Rubens Barrichello jogou a Indy para o alto após apenas um ano e correrá na Stock Car em 2013. Putz...

Rubens Barrichello jogou a Indy para o alto após apenas um ano e correrá na Stock Car em 2013. Putz…

Full Time. Esse é o nome da próxima casa de Rubens Gonçalves Barrichello no próximo ano, se é que haverá um próximo ano. Na semana passada, a mídia brasileira divulgou em alto e bom som que Barrichello, quarentão, disputará a famigerada Stock Car Brasil pela Full Time em 2013. Patrocinado pela Medley, aquela dos remedinhos azuis, ele fará sua primeira temporada completa em terras brasileiras desde 1989, quando disputou a extinta Fórmula Ford.

Com isso, Rubens Barrichello desistiu, ao menos em um primeiro momento, de continuar na Indy em 2013. Sim, a Indy, a ovelha negra do automobilismo americano, estupidamente desprezada por todos. O piloto brasileiro tinha até outubro uma opção para permanecer na KV, equipe que o contratou no início do ano, e também conversava seriamente com duas boas escuderias do meio do pelotão, a Sam Schmidt e a Rahal-Letterman. Diz a lenda que faltou dinheiro. A Sam Schmidt até tinha condições de lhe dar um carro para meia temporada, mas não garantia mais nada além disso e Barrichello não é piloto de ficar disputando meia dúzia de corridas na base do favor.

Então Rubens ficará no Brasil, o país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas que beleza! Seus filhos poderão desfrutar do sol, da alegria e dos mendigos embriagados que embelezam esta nação abençoada. Aquela vida medíocre de convivência com nababos lavadores de dinheiro em Mônaco ou com latinos emergentes e ridículos num condomínio em Miami felizmente chegou ao fim. É hora de retornar a Pasárgada.  A sempre otimista Stock Car o receberá de braços abertos.

Na verdade, isso já aconteceu. Rubens fez sua estreia na Stock ainda nesse ano. Ele disputou as três últimas etapas da temporada pela mesma Full Time. A última delas foi aquela tal de Corrida do Milhão, que não é promovida pelo Sílvio Santos, mas ainda premia o seu vencedor com um milhão de reais em barras de ouro que valem mais do que dinheiro. Os resultados iniciais não foram dos mais animadores: 22º em Curitiba, abandono em Brasília e 22º novamente na Corrida do Milhão. É apenas o começo. Embora não pareça, não é nem um pouco fácil disputar corridas contra Cacá Bueno, Nonô Figueiredo e Valdeno Brito, mesmo que você seja um antigo pica-grossa da Fórmula 1.

Imagino o que acontecerá daqui para frente. Quando Rubens Barrichello anunciar oficialmente seus projetos para 2013, ele certamente dirá que “está muito feliz”, “adorou correr na Indy”, “ainda não tem planos de se aposentar”, “não sente falta nenhuma da Fórmula 1” e “virá para brigar pelo título”, os clichês e as frases prontas de sempre. Depois, virará figurinha carimbada dos mais variados programas televisivos, com direito a reportagens edificantes sobre a diferença entre um volante e um câmbio da Stock Car e participações no programa da dondoca metida a dona-de-casa e seu fantoche deprimente. Não que tudo isso já não aconteça desde sempre, mas creio que a coisa ficará ainda pior. Fique preparado.

Toda a empolgação cega se transformará em amargor e desânimo após os primeiros resultados. Mesmo mais aclimatado ao carro de turismo, Barrichello não sairá do meio do pelotão. Fará algumas corridas ótimas e outras horríveis, mas passará a maior parte do tempo naquela típica zona morta da Stock Car, entre o 10º e o 25º lugar, perdido no meio de pilotos que não têm nada a ver com sua realidade, solenemente ignorado pela transmissão televisiva. A distância das primeiras posições e o dissabor trarão como consequências óbvias a verborragia e o cansaço.

Rubens Barrichello em Fontana nesse ano. Uma de suas únicas quatro corridas em oval na vida

Rubens Barrichello em Fontana nesse ano. Uma de suas únicas quatro corridas em oval na vida

Rubens começará a falar besteira. Reclamará primeiramente do carro, que teve problemas de motor em Curitiba, de câmbio no Velopark, de alternador em Brasília, da rebimboca da parafuseta em Rio Branco, de porta-luvas em Fernando de Noronha. Não estava rápido na reta. Não fazia direito as curvas. A tração estava ruim. Os pneus não aqueceram como o esperado. O consumo foi maior do que eu pensava. Tá tudo errado.

Aí as reclamações saem do campo mecânico e se alastram em todos os fatores possíveis. A bandeira amarela me atrapalhou. Fulano de Tal me empurrou para fora da pista. O asfalto não estava tão emborrachado. Choveu muito. Não choveu. Fez calor pra caramba. A estratégia falhou. Perdi tempo no pit-stop. Fiquei preso atrás dos carros lentos. Não estou acostumado com esses toques. Os caras não perdoam. Tá tudo errado.

