300 de altos...

Nunca escrevi um texto sobre Rubens Barrichello aqui. Na verdade, até me jacto por isso. Toda e qualquer pessoa que escreve qualquer bobagem sobre automobilismo não tarda a emitir sua opinião sobre o mais polêmico piloto que o Brasil já teve na Fórmula 1. Na verdade, até eu já fiz isso. Foi em 2005, quando tinha 17 anos e escrevia para um site de fama razoável que eu não vou revelar qual. Nem tenho coragem de procurar e reler o texto, que deve estar cheio de erros de formatação, concordância e idéias equivocadas. Hoje, volto a escrever sobre Rubens.

Gosto de Barrichello. Na verdade, nem sei o porquê. Às vezes, penso que meu inconsciente me faça sentir uma certa comiseração por aquilo que ele não foi. Afinal de contas, é da minha natureza encontrar injustiças em tudo relacionado ao automobilismo em geral. Mas não sei dizer se Rubens é um injustiçado, um miserável, alguém digno da minha pena. Provavelmente, não.

Barrichello, 38, é um cara tranquilo, simpático e bem-humorado. Ama a mulher e seus dois filhos. Vive confortavelmente em Mônaco, mas sempre dá um pulo em São Paulo pra rever a família e os amigos. É respeitado por quase todos os envolvidos no meio. Faz o que gosta, e faz bem. Falar que o cara é vencedor por fazer o que gosta na Fórmula 1 enchendo a conta-corrente com milhões e milhões de dólares é algo batido, um clichê utilizado por todos que querem defendê-lo. Mas o caso é que, por mais cansada que esta tese esteja, ela não deixa de estar errada. Rubens Barrichello tem absolutamente tudo para se considerar um homem feliz e bem-sucedido.

As vitórias não vieram? Sim e não. A torcida irá chiar enquanto ele não for campeão, e é bom Barrichello se resignar quanto a isso, pois o título provavelmente não virá. Ele venceu onze corridas e obteve dois vice-campeonatos, muito pouco para a exigente nação brasileira. Nesse momento, serei extremamente pseudointelectual e citarei o filósofo Voltaire. O que importa é cultivar seu próprio jardim, e Barrichello o fez como poucos. Nada é mais importante para o indivíduo do que uma vitória pessoal, aquela sensação de que todo aquele trabalho de sua vida valeu para alguma coisa. Só faltou o título, mas ser campeão de Fórmula 1 não é algo tão fácil e tão óbvio assim. Mesmo para um piloto do seu quilate.

Dei minha opinião sobre Rubens Barrichello, piloto que só está abaixo de Nelson Piquet em minhas preferências. É evidente que não estou escrevendo porque me deu na telha. Em Spa-Francorchamps, ele fará seu 300º fim de semana como piloto de Fórmula 1. Não digo que esta será a corrida de número 300 porque, oficialmente, ele não largou em quatro desses fins de semana. No fatídico GP de San Marino de 1994, ele teve aquela pancada na sexta-feira que o deixou de fora com um nariz quebrado e um braço torto. No GP da Bélgica de 1998, ele foi um dos envolvidos naquele famoso megaacidente que não tinham carro reserva para relargar. No GP da Espanha de 2002, seu câmbio falhou e ele não conseguiu sair para a volta de apresentação. O mesmo aconteceu no GP da França daquele mesmo ano, no qual um energúmeno da Ferrari deixou seu carro sobre o cavalete e Rubens ficou por lá. Em termos oficiais, Barrichello fez 296 corridas. Malditas estatísticas!

... e baixos. Poucos tiveram a vida fantástica que ele teve

Mas isso não importa. Sendo 296 ou 300, o caso é que Rubens Barrichello pode se considerar um verdadeiro patrimônio histórico da Fórmula 1. Seu nome consta na lista de inscritos para uma corrida desde o GP da África do Sul de 1993, há exatos 6372 dias. A Fórmula 1 daquele dia tinha Senna, Prost, Patrese, Berger, Alboreto, Warwick, De Cesaris, Alliot, Alesi e Capelli. A Fórmula 1 de hoje tem Hamilton, Alonso, Massa, Vettel, Button, Webber, Kubica, Sutil, Rosberg e Kobayashi. A Fórmula 1 daquele dia tinha suspensão ativa, freios ABS, câmbio automático e controle de tração. A Fórmula 1 de hoje tem difusores duplos e dutos de ar. A Fórmula 1 daquele dia tinha Bernie Ecclestone, Luca di Montezemolo, Frank Williams e Michael Schumacher. A Fórmula 1 de hoje tem Bernie Ecclestone, Luca di Montezemolo, Frank Williams e Michael Schumacher. E Barrichello presenciou todas as mudanças e todas as não-mudanças. Um acervo histórico.

Rubens chega a um número de grandes prêmios que piloto nenhum ousou chegar. O fato de estar em seu 18º ano na Fórmula 1 o iguala a Graham Hill no número de temporadas. É um highlander, um tipo incansável. E o mais legal é que, ao contrário de muitos que chegam a essa idade, ele parece ter a disposição de um moleque de 20 anos. Você, que dá risada das piadas engraçadas e inteligentes do Casseta e Planeta, deve admitir que, no mínimo, força de vontade o cara tem.

E o mais legal é que os 300 de Barrichello foram marcados por tantos altos quanto baixos. O choro incontido no pódio de Hockenheim, aquela corrida na qual ele saiu de 18º para chegar em primeiro. A angústia de competir em Interlagos com uma Honda caquética sem saber o que fazer no ano seguinte. O êxtase de ter terminado em segundo com um Stewart na chuvosa pista de Mônaco. A depressão de ter de correr em Interlagos no ano seguinte à morte de Senna carregando todas as expectativas de um país. A primeira volta em Donington. A pane seca em Donington. O quarto lugar com um Jordan em Interlagos. O acidente em Imola. O pódio em Imola cinco anos depois. A vitória em Valência com um Brawn. O ano zerado com uma Honda ecológica. Áustria/2002. EUA/2002. Inglaterra/2003. Brasil/1996. Nenhum piloto teve seu emocional tão testado quanto ele. Talvez seja isso que explique o comportamento deveras passional e até irracional. É coisa demais para um só.

O Rubens Barrichello dos 300 é alguém mais realizado, mais feliz e mais tranquilo consigo. Conforme a idade vem, as coisas são menos levadas a sério e tratadas com mais leveza. Não vou sair por aí desejando mais 100 corridas, até porque Fórmula 1 é um negócio que enche o saco e até mesmo ele precisará se aposentar um dia. Só espero que ele entenda que 300 é mais do que um número. É um agregado de histórias e sentimentos que pouquíssimos no mundo terão a oportunidade de desfrutar.

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