Pitacos


O Felipe Massa de hoje, burocrático e esquecido

A Ferrari, equipe italiana conhecida pelos seus fãs animalescos e por seus métodos pouco ortodoxos, dispõe de dois pilotos. Um deles estreou em 2006. O outro, em 2010. Passadas quinze etapas, o que estreou neste ano tem 191 pontos, quatro vitórias, duas pole-positions, a vice-liderança do campeonato e o respeito e a admiração de todos. O que estreou em 2006 tem 128 pontos, nenhuma vitória, nenhuma pole-position, uma apagada sexta posição no campeonato e um certo desdém por parte de todos. É evidente que há algo de podre no reino ferrarista.

Aos pouco afeitos com fatos históricos, Felipe Massa é o tal piloto que estreou em 2006 e Fernando Alonso é o que estreou em 2010. Enquanto Alonso, aquele que venceu as duas últimas corridas, reacendeu suas chances de título e trouxe consigo a atenção de todos na Ferrari, Massa, que só obteve até aqui quatro pódios, é aquele sujeito meio deixado de lado e um tanto quanto apático que faz talvez sua pior temporada desde que entrou para a panelinha italiana. No início do ano, muitos, incluindo eu, acreditavam que o espanhol realmente tomaria, ou ao menos tentaria tomar, o controle da equipe para si. Muitos, incluindo eu, acreditavam que Alonso, mais cedo ou mais tarde, andaria na frente de Massa com certa tranqüilidade. Mas poucos imaginavam que isso ocorreria tão cedo e de forma tão clara.

Nesta temporada 2010, temos dois pilotos completamente diferentes pilotando o carro vermelho patrocinado maciçamente pelo Santander. Fernando Alonso, até aqui, é uma das atrações do ano. Fez corridas excepcionais, boas, regulares e péssimas. Ultrapassou, bateu, tocou rodas com adversários, saiu da pista, teve problemas, fez uma pole-position inesquecível em Monza, arriscou uma estratégia soberba em Mônaco e saiu do fundo do grid para as primeiras posições em mais de uma ocasião. Enfim, deu o que falar. Felipe Massa, por outro lado, só atuou de maneira realmente proeminente no Bahrein e em Hockenheim, as duas únicas corridas em que ele teve chance de vencer. Na pista alemã, ele liderava até o famigerado Felipe, Fernando is faster than you e deu no que deu. A partir desse momento, ficou claro o que Massa realmente significava na Ferrari de Alonso. Mas não é só isso.

A impressão que eu tenho é a de uma falta de confiança da Ferrari para com Massa misturada a um esgotamento geral do piloto dentro da equipe. Pode soar como uma constatação óbvia, mas o fato é que muitos, e isso inclui aí uma boa gama de midiáticos, preferem dizer que Felipe é simplesmente um picareta, um oportunista que conseguiu fazer um 2008 bom porque tudo estava ao seu favor e perdeu porque, além de tudo, não tem a sorte inerente aos campeões. Pura inverdade maldosa. Felipe Massa é um piloto de ponta cuja evolução entre 2002 e 2008 só não foi visível para Stevie Wonder e um título não deixaria de ser merecido.

Sou honesto, no entanto. Massa está longe de ser meu piloto preferido e deixo bem claro que Fernando Alonso, por outro lado, é um piloto excepcional, raríssimo de ser encontrado por aí e que pode ser colocado em um nível acima não só de Massa mas também do restante do grid. O brasileiro ainda apresenta algumas deficiências técnicas, como a dificuldade para ganhar várias posições saindo de trás (uma boa exceção é Inglaterra/2007) e a notória falta de habilidade na chuva, como pôde ser visto nas corridas inglesas de 2002 e 2008. Não que eu ache estas deficiências um enorme pecado, já que os grandes Alain Prost, Nelson Piquet e Mika Hakkinen não se davam bem com la pioggia e outros grandes como Emerson Fittipaldi também não tinham lá grande facilidade para ganhar muitas posições. O fato é que Alonso é um piloto completo, sem ter um único grande ponto fraco, e a equipe sabe disso. Ainda assim, por que Massa foi intimidado com tanta facilidade?

Falemos da falta de confiança. Felipe Massa entrou na Ferrari em 2006 como segundão de Michael Schumacher, algo incontestável por todos. Inteligentemente, o brasileiro investiu na equipe italiana pensando na aposentadoria do alemão. Sendo assim, ele poderia galgar um posto de primeiro piloto. Seu primeiro ano na equipe começou claudicante, mas terminou muitíssimo bem, com duas vitórias e o terceiro lugar no campeonato. No ano seguinte, a equipe recebeu Kimi Raikkonen, um gênio como piloto e um poste como ser humano. Sem a menor disposição do finlandês para montar a equipe do seu jeito ou para fazer política, restou à Ferrari investir no lado mais afável de Massa. Kimi, em um brilhante sprint final, venceu de maneira surpreendente o campeonato de 2007. Naquele ano, Massa terminou na quarta posição no campeonato e trabalhou para o título de seu companheiro, como pôde ser visto no GP brasileiro.

O Felipe Massa aguerrido de outrora

Ficava claro onde estava a real vantagem de Massa. Tecnicamente inferior a Schumacher, Raikkonen e Alonso, algo que está longe de ser um demérito preocupante, Felipe preocupou-se em desenvolver um relacionamento excelente como a Ferrari, mostrando sempre disposição em trabalhar com a equipe, uma boa curva de aprendizado, agressividade na pista, Inteligência dentro e fora dela e, acima de tudo, confiabilidade e credibilidade. Em 2008, com Kimi Raikkonen fazendo um ano abaixo do esperado, restou à Ferrari confiar em Massa. E ele fez o máximo que pôde, vencendo corridas e levando a briga pelo título até os últimos instantes. Felipe perdeu porque errou feio na Malásia, mas perdeu também porque uma mangueira safada destruiu sua corrida em Cingapura, o motor lhe deixou na mão quando ele liderava na Hungria e Timo Glock teve aquele problema com os pneus no Brasil. O saldo, portanto, estava positivo para ele. A Ferrari sabia que tinha ali alguém que poderia brigar pelo título no caso do primeiro piloto não conseguir fazê-lo. É a questão da confiabilidade.

Tendo um poste como companheiro de equipe, Massa conseguiu um espaço maior dentro da Ferrari, e muitos começaram a acreditar que ele realmente poderia ser o líder da equipe. Mas Fernando Alonso não é um poste. Muito pelo contrário. Se há alguém que segue os preceitos do príncipe maquiavélico, este alguém é o espanhol.

Muito parecido com Michael Schumacher e Ayrton Senna neste sentido, Fernando é um sujeito centralizador, ególatra e esperto. Sabe fazer uma equipe inteira trabalhar ao seu redor e, se necessário, pisa na cabeça de seus companheiros de equipe. Foi assim na Renault e deu certo, por que não seria assim na Ferrari, uma equipe que também faz de tudo e mais um pouco para vencer? Ao mesmo tempo, a equipe idolatra o piloto Fernando Alonso, um dos mais completos, como apontado acima. Logo, se Massa e sua capacidade de relacionamento com a equipe conseguiram achar um lugar na sombra na Ferrari de Raikkonen, todos sabiam que na Ferrari de Alonso, um expert de relacionamento, não haveria esse espaço. Havia ainda o Santander, principal patrocinador da equipe e, caham… espanhol. Mas não dá pra dizer que o banco tem grande influência, já que ela não seria nada se Alonso não fosse o que é.

Para piorar as coisas, o espanhol começou vencendo no Bahrein. Naquele fim de semana, já começava a ficar nítida a diferença técnica entre ambos. E conforme o tempo passou, a Ferrari percebeu que tudo aquilo que Massa tinha de bom, a confiabilidade e a afabilidade para com os propósitos da equipe, podia ser encontrado em mais abundância em Alonso, que além de tudo era um piloto naturalmente melhor. E o resultado foi aquele visto em Hockenheim. Fernando não ganhou só a corrida, mas também a confiança total da equipe. Se eu tiver de fazer uma aposta a partir do que penso, prevejo um revival Michael Schumacher – Rubens Barrichello para os próximos anos. E o mais bizarro: com ou sem Massa. Alonso conseguiu o que queria.

