Pitacos


SEBASTIAN VETTEL10 – Não há muito mais o que dizer. Pole-position com direito a recorde de pista. Liderança em todas as voltas menos uma, aquela em que Massa liderou enquanto os outros paravam. Volta mais rápida. Seis vitórias em oito. Entreguem o título para ele e recomecemos o ano do zero.

FERNANDO ALONSO 9 – Você pode achar o espanhol um cara chato, marrento, mascarado e baixote, mas não pode negar que trata-se de um grande piloto. Pulou para terceiro na largada, fez uma boa ultrapassagem sobre Webber após a primeira rodada de pit-stops e conseguiu usufruir do bom trabalho dos mecânicos da Ferrari para recuperar a segunda posição do mesmo Webber na última rodada de pit-stops. Ótimo segundo lugar.

MARK WEBBER7,5 – Diz ele que foi sua melhor corrida no ano. Difícil concordar com ele. O australiano até fez seu trabalho no treino classificatório, colocando seu carro na segunda posição do grid. Na largada, quase foi ultrapassado por Massa. Durante a corrida, levou uma ultrapassagem de Alonso após a primeira parada, recuperou a segunda posição na segunda parada e perdeu na terceira. Lembrando que seu carro é um Red Bull, terceiro lugar magro.

LEWIS HAMILTON7 – Sem um carro que pudesse peitar Red Bull e Ferrari, não apareceu. Ainda foi bem no sábado ao obter a terceira posição no grid. No dia seguinte, largou mal e teve enormes dificuldades com os pneus, sendo sempre o primeiro a realizar suas três trocas entre os pilotos de ponta. Quarto lugar apenas morno, mas que representa enorme avanço após as bobagens das duas últimas corridas.

FELIPE MASSA7,5 – Trabalho bastante digno em uma pista bastante apreciada por ele. Fez um razoável quinto lugar no treino classificatório e chamou a atenção de todos na largada, quando passou Hamilton e Alonso logo nos primeiros metros e quase engoliu Webber na primeira curva. Temendo um toque com o australiano, tirou o pé e acabou perdendo uma posição para o companheiro espanhol. Depois, perdeu um pouco de rendimento e ainda sofreu com os costumeiros problemas ferraristas no seu segundo pit-stop, o que lhe custou cinco segundos. Ainda assim, resultado honesto.

JENSON BUTTON 6,5 – Rei na última corrida, Jenson foi apenas mais um súdito na Espanha. Fez apenas o sexto tempo no sábado e, como de costume, manteve-se cauteloso durante a maior parte da corrida. O destaque maior vai para a boa ultrapassagem sobre Rosberg no início da corrida. Mesmo assim, não conseguiu se aproximar de Felipe Massa para uma briga real. Até certo ponto de maneira surpreendente, é o vice-líder.

NICO ROSBERG6 – Em um fim de semana sem grandes reviravoltas, o andrógino da Mercedes restringiu-se a fazer o arroz-e-feijão de sempre. Largou da sétima posição, passou Button na primeira curva e sustentou-se à frente até ser ultrapassado pelo inglês cinco voltas depois. Após isso, só correu para chegar em sétimo.

JAIME ALGUERSUARI 7,5 – Assim como costuma acontecer com Button e Heidfeld, é difícil avaliar um sujeito que vai muitíssimo melhor na corrida do que na classificação. Teve problemas nos treinos livres e sobrou no Q1 do treino classificatório. Apostou em uma arriscada estratégia de apenas duas paradas e se deu muitíssimo bem na prova, ganhando posições a rodo. Terminou em um excelente oitavo lugar que o igualou ao seu companheiro de equipe na tabela do campeonato. Se não é gênio, pelo menos se esforça bastante.

ADRIAN SUTIL6,5 -A passos consideráveis, o alemão vem recuperando terreno em relação ao companheiro Di Resta. Sempre competitivo nos treinos, salvou-se por pouco no Q3 da classificação e optou por não participar da última sessão para economizar um jogo de pneus. Na corrida, passou Heidfeld na largada e esteve sempre entre os dez primeiros. Terminou colado em Alguersuari, mas não passou do nono lugar. Ainda assim, bom resultado.

NICK HEIDFELD5 – Caso raro de fim de semana melhor no sábado do que no domingo. No treino oficial, superou o companheiro de equipe e foi o único da Renault a ir para o Q3. Na corrida, largou mal, perdeu uma posição para Adrian Sutil e andou a maior parte do tempo em décimo. Chamou a atenção apenas em uma boa ultrapassagem sobre Pérez, mas não conseguiu mais do que um único ponto no final.

SERGIO PÉREZ4,5 – Resultado bom para alguém que não conseguiu correr em Montreal e que chegou a sofrer de tonturas na sexta-feira. Largou em 16º, apostou em uma estratégia de apenas uma parada e ganhou algumas posições na corrida, embora tenha sofrido com problemas nos pneus. Faltou apenas mais uma posição para marcar um pontinho.

RUBENS BARRICHELLO4 – Sem poder contar com abandonos, acabou ficando lá no meio da turma sem qualquer bom horizonte. Largou em 13º e terminou em 12º após uma corrida sem grandes emoções.

SÉBASTIEN BUEMI4,5 – Até tinha chances de fazer mais do que seu companheiro, mas não deu muita sorte. Largou da 17ª posição, ganhou três posições na primeira volta e chegou a sonhar com pontos. No entanto, sua estratégia de três paradas não lhe deu qualquer diferencial que o permitisse dar o pulo do gato. Fim de semana inútil, que só serviu para aumentar a moral de seu companheiro.

PAUL DI RESTA5 – Começou prejudicado seu fim de semana, já que o reserva Nico Hülkenberg danificou seu carro em um acidente na sexta-feira. No sábado, ainda foi razoavelmente bem e fez o 12º lugar no grid. Na corrida, apesar de ter feito algumas ultrapassagens, teve problemas com a estratégia e acabou ficando de fora dos pontos.

VITALY PETROV2,5 – Fez sua pior corrida desde há muito tempo. Seu único bom momento foi ter ficado em segundo em um dos treinos livres. No treino classificatório, sobrou no Q2 pela primeira vez no ano. Na corrida, largou pessimamente mal e não conseguiu se recuperar em momento algum. De quebra, ainda foi tocado pela Mercedes de Schumacher e acabou passando por sobre o bico do carro do alemão.

KAMUI KOBAYASHI3 – Nem ele conseguiu chamar a atenção. No treino oficial, fez o 14º tempo. Na corrida, confiando na boa capacidade de poupar pneus do seu Sauber, decidiu apostar em apenas duas paradas para ver no que dava. Como teve de poupar pneus, não conseguiu manter um bom ritmo e acabou terminando lá atrás. Deve ter sido, talvez, sua corrida mais fraca na Fórmula 1.

MICHAEL SCHUMACHER2 – Sem maiores problemas, provavelmente terminaria em oitavo. Em termos de ritmo, ele está cada vez mais próximo do companheiro Nico Rosberg. Falta-lhe, no entanto, a tocada mais conservadora que vem ajudando o alemão mais jovem. Após fazer sua primeira parada, Michael acabou tocando o Renault de Petrov e teve de voltar aos pits para colocar um bico novo. Com isso, caiu para a 22ª posição e só lhe restou passar carros mais lentos para terminar em um insignificante 17º lugar.

PASTOR MALDONADO 1,5 – Fora a turma das nanicas, é o piloto que mais se ferra no grid. Mesmo sendo um especialista em pistas de rua, o venezuelano não fez nada em Valência. Saiu da 15ª posição do grid, teve problemas de câmbio no Q2, largou mal na corrida e passou boa parte do tempo misturado entre Lotus, Virgin e Hispania. No fim, ficou à frente deles, o que não deixa de ser obrigação. Foi o único piloto das equipes antigas a ser ultrapassado por Schumacher. Precisa urgentemente de sorte – e de velocidade.

HEIKKI KOVALAINEN4 – Na segunda divisão da categoria, como ocorre na maioria das vezes, foi o que se deu melhor. Mesmo parando três vezes, conseguiu ficar à frente dos adversários diretos e se sentiu satisfeito com sua corrida e com o carro esverdeado. Resultado bom para alguém que foi atropelado por Mark Webber na edição do ano passado.

JARNO TRULLI3,5 – Apesar de deprimido, ainda faz um trabalho honesto. Apesar de raramente bater Kovalainen, também nunca ficou muito atrás do companheiro nórdico. Na corrida, chegou a ficar à frente de Maldonado durante algumas voltas. No fim, terminou em sua posição típica: atrás do companheiro e à frente de Virgin e Hispania.

TIMO GLOCK4,5 – Até me arrisco a dizer que fez mais do que o carro permitia, sendo o piloto que mais me chamou a atenção lá no fundão. No treino oficial, mesmo dirigindo um mobilete avermelhado, ficou a apenas três décimos do Lotus de Trulli. Na corrida, fez uma excelente largada e chegou a andar em 18º. Depois, acabou sendo deixado para trás pela Lotus, mas ainda ficou à frente do companheiro. Para alguém em sua situação, bom fim de semana.

JERÔME D’AMBROSIO2,5 – Mal no treino oficial, ficou a mais de um segundo de Timo Glock e chegou a ficar atrás de uma Hispania. Na corrida, conseguiu se recuperar e deixou Liuzzi para trás. Ainda assim, só se arrastou até a bandeirada e não fez nada de mais.

VITANTONIO LIUZZI 4 – Sujeito esforçado. No sábado, chegou a largar à frente de D’Ambrosio. No domingo, fez uma boa largada e chegou a ultrapassar o Williams de Maldonado. Depois, sucumbiu à ruindade de seu carro. Pelo menos, surrou seu colega de equipe.

NARAIN KARTHIKEYAN2 – Além de ter sido o primeiro piloto de seu país a correr na Fórmula 1, é o primeiro piloto da história da categoria a cruzar a linha de chegada em 24º. O duvidoso privilégio foi obtido após ficar a mais de um segundo do penúltimo colocado no treino oficial e não conseguir um mínimo de desempenho durante a corrida.

GP DA EUROPA: Muito antes dos burocratas do Velho Continente se unirem em algo chamado União Europeia, a Fórmula 1 já reservava um espaço para uma corrida disputada em um circuito europeu aleatório qualquer que pudesse substituir uma eventual prova cancelada. Esta corrida já foi disputada em Brands Hatch, Jerez, Donington Park e Nürburgring antes de ganhar uma sede definitiva, a cidade portuária de Valência. Muita gente não gosta deste circuito, por ser travado, feio e criado pelo mal-amado Hermann Tilke. Eu gosto, por lembrar Long Beach lá de longe. Além do mais, convenhamos, uma região portuária de uma velha cidade europeia é sempre muito mais simpática do que aquelas cidades de mentira do Oriente Médio.

