Bélgica, idolatro. É a próxima parada do calendário do Verde.

Tenho para mim que é o melhor país da Europa ocidental por vários motivos. Em primeiro lugar, os números oitenta e noventa. Em francês normal, eles são quatre-vingt e quatre-vingt-dix, literalmente “quatro-vintes” e “quatro-vintes-dez”. Já na Bélgica, e também na Suíça, são huitante e nonante, muito mais agradável aos ouvidos. Também destaco os chocolates, as águas termais, a floresta das Ardennes e a histórica e interminável briga entre valões e flamencos. E temos também Spa-Francorchamps, um dos maiores circuitos da história do automobilismo mundial. Tenho apenas um porém: não vou falar daquele traçado que todos nós conhecemos e que vigora até hoje no calendário da Fórmula 1, mas sim daquele triangular que vigorou entre 1947 e 1978.

Mas por que o antigo? Com 14 quilômetros de extensão, Spa-Francorchamps era um emaranhado de estradas que, juntas, formavam um circuito de altíssima velocidade com curvas das mais perigosas do mundo em seu tempo. Com todo o respeito ao atual, que eu considero o mais completo circuito do mundo nos dias atuais, pista de cabra macho mesmo era a antiga. 

Jochen Rindt em 1970

Spa-Francorchamps surgiu em 1920, quando dois amigos decidiram criar um espaço para corridas de carros e motos na que pudesse aproveitar as numerosas e longas estradas da província de Liège. Esses dois amigos eram Jules de Thier, diretor do jornal La Meuse, e Henri Langlois van Ophem, diretor do Royal Automobile Club Belgium, importantes e influentes no meio automobilístico o suficiente para conseguirem tocar o projeto. Em agosto de 1921, o circuito foi inaugurado e receberia sua primeira corrida de carros. Porém, apenas um único piloto se inscreveu e a corrida foi cancelada…

A primeira prova realizada acabou sendo de motos e apenas em 1922 que Spa recebeu a primeira corrida de carros. O circuito, que atravessava as cidades de Francorchamps, Malmedy e Stavelot, se tornou muito popular rapidamente devido às altíssimas velocidades proporcionadas pelas estradas que o compunham.  Em 1924, era realizada a primeira edição das consagradas 24 Horas de Spa. No ano seguinte, Spa-Francorchamps recebeu o primeiro Grand Prix, vencido por Antonio Ascari, pai de Alberto.

Com a Segunda Guerra Mundial e o envolvimento da região das Ardennes em episódios como a Batalha do Bulge (megaofensiva alemã contra os aliados, culminando com a vitória destes), o circuito de Spa-Francorchamps teve de ser fechado por sete anos. Reaberto em 1947, o circuito voltou a receber inúmeras corridas de carros e motos. No primeiro campeonato da história da Fórmula 1, Spa-Francorchamps constava como a quinta corrida do calendário.

Com pouquíssimas alterações com relação ao traçado inicial, a versão antiga de Spa recebeu a Fórmula 1 entre 1950 e 1970, com exceção dos anos de 1957, 1959 e 1969. Após inúmeras reclamações acerca da insegurança do circuito, ele deixou o calendário da categoria, sofreu uma grande reforma em 1979 e retornou à Fórmula 1 em 1983, constando em seu calendário até hoje. Ainda rende corridas excepcionais e muitos desafios, mas é evidente que as emoções não são mais as mesmas.

TRAÇADO E ETC.

Eu descobri que a Spa-Francorchamps original não era a Spa-Francorchamps que eu conhecia ao jogar o Grand Prix Legends, um excelente jogo para PC que reproduz, de maneira impecável, a temporada de 1967 da Fórmula 1. Longuíssima e velocíssima, ponderei sobre o quanto os puristas não devem ter reclamado com as mudanças de 1979. Hoje em dia, são pouquíssimos os que podem dizer que viram corridas na pista antiga, e todos amam a pista atual. Conheçamos, então, o cuore do circuito das Ardenhas.

Spa-Francorchamps tinha 14.120 quilômetros de extensão. De forma triangular, iniciava-se em um trecho menos veloz na cidade de Francorchamps, atravessava um trecho de velocidade crescente até chegar em Malmedy, seguia para uma sequência de retas até chegar a Stavelot e retornava a Francorchamps em mais uma sequência de estradas velozes. São 21 curvas, várias retas e curvões de raios tão largos que mais se assemelhavam a retas. Era um circuito de altíssima velocidade (Chris Amon já chegou a fazer 245 km/h de média com um Fórmula 1), mas o carro deveria ser bom de curva para não se complicar em trechos como a Masta Kink. Perigoso, já ceifou a vida de vários pilotos, como os ingleses Chris Bristow e Alan Stacey, mortos no fim de semana de Fórmula 1 em 1960. Por esse motivo, Jim Clark dizia não gostar dessa pista.