Por fim, o esgotamento de Massa. Como disse lá em cima, Felipe é um piloto que melhorou muito entre 2002 e 2008. Aprendeu a parar de fazer bobagens, passou a andar com sensatez e começou a obter excelentes resultados a granel. Se não é o piloto dos sonhos de ninguém, ao menos tinha cacife para peitar todo mundo e levar um título para casa. De 2009 para cá, no entanto, a Ferrari sucumbiu ao surgimento de novas concorrentes, como a Red Bull, e o próprio Massa abraçou o conservadorismo de uma maneira que aquele ímpeto visto nos tempos de Sauber pôde ser considerado como extinto. E o acidente de Hungaroring foi uma influência grande? Isso só o próprio piloto pode dizer, mas creio que não. O apagão de Massa se deu porque ele percebeu que Alonso tomaria o controle de tudo, como realmente aconteceu, e não haveria o mesmo ânimo de ser um piloto da Ferrari. Em termos de carro, Felipe Massa deve seguir na Ferrari sem pensar duas vezes. Em termos de motivação pessoal, creio que já é hora de buscar uma nova equipe. Se Massa seguir do jeito que está, destroçado pelo “Aloncentrismo” e por sua própria falta de ânimo, toda aquela confiabilidade e afabilidade que ele despertou para com a mídia, os torcedores e a Fórmula 1 desandará e se desfará como uma macarronada que passou do ponto.

Belíssima skyline diurna do Cingapura

MARINA BAY: Voto na Marina, a melhor dos três candidatos majoritários à presidência. Quanto ao circuito, é a realização do sonho daqueles jogadores infantilizados de Need for Speed Underground que queriam ver um carro de Fórmula 1 passando pelas ruas de uma grande metrópole à noite. A skyline, de fato, é sensacional, uma das melhores do mundo. O circuito é meia-boca, me lembra um pouco o odiado Detroit. Enfim, é a expressão da Fórmula 1 contemporânea: uma embalagem bonitinha e um presente apenas razoável, tendendo ao ordinário. Sou um entre os oito que preferem Valência.

HEIDFELD: E os deuses cingapurianos, muito mais justos e eficientes que os demais, atenderam ao meu pedido e trouxeram o alemão baixinho e barbudo de volta à Fórmula 1. Perdoe-me, De La Rosa, mas o retorno de Heidfeld só tem a acrescer no grid desta temporada. O maior problema é seu instrumento de trabalho. O carro da Sauber não é genial e o espanhol ainda acabou gastando todos os oito motores previstos no regulamento. Nick vai ter de optar entre largar lá no fim do grid com um motor novinho em folha ou andar com um motor de dentista em um carro que… provavelmente irá largar no fim do grid também.

D’AMBROSIO: Nada a ver com Alessandra Ambrósio ou com aquele doce feito com leite, ovos e açúcar que tem um nome muito parecido. Jerôme D’Ambrosio, belga que ficou conhecido na GP2 por ser muito rápido e muito azarado, andará pela primeira vez como um piloto oficial de uma equipe, nesse caso a Virgin. Ele irá dirigir o carro de Lucas di Grassi nos treinos livres de sexta-feira. Não é a oportunidade que todos costumam pedir a Deus, mas para alguém que não tem dinheiro e nem sorte, nada melhor do que isso.

BRIATORE: Um nome que dá arrepios é o de Flavio Briatore. Arrepios negativos, é evidente. Algum irresponsável midiático lançou um boato de que o ex-chefe de Schumacher e Alonso na Benetton e na Renault poderia estar voltando à Fórmula 1 como substituto do irregular Stefano Domenicali na Ferrari. Como eu não gosto de equipes que usam cavalos voadores como logomarca, tinha ficado feliz pela possibilidade de ver a Ferrari sendo novamente dominada por mafiosos italianos safados e irracionais. Mas Briatore rechaçou a idéia e disse que prefere curtir a grana e o filhinho que vem aí. Está certo, mas não acredito nele.

CHUVA: E se chover à noite, como a meteorologia está dizendo, o que a gente faz? É a dúvida que tira o sono dos convivas da Fórmula 1. Há motivos para tanto. Correr em uma noite chuvosa é uma merda, ainda mais em um circuito de rua traiçoeiro como esse. A falta de visibilidade seria um perigo e uma corrida como essa mandaria metade do grid direto ao ferro-velho e, possivelmente, ao hospital. Mas nós, fãs carniceiros que somos, esperamos que os pilotos calem a boca e corram. Afinal, como um bom Coliseu, gostamos de ver um punhado de imbecis se estropiando por pura diversão.

Ontem, a organização da minha querida GP2 Series anunciou a lista das 13 equipes que participarão das próximas três temporadas dos campeonatos europeu e asiático da categoria. Permanecem a ART, a Rapax, a Addax, a iSport, a Racing Engineering, a Supernova, a Arden, a DAMS, a Coloni, a Ocean e a Trident e sai a DPR, pobrezinha. Além delas, entrarão também a tradicional Carlin e a novata Air Asia, equipe malaia pertencente a Tony Fernandes, o mesmo da Lotus na Fórmula 1. Em primeiro lugar, bateu certo incômodo. 26 carros é pouco para uma categoria de base tão importante. Não vejo um porquê da categoria não expandir seu grid para 28 ou 30 carros, nada muito absurdo. Mas tudo bem, eu sempre reclamo do tamanho dos grids e sigo assim até o dia em que alguém crie uma categoria com uns 100 carros. Ainda assim, vou perguntar algo como “por que não 110?”.

A segunda nota que me chamou a atenção foi a criação da equipe Team Air Asia. Como dito acima, o criador da idéia é Tony Fernandes, empresário malaio dos mais endinheirados. No final do ano passado, Fernandes liderou um consórcio que envolvia inúmeras empresas públicas e privadas de seu país na criação da Lotus Racing, equipe de Fórmula 1 que visava trazer de volta o lendário nome da equipe de Colin Chapman ao mesmo tempo em que sonha ser a primeira equipe totalmente asiática da história da categoria. Em um primeiro momento, houve um misto de riso, descrença e escárnio. Muitos até se sentiram ofendidos pelo fato do nome Lotus ser utilizado em uma empreitada que soava absolutamente arrivista e até caricatural. Lá vem mais um asiático maluco e perdulário!

Passado um ano, uma agradável surpresa. O tal do Fernandes é um sujeito ambicioso, compromissado e sério. A equipe ainda não tem um carro competitivo, mas busca juntar todos os ingredientes para isso. Tem o experiente Mike Gascoyne como chefe de equipe e os calejados Jarno Trulli e Heikki Kovalainen como pilotos. A belíssima pintura, verde com alguns detalhes em amarelo, remete à Lotus dos anos 60. Para 2011, a equipe trará da Renault um pacote que inclui motor e câmbio. Além disso, o nome oficial da equipe será modificado: sai o Lotus Racing e entra o Team Lotus F1, que é exatamente o nome da equipe original. Além disso, a equipe tem seu braço na World Series by Renault, a Junior Lotus, e terá um na GP2 com a Team Air Asia. Em suma, os caras querem dominar o planeta. Ou, ao menos, o automobilismo.

Heikki Kovalainen, representante da Lotus Racing

O projeto de Tony Fernandes é bom e o pessoal da Lotus Cars, a empresa de carros comandada pela família Chapman, o louva e o considera como extensão oficial da antiga equipe de Fórmula 1. Mas as coisas estão um pouco confusas para o amante de automobilismo. Ontem mesmo, a ART Grand Prix, uma das potências da GP2, anunciou que teria o apoio oficial da Lotus Cars em 2011 para as equipes da GP2 e da GP3. E todos ficaram com um enorme ponto de interrogação na cabeça. Duas equipes Lotus?