DIFUSOR SOPRADO: Taí um negócio que já ganhou inúmeras denominações: difusor aquecido, difusor soprado, ignição tardia e por aí vai. Pelo que minha limitada compreensão captou, trata-se de um sistema que espirra um pouco de gasolina para o motor de modo a mantê-lo acelerado no momento em que o piloto tira o pé do acelerador. Este sistema permitia que o motor funcionasse a quase 90% quando o acelerador é “desligado” – é um punta-taco eletrônico, por assim dizer. Bacana, assim como boa parte das inovações sutis dos últimos anos. Mas a FIA, sempre ela, pisa em cima da meritocracia e anuncia o fim do tal difusor para Silverstone. Houve, no entanto, quem quis adiantar o banimento para Valência. E a distinta Federação, desta maneira, segue matando o pouco que resta de criatividade e ousadia na outrora gloriosa Fórmula 1.

BUTTON: É o cara, ainda mais depois de vencer de maneira primorosa o Grande Prêmio do Canadá. Recentemente, o jornal Marca até andou sugerindo que a Ferrari poderia colocá-lo no lugar de Felipe Massa em 2012 – algo veementemente rechaçado pelos italianos hoje mesmo. De qualquer maneira, Jenson é um cara que consegue ser uma quase unanimidade: é veloz, inteligente, simpático, tem cara de artista e uma namorada fora de série. No Censo, que terá resultados publicados semana que vem, ele foi um dos mais citados. É o cara.

SILLY SEASON: Para quem escreve sobre Fórmula 1, a silly season é um dos períodos mais aguardados. Afinal, é aquela época na qual podemos divergir sobre quem vai para aonde, podendo apostar nas possibilidades mais esdrúxulas e torcer por fulano ali, sicrano acolá e beltrano na puta que o pariu. Mas até agora, muito pouco foi falado sobre o ano que vem. Não há boatos, não há equipe querendo entrar, não há piloto com medo do desemprego, não há mafioso russo querendo comprar equipe pequena, não há gente devendo até as calças, não há nada além de silêncio e bolas de feno voando. Lembre-se: estamos entrando em julho. Já está mais do que na hora da boataria começar.

PIETSCH: Sem grandes assuntos, comento sobre a notícia mais importante dos últimos tempos: o alemão Paul Pietsch, o piloto de Fórmula 1 mais antigo entre os que ainda vivem, completou 100 anos hoje, sendo o primeiro ex-piloto a fazê-lo. Curiosamente, Pietsch já foi citado por cima em um post meu, quando falei sobre o circuito de Nordschleife. O cara é tão antigo que seu primeiro Grand Prix foi o da Alemanha em 1932! Naquela corrida, disputada no mesmo Nordschleife, Pietsch abandonou ainda na primeira volta, com o radiador de seu Bugatti furado. Correram contra ele gente como Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola, Louis Chiron e René Dreyfus. E, em pleno 2011, Pietsch está aí, lúcido e saudável. Pode parecer bizarro falar isso, mas que venham mais anos para Paul Pietsch!

BANDEIRA VERDE: Normalmente, eu só comento sobre cinco assuntos aleatórios. No entanto, uso esse espaço para dizer que esta semana está uma correria dos infernos para mim e que não teremos post na quarta-feira. Farei, sim, a continuação do Censo, dessa vez com outra pergunta. Não me deixem só. Ainda.

Homestead, 2008

Indianápolis, 2008

Chicagoland, 2008

Milwaukee, 2009

Iowa, 2009

O Forix contabiliza catorze só em corridas. É evidente, no entanto, que o número é muito maior – no início do ano, a média chegou ao absurdo de dois por fim de semana. Falo, é claro, dos acidentes do venezuelano Ernesto Viso, EJ para os americanos que acham “Ernesto” impronunciável.

Ontem, durante a Milwaukee 225, “o venezuelano muito louco” (por Tony Kanaan) bateu novamente. Destruiu a traseira de seu belo Dallara-Honda em uma das curvas do pequeno oval do estado de Wisconsin na volta 165. Como de costume, saiu incólume. Como de costume, sobrou para o patrão Jimmy Vasser arcar com os prejuízos.

Já chega, né? Desde 2008, o pupilo de Hugo Chavez vem destruindo inúmeros carros nos mais variados muros e guard-rails da categoria. Não há preconceito com tipo de pista: até onde eu sei, Viso já se acidentou nos ovais de Indianápolis, Milwaukee, Kansas, Homestead, Texas, Iowa e Chicago e nos mistos de São Paulo, St. Petersburg, Barber, Long Beach, Toronto, Infineon, Mid-Ohio, Watkins Glen e Detroit. Um calendário inteiro, praticamente. Em alguns circuitos, ele chega a repetir o feito em três ocasiões, como em Indianápolis, onde os muros sentiram sua incômoda presença em 2008, 2010 e 2011.

Nos dias atuais, todo mundo busca um motivo para reclamar da segurança, seja apontando o dedo para as eventuais estripulias malucas de Lewis Hamilton, para as corridas chuvosas ou para alguns circuitos mais velozes. No entanto, o sujeito pode sair por aí se acidentando feito um kamikaze e colocando a vida de outros pilotos em risco. Isto, sim, deveria ser considerado pelos outros. A começar pelos comissários de pista.

E pensar que a Indy defenestrou sem dó a bela compatriota de Viso, Milka Duno, simplesmente por ser lenta demais. Pois é melhor uma moça que se arrasta a cinco segundos da pole do que um marmanjo que sempre termina esfolando um muro por aí.

Indianapolis, 2010

Watkins Glen, 2010

Long Beach, 2011

São Paulo, 2011

Indianapolis, 2011

Milwaukee, 2011

Pedro de la Rosa em Montreal: um eterno tapa-buracos

Pedro de la Rosa almoçava com, sei lá, dois colegas da McLaren. Comiam uma macarronada insossa com ralo molho sugo e sem queijo ralado, do jeito que os nutricionistas dos pilotos costumam recomendar. Não é o melhor macarrão do mundo. Sabe como é, ingleses são infelizes na cozinha, só servem para fazer bolos e chás. Melhor seria almoçar no motorhome da Ferrari. A italianada que é feliz. O tagliatelle deles, regado a poderoso vinho tinto, é de se comer levando chibatadas. Voltando.

Pedro de la Rosa almoçava com seus colegas da McLaren quando uma balzaquiana de cabelos pretos e indumentária branca surge no motorhome. É Monisha Kaltenborn, diretora de gestão da Sauber. O que faz aqui, Monisha? Está com fome? Senta aí, mas a macarronada da Ferrari é melhor. Mas a quase quarentona não queria comer. Sua apreensão era enorme.

– Pedro, você está pronto? É provável que você tenha de assumir o carro.

– O que aconteceu?

– O Sergio está cheio de frescura, passou mal depois de pilotar e pediu para não voltar à pista.

De la Rosa olha no relógio. São 13h50. O segundo treino livre do Grande Prêmio do Canadá começaria em dez minutos.

– Mas faltam apenas dez minutos para o treino!

– Não tem problema.

Tirando algumas intervenções minhas, tudo o que foi descrito aí realmente aconteceu. Pedro de la Rosa foi chamado para correr no lugar do mexicano Sergio Pérez enquanto almoçava. Como os senhores sabem, Pérez sofreu um acidente feio no treino classificatório do Grande Prêmio de Mônaco e acabou tendo uma pequena concussão cerebral. No fim de semana canadiano, ele chegou a fazer um treino livre, mas não se sentiu bem e pediu para ir para casa. No lugar, o velho espanhol.

Pedro pegou capacete, macacão e balaclava da McLaren, correu para os boxes da Sauber e entrou no carro de qualquer jeito. Os pedais sequer foram ajustados para o veterano catalão e foi instalado o banco utilizado pelo próprio no ano passado. E ele entrou na pista faltando 22 minutos para o fim da sessão. Deu 14 voltas e fez o 18º tempo.

De la Rosa em seu eterno cargo de piloto de testes da McLaren

Depois, Pedro fez o 17º tempo na classificação e andou direito na corrida, terminando em 12º. Para uma Sauber que parece ter acertado a mão no carro desta temporada e que marcou pontos em todas as corridas até aqui (desconsiderando a desclassificação australiana), o resultado pareceu meio inútil. Para De la Rosa, por outro lado, o resultado foi… igualmente inútil.

Pedro de la Rosa tem 40 anos. Ao lado de Michael Schumacher, é um dos dois quarentões que correram em Montreal. As semelhanças, no entanto, terminam aí. Schumacher dispensa maiores comentários: é heptacampeão mundial, bilionário e todo cheio da marra e da moral. De la Rosa é praticamente o oposto disso, de carreira discretíssima e irregular na Fórmula 1. Contabiliza 85 corridas, 35 pontos e um pódio, obtido no Grande Prêmio da Hungria de 2006 com um McLaren. Schumacher voltou à Fórmula 1 com tapete vermelho, altas expectativas e enorme aprovação popular. De la Rosa entrou basicamente pela porta dos fundos.

É difícil entender o que motiva um piloto como Pedro de la Rosa a se sujeitar a esse papel de eterno piloto de testes e eventual tapa-buracos. Após ser demitido da Sauber antes do fim da temporada passada, ele retornou à McLaren, equipe que o abrigou como piloto de testes entre 2003 e 2009, para não fazer merda alguma. Na teoria, ele é piloto de testes e terceiro piloto. O que isso significa na prática?

Nada. O cargo de piloto de testes é dividido com o britânico Gary Paffett. Este, todavia, se mantém na ativa pilotando um Mercedes Classe C na DTM. Como o número de testes é limitadíssimo, nenhum dos dois conseguiu pilotar um McLaren neste ano. Resta a eles experimentarem o MP4/26 em simuladores. É como se você fosse pago para ficar brincando de rFactor. É divertido em um primeiro momento, mas enche o saco com o passar do tempo.

Ser piloto reserva da McLaren tem a vantagem óbvia de permitir que você seja o dono do brinquedo no caso de Lewis Hamilton ser preso ou Jenson Button ficar com diarreia. Mas qual é a possibilidade dessas coisas acontecerem? A não ser que você pertença à equipe de um Mark Webber ou de um Robert Kubica da vida, não há grandes chances de você tomar o lugar de um titular. A espera pode ser inócua.

