setembro 2011


Max Chilton andando em um carro de Fórmula 1 pela primeira vez. Depois de tanto esforço do pai, estava na hora, né?

Papai Grahame não poderia ficar mais feliz. O multimilionário britânico que comanda a AON Benfield, maior corretora de resseguros do mundo, está vendo, mesmo que de longe, o momento mais importante da vida de seu filhote de vinte tenros aninhos. Na última quinta-feira, Max Chilton pôde pilotar um carro de Fórmula 1 pela primeira vez na vida. Sem dispor de seus pilotos contratados, a Force India disponibilizou um carro ao moleque para que ele pudesse realizar alguns testes em linha reta no campo de vôo de Kemble, em Gloucestershire. Não é o tipo de teste mais proveitoso para um piloto novato: basta ligar o carro e acelerar o máximo possível em um retão sem fim. A equipe diz que estes testes são úteis para coleta de dados aerodinâmicos. Coisas que eu nunca vou entender.

Max Chilton não é um gênio. Longe disso, aliás. Neste ano, fez sua segunda temporada completa na GP2 Series pela novata Carlin Motorsport. Marcou apenas quatro pontos e terminou o ano em vigésimo. Você pode argumentar numericamente que o outro carro não marcou ponto nenhum. Respondo que este segundo carro teve três pilotos, sendo que não houve continuidade alguma entre eles. Na prática, Chilton foi o único piloto da equipe na temporada.

No ano passado, Max estreou na GP2 pela Ocean Racing Technology. Fez três pontos contra oito de seu companheiro de equipe, o suíço Fabio Leimer. Entre 2007 e 2009, Chilton disputou a Fórmula 3 britânica. Disputou 62 corridas por três equipes diferentes e conseguiu uma única vitória em seu último ano na pista de Brands Hatch. Ganhou alguma fama no automobilismo britânico por ter sido o piloto mais jovem a estrear na história da Fórmula 3 local. Em 2007, ele perdeu a primeira rodada dupla, disputada em Outlon Park, porque ainda não havia completado os 16 anos de idade exigidos pelo regulamento. Só pôde estrear na rodada seguinte, em Donington Park. Fez o tão esperado aniversário um dia antes da primeira corrida. Ganhou de presente uma carreira irrisória.

Quem acompanha o BTCC, o campeonato britânico de turismo, não desconhece o sobrenome Chilton. O irmão mais velho de Max, Tom Chilton, disputa a categoria há quase dez anos. Também não é um gênio, mas tem resultados mais interessantes que o caçula. Em 2010, Tom venceu três corridas na categoria e terminou a temporada na quinta posição. Tanto Max como Tom carregam em seus carros o enorme emblema da AON, o imenso grupo financeiro no qual o pai é uma das figuras mais importantes. Não precisa colocar seus axônios para trabalhar. Os dois são típicos filhinhos de papai da City londrina.

Chilton na GP2. Sua equipe é a Carlin Motorsport. "Sua equipe" não é modo de falar.

Mas a influência de Sir Grahame Chilton na carreira dos seus dois descendentes não se resume apenas a depositar dinheiros nas contas das equipes e assistir às corridas nos fins de semana. Ele criou uma empresa, a Capsicum Motorsport, com o propósito de gerenciar as carreiras dos filhos. No caso de Max, o objetivo é ainda mais ambicioso: levá-lo à Fórmula 1.

No fim de 2009, a Capsicum Motorsport acertou a compra da tradicionalíssima equipe Carlin, que mantinha estruturas vencedoras na Fórmula 3 e na World Series by Renault. Naqueles dias, o então dono Trevor Carlin passava por dificuldades financeiras e viu na aquisição por parte da Capsicum uma oportunidade de seguir em frente. Deu certo. Trevor ainda é o diretor esportivo da equipe. Dá para entender o motivo pelo qual Max Chilton corre pela Carlin?

Eu torço o nariz para esse tipo de coisa. Como vocês devem perceber, sou meio avesso a esse negócio de pai babão forçando a barra para colocar o filho na Fórmula 1 a qualquer custo. Meio bobo que sou, ainda acredito no automobilismo como esporte, e o esporte deve premiar os mais talentosos. Se não é assim, pelo menos deveria ser. Se eu quisesse ver o dinheiro se sobressaindo, deixaria de ver as corridas e assistiria, sei lá, ao Pequenas Empresas, Grandes Negócios. Isso ainda passa na tevê?

É uma tendência desagradável e crescente. Além do caso de Max Chilton, há outros dois, um deles envolvendo conhecido piloto brasileiro. O primeiro é o de Michael Herck. Esse daqui rende uma história bacana, até. Nascido em Bucareste, Michael foi adotado por um dentista belga quando tinha apenas um ano e meio de idade. O pobre garoto deixou a vida triste de órfão da Europa Central para se tornar um playboy criado a Cremogema em Mônaco. André Herck, o pai adotivo, decidiu colocá-lo para correr de kart pensando na Fórmula 1.

A história é bonita, mas tem seus contornos minimamente polêmicos. Diz a lenda que André Herck tinha o duvidoso costume de cortar o almoço do filho no caso dele não andar bem em uma corrida! Além disso, ele é meio doidão e muito mais ambicioso do que o bom senso recomenda. Michael andou muito bem nas primeiras categorias do automobilismo, mas começou a se complicar a partir da Fórmula 3, quando encontrou adversários muito mais bem preparados. Mesmo assim, o pai continuou a injetar dinheiro até a GP2.

Michael Herck: de adotado a mimado

Na categoria imediatamente anterior à Fórmula 1, André Herck decidiu criar um espaço no qual o filhote se sentisse muito bem. Ligou para David Price, o dono da nanica DPR, e ofereceu uma boa grana pelo controle da equipe. O velho inglês, sabendo que a DPR não teria muito futuro em suas mãos, cedeu a estrutura ao dentista sem grandes remorsos. E Michael Herck ganhou, de Natal, uma equipe de GP2 só para ele.

Herck teve ao menos três anos para aprender a ser um piloto competitivo na GP2 nesta equipe familiar. No último, até conseguiu uma pole-position em Spa-Francorchamps e um pódio em Valência, mas não passou da 16ª posição nos resultados finais. Do lado de fora das pistas, a organização da GP2 não via com bons olhos uma equipe que só existia para promover a precária carreira de um moleque adotado. No fim de 2010, a categoria anunciou a lista oficial das treze equipes selecionadas para a temporada seguinte. A DPR acabou ficando de fora.

Muita gente ficou satisfeita com a notícia, presumindo que a família Herck não teria mais o que fazer na GP2. De repente, André Herck surpreendeu a todos anunciando a compra de uma das equipes escolhidas para a temporada 2011, a Scuderia Coloni. Com isso, Michael poderia prosseguir mais um ano na categoria não fazendo nada. Dito e feito. Ele marcou apenas um ponto. Um de seus companheiros de equipe, Luca Filippi, ganhou três corridas e se sagrou vice-campeão. O que fará Michael Herck no ano que vem? Ninguém sabe. Tudo depende da cara-de-pau de seu pai. Pode ser que ele siga na GP2 por um quinto ano sonhando marcar mais do que uns dez pontos. Ou pode ser que ele vá parar em uma Hispania na vida. O que André Herck fará?

O outro caso, bastante conhecido entre os brasileiros, é o de Nelsinho Piquet. Este daqui andou em equipes do pai do kartismo à GP2. Ele só saiu da Piquet Sports quando arranjou um emprego de piloto de testes na Renault em 2007. No ano seguinte, o filho do Nelsão foi efetivado e o resultado foi aquele que nós vimos. Depois de ser mandado embora antes do fim da temporada de 2009, Nelsinho teve de refazer sua vida nos States. Na então obscura NASCAR Camping World Truck Series.

Neste ano, Piquet Jr. está correndo pela competente equipe de Kevin Harvick, a KHI. Passadas dezoito etapas, ele é o 11º com 524 pontos. Teve como pontos altos até aqui um segundo lugar em Nashville e algumas corridas na qual brigou diretamente pela vitória, como aquela em Kentucky na qual bateu com o compatriota Miguel Paludo a poucas voltas do fim. Apesar da boa temporada, ele terá de procurar outro emprego para 2012. A KHI já anunciou que não continuará existindo na próxima temporada e Nelsinho está momentaneamente desempregado. Uma das soluções, acredite, poderá ser a recriação da Piquet Sports na NASCAR.

Nelsinho Piquet, que pode ganhar uma equipe de presente na NASCAR Truck Series em 2012

Se esta for a solução final, a família Piquet terá ido longe demais. Ter uma equipe familiar de kart é absolutamente normal. Uma equipe familiar de Fórmula 3 não é comum, mas não é inaceitável. Uma equipe familiar na GP2 suscita muitos comentários negativos, mas ainda não é o fim do mundo. Na verdade, nem mesmo uma equipe familiar na NASCAR é algo absurdo, já que até mesmo a estrelinha superestimada Dale Earnhardt Jr. iniciou sua carreira com seu pai. O problema maior é o pai seguir carregando o filho nas costas sucessivamente, como é o que acontece com Nelsinho. A carreira nos Estados Unidos é uma boa chance para o cara fugir do estigma de filhinho do papai. Para ele, que nem teria tantas dificuldades assim para achar uma outra equipe na categoria, uma Piquet Sports USA não poderia vir em hora mais inadequada.

Acho que o apoio paterno é importante na carreira do jovem piloto. Não só importante, mas também fundamental. Não só fundamental, mas quase obrigatório. Nem todo mundo é Nelson Piquet, que conseguiu ser tricampeão de Fórmula 1 a despeito de seu pai, que preferia tê-lo visto cortando cana. Patriarcas famosos, como os senhores Milton da Silva e Rolf Schumacher, sempre estiveram ao lado de seus pequenos notáveis. Diz a lenda que Ayrton Senna só conseguiu aquela enorme notoriedade antes mesmo da Fórmula 1 porque seu Milton investia alguma grana em press releases e as enviava em massa para os principais veículos de comunicação do país. Isso daí é saudável – e nem tão absurdamente caro para os padrões do automobilismo. Agora, o que fazem as famílias Chilton, Herck e Piquet é um pouco exagerado.

Em comum, as três famílias investem dinheiro, tempo e energia em excesso para cultivar um talento que, a princípio, não existe. OK, poupo Nelsinho disso, já que ele é um bom piloto. André Herck e Grahame Chilton estão perdendo tempo com os sonhos de seus filhos, expressões infantis dos seus próprios sonhos (e frustrações íntimas). Sair por aí comprando equipes para os filhos correrem? Investir dezenas de milhões de dólares para o cara marcar uns dois ou três pontos por ano? Ficar ali em cima o tempo todo, como se fosse uma Supernanny? Privar o garoto de almoçar se ele não terminar entre os dez? Que negócio é esse?!

Acho que já comentei sobre isso em outro artigo. Os pais estão meio enlouquecidos com essa necessidade bárbara de ter, a todo custo, um prodígio em casa. Afinal, toda filha bonita pode ser uma modelo rica, esnobe e anoréxica. Todo garoto que foge das aulas de Português para jogar bola no campinho pode virar um Neymar em um futuro não tão distante. Todo japonês nerd e antissocial pode ser o primeiro colocado no vestibular de Engenharia Aeronáutica do ITA. Todo garotinho marrento e metido a encrenqueiro na escola pode virar um ás do UFC ou do cacete a quatro. Se isso demandar algum tempo, não há problema. Se demandar dinheiro, também não há problema. Os pais podem investir tudo o que for necessário para o filho virar algo na vida além de um sujeito medíocre de classe média. Nem que o rebento não tenha talento nem para andar de velocípede. Nem que o rebento se torne um sujeito mimado que acha que pode contar com a família para tudo em sua vida.

Para quem acha que só mãe de miss move montanhas pela filhinha…

Não, não tem nada de Norio Matsubara ou Sandro Tannuri aqui. Nessa semana, tivemos uma rara boa notícia para o automobilismo nacional: o paulista João Paulo de Oliveira, 30, foi anunciado como piloto da Conquest na etapa de Motegi da Fórmula Indy. Ele substitui o colombiano Sebastian Saavedra, que ficou sem patrocínio e terá de arranjar mais dinheiro dos cartéis se quiser retornar ao automobilismo.

João Paulo é um desses casos bem desagradáveis de pilotos que não possuem o menor reconhecimento em sua terra natal, tendo enormes dificuldades para angariar patrocínio por aqui e sendo obrigados a direcionar suas carreiras a outras praças. No seu caso, nem mesmo os títulos da classe Light da Fórmula 3 sul-americana em 1999 e da Fórmula 3 alemã  em 2003 lhe ajudaram a construir uma carreira sólida na Europa. Em 2004, ele foi obrigado a se mudar para o Japão para seguir em frente sem ter de mendigar patrocínio. Ganhou títulos na Fórmula 3 japonesa em 2005 e na Fórmula Nippon no ano passado. É respeitado por lá e ganha dinheiro, mas quem dá bola por aqui?

Imagino eu que João Paulo de Oliveira seja o piloto brasileiro que mais fez sucesso no automobilismo nipônico. Mas é óbvio que ele não é o primeiro. O Top Cinq de hoje comenta sobre cinco tupiniquins que perceberam que construir a vida na Terra do Sol Nascente poderia ser bem interessante e lucrativo. Os japoneses são devotos da competência e do bom trabalho, além de não serem muito encanados com esse negócio de politicagem. Apesar de a economia local estar longe de seus melhores dias, do povo ser meio demasiado obcecado e fechado e da comida ser abominável para quem não está acostumado, o Japão ainda é um lugar bacana para muita gente.

5- ROBERTO MORENO

Roberto Pupo Moreno, aquele conhecido por trocar de categoria como mulher troca de absorvente, já deu suas bicadas no Japão. Entre 1984 e 1985, o brasileiro disputou algumas etapas da Fórmula 2 local. Mas como ele foi parar lá?

Em 1984, Moreno corria na Fórmula 2 Européia pela Ralt Racing, a melhor equipe do automobilismo de base daquela época. Os carros da Ralt eram equipados com motores Honda, e aí você não precisa ser muito criativo para deduzir que a montadora deve ter dado aquela força para a equipe disputar alguma corrida de Fórmula 2 no Japão. Como os pilotos da Ralt, Mike Thackwell e Moreno, haviam terminado o campeonato europeu nas duas primeiras posições, não custava nada disputar a última etapa da temporada japonesa, a ser realizada em Suzuka no dia 4 de novembro.

