No próximo fim de semana, a World Series by Renault fará sua rodada de estreia nesta temporada de 2012. Já não era sem tempo. Não que eu estivesse esperando sentado pelo seu início, para ser honesto. Não sou como Bruno Giacomelli, do World of Motorsport, que deixa de sair com os amigos para torcer pelo Daniil Move em lugares inviáveis como Motorland Aragón. Acho a World Series by Renault uma categoria superestimada que pena para conseguir realizar corridas interessantes. Neste ano, ela precisou implantar a malfadada asa móvel da Fórmula 1 para ver se as coisas melhoravam. É a única categoria de base no planeta que apostou nesta polêmica solução.

Vinte e seis pilotos largarão nas duas corridas a serem realizadas em Motorland, uma pista sem graça que inauguraram há não muito tempo lá na região espanhola de Aragón. Devo reconhecer que o grid está melhor do que nunca. As equipes exigem orçamentos que raramente ultrapassam o milhão de euros, menos da metade do que o que algumas estruturas de ponta da GP2 estão pedindo. Com isso, muita gente boa preferiu desembarcar na World Series by Renault neste ano.

Outra coisa que propulsionou o interesse súbito na categoria foi a presença maciça da Red Bull. Ela deixou a GP2 de lado no fim de 2008 e preferiu levar todos os seus novos talentos para passar algum tempo aprendendo na World Series sem os holofotes cruéis da Fórmula 1. Jaime Alguersuari, Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne acabaram criando a impressão de que, sim, dava para fazer uma boa carreira por lá antes de ir direto para a Fórmula 1. Com isso, a GP2 perdeu uma parte de sua aura de estágio obrigatório para um jovem piloto.

Entre os vinte e seis, há de tudo. Desistentes da GP2, como Jules Bianchi e Sam Bird. Pilotos brasileiros que veem na World Series a solução para todos os problemas, como Lucas Foresti e André Negrão. Veteraníssimos, como Daniil Move e Anton Nebylitsky. Picaretas, como Carlos Huertas e Jake Rosenzweig. Até mesmo um antigo campeão da categoria está de volta, Mikhail Aleshin. E, claro, há muitos novatos que poderão aparecer na Fórmula 1 um dia. Conheça aqui os estreantes mais talentosos:

5- NICO MÜLLER

Tico mia na sala, Tico mia no chão. Toda vez que vejo o nome deste cidadão suíço de apenas 20 anos de idade penso neste clássico da música brasileira. Questão de pronúncia. Não importa. Nico Müller é um destes pilotos de carreira discreta porém bastante eficiente. É o sujeito que você raramente irá ouvir falar em sua vida, talvez nem chegue à Fórmula 1, mas estará sempre entre os primeiros colocados.

Müller meio que apareceu ao mundo automobilístico em 2010, quando foi um dos trinta pilotos que iniciaram a primeira temporada da história da GP3. Competiu contra nomes como Stefano Coletti, Mirko Bortolotti, Roberto Mehri, Alexander Rossi, Josef Newgarden e Rio Haryanto. Bateu todos. Terminou o ano numa surpreendente terceira posição, atrás apenas dos imbatíveis Esteban Gutiérrez e Robert Wickens. Foi o grande responsável pelo terceiro lugar de sua equipe, a Jenzer.

No ano passado, Müller permaneceu na GP3 visando ganhar o título. Permaneceu na Jenzer e foi um dos grandes destaques da pré-temporada. Mas os resultados não vieram como se esperava. Nico venceu uma corrida em Silverstone e só, finalizando o ano em quarto lugar, posição ainda longe de ser ruim. Nesta pré-temporada, ele fez testes na GP2 e planejava ir para lá. No entanto, um convite para correr na tradicional Draco Racing o fez voltar suas atenções para a World Series by Renault. Nesta enorme leva de pilotos suíços que surgiu nos últimos anos, “Tico mia” é um dos mais promissores. Só precisa arranjar mais dinheiro ou costas quentes para realizar o sonho da Fórmula 1.

4- MARCO SORENSEN

A primeira coisa que deve ser dita sobre este cara é a impossibilidade de escrever seu nome corretamente. O sobrenome Sørensen exige uma porcaria de letra “o” com um traço passando por cima que eu não tenho em meu teclado, não sei digitar, não quero saber e tenho profunda raiva de quem sabe. Fiquemos com Sorensen, pois. Este dinamarquês de apenas 21 anos é uma das poucas esperanças de seu país, que nunca produziu nada melhor que Jan Magnussen.