Alexander Wurz: caso de piloto de testes que acabou decidindo pela vida fora da Fórmula 1

Não tenho nada a ver com isso, é claro, mas é visível que De la Rosa ainda insiste na Fórmula 1 pelo conformismo, pela preguiça e pela segurança de ser remunerado e manter contato com o paddock da categoria sem fazer nada. É claro que muitos, e isso certamente me inclui, adorariam estar na sua condição. Mas para um sujeito que tem uma carreira de quase vinte anos e que já passou por muita coisa até chegar à Fórmula 1, será que não há outros horizontes?

Vejo outros exemplos. Após ser demitido da Benetton no final de 2000, o austríaco Alexander Wurz assinou com a McLaren para testar os carros prateados da equipe. Eram outros tempos. O cargo de piloto de testes da equipe, historicamente, parecia promissor, uma vez que Olivier Panis havia conseguido voltar às corridas após apenas um ano testando suspensões e motores por lá. Além disso, os testes eram totalmente liberados e a McLaren torrava fortunas com eles. Wurz fez sei lá quantos testes entre o fim de 2000 e o fim de 2005. Corrida, ele só fez uma, o Grande Prêmio de San Marino de 2005, substituindo Juan Pablo Montoya. Terminou em terceiro.

Apesar do bom salário e do emprego sossegado, Wurz queria voltar a competir. Mas ficava claro que a McLaren não estava lá muito disposta a promovê-lo a titular. Então, ele decidiu ir para a Williams no início de 2006. O contrato era bem melhor: um ano de testes e outro como titular. E foi exatamente assim: Alexander testou exaustivamente em 2006 e correu como titular em 2007. Infelizmente para ele, a força financeira da Toyota falou mais alto e Kazuki Nakajima entrou em seu lugar a partir da última etapa daquele ano.

Obstinado, Wurz foi para a Honda em 2008 ainda sonhando com a titularidade. Mas a equipe japonesa era um enorme barco furado e fechou as portas no final do ano. E o que ele fez? Desistiu de vez dessa ideia de Fórmula 1 e foi embora. Assinou com a Peugeot para correr na Le Mans Series e, logo de cara, ganhou as 24 Horas de Le Mans. Hoje em dia, ele é um dos pilotos de ponta da categoria. Além de se divertir correndo e de ganhar uma boa grana, ele vence corridas.

Wurz, para mim, é o melhor exemplo de como esse negócio de só pensar em Fórmula 1 nem sempre dá certo. Um caso no outro extremo é o de Luca Badoer. O italiano, que só se arrastava com carros péssimos, decidiu largar essa vida cruel de backmarker e assinou com a Ferrari para testar carros em 1998. Tirando uma temporada feita como titular da Minardi, Badoer permaneceu como histórico piloto de testes até 2009. Neste último ano, ele foi chamado para fazer duas corridas em substituição a Felipe Massa, convalescente. Passou vergonha e deu lugar a Giancarlo Fisichella.

Luca Badoer, um piloto de testes convicto

A diferença entre Badoer e Wurz ou De la Rosa é que ele sabia que dificilmente faria uma corrida como titular da Ferrari. Se fosse para substituir alguém, seria melhor chamar o Jô Soares ou o Silvio Berlusconi. Na verdade, suas duas corridas em 2009 foram mais um presente da equipe italiana do que algo exatamente sério. Luca era basicamente o único piloto de testes convicto entre todos. Algo como Dario Benuzzi, um sujeito que nunca havia feito uma única corrida na vida, mas que testava os carros de Fórmula 1 da Ferrari nos anos 80.

Entre Wurz e Badoer, De la Rosa parece estar em um incômodo meio do caminho. Por um lado, o espanhol parece estar feliz por ser um aspone da McLaren. Por outro, por algumas declarações dadas há algum tempo, fica claro que ele ainda sonha com a titularidade. Em 2008, ele declarou que o ano seguinte seria o último no qual ele buscaria uma vaga de piloto de corridas na Fórmula 1. Se ela não viesse, ele se aposentaria em 2010. Para sua sorte, a Sauber o contratou e sua carreira pôde ter continuidade.

De la Rosa pode não ter sido um gênio em sua carreira na Fórmula 1, mas também está muito longe de ser um piloto patético. É inteligente, técnico e a McLaren o adora. Além disso, é um sujeito bastante afável e gente boa. Sinceramente, não sei o que ele ganha fazendo o que faz. Sua corrida canadense não serviu em nada para seu currículo. Ter terminado em 12º, 18º ou abandonado em um acidente com Jerôme d’Ambrosio não mudaria absolutamente nada. Não será um fim de semana que o fará um piloto melhor ou pior.

Para gente como ele, recomendaria o caminho tomado por Alexander Wurz. Larga essa vida de vaso de planta e vá utilizar sua experiência em qualquer outra categoria de ponta, como a Le Mans Series ou a DTM. Ao invés de ser ridicularizado por um punhado de torcedores mequetrefes, você virará rei em um campeonato divertido e fará uma boa grana. Enfim, pra que insistir na Fórmula 1 nessa altura da vida? Não é o único lugar do mundo para alguém que pilota carros.

É óbvio que eu escrevi tudo isso porque, no fundo, quero tomar seu emprego de aspone na McLaren.

Perdoem-me a foto, mas ESTE homem pode sentir medo de qualquer coisa relacionada a corrida de carro...

Não, não tem notas hoje. Não vi a corrida. Juro que tentei.

Veja como são as coisas. Na quinta-feira, a lenda inglesa Stirling Moss, 81 anos inegavelmente bem vividos, anunciou que estava finalmente se aposentando do automobilismo. Após seis décadas de relevantíssima carreira, Moss decidiu que finalmente era hora de parar de descansar um pouco.

A decisão foi tomada após o treino classificatório da Le Mans Legends, preliminar das 24 Horas de Le Mans disputada por carros antigos que fizeram história na corrida maior. Stirling pilotava um Porsche RS61 de 1961, carro utilizado pelo próprio nas 24 Horas daquele ano. “Eu sempre disse que se não tivesse condições de continuar competindo ou se estivesse atrapalhando outros competidores, me aposentaria. Nesta tarde, senti medo pela primeira vez. Eu amo corridas, mas é hora de parar”, disse aquele que obteve o vice-campeonato de Fórmula 1 em quatro ocasiões nos anos 50.

Três dias depois, tivemos um Grande Prêmio do Canadá estranhíssimo. Quando tivemos corrida, foi tudo divertido, embora eu só tenha visto as 25 voltas anteriores à bandeira vermelha e o pedaço final do compacto transmitido pela SporTV. Jenson Button e Michael Schumacher justificaram seus salários e títulos mundiais realizando duas das melhores atuações dos últimos anos. O alemão, em especial, mostrou aquilo que muitos críticos cegos seus sempre exigiram: arrojo e ultrapassagens. Até aí, tudo bem. Esta foi a parte positiva da corrida.

A negativa esteve ali para todos verem. Ou melhor, a uma parcela, já que muitos não se incomodaram, como sempre. Devido à chuva, não houve largada parada e as voltas 20 e 25 foram realizadas sob bandeira amarela, tudo isso antes da bandeira vermelha, que durou inaceitáveis duas horas e quatro minutos. Após a bandeira vermelha, os carros fizeram mais nove voltas antes da bandeira verde. E olha que nem considerei até aqui as três bandeiras amarelas causadas por acidentes (Lewis Hamilton, Fernando Alonso e Nick Heidfeld). No total, 32 voltas foram realizadas atrás do safety-car, nada menos que 45% do total de 70 voltas.

Duas horas e quatro minutos. Tempo em que milhões de telespectadores, como este aqui, ficaram como otários esperando pelo reinício de uma corrida que prometia um bocado. Tempo em que dezenas de milhares de espectadores tomaram chuva e vento na cara esperando pelo mesmo reinício. Tempo em que emissoras de TV e rádio se borraram com a possibilidade de prejudicar suas programações. Respeito quem tem tempo e paciência para ficar esperando pelo nada. Eu não tenho.

Esse negócio de chuva na Fórmula 1 está se tornando, pouco a pouco, um tabu. Nos últimos quatro anos, tivemos três corridas interrompidas por questões meteorológicas (Europa/2007, Malásia/2009 e Bélgica/2010) e duas adiadas até o talo pelos mesmos motivos (Japão/2007 e Coréia/2010). Ou seja, cinco corridas recentes cujas dinâmicas foram bastante prejudicadas. Não muito antes disso, as coisas eram ligeiramente diferentes.

... mas ele ama o automobilismo e só sentiu medo, pela primeira vez, na semana passada. Impressionante

Até 2008, em termos relativos, poucas corridas foram interrompidas ou adiadas exclusivamente pela chuva. De cabeça, lembro-me que Austrália/1991 foi encerrada prematuramente, Bélgica/1989 e Austrália/1989 foram adiadas em vários minutos, Japão/1994, Bélgica/1997, Bélgica/1998, Bélgica/2000, Brasil/2003 e Brasil/2004 foram iniciadas atrás do safety-car e França/1999 e Malásia/2001 foram interrompidos com a entrada do safety-car. Algumas ocorrências não foram colocadas, já que as interrupções se deram por acidentes. Convenhamos que um panorama de onze corridas prejudicadas em vinte anos e outro de cinco corridas em quatro anos soam razoavelmente diferentes para uma pessoa com conhecimentos matemáticos típicos.

Vamos lá: o automobilismo de um modo geral, e a Fórmula 1 em particular, estão se tornando cada vez mais intolerantes com a chuva. Correr em pista molhada está sendo visto como algo muito “perigoso” e “inadequado”. Chuva forte é bom para ficar em casa comendo pipoca e vendo Sessão da Tarde, nunca para correr. O problema maior é que os burocratas do automobilismo não são muito hábeis em dosar uma atitude com relação a isso.

Em Montreal, ficou claro que a paranoia se instalou de vez quando a bandeira amarela foi acionada na primeira volta em que houve chuva forte. E mais claro ainda quando a relargada só foi autorizada, após duas horas de espera e mais nove voltas atrás do carro de segurança, quando já havia um trilho visível na pista. Dá para dizer tranquilamente que a Fórmula 1 só correu quando a pista esteve, no máximo, úmida. Aquele spray só aparecia em determinadas curvas e quando um piloto seguia fora da linha para tentar ultrapassagem ou ceder passagem.

Muitos alegaram que a pista estava intransitável e a água era extremamente abundante. Eu percebi isso, não sou cego desde minha cirurgia que corrigiu minha miopia. Correr na chuva, de fato, é meio caminho andado rumo a um acidente. Medroso que sou, recuso-me a dirigir quando chove forte. Mas aí hás umas diferenças. Fundamentais, aliás.