Conheça agora os principais trechos:

Eau Rouge em 1965

EAU ROUGE: Nos primórdios, a largada era feita na descida localizada logo após a La Source. Portanto, a primeira curva era a Eau Rouge. Curva esta que é uma das mais sensacionais do automobilismo e que existe até hoje, sendo um raríssimo resquício do automobilismo anterior à Fórmula 1.

A Eau Rouge é uma coisa esquisita, que não poderia ser considerada uma curva ou uma chicane. Inicia-se com uma perna à esquerda de raio longo localizada em uma espécie de vale. A dificuldade maior, aqui, é frear o carro na descida de modo a permitir que ele entre nesta primeira perna sem perder tempo e sem se descontrolar. Um carro que sai de traseira pode derrapar e sofrer um terrível acidente.

O segundo trecho é uma perna em subida feita à direita. Em tempos remotos, a Eau Rouge testava a coragem dos pilotos ao incitá-los a completá-la com o pé cravado, reacelerando o carro logo após a primeira perna. Pouquíssimos tentavam a proeza. O mais espetacular é que essa subida é tão íngreme que o caminho a ser percorrido é totalmente cego. Atravessar a Eau Rouge incólume significa um enorme alívio. Stefan Bellof morreu por lá em 1985. Outros já tiveram acidentes bem sérios nessa curva: Alex Zanardi, Mika Salo, Jacques Villenuve, Ricardo Zonta…

RADILLON: Logo após a saída da Eau Rouge, temos uma curva à esquerda feita em terreno plano em alta velocidade. Se o carro sai da Eau Rouge de modo estável, ele não terá problemas para completar esta curva. Porém, se o piloto perder o controle na segunda perna da “Água Vermelha”, ele escapará na Radillon, descendo um enorme barranco e podendo até mesmo terminar lá no meio das árvores.

LES COMBES: Uma curva à direita de raio longo que eu caracterizaria como “imperfeita”. Como assim? O piloto entra na curva fazendo um traçado. Porém, instantes depois, ele terá de corrigir o volante, já que a convergência da curva muda levemente. Curva velocíssima. Se o piloto errar e escapar na curva, ele fará uma indesejável visita a algumas casas localizadas à beira do circuito.

BURNENVILLE: Um interminável curvão feito à direita. O raio e a extensão são tão longos que o piloto não precisará fazer nada além de um leve movimento à direita no volante. Muitas casas localizadas ao redor desta curva.

MALMEDY: Uma chicane de alta velocidade. Após sair da Burnenville, o piloto reduz a velocidade para completar a primeira perna, à esquerda. Logo depois, ele deverá reduzir ainda mais, já que a segunda perna, à direita, é bem mais fechada e localizada em um trecho de descida. Nesse trecho, ele deverá tentar ficar do lado direito, já que há inclinação lateral e a força centrípeta é maior, fornecendo maior aderência ao carro.

Masta Kink

MASTA KINK: Por incrível que pareça, este trecho é, ao menos para mim, melhor que a Eau Rouge. À primeira vista, ela não passa de uma chicane estúpida. Injusta maneira de tratar um dos trechos mais perigosos da história do automobilismo.

O piloto chega na Masta após ter atravessado um enorme retão. No entanto, ele não irá frear, já que a primeira perna da Masta é feita em altíssima velocidade à esquerda. Sabendo que ele também não poderá acelerar, resta saber dosar o acelerador de modo a completar a perna sem perder tempo. O diabo da situação é que a Masta Kink é relativamente estreita e não perdoa erros de cálculo. Qualquer problema e o piloto baterá no guard-rail sem dó.

Após completar a primeira perna, o piloto irá reacelerar para atravessar a segunda perna, feita à direita. Como a reaceleração é brusca, a tendência a tracionar mal, sair de traseira e perder tempo é grande.

HOLOWELL: É uma sequência bastante sutil de dois curvões à direita. O piloto reduz para completar a primeira curva, reacelera um pouco e reduz novamente para completar a segunda curva.

BLANCHIMONT: Trecho de redução real de velocidade, feito à esquerda. Poucos metros depois, há outra pequena redução e outra pequena curva à esquerda.

LA SOURCE: É a última curva do circuito (hoje em dia, é a primeira) e o único trecho de baixa velocidade do circuito. Grampo de 180º feito à direita. O piloto deverá frear com força aqui.

(trechos da corrida de 1958)