Marco Sorensen foi um dos pilotos do Renault Driver Development em 2009, embora nunca tenha sequer encostado a mão no volante de um carro de Fórmula 1. Sua carreira é recente, mas já tem resultados bem interessantes. Estreou em 2007 no campeonato dinamarquês de Fórmula Ford e não teve dificuldades para ganhar quatro corridas, marcar sete poles e quebrar o recorde de pista de absolutamente todos os circuitos da Dinamarca. No ano seguinte, subiu para a Fórmula Ford britânica e terminou a temporada em oitavo, tendo vencido uma corrida. Fez também algumas corridas de Fórmula Masters e ganhou quatro delas. Meteórico.

Seu resultado mais impressionante foi obtido no ano passado, quando Sorensen sagrou-se vice-campeão da Fórmula 3 alemã, obtendo duas vitórias e nada menos que quinze pódios. Sempre foi do tipo que preferiu investir esforços em categorias menos badaladas, talvez por falta de dinheiro ou por pura opção de carreira. Passou longe dos campeonatos mais conhecidos de Fórmula 3 e também não quis saber de GP3, Fórmula 2 ou cacarecos do tipo. Neste ano, estreia na World Series by Renault pela Lotus e tem como companheiro de equipe o cara que o derrotou na Fórmula 3 alemã, Richie Stanaway. Pedreira daquelas para o nórdico.

3- KEVIN MAGNUSSEN

Mas Marco Sorensen não é o único piloto dinamarquês que aparecerá na World Series neste ano. Há um moleque, de sobrenome bastante conhecido, que poderá ser o principal nome de seu país no automobilismo mundial em breve. Kevin Magnussen, de apenas 19 anos, é o filho do ex-piloto de Fórmula 1 Jan Magnussen. Nasceu num acidente sexual do pai, que engravidou a namorada quando tinha os mesmos 19 anos de idade e sem sequer haver chegado à Fórmula 3. Mas Jan, fã de cigarros e fast-food, garante que o filho é bem mais centrado. Neste caso, não faz mais do que a obrigação.

Magnussen filho foi o principal adversário de Felipe Nasr na Fórmula 3 britânica no ano passado. Chamou muito a atenção de todos pela pilotagem até mais agressiva do que a do brasileiro, pela rápida adaptação à categoria e pelas sete vitórias obtidas em trinta corridas. Deve ter algo a ver com a genética: o pai conseguiu a proeza de vencer 14 das 18 corridas disputadas na temporada de 1994.

Antes disso, Kevin já havia dado o ar da graça em outras categorias. Foi terceiro colocado na Fórmula 3 alemã em 2010 e ainda ganhou de brinde uma corrida da Fórmula 3 Euroseries em Valência. Antes disso, ele havia sido vice-campeão da Fórmula Renault NEC em 2009 e campeão da Fórmula Ford dinamarquesa em 2008, tendo vencido 11 das 15 corridas. É, realmente, um legítimo Magnussen em categorias de base. Só esperamos que ele não seja um Magnussen na Fórmula 1.

Neste ano, Kevin Magnussen debutará pela poderosa Carlin Motorsport, que fez o campeão e o vice da World Series em 2011. Primeiro piloto da equipe, ele entra na categoria com a tremenda responsabilidade de ter de mostrar resultados logo de cara. Para aumentar ainda mais a pressão, Kevin foi integrado ao McLaren Driver Development e fará um teste com o carro de Fórmula 1 da equipe prateada no final do ano. Que o garoto não perca a cabeça como o pai. Lembre-se: use camisinha.

2- ROBIN FRIJNS

O que dizer de um cara que tem dois títulos importantes em apenas três anos de carreira? Alguém vai se atrever a criticar? A única ressalva que poderia ser feita é o fato de nenhum dos títulos ter sido obtido em uma categoria maior que a Fórmula 3. Mas, caramba, existem campeonatos muito competitivos lá no chão de fábrica. E o holandês Robin Frijns tão somente se sagrou campeão nos dois maiores e mais concorridos.

Frijns, 20 anos, passou quase dez anos no kartismo europeu e coletou uma série de bons resultados. Sua estreia no automobilismo ocorreu em 2009 lá na extinta Fórmula BMW europeia. No meio de nomes como Felipe Nasr, Daniel Juncadella, Jack Harvey e Will Buller, o holandês conseguiu vencer uma corrida em Silverstone diante de todo o paddock da Fórmula 1 e da GP2. Terminou a temporada de estreia em terceiro e deixou excelente impressão.