O automobilismo surgiu no início do século XIX como uma daquelas atividades que testam capacidades físicas e psicológicas de um ser humano de maneira exaustiva. Barões desocupados e mecânicos obstinados entravam em carros ridiculamente inseguros que chegavam a 70 ou 80km/h para competir em estradas e pistas de terra mundo afora. Cinto de segurança, capacete e santantônio não existiam. KERS e macacão de nomex pareciam coisas de ficção científica no melhor estilo Orson Welles trollando em um rádio. Uma batida a 80km/h em um poste ou um muro acabava com tudo, principalmente com o condutor. Enfim, correr de carro era coisa de maluco. Mais: de idiota.

Mas o povão gostava. Multidões se reuniam às margens das pistas observando os destemidos pilotos manejando volantes com destreza jamais imaginada por um condutor de carroças ou cavalos. Mortes aconteciam, mas faziam parte do jogo. Esportes perigosos eram dos mais atraentes, talvez remetendo aos tempos em que lunáticos se lançavam aos mares buscando novas terras ou povos inteiros se digladiavam tendo como prêmio maior uma vila, alguns montes de riqueza ou pura honra.

Hoje em dia, tome safety-car!

Resumindo: o automobilismo sempre fascinou pelo perigo. Este, por sua vez, incluía correr tendo de lidar com as condições mais complicadas e extremas possíveis, como o frio, o calor, a mudança de pisos, a possibilidade de problemas… e, é claro, a chuva. Garanto que a maioria dos fãs bem antigos, aqueles que acompanhavam as corridas in loco, gostava de ver o sujeito arriscando o pescoço em um sobressalto de uma pista de rali, em um circuito veloz a bordo de um monoposto ou em uma corrida noturna de longa duração a bordo de um protótipo. O vencedor não deveria mostrar apenas velocidade e perícia. Coragem e destemor eram pré-requisitos.

Por isso que me enoja ver essa choradeira com relação à chuva. A Fórmula 1 já competiu em condições climáticas muito terríveis, como em Japão/1976 e Bélgica/1998. Já permitiu que uma chuva pegasse de surpresa pilotos que corriam tranquilamente com pneus de pista seca, como Alemanha/2000 e Inglaterra/2002. Já permitiu largadas paradas nessas condições, como Austrália/1989 e Brasil/1996. Curiosamente, todas estas corridas foram memoráveis. Curiosamente, ninguém morreu nestas ocasiões. As últimas mortes da Fórmula 1 aconteceram em pista sequinha como batata frita Ruffles.

A chuva canadense pode até ter sido forte em alguns instantes, mas qual é a necessidade de interromper a prova logo na primeira volta em que ela aparece? E qual é a necessidade de, após duas horas de bandeira vermelha, dar mais nove voltas atrás do safety-car antes de liberar a festa? Tudo pela necessidade do maldito “trilho”? A hidrofobia chegou a níveis patéticos. No ano passado, outra corrida que tinha tudo para ser memorável foi interrompida de maneira covarde e vergonhosa, a de Spa-Francorchamps. A água não era exatamente pouca, mas poderia ter sido perfeitamente enfrentada com pneus para pista molhada.

E os pilotos reclamam pra caramba. No passado, o tetracampeão Alain Prost também reclamava pra caramba toda vez que chovia, chegando a ameaçar não largar mais em corridas com chuva após fracassar no GP da Bélgica de 1989. O tricampeão Niki Lauda se recusou a correr no dilúvio do GP do Japão de 1976, perdendo o título para James Hunt nesta prova. Seus casos são, no entanto, explicáveis. Prost se traumatizou após ser envolvido no acidente que quase matou Didier Pironi em um treino do GP da Alemanha de 1982, realizado sob muita chuva. E Lauda ainda estava se recuperando do acidente sofrido em Nürburgring meses antes. Além disso, a segurança nos dias de Prost e Lauda ainda estava longe da perfeição.

Hoje, não. Felizmente, a Fórmula 1 se orgulha de não ter mortes há dezessete anos. Os carros são construídos em fibra de carbono, material extremamente seguro e resistente. O habitáculo de sobrevivência quase sempre fica intacto mesmo após uma batida violenta. Os pilotos dispõem de cinto de segurança de cinco pontos, HANS, santantônio altamente resistente, capacete de fibra de carbono, macacão e balaclava antichamas, além de rádio para encher o saco de engenheiros e comissários. Além disso, cada autódromo costuma possuir dois helicópteros, um centro médico equipado com UTI e um batalhão de médicos e enfermeiros prontos para qualquer eventualidade. Os fiscais de pista não costumam demorar mais que um minuto para se aproximar do acidentado e prestar os primeiros socorros. E as pistas mais modernas, com suas áreas de escape asfaltadas e infinitas, dispensam apresentações.

Quer dizer, mesmo correndo a 300km/h, um piloto está em posição extremamente segura. Como andei falando em um Top Cinq, dirigindo seu 1.0 chocho tranquilamente em uma rodovia sob solzão, você tem infinitas chances a mais de morrer preso nas ferragens do que o Liuzzi descontrolado a 300km/h na pista molhada de Montreal. Neste mesmo Top Cinq, comentei sobre como um piloto poderia morrer nos dias atuais. A maioria das possibilidades dizia respeito ao imponderável. Quer dizer, a morte sempre estará presente em um esporte desses. Na Fórmula 1 de hoje, ela só acontecerá sob muito azar. Faça chuva ou faça sol.

Montreal, ontem. Duas horas e quatro minutos de espera. É...

E vou deixar o politicamente correto de lado. Ao contrário de muitos de vocês, não vejo nada de absurdo em alguém morrer no automobilismo. Em tempos nos quais vivemos sob a ditadura das feministas que exigem que os homens abram a porta dos carros, das sequoias, dos roqueiros felizes e das atitudes rebeldes de condomínio paulista, uma fatalidade em uma corrida soa como a coisa mais absurda do planeta. Parem o circo sanguinário!, como disse um jornal italiano após a morte do Senna. Vamos acabar com a Curva do Café em Interlagos!

O que fazem com o perigo do automobilismo é exatamente o mesmo que fazem com o cigarro, as lutas de boxe, o álcool ou o churrasco:  a condenação implícita feita por aqueles que costumam se portar como os paladinos da moral. Corrida na chuva, segundo o senso comum, é perigoso, pode machucar. Pois eu não ligo. Se o cara se dispõe a praticar um esporte idiota (e muito) como o automobilismo – e se, para isso, ganha em um ano o que eu não vou ganhar em três vidas -, ele que arque com as más possibilidades. E que se danem as velhinhas e os hippies.

Por fim, um piloto que se recusa a correr na chuva, ou mesmo aquele que sempre vai reclamar com o papai comissário toda vez que leva um toque, desrespeita o automobilismo antigo. Desrespeita um Giuseppe Farina, conhecido pela ferocidade com a qual tratava o automobilismo e seus adversários. Desrespeita um Bernd Rosemeyer, que buscava sempre quebrar recordes mundiais de velocidade a bordo de um inseguro Auto Union. Desrespeita um Pierre Levegh, que arriscou a vida pela tentativa alucinada de vencer as 24 Horas de Le Mans sozinho. Desrespeita um Juan Manuel Fangio, que arriscou percorrer as curvas de Nordschleife sempre uma marcha acima dos adversários. Desrespeita Stirling Moss.

Stirling Moss, sim, tem a moral e o direito de sentir medo. Em 1962, ele perdeu o controle de seu Lotus enquanto disputava uma corrida em Goodwood, escapou da pista e seguiu barranco abaixo. O inglês ficou preso nas ferragens de seu carro e foi retirado por alguns espectadores desacordado e todo ensanguentado. Ficou 38 dias em coma no hospital Atkinson Morley, em Londres. Quando acordou, se deu conta que mal conseguia falar e que o lado esquerdo do seu corpo estava totalmente paralisado.

Após longo e doloroso período de tratamento, Moss se viu totalmente recuperado no ano seguinte. Voltou a Goodwood, pegou um carro de corrida, andou por lá durante hora e meia, desceu e sentenciou “estou me aposentando”. Mesmo assim, Stirling nunca ficou totalmente longe dos carros de corrida. Na semana passada, octogenário, estava disputando um treino classificatório com pilotos muito mais jovens que ele. Não havia sinal de medo.

Em seu período como piloto, além de quase ter morrido em Goodwood, Moss perdeu amigos e quebrou ossos em outros acidentes. Por outro lado, teve também vitórias memoráveis, duelos fantásticos e desafios superados. Hoje, em vida, é reconhecido como um dos grandes heróis do passado. Não só por ter vencido, mas por ter demonstrado enorme coragem durante toda a carreira. E por ter sobrevivido sem reclamar em um período infinitamente menos perigoso do que os dias hidrofóbicos atuais.

Striling Moss merece todas as minhas palmas e a minha admiração eterna. Porque piloto de verdade é não é aquele que transforma um desafio em uma reclamação, mas em uma meta a ser batida.

Superleague Formula com seleções: falta de rumo?

Automobilismo é algo legal, né? Algum tempo atrás, percebi que estava sendo um pouco crítico e exigente demais com as corridas. Estava mais preocupado em escrever dissertações de mestrado criticando os dirigentes, as equipes, os pilotos e tudo o mais, deixando de lado o lado lúdico da coisa. De uns tempos para cá, comecei a desenvolver meu lado zen. Pretendo falar menos coisas desagradáveis e contar mais histórias ou simplesmente dizer mais bobagens despretensiosas. Mas há momentos em que algumas coisas devem ser ditas.

Eu gosto de corridas, mas é preciso separar o joio do trigo. Corridas são divertidas quando têm um ótimo número de pilotos competentes protagonizando boas disputas em circuitos legais. Ultimamente, o número, as disputas e os circuitos legais não andam tão abundantes assim. Abundantes então, por outro lado, as categorias de monopostos disponíveis por aí. Como já andei dizendo antes, há campeonatos demais e qualidade de menos. E um dos que mais me intriga é essa tal de Superleague Formula, aquele em que os pilotos representam times de futebol.

Nesse fim de semana, foi realizada a primeira etapa da temporada 2011 da categoria, que entra em seu quarto ano de existência. Catorze pilotos se reuniram para disputar três corridas no tradicional circuito holandês de Assen. Na primeira, os locais Yelmer Buurman e Robert Doornbos herdaram a liderança do francês Tristan Gommendy, que teve problemas no acelerador, e brigaram duramente até haver um toque que complicou a vida de Doornbos. Sobrevivente, Buurman seguiu incólume até a bandeirada.

