Quando o RB6 de Sebastian Vettel atingiu de maneira patética a lateral daquele McLaren MP4-25 cromado pilotado por Jenson Button, eu confesso que o chamei de idiota. E dei risada. Um erro absolutamente crasso e evitável. Grudar na traseira de um carro em um trecho de freada forte coberto por uma finíssima camada de água para depois jogar o carro bruscamente à esquerda é uma demonstração de falta de calma típica de Fórmula Renault e Fórmula 3. O mais incômodo é o fato de que Sebastian, 23 anos e salário anual estimado em 3,5 milhões de euros, vem cometendo uma série de erros estúpidos nesse ano. Quem não se esquece do acidente com Webber em Istambul, muito parecido com o belga? E quem não se esquece das desastrosas largadas em Hockenheim e Silverstone?

O mais comum, nos dias atuais, é ver alguém contestando a real capacidade de Vettel. O cara é pipoqueiro. E picareta. E desastrado. E desequilibrado. E sósia do Justin Bieber. Tirando a última afirmação, não é bem assim. Sebá vem passando por uma situação análoga à de Lewis Hamilton em meados de 2008. Você não se lembra? Refresco-te a memória: na corrida canadense, Hamilton atingiu pateticamente a traseira da Ferrari de Kimi Raikkonen na saída dos pits. Na corrida seguinte, em Magny-Cours, Lewis guiou feito um bêbado e saiu da pista ainda na primeira volta. A mídia e a torcida não perdoaram. Lewis era pipoqueiro. E picareta. E desastrado. E desequilibrado. E sósia do Robinho.

Eu vou por outro caminho. O problema deles é a falta de preparo psicológico para enfrentar as situações. Começa aqui mais uma das minhas teorias obviamente estapafúrdias.

Sebastian Vettel, um moleque afetado pela fama e pela pressão

Lewis Hamilton tinha 23 anos em 2008. Sebastian Vettel fez 23 anos há pouco tempo. Eu, com 21 anos, sou da mesma geração que eles. Depois de impiedosamente massacrá-los, paro e reflito um pouco. Os dois ainda são moleques, homens em formação. Em suas idades, muitos ainda estão na faculdade, preparando-se para obter seu primeiro emprego, provavelmente um estágio de 20 horas com remuneração baixa. Namoram, frequentam festas, bebem, saem com os amigos e fazem um monte de outras coisas típicas de jovens normais. No máximo, são cobrados pelo professor da faculdade ou pelos pais.

É evidente que Vettel e Hamilton, assim como outros pilotos de idade parecida, estão em outro patamar. Pessoas públicas, abdicam-se de suas vidinhas baixas de meros mortais para terem de responder à sua equipe, à mídia e aos torcedores. Ao seu redor, cifras bilionárias, pessoas interesseiras, interesses corporativos emaranhados, jornalistas ávidos por aquele deslize bombástico, obrigações comerciais, virabrequins e difusores duplos. É muita coisa para um punhado de adolescentes lidar de maneira coesa e sensata.

Alguém diria que minha opinião é absolutamente descabida porque eles sabiam de tudo isso e, mesmo assim, insistiram em seguir em frente com o automobilismo. Além do mais, e acima de tudo, são muitíssimo bem pagos pelo que fazem. Com a minha idade, ganham em um mês o que eu não vou ganhar na minha vida inteira. Respondo que não é essa a questão. É evidente que eles recebem fortunas para que arrisquem seus pescoços em monstros motorizados. Nem sou contra o fato do cara entrar cedo na Fórmula 1, embora também não seja visceralmente a favor. A questão é emocional. Os caras estão com a cabeça cheia de merda. E isso se reflete na pista. É até perigoso.

Eu não vejo com bons olhos a maneira com a qual os pilotos mais jovens são tratados. Não digo que eles precisam de pantufas e bolo de cenoura da vovó, mas é visível que a transformação de pilotos jovens em super-heróis está longe de ser algo saudável para os seres humanos que se escondem atrás do capacete, da balaclava e do macacão. Chega a ser bizarro ter de lembrar que os pilotos são seres humanos. Sentem alegrias, tristezas e frustrações como qualquer um. Aliás, acredito que devam sentir até mais frustração do que as pessoas normais. Imagino eu que a pessoa que mais deve ter xingado Vettel após o acidente belga foi exatamente o próprio.