No ano seguinte, Frijns permaneceu na Fórmula BMW e ganhou o título num extremo lapso de sorte, quando o então líder do campeonato Jack Harvey foi tirado da última corrida do ano por um adversário. Mas não dá para dizer que um sujeito que ganha seis corridas e marca 143 pontos a mais que o terceiro colocado teve lá muitas dificuldades.

Em 2011, Robin Frijns estreou na Fórmula Renault europeia, a competição de monopostos mais concorrida do mundo. Não é exagero: o holandês teve de enfrentar quase 40 concorrentes jovens e ansiosos como ele, sendo alguns deles garotos diretamente apoiados por equipes de Fórmula 1. Mesmo assim, não se intimidou, venceu cinco corridas e levou o título para casa com 45 pontos de vantagem sobre Carlos Sainz Jr., filho do famoso piloto de rali e pupilo da Red Bull.

Em 2012, Robin seguirá a tendência dos campeões mais recentes da Fórmula Renault europeia. Assim como fizeram Albert Costa e Kevin Korjus, ele decidiu deixar de lado este negócio de correr em Fórmula 3 ou GP3 e se bandeou diretamente para a World Series by Renault. Assinou com a competente Fortec e surge, desde já, como um dos azarões na briga pelo título. Embora necessite de um pouco mais de experiência, não seria absurdo vê-lo andando nas cabeças desde já.

1- RICHIE STANAWAY

Se eu fosse tão rico quanto nunca fui e tão abilolado como sempre quis deixar de ser, apostaria metade da minha fortuna em Richie Stanaway. O neozelandês que completou duas décadas de vida em novembro do ano passado é talvez o piloto de melhor currículo atualmente em atividade no automobilismo de base. Podemos até falar dos títulos de Robin Frijns, mas os números de Stanaway, que também tem nome de campeão, são impressionantes. O que falar de um cara que acumula nada menos que 51 vitórias em apenas cinco temporadas de automobilismo?

Richie Stanaway é talvez o melhor produto de uma Nova Zelândia que anda produzindo talentos a granel. O chato da história é que gente como Chris van der Drift, Brendon Hartley e Earl Bamber não puderam fazer suas carreiras internacionais avançarem muito, mesmo que nenhum deles tenha problemas com falta de talento. Atualmente, além de Stanaway, fala-se muito dos moleques Mitch Evans e Nick Cassidy, que ainda precisam mostrar na Europa o que foram capazes de fazer na Oceania. Diante deles, Richie é a mais segura das apostas.

Em cinco temporadas, ele somou três títulos. Nos dois primeiros anos, disputou as categorias de base na Oceania e reinou, ganhando o título neozelandês de Fórmula Ford na temporada 2008/2009. Na Fórmula Ford australiana, conseguiu vencer sua corrida de estreia. Na Toyota Racing Series, a categoria de monopostos mais importante da Oceania, Richie ganhou as duas provas que disputou. Certamente, era um piloto para disputar corridas lá na Europa.

Em 2009, ele fez um teste na Fórmula Master alemã e surpreendeu a todos. Stanaway não tinha dinheiro, mas conseguiu o apoio de investidores neozelandeses e pôde levar adiante sua carreira na Europa. Fez a temporada completa da Fórmula Master alemã em 2010, ganhou doze corridas e levou seu segundo título para casa.

No ano passado, Stanaway foi ainda melhor. Estreando na Fórmula 3 alemã, ele ganhou 13 das 18 corridas e ganhou o campeonato com extrema folga. De quebra, ainda foi convidado para substituir Pedro Nunes na equipe ART da GP3 Series. Logo em seu primeiro fim de semana, mesmo pilotando um carro novo em um circuito desconhecido, ganhou a segunda corrida de Spa-Francorchamps. O que dizer de um cara desses?

Stanaway estreia na World Series by Renault pela poderosa Lotus, que assumiu a estrutura da Charouz Racing System no fim do ano passado. É, desde já, um dos grandes favoritos ao título. Apoiado pela Gravity, dona da equipe Lotus na Fórmula 1, tem grandes chances de ser convidado para testar um carro da categoria no fim do ano. Não costumo fazer este tipo de previsão e as que eu faço sempre dão errado, mas dane-se: Richie Stanaway chegará logo à Fórmula 1 e será um dos melhores.

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