Sem resultados e sem o menor humor, Barrichello chegará ao fim do ano repensando a vontade de permanecer na Stock Car por mais uma temporada. À mídia, as palavras serão poucas e pouco convincentes, a Stock Car ainda é linda e eu a amo, não penso em sair. No íntimo, a insatisfação de se ver como um astro da Fórmula 1 que não consegue ultrapassar o Lico Kaesemodel. Será que eu fico? O que faço? Caso ou compro uma bicicleta? A decisão final só sairá no último instante. Em 2014, ele permanecerá na Stock Car assumindo uma vaga que estava praticamente confirmada para Bruno Senna, como sempre. A história se repete como farsa, já dizia o barbudo comunista.

Por que uma previsão tão maldosa? Simples. Rubens Barrichello não fez nada muito diferente disso nesse ano de estreia na Indy. O mesmo vale para a Fórmula 1, aliás. A receita é clara. O cara inicia o ano na maior empolgação, fica irritado quando os resultados não aparecem logo de cara, fala um monte de bobagem e termina o ano sem saber o que fazer.

O tratamento que foi dispensado à KV Racing e própria IndyCar Series em 2012 não me deixa mentir. Vocês se lembram do oba-oba criado pelo próprio piloto brasileiro no início do ano? Um inofensivo teste em Sebring a convite do amigo Tony Kanaan se transformou em uma guinada radical na carreira do piloto paulista, que disputou a Fórmula 1 entre 1993 e 2011. Barrichello se empenhou, sentou a bota, andou muito bem em algumas sessões e correu para o Brasil para ver se arranjava os cinco milhões de reais que precisava para arranjar um carro. Arranjou. Com a grana e a vaga garantidas, Rubens promoveu uma festança num hotel paulistano e convocou vários jornalistas para anunciar sua nova vida. I am Indy.

Barrichello estreou na categoria pelas portas da frente, numa equipe bem estruturada e razoavelmente endinheirada. Sem grande esforço, roubou um carro que estava reservado para Esteban Guerrieri, piloto argentino da Indy Lights que vinha se matando para conseguir patrocínios em seu país que o permitissem comprar a terceira vaga da KV. Com a confirmação feita, os confetes foram muitos. Rubens foi saudado pelos demais pilotos da Indy, pelos dirigentes da categoria e até mesmo pela TV Bandeirantes, cujas transmissões da categoria poderiam ter o IBOPE bastante incrementado.

Esteban Guerrieri, o argentino que se matou para tentar conseguir o carro que Barrichello dispensou

Esteban Guerrieri, o argentino que se matou para tentar conseguir o carro que Barrichello dispensou

Desconfio eu que, assim como muita gente aqui no Brasil, Rubens Barrichello achou que tudo seria fácil como meter uma rasteira em um perneta. Todo mundo ainda acha que a Indy é uma várzea onde todo mundo ganha corridas e dinheiro fácil. Nada disso. Rubens deu de cara com uma categoria forte, difícil e ingrata, onde uma posição entre os dez primeiros está longe de ser uma coisa óbvia. Pior ainda: a KV nem era uma equipe tão boa assim. O carro não funcionou bem durante todo o tempo e a equipe de estrategistas era uma piada de mau gosto. Os bons resultados começaram a aparecer apenas no segundo semestre. Mas, nessa altura, Rubens já estava de saco cheio da KV.

Aos jornalistas, Barrichello não escondia a insatisfação. “Estamos em uma situação na qual tivemos resultados decepcionantes” e “não esperava perder tanto com esse carro” foram duas das frases proferidas pelo piloto ainda antes do final da temporada. No final das contas, nem mesmo a KV estava tão animada, pois havia um diz-que-me-diz sobre o fato da BMC, um dos patrocinadores do piloto paulista, estar pulando fora após não ter conseguido o retorno esperado em 2012. No fim de outubro, sem grandes mágoas aparentes dos dois lados, a KV anunciou que sua dupla em 2013 seria composta por Tony Kanaan e Simona de Silvestro. A aventura de Barrichello na equipe durou menos de um ano, portanto.

Mesmo antes do divórcio, Rubens Barrichello já vinha conversando com outras equipes da Indy para 2013. A Chip Ganassi era um objeto de desejo, mas só havia espaço para multicampeões e diabéticos. A Rahal-Letterman era uma boa alternativa, mas Rubens precisaria levar muita grana. A Sam Schmidt pedia menos dinheiro e ainda oferecia aquela solução de empregá-lo apenas durante a primeira metade da temporada, mas o brasileiro não aceitou. Então, toca pra Stock Car. E chegamos à situação de hoje.

Barrichello parte para sua terceira categoria diferente em três anos. O que me motivou a escrever esse post foi o andamento de sua carreira nesses últimos anos. No fim de 2011, estive entre aqueles que torceram pela sua permanência na Fórmula 1. A contratação de Bruno Senna praticamente fechou as portas para o veterano, que acabou caindo de paraquedas na Indy. Mas aí é que está: hoje em dia, ninguém cai de paraquedas em lugar algum, quanto mais na categoria americana. Rubens é um privilegiado. Só que ele é um mestre em desprezar suas oportunidades.