Lewis Hamilton, tripudiado por todos em 2008

Todo esse processo começa lá embaixo, no dia em que alguém chegou à conclusão de que tal moleque é realmente bom dirigindo um kart. Os pais modernos, sempre esperançosos pela possibilidade de ter um filho prodígio que possa se tornar uma celebridade milionária no futuro, logo se preocupam em transformar o rebento em um esportista profissional que coloca sua futura carreira acima até de seu processo de amadurecimento biológico e mental. E lá vai a criança para as intermináveis horas de treinos na pista, as aulas de inglês e as sessões na academia. Até mesmo o processo escolar é prejudicado. Longe de achar a preocupação em garantir o melhor para seu filho algo ruim, até quando o desejo de um pai deve chegar a um ponto tão avançado?

De repente, o moleque dá certo. Ele sobe para a Fórmula 3, para a GP2 ou para o caralho a quatro. Com 16, 17 anos, ele já corre de monopostos mesmo sem ter carteira de motorista, vence algumas corridas e chama a atenção de alguns empresários e olheiros das categorias maiores. O moleque, cheio de espinhas e de uma arrogância típica da idade, começa a se sentir a estrela do pedaço. Os pais, ao mesmo tempo, estão na maior empolgação. A mídia, lentamente, começa a se aproximar. E o garoto prodígio já sabe até dar entrevistas como se fosse gente grande. “O carro se comportou bem e os mecânicos se dedicaram ao máximo, mas tive um pequeno problema hidráulico e, infelizmente, não consegui terminar entre os primeiros”.

E não é que, quando o moleque percebe, ele já está na Fórmula 1? Agora, sim. Eu posso ganhar milhões e comer a mulherada que quiser, conclui com razão. Com menos de 25 anos, ele sabe que tem influência o suficiente para aparecer na capa dos jornais ao redor do mundo. Tente imaginar qual é a magnitude disso para um sujeito que mal chegou à idade adulta. É óbvio que a prepotência e a alienação à realidade ultrapassam quaisquer limites. Sem ter passado pelos devidos processos de crescimento emocional e intelectual, sem terem contado com a ajuda de pessoas comuns, sem terem vivido uma vida normal, eles começam a apresentar desvios de comportamento. E o que vemos por aí é um Lewis Hamilton tomando multas a torto e direito, um Kimi Raikkonen aparecendo bêbado em vídeos amadores do Youtube ou um Sebastian Vettel fazendo besteira dentro da pista e falando besteira fora dela.

Tudo isso pode ser evitado, mesmo no caso de um jovem piloto de Fórmula 1, se todos começarem a reconhecê-los como pessoas normais com sentimentos e necessidades terrenas, a começar pelos próprios pais. A verdade é que Sebastian Vettel não é um super-herói, não é alguém diferente de mim ou de você por simplesmente dirigir um carro veloz pra caramba. Ninguém deve se deslumbrar com as pessoas públicas, achando que elas vivem em uma outra dimensão humana. Se o Ayrton Senna gostava de passar esta idéia para todo mundo, isso era um problema dele. Muitos, a começar por figuras bem mais simples como Mika Hakkinen e Damon Hill, eram avessos ao oba-oba generalizado. Portanto, se a mídia e os torcedores acham que, por exemplo, o Fernando Alonso é um maquiavélico endemoniado, saibam que grande parte da culpa pela fama é deles, que cobram posturas e se decepcionam a qualquer deslize.

Portanto, e isso obviamente vale para mim também, antes de entrar no Twitter, no Orkut ou em qualquer outro site e vomitar insanidades sobre pilotos de corrida e celebridades, é bom pensar sobre como se sentiria se o piloto do tal RB6 fosse você. Mas tem de pensar como um jovem normal, dotado de todos os seus sonhos e suas angústias normais.

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