Na segunda, o mesmo Gommendy saiu na frente, mas teve problemas com pneus e deixou a liderança com John Martin. O australiano liderou por algum tempo, mas foi ultrapassado pelo inglês Duncan Tappy, que venceu. Na superfinal, Craig Dolby ultrapassou Martin, assumiu a liderança e venceu, com o manauara Antonio Pizzonia colado em sua traseira. Não vi nenhuma delas, até porque não tenho todo esse tempo disponível e minha operadora de TV paga faz o favor de cobrar pelo Bandsports, canal que vem exibindo esta temporada.

Li alguns comentários positivos sobre as corridas. De fato, elas parecem ter sido boas, como costuma acontecer com a categoria. Vi apenas uma corrida inteira, a primeira da história, realizada em Donington Park em meados de 2008. Chovia para caramba, uns caras rodavam e eu nem me lembro quem ganhou. Estava prestando atenção no carro do Corinthians, pilotado pelo espanhol Andy Soucek. Apesar da tempestade, a prova estava tão chata que preferi ficar vendo a Corrida do Milhão da Stock Car… No entanto, outras corridas muito melhores aconteceram. Saldo positivo, acho.

Primeira corrida da história da Superleague, em Donington/2008

Há outras coisas legais. Os pilotos, no geral, são aqueles sujeitos bons que foram completamente esquecidos pelas categorias maiores de monopostos e que precisam de um lugar para ganhar dinheiro e manter-se na ativa. O equipamento é um belo Panoz equipado com motor 4.2 de 12 cilindros e 750cv, algo único no automobilismo mundial de monopostos atualmente. A premiação em dinheiro é farta e o campeão leva um milhão de euros para casa, algo que não acontece sequer na Fórmula 1. E de quebra, o apelo futebolístico presente. Logo, a categoria deveria ser um sucesso danado, né?

Mas não é. Algo parece me cheirar mal nessa Superleague. Se o mundo é tão bonito assim lá no paddock da categoria, por que apenas catorze pilotos apareceram em Assen? Por que, até uma semana atrás, somente uns cinco ou seis pilotos estavam confirmados? Por que a categoria demorou tanto tempo para fazer os anúncios referentes a esta temporada? Por que os clubes foram embora e a organização teve de improvisar uma disputa entre “seleções”? Por que os fãs de futebol nunca demonstraram o menor interesse? Por que, apesar das qualidades e das boas corridas, ninguém a leva a sério?

A verdade é que a Superleague padece exatamente do mesmo mal da finada A1GP: categoria temática e pretensiosa que acreditava que sua ideia mirabolante, por si só, traria dividendos e atenções from all over the world. Para os peixes de memória curta, a A1GP era uma espécie de “Copa do Mundo do Automobilismo”, na qual cada carro representava um país e este carro seria pilotado apenas por pilotos do seu respectivo país (ou descendentes, regra estúpida criada para permitir que países sem tradição não ficassem sem piloto). Não era o Alexandre Premat que brigava com o Jonathan Summerton, mas sim a França e os EUA. A Superleague é igualzinha, com a diferença de que a briga é entre o PSV Eindhoven e o Todo Poderoso Timão.

Esse tipo de categoria costuma buscar um tipo de identificação diferenciada com os seus participantes. Ao invés de torcer para o piloto, você acaba torcendo para o carro pelo que ele representa. Na teoria, um torcedor do Flamengo não se importaria se é o Pizzonia, o Ho-Pin Tung ou o Otávio Mesquita quem está pilotando. Basta o carro rubro-negro chegar à frente para todo mundo ficar feliz. Só que há um problema: é um tipo de ideia muito difícil de ser aplicada, até porque quem está guiando o carro e levando as glórias e as porradas, no fim das contas, é o piloto.

Davide Rigon. Será que ele sabia exatamente o que era o Beijing Guoan, time que ele representou em 2008?

A Superleague foi a reedição de uma ideia criada há dez anos, quando empresários ingleses pretendiam criar a Premier 1 Grand Prix, categoria com a mesma temática futebolística. Havia uma diferença fundamental, no entanto: na Premier, para pilotar o carro de um determinado time, seria obrigatório que o piloto comprovasse sua torcida a este time. Logo, o Barrichello só poderia pilotar o carro do Timão e o Massa só poderia rodopiar na chuva a bordo do carro bambi. É algo que até poderia funcionar a contento, pois a identificação criada seria muito maior.

Quando li que o espanhol Andy Soucek seria o piloto corintiano da primeira rodada da Superleague em 2008, dei risada. Porra, o Soucek? Tudo bem, ele havia sido vice-campeão da World Series by Renault em 2006 e tinha experiência na GP2, mas qual é a identificação de um sujeito desses com um time de massas no Brasil como o SCCP? Naquele momento, eu concluí que esse negócio de time não passaria de esculhambação e perfumaria.

Como o Soucek fracassou, a equipe do Corinthians decidiu colocar o Antonio Pizzonia no seu lugar. Legal, ele é brasileiro, mas há um pequeno detalhe: Antonio é são-paulino e também se simpatiza com o pequeno São Raimundo, de sua cidade natal. Aí não dá. Bambi pilotando o carro alvinegro é patético. Ao mesmo tempo, ficava claro que os demais times empregavam pilotos que, provavelmente, nem sequer sabiam de sua existência. Ou será que o italiano Davide Rigon era torcedor de carteirinha do Beijing Guoan, seu primeiro time na categoria?

Mesmo que não pareça, este é um detalhe importantíssimo. Se o próprio piloto não possui uma mínima identificação com o time que representa, por que a torcida deveria se importar com a Superleague? Tudo bem que, no futebol de hoje, os jogadores também fazem isso, podendo beijar os emblemas do Corinthians e do Palmeiras em questão de meses. Mas para uma categoria automobilística que visava trazer toda uma rivalidade futebolística para as pistas, permitir esse tipo de coisa é um belo chute para fora.

Além dessa falta de identificação entre torcida, piloto e time, há também o problema entre time e categoria. Como se sabe, os clubes somente emprestam seus nomes, cores e emblemas para a categoria, que os repassam às equipes participantes. Em geral, esse tipo de coisa é resolvido diretamente entre o departamento de marketing do clube e a organização da Superleague. Em linhas gerais, o clube não tem qualquer ligação esportiva com a categoria. Essas corridas, para os times, não passam de pura ação de marketing. Como, por exemplo, emprestar sua imagem a um jogo de futebol.  O Panoz é um Pro Evolution Soccer ambulante.

A Superleague com seleções é a priminha mais nova da A1GP, falida há alguns anos

Então, se a Superleague Formula não anda funcionando para ligar os mundos futebolístico e automobilístico, para que ela existe? No fim das contas, virou mais uma categoria desconhecida com fim em si mesma. Seus pilotos sabem que ela representa uma espécie de limbo e só estão lá porque ainda não receberam oportunidade melhor. Na realidade, poucos dos que correm lá a utilizam como escada para categorias maiores. Com exceção do bicampeão Davide Rigon, quem mais pula da Superleague para uma GP2 ou World Series? Quais seriam as perspectivas de um John Martin, um Duncan Tappy ou um Craig Dolby, por exemplo?

Com o fracasso desse modelo clubístico, a organização decidiu unir o inútil ao agradável e declarou que este quarto ano, assim como acontece no futebol, representaria o ano da “Copa do Mundo” na Superleague. Para preencher o grid, foram criadas algumas equipes nacionais representando seleções. Reproduzindo a ideia da A1GP, a Superleague passou a ter “Team Brazil”, “Team New Zealand”, “Team China” e, meu Deus, “Team Luxembourg”. Fico confabulando aqui qual seria o critério de escolha desses países. O que é que a luxemburguesa tem?

Fica claro que a categoria está perdida entre casar, comprar uma bicicleta ou criar um gato siamês.  Essa conversa de “Copa do Mundo” é pra boi dormir, uma tentativa fuleira de ainda dar uma raison d’être à Superleague. Em primeiro lugar, no futebol, Nova Zelândia, China e Luxemburgo são tão relevantes quanto Turcomenistão ou Roraima. O único Luxemburgo relevante que eu conheço no futebol é o técnico, e olhe lá. Em segundo lugar, as tais “seleções” continuam ignorando qualquer identificação entre piloto e país. Duncan Tappy veste a camisa seis da seleção japonesa, o belga Frederich Vervisch é o artilheiro de Luxemburgo e o incansável Andy Soucek é o camisa 10 da seleção turca. Liedson, Kevin Kuranyi e Marcus Tanaka não fariam melhor.

Algo que deve ser considerado também é a fonte de recursos dessa brincadeira. Até o ano passado, quem colocava dinheiro na categoria era a Sonangol, uma petrolífera angolana que vem dando umas de mecenas nos últimos tempos. Nesse ano, não há um grande patrocinador, mas a premiação segue altíssima. Como isso funciona? O dinheiro vem do misterioso mundo do nada? Tem de investigar isso aí. Ultimamente, só tem doido e malandro investindo em esporte a motor. Espero, do fundo da minha alma, que a organização da Superleague seja composta por um bando de loucos. Até porque o cara tem de ser, no mínimo, bem louco para manter um negócio obscuro e sem propósitos como é essa categoria.

PS: Apesar do meu apelido e do meu desprezo ao futebol, eu “tenho” um time. Como deu pra perceber, é o Corinthians. E aí, Watanabe, vai chiar?

Dan Wheldon: vencedor da centésima Indy 500

Que me desculpem aqueles que apreciam a corrida de Mônaco pela careca do príncipe Rainier ou pelo boeuf au poivre do La Rascasse, mas Indianápolis é o verdadeiro templo do automobilismo mundial. Não por acaso, reservei bem mais espaço, palavras e metáforas imbecilizadas às 500 Milhas do que ao Grande Prêmio de Mônaco, que até representou bom aperitivo com azeitona em cima. Este domingo só serviu para comprovar o fato de que uma corrida em um superspeedway é melhor que uma no meio das apertadas ruas de uma cidade lotada de gente emergente.

Indianápolis é o último refúgio de um automobilismo feito à moda da primeira metade do século XXI. Um automobilismo que explora profundamente as nuances comerciais e marqueteiras nas quais os americanos são experts históricos sem deixar de lado a competitividade, o espírito esportivo e a liberdade, que também são especialidades históricas dos país. Onde mais uma banda pintaria um carro de rosa para promover um CD (Aerosmith e Jeff Ward em 2001) ao mesmo tempo em que uma equipe surge a partir da reunião de um punhado de amigos interessados em ajudar um piloto frustrado (Bettenhausen)? Mônaco nos oferece, no máximo, um David Coulthard envergonhado por ter de vestir uma capa do Superman no pódio.