Trocar a Indy pela Stock Car, do ponto de vista esportivo, não me parece ser a decisão mais esperta do planeta. Fora a Fórmula 1 e a Indy, há muitas categorias mais interessantes por aí do que o decadente certame brasileiro. Rubens poderia ter feito sua vida correndo de turismo no DTM, no WTCC ou até mesmo no bizarríssimo BTCC. Ou poderia ter ido se divertir com os protótipos do ALMS ou do WEC. Ele continuaria competindo em alto nível de qualquer jeito.

Barrichello só poderia argumentar que está na Stock Car por três razões: por dinheiro, por causa da família e para dar uma força para seus amigos no Brasil. O primeiro motivo só faz algum sentido se o cidadão realmente faz questão de enriquecer ainda mais, algo desnecessário. E até onde eu sei, Rubens já está muito bem de grana, obrigado. Com relação à família, até acho que ele tenha cansado um pouco de ficar viajando o mundo e arriscando o pescoço em corridas de monopostos, mas, sinceramente, não é o comportamento típico de Rubens Barrichello, um cara que ama corrida de carros e que teve de convencer a mulher de que os ovais na Indy não são tão perigosos assim. Ajudar os amigos? Bah.

Mais Barrichello em oval. Dessa vez, em Iowa

Mais Barrichello em oval. Dessa vez, em Iowa

O chato é ver um piloto como ele, que não teria grandes dificuldades para arranjar um campeonato legal para correr, abandonando a Indy após apenas um ano. Eu realmente achei que Rubens Barrichello tinha um projeto de longo prazo para a categoria. No primeiro ano, só porrada e aprendizado. No segundo, resultados melhores. No terceiro, pódios, e assim por diante. Tudo bem, a idade já está meio avançada, mas para alguém com seu talento e sua disposição interminável, correr por mais uns bons anos nos Estados Unidos não seria nem um pouco ruim.

Barrichello, a partir do momento em que percebeu que não sairia ganhando tudo no primeiro ano, passou a tratar a Indy com certa frieza. Em determinado momento, começou a dizer que não descartava um retorno à Fórmula 1. Quando Romain Grosjean foi impedido de participar do GP da Itália, Rubens ligou para a Lotus logo de cara perguntando se a equipe não aceitaria um pobre velhinho como substituto. É óbvio que não conseguiu nada e teve de terminar a temporada pensando no que fazer.

Enquanto vejo o desdém de Barrichello, penso em alguns outros pilotos. Penso no próprio Esteban Guerrieri, que acabou perdendo sua grande chance de correr em uma equipe de ponta por causa de um cara que caiu fora logo após uma temporada. Penso em Luca Filippi, que não para de choramingar no Twitter porque perdeu sua vaga na Indy nesse ano. Penso em Paul Tracy, que não queria de forma alguma ficar de fora da categoria, mesmo que fosse para andar no carro mais lazarento do grid. Esses caras dariam tudo para ocupar um terceiro carro da KV. Pois Barrichello não se esforçou nem um pouco para ficar com ele.

É compreensível o porquê de Rubens Barrichello incomodar tanta gente. Suas decisões são tomadas de maneira impulsiva, emotiva, até mesmo inconsequente. Não muito depois, lá está ele reclamando de tudo e indo embora para casa após ter ocupado um espaço que poderia ter sido muito melhor preenchido por alguém cheio de vontade. Ou pior: ele continua reclamando e desdenhando, mas não larga o osso. Vimos essa situação na Fórmula 1, vemos agora na Indy e ela provavelmente se repetirá na Stock Car. Qualé, Rubens!

Deixo claro: sou fã de Barrichello. Vibrei como poucos em todas as suas vitórias. Queria tê-lo visto campeão na Fórmula 1 – e acredito que ele tinha talento para isso. Ainda o considero o quarto melhor piloto que o Brasil já teve na categoria, atrás apenas dos três campeões. Na Indy, torci para ele andar lá na frente logo de cara. Isso não aconteceu, mas nunca deixei de considerá-lo um grande piloto. É por causa disso que fico besta de ver os rumos que estão sendo tomados.

Ele se mata para ficar na Fórmula 1 o máximo possível, não consegue, vai para a Indy sob aplausos e chuva de pétalas, não impressiona ninguém na pista, despreza a equipe, despreza a categoria e bandeia para a Stock Car achando que encontrará a felicidade logo de cara. É o típico comportamento do cara que ficou emburrado na Jordan durante quatro anos, que aceitou fingir que gostava de fazer parte das maracutaias da Ferrari, que forçou a barra para correr na Brawn, que sempre falou mais do que podia e que nem sempre fez mais do que deveria.

É o lado Rubinho de Rubens Barrichello.

Anúncios