E lá foram os ocidentais da Ralt disputar freadas com a japonesada. Moreno, sempre muito versátil, marcou a pole-position e mostrou que sabia acelerar em qualquer lugar. Na corrida, o brasileiro perdeu posições para o campeão Satoru Nakajima e para Stefan Johansson, que também disputava aquela corrida só por diversão. Ainda assim, manteve-se no pódio, duas posições à frente do companheiro Thackwell.

No ano seguinte, Roberto Moreno voltou ao Japão para disputar mais etapas da Fórmula 2 do país. Desta vez, ele teve de exercer esta opção por pura questão de sobrevivência. Seus planos de correr na Toleman haviam dado errado e sua equipe de Fórmula 3000 havia desistido após apenas quatro corridas. Ele já estava disputando a Indy, mas queria fazer o maior número de corridas possível e assinou com a Advan Sports para disputar cinco corridas da Fórmula 2 japonesa. Seu melhor resultado foi um belo segundo lugar em uma corrida chuvosa em Suzuka. No fim, terminou com 21 pontos e a 11ª posição. Não foi o resultado dos sonhos, mas para alguém que também tinha corrido, no mesmo ano, na Indy e na Fórmula 3000 da Europa, estava bom demais.

4- FÁBIO CARBONE

No fim de 2003, o paulistano Fábio Carbone estava meio perdido na vida. Contemporâneo de Felipe Massa na Fórmula Chevrolet, ele já estava no automobilismo base havia algum tempo e, mesmo tendo bastante talento, tinha enormes dificuldades para conseguir engrenar a carreira. Naquele ano, ele havia competido na Fórmula 3 Euroseries e até chegou a vencer uma corrida em Pau, mas não teve o cacife necessário para subir para a Fórmula 3000 ou a World Series by Nissan.

Mas eis que surge a oportunidade de correr no Japão em 2004. Para um ocidental de olhos bem abertos, a vida pode ser bastante mansa por lá: não há necessidade de levar um grande patrocinador, a chance de amealhar algum dinheiro é bastante alta e os nipônicos respeitam muito os pilotos de fora. Carbone assinou com a Three Bond, uma equipe apenas mediana, para disputar todas as corridas da Fórmula 3 japonesa. Para sua infelicidade, a Three Bond não era exatamente a melhor equipe do grid e o brasileiro só conseguiu terminar em oitavo na classificação final. Conseguiu, como melhor resultado, uma vitória em Motegi.

Em 2005, Fábio Carbone recebeu um convite para voltar para a Europa e disputar uma segunda temporada na Fórmula 3 Euroseries. Não foi lá um grande ano e ele decidiu voltar para o Japão em 2006 para, novamente, correr na Fórmula 3 de lá pela mesma Three Bond. Mais experiente, ele conseguiu vencer duas corridas e terminar em quarto. De quebra, descolou um contrato para correr na Super GT, provavelmente o campeonato automobilístico mais importante e lucrativo do país. Fez vinte pontinhos e embolsou alguns bons ienes.

No ano seguinte, Carbone decidiu levar a sério a Super GT e também assinou com a Dandelion para correr na Fórmula Nippon. Disputando as duas categorias mais importantes do Japão, ele pôde conseguir todo o dinheiro e o prestígio que teimava em não vir no Ocidente. No campeonato de GT, ele foi bem e terminou o ano como vice-campeão, com uma vitória em Fuji. Na Fórmula Nippon, a vida foi mais complicada e ele fez apenas três pontos.

Em 2008, Carbone recebeu um bom convite para disputar a World Series by Renault pela forte Ultimate Signature e abandonou, de vez, o sonho japonês.

3- ROBERTO STREIT

Último campeão da Fórmula Chevrolet no Brasil, o carioca Roberto Streit foi outro piloto que simplesmente se cansou de passar tanto tempo pulando de uma categoria de base para outra na Europa sem conseguir nenhum avanço real. Em 2004, ele chegou a ser integrado ao programa de jovens pilotos da Toyota, mas nunca foi o queridinho da montadora. Naquele ano, só passou sufoco na competitiva Fórmula 3 Euroseries. O que fazer?

Streit decidiu utilizar seus bons contatos na Toyota para migrar para o Japão. Em 2005, ele assinou com a Inging Motorsport para disputar a Fórmula 3 de lá. Pelo visto, o relacionamento do piloto brasileiro com a equipe foi ótimo, já que ele ficou por lá durante quatro anos. Até 2007, Streit permaneceu competindo na Fórmula 3. Foi vice-campeão em 2006 e 2007, obteve onze vitórias, sete poles e muita moral perante os japoneses. Antes de João Paulo de Oliveira, era o piloto brasileiro de maior sucesso no Japão em termos numéricos.

Em 2008, ainda com a Inging, Streit subiu para a Fórmula Nippon. A categoria é meio cruel com os estreantes, já que o carro é muito mais veloz do que os humildes bólidos da Fórmula 3. Mesmo assim, Roberto conseguiu um pódio e terminou o ano em 13º. Além disso, ele fez também uma corrida na Super GT e obteve um ótimo sexto lugar. É um bom piloto, o Streit. Muito subestimado, mas bom. Sua maior cagada foi ter causado um violento acidente na largada do Grande Prêmio de Macau da Fórmula 3 em 2008. Os comentaristas ingleses, ignorando a boa carreira de Roberto na Ásia, não se furtaram em chamá-lo impiedosamente de “Stupid Streit” e sua imagem ficou bastante manchada no Velho Continente. O imediatismo europeu é assustador.

2- MAURIZIO SANDRO SALA

Quem diria que a guerra interna entre Nelson Piquet e Nigel Mansell na Williams acabaria prejudicando indiretamente um jovem piloto brasileiro? Em 1986, o paulistano Maurizio Sandro Sala disputava a Fórmula 3 britânica com enorme êxito, tendo vencido cinco corridas e obtido o vice-campeonato. Um belo resultado, se não fosse por um pequeno detalhe: Sala estava sendo praticamente boicotado pela imprensa britânica e pela própria equipe, a Eddie Jordan Racing, todos refletindo o duelo Brasil x Inglaterra da Fórmula 1 nas categorias menores. Os jornalistas cobriam o piloto com críticas infundadas e sua equipe preferiu concentrar todos os esforços no inglês Andy Wallace, que acabou como o campeão.

Sala não tinha mais qualquer ânimo para permanecer na Europa e aceitou de bom grado o convite que a Nissan o fez para disputar a Fórmula 3 japonesa em 1987. O que parecia ser uma decisão apenas provisória, visando esperar a poeira inglesa baixar um pouco, acabou se mostrando uma excelente alternativa em termos esportivos e financeiros. Maurizio até chegou a disputar algumas corridas na Europa, mas concentrou sua carreira no Japão até 1992.

Em 1987, Sala só disputou metade das corridas: em Tsukuba, durante os treinos, um japonês aloprado saiu da pista, voltou de marcha à ré para o traçado e atingiu em cheio o carro do brasileiro, que teve algumas costelas estouradas e o pulmão perfurado. Mesmo assim, terminou a temporada em sétimo, tendo mostrado ótimo desempenho. No ano seguinte, Maurizio permaneceu na Fórmula 3, ganhou duas corridas e terminou em terceiro. Ao mesmo tempo, ele também vinha disputando o Campeonato Japonês de Protótipos, tendo vencido os 500 Quilômetros de Suzuka com um Porsche 962C em 1988.

Infelizmente, esta foi sua melhor temporada no Japão. Nos quatro anos seguintes, Maurizio Sandro Sala permaneceu no Campeonato Japonês de Protótipos e competiu também na Fórmula 3000 Japonesa. Não ganhou corridas, já que raramente dispunha de equipamento razoável, mas fez seu dinheiro e conquistou o respeito de todos por lá. E engana-se redondamente quem acha que ele havia perdido suas qualidades lá no Japão. Em 1995, disputando o competitivo Global GT Championship na Europa, Sala ganhou cinco corridas com um McLaren F1 GTR e terminou a temporada em sexto. Quem é rei nunca perde a majestade.

1- PAULO CARCASCI

Antes de João Paulo de Oliveira, o Brasil contabilizava apenas um único título nos campeonatos de monopostos no Japão. O responsável pelo feito foi o paulista Paulo Carcasci, que venceu o campeonato de Fórmula 3 do país em 1991. A carreira de Carcasci não foi a mais longa entre todos os brasileiros e, numericamente, também não foi a mais impressionante. Mas o que importa é o título.

Carcasci é mais um desses muitos brasileiros bons de braço que se aventuram no automobilismo internacional dos anos 80 sem dinheiro.  Em 1985, ganhou o título europeu da Fórmula Ford 1.600. Três anos depois, abocanhou o título inglês da Fórmula Ford 2.000. Depois disso, as coisas se complicaram um pouco e Paulo alternou sua carreira na Fórmula 3, na Fórmula 3000 Britânica, na Fórmula Opel e na Fórmula Renault. Chegou a ganhar algumas corridas, entre elas a prestigiosa Gold Cup de Outlon Park na Fórmula 3000 em 1989, mas nunca conseguiu se estabelecer como um real candidato à Fórmula 1. Faltava dinheiro.

O que salvou a carreira de Carcasci foi seu vínculo com a Toyota. Em 1990, ele trabalhou como piloto de testes dos motores de Fórmula 3 da marca na Inglaterra e agradou bastante o pessoal do arquipélago. A equipe oficial da Toyota na Fórmula 3 japonesa, a Tom’s, decidiu lhe entregar um carro para disputar a temporada de 1991 da categoria. Carcasci não desagradou, ganhou as três primeiras corridas do campeonato, administrou a vantagem a partir daí e sacramentou o título com uma vitória em Sugo, fechando o ano com 42 pontos. Paulo disputou também a Fórmula 3000 local, mas só por diversão: a prioridade era ganhar a categoria menor.

Nos dois anos seguintes, Carcasci disputou a Fórmula 3000 japonesa pela Navi Connection. Em 1992, ganhou uma corrida em Fuji e terminou a temporada em 11º. As coisas ficaram um pouco mais difíceis no ano seguinte, quando ele conseguiu apenas um pódio em Mine. Foi seu último ano no Japão. Em 1994, ele até pretendia seguir na categoria, mas uma grave crise econômica no país afetou drasticamente todo o automobilismo e muitos acabaram ficando desempregados. Mas a carreira de Paulo Carcasci não acabou aí. Ele passou pela Indy Lights, quase arranjou um contrato para correr na Fórmula 1 pela Pacific em 1995 e, hoje em dia, é piloto profissional de kart e empresário no Brasil.

Segundos antes

Havia sangue pelo chão. Muito sangue. Milhares de pequenos pedaços de fibra de carbono espalhados pela pista. Algumas massas avermelhadas. Carne humana, talvez. Em exatos vinte e nove segundos, o caminhão de segurança da CART se aproximou daquele cenário apocalíptico. Liderados pelos experientes doutores Steve Olvey e Terry Trammell, a equipe médica correu em direção aos dois restos identificáveis de carros. Um, azulado, estava grudado no muro. O outro, grená, estava inerte no meio daquele trioval. Os dois condutores estavam com a cabeça repousando na lateral dos seus cockpits. Totalmente inconscientes. Privados daquele show de horrores a que todos presenciavam.

Eu tinha acabado de completar treze anos. Vi ao vivo na televisão do meu quarto. Era a primeira temporada da CART, afamada aqui no Brasil com a bizarra alcunha de “Fórmula Mundial”, que acompanhava com afinco. Torcia pelo Scott Dixon, como ainda faço hoje. Não lembro em que posição ele estava. Depois daquela volta 142, deixei para lá. Estava assustado. Enojado. Meio elétrico, para dizer a verdade. Eu tinha visto Ayrton Senna morrer, acho que cheguei a ver Ratzenberger morrendo também e já estava acostumado com acidentes espetaculares. Mas aquilo… Como pode?

Klettwitz, 15 de setembro de 2001. Apenas quatro dias antes, um barbudo maluco, líder de uma tropa de barbudos tão amalucados quanto ele, pôs abaixo alguns dos símbolos da grandiloqüência americana, mais precisamente o complexo do World Trade Center e uma parte do Pentágono. O mundo estava anestesiado. Não havia ambiente para nada, ainda mais para uma irrelevante corrida de carros. Que não foi tão irrelevante assim para um piloto em especial.

Uma comitiva de mais de mil pessoas – segundo o que li, o maior grupo civil de americanos fora do país naquele momento – tentava minimizar o choque, o medo e a tristeza promovendo a primeira corrida européia da história da CART, a German 500, que ganhou o alusivo nome de American Memorial 500 após os atentados. O palco seria o trioval de Lausitzring, uma pista nova, moderna, segura e quase amaldiçoada. Logo em seu primeiro ano, um piloto (Michele Alboreto) e um fiscal de pista haviam perdido sua vida por lá. Um estado de espírito destroçado, um circuito com histórico tão curto quanto trágico e uma corrida de carros veloz. Estava tudo ali, tudo pronto para que algo de muito ruim acontecesse.

Eu queria ver a corrida, mas não fazia a menor idéia sobre o horário que ela aconteceria. Descobri, zapeando aleatoriamente a televisão, que ela estava passando em um sábado de manhã. Corrida da CART em uma manhã é algo curioso de acontecer. Mas é a Europa, não deveria ter ficado surpreso. Paciência.

Dois anos depois

Não me peçam detalhes sobre a corrida. Sei que o Kenny Brack venceu, diabólico em pistas ovais como só ele era. Quem me chamou mais a atenção no decorrer da prova, no entanto, foi o popular Alessandro Zanardi. O italiano, que vinha em uma temporada bem fraca e que já havia anunciado a aposentadoria no final do ano, estava fazendo sua melhor corrida naquela temporada. Fiquei feliz em ver o cara, que já havia sido bicampeão da categoria e que havia aceitado voltar para lá pela porta dos fundos, andando lá entre os ponteiros. Liderou por várias voltas e tinha tudo para terminar entre os três primeiros. Enfim, estava legal de se ver.

Na volta 142, Zanardi levou seu Reynard-Honda grená e branco para os pits. Faltavam apenas doze voltas para o fim e Alessandro fazia sua quarta parada para colocar apenas um pouco de metanol. Um splash and go, em suma. Ele não queria perder tempo. Não mesmo.

Após sair dos pits, Zanardi enfiou o pé no acelerador ainda na linha de retorno à pista. Mas os pneus Firestone estavam frios. E a linha de retorno dos boxes não tinha tanta aderência quanto o traçado normal. Com dificuldade para controlar o carro, Zanardi acabou pisando na grama com as rodas do lado direito. O bólido se descontrolou. E completou 360°. E voltou descontrolado para a pista. Rumo à tragédia.