O que me apetece mais, no entanto, é a democracia que marca a corrida. Esporte, pra mim, deve ser a maior manifestação de democracia e meritocracia dentre todas as atividades humanas. O cara que quiser participar participa, mas se não tiver um mínimo de capacidade e coragem, não sobrevive. Não é um punhado de burocratas que tornará um esporte melhor. É a isto que a cega, surda e muda FIA deveria se atentar. E é isso que as 500 Milhas, que andaram passando por maus bocados devido à maldita politicagem, está conseguindo recuperar. Menos cacique, mais índio.

Neste ano, foram 40 os índios, o maior número de inscritos desde 2002. Há, no entanto, uma diferença: em 2002, havia umas três ou quatro equipes que valiam a pena e o resto não passava de uma turma de farofeiros. Hélio Castroneves, Gil de Ferran, Paul Tracy e Sam Hornish Jr. dividiram espaço com zé-ruelas como Laurent Redon, Rick Treadway e George Mack. Neste ano, poucos entre os quarenta eram desconhecidos ou quarentões obesos. Havia quantidade e qualidade, tanto entre equipes quanto entre pilotos.

Nos últimos anos, as corridas na Indy vinham sendo dominadas por apenas duas equipes, as tradicionalíssimas Penske e Ganassi, com a Andretti catando alguns cacos eventualmente. Mas Indianápolis é um mundo diferente. Tão logo a bandeira verde foi acionada e os pilotos puderam cruzar o brickyard  a duzentas e tantas milhas por hora, ficou claro que Chip Ganassi e Roger Penske teria de trabalhar dobrado se quisessem vencer. Porque havia mais gente no páreo.

JR Hildebrand: inacreditável...

Em um primeiro momento, quem mandou ver foi o canadense Alex Tagliani, que liderou dois treinos livres e fez uma pole-position sensacional. A Sam Schmidt Motorsport, equipe que renasceu na Indy após a compra da FAZZT, acertou o carro de maneira impecável e terminou o Pole Day como a maior esperança de vitória para aqueles que queriam ver coisas diferentes. Ao mesmo tempo, a mídia dava espaço inédito ao seu curioso dono, um ex-piloto que havia perdido o movimento dos membros após um acidente no perigosíssimo oval da Disney enquanto fazia um treino na antiga Indy Racing League em 2000. Sam Schmidt, que criou sua equipe em 2001, vem dominando as últimas temporadas da Indy Lights, mas nunca conseguiu fazer nada de relevante na Indy “heavy”. Neste ano, finalmente conseguiu.

Mas não era só Tagliani o alvo. A turma da Ganassi e da Penske roía as unhas de preocupação com Oriol Servia e James Hinchcliffe (Newman-Haas), Townsend Bell (Sam Schmidt), Buddy Rice e JR Hildebrand (Panther), Dan Wheldon (Bryan Herta), Ed Carpenter (Sarah Fisher) e Bertrand Baguette (Rahal-Letterman with Lanigan), todos rendendo bem mais do que o esperado. Enquanto isso, equipes mais fortes ou mais estabelecidas como a KV, a Dreyer and Reinbold e, surpresa das surpresas, a Andretti sofriam para conseguir fazer o carro andar. Perder para um desses domingueiros não soaria bem. E Indianápolis é Indianápolis, um lugar onde Davi ainda pode derrubar Golias e comer sua mulher.

Serei honesto. Não vi a corrida toda, já que nunca tenho saco para acompanhar a primeira metade. Acompanhei as primeiras voltas, vi os acidentes dos dois palhaços da KV e depois desliguei a TV e fui almoçar com a família da minha namorada. Depois, lá pela volta 110, voltei com ela e acompanhamos até o fim. Não me crucifiquem por não ter visto tudo, pois: quase todas as 300 mil pessoas que lotam o Indianapolis Motor Speedway não conseguem acompanhar tudo. A Indy 500 é, acima de tudo, um dia de entretenimento para todos. Você vê os carros passando, abre uma lata de Budweiser, come um cachorro quente, conversa com o cara do lado, abre outra lata de Budweiser, vê um acidente, compra um hambúrguer, leva o filho para o parque do autódromo, abre outra Budweiser, volta, compra uma jaqueta da Penske, abre outra Budweiser, acompanha a competição de seios, abre outra Budweiser, vê mais um pouco da corrida, vai mijar e volta.

Portanto, não vou narrar a corrida aqui. Comento apenas sobre alguns personagens da peça.

Destaco, inicialmente, a Chip Ganassi. Mesmo que todo mundo estivesse torcendo pelo Alex Tagliani, era consenso geral que Scott Dixon ou Dario Franchitti sairia do autódromo como vencedores. O neozelandês Dixon, um dos meus pilotos preferidos na Indy, largava em segundo e era considerado o favorito franco para a vitória. Em algum momento, Tagliani, Servia e Bell arregrariam. E aquele carro avermelhado da Target levaria mais uma.

Só para dar um pouco de moral com o vencedor Wheldon, uma foto do seu belo carro patrocinado pelas roupas William Rast

Não sei o que aconteceu, mas lá pela metade da corrida, ambos realmente estavam na pista nas melhores condições para vencer. Pelo que entendi, a Chip Ganassi tinha optado por estratégias diferentes para os dois. Franchitti pararia um pouco antes dos demais, na volta 165, e tentaria fazer as últimas 35 voltas sem parar. Dixon, por outro lado, não se preocuparia com combustível e faria um splash-and-go nas últimas voltas. Não tinha como dar errado, já que o carro era muito bom, os pilotos idem e se uma estratégia falhasse, a outra funcionaria perfeitamente bem. Mas, ah, Indianápolis…

Franchitti ficou sem combustível no finalzinho e, tendo de se arrastar para não parar com pane seca, perdeu qualquer chance de vencer, terminando em um distante 12º. Dixon também não conseguiu ganhar as posições necessárias após seu splash-and-go, também ficou sem combustível na última volta e terminou em sexto. No fim, as zebras invadiram o pasto.

Primeiramente, Danica Patrick, que vinha tendo um mês de maio complicado, tomou a liderança na volta 179. O público gostou – a pilota é bonitinha, tem um puta apelo de marketing e tal -, mas ela não aguentou e foi para os pits no final. Faltavam pouco mais de dez voltas e quem tomou a ponta foi o Baguette.

Quem?! Bertrand Baguette, o belga que ganhou a World Series by Renault em 2009 e que estreou em 2010 pela Conquest, vinha tentando fazer as últimas voltas sem parar para se consagrar como o belga mais fodão da história de Indianápolis, se é que isso significa alguma coisa. Mas ele também não quis se arriscar e parou na 196. Faltavam quatro voltas. Eu estava nervoso. Não queria ver alguém do mainstream vencer. Teria de dar zebra.

Veio Hildebrand, não o Pascoal. O americano, que nasceu no mesmo ano que eu e que conta com minha torcida por isso, tomou a liderança a estúpidas quatro voltas do fim. Porra, será que um americano finalmente voltaria a vencer? Indianápolis havia virado palco de trunfos estrangeiros nas últimas edições. A última vitória yankee havia sido obtida por Sam Hornish Jr. em 2006, outra edição com final eletrizante. A Panther nunca havia vencido em Indianápolis. Ela era algo como o São Caetano das antigas da Indy 500, aquele time que sempre chega na final e fracassa. Mas o jejum finalmente acabaria. Ou não.

Ô coisa bonita...

Hildebrand entrou na última curva sonhando com o sabor do leite produzido no Dairy Belt, a grana, a entrevista na Oprah e as mulheres que conseguira comer. Subitamente, aparece o diabético Charlie Kimball pela frente. Sem pensar muito, JR muda de faixa e ultrapassa Kimball por fora. E aí vem o desastre.

O Dallara pintado com as cores da Guarda Nacional americana pega sujeira nos pneus, escapa de frente e bate no último muro da corrida. Na última curva! A torcida se levanta nas arquibancadas. Eu coloco as duas mãos na cabeça. E começo a gritar “vai, vai, vai”.

Hildebrand deu um jeito, reposicionou o carro na pista e se arrastou até a linha de chegada, sempre com o pezão no acelerador. Quando passou bela bandeira quadriculada, pensei “e o cara venceu com carro destruído e tudo!”. De repente, as câmeras focalizam alguns mecânicos vestidos de branco comemorando pra caramba. Nas costas, o patrocínio das roupas William Rast. Peraí, essa daí não é a Panther. Será que…?  Não, não pode ser.

As câmeras se voltam para Dan Wheldon. O inglês gesticula muito dentro do carro. O narrador bandeirante, amigo de Bryan Riscoe e Hey-Hail-Hunter, gritou que era Wheldon o vencedor. Wheldon? Aquele que ficou sem emprego justamente devido a JR Hildebrand? Aquele que encontrou uma vaguinha na equipe do seu amigo Bryan Herta, que participava de uma corrida da Indy como chefe pela segunda vez? Sensacional. Herta, que nunca foi nada de mais como piloto, vencia sua segunda corrida na Indy como dono de equipe. Quer saber? Que se foda o Hildebrand. Dan Wheldon é o cara.

Wheldon obviamente comemorou muito e até chorou copiosamente, pensando em sua mãe, recentemente diagnosticada com o mal de Alzheimer. Pelo feito, obteve mais de 2,5 milhões de dólares em prêmios a serem repartidos entre ele e a Bryan Herta Racing. Não duvido até que o inglês tenha garantido uma vaga de titular na Indy, bem como uma participação maior da BHR na Indy ainda nesse ano. A ver.

Will Power sem pneu traseiro esquerdo: a Penske foi uma das grandes decepções desta corrida

E quer saber? Wheldon merece mesmo.  Piloto bom, trabalhador e craque em ovais. De negativo, só sua estranha vaidade, que o levou a clarear os dentes de maneira assustadora há alguns anos. Nos dois últimos anos, terminou a Indy 500 em segundo. Em 2005, ganhou a corrida e o campeonato pilotando o ótimo carro da Andretti-Green. Em uma temporada na qual correm Sebastian Saavedra e James Jakes, Dan definitivamente não merecia ter ficado de fora. Agora, entra para os anais da história como o vencedor que liderou menos em todas as edições: uma curva e uma reta.