Expliquemos as coisas desde o começo. A Lotus Cars é uma pequena empresa de carros artesanais criada por Colin Chapman. Com a morte de Chapman, a companhia passou pelas mãos da GM e de uma holding luxemburguesa até ser adquirida definitivamente pela Proton, uma montadora estatal malaia, em 1996. Desde então, quem manda no negócio é a turma malaia, ainda que a sede da empresa esteja localizada na pequena vila de Hethel. Tony Fernandes tem tanto a ver com a Lotus Cars e a Proton quanto eu, você ou a Mulher Pêra: absolutamente nada.

Tony Fernandes é um Eike Batista malaio, sem a aparência de playboy e a Luma de Oliveira no currículo. Com apenas 46 anos, conseguiu juntar uma fortuna de 230 milhões de dólares ao criar o Tune Group, conglomerado de empresas aéreas, de finanças, de turismo e do entretenimento. Uma destas empresas é a Air Asia, companhia aérea de baixo custo. A idéia da equipe surgiu quando um representante da Litespeed, equipe inglesa da Fórmula 3 que havia tentado, sem sucesso, se inscrever para a temporada 2010 da Fórmula 1, foi à Malásia para conversar com Tony Fernandes sobre a criação de uma parceria para uma equipe de Fórmula 1 no caso de uma das 13 já confirmadas não puder competir. Fernandes, empresário de trânsito entre os grandões de seu país, gostou da idéia e recorreu a outros empresários e ao governo. Todos acharam tudo muito lindo e fofo e, muito rapidamente, sentaram e definiram as coisas. Só repetindo: Tony Fernandes e a Lotus Cars não tem nada a ver.

No início do segundo semestre de 2009, a BMW Sauber anunciou que cairia fora. A FIA não tardou muito em anunciar a tal equipe malaia como sua substituta. Formada pela união entre um conluio de empresários e burocratas do governo da Malásia, seu nome seria Lotus Racing devido à participação bastante oportuna da Proton, que é justamente a empresa dona da Lotus Cars. Tony Fernandes seria o chefe da equipe.  Nasce, assim, a união entre Tony Fernandes e a Lotus.

A César o que é de César. A Lotus Racing, equipe de Tony Fernandes, é uma coisa completamente distinta da Lotus Cars. Esta faz parte do grupo que criou a escuderia e emprestou seu valoroso nome ao projeto, e só. A equipe de Fórmula 1 não responde à montadora e ambos os lados podem agir do jeito que quiserem com relação ao automobilismo. Dito isso, vamos identificar quem é quem.

Takuma Sato, representante da Lotus Cars

A Lotus Racing de Tony Fernandes aparece na Fórmula 1 e na World Series by Renault. Na World Series, ela comprou o espólio da também malaia Mofaz Racing e criou a Junior Lotus Racing, equipe que utiliza a mesma pintura da Fórmula 1 e emprega Nelson Panciatici e Daniil Move. O objetivo de Fernandes é óbvio: revelar novos talentos para sua equipe de Fórmula 1. Se bem que com Panciatici e Move, sei não…

Com esse mesmo objetivo, Fernandes criou a Team Air Asia, que é exatamente uma das duas equipes novatas da GP2 em 2011. E o apoio da Lotus à ART Grand Prix? Aí entra a turma da Lotus Cars, que apenas empresta seu nome e algum apoio técnico e financeiro às suas parceiras no automobilismo. Isso ocorre na KV, equipe da Indy que utiliza as cores da empresa no carro de Takuma Sato, e acontecerá agora na ART, que também pintará o carro de verde e amarelo. Nem a ART e nem a KV tem qualquer vínculo com a Lotus Racing, a Junior Lotus Racing ou a Team Air Asia. Alguns boatos na Europa ventilavam a possibilidade da Air Asia ser apenas uma filial camuflada da ART Grand Prix, o que é uma besteira total.

No fim, nada disso importa. O importante é que o nome Lotus está de volta, com suas cores e sua disposição para o automobilismo. Os falsos puristas podem até chiar que esta não é a verdadeira Lotus, e ela não é mesmo. Mas e daí? Viva a Lotus Car! Viva a Lotus Racing! Viva a Lotus! E viva a confusão!

Jerôme D'Ambrosio, um dos nomes da vez na Fórmula 1

Texto não muito longo. Aliás, alerto: esta semana não vai ser a mais movimentada. Coisas pra fazer a granel. Em um período no qual as notícias são poucas e não muito animadoras, falo de alguns personagens que andaram chamando a atenção de toda a patota da Fórmula 1 em tempos recentes.

Começo pelo fim, ou melhor, pelo menos badalado de todos. E o seu nome é Jerôme D’Ambrosio. Guardem esse nome, pois ele tem boas chances de correr na Fórmula 1 em 2011. Jerôme é belga e tem 25 anos. No seu currículo, constam um título obtido de maneira indiscutível na Fórmula Master em 2007 e três temporadas apenas razoáveis na GP2 entre 2008 e 2010. Não o culpemos, no entanto. D’Ambrosio é um piloto rápido, muito sensato e pouco propenso a erros. Nestes últimos três anos, sofreu com o pouco confiável carro da DAMS. Ainda assim, superou seus companheiros de equipes em todos estes anos. Nos dois primeiros anos, bateu Kamui Kobayashi com folga, e o japonês está aí, fazendo um bocado de gente babar na Fórmula 1.

D’Ambrosio (aprendam, infantes: JERROM DAMBRROSIÔ) aparecerá em quatro dos últimos cinco fins de semana da atual temporada de Fórmula 1 como piloto de testes da Virgin. Andará na sexta-feira nos circuitos de Marina Bay, Suzuka, South Jeolla e Abu Dhabi. A chance de brilhar é remotíssima, mas não deixa de ser boa para alguém que não tem patrocinadores grandes e que é obrigado a abraçar qualquer oportunidade dada pelos homens da Fórmula 1. Se o belga convencer nestas quatro oportunidades e se carregar consigo uma renca de patrocinadores, há uma boa chance da Virgin efetivá-lo para correr ao lado de Timo Glock em 2011. Lucas di Grassi, portanto, termina chupando o dedo.

Kimi Raikkonen: será que volta?

Lucas é um dos quatro brasileiros e um dos cinco estreantes desta temporada. Na comparação direta com seu companheiro Timo Glock, não está tão mal. Apesar de ter largado apenas duas vezes à frente do alemão, Di Grassi terminou apenas uma corrida a menos que Glock (sete a oito) e conseguiu o melhor resultado da Virgin até aqui, um 14º lugar em Sepang. Longe de ser um retrospecto genial, o caso é que o brasileiro merece, no mínimo, uma segunda oportunidade. Uma oportunidade realmente decente. Mas tudo parece nebuloso para ele. Sem dinheiro, restará a ele esperar que algo aconteça. Mas as coisas na Fórmula 1 não acontecem do nada.

Não muito distante da realidade de Di Grassi, Bruno Senna é outro brasileiro que padece no paraíso. Primeiro piloto da simpática porém lamentável Hispania, ele vem sofrendo com um carro que simplesmente é o mesmo da etapa barenita e com uma equipe completamente bagunçada e que remete aos bons tempos das nanicas da pré-classificação oitentista. Até aqui, ele terminou apenas cinco corridas. Já teve tudo quanto é tipo de problema, passou até pelo sufoco de não conseguir ligar o carro para a sessão de sexta-feira da etapa de Monza e chegou a dar seu lugar a Sakon Yamamoto na etapa de Silverstone. E ao contrário do que se imagina, Bruno não é o típico piloto-pagante. Apoiado apenas pelo Embratel e pelo Banco Cruzeiro do Sul (propriedade da família do candidato a vice-presidente Índio da Costa), não há dinheiro o suficiente em sua conta-corrente. Dinheiro esse que, por sinal, a Hispania precisa muito. Bruno Senna sabe que, dificilmente, seu futuro seguirá o mesmo rumo do de sua equipe. Assim como Di Grassi, restará a ele buscar um jardim mais fértil.