Patrick Carpentier foi o primeiro a avistar o problema. Em rápido movimento, esterçou para a direita e seguiu em frente. Ufa. Bandeira amarela, né, pessoal? O problema é que o Reynard de Zanardi continuou se movendo descontroladamente pela pista. Em um instante, o carro indicou que retornaria à trajetória normal. Impressão falsa. Ele seguiu rodando em sentido anti-horário.  Rumo à tragédia.

O companheiro de Patrick Carpentier, Alex Tagliani, avistou Zanardi de longe e decidiu ir para a linha interna. Péssima idéia. Naquele momento, o bólido do italiano estava totalmente de lado. O canadense vinha a 320km/h. A cada décimo de segundo, os dois corpos se aproximavam em muitos metros. Na pior posição possível. Aí, aconteceu.

Zanardi pilotando um Lotus em 1993

O Reynard-Ford de Tagliani acertou a lateral esquerda do carro de Zanardi a trezentos e tantos quilômetros por hora. O diretor de imagens, subitamente, afastou a câmera para cobrir todo o acidente. Incapaz de fazer qualquer coisa, Tagliani seguiu em direção ao muro em alta velocidade. Enquanto isso, o carro de Zanardi explodia em peças e sangue. Alguns segundos depois, ele parou ao lado do muro. O cockpit estava arrebentado. E as duas pernas não estavam mais lá.

Pânico geral. Naquele momento, eu realmente achei que ambos, Tagliani e Zanardi, tinham morrido na hora. Não tinha como escapar daquilo lá. As câmeras de segurança, posteriormente, revelaram que o italiano chegou a mover sua coxa alguns segundos depois da batida – algo que credito muito mais a um reflexo nervoso do que exatamente a uma atitude consciente.

Rapidamente, médicos e auxiliares chegaram ao local do acidente para socorrer os dois pilotos, inertes naquelas carcaças metálicas que restaram. O atendimento foi longo. Após alguns minutos, o helicóptero desceu na pista. Pelo que me lembro, o narrador daquela corrida (Oscar Ulisses. Por onde ele anda?) comentou que a demora se dava pelo fato dos pilotos ainda não estarem estabilizados. Isso é um péssimo sinal. Não dá para decolar se um dos atendidos tiver sofrido uma parada cardíaca ou uma perda massiva de sangue – e Zanardi teve três paradas cardíacas e perda total de quatro litros de sangue. Havia sobrado apenas um litro. Um litro.

Enquanto o safety-car permanecia na pista para completar as voltas restantes, Zanardi e Tagliani eram levados ao hospital Krankenhaus Berlin-Marzahn. Felizmente, Tags teve apenas alguns ferimentos leves nas costas e ficou sob observação no hospital por algumas horas. Já o bicampeão chegou ao hospital praticamente morto. Após receber um litro de sangue, Zanardi foi levado diretamente à sala de cirurgia. Ele chegou lá com uma perna decepada na altura do joelho, a outra decepada na coxa, a pélvis estourada e uma forte concussão cerebral. Após cirurgia de mais de três horas, o que restava das duas pernas foi completamente amputado e os sinais vitais foram mantidos. Alessandro Zanardi iniciou a cirurgia em estado gravíssimo, tendo recebido até extrema-unção, e saiu dela em estado grave. Apesar de tudo, ele conseguiu sobreviver.

Zanardi permaneceu em coma induzido durante três dias. No dia 18, despertou. Alívio geral. Sua esposa, Daniela, lhe contou calmamente sobre o que havia acontecido, sobre a amputação. Alessandro não quis pensar muito sobre isso. Disse que os dois encontrariam um caminho e seguiriam em frente. Depois, dormiu um pouco.  Ele estava de volta à vida. A uma nova vida.

Zanardi, apenas um cara legal

Após quinze operações de retirada dos pedaços de carro e seis semanas de convalescença, Alessandro Zanardi foi liberado do hospital. O cara é impressionante. Apenas nove dias depois, ele estava dirigindo um carro adaptado por 450 quilômetros, entre Mônaco e Bolonha. No fim do ano, já dava entrevistas e ensaiava passos com suas próteses. Os primeiros passos.

Em 2003, Zanardi foi a Lausitzring, entrou em um Reynard-Ford pintado com as mesmas cores utilizadas por ele em 2001 e completou as voltas que faltavam para totalizar as 154 da fatídica corrida de dois anos antes. E ele não perdeu a majestade: sua última volta lhe daria a quinta posição no grid da edição de 2003! No fim daquele mesmo ano, Alex já tinha assinado com a BMW para disputar o Campeonato Europeu de Turismo. Disputou corridas de turismo até o fim de 2009 e contabilizou três vitórias, sendo talvez o deficiente físico com maior sucesso na história do automobilismo. Em 2006, a BMW Sauber decidiu lhe conceder um teste com seu carro de Fórmula 1 em Valência. Hoje em dia, aposentado das corridas, ele disputa maratonas de handbike, uma bicicleta movida com as mãos. Nas Paraolimpíadas de 2012, a serem realizadas em Londres, Zanardi tentará representar a Itália na modalidade. O cara driblou a tragédia e está por aí, curtindo a vida e a família.

Está impressionado?  Impressionado fiquei eu quando li uma pequena história que desmente qualquer possível idéia hipócrita, clichê e falsa sobre ele “ser mais feliz após o acidente” ou “achar que nada mudou após Lausitzring”. Reproduzo aqui:

“Certa vez, estava tentando colocar minha perna mecânica, mas não estava conseguindo porque a pele estava em carne viva e sangrava muito. Eu estava a ponto de quebrar alguma coisa de tanta raiva que tinha. Meu filho, que estava no quarto ao lado vendo desenho animado, saiu e deixou o volume da televisão muito alto. Quando fui ao quarto dele, o desenho já tinha terminado e estava passando uma entrevista com o Wayne Rainey, o piloto da Motovelocidade que é paralisado da cintura para baixo. Ele estava sentado em um kart, de óculos escuros, sob o sol californiano e falando sobre a escolinha que tinha aberto para deficientes. Confesso que fiquei mal. Eu não tinha direito de reclamar quando um cara desses está sorrindo e lutando”.  

Não caiamos na tentação de elevá-lo a uma condição superior por “não ser deficiente, e sim eficiente”. Isso é idiota e cruel.  Alessandro Zanardi é um cara foda porque pilotava pra caramba. E é foda porque sobreviveu a um acidente. E é mais foda ainda porque é um cara otimista que se esforça para fazer o que gosta e que ama sua mulher Daniela e seu piccolo Niccolò. Com ou sem as pernas, ele é apenas um ser humano boa gente e, portanto, é digno da nossa admiração.

Dessa vez, vocês quebraram minha perna. No pleito sobre os circuitos que fariam parte do Calendário do Verde deste ano, quatro caras pediram uma pista que é um tremendo desafio para mim. Falar sobre Sepang, Mônaco ou Paul Ricard não é tão difícil, embora demande um puta trabalho de pesquisa.  Mas vocês foram lá nas profundezas da história e desenterraram o circuito de Pescara, um dos mais longos e impressionantes do automobilismo das antigas. E é dele que falo hoje aqui.

A esmagadora maioria das pessoas que se lembra de Pescara deve pensar no Grande Prêmio de Pescara de 1957, única corrida de Fórmula 1 sediada no gigantesco circuito de 25,5  quilômetros, o maior da história da categoria com folga. Este grande prêmio foi, também, o único oficial na Europa a ter recebido o nome da cidade que o realizou. Além disso, foi em Pescara que o depressivo Jarno Trulli nasceu. Fora isso, não sabemos muito mais sobre a pista ou a cidade. Pois vamos em frente.

Pescara é uma cidade de tamanho considerável que se localiza na costa central do Mar Adriático. Durante o Império Romano, ela era um importante entreposto comercial que recebia produtos vindos lá das regiões orientais. Com o passar dos anos, todo povo importante que se prezava tinha obrigação moral de atacar, saquear e destruir a pobre cidadezinha: sicilianos, otomanos, venezianos, austríacos e franceses passaram pelo comando em algum momento da história. Na Segunda Guerra Mundial, nada menos que seis mil cidadãos foram mortos pelos bombardeios dos aliados. Pelo menos, foi a última vez que Pescara foi incomodada pelos forasteiros.

Depois da guerra, a cidade se desenvolveu bastante e, quando recebeu a Fórmula 1, tinha uma população de cerca de 65 mil habitantes. Naquela época, o circuito de rua de Pescara já tinha bastante história para contar. Mais precisamente, 33 anos de história.

Em 1924, o fascismo (“faxismo”, gente: “facismo” não existe) ainda era uma ideologia emergente que tinha acabado de tomar o poder na Itália. Enquanto Il Duce Benito Mussolini assustava o povão com seu exército de camisas-negras, um dos seus parlamentares se responsabilizava pela criação de um espaço automobilístico na província de Abruzzo. Giacomo Acerbo era um economista (ops!) que ficou conhecido pela criação de uma lei que garantia dois terços dos assentos do Parlamento ao partido com maior número de votos nas eleições parlamentares – naquele caso, o Partido Nacional Fascista dele e de Mussolini.  Engraçadinho o cara, né?

Porém, não dá para negar a excelente contribuição que Acerbo trouxe ao esporte a motor na Itália. Em 1924, visando desenvolver o potencial turístico da região de Abruzzo, o deputado decidiu promover uma corrida de carros anual que passaria por Pescara e também por algumas cidades menores ao redor. Como, no entanto, Pescara era a cidade mais importante da província, coube a ela o status de sede oficial. O circuito teria mais de 25 quilômetros de extensão e formato triangular, sendo que uma das arestas passaria a poucos metros do mar. A tal corrida teria o nome de Coppa Acerbo, uma homenagem ao irmão de Giacomo, o militar Tito Acerbo, que faleceu em uma batalha na Primeira Guerra Mundial.

A primeira edição da Coppa Acerbo foi vencida por um tal de Enzo Ferrari, que pilotava um Alfa Romeo. As Alfettas dominaram a maioria das corridas até 1933, mas a supremacia alemã na indústria automobilística empurrou os italianos para escanteio e Mercedes-Benz e Auto Union ganharam cinco das seis últimas edições da Coppa antes da Segunda Guerra Mundial.

A Segunda Guerra Mundial interrompeu o automobilismo europeu e destruiu Pescara. Após o fim da guerra e do fascismo, as coisas começaram a voltar ao normal lentamente. Já em 1947, a famosa corrida voltou a ser realizada, mas com outro nome. Sai de cena a lembrança nefasta da família Acerbo, entra o convencional Circuito di Pescara.

Em 1950, todo mundo ficou muito empolgado com aquela tal de Fórmula 1 que juntaria várias corridas de Grand Prix em um calendário organizado. A corrida de Pescara tentou um lugar no campeonato nos primeiros anos, mas não teve sucesso. Em 1952, a Fórmula 1 decidiu adotar o regulamento técnico da desinteressante Fórmula 2, o que fez a cidade italiana desistir momentaneamente de receber corridas de monopostos para dar lugar aos carros-esporte. Mas esta mudança foi revertida tão logo a Fórmula 1 voltou ao seu antigo (e melhor) regulamento. Pescara, que sediava uma das melhores corridas extra-campeonato da Europa, queria um lugar no calendário oficial a todo custo.

Em 1957, a cidade finalmente conseguiu o que queria. O Grande Prêmio de Pescara, que tinha o nome oficial de XXV Circuito de Pescara, foi efetivado como a sétima etapa do Campeonato Mundial de Fórmula 1 daquele ano depois que as corridas da Bélgica e da Holanda tiveram de ser canceladas. Pescara era um evento-tampão, assim como o Grande Prêmio da Europa durante muitos anos, e não tinha grandes perspectivas de prosseguir no calendário oficial nos anos seguintes.  O jeito era tentar organizar a melhor corrida possível e deixar o futuro para lá.

200 mil pessoas compareceram para torcer pelas equipes italianas, mas a Ferrari decidiu não participar com todos os seus carros. O motivo era razoavelmente nobre: a equipe de Enzo Ferrari protestava contra a proposta do governo italiano de acabar com as corridas de rua no país. Com isso, apenas Luigi Musso foi inscrito. Isso permitiu que a briga pela vitória ficasse concentrada entre Maserati e Vanwall, que tentaria estragar a festa carcamana.

Após 18 voltas e quase três horas de corrida, Stirling Moss deixou Juan Manuel Fangio, Harry Schell e Masten Gregory para vencer o único Grande Prêmio de Pescara oficial da história. O argentino havia sido o pole-position, mas derrapou em uma mancha de óleo ainda na primeira volta e deixou a liderança para o britânico, que adorou a pista: “Achei tudo fantástico. Foi como se eu fosse um garoto que tivesse saído para um racha. Uma sensação fantástica. Isso é que é automobilismo”.

O chato é que, depois desta corrida, a pista de Pescara só voltou a ser utilizada duas vezes. Em 1960, ela recebeu uma corrida de Fórmula 2, vencida pelo futuro campeão Denny Hulme. No ano seguinte, a última prova realizada por lá foi uma etapa do Mundial de Protótipos, vencida pela dupla italiana Lorenzo Bandini e Giorgio Scarlatti. Argumentava-se que a pista era extremamente perigosa e defasada, uma vez que muito pouco foi atualizado desde sua inauguração. Na verdade, a única diferença entre a versão de 1924 e a de 1961 era uma chicane que foi construída em 1934 na reta Madonna para diminuir um pouco as altas velocidades. Vale dizer que esta foi uma das primeiras chicanes da história do automobilismo.

TRAÇADO E ETC.

Nordschleife à bolonhesa? Vamos com calma, pequeno gafanhoto! O circuito citadino de Pescara tem muito pouco em comum com aquela versão mais consagrada de Nürburgring. E não me refiro apenas à diferença de três quilômetros entre um e outro. A pista alemã é toda sinuosa e tem como pano de fundo algumas pequenas vilas e um mundaréu de árvores. Pescara também tem seu trecho bastante sinuoso, mas é uma pista bem mais veloz. Além disso, o cenário é totalmente urbano – e praiano.  Quer fazer alguma comparação? É a versão européia do saudoso Circuito da Gávea.

Embora todos o chamem de Pescara, a verdade é que este circuito passa por três municípios, cada um representando um dos vértices do triângulo que forma o traçado. O início se dá na Via Nazionale Adriática, estrada localizada na periferia mais ao norte de Pescara que fica a poucos metros do mar. Ao chegar no primeiro vértice, o traçado segue à direita em direção ao município de Capelle. Até lá, o piloto deverá atravessar as colinas de Abruzzo, completando uma série de curvas bem sinuosas que passa por vilas como Spoltore e Villa Raspa. É como se você estivesse indo para Minas Gerais.