Méritos para quem os merece. JR Hildebrand, coitado, também merecia vencer. Os EUA apostam nele como um dos talentos do futuro nos monopostos. Há dois anos, venceu a Indy Lights e fez um teste com a Force India na Europa. No ano passado, fez algumas corridas para aprender o negócio. Nesse ano, vinha tendo desempenho razoável nos mistos. Seu negócio, pelo visto, é correr em oval. Vamos ver se as coisas melhoram nessa nova fase do campeonato. E Hildebrand não deve se preocupar muito. Ele é talentoso o suficiente para sonhar com boas vitórias nos próximos anos.

Danica Patrick me surpreendeu positivamente. Depois de quase ficar de fora no Bump Day, a princesinha nanica da Andretti se recuperou legal e estava prestes a vencer. Não tivesse feito aquele splash-and-go e ela seria a primeira mulher a vencer as 500 Milhas de Indianápolis. Além disso, esta vitória seria sua segunda em sua carreira no automobilismo. Mas “se” não existe, então sigamos…

E o Tony? Quem diria que aquele narigudo contratado no último minuto seria o grande responsável pelos melhores resultados da KV Racing até aqui? Enquanto os dois queridinhos Takuma Sato e Ernesto (sem EJ aqui, por favor) Viso eram os primeiros a abandonar em acidentes, lá estava o baiano ganhando um monte de posições e terminando em quarto. É um grande piloto e faz falta na Andretti, sim.

Não quero gastar muito mais espaço. Destaco positivamente o Baguette, o Servia e até mesmo o Scheckter, que andava meio sumido. Entre os fracassados, impossível não comentar sobre a Penske, que não apareceu e ainda viu dois de seus pilotos, Power e Helinho, perdendo um tempão com problemas de pneus rebeldes. O terceiro piloto, o desequilibrado Ryan Briscoe, terminou seu mês de maio dos pesadelos e bateu forte com Townsend Bell na primeira curva. Entre os outros a serem mencionados negativamente, Sato, Viso, Tagliani (bater daquele jeito é triste demais pra quem vinha tão bem) e Paul Tracy, que andava mais no pitlane do que na pista.

Agora, a vida segue. E quem diria que as 500 Milhas dos 100 anos seriam decididas em 500 metros…

Não tem corrida na França e nem cerveja em Mônaco. Une-se o útil ao agradável.

GP DE MÔNACO: No ano passado, havia declarado ódio a Mônaco. Esse ano, mudei ligeiramente de ideia e passei a admirar as imagens onboard dos pilotos esbarrando a 250km/h nos guard-rails que cercam os enormes hotéis, o cassino, a marina e tudo aquilo que caracteriza a nobreza mais caricata da Europa. Na verdade, Mônaco é igual a Pau, Macau, Bilbao, Birmingham ou qualquer outra cidade europeia tradicional que se dispunha a sediar corridas em seu centro, mas ganha relevância a mais por receber a Fórmula 1 desde sempre e por embolsar a grana de alguns milionários e lavadores de dinheiro importantes. No mais, a corrida costuma ser chata pra caramba. Melhora demais, no entanto, quando chove ou quando há um festival de acidentes. Porque é isso que o populacho gosta e quer: bagunça no terraço dos ricos.

QUINTA-FEIRA: Mônaco é tão idiossincrática que as primeiras atividades costumam acontecer na quinta-feira. Ouvi dizer, não sei se tese válida, que a sexta-feira era reservada para os ricaços desfilarem seus Lambos e Aston Martins (porque Ferrari e Porsche é coisa de neo-rico) pelas ruas de Montecarlo. Isso valia até alguns anos atrás. Hoje em dia, com GP2 e World Series by Renault compartilhando o mesmo paddock, é impossível comportar tudo em apenas três dias. E as sextas de pista livre viraram história. Amanhã, a primeira corrida da GP2. Os bacanas terão de dar espaço a moleques plebeus como Max Chilton e Rodolfo Gonzalez. E eu rio.

CAPACETE: Rubens Barrichello terá um capacete inédito para o GP de Mônaco. É este daqui. Foi sugestão do primogênito Eduardo, ao que parece. O resultado ficou bacana e o filho demonstrou ter bons predicados de um Sid Mosca, aquele que pintou a maioria dos capacetes dos brasileiros consagrados no automobilismo. No entanto, como sou chato e conservador, reclamo. Capacete é identidade. E a identidade, no geral, anda de mãos dadas com a simplicidade. Por isso que sempre gostei do capacete de Barrichello, simples, belo e bastante distinto. Ficar mudando, como ele vem fazendo nos últimos tempos, é trocar a identidade pela pura estética de momento. Por isso que não respeito essa geração atual, que picha seus capacetes com grafites, formas estilizadas e cores berrantes.

ASA MÓVEL: Sabe, uma das coisas que me fascina pra caramba no automobilismo é a sombra do perigo. Entendo o motivo pelo qual os pilotos dos anos 20 e 30 eram considerados heróis: corriam a velocidades altíssimas sem capacete, balaclava de nomex, cinto de segurança, santantônios, empresário, unhas feitas, cabelo penteado e ring-ding-ding. Corriam sem ganhar muito e morriam de alguma forma estúpida e carniceira se esborrachando em algum muro, poste ou grupo de espectadores por aí. Hoje em dia, nos dias do politicamente correto agressivo, gostar de algo que, ui, machuca é coisa de sociopata e fascista. Não ligo. Para mim, os pilotos se comportam como little fags ao reclamarem sobre o uso da asa móvel em Mônaco. Caramba, quem não quiser usar, que não use. E ninguém vai morrer por causa do seu uso. Aliás, o que há de absurdo em alguém morrer em uma corrida de carro? Piloto corre e deve ter noção de que, sim, pode morrer a qualquer hora.

INDY X MÔNACO: A Indy 500 é sempre realizada no último domingo de maio, todos sabem disso. Em termos de tradição, é também a corrida de monopostos mais importante do mundo. Creio que todo entusiasta do automobilismo deve ter um mínimo de respeito pela corrida. Por isso que não engulo muito esse negócio da Fórmula 1, que se considera o único evento esportivo relevante no planeta, querer realizar seu GP de Mônaco no mesmo fim de semana da corrida americana. O que custa adiar ou antecipar a corrida em uma semana? Será que o capricho de utilizar a corrida mais badalada da Fórmula 1 para tomar as atenções da Indy 500 vale mais do que qualquer coisa? Enfim, lamentável. De qualquer jeito, espero muito mais pelas 500 Milhas de Indianápolis. Mônaco, pelo contrário, é uma das etapas menos esperadas por mim. Pois é.

GP DA ESPANHA: Não conheço um que goste de assistir. Os pilotos, no geral, não reclamam, até porque a pista tem curvas relativamente velozes. No entanto, a ação é absolutamente reduzida. Em 1999, dizem que houve apenas uma única manobra de ultrapassagem em toda a corrida. As duas melhores corridas da história desta pista foram exatamente as duas primeiras edições, em 1991 e em 1992. Quem gosta mesmo desta pista são os engenheiros, que dispõem de um circuito que testa absolutamente todos os quesitos de um carro, do motor à suspensão. Não por acaso, a maioria dos testes de pré-temporada acontecem por lá. Mas elogiar uma pista por ser boa para testes é que nem elogiar um campo de futebol porque a Seleção Brasileira faz seus treinamentos por lá.

ALONSO: Hoje de manhã, a Scuderia Ferrari anunciou aos mortais que o asturiano Fernando Alonso seguirá na equipe até o fim de 2016. Depois, férias eternas em Cartagena e Gibraltar. Vidão, hein? O fato é que os italianos querem reviver os bons tempos do início da década passada mantendo um contrato de longa duração com um bicampeão e dando a ele todas as regalias possíveis, como um companheiro de equipe dócil e o direito de repetir a macarronada do domingo. E Alonso, que não é bobo e nem nasceu ontem, agradece. Se bem que seu contrato com a McLaren também era longo e deu no que deu.

ULTRAPASSAGENS: Na Austrália, não deu certo. Nas três pistas tilkeanas seguintes, funcionou que é uma beleza. Até agora, não consigo concluir se o pacote KERS + asa traseira móvel + pneus Pirelli realmente é eficiente de maneira geral. Sepang, Shanghai e Istambul favorecem bastante a dinâmica oferecida pelas novas medidas. Barcelona, por outro lado, não é bem assim, embora a reta dos boxes seja um lugar adequado para o acionamento da asa móvel. Normalmente, não se ultrapassa por lá nem com arma na cabeça. Vamos ver se o pacote faz milagres.

SCHUMACHER: Sua atuação em Istambul gerou enorme vergonha alheia. Depois da prova, ele comentou com alguém que não estava feliz com seu desempenho naquele dia e a mídia inglesa amplificou a insatisfação com manchetes enormes dizendo que ele não estava se divertindo em seu retorno à Fórmula 1. Mesmo desmentindo a possibilidade de parar neste ano, muita gente está cética com relação à sua continuidade na próxima temporada. Para gente como Johnny Herbert, seria uma surpresa se Michael continuasse na categoria andando em um carro que não o permita vencer e levando surra do companheiro de equipe. Também acho, mas há um contrato a ser cumprido até 2012 e Schumi é homem de palavra.

EUROCENTRISMO: Não sei quanto a vocês, mas é um alívio para mim voltar a ver corridas na Europa. Nada contra a Turquia, a Malásia e a Austrália e tudo contra a China, mas a Europa é o continente da civilização, da cultura ocidental, da política, da filosofia e das coisas legais. O queijo gruyère, o vinho, o Blur, o azeite, o liberalismo, o Mr. Bean, o circuito de Enna-Pergusa, as ninfas do Berlusconi e a Christiane F. só poderiam ter saído de lá. Por isso, este pequeno ode ao continente ao qual a Fórmula 1 pertence por excelência.

Aos 17 anos e 7 meses, Kevin Ceccon será o piloto mais jovem a correr na GP2 europeia

Falemos de GP2, pois. Depois de ficar sem o italiano Davide Rigon, que quebrou a tíbia e o perônio de uma perna após um choque infeliz com Julián Leal em Istambul, a Scuderia Coloni anunciou o compatriota Kevin Ceccon como seu substituto para as etapas de Barcelona e Mônaco. Aos 17 anos, sete meses e 27 dias, Ceccon será o piloto mais jovem da história a largar em uma corrida europeia da categoria. Ele, que já passou pela Fórmula 3 Open europeia e pela Fórmula 3 italiana, está em seu terceiro ano completo nos monopostos.