Mas não é só a dupla de brasileiros que padece. Pedro de la Rosa, o vovô espanhol, é outro que perde seus cabelos grisalhos buscando uma vaga para 2011. Dispensado pela Sauber, de la Rosa sabe que não tem muito mais a fazer. Está com quase 40 anos de idade e nunca demonstrou qualquer lapso de genialidade. Na atual temporada, fez menos de 1/3 dos pontos de seu companheiro Kamui Kobayashi. Como Pedro também não tem dinheiro, não há como comprar uma vaguinha por aí. Restará a ele esperar que alguém apareça desejando sua experiência. A Hispania já acenou com uma possibilidade. Mas será que é um bom negócio para alguém em sua situação?

Romain Grosjean, a ave fênix

Por outro lado, a vida é bem rósea para alguns. E o possível retorno de Kimi Raikkonen à Fórmula 1 é o principal assunto do momento. Piloto do WRC nesta temporada, Kimi recebe o segundo maior salário da Fórmula 1 devido à enorme rescisão paga pela Ferrari por sua dispensa no ano passado. Na atual temporada do WRC, o desempenho do ex-campeão vem sendo bastante razoável, mas o que mais chama a atenção é o número de acidentes sofridos na temporada de estréia. A mídia, sempre oportunista, não perde tempo para criticá-lo, ignorando que faz parte da adaptação. E a mesma mídia ventila a possibilidade de Kimi estar querendo voltar à Fórmula 1 devido ao fim da mamata ferrarista. Sem dinheiro, ele teria de abandonar a diversão e voltar ao batente. Raikkonen já teria consultado a Renault visando a vaga de companheiro de Robert Kubica em 2011. Quanto a Vitaly Petrov, este migraria por livre e espontânea vontade alheia à Lotus, que irá receber motores Renault. A conferir, a conferir, a conferir.

Outro que está nos ares é Pastor Maldonado, o venezuelano que ganhou o título da GP2 neste ano. Novo herói nacional, o jovem piloto chegou a ser convidado a fazer um discurso para um número enorme de pessoas em um estádio de seu país. No meio da multidão, o caudilho Hugo Chavez, que financia a carreira do pupilo por meio de suas empresas estatais, como é o caso da petrolífera PDVSA. Maldonado, que chegou até a aparecer nas Trending Topics mundiais do Twitter quando obteve uma de suas seis vitórias neste ano, está negociando com algumas equipes médias. Além de experiente e muito rápido, ele carrega muito dinheiro. É, sem dúvida, um dos pilotos mais valiosos que estão de fora nos dias atuais.

Por fim, uma humilde menção da Romain Grosjean, o suíço-francês primo do Sideshow Bob. Após fazer algumas corridas deploráveis pela Renault no final do ano passado, muitos davam sua carreira como acabada. Restaria a ele voltar a trabalhar no banco, pois. E não é que Grosjean deu a volta por cima e tentou correr no máximo de categorias possível visando um retorno à Fórmula 1? O mais legal é que ele andou bem em todas as categorias pelas quais passou nesse ano. Romain começou no FIA GT, venceu duas corridas e chegou a liderar a competição. Depois, pulou para a AutoGP, fez apenas três corridas e inacreditavelmente assumiu a liderança do campeonato tendo feito quatro corridas a menos que a concorrência. Por fim, foi chamado para correr na GP2 pela DAMS. Em um carro fraco, mostrou agressividade e conseguiu um pódio. Renascido das cinzas, foi chamado pela Pirelli para substituir Nick Heidfeld nos testes em Mugello. E seu nome volta a ser cogitado pelos chefes da categoria. E Romain pode, assim, dar risada de quem colocou sua capacidade em cheque no ano passado.

E estes são os personagens mais proeminentes da silly season 2010 – 2011. Silly season é um negócio sempre chato, cheio de sangue, suor e lágrimas. Todos dão seu sangue e suor para continuar competindo, mas alguns sempre terminam em lágrimas.

A única coisa que me irrita de verdade ao ver uma corrida é um grid pequeno. Já falei isso uma, duas, três, quatro vezes e não me furto em dizer novamente. Não me aborreço tanto com Flavio Briatore, Abu Dhabi ou Bernie Ecclestone como quando tenho a impressão de vazio ao ver um grid de largada. Há quem não ligue para isso, e estes são a maioria. Há até quem goste, preferindo ter um grid de 10 carros de ponta a um de 30 carros e 20 carroças, o que soa estranho em termos matemáticos, já que os 10 carros top continuam lá. É evidente que, na minha avaliação pouco democrática e respeitosa, são pessoas de notório mau gosto e índole duvidosa. Corrida de carro tem de ter bastante gente correndo e ponto final.

Como é de costume, a FIA pensa diferente de mim. Desde há cerca de dez anos, a entidade mantém a prática de limitar o número de inscrições. Na Fórmula 1, isso aconteceu devido a um pretenso desrespeito cometido pelas equipes Mastercard Lola, que abandonou a categoria após apenas uma corrida em 1997, e Honda, que havia se inscrito para correr em 2000 para desistir de tudo no instante seguinte.  Por um bom tempo, a categoria limitou seu grid a 24 carros. No ano passado, Max Mosley resolveu que 24 era um número insuficiente e pouco másculo e decidiu aumentar o grid em drásticos, espetaculares e anarquistas dois carros. Convidou a todos para se inscreverem em uma seletiva e os três melhores projetos se uniriam às dez equipes correntes, totalizando 26 carros. O otário aqui ficou feliz. “Oba, finalmente um número decente de inscritos!”.

Uma notícia tão boa assim não tinha cara de que daria certo, e de fato não deu. Nenhuma das três equipes escolhidas acabou alinhando no GP do Bahrein de 2010 da maneira que vieram ao mundo. Duas mudaram de dono, uma desistiu pateticamente e a melhor novata é uma que só foi chamada em setembro. As três equipes estreantes estão muito atrasadas em relação ao resto do grid, o que gerou desconfiança e desdém de jornalistas, torcedores e convivas. Na semana passada, a FIA anunciou que tudo continuaria do jeito que está e não haveria 13ª equipe em 2011. E seguimos com 24 carros.

Você já sabe de tudo isso. Você já está careca de ler sobre isso, principalmente aqui. Começo aqui o tema do post de hoje. Tenho uma suspeita sobre o fato da FIA não ter preenchido a 13ª vaga. Essa suspeita também responderia o motivo pelo qual a Fórmula 1 nunca tenha preenchido a 12ª vaga no período em que o limite era de 24 carros. É o que eu chamaria de “vaga estratégica”.

Grid com 26 carros como esse? Sonha…

Em poucas palavras, a teoria diz que a FIA mente quando diz que eliminou as três candidatas, Epsilon Euskadi, Stefan e Villeneuve, por critérios técnicos. Isso soa estúpido de tão óbvio. Ela também não considera o aspecto financeiro. A questão é unicamente política e geopolítica. Unicamente. Diria eu que se Epsilon Euskadi, Stefan, Villeneuve e Mao Tse-Tung Racing tivessem concorrido à vaga, teríamos 13ª equipe em 2011.

A FIA e Bernie Ecclestone não fazem absolutamente nada de graça. E nem para agradar torcedores e fãs do automobilismo. A participação de cada equipe no mundial é condicionada a uma série de fatores que escapam de questões financeiras ou técnicas. Dou um exemplo: em 1989, a First Racing foi impedida de entrar na Fórmula 1. O motivo seria uma briga entre Bernie Ecclestone e Lamberto Leoni, dono da equipe. Bernie deu um jeito de barrar a equipe alegando o fato do carro não ter sido aprovado em crash-test. O mais engraçado é que, no ano seguinte, o mesmo carro da First foi reutilizado pela novata Life e não teve maiores problemas para participar da categoria em 1990. Bernie não quis saber de Leoni na Fórmula 1 nem pintado de ouro. Acredito eu que David Richards, o incansável dono da Prodrive, também não consegue entrar na Fórmula 1 por motivo semelhante.