Ao chegar em Capelle, o traçado vira novamente à direita e dá início a uma seqüência quase retilínea de quase 6,5 quilômetros de extensão. O fim deste trecho representa o último vértice do traçado, localizado no município de Monte-Silvano. O traçado faz uma curva de 90° e desemboca na reta de chegada, que também tem algo em torno de 6,5 quilômetros de extensão. A explicação não é tão simples, então fique com o vídeo, que também não é muito melhor.

A versão de Pescara tratada aqui é a de 1934, que já conta com a chicane na primeira reta. Ela tem 25,579 quilômetros de extensão, duas grandes retas, um trecho completamente sinuoso e nada menos que 46 curvas. O recorde oficial pertence a Juan Manuel Fangio, que fez a pole-position da corrida de Fórmula 1 de 1957 com o tempo de 9m44s6 e média de 157,516km/h. Parece pouco? No calendário, Pescara só perdia em velocidade média para Indianápolis, Monza e Rouen. Na corrida extra-oficial de 1950, o mesmo Fangio chegou à absurda velocidade de 309km/h no fim da reta que leva a Monte-Silvano.

Portanto, dá para classificar Pescara como uma pista de alta velocidade com um trecho bastante sinuoso em subida que corta parte desta velocidade. Acertar o carro, aí, é um desafio. Você pode escolher entre torná-lo mais veloz nas retas e problemático nas curvinhas das colinas ou torná-lo mais guiável no trecho sinuoso mesmo perdendo velocidade nos retões. Ah, é bom dizer que as ultrapassagens só acontecem nas retas. O trecho sinuoso é tão travado e estreito como em Mônaco.

Conheça alguns trechos:

MADONNA: É a primeira grande reta do circuito. Tem quase 6,5 quilômetros de extensão e está a poucos metros da praia. Pouco antes da linha de chegada, há uma chicane no sentido direita – esquerda – direita, que foi uma das primeiras da história do automobilismo.

PESCARA: E a pista de Pescara possui uma curva Pescara! É um dos três vértices do traçado. Trata-se de uma curva de 90° feita à direita em velocidade razoavelmente baixa. A partir daí, inicia-se o trecho sinuoso.

MONTANI E VILLA RASPA: São, provavelmente, as duas curvas mais velozes do trecho mais sinuoso. A Montani é feita à esquerda e, logo em seguida, surge a Villa Raspa, feita à esquerda. Ambas possuem raio relativamente grande e representam períodos de aceleração. Vale notar que a Montani é um pouco mais lenta porque engloba também a curva de baixa feita à direita que encaminha o piloto para a Villa Raspa.

SPOLTORE, POMACE E VILLA SANTA MARIA: Três grampos. Cada um deles tem um formato. A Spoltore é feita à esquerda e é bastante aguda. A Pomace é feita à esquerda e é menos apertada. A Villa Santa Maria é a mais aguda de todas e também é feita à direita. Cada uma delas está em uma parte distinta daquele trecho sinuoso.

CAPELLE: É outro grampo minúsculo feito à direita. Mas este daqui, cujo nome é o da cidade homônima, também representa o segundo vértice do circuito. A partir daí, inicia-se o trecho de alta velocidade.

MULINO: É a segunda grande reta do circuito, com 6,5 quilômetros de extensão. Como é ligeiramente maior que a reta Madonna, é considerado o trecho mais veloz do circuito. Foi aqui que Fangio fez 309km/h em 1950.

MONTE-SILVANO: É a última curva do circuito, e também o último dos três vértices. É uma curva de velocidade de média para baixa feita à direita a cerca de 90°. Corresponde ao trecho que passa no município homônimo.

Infelizmente, não consegui nenhum vídeo razoável sobre Pescara. Tem esse onboard aí, mas achei meio malfeito. Nem consegui identificar as curvas. Mas é o que temos.

Abro as notícias e me deparo com a triste nota sobre a morte do ex-piloto dinamarquês Christian Bakkerud, de 26 anos. Desconhecido para a esmagadora maioria dos fãs de automobilismo, Bakkerud se acidentou com seu possante Audi RS6 em uma rotatória próxima ao Wimbledon Parkside, em Londres, na noite do último sábado. Ele estava sozinho no carro, que capotou e ficou completamente destruído.

Bakkerud foi levado ao hospital St. George em estado gravíssimo, com várias lesões cerebrais. Algumas horas depois, já no domingo, os médicos confirmaram sua morte. Mas foi somente ontem que a comunidade automobilística, por meio do site Autosport, ficou sabendo do ocorrido. Pilotos como Paul di Resta, Karun Chandhok, Narain Karthikeyan, Andy Soucek, Giedo van der Garde e Sam Bird o homenagearam no Twitter. Enfim, mais uma história triste de 11 de setembro.

Não pretendo homenagear aqui “a impressionante carreira de Christian Bakkerud”, já que ela não tinha nada de impressionante. O dinamarquês começou no kart aos 10 anos e, logo de cara, ganhou um título em seu país na categoria Cadete. Nos anos seguintes, os sucessivos bons resultados o credenciaram como um dos melhores kartistas da Dinamarca. Em 2000, Bakkerud foi incluído em um programa de desenvolvimento de pilotos da Federação Dinamarquesa de Automobilismo. Com esse apoio, Christian conseguiu disputar alguns campeonatos internacionais de kart, sempre aparecendo bem.

Só que isso não foi o suficiente para ajudá-lo em sua carreira nos monopostos. Bakkerud estreou neste tipo de competição em 2002, quando assinou com a equipe VIVA para disputar a Fórmula BMW ADAC ao lado de um certo Nico Rosberg. Enquanto o filho de Keijo Rosberg ganhava o título com folga, Christian conseguia apenas um pódio e o 15º lugar nas tabela. Tudo bem, ir mal no primeiro ano não é tão absurdo. O melhor é seguir na Fórmula BMW ADAC no ano seguinte e tentar, então, o título.

Mas sua segunda temporada foi ainda pior. Bakkerud, com 19 anos, tinha de conciliar as corridas na Alemanha com sua vida escolar, e ele acabou não conseguindo fazer nada direito.  Para piorar, um grave acidente – seu primeiro – o impediu de disputar mais etapas. Com isso, apenas cinco pontos foram marcados. A carreira de Christian Bakkerud, nos anos seguintes, seria caracterizada pelos azares, pelos acidentes e pela irregularidade nos resultados.

Em 2004, Bakkerud decidiu ir para a Inglaterra para disputar a Fórmula BMW local. Agora, não havia mais perdão: ele já tinha duas temporadas de experiência com esses carros, um Riccardo Patrese para os padrões da categoria, e qualquer coisa abaixo do título seria uma desgraça para ele. E foi mesmo. Obtendo apenas três pódios, Christian terminou o ano em 11º. Sua sorte é que sua equipe, a Carlin Motorsport, tinha uma equipe na Fórmula 3 britânica.

Sendo assim, após alguns bons testes em Pembrey, Trevor Carlin decidiu promover Bakkerud a um de seus cinco carros na Fórmula 3 em 2005. Com companheiros bizarros como Ricardo Teixeira e a modelo Keiko Ihara, não seria difícil se sobressair. Mesmo assim, ele não foi tão bem. Os outros dois companheiros do dinamarquês, Álvaro Parente e Charlie Kimball, acabaram o ano como campeão e vice-campeão. Bakkerud conseguiu um segundo lugar em Croft como melhor resultado e terminou o ano em sétimo, com 124 pontos, menos da metade do campeão Parente.

No ano seguinte, a paciente Carlin Motorsport decidiu manter Bakkerud como o primeiro piloto da equipe na Fórmula 3.  Seus companheiros eram Teixeira, Ihara e os estreantes Oliver Jarvis, Mario Moraes e Maro Engel. Christian nunca havia desfrutado condições tão boas no automobilismo. Foi nessa época que ouvi falar dele pela primeira vez. Meio na ignorância, o considerava como o favorito ao título da Fórmula 3 britânica em 2006.

Para surpresa geral, quem chegou chegando foi Oliver Jarvis, que se intrometeu na festa da equipe Double R e obteve o vice-campeonato para a Carlin. Enquanto isso, o experiente Bakkerud só conseguiu um discreto sexto lugar no campeonato. Ao menos, ele obteve sua primeira – e única – vitória nos monopostos. E que vitória: saindo da segunda posição, Bakkerud passou o líder por fora na primeira curva e, em apenas dezesseis voltas, conseguiu vencer com uma distância de dez segundos, uma monstruosidade para os padrões da Fórmula 3. Essa vitória o projetou a patamares maiores.

Em fevereiro de 2007, Christian Bakkerud assinou um contrato com a David Price Racing para correr na GP2 Series. A GP2 é uma categoria chique e bonitona, mas correr na paupérrima e desorganizada DPR não era o sonho de ninguém. Ao menos, a partir daí, deu para começar a prestar atenção em sua carreira. Que não melhorou muito.

Bakkerud tinha como companheiro de equipe o espanhol Andy Soucek, que havia acabado de se sagrar vice-campeão da World Series by Renault. No início do ano, os dois estavam no mesmo péssimo patamar, sofrendo para não ficar nas últimas posições. Com o passar do tempo, no entanto, Soucek melhorou bastante, começou a largar entre os quinze primeiros constantemente e até conseguiu um pódio em Spa-Francorchamps. Por outro lado, Bakkerud só se complicava com problemas no carro. E na sua coluna.

Nas primeiras voltas da primeira corrida em Barcelona, Bakkerud começou a ter algumas dores em sua coluna. Do nada. Conforme a prova avançava, as dores pioravam. Ele até conseguiu chegar em 12º, mas mal conseguiu ficar de pé depois. No dia seguinte, Christian tentou disputar a segunda corrida, mas não agüentou as dores e abandonou precocemente. Após uma consulta com um ortopedista, foi diagnosticada uma hérnia de disco. Que azar, não?

Após a rodada espanhola, Bakkerud decidiu passar por um rápido período de tratamento, de modo que ele não tivesse de perder a corrida de Mônaco. Ele tentou competir normalmente nas demais etapas, mas as dores voltaram com força em Istambul. O negócio ficou tão feio que ele não conseguiu participar de nenhuma das duas corridas daquele fim de semana.

Na semana anterior à corrida de Monza, ele tentou participar de uma corrida de kart, mas as dores na coluna voltaram e o dinamarquês anunciou que, desta vez, a DPR teria de achar outro piloto para correr na Itália, pois ele teria de se submeter a um tratamento mais complexo na Áustria para acabar de vez com sua hérnia de disco. Para sua felicidade, o tratamento deu certo e a hérnia foi resolvida. O que não deu para resolver foi sua péssima situação no campeonato: nenhum ponto e uma lamentável 34ª posição na tabela.

Em 2008, parecia que as coisas mudariam drasticamente. Christian Bakkerud assinou com a Super Nova Racing para disputar as temporadas européia e asiática da GP2 Series. A Super Nova havia terminado a temporada de 2007 na quarta posição com Luca Filippi e ainda era um lugar razoável para correr. Mas a boa esperança morreu logo na primeira corrida da série asiática, em Dubai.

Em um incidente relativamente pequeno com seu Dallara-Mecachrome, Bakkerud acabou lesionando sua coluna, o que trouxe de volta as malditas dores nas costas. Mesmo assim, ele completou a temporada asiática e não conseguiu nada além de um nono lugar como melhor resultado e nada menos que sete abandonos em dez corridas.

Sua coluna voltou a penar logo na primeira corrida da temporada européia, em Barcelona. Na segunda volta, Bakkerud se chocou com Ben Hanley na primeira curva e seu carro levantou vôo, aterrissando com força naquele asfalto poroso da área de escape. O dinamarquês até conseguiu seguir em frente na corrida, mas não demorou muito e encostou o carro nos pits. Depois, com muitas dificuldades, deu um pulo no Centro Médico e tomou alguns analgésicos. Sua lesão na coluna havia piorado e ele teve de se ausentar da corrida do domingo.

Graças a estes dois problemas, Bakkerud teve de se ausentar da corrida de Istambul, assim como aconteceu no ano anterior. O problema nem era uma nova manifestação de hérnia de disco, que havia sido curada no ano anterior, mas uma simples e dolorosa lesão na coluna vertebral. Ele voltou à Áustria para fazer algumas sessões de fisioterapia e, finalmente, ficar bem para a corrida de Mônaco.

Mas desgraça pouca sempre é bobagem. Logo na primeira curva da segunda corrida monegasca, Bakkerud acabou acertando a traseira de Andreas Zuber e seu carro levantou vôo novamente. Dessa vez, a decolagem foi bem assustadora, como podemos ver aí na foto de cima. Mais uma vez, Christian aterrissou com tudo no chão. A novidade deste acidente foi o fato da coluna não voltar a doer imediatamente. Imediatamente.

Dias depois, em um teste em Paul Ricard, Bakkerud voltou a sentir dores nas costas. Aí já é demais. Então, o próprio piloto pediu demissão alegando que ele deveria ficar um bom tempo fora se recuperando dos problemas na coluna se ele não quisesse acabar em uma cadeira de rodas. David Sears, sem grandes escolhas, liberou o dinamarquês, que ficou fora do automobilismo durante alguns meses enquanto esperava pela melhora das suas condições físicas.

Cansado de destruir sua coluna vertebral gradativamente em acidentes com monopostos, Christian Bakkerud decidiu concentrar sua vida nos carros fechados. Em 2009, ele anunciou seu retorno ao esporte a motor com um contrato com a Kolles para correr na DTM. Nas horas vagas, ele até poderia disputar alguma corrida de protótipos com a mesma Kolles.

Mesmo com essa mudança, os resultados não melhoraram muito. Na DTM, Bakkerud não sabia o que fazer para extrair melhor desempenho de seu Audi de dois anos de idade. Mesmo com um grid que não ultrapassava os vinte carros, ele raramente conseguia largar entre os quinze primeiros e sua melhor posição foi um inexpressivo 12º lugar na segunda corrida de Hockenheim. Nos protótipos, o dinamarquês conseguiu resultados um pouco melhores. Na etapa de Silverstone na LMS, ele terminou em uma honrosa quinta posição dividindo um Audi R10 com o xará Christijan Albers.