Peraí. Foi exatamente o que eu li? Não, é isso mesmo. Ceccon estreará na GP2 Series com 17 anos e alguma coisa. No Brasil, ele não precisaria votar, não poderia ir preso, não poderia sair do país sem autorização de papai ou mamãe e nem poderia dirigir um Clio 1.0 de 75cv pelas ruas esburacadas do país. Mesmo assim, lá estará o garoto pilotando um Dallara-Renault de 600cv de potência no razoavelmente veloz traçado de Barcelona. Há algo de errado ou o problema é a minha implicância costumeira?

Gostaria de crer que sou eu o chato da história, mas talvez não seja o caso. A GP2 é o último estágio pelo qual um piloto deve passar antes de chegar à Fórmula 1. Os pilotos que chegam lá, além de carregarem mundos de dinheiro em suas carteiras e contas-corrente, tiveram de competir – e vencer – em várias categorias menores. Na GP2, o cara dirige um carro extremamente potente e instável, começa a lidar com os holofotes implacáveis da mídia e dos torcedores, acompanha o paddock da Fórmula 1 e sofre enorme pressão por todos. Não é lugar para crianças, portanto.

E Ceccon, até aqui, não provou ser algo além de um infante rápido. Até 2008, quando tinha 15 anos, ele era um kartista de sucesso e poderia ter ficado um pouco mais nestes carrinhos, algo que não faria mal para sua carreira. Aliás, muito pelo contrário: o tricampeão Ayrton Senna sempre enalteceu o kart como a principal escola para alguém que quer se tornar um astro de Fórmula 1. Ayrton, que sabia das coisas, tinha razão. Olhando para seu sobrinho Bruno, um bom piloto com algumas deficiências claras na pilotagem, percebemos o quanto a ausência de uma carreira extensiva no kart é prejudicial. Garanto que Kevin Ceccon faria melhor se tivesse continuado no kart por mais uns dois anos.

Em 2009, Kevin fez sua estreia na Fórmula 3 Open europeia, a antiga Fórmula 3 espanhola. Não sei quem é o conselheiro deste cidadão, mas é evidente que ele usa drogas muito pesadas. Tirar um moleque que sequer havia completado 16 anos para disputar uma Fórmula 3 de baixo nível e correr o risco de empastelar sua carreira com um possível mau resultado em um carro completamente diferente do kart é uma das atitudes mais estúpidas do planeta. Para um italiano, há muitos outros caminhos nacionais melhores para alguém que quer subir do kart para os Fórmula. Fórmula Abarth e Fórmula Renault existem para quê?

Kevin Ceccon no kart, há apenas três anos

Correndo contra colegas mais velhos e experientes, Ceccon só poderia permanecer lá no meio do grid, mesmo. Em seu primeiro ano na F3 Open, ele terminou em 12º e obteve como melhor resultado um quarto lugar em Donington Park. Ele fez também seis corridas na Fórmula 3 italiana e ficou em 14º, com um sétimo lugar em Adria como melhor resultado. O problema já começa aí: ele pode ter sido o melhor kartista da história da humanidade, mas emplacar um 12º e um 14º em duas Fórmula 3 não faz bem para o currículo. Pesa. Os olheiros, espertos como só eles, ficam atentos a esse tipo de coisa.

Em 2010, Ceccon se manteve na Fórmula 3 Open e terminou em um bom quarto lugar no resultado final, com uma boa vitória na penúltima corrida, em Barcelona. Ficou atrás de Marco Barba (piloto do fundão na World Series By Renault), Callum MacLeod e David Fumanelli. Nada muito abonador, convenhamos. E o mais chato é que dá pra perceber que Kevin parece ser um piloto com algum talento. Não é muito comum ver alguém com 17 anos vencendo uma prova de Fórmula 3. Se ele não tivesse pulado etapas na carreira, teria tido muito mais chances de construir um currículo legal na Fórmula 3.

Para alguém como Kevin, não seria absurdo apostar em uma Fórmula 3 mais forte ou na GP3 em 2011. Mas seu conselheiro, provavelmente atordoado pelos efeitos massivos do óxi, sugeriu a ele que competisse na AutoGP. Eu entorto a cara e fico pensando: por que razão? A AutoGP é um desses campeonatos que só recebem expurgos de outras categorias e que não acrescentam muito à carreira de um piloto. Os únicos grandes atrativos são o prêmio de cem mil dólares oferecido ao vencedor de cada corrida e o teste na GP2 oferecido ao campeão e ao melhor piloto com menos de 21 anos. No meio de tantos pilotos muito mais experientes até mesmo entre os com menos de 21 anos, será que Ceccon conseguirá?

E quando menos se espera, a Coloni o anuncia como substituto de Rigon na GP2. Vale lembrar que Ceccon havia feito alguns testes pela mesma Coloni e pela DPR em Abu Dhabi nos primeiros testes de pré-temporada da categoria em novembro. Como eram testes que servem apenas para enriquecer as equipes, que cobram caro pelo prazer de pilotar por um ou dois dias, ninguém acreditava que Ceccon estivesse realmente pensando em correr na categoria. Empiricamente, eu imaginava que ele era só mais um piloto jovem que queria conhecer o carro da GP2 por diversão. Errado, eu estava.

Kimi Räikkönen é o exemplo que todo defensor dos "prodígios inexperientes" usa. Mas não seria ele um caso excepcional?

E ele só tem 17 anos. Eu ainda acho um pouco absurdo ver um sujeito chega tão cedo à GP2 em apenas três anos, pulando etapas importantes e agindo apenas pela pressa. Ele pode ter todo o talento que for, mas existem algumas qualidades, como a calma, o jogo de cintura e a sensatez, que só são obtidas com a experiência. Duvido que um cara que não é sequer maior de idade segundo os parâmetros brasileiros tenha lá alguma destas qualidades previamente desenvolvida.

A história pode até esfregar na minha cara alguns casos excepcionais, mas é isso mesmo que eles são: excepcionais. Kimi Räikkönen, campeão de Fórmula 1 em 2007, subiu à categoria maior após ter feito apenas duas temporadas de Fórmula Renault. Na época, a FIA não quis conceder a superlicença ao finlandês, alegando que ele teria de fazer ao menos uma boa temporada de Fórmula 3 para obtê-la. E ela não estava errada, já que um piloto de Fórmula Renault teoricamente não tem as competências mínimas necessárias para a Fórmula 1. Após muita choradeira de Peter Sauber, a FIA liberou o finlandês para correr em quatro corridas. Se fracassasse, voltaria para a creche.

Para surpresa de todos, Räikkönen era bem talentoso e conseguiu aprender rapidamente a manejar um carro de Fórmula 1. Só que, por outro lado, eu sempre estranhei alguns fatos que me parecem associados a uma ascensão muito rápida. No início de carreira, Kimi tinha alguns problemas com pressão, erros crassos e muitas quebras. Além disso, sua personalidade extremamente fechada e avessa aos meandros da Fórmula 1 sugeriam que ele nunca conseguiu se acostumar ao ambiente cruel do automobilismo. Tivesse tido uma ascensão normal, com passagens pela Fórmula 3 e Fórmula 3000, e talvez ele se sentisse um pouco menos deslocado e incomodado. Impressão minha, mas é impressão.

Eu não sou exatamente favorável a esse negócio de pular etapas para chegar ao topo o mais cedo possível. Hoje em dia, existe uma paranoia generalizada no sentido de criar astros cada vez mais jovens. No automobilismo, o sujeito obrigatoriamente deve chegar à Fórmula 1 com menos de 25 anos. Passou disso, é velho, não serve mais. Mal comparando, é que nem a candidata a modelo que é eliminada porque tem dois centímetros a mais no quadril. Por isso, quanto mais cedo chegar lá, melhor. Algo insensato – e sem grande utilidade prática.

Tarso Marques, que sofreu na Fórmula 3000 em 1994 devido à falta de maturidade

Não sou contra um jovem piloto estrear com 16 ou 17 anos nos monopostos. Na verdade, é uma idade bastante aceitável. Com 20 ou 21, ele chega à GP2. Se ele for bom, aos 23 ou 24 estará na Fórmula 1 e será feliz (ou não). Se demorar um pouco mais, não há problema. Na verdade, acho esse negócio de idade algo meio superestimado nos dias atuais. Damon Hill estreou na Fórmula 1 com 31 anos e ganhou seu título com 36 anos. Hoje em dia, o cara que estreia com 28 anos é um ancião. Passou dos trinta, então, não há jeito. Teu negócio é jogar carteado com seus colegas na pracinha da igreja. Não deveria ser assim.

Aos 17, 18 anos, o sujeito se vê completamente perdido, sem saber o que fazer. Um bom exemplo é o de Tarso Marques, o curitibano que entrou na Fórmula 3000 aos 18 anos recém-completados. Seu primeiro ano, 1994, foi terrível. Tarso não conseguia se dar bem com sua equipe, a inglesa Vortex. De um lado, ele reclamava que a equipe era amadora e praticamente não o permitia testar. Do outro, a equipe o acusava de ser irresponsável, de se atrasar demais, de perder um teste na Inglaterra por esquecimento e de perder o warm-up da corrida de Barcelona por não conseguir encontrar o autódromo. Ao mesmo tempo, Marques sofria com a falta de dinheiro, as dificuldades linguísticas e a solidão. Em um certo dia, ele chegou a ser visto chorando copiosamente na mesa de um restaurante. Não dá para apontar o dedo para ele. Na mesma idade, a maioria de nós faria o mesmo – ou até pior.

O automobilismo, assim como qualquer esporte de alto nível, é um negócio que requer uma série de qualidades e competências que um moleque de 17 anos raramente tem. Conhecimento técnico básico, desenvoltura, malícia, fluência em pelo menos dois idiomas, sangue frio, paciência, capacidade de improviso e desapego, por exemplo. Sem dominar tudo isso, um Kevin Ceccon da vida corre o risco de não aguentar o tranco e sucumbir aos leões, o que representaria um triste desperdício de talento.

Nunca fui muito a favor dessa precocização de crianças e adolescentes hoje em dia. Vejo aberrações como Neymar e Miley Cyrus, crianças que são ricas, celebradas e influentes demais para suas idades e seus níveis comportamentais e culturais, com medo do que será o futuro. Aos 22 anos, me considero um espermatozoide, alguém incapaz de decidir qual rabanete é o menos podre em um varejão. E acredito que sou, ainda assim, ligeiramente mais maduro que a média. Largar o mundo na mão das crianças não o tornará um lugar melhor, ao contrário do que Drummond certa vez sugeriu. Muito pelo contrário: tendências e grandes decisões serão realizadas por pessoas perdidas e superficiais que não tiveram um amadurecimento normal e completo.

No fundo, eu só disse tudo isso porque temo ver o Ceccon sendo batido pelo companheiro Michael Herck.

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