A 13ª vaga não será ocupada por ninguém até que apareça alguém adequado politicamente e geopoliticamente. Queira ou não, nenhuma das três candidatas deste ano soava interessante nesse sentido. A Epsilon Euskadi, por sinal, representava um problemão geopolítico por exaltar o orgulho basco, algo que se choca de frente com a Espanha do vice-presidente da FIA Carlos Gracia. A Stefan é sérvia, absolutamente irrelevante. E a Villeneuve/Durango é só mais uma. Imagino eu que deve ter sido a favorita pelo fato de carregar o nome do ex-campeão canadense, mas não tinha nada além disso. O que a Fórmula 1 quer é ter uma equipe de alguma região interessante (China, Índia, Rússia, Brasil, Oriente Médio) ou uma grande montadora ocupando essa vaga.

Analisemos, por exemplo, as equipes escolhidas no ano passado. A USF1 era americana, e a categoria sempre sonhou em ter um bom relacionamento com os yankees. A Campos, espanhola, agradaria e muito o país que mais cresce no esporte mundial e uma das vedetes da economia européia naquele momento. A Lotus chamava a atenção por carregar um nome histórico e por ser malaia. A Manor não tinha atrativo nenhum, mas a amizade de Max Mosley com Nick Wirth se sobressaiu. Max Mosley, por sinal, foi um fator muito importante.

First: em uma F1 onde todo mundo estava entrando, ela não conseguiu porque seu chefe brigou com Bernie Ecclestone

Mosley é um notório filho da mãe, responsável pela decadência geral das categorias sancionadas pela FIA nos anos 90. Sujeito vingativo e personalista, tomava decisões arbitrariamente e era facilmente manipulado por amigos ou pelo contexto momentâneo. Em 1994, ele permitiu que a Simtek, equipe do mesmo Nick Wirth, participasse da Fórmula 1 sem grandes dificuldades. O resultado foi aquele: uma morte na terceira corrida (Roland Ratzenberger) e uma quase morte duas corridas depois (Andrea Montermini). Nunca foi a favor das equipes pequenas ou do espírito esportivo, mas decidiu mudar de lado no ano passado, quando percebeu que sua amizade com Bernie Ecclestone ia de mal a pior e as equipes, por intermédio da FOTA, se opunham cada vez mais às suas decisões.  A solução foi trazer novas equipes que pudessem apoiá-lo politicamente. Quase deu certo.

Se você ainda não está convencido, pensemos em outros casos. A Super Aguri é uma história interessante. A equipe do tio Aguri nunca foi bem-vinda à categoria e sequer constava na primeira lista de equipes inscritas para 2006. Aguri Suzuki pegou a 11ª vaga à fórceps, mas pare pra pensar: naquele instante, apenas 10 equipes competiam. Era um momento no qual a possibilidade maior era de ter uma queda ainda maior no número de equipes e havia poucos interessados. Como havia duas vagas disponíveis para equipes, não custava nada deixar o cara entrar. Afastava momentaneamente o temor de uma queda no número de inscritos e ainda deixava a tal “vaga estratégica” disponível. Além do mais, era uma equipe apoiada pela Honda. A Super Aguri entrou em um momento propício. Tivesse ela desejado entrar no ano passado, tomaria um vigoroso não do sadomasô filho de nazista.

Lembro de outro caso, o de 2002. Este seria o único ano em que todas as 12 vagas disponíveis seriam ocupadas. A equipe agraciada com a vaga estratégica seria a Toyota, uma montadora gigante e ambiciosa vinda de um país rico e populoso. Não poderia haver concorrente melhor. Por outro lado, se um zé-mané quisesse ter sua equipe, sempre havia uma Prost, uma Minardi ou uma Arrows para serem adquiridas. No fim das contas, a Prost faliu e ficamos apenas com 11. Mas deu pra ver que os tapetes só são estendidos a quem interessa.

Resumindo e finalizando: nunca teremos 13ª equipe se as candidatas forem apenas equipes de corrida normais. A “vaga estratégica” é estratégica porque está destinada a uma possível Volkswagen, GM ou a algum milionário chinês. Se alguém mais quiser entrar, que se engrace com Toro Rosso, Virgin ou Hispania. Espero estar completamente errado e intelectualmente debilitado. Mas em uma Fórmula 1 onde é normal pagar 80 milhões de dólares a uma certa equipe carcamana e atropelar leis para não punir certa equipe carcamana, toda paranóia é pouca.

Essa, sim, desembarcou e todo mundo gostou

MONZA: O carro é ótimo, bem rápido. O circuito é ótimo, bem rápido. Na verdade, falar que a pista de Monza é bastante rápida é que nem dizer que Eike Batista é rico. Trata-se simplesmente de uma das pistas mais velozes de todos os tempos. Em 2004, Rubens Barrichello conseguiu fazer uma pole-position com a absurda velocidade média de 260,395 km/h. É verdade que as chicanes impedem que as velocidades sejam ainda maiores, mas tudo bem, perdoa-se qualquer coisa em nome da segurança e das placas de publicidade. Embora não seja minha pista italiana preferida, gosto muito. O maior problema está nos sempre desagradáveis torcedores da Ferrari, que fazem muito barulho e sujeira. Não é à toa que os ambientalistas e as velhinhas que moram no entorno sempre ameaçam o circuito.

FERRARI: Nada como ter aquela mística por trás. Os caras podem cuspir na cara dos torcedores. Os caras podem tripudiar sobre o esporte. Os caras podem destratar alguns de seus pilotos. Os caras podem resolver tudo no tapetão. Mas não importa. A escuderia do cavalo voador desembarca na Itália como uma entidade transcendental. O amor dos tifosi por ela é assustador. Com todo esse suporte por trás, não há grandes problemas em fazer uma bobagenzinha aqui ou acolá.

20: É o número de corridas no calendário ano que vem. Muita gente gosta. Eu sou contra, a não ser que todas sejam realizadas em Enna-Pergusa. Vinte provas é coisa demais. É cansativo. Enjoa. Todo mundo acaba tendo de acordar cedo nos domingos. Ou, pior, de madrugada, graças aos anseios asiáfilos (asiáfilos?) de Bernie Ecclestone. Além do mais, o pessoal da Fórmula 1 precisa descansar também. Nem falo dos pilotos milionários, mas dos mecânicos e dos jornalistas, gente como eu e você. Começar tudo no início de março e terminar no fim de novembro é extremamente exagerado.

EMERSON: E o bicampeão brasileiro será o comissário-piloto da vez. Emerson Fittipaldi foi campeão por lá em 1972, correndo com um Lotus 72D remendado às pressas. Dias antes, o caminhão da equipe havia sofrido um acidente e quase tudo foi perdido. Com esforço hercúleo, os mecânicos deram um jeito e conseguiram ajeitar um carro para ele. E não é que o cara largou em sexto e venceu a corrida?

PIZZA: Gosto muito da de margherita.

Este título tem um quê de dejà vú, já que eu escrevi um texto sobre os pilotos novatos há um tempo e utilizei algo muito parecido. O interessante é que o raciocínio utilizado para explicar os casos de Nico Hülkenberg e Vitaly Petrov serve para explicar também o que acontece com Lotus, Virgin e Hispania e por que não teremos uma 13ª equipe em 2011.

Eu falo muito sobre as equipes novatas. Se eu pudesse, só escreveria sobre elas. Mesmo que seus carros sejam umas jabiracas, mesmo que sua desorganização faça corar uma família italiana, mesmo que sua participação na atual temporada tenda ao despropósito, eu tenho muito mais prazer em noticiar ou comentar algo sobre elas do que, por exemplo, sobre umas certas equipes carcamanas por aí. E já andei comentando sobre o motivo disso. Gosto das equipes pequenas. São muito simpáticas e arejadas. Mas não é todo mundo que tem o mesmo bom gosto.

Ontem, a FIA anunciou que não haveria uma décima terceira equipe na Fórmula 1 em 2011. Sem muitas delongas, o argumento era que nenhuma das candidatas havia cumprido os muitos requisitos exigidos pela entidade. Não se sabe exatamente que requisitos são estes, mas imagina-se que há uma série de questões técnicas, financeiras, comerciais e até mesmo políticas e geopolíticas que existem apenas para evitar os lunáticos. Afinal, a Fórmula 1 é um esporte de respeito e a equipe que quiser entrar na fraternidade tem de merecer. Até aí, tudo bem. Na semana que vem, escrevo um outro texto sobre os critérios de escolha da tal vaga. O problema maior, no entanto, não envolve grana ou politicagem. É tudo uma questão de expectativa.