Em 2010, Christian Bakkerud decidiu que não dava mais para seguir no automobilismo sendo um zero à esquerda. Fez apenas as 24 Horas de le Mans pela mesma Kolles e não conseguiu completar a corrida. Depois, decidiu largar de vez esta vida devassa. Com o diploma de Gestão de Negócios que conseguiu na European Business School no fim de 2008, Christian arranjou um emprego de gerente de exportações em uma empresa chamada Shipco Transport. Além disso, arranjou uma noiva. Seu casamento estava marcado para o fim deste ano.

Esta não foi a carreira mais legal que eu já descrevi, longe disso. Se não fosse pela sua morte, Christian Bakkerud provavelmente nunca teria sido mencionado neste blog, por mais que eu goste de falar sobre a GP2 Series. Não consigo ser hipócrita com esse negócio de morte. Nos fóruns estrangeiros, vi muita gente dizendo que era um piloto muito competente que poderia ter ido longe se não fossem os recorrentes problemas na coluna. Menos, gente. Ele pode ter sido um cara legal em vida (não o conheci, não tenho meios de dizer), mas sua carreira foi simplesmente ruim. Assim como foram ruins as carreiras de muitos pilotos superestimados após seus falecimentos. Tenho vários nomes em mente, mas não faz sentido citá-los aqui.

O que pretendo aqui é simplesmente registrar o meu pesar com uma morte bastante precoce. Há quem aponte uma possível culpa nele, já que os pilotos tendem a extrapolar suas loucuras no trânsito dos comuns. Como a polícia inglesa ainda está averiguando as causas do acidente, que tanto pode ter sido falta de inteligência do motorista como um gato safado atravessando a rua, dou a Christian o benefício da dúvida. Vale lembrar que ele era um sujeito que trabalhava e que estava prestes a constituir uma família. Pode ser um pouco precipitado jogá-lo na mesma vala de alguns mauricinhos brasileiros que não conseguem nada nas pistas e que também não tem nenhuma outra preocupação na vida a não ser puxar suas motos de 40 mil cilindradas nas estradas paulistas.

Quando morre um piloto jovem, fico meio mal. Não conheço nenhum pessoalmente (uma vergonha, já que até mesmo minha namorada já trocou idéia com o Antônio Jorge Neto) e tenho milhares de preocupações mais importantes do que um simples mundo imaginário de corridas de carros. Mas não consigo ser totalmente frio enquanto acompanho as carreiras de dezenas, ou centenas, de pilotos. Você vê o cara correr, ganhar, perder, bater, ultrapassar, reclamar, celebrar e subir de categoria. Aí, de repente, ele morre. E você pensa sobre a história que acabou de ser encerrada. Os amigos que ele deixou. A família. Como estariam seus pais agora? Eu sei, muita gente morre todos os dias, muitas vezes devido a razões completamente brutais ou insanas. O fato é que a realidade dos pilotos é aquela que muitos de nós, fãs da velocidade, acompanha mesmo que de longe. E que, de alguma forma, nos toca. Desculpem, eu me sinto meio mal, mesmo.

Descanse em paz, Christian.

1984 - 2011

RED BULL9 – Antes do fim de semana, todo mundo dizia que a McLaren era a favorita para esta corrida. Pois não é que todos estavam errados? Com exceção do primeiro treino livre, os rubrotaurinos pontearam todas as sessões possíveis, inclusive a mais importante, a corrida. É uma pena que apenas um piloto consiga usufruir das muitas qualidades do RB7. Sebastian Vettel marcou a pole-position, recuperou a ponta perdida para Alonso ainda no começo e desfilou rumo à sua oitava vitória. Enquanto isso, Mark Webber fez tudo errado e terminou com o carro destruído.

MCLAREN7,5 – Para uma equipe que foi apontada como a favorita até mesmo por gente da Red Bull, Monza não foi o fim de semana mais legal de todos. O maior problema foi a limitada velocidade no fim das retas, o que atrapalhou, por exemplo, a corrida de Lewis Hamilton, que ficou preso atrás de Schumacher por um tempão, mesmo utilizando o DRS. Lewis terminou em quarto. Jenson Button, mais espertinho, passou algumas pessoas e terminou em segundo. Não foi tão ruim assim, mas para quem esperava bater a Red Bull…

FERRARI6,5 – Não sei como é que a equipe quer alguma coisa se os pilotos chegam no final das corridas com os pneus em estado de miséria. Fernando Alonso, aquele que fez uma largada excepcional e que peitou Vettel nos primeiros metros da corrida, perdeu o segundo lugar para Button porque seus pneus haviam acabado. Não sei se Felipe Massa teve esse problema. Se teve ou não, isso não fez diferença, já que ficou naquela mesma sexta posição discreta de sempre.

MERCEDES8 – Poderia ter tido um fim de semana bem mais feliz se os dois pilotos tivessem feito um pouco mais no treino oficial. Nico Rosberg, aliás, acabou prejudicado pela sua posição desvantajosa, já que foi atingido no acidente da largada. Michael Schumacher, o moicano sobrevivente, protagonizou uma belíssima briga com Hamilton por duas dezenas de voltas e conseguiu terminar em quinto. O carro estava velocíssimo nas retas.

TORO ROSSO8 – Se o objetivo da equipe é sempre marcar pontos com os dois carros, Monza não poderia ter sido melhor. Sébastien Buemi e Jaime Alguersuari não arrancaram sorrisos no treino oficial, mas se deram bem com o acidente da largada, o espanhol mais que o suíço. Jaime terminou em sétimo, Sébastien ficou em décimo e o DJ volta a estar na frente na preferência dos chefões da equipe.

FORCE INDIA6 – Não fez nada de mais, mas saiu da Itália com quatro pontinhos na carteira. Eles foram marcados por Paul di Resta, que não foi afetado pelas confusões da primeira chicane. Adrian Sutil se deu mal na largada, perdeu um monte de posições e ainda teve problemas hidráulicos.

RENAULT8 – Tinha um carro muito bom em Monza, ainda mais sabendo que Vitaly Petrov e Bruno Senna estiveram sempre entre os mais velozes nas retas. Os dois passaram para o Q3 da classificação e Petrov conseguiu um bom sétimo tempo. A corrida de ambos foi estragada pelo kamikaze Liuzzi. O russo não conseguiu sobreviver à primeira chicane. Bruno ainda terminou em nono e salvou a honra da Renault, além de ter feito seus primeiros pontos na Fórmula 1. O carro preto parece gostar de pistas velozes.

WILLIAMS4 – Nos terríveis dias correntes, um 11º e um 12º lugares podem ser considerados bons resultados. Pastor Maldonado até poderia ter marcado pontos, mas perdeu muito desempenho conforme a corrida avançou. Rubens Barrichello também poderia ter pontuado, mas teve de ir para os pits muito cedo consertar a destruição da largada. O carro não parecia ser tão rápido nas retas. E nem nas curvas.

LOTUS6,5 – Andar lá atrás, às vezes, tem suas vantagens. No caso dos esverdeados, Jarno Trulli e Heikki Kovalainen puderam sobreviver ao caos da primeira chicane. Os dois largaram nesta ordem, mas Kovalainen inverteu as coisas durante a corrida. Mas mesmo assim, os primeiros pontos ainda não vieram.

VIRGIN3,5 – O desempenho é o mesmo de ontem, hoje e sempre. Novidade foi o abandono do confiável Jerôme D’Ambrosio, que ficou sem câmbio após apenas três voltas. Timo Glock treinou, largou, se arrastou e chegou. É a equipe que me fornece menos material para escrever aqui.

HISPANIA1 – Que primeira volta, hein? Enquanto Daniel Ricciardo ficava parado no grid, Vitantonio Liuzzi abusava de seus talentos kenblockianos e, após belo drift, acertava os carros de Petrov e Rosberg sem dó. O australiano ainda teve problemas de superaquecimento no motor, mas conseguiu voltar à pista para dar algumas voltinhas. E até conseguiu chegar ao fim.

SAUBER1,5 – Fim de semana terrível. Os carros não estavam rápidos e nem confiáveis. No treino classificatório, Kamui Kobayashi quase ficou no Q1 e Sergio Pérez não esteve em situação muito melhor. Na corrida, o mexicano até conseguiu se aproveitar do acidente para ganhar um monte de posições, mas o câmbio de seu carro quebrou. E o mesmo problema também tirou Kobayashi da prova.

TRANSMISSÃOKING FOR A DAY – Ih, olha só, o roqueiro Jamiroquai! Ele está prestigiando o Grande Prêmio da Itália nos boxes da Ferrari. Espera um momento. Eu estou confundindo as bolas. O Jamiroquai não é uma pessoa. Muito menos um roqueiro. Talvez eu esteja me referindo ao vocalista da banda, o Jay Kay. Agora, sim. Ninguém olha para o Jim Morrison e diz que “aquele cara que canta Light My Fire, o Doors, é muito bom”. E o Jamiroquai não é uma banda de rock. Eles misturam um monte de coisa e etiquetam a mistureba com os adesivos “jazz” e “funk”. Mas tudo bem, pois quem lida com esportes não tem a menor obrigação de saber disso. Quem lida com esportes deve, sim, apontar a realidade. E a realidade não foi tão dourada (e preta) assim para Bruno Senna. Ele largou em décimo, caiu para o fim do grid e terminou em nono. Foi bom, mas não foi sensacional. Alguns que trabalham nas transmissões deveriam se tocar disso.

CORRIDAAGRADECIMENTOS A SCHUMACHER E LIUZZI – Estes dois aí foram os grandes nomes da corrida. O primeiro, com toda a sua coragem e a sua genialidade habituais, manteve um sedento Lewis Hamilton em seu lugar por vinte voltas. A disputa entre os dois foi bonita, perigosa e selvagem. Não por acaso, um é heptacampeão mundial e o outro ainda tem tudo para ser um dos grandes da história da categoria. Quem contesta a qualidade de qualquer um dos dois não está com suas faculdades mentais em bom estado. E o outro grande personagem, Liuzzi, só protagonizou o acidente mais legal do campeonato, que levou dois (Petrov e Rosberg) para casa e bagunçou todo o grid do meio do pelotão para baixo. Mesmo que alguns momentos tenham sido calmos até demais, os dois personagens aí em cima produziram uma das melhores corridas da temporada.

GP2PUNTO E BASTA – É, gente, acabou. A categoria mais legal dos monopostos encerrou sua sétima temporada ontem, no mesmo circuito de Monza da Fórmula 1.Uma temporada boa sem ser ótima que teve boas e péssimas corridas, bons e péssimos pilotos e um carro que parece permitir mais brigas que o anterior. Nesta semana, ou na outra, escrevo o resumo da temporada 2011. Falando sobre Monza, Luca Filippi deixou o pole-position Charles Pic para trás e ganhou a primeira corrida do fim de semana, aquela que vale mais pontos e uma estrelinha na testa. Na corrida do dia seguinte, Christian Vietoris repetiu a vitória do ano anterior. As provas foram inesperadamente chatas, mas bem significativas para os vencedores. Filippi conseguiu um inédito vice-campeonato, algo muito positivo para alguém que insiste obcecadamente nesse negócio de Fórmula 1. Vietoris acabou superando o companheiro Dani Clos no campeonato. Na pista, acabou desse jeito. Fora dela, todo mundo ficou triste pra caramba com a notícia da morte do dinamarquês Christian Bakkerud, que havia sofrido um acidente de carro na Inglaterra no sábado à noite. Escrevo sobre ele amanhã.

SEBASTIAN VETTEL10 – Que fim de semana, hein? Primeiro colocado em dois dos três treinos livres, pole-position com quatro décimos de vantagem para o segundo colocado, líder da corrida a partir da quinta volta e vencedor com absoluta folga. Sua oitava vitória foi impecável, devastadora e incontestável. No pódio, chorou. Lembrou-se de sua primeira vitória na Fórmula 1, obtida em 2008 com um Toro Rosso. Tem boas chances de fechar o campeonato já em Cingapura, local da próxima corrida. É um jovem estratos acima da média.

JENSON BUTTON9,5 – Lamarck teria orgulhos deste cara. Mais uma vez, Button se aproveitou de todas as situações para se dar bem e obter um brilhante segundo lugar. Não conseguiu a primeira fila e ainda perdeu várias posições na primeira volta, mas se recuperou e conseguiu a proeza de ultrapassar os bélicos Hamilton e Schumacher em uma única volta. Depois, aproveitou-se do mau estado dos pneus de Alonso para assumir a segunda posição. Sua inteligência o deixa nove pontos à frente do companheiro Hamilton.

FERNANDO ALONSO9 – Mais uma vez, fez mais do que o carro permite. Na largada, como uma bala perdida, saiu da quarta posição para a primeira sem qualquer oposição. Sob bandeira verde, não conseguiu permanecer na frente por mais do que uma volta e alguns metros, mas andou tranquilamente em segundo durante um bom tempo. Depois, teve problemas com os pneus e perdeu a segunda posição para Button, mas ainda conseguiu pegar um lugar no pódio. Considerando que quatro pilotos tem um carro melhor que o seu, fez até demais.

LEWIS HAMILTON 8,5 – Liderou o primeiro treino livre e dava impressão de que, finalmente, conseguiria peitar Sebastian Vettel. Mas o sonho acabou aí. Embora tenha feito o segundo treino na classificação, ficou quatro décimos atrás do alemão. Na corrida, sucumbiu a Alonso na largada e a Schumacher na relargada. Depois, protagonizou ao lado do heptacampeão a disputa mais bonita dos últimos tempos. Durante exatas vinte voltas, Lewis ficou atrás de Michael tentando encontrar um espaço para ganhar sua posição. Em determinado momento, até conseguiu, mas tomou o troco logo depois. O inglês só conseguiu concretizar o feito na volta 27. Mas estava muito atrás dos três primeiros e sossegou ali na quarta posição. Vale lembrar que a velocidade do McLaren não era a maior – o que certamente dificultou sua vida na briga com Schumacher.

MICHAEL SCHUMACHER9 – Como é que eu vou dar uma nota mais baixa do que essa para ele? Pela segunda corrida consecutiva, Schumacher deu show e mostrou que, estando inspirado, ainda é um dos grandes pilotos da Fórmula 1. Foi melhor que Rosberg no treino classificatório, fez uma superlargada e estava em quarto quando o safety-car entrou na pista. Depois, ainda ultrapassou Hamilton com classe. E manteve-se à frente do inglês por vinte voltas, mesmo com o inglês usando o DRS nas retas. Só perdeu a briga na volta 27. E permaneceu em quinto até o fim.

