida do calendário.

Com pouquíssimas alterações com relação ao traçado inicial, a versão antiga de Spa recebeu a Fórmula 1 entre 1950 e 1970, com exceção dos anos de 1957, 1959 e 1969. Após inúmeras reclamações acerca da insegurança do circuito, ele deixou o calendário da categoria, sofreu uma grande reforma em 1979 e retornou à Fórmula 1 em 1983, constando em seu calendário até hoje. Ainda rende corridas excepcionais e muitos desafios, mas é evidente que as emoções não são mais as mesmas.

TRAÇADO E ETC.

Eu descobri que a Spa-Francorchamps original não era a Spa-Francorchamps que eu conhecia ao jogar o Grand Prix Legends, um excelente jogo para PC que reproduz, de maneira impecável, a temporada de 1967 da Fórmula 1. Longuíssima e velocíssima, ponderei sobre o quanto os puristas não devem ter reclamado com as mudanças de 1979. Hoje em dia, são pouquíssimos os que podem dizer que viram corridas na pista antiga, e todos amam a pista atual. Conheçamos, então, o cuore do circuito das Ardenhas.

Spa-Francorchamps tinha 14.120 quilômetros de extensão. De forma triangular, iniciava-se em um trecho menos veloz na cidade de Francorchamps, atravessava um trecho de velocidade crescente até chegar em Malmedy, seguia para uma sequência de retas até chegar a Stavelot e retornava a Francorchamps em mais uma sequência de estradas velozes. São 21 curvas, várias retas e curvões de raios tão largos que mais se assemelhavam a retas. Era um circuito de altíssima velocidade (Chris Amon já chegou a fazer 245 km/h de média com um Fórmula 1), mas o carro deveria ser bom de curva para não se complicar em trechos como a Masta Kink. Perigoso, já ceifou a vida de vários pilotos, como os ingleses Chris Bristow e Alan Stacey, mortos no fim de semana de Fórmula 1 em 1960. Por esse motivo, Jim Clark dizia não gostar dessa pista.

Conheça agora os principais trechos:

Eau Rouge em 1965

EAU ROUGE: Nos primórdios, a largada era feita na descida localizada logo após a La Source. Portanto, a primeira curva era a Eau Rouge. Curva esta que é uma das mais sensacionais do automobilismo e que existe até hoje, sendo um raríssimo resquício do automobilismo anterior à Fórmula 1.

A Eau Rouge é uma coisa esquisita, que não poderia ser considerada uma curva ou uma chicane. Inicia-se com uma perna à esquerda de raio longo localizada em uma espécie de vale. A dificuldade maior, aqui, é frear o carro na descida de modo a permitir que ele entre nesta primeira perna sem perder tempo e sem se descontrolar. Um carro que sai de traseira pode derrapar e sofrer um terrível acidente.

O segundo trecho é uma perna em subida feita à direita. Em tempos remotos, a Eau Rouge testava a coragem dos pilotos ao incitá-los a completá-la com o pé cravado, reacelerando o carro logo após a primeira perna. Pouquíssimos tentavam a proeza. O mais espetacular é que essa subida é tão íngreme que o caminho a ser percorrido é totalmente cego. Atravessar a Eau Rouge incólume significa um enorme alívio. Stefan Bellof morreu por lá em 1985. Outros já tiveram acidentes bem sérios nessa curva: Alex Zanardi, Mika Salo, Jacques Villenuve, Ricardo Zonta…

RADILLON: Logo após a saída da Eau Rouge, temos uma curva à esquerda feita em terreno plano em alta velocidade. Se o carro sai da Eau Rouge de modo estável, ele não terá problemas para completar esta curva. Porém, se o piloto perder o controle na segunda perna da “Água Vermelha”, ele escapará na Radillon, descendo um enorme barranco e podendo até mesmo terminar lá no meio das árvores.

LES COMBES: Uma curva à direita de raio longo que eu caracterizaria como “imperfeita”. Como assim? O piloto entra na curva fazendo um traçado. Porém, instantes depois, ele terá de corrigir o volante, já que a convergência da curva muda levemente. Curva velocíssima. Se o piloto errar e escapar na curva, ele fará uma indesejável visita a algumas casas localizadas à beira do circuito.

BURNENVILLE: Um interminável curvão feito à direita. O raio e a extensão são tão longos que o piloto não precisará fazer nada além de um leve movimento à direita no volante. Muitas casas localizadas ao redor desta curva.

MALMEDY: Uma chicane de alta velocidade. Após sair da Burnenville, o piloto reduz a velocidade para completar a primeira perna, à esquerda. Logo depois, ele deverá reduzir ainda mais, já que a segunda perna, à direita, é bem mais fechada e localizada em um trecho de descida. Nesse trecho, ele deverá tentar ficar do lado direito, já que há inclinação lateral e a força centrípeta é maior, fornecendo maior aderência ao carro.

Masta Kink

MASTA KINK: Por incrível que pareça, este trecho é, ao menos para mim, melhor que a Eau Rouge. À primeira vista, ela não passa de uma chicane estúpida. Injusta maneira de tratar um dos trechos mais perigosos da história do automobilismo.

O piloto chega na Masta após ter atravessado um enorme retão. No entanto, ele não irá frear, já que a primeira perna da Masta é feita em altíssima velocidade à esquerda. Sabendo que ele também não poderá acelerar, resta saber dosar o acelerador de modo a completar a perna sem perder tempo. O diabo da situação é que a Masta Kink é relativamente estreita e não perdoa erros de cálculo. Qualquer problema e o piloto baterá no guard-rail sem dó.

Após completar a primeira perna, o piloto irá reacelerar para atravessar a segunda perna, feita à direita. Como a reaceleração é brusca, a tendência a tracionar mal, sair de traseira e perder tempo é grande.

HOLOWELL: É uma sequência bastante sutil de dois curvões à direita. O piloto reduz para completar a primeira curva, reacelera um pouco e reduz novamente para completar a segunda curva.

BLANCHIMONT: Trecho de redução real de velocidade, feito à esquerda. Poucos metros depois, há outra pequena redução e outra pequena curva à esquerda.

LA SOURCE: É a última curva do circuito (hoje em dia, é a primeira) e o único trecho de baixa velocidade do circuito. Grampo de 180º feito à direita. O piloto deverá frear com força aqui.

(trechos da corrida de 1958)