Jean Todt queria uma novata como a Brawn? Faz-me rir...

Quando a FIA anunciou, no ano passado, o tal teto orçamentário de 40 milhões de libras, muitos atacaram a federação com paus e pedras. O inconformismo era geral. Como pode a Fórmula 1 se rebaixar ao ponto de aceitar um monte de miseráveis? Max Mosley é um sadomasoquista nazista que quer destruir o esporte! A Fórmula 1 é para quem pode! Se o cara não tem bala na agulha, não deveria nem ter equipe de kart! É melhor ter 10 carros realmente bons no grid do que 30 Minardis! Se todas estas besteiras fossem ditas apenas por ferraristas pirados ou jornalistas de oitava categoria, tudo bem, irreleva-se e a vida segue em frente. Mas não eram apenas eles. Bernie Ecclestone, o dono da bola, demonstrava um ceticismo absolutamente preconceituoso com as futuras novatas. Jornalistas e dirigentes sensatos, aves rarae do automobilismo, concordavam.

De fato, nenhuma das três novatas está fazendo um trabalho de encher os olhos. A Lotus verdinha e malaia é a que está melhor. A Virgin vermelhinha e pretinha belisca a Lotus e a Hispania com uma inconsistência típica do patrão Richard Branson. E a Hispania, tadinha, só espera por verões mais auspiciosos. E as dasluzetes da Fórmula 1, aquelas pessoas que acham que equipe de corrida é igual a grife francesa, apontaram seus dedos na cara da FIA dizendo que estavam certas. Lugar de pobre é na fila do INSS e no auditório do Sílvio Santos, afinal. É evidente que estão todos errados. O Bernie, o Briatore, o Montezemolo, o Gracia, os ferraristas pirados, os jornalistas de oitava categoria e as dasluzetes.

Como eu disse acima, o problema é de expectativa. Nos tempos atuais, tempos em que todo mundo acha que a vida é um grande Twitter, não há qualquer pensamento a longo prazo. Semana passada é outra era geológica e semana que vem é futuro utópico. Não há mais paciência, aquele campo vasto que permite florescer a razão e a sensatez. Diante disso, todos acham que é obrigação moral e cívica de uma equipe novata fazer algo de relevante logo em seu primeiro ano. Não há mais aquela margem de tempo, aquele discurso de “queremos obter um pódio em, no máximo, cinco anos”. As equipes devem aparecer prometendo mundos e fundos. Como Orestes Quércia, promete-se vitórias e títulos em prazos não tão longos. E se uma equipe não faz esse tipo de prognóstico, ela é perdedora e não merece estar na Fórmula 1. Simples assim.

Não é um fenômeno tão antigo. As pessoas eram tolerantes com equipes novas até uns 15 anos atrás. A frescura se iniciou a partir do momento em que as vagas se tornaram limitadas e os custos dispararam. Entre 1998 e 2005, apenas a Toyota se dispôs a criar uma equipe do zero. E ela apareceu gastando meio bilhão de dólares por ano e anunciando que brigaria por vitórias “em três anos”. Tudo bem que estes três anos nunca existiram, mas o fato é que ela iniciou um novo padrão de equipes, aquele em que uma estrutura só entra na Fórmula 1 se for um colosso dos mais pretensiosos. Desde então, a dificuldade para abrir uma equipe cresceu exponencialmente. E todos passaram a pensar, de maneira completamente equivocada, que uma equipe novata deveria aparecer com uma estrutura toyotiana.

A Williams foi a Hispania dos anos 70. Resultado: nove títulos de construtores nos anos 80 e 90

Em 2009, no entanto, surgiu a Brawn. Equipe comandada pelo engenheiro Ross Brawn, ela virou a queridinha de todos tão logo os resultados vieram. A novela era perfeita: um engenheiro talentoso comprou o espólio da Honda, criou uma pequena equipe nova em apenas um mês, contratou dois pilotos virtualmente aposentados e deu a tremenda sorte de ter um foguete em mãos. Quando todos se deram conta, a Brawn estava vencendo corridas e levando, para casa, os títulos de pilotos e construtores. E o que não passava de uma belíssima exceção se tornou uma desagradável exigência. Se a Brawn, que começou sem dinheiro e sem a menor expectativa, conseguiu vencer o campeonato, por que as novatas não podem sequer marcar pontos? Para muitos, a equipe foi a prova de que não havia a necessidade de haver uma estrutura toyotiana para apresentar resultados a curto prazo. Tudo errado.

Ninguém tem a obrigação de nada. Por menos que pareça aos olhos dos infantes, abrir uma equipe de Fórmula 1 dá uma dor de cabeça dos infernos. As pessoas que dizem que o teto de 40 milhões de libras, algo próximo de 130 milhões de reais, banaliza o esporte só podem estar cheirando meia velha. Uma equipe de GP2, Indy ou NASCAR nunca irá gastar mais do que 20 milhões de dólares anuais. A Hispania, com muito esforço, conseguiu juntar 50 milhões de dólares para competir. A Ferrari gasta dez vezes mais do que isso. Pensem: a Hispania é pobre ou a Ferrari gasta demais? 50 milhões de dólares não é pouco dinheiro nem mesmo em Liechtenstein.

E exatamente por isso que ninguém deve encher o saco das equipes novatas. Tudo é muito difícil e elas precisam de tempo para se desenvolver. Eu acredito que Lotus, Virgin e até mesmo a Hispania possuem potencial o suficiente para subir de patamar no tempo certo. E o mesmo vale para as equipes que não foram selecionadas para 2011. Se a Epsilon Euskadi entrasse no grid, ela provavelmente andaria atrás até mesmo da Hispania. O pessoal da equipe teria isso em mente, até porque sabe que o crescimento é gradual e os planos são sempre de longo prazo.

Termino trazendo a lembrança de equipes como a Williams e a Jordan, que começaram de maneira quase amadora e precisaram de um bom tempo para se desenvolverem corretamente. Seria muito, mas muito estranho ver a equipe de Frank Williams nos anos 70 sendo chamada de amadora e dispensável pela geração Twitter, que acha que todo mundo tem de ser Lewis Hamilton e Brawn. Nesse exato momento.

Quando o RB6 de Sebastian Vettel atingiu de maneira patética a lateral daquele McLaren MP4-25 cromado pilotado por Jenson Button, eu confesso que o chamei de idiota. E dei risada. Um erro absolutamente crasso e evitável. Grudar na traseira de um carro em um trecho de freada forte coberto por uma finíssima camada de água para depois jogar o carro bruscamente à esquerda é uma demonstração de falta de calma típica de Fórmula Renault e Fórmula 3. O mais incômodo é o fato de que Sebastian, 23 anos e salário anual estimado em 3,5 milhões de euros, vem cometendo uma série de erros estúpidos nesse ano. Quem não se esquece do acidente com Webber em Istambul, muito parecido com o belga? E quem não se esquece das desastrosas largadas em Hockenheim e Silverstone?

O mais comum, nos dias atuais, é ver alguém contestando a real capacidade de Vettel. O cara é pipoqueiro. E picareta. E desastrado. E desequilibrado. E sósia do Justin Bieber. Tirando a última afirmação, não é bem assim. Sebá vem passando por uma situação análoga à de Lewis Hamilton em meados de 2008. Você não se lembra? Refresco-te a memória: na corrida canadense, Hamilton atingiu pateticamente a traseira da Ferrari de Kimi Raikkonen na saída dos pits. Na corrida seguinte, em Magny-Cours, Lewis guiou feito um bêbado e saiu da pista ainda na primeira volta. A mídia e a torcida não perdoaram. Lewis era pipoqueiro. E picareta. E desastrado. E desequilibrado. E sósia do Robinho.

Eu vou por outro caminho. O problema deles é a falta de preparo psicológico para enfrentar as situações. Começa aqui mais uma das minhas teorias obviamente estapafúrdias.