FELIPE MASSA6 – Mais uma corrida silenciosa. Mais um sexto lugar silencioso. Nem mesmo no quintal da Ferrari, Felipe Massa conseguiu realizar uma corrida expressiva. Tudo bem, o acidente com Mark Webber não facilitou sua vida. Mas é triste vê-lo esquecido em uma espécie de limbo, tão longe dos pilotos de ponta como dos pilotos do meio do grid. Pelo menos, se divertiu um pouco ultrapassando pilotos de carros mais lentos. Mas, fazendo alteração livre nas palavras de Galvão Bueno, não é isso que se espera de um piloto da Ferrari.

JAIME ALGUERSUARI8,5 – Está em ótima fase e, nesse momento, é o que tem maiores chances de sobreviver ao cruel vestibular da Toro Rosso. No treino classificatório, ao contrário de Spa-Francorchamps, não foi bem e largou só à frente dos carros das equipes pequenas. Na corrida, no entanto, foi o que mais se beneficiou com as confusões da primeira volta e ganhou uma baciada de posições. Mas devemos destacar também o fato de ter sido rápido o suficiente para ter deixado Maldonado e Di Resta para trás.

PAUL DI RESTA6,5 – Voltou a pontuar em uma corrida bastante sólida, embora não perfeita. Ficou perto do Q3 na classificação, mas podemos dizer que, provavelmente, ele teria tido problemas na primeira curva se tivesse largado em nono ou décimo. Ao sobreviver ao pandemônio causado por Liuzzi, se livrou de vários adversários e pôde pelejar pelos pontos. Acabou perdendo uma posição para Alguersuari na estratégia, mas não tem o direito de ficar chateado pelo oitavo lugar.

BRUNO SENNA7 – Não, não foi uma corrida brilhante e genial como muita gente gostaria. O trabalho do brasileiro foi, sim, muito bom para alguém em sua situação. E só. No treino oficial, quase ficou de fora do Q3, mas se salvou no segundo tempo da prorrogação. Nesta última parte, inteligentemente optou pelo sacrifício de uma posição melhor para conseguir poupar um jogo de pneus. Na corrida, foi prejudicado indiretamente no acidente da largada e caiu para o fim do grid. Recuperou-se, fez boas ultrapassagens sobre Kobayashi e Buemi e marcou seus dois primeiros pontos. Que a lucidez seja despejada sobre aqueles que ainda babam pela combinação entre carro preto e capacete amarelo.

SÉBASTIEN BUEMI6 – Volta a ficar em larga desvantagem em relação a Alguersuari na briga fraticida da Toro Rosso. Andou melhor que o catalão no treino oficial, mas acabou tocando o carro estacionário de Rosberg na primeira curva e danificou a traseira de seu STR6. O suíço até conseguiu recuperar algumas posições no decorrer da prova e representou adversário difícil para Bruno Senna nas últimas voltas, mas não conseguiu nada além de um décimo lugar.

PASTOR MALDONADO 5 – Bateu na trave. Em um dos treinos livres, fez das suas e bateu seu Williams no guard-rail. No treino oficial, chegou a ficar à frente de Barrichello durante boa parte do Q2, mas acabou ficando uma posição atrás. Na largada, se deu muitíssimo bem com o acidente e pulou para a nona posição. Depois, até tentou se manter nas posições pontuáveis, mas seu FW33 era fraco demais para isso e ele acabou voltando para casa de mãos vazias. Enfim, muita ação para pouco resultado.

RUBENS BARRICHELLO3,5 – Haja motivação para seguir na Fórmula 1 desse jeito. Não, ele não fez papelão, mas também não conseguiu nada digno de seus mais de 300 GPs. No treino oficial, suou para superar o companheiro Pastor Maldonado. Na largada, acabou quebrando um bico em um toque no Mercedes de Rosberg e teve de fazer uma parada prematura. Depois, não fez rigorosamente mais nada de relevante. Mas chegou ao fim.

HEIKKI KOVALAINEN6 – Em determinado momento, eu até achei que daria para ele marcar algum ponto. Dessa vez, Heikki largou atrás de Jarno Trulli, mas as coisas se inverteram logo na largada. Para sua felicidade, um monte de gente à sua frente abandonou em acidentes ou quebras. Por isso, o 13º lugar. Como presente, ganhou um contrato novinho em folha com a Lotus em 2012.

JARNO TRULLI6 – Também conseguiu um resultado bom para suas possibilidades. No treino oficial, superou Heikki Kovalainen e foi o melhor das equipes nanicas. Na corrida, acabou perdendo a asa dianteira em um daqueles múltiplos incidentes da primeira curva e teve de fazer uma parada prematura. Mas não teve problemas para superar carros mais lentos e conseguiu terminar em uma interessante 14ª posição.

TIMO GLOCK5 – É outro que corre sem grandes ambições.  No treino classificatório, teve algum trabalho para permanecer à frente de Jerôme D’Ambrosio. Na corrida, sobreviveu incólume à primeira curva e chegou a assumir a 14ª posição. Com o passar das voltas, foi ultrapassado por todo mundo e acabou terminando à frente apenas do inexplicável Hispania de Daniel Ricciardo.

DANIEL RICCIARDO4,5 – Ele demorou um pouco, mas conseguiu. Uma volta dois décimos mais rápida que a de Vitantonio Liuzzi fez o australiano ganhar a parada pela primeira vez na temporada. Para sua infelicidade, o carro estava travado na terceira marcha na largada e não conseguiu partir. Empurrado para os pits, Daniel tentou voltar, mas o motor superaqueceu e ele teve de voltar aos pits novamente. Depois de tantos problemas, só restava a ele ir para a pista e ganhar alguma experiência. Pelo menos isso deu certo.

SERGIO PÉREZ6,5 – Certamente tinha boas chances de pontos para essa corrida, até mesmo pelo fato de ter de utilizar os pneus macios na parte final. Começou bem ao conseguir se sair bem melhor que Kobayashi no treino classificatório e ainda ganhou um monte de posições na carambola da primeira curva, mas teve problemas de câmbio enquanto estava em sétimo.

KAMUI KOBAYASHI 2 – É chato admitir isso, mas o japonês está em sua pior fase desde que estreou na Fórmula 1. No treino oficial, quase ficou de fora do Q2. Na largada, mesmo estando mais atrás, foi afetado no acidente da largada e teve de ir aos pits para trocar de bico e pneus. Depois, ficou longe dos pontos até o câmbio quebrar. Neste exato momento, me parece estar atrás de Pérez.

ADRIAN SUTIL2,5 – Neste fim de semana, parece ter voltado aos maus dias do início do ano. Já começou mais ou menos no treino oficial, quando ficou atrás do companheiro Paul di Resta. Seu domingo não começou melhor: na largada, o alemão escapou do acidente passando reto na chicane e, com isso, perdeu um monte de posições. Sem conseguir andar perto dos pontos, restava a ele tentar ao menos chegar ao fim. Mas nem isso deu certo, já que o sistema hidráulico falhou.

MARK WEBBER1 – Ridículo. Só não ganhou zero porque, por incrível que pareça, não dá para ficar surpreso com esse tipo de atuação. Já começou mal fazendo apenas o quinto tempo no treino oficial, perdendo para o companheiro Vettel, as duas McLaren e até mesmo a limitada Ferrari de Alonso. No início, para variar só um pouco, largou mal e perdeu duas posições. Logo após o safety-car, tentou ultrapassar Felipe Massa na primeira chicane, se atrapalhou e bateu no brasileiro. Ao tentar ir para os pits para consertar o bico, perdeu o controle na Parabolica e bateu de frente na barreira. Uma corrida ruim até mesmo para seus vulgares padrões.

JERÔME D’AMBROSIO2,5 – Difícil avaliar alguém lá do fim do grid que só dá três voltas e abandona por um problema no câmbio. Ossos do ofício, enfim. O belga até se saiu bem no treino classificatório, pois seu tempo ficou bem próximo do de Glock. A corrida acabou logo ali no comecinho, mesmo. E só.

VITALY PETROV5,5 – Coitado. O sétimo tempo no treino oficial indicava que ele teria ótimas chances na corrida. Para sua enorme infelicidade, Vitantonio Liuzzi veio lá do inferno direto para a lateral de seu carro. Sua corrida acabou ali, naquela conturbada chicane.

NICO ROSBERG4,5 – Outro coitado. A nota menor vai pelo fato de ter perdido para uma Renault e para o Schumacher no treino oficial. Fez uma largada digna e vinha tocando rodas com Petrov na primeira curva. Mas Vitantonio Liuzzi transformou tudo em uma salada mista e Rosberg foi um dos contemplados, sendo tocado também por Barrichello e Buemi. Fim de prova.

VITANTONIO LIUZZI0 – Esse não é coitado porra nenhuma. Na classificação, foi superado por Daniel Ricciardo pela primeira vez. Só por isso, sua nota já não seria tão alta, mas o que ele viria a fazer no domingo carimbaria o zero de vez. Ao grudar na traseira de Kovalainen, ele perdeu o controle de seu Hispania, foi para a grama, veio deslizando de lado e acertou uns duzentos pilotos lá na chicane. Pela proeza, tomou punição de cinco posições a menos no grid, o que não mudará nada. Ainda por cima, culpou Kovalainen pelo acidente. Nem na Force India ele conseguia um fim de semana tão desastroso assim.

Romain Grosjean está pronto para voltar à Fórmula 1. É o que disse Eric Boullier, chefão da Renault, dono da Gravity Sport Management e empresário do francês mais paraguaio que eu já vi. Após conquistar o título da GP2 com três corridas de antecedência, Grosjean já não tem mais o que fazer no automobilismo para provar que tem lugar na categoria máxima.

É bacana ver o cara estando na boca do povo novamente. Em 2009, ele também estava com a bola toda, exaurindo moral no paddock da Fórmula 1. Mas algumas pequenas decisões se converteram em grandes desastres. Primeiramente, o relativo fracasso na GP2, aonde ele vinha perdendo terreno gradativamente para Nico Hülkenberg e para o próprio companheiro Vitaly Petrov. Depois, sabendo que seu título na GP2 estava indo para o ralo, assinou com a Renault para substituir Nelsinho Piquet a partir do Grande Prêmio da Europa. O resto da história nós sabemos: uma das participações mais patéticas e tristonhas dos últimos anos.

Após a infeliz primeira passagem pela Renault, Grosjean deu uma belíssima volta por cima. E deverá ter sua segunda chance na Fórmula 1. Outros pilotos não tiveram a mesma sorte. O Top Cinq de hoje conta cinco tristes histórias de jovens talentos que entraram na Fórmula 1 em condições bastante desfavoráveis e terminaram escorraçados pela categoria e bombardeados pela mídia e pelos torcedores. Em comum, todos se deram mal ainda muito cedo. E todos eram vistos como potenciais campeões do mundo.

5- MIKE THACKWELL

No início dos anos 80, o Romain Grosjean da vez era o neozelandês Mike Thackwell. Este daí tinha cara de James Hunt, hábitos de James Hunt (certa vez, seu irmão deu as caras no fórum Autosport e contou que Mike costuma surfar e tragar um pouco de marijuana), nome de piloto campeão e um pé extremamente pesado. O que faltou? Estar no lugar certo e na hora certa.

Thackwell estreou nos monopostos em 1979, quando largou a longínqua Nova Zelândia para correr na Fórmula 3 britânica. Mesmo desacostumado com o carro, os circuitos, os concorrentes, o chá e a torta de rim, Mike venceu algumas corridas e chegou em terceiro. No ano seguinte, arranjou um March e pulou para a Fórmula 2. Mesmo sem grandes resultados, o neozelandês deu show em várias corridas e até conseguiu alguns pontos. Nesse momento, ele tinha apenas 19 anos. As equipes da Fórmula 1 ficaram babando nele. Algumas mocinhas que queriam dar para um adolescente porra-louca também.

Não sei julgar se Mike Thackwell fez o certo ao aceitar alguns dos convites que lhe foram feitos ainda em 1980. Na Arrows, o alemão Jochen Mass havia se machucado na Áustria e a equipe decidiu colocar Thackwell como seu substituto. Sem quilometragem, ele não conseguiu se classificar, mas deixou ótima impressão.

No fim do ano, o velho Ken Tyrrell quis lhe dar um terceiro carro para disputar os GPs do Canadá e dos Estados Unidos. Em Montreal, Mike finalmente conseguiu se classificar para uma corrida, mas foi envolvido em um engavetamento na primeira largada com o companheiro Derek Daly e, para a nova largada, a Tyrrell achou melhor entregar o único carro reserva ao irlandês. Em Watkins Glen, Thackwell também não conseguiu se classificar. Foi legal ter estreado na categoria máxima e tal, mas o jovem piloto preferiu voltar à Fórmula 2 em 1981.

Dizem que seu estilo de pilotagem mudou muito, e para pior, após um violento acidente em Thruxton naquele ano. É difícil dizer isso, no entanto, de alguém que dominou a Fórmula 2 em 1984 e que quase ganhou a primeira temporada da Fórmula 3000 em 1985. No entanto, as portas da Fórmula 1 seguiram trancadas. Com exceção de uma prova inútil com a RAM e uma tentativa de classificação com a Tyrrell em 1984, Thackwell não conseguiu mais nada na categoria. Na verdade, ele tinha contrato assinado para disputar a temporada completa de 1986 pela RAM, mas a equipe faliu a poucos dias da primeira corrida e ele ficou de fora. Desanimado, ele se aposentou das corridas em 1988, com apenas 27 anos de idade. Hoje, ocupado com um monte de outras coisas, não quer mais saber de automobilismo.

Triste. Este, na minha opinião, foi o pior caso de talento desperdiçado nos anos 80.

4- NORBERTO FONTANA

A Argentina de Juan Manuel Fangio e Carlos Reutemann não emplacava nenhum piloto competitivo na Fórmula 1 desde o início dos anos 80. No fim desta mesma década, o tiozão Oscar Larrauri tentou fazer alguma coisa com a precária Eurobrun, mas não conseguiu nada. Diante deste deplorável cenário, não poderia haver nada melhor do que um jovem piloto do país que brilhasse ainda lá nas categorias menores. Este era Norberto Fontana.

No final dos anos 80 e início dos anos 90, aquele garoto com cara de índio que tinha nascido em Arrecifes era simplesmente o melhor kartista de seu país, algo análogo a Sérgio Jimenez por aqui. Após ganhar tudo nos pequenos carrinhos, Fontana se mudou para a Europa e seguiu com sua saga vencedora. Na Fórmula 3 alemã, conseguiu a proeza de vencer dez das catorze corridas da temporada de 1995. Bateu nomes como Alexander Wurz, Jarno Trulli e Ralf Schumacher. Achou pouca coisa?