Sebastian Vettel, um moleque afetado pela fama e pela pressão

Lewis Hamilton tinha 23 anos em 2008. Sebastian Vettel fez 23 anos há pouco tempo. Eu, com 21 anos, sou da mesma geração que eles. Depois de impiedosamente massacrá-los, paro e reflito um pouco. Os dois ainda são moleques, homens em formação. Em suas idades, muitos ainda estão na faculdade, preparando-se para obter seu primeiro emprego, provavelmente um estágio de 20 horas com remuneração baixa. Namoram, frequentam festas, bebem, saem com os amigos e fazem um monte de outras coisas típicas de jovens normais. No máximo, são cobrados pelo professor da faculdade ou pelos pais.

É evidente que Vettel e Hamilton, assim como outros pilotos de idade parecida, estão em outro patamar. Pessoas públicas, abdicam-se de suas vidinhas baixas de meros mortais para terem de responder à sua equipe, à mídia e aos torcedores. Ao seu redor, cifras bilionárias, pessoas interesseiras, interesses corporativos emaranhados, jornalistas ávidos por aquele deslize bombástico, obrigações comerciais, virabrequins e difusores duplos. É muita coisa para um punhado de adolescentes lidar de maneira coesa e sensata.

Alguém diria que minha opinião é absolutamente descabida porque eles sabiam de tudo isso e, mesmo assim, insistiram em seguir em frente com o automobilismo. Além do mais, e acima de tudo, são muitíssimo bem pagos pelo que fazem. Com a minha idade, ganham em um mês o que eu não vou ganhar na minha vida inteira. Respondo que não é essa a questão. É evidente que eles recebem fortunas para que arrisquem seus pescoços em monstros motorizados. Nem sou contra o fato do cara entrar cedo na Fórmula 1, embora também não seja visceralmente a favor. A questão é emocional. Os caras estão com a cabeça cheia de merda. E isso se reflete na pista. É até perigoso.

Eu não vejo com bons olhos a maneira com a qual os pilotos mais jovens são tratados. Não digo que eles precisam de pantufas e bolo de cenoura da vovó, mas é visível que a transformação de pilotos jovens em super-heróis está longe de ser algo saudável para os seres humanos que se escondem atrás do capacete, da balaclava e do macacão. Chega a ser bizarro ter de lembrar que os pilotos são seres humanos. Sentem alegrias, tristezas e frustrações como qualquer um. Aliás, acredito que devam sentir até mais frustração do que as pessoas normais. Imagino eu que a pessoa que mais deve ter xingado Vettel após o acidente belga foi exatamente o próprio.

Lewis Hamilton, tripudiado por todos em 2008

Todo esse processo começa lá embaixo, no dia em que alguém chegou à conclusão de que tal moleque é realmente bom dirigindo um kart. Os pais modernos, sempre esperançosos pela possibilidade de ter um filho prodígio que possa se tornar uma celebridade milionária no futuro, logo se preocupam em transformar o rebento em um esportista profissional que coloca sua futura carreira acima até de seu processo de amadurecimento biológico e mental. E lá vai a criança para as intermináveis horas de treinos na pista, as aulas de inglês e as sessões na academia. Até mesmo o processo escolar é prejudicado. Longe de achar a preocupação em garantir o melhor para seu filho algo ruim, até quando o desejo de um pai deve chegar a um ponto tão avançado?

De repente, o moleque dá certo. Ele sobe para a Fórmula 3, para a GP2 ou para o caralho a quatro. Com 16, 17 anos, ele já corre de monopostos mesmo sem ter carteira de motorista, vence algumas corridas e chama a atenção de alguns empresários e olheiros das categorias maiores. O moleque, cheio de espinhas e de uma arrogância típica da idade, começa a se sentir a estrela do pedaço. Os pais, ao mesmo tempo, estão na maior empolgação. A mídia, lentamente, começa a se aproximar. E o garoto prodígio já sabe até dar entrevistas como se fosse gente grande. “O carro se comportou bem e os mecânicos se dedicaram ao máximo, mas tive um pequeno problema hidráulico e, infelizmente, não consegui terminar entre os primeiros”.

E não é que, quando o moleque percebe, ele já está na Fórmula 1? Agora, sim. Eu posso ganhar milhões e comer a mulherada que quiser, conclui com razão. Com menos de 25 anos, ele sabe que tem influência o suficiente para aparecer na capa dos jornais ao redor do mundo. Tente imaginar qual é a magnitude disso para um sujeito que mal chegou à idade adulta. É óbvio que a prepotência e a alienação à realidade ultrapassam quaisquer limites. Sem ter passado pelos devidos processos de crescimento emocional e intelectual, sem terem contado com a ajuda de pessoas comuns, sem terem vivido uma vida normal, eles começam a apresentar desvios de comportamento. E o que vemos por aí é um Lewis Hamilton tomando multas a torto e direito, um Kimi Raikkonen aparecendo bêbado em vídeos amadores do Youtube ou um Sebastian Vettel fazendo besteira dentro da pista e falando besteira fora dela.

Tudo isso pode ser evitado, mesmo no caso de um jovem piloto de Fórmula 1, se todos começarem a reconhecê-los como pessoas normais com sentimentos e necessidades terrenas, a começar pelos próprios pais. A verdade é que Sebastian Vettel não é um super-herói, não é alguém diferente de mim ou de você por simplesmente dirigir um carro veloz pra caramba. Ninguém deve se deslumbrar com as pessoas públicas, achando que elas vivem em uma outra dimensão humana. Se o Ayrton Senna gostava de passar esta idéia para todo mundo, isso era um problema dele. Muitos, a começar por figuras bem mais simples como Mika Hakkinen e Damon Hill, eram avessos ao oba-oba generalizado. Portanto, se a mídia e os torcedores acham que, por exemplo, o Fernando Alonso é um maquiavélico endemoniado, saibam que grande parte da culpa pela fama é deles, que cobram posturas e se decepcionam a qualquer deslize.

Portanto, e isso obviamente vale para mim também, antes de entrar no Twitter, no Orkut ou em qualquer outro site e vomitar insanidades sobre pilotos de corrida e celebridades, é bom pensar sobre como se sentiria se o piloto do tal RB6 fosse você. Mas tem de pensar como um jovem normal, dotado de todos os seus sonhos e suas angústias normais.

Porque Flandres é um saco

SPA-FRANCORCHAMPS – Já escrevi sobre a pista antiga, um colosso de 14 quilômetros e algumas das curvas mais espetaculares da história do automobilismo. Vamos dizer que a descendente, embora não seja tão portentosa como a ancestral, ainda reserva fortes emoções. Seus pouco mais de sete quilômetros compõem aquela que é a melhor e mais completa pista do mundo atualmente. Imaginá-la fora do calendário da Fórmula 1, como já aconteceu recentemente, é algo que me incomoda um bocado. E a região em questão é conhecida pela suas excelentes fontes de águas termais e por um dos melhores chocolates do mundo. Não há nada de ruim para falar sobre Spa-Francorchamps, especialmente quando chove.

RAIKKONEN – O finlandês, campeão de Fórmula 1 em 2007, deu o ar das graças nesses últimos dias. Disse que sua carreira na categoria estava acabada e que o WRC é muito mais legal. Tendo a concordar, especialmente considerando o ambiente arredio da tal da Fórmula 1. Disse que Sebastian Vettel é o cara mais legal entre os pilotos do certame. Não comento, não o conheço pessoalmente, só digo que ele se parece com o Justin Bieber após um tempo em coma. Disse que Spa-Francorchamps é uma grande pista. Por mais óbvio que isso seja, o fato dele ter vencido por lá quatro vezes deve reforçar ainda mais a afirmação. Falando nisso, quem será que o substituirá no reinado belga? Entre os pilotos atuais, Michael Schumacher à parte, apenas Felipe Massa (2008) tem vitória por lá.

SMS – Michael Schumacher pediu desculpas a Rubens Barrichello pelo ocorrido em Hungaroring. Até aí, tudo bem. O inusitado da situação, todavia, é o fato dele ter feito isso por um SMS que não deve ter custado mais do que uns 30 ou 40 centavos de euro, menos que troco de bala para alguém bilionário. O caráter burocrático de um SMS mostra como a relação entre os dois é boa e sincera. Assim como mostrou como Sebastien Bourdais era bem quisto pela Toro Rosso quando foi demitido da mesma maneira.

300 – Falando em Barrichello, Spa-Francorchamps será o seu fim de semana de número 300. Já falei sobre isso, assim como toda a torcida do Flamengo. Já que o assunto está esgotado, restrinjo-me a falar sobre suas possibilidades nesta corrida. Com um Williams cujo motor Cosworth tem sérios problemas de torque e velocidade final, o negócio é esperar pela chuva. Spa é a pista da primeira pole-position dele em 1994. No entanto, Rubens nunca conseguiu muito mais do que isso. Apenas dois pódios, nas impecáveis temporadas de 2002 e 2004, foram obtidos por lá.

PONTEIROS – A Red Bull está com medo de não andar direito nas grandes retas de Spa. A McLaren vai utilizar esta corrida como um teste para ver se o duto frontal será utilizado em Monza. Duto frontal este que será utilizado pela Renault pela primeira vez na temporada. A Ferrari está feliz com a evolução e a Mercedes, bem… O caso é que não está fácil apontar um favorito para a corrida belga. Se chover, o que não é nem um pouco improvável, o negócio ficará ainda mais bagunçado. Sem grandes certezas, vou pelo meu lado torcedor e aposto 400 milhões de rublos em Vitaly Petrov.

300 de altos...

Nunca escrevi um texto sobre Rubens Barrichello aqui. Na verdade, até me jacto por isso. Toda e qualquer pessoa que escreve qualquer bobagem sobre automobilismo não tarda a emitir sua opinião sobre o mais polêmico piloto que o Brasil já teve na Fórmula 1. Na verdade, até eu já fiz isso. Foi em 2005, quando tinha 17 anos e escrevia para um site de fama razoável que eu não vou revelar qual. Nem tenho coragem de procurar e reler o texto, que deve estar cheio de erros de formatação, concordância e idéias equivocadas. Hoje, volto a escrever sobre Rubens.

Gosto de Barrichello. Na verdade, nem sei o porquê. Às vezes, penso que meu inconsciente me faça sentir uma certa comiseração por aquilo que ele não foi. Afinal de contas, é da minha natureza encontrar injustiças em tudo relacionado ao automobilismo em geral. Mas não sei dizer se Rubens é um injustiçado, um miserável, alguém digno da minha pena. Provavelmente, não.

Barrichello, 38, é um cara tranquilo, simpático e bem-humorado. Ama a mulher e seus dois filhos. Vive confortavelmente em Mônaco, mas sempre dá um pulo em São Paulo pra rever a família e os amigos. É respeitado por quase todos os envolvidos no meio. Faz o que gosta, e faz bem. Falar que o cara é vencedor por fazer o que gosta na Fórmula 1 enchendo a conta-corrente com milhões e milhões de dólares é algo batido, um clichê utilizado por todos que querem defendê-lo. Mas o caso é que, por mais cansada que esta tese esteja, ela não deixa de estar errada. Rubens Barrichello tem absolutamente tudo para se considerar um homem feliz e bem-sucedido.

As vitórias não vieram? Sim e não. A torcida irá chiar enquanto ele não for campeão, e é bom Barrichello se resignar quanto a isso, pois o título provavelmente não virá. Ele venceu onze corridas e obteve dois vice-campeonatos, muito pouco para a exigente nação brasileira. Nesse momento, serei extremamente pseudointelectual e citarei o filósofo Voltaire. O que importa é cultivar seu próprio jardim, e Barrichello o fez como poucos. Nada é mais importante para o indivíduo do que uma vitória pessoal, aquela sensação de que todo aquele trabalho de sua vida valeu para alguma coisa. Só faltou o título, mas ser campeão de Fórmula 1 não é algo tão fácil e tão óbvio assim. Mesmo para um piloto do seu quilate.

Dei minha opinião sobre Rubens Barrichello, piloto que só está abaixo de Nelson Piquet em minhas preferências. É evidente que não estou escrevendo porque me deu na telha. Em Spa-Francorchamps, ele fará seu 300º fim de semana como piloto de Fórmula 1. Não digo que esta será a corrida de número 300 porque, oficialmente, ele não largou em quatro desses fins de semana. No fatídico GP de San Marino de 1994, ele teve aquela pancada na sexta-feira que o deixou de fora com um nariz quebrado e um braço torto. No GP da Bélgica de 1998, ele foi um dos envolvidos naquele famoso megaacidente que não tinham carro reserva para relargar. No GP da Espanha de 2002, seu câmbio falhou e ele não conseguiu sair para a volta de apresentação. O mesmo aconteceu no GP da França daquele mesmo ano, no qual um energúmeno da Ferrari deixou seu carro sobre o cavalete e Rubens ficou por lá. Em termos oficiais, Barrichello fez 296 corridas. Malditas estatísticas!

... e baixos. Poucos tiveram a vida fantástica que ele teve

Mas isso não importa. Sendo 296 ou 300, o caso é que Rubens Barrichello pode se considerar um verdadeiro patrimônio histórico da Fórmula 1. Seu nome consta na lista de inscritos para uma corrida desde o GP da África do Sul de 1993, há exatos 6372 dias. A Fórmula 1 daquele dia tinha Senna, Prost, Patrese, Berger, Alboreto, Warwick, De Cesaris, Alliot, Alesi e Capelli. A Fórmula 1 de hoje tem Hamilton, Alonso, Massa, Vettel, Button, Webber, Kubica, Sutil, Rosberg e Kobayashi. A Fórmula 1 daquele dia tinha suspensão ativa, freios ABS, câmbio automático e controle de tração. A Fórmula 1 de hoje tem difusores duplos e dutos de ar. A Fórmula 1 daquele dia tinha Bernie Ecclestone, Luca di Montezemolo, Frank Williams e Michael Schumacher. A Fórmula 1 de hoje tem Bernie Ecclestone, Luca di Montezemolo, Frank Williams e Michael Schumacher. E Barrichello presenciou todas as mudanças e todas as não-mudanças. Um acervo histórico.

Rubens chega a um número de grandes prêmios que piloto nenhum ousou chegar. O fato de estar em seu 18º ano na Fórmula 1 o iguala a Graham Hill no número de temporadas. É um highlander, um tipo incansável. E o mais legal é que, ao contrário de muitos que chegam a essa idade, ele parece ter a disposição de um moleque de 20 anos. Você, que dá risada das piadas engraçadas e inteligentes do Casseta e Planeta, deve admitir que, no mínimo, força de vontade o cara tem.

E o mais legal é que os 300 de Barrichello foram marcados por tantos altos quanto baixos. O choro incontido no pódio de Hockenheim, aquela corrida na qual ele saiu de 18º para chegar em primeiro. A angústia de competir em Interlagos com uma Honda caquética sem saber o que fazer no ano seguinte. O êxtase de ter terminado em segundo com um Stewart na chuvosa pista de Mônaco. A depressão de ter de correr em Interlagos no ano seguinte à morte de Senna carregando todas as expectativas de um país. A primeira volta em Donington. A pane seca em Donington. O quarto lugar com um Jordan em Interlagos. O acidente em Imola. O pódio em Imola cinco anos depois. A vitória em Valência com um Brawn. O ano zerado com uma Honda ecológica. Áustria/2002. EUA/2002. Inglaterra/2003. Brasil/1996. Nenhum piloto teve seu emocional tão testado quanto ele. Talvez seja isso que explique o comportamento deveras passional e até irracional. É coisa demais para um só.

O Rubens Barrichello dos 300 é alguém mais realizado, mais feliz e mais tranquilo consigo. Conforme a idade vem, as coisas são menos levadas a sério e tratadas com mais leveza. Não vou sair por aí desejando mais 100 corridas, até porque Fórmula 1 é um negócio que enche o saco e até mesmo ele precisará se aposentar um dia. Só espero que ele entenda que 300 é mais do que um número. É um agregado de histórias e sentimentos que pouquíssimos no mundo terão a oportunidade de desfrutar.

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