Peter Sauber não achou. No fim de 1994, ele deu a Norberto uma oportunidade de testar o bom C13 em Barcelona. Com o ótimo desempenho, a Sauber decidiu contratar o argentino para ser piloto de testes no início de 1995. O problema é que, historicamente, a equipe suíça nunca gostou muito desse negócio de gastar tempo de testes com a molecada. A realidade é que Fontana acabou pilotando muito pouco o carro azulado, mas compensou competindo na Fórmula 3 em 1995 e na Fórmula Nippon em 1996.

Persistente, o argentino permaneceu na equipe no mesmo cargo até 1997. Para sua sorte, o titular Gianni Morbidelli havia fraturado o braço em um acidente em testes pouco antes do Grande Prêmio da França. Sem melhores opções, a Sauber decidiu efetivar Fontana para as corridas em Magny-Cours, Silverstone, Hockenheim. Estando fora de forma e nervoso por ter de pilotar um carro que mal conhecia, a outrora revelação não andou bem e conseguiu um 18º como melhor posição no grid e dois nonos lugares como melhores resultados finais.

Morbidelli voltou à Sauber a partir de Hungaroring, mas sofreu outro acidente forte em Suzuka e teve de ficar de fora da última corrida, em Jerez. A Sauber voltou a dar uma chance a Fontana, que não fez nada além de atrapalhar Jacques Villeneuve durante a corrida. Vale lembrar que Villeneuve disputava o título com o ferrarista Michael Schumacher e a Sauber utilizava motores Ferrari. Pois é… Depois dessa passagem desastrosa, a carreira internacional dele nunca mais decolou. Fontana tentou um emprego naTyrrell em 1998, na Minardi em 1999 e na Prost em 2001, mas não conseguiu nada. Passou pela Fórmula 3000 e pela CART e também não teve sucesso. Hoje em dia, é mais feliz no reluzente automobilismo argentino.

3- JOS VERSTAPPEN

Jos “The Boss” Verstappen era um dos nomes mais interessantes da segunda metade dos anos 90. Menos pelos resultados e mais pela diversão que ele proporcionava com belas ultrapassagens, eventuais atuações sensacionais e muitos, muitíssimos acidentes. Eu torcia por ele na Arrows e na Minardi, principalmente quando ele enlouquecia e decidia utilizar pouca asa traseira para voar nas retas.

O que poucos sabem é que Verstappen não era para ter sido esse personagem caricatural e perturbado. Na verdade, antes de entrar na Fórmula 1, ele era visto como uma das maiores promessas do automobilismo mundial. Em 1992, Jos estreou nos monopostos correndo na Fórmula Opel Benelux e obteve cinco vitórias em seis corridas. Nos seus dias de folga, ele disputou duas corridas da Fórmula Opel européia em Zolder e ganhou as duas. Além disso, ele disputou algumas corridas da Fórmula Atlantic holandesa. Ganhou três. Que cara foda.

No ano seguinte, Verstappen decidiu correr na Fórmula 3 alemã. Modesto, ele só ganhou oito corridas, o título da categoria e também o Masters de Fórmula 3 em Zandvoort. As equipes de Fórmula 1 ficaram maravilhadas com ele, que só tinha 21 anos de idade e cara de menos. A McLaren acenou com um teste, a Footwork acenou com outro, mas Jos acabou assinando com a Benetton de Flavio Briatore, que deve ter lhe prometido mundos e fundos. A princípio, ele só teria o calmo emprego de piloto de testes. Mas o segundo piloto, J. J. Lehto, estourou suas vértebras em um acidente na pré-temporada e Verstappen teve de ser promovido às pressas.

Não deu muito certo. No Brasil, ele se envolveu naquele famoso engavetamento na Reta Oposta. Em Aida, rodou sozinho ao sair dos boxes. Em Imola, Lehto retornou à Benetton, mas só ficou por lá até Montreal. Em Magny-Cours, Verstappen foi efetivado como segundo piloto e já começou batendo feio no muro dos boxes. Mais para frente, ele até melhorou e obteve dois pódios, mas era muito pouco. Antes da corrida de Suzuka, a Benetton inventou que “Jos estava com dores no pescoço e seria substituído por Johnny Herbert”. Falácia deslavada que o próprio holandês desmentiu. Ele foi demitido porque sua equipe não gostou do que viu.

De todos desta lista, Verstappen foi o único realmente prejudicado pela pressa de sua própria equipe. Imagine você o que é para um cara de 22 anos que saiu diretamente de sua primeira temporada de Fórmula 3 ter de pilotar um Benetton sem ter tido muitos testes. Infelizmente, Verstappen acabou ficando com a imagem de piloto limitado e desastrado. E pagou o restante de seus pecados nas Simteks e Footworks da vida.

2- DAVE WALKER

Seria Dave Walker o pior piloto que já passou por uma equipe grande de Fórmula 1? Às vezes, nos meus dias mais maldosos, é o que eu tendo a pensar. Afinal de contas, o que dá para dizer do único caso na história da Fórmula 1 de uma equipe onde o primeiro piloto ganha o título e o segundo piloto não marca um pontinho sequer? E não estamos falando de uma equipe qualquer. Esta era a Lotus de 1972, uma equipe rica e bastante moderna onde Emerson Fittipaldi ganhou seu primeiro título na categoria. O que aconteceu, então, com Dave Walker?

Walker era um australiano que passou boa parte dos anos 60 pilotando aqui e acolá, sem resultados muito consistentes. Sua carreira começou a tomar tenência em 1968, quando ele fez sua primeira temporada nos campeonatos de Fórmula Ford na Inglaterra. Em dois anos, ganhou nada menos que doze corridas. No segundo ano, foi contratado pela Lotus para correr com os monopostos de F-Ford de Colin Chapman.

Entre 1970 e 1971, Walker seguiu pilotando os carros da Lotus na Fórmula 3. Neste último ano, ganhou mais de duas dezenas de corridas em vários campeonatos da categoria, sagrou-se campeão inglês e venceu provas até mesmo em Mônaco e no Brasil. Além de vitórias, Dave arranjou inimigos como os brasileiros Wilsinho Fittipaldi e José Carlos Pace, que o acusavam de ter causado acidentes perigosos.

Com estes bons desempenhos, a Lotus quis efetivá-lo para a Fórmula 1 já em 1971. Sua primeira corrida foi uma etapa extra-campeonato em Hockenheim, na qual ele começou muito bem, ignorando um vazamento de óleo no seu Lotus equipado com turbina e causando, assim, um belo estouro de motor. Sua primeira corrida oficial foi em Zandvoort: Walker destruiu um carro no treino de sexta-feira e bateu outro na corrida. Colin Chapman ficou puto, mas o perdoou e decidiu contratá-lo como piloto titular em 1972.

Péssima escolha. Dave Walker era um idiota. Não cuidava do físico (os mecânicos da Lotus ficaram surpresos pelo fato dele ter devorado dois bifões em um restaurante argentino), não sabia nada de acerto de carro, não se relacionava com os colegas, não era gente boa, não aprendia nada e não agregava nada de bom. Emerson Fittipaldi, em certa ocasião, o descreveu como “o pior companheiro de equipe que jamais tive”. Por outro lado, a Lotus não lhe dava o mínimo apoio. Emerson Fittipaldi pilotava um carro de Fórmula 1 bem bonitão e potente. Dave Walker andava em um cacareco completamente desatualizado.

Não foi por acaso que Walker nunca conseguiu nada além de um nono lugar em Jarama. Absolutamente tudo estava errado por lá. Dave geralmente batia o carro no treino ou na corrida. Quando não batia, alguma peça de seu carro quebrava. Nesse caso, a Lotus estava pouco se lixando e geralmente colocava a culpa em seu piloto. Além disso, quase todos os testes foram realizados por Emerson Fittipaldi. O australiano era praticamente um enfeite.

A Lotus procurava um bom motivo para demiti-lo antes do fim do ano. Encontrou dois. No segundo semestre de 1972, Walker fez um teste com um GRD de Fórmula 2, o que era proibido por contrato. Além disso, um caminhão da Lotus sofreu um acidente enquanto ia para Monza e a equipe acabou ficando com apenas um carro. Então, Chapman e Peter Warr decidiram mandar Dave para casa alegando quebra de contrato pelo teste com a GRD e o fato de seu carro ter sido destruído no acidente de caminhão. Este foi o ano de 1972 do melhor piloto que a Fórmula 3 havia tido nos últimos anos.

1- JAN MAGNUSSEN

Este caso aqui ainda está fresquinho na memória de muita gente. Jan Magnussen, um dinamarquês com feições de Mick Jagger e hábitos tão saudáveis como o fumo e o consumo intensivo de Big Mac, foi o piloto que, depois de Ayrton Senna, mais impressionou Jackie Stewart no automobilismo de base. O mesmo Jan Magnussen foi um dos piores pilotos da Fórmula 1 nos anos 90. Como pode?

O verdadeiro ano da graça de Magnussen foi 1994. Ele disputou a Fórmula 3 britânica pela Paul Stewart Racing. Competiu contra nomes como Ricardo Rosset e Dario Franchitti. Ganhou 14 das 18 corridas, batendo o recorde de Ayrton Senna em 1983. Mas os números não são sugestivos para mostrar o quão Jan foi espetacular. Deveria ter vencido todas as corridas.

A revista Autosport descreveu a jovem sensação como um cara “dotado de enorme talento natural, impressionante versatilidade, grande capacidade de improviso, assustadora capacidade de feeling técnico e pura coragem”. Nas corridas, era comum vê-lo disparando logo no começo, sem dar qualquer chance aos adversários, no melhor estilo Jim Clark.

Os dois momentos mais legais, sem dúvida, foram a rodada dupla de Snetterton e a última corrida de Silverstone. Na primeira corrida de Snetterton, ele tentou uma ultrapassagem por fora em uma curva fechadíssima e quebrou o bico. No dia seguinte, inconformado, ele tentou a mesma ultrapassagem na mesma curva, se deu bem e ganhou a corrida. Em Silverstone, chovia pra caralho e ninguém conseguia permanecer na pista. Ninguém em termos. Jan largou na frente e passeou como se só ele estivesse na pista. Um gênio.

A McLaren ficou impressionada e o contratou como piloto de testes em 1995. Nesse mesmo ano, ele pilotou na DTM e não fez feio, vencendo uma corrida em Estoril. No final do ano, Mika Häkkinen, primeiro piloto da McLaren, teve de fazer uma cirurgia de apendicite e não pode disputar o Grande Prêmio do Pacífico. Magnussen entrou em seu lugar e andou bem, chegando a fazer uma ultrapassagem por fora sobre Rubens Barrichello. No ano seguinte, ele seguiu correndo no DTM/ITC e ainda fez algumas boas corridas na CART. Estava demorando para alguém da Fórmula 1 contratá-lo. Demorou, mas aconteceu.

Jackie Stewart decidiu chamar Magnussen para ser companheiro de equipe de Rubens Barrichello na sua nova Stewart Grand Prix. Todo mundo achava que o dinamarquês seria páreo duro para o brasileiro, mas nada disso aconteceu. Sempre relaxado, Jan não se importava muito com sua forma física e não era muito chegado ao trabalho. Não por acaso, enquanto o esforçadíssimo Rubens Barrichello sempre aparecia entre os dez primeiros, Magnussen ficava lá atrás. Ele até conseguiu largar em sexto na Áustria (Barrichello largou em quinto) e terminar em sétimo em Mônaco (Barrichello terminou em segundo), mas não fez mais nada de bom. E ainda foi ameaçado de demissão antes do fim do campeonato, mas o velho Jackie não tinha se esquecido dos tempos da Fórmula 3 e decidiu lhe dar nova chance.

Magnussen permaneceu na Stewart em 1998, mas seus resultados foram até piores. Em três treinos classificatórios, ele chegou a largar da 20ª posição para trás. Em Montreal, ele até conseguiu marcar um pontinho, mas isso não foi o suficiente para salvá-lo. Na corrida seguinte, Jos Verstappen entrou em seu lugar. No cruel mundo da Fórmula 1, não adiantava ganhar uma, dez ou cem corridas de Fórmula 3 se fosse para ficar lá no fundão da categoria maior.

GP DA ITÁLIA: Uma pista de verdade. Seu grande diferencial em relação a Spa-Francorchamps, Suzuka, Sepang, Istambul ou Interlagos é que ela não é nem um pouco seletiva. Mas quem está ligando para isso? Monza é velocidade pura, basicamente uma seqüência de retas cortada por chicanes apertadíssimas e algumas curvas razoavelmente rápidas. Eu gosto disso. É cansativo ver tantos autódromos orgulhosos de serem mais sinuosos e complicados do que uma estradinha na serra. A corrida italiana tem também o diferencial da torcida mais alucinada do planeta, os tifosi ferraristi: uma multidão de carcamanos barulhentos e avermelhados que trocam até mesmo a macarronada da nonna por uma vitória da Ferrari. Quando isso acontece, todo mundo invade a pista para cantar o histriônico hino italiano sob os pés do vincitore. Por mais selvagem que os britânicos, o jornalista Francisco Santos e eu achemos, esta coisa quase religiosa deles não deixa de ser sensacional. Estacionamento de hotel de luxo em Abu Dhabi nenhum oferece um espetáculo desses aos fãs de Fórmula 1.

TRULLI: Ainda bem que a torcida italiana tem a Ferrari para torcer, porque se depender dos pilotos da casa… Jarno Trulli, o que tem chances de obter melhores resultados, andou fazendo algumas declarações que me chamaram a atenção. Na verdade, é sempre legal ver o que o piloto da Lotus, dono de uma inteligência notável e um pessimismo contagiante, tem pra falar. Jarno afirmou que está tranqüilo com relação ao ano que vem, pois já possui um contrato assinado com a equipe malaia para 2012 e está feliz com seu progresso. Ele também celebrou a melhora do seu desempenho nesta segunda parte do campeonato, proporcionada pela nova direção hidráulica implantada pela Lotus. Por fim, comentou que não estava confiante a respeito da segurança do Grande Prêmio do Japão. Como vocês sabem, o Japão foi atingido por um enorme terremoto no início do ano, o que ocasionou um grande vazamento na usina nuclear de Fukushima. Trulli insinuou que não poderia confiar nos especialistas que afirmam que não há problemas, já que vivemos em um mundo onde só podemos confiar em nós mesmos. Caramba, Jarno! Precisa do telefone do CVV?

SENNA: Oito e meio. Esta foi a nota que Bruno Senna deu à sua primeira corrida como piloto oficial da Renault. A quem interessar possa, eu dei sete e meio nas costumeiras notas pós-corrida. O sobrinho ficou bastante contente com seu fim de semana, apesar dos pequenos erros cometidos. É para ficar mesmo. Pilotar um carro apenas mediano em uma pista complicada nunca é fácil para alguém que só tem como experiência um ano de penitência na Hispania. Em Monza, onde o que importa é acelerar, as dificuldades serão menores, mas a pressão também será muito maior. Enfim, o negócio é sobreviver à primeira chicane e marcar um ou outro pontinho, o que já é o suficiente para arrancar alguns sorrisos do tio lá em cima. Por fim, a Renault andou anunciando a lista de patrocinadores do cara: OGX, Gilette e Embratel. Muito bom. Bem que os outros pilotos brasileiros poderiam ter tantos patrocinadores bons assim.

GARANTIA: A Ferrari garantiu que Felipe Massa segue na equipe até o fim de 2012, no mínimo. Rubens Barrichello garantiu que também segue na Fórmula 1 no ano que vem. O próprio Jarno Trulli garantiu sua permanência na Lotus para a próxima temporada. E até o Vitaly Petrov garantiu que não se sente ameaçado por ninguém na Renault. Embora a dança das cadeiras esteja morna, alguns pilotos sentem a necessidade de anunciar para todo mundo que tudo está sob controle. Alguns realmente estão, como são os casos de Massa, Trulli e Petrov, que já têm contratos assinados para 2012. Já Barrichello faz esse tipo de comentário tentando afastar os rumores mais intensos e acalmar um pouco seu próprio psicológico. Em comum, todos eles sabem que só o ano que vem está garantido. Afinal de contas, quem está em posição tão sólida assim não precisa anunciar sua tranqüilidade para ninguém.

ÁSIA: O automobilismo, definitivamente, decidiu trocar as modelos loiras de olhos azuis pelas morenas de olhos epicânticos. O cristianismo será trocado pelo islamismo ou pelo budismo – e o champanhe dará lugar a algum fermentado à base de leite de cabra. Os caracteres nas transmissões serão escritos em alfabeto arábico. Ou em um daqueles tenebrosos e rabiscados silabários adotados no Extremo Oriente. Os dois mais novos candidatos a ter um circuito de alto nível são a Tailândia e o Irã. Ficou assustado? Os tailandeses ainda têm um pouco mais de moral: em 1950, eles tinham o distinto Birabongse Bhanubandj, vulgo Príncipe Bira, como seu representante real na Fórmula 1. O Irã não tem nada além de urânio enriquecido e um presidente maluco. Em compensação, os dois lados estão bem dispostos a gastar os dinheiros que país europeu nenhum tem para sediar corridas. Os iranianos já estão planejando a construção de um autódromo nos arredores da capital Teerã. Por enquanto, ele só teria a licença 2 da FIA, que permitiria corridas de GP2, mas nada impede que algumas coisas sejam mudadas no futuro. A Tailândia, sim, quer a Fórmula 1 logo, mas não deu maiores detalhes. Os eurocêntricos, como eu, choram.

Felipe Nasr, o mais novo campeão da Fórmula 3 britânica. O que será de sua vida no ano que vem?

Um dos grandes pecados deste sítio foi não ter dedicado uma única linha a Felipe Nasr, o mais novo campeão da badalada Fórmula 3 britânica, neste ano. No ano passado, contei um pouco de sua carreira aqui. De lá para cá, Felipe assinou com a campeoníssima Carlin para disputar uma segunda temporada na Fórmula 3, ganhou sete corridas e garantiu o título com duas rodadas triplas de antecipação. Sambou em cima do promissor Kevin Magnussen e de gente com alguma experiência, como William Buller, Carlos Huertas, Jazeman Jaafar e Rupert Svendsen-Cook. Um título incontestável, é claro.

Mas o que isso significa?

Neste exato momento, apenas que ele deve comemorar muito seu segundo título importante no automobilismo internacional (o primeiro foi o da Fórmula BMW Européia em 2009) com seus amigos, algumas mulheres e bastante bebida. Ainda restam mais seis etapas, três em Donington Park e três em Silverstone. Ganhar mais umas duas ou três para fechar o ano com chave de ouro seria muito legal para ele.

A pergunta caberá melhor após o dia 9 de outubro, data das duas últimas corridas da rodada de Silverstone. Assim que a temporada 2011 da Fórmula 3 britânica estiver encerrada, Felipe deverá ligar para todos os departamentos de marketing e publicidade das grandes empresas brasileiras, trocar afagos e carícias com os chefões das categorias maiores, arranjar uma namorada de família muito rica (que nem fizeram Dani Clos e Giedo van der Garde), aparecer no maior número possível de programas da Globo e exercitar ao máximo seus contatos e sua imagem. Em suma, será hora de pensar no futuro.

Nasr é o que temos de mais interessante no automobilismo de base europeu hoje em dia. Não me refiro apenas a resultados, mas também à sua boa fama. Luiz Razia, único representante brasileiro na GP2, não faz uma boa temporada e está sendo altamente bombardeado por isso. Os demais jovens ianomâmis da Fórmula 3 são bons, mas não têm dinheiro. Ou cacife. Nos demais campeonatos, inexistimos. Na GP3, por exemplo, o cara que substituiu Pedro Nunes na ART Grand Prix ganhou logo em seu primeiro fim de semana, em Spa-Francorchamps. O filho do cabeleireiro não tinha feito ponto algum até ali. Portanto, se o país quer ter para quem torcer nas corridas nos próximos anos, as fichas deverão ser majoritariamente colocadas no filho de Samir Nasr.

O carro de 2012 da World Series by Renault, a categoria-escola preferida de todo mundo neste momento. Será que é um bom negócio para o Nasr?

Só que há vários caminhos a serem tomados e é impossível saber qual deles dará em algo. Ao vencer a Fórmula 3 britânica, Felipe Nasr abre portas em várias categorias razoavelmente fortes. O Felipe Giacomelli, primo do Bruno e único paulista que mora em Brasília por vontade própria, escreveu em seu excelente World of Motorsport um artigo sobre as possibilidades do xará em 2012. Graças a ele, não preciso me aprofundar sobre todas as opções. Tenho apenas pequenos comentários sobre algumas dessas possibilidades.

A primeira opção é a World Series by Renault, categoria que está um pouco abaixo da GP2 na escala européia. No ano que vem, ela estreará um carro novo, mais potente e com o mesmo dispositivo da asa móvel que está sendo utilizado na Fórmula 1. Muita gente acha que a World Series, cujo nome oficial é Fórmula Renault 3.5, terá tudo para superar de vez a GP2, que estaria em decadência. Conclusão precipitada, esta. A GP2 não atraiu tantos novatos bons como a prima mais pobre exatamente pelo fato de ter estreado um carro novo nesta temporada, o que levou a um exorbitante aumento nos custos e afugentou muita gente boa. No ano que vem, quem passará por isso será a própria World Series.

Além disso, penso que a World Series pode ser uma encrenca bem grande para um novato bem gabaritado. Veja o caso de César Ramos, o gaúcho que ganhou a Fórmula 3 italiana no ano passado. Com ótima reputação, ele fez alguns ótimos testes na pré-temporada, assinou com a Fortec e iniciou o campeonato sendo considerado um dos favoritos. Para ser bem honesto, eu não estava tão otimista assim. Um bom motivo para isso é o fato de seu companheiro de equipe ser Alexander Rossi, um dos pilotos mais promissores do automobilismo de base mundial.

Enquanto a turma do “ôba!”, como dizia Ivan Lessa, regurgitava as enormes chances de título de César Ramos, o fidagal representante da turma do “êpa!” aqui acreditava que seria um ano bem ingrato para ele. Eu tinha certeza de que Rossi seria o piloto mais bem-sucedido da Fortec e que Ramos teria problemas com isso. Não deu outra: enquanto o americano contabiliza uma vitória e está na sexta posição do campeonato, César tem 75 pontos a menos e está apenas em décimo. Para piorar as coisas, Ramos quase ficou de fora das últimas etapas por problemas financeiros. Sabe-se lá como, conseguiu dinheiro para competir em Silverstone. Mas seu futuro é incerto.

A World Series by Renault só vale a pena em um único caso específico: quando o piloto é apoiado por uma grande empresa. Para gente como Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne (Red Bull), Kevin Korjus (GENII) e Alexander Rossi (Lotus), a categoria é excelente. Quem não está em nenhum esquema poderoso, como é o caso de César Ramos, não desfruta de segurança alguma e só conta com fatores tão volúveis como seu desempenho e seus patrocinadores. E é óbvio que um piloto nessa situação acaba não tendo condições de disputar nada com um Ricciardo ou um Vergne.

GP2, aquela que todo mundo diz que "está em decadência". Na minha modesta opinião, o melhor caminho para Nasr

É melhor ir para a GP2. Por incrível que pareça, mesmo sendo bem mais cara, a GP2 é mais democrática do que a World Series. Mesmo lá nas equipes de ponta, são poucos os pilotos que estão ligados a alguma equipe ou empresa esportiva. Entre os dez primeiros da tabela, apenas Romain Grosjean (GENII), Jules Bianchi (Ferrari) e Christian Vietoris (Mercedes) possuem algum importante apoio oficial. O resto se vira com patrocinadores pessoais e com resultados. Até mesmo os pilotos da Team Air Asia, equipe júnior da Lotus, não fazem parte do programa de desenvolvimento de pilotos da equipe. Davide Valsecchi e Luiz Razia trabalham como pilotos de testes da Lotus e podem até sonhar em disputar uma ou outra corrida, mas não têm a moral que Alexander Rossi possui.

Outra vantagem da GP2 é relacionada ao tempo de desenvolvimento do piloto. É bem mais razoável para um piloto jovem ficar três ou quatro anos na GP2 do que na World Series. O venezuelano Pastor Maldonado precisou de quatro temporadas para se sagrar campeão da categoria-escola de Bernie Ecclestone. Com o título, arranjou uma vaga na Williams. Outros pilotos que passaram um tempão por lá antes de subir para a Fórmula 1 foram Vitaly Petrov e Lucas di Grassi. O próprio Romain Grosjean participa da GP2 desde 2008. Enquanto isso, os melhores exemplos de pilotos que praticamente moraram na World Series são Daniil Move, Mikhail Aleshin e Pasquale di Sabatino. Algum deles conseguiu alguma coisa na vida até aqui? Por isso, se eu fosse o Felipe Nasr, planejaria ficar umas três temporadas na GP2 antes de ir para a Fórmula 1. Faltaria, para isso, o dinheiro. Eike Baptista, cadê você?

Mas felizmente há outras alternativas no planeta além da GP2 e da World Series by Renault. Nasr já está conversando com representantes da Ferrari e da McLaren sobre uma possível integração a um programa de desenvolvimento de pilotos. Vale notar que o empresário de Felipe é Steve Robertson, que também gerenciava a carreira de Kimi Räikkönen, ex-McLaren e ex-Ferrari, e de Jenson Button, atual segundo piloto da McLaren. Portanto, o inglês tem bom trânsito nas duas equipes. Qual é a melhor?

Sem pestanejar, a McLaren. Por algumas razões bem simples. O programa de desenvolvimento de pilotos da Ferrari já está saturado. Além disso, está concentrado em dois nomes: Sergio Pérez e Jules Bianchi. Seria um milagre se Nasr conseguisse ter o status destes dois lá em Maranello. Além disso, a Ferrari não é uma equipe conhecida por dar oportunidades a jovens famélicos. Todos os últimos onze titulares contratados pela equipe (Alonso, Fisichella, Badoer, Räikkönen, Massa, Barrichello, Salo, Irvine, Schumacher, Berger e Capelli) eram pilotos com experiência mínima de três temporadas completas. Na verdade, somente Massa tinha algum vínculo prévio com os ferraristas. Um Bianchi da vida só teria chance em uma Sauber ou Toro Rosso da vida. E só conseguiria subir para a Ferrari se absolutamente tudo desse certo.

Mas nada como estar associado a uma boa equipe de Fórmula 1, não?

Na McLaren, Nasr não teria de dividir as atenções com muita gente. Quem testa por lá são um trintão, Gary Paffett, e um quarentão, Pedro de la Rosa. No desatualizado site do programa de jovens pilotos da equipe, há três perfis, sendo que nenhum deles está em uma posição tão boa como Nasr. O mais conhecido é Oliver Turvey, que chegou à GP2 no ano passado. Neste ano, Oliver não está fazendo nada. Você pode argumentar que um bom programa de pilotos jamais deixaria alguém talentoso como Turvey parado. Há de se verificar, por outro lado, se o contrato do inglês não era lá aquelas coisas. Se Nasr conseguir um bom acordo com a equipe, pode repetir a trajetória de sucesso de um outro britânico – Lewis Hamilton, que saiu da GP2 para o estrelato na equipe de Woking.

Mesmo assim, não é fácil. Este é um problema deste automobilismo contemporâneo, cheio de alternativas. Há uns vinte anos, o cabra saía do kart e fazia o trajeto Fórmula Ford ou Fórmula Opel – Fórmula 3 – Fórmula 3000 – Fórmula 1 sem grandes segredos. Hoje em dia, Nasr tem tantos caminhos a trilhar que a possibilidade de fracasso se torna muito maior que a de sucesso. E há ainda a questão da falta de patrocínio. Se ele fosse um Pedro (Nunes ou Paulo Diniz), poderia passar quanto tempo quisesse tentando conseguir um trofeuzinho que fosse. Como é Felipe, não terá muita chance de perdão se fracassar.

Por fim, comento sobre o retrospecto dos campeões da Fórmula 3 britânica. Embora um título por lá seja sempre bem-vindo e um piloto ruim nunca consiga ser campeão, não dá pra pra achar que Jim Clark, Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Mika Häkkinen sejam a regra. Alguns campeões irrepreensíveis, como Jan Magnussen e Takuma Sato, não deram em nada na Fórmula 1. Outros, como Mike Conway e Jonny Kane, sequer chegaram lá. Houve até quem tivesse problemas para prosseguir na carreira logo após o título, como Marc Hynes e Robbie Kerr. Portanto, ser campeão na Fórmula 3 não necessariamente significa ter um futuro brilhante.

Como você pode ver, os desafios e as possibilidades estão todas aí. Resta a Felipe Nasr correr atrás de patrocínio e queimar neurônios avaliando todas as oportunidades. Ele terá uns bons meses para fazer isso. Se eu fosse ele, tentaria um acordo com a McLaren e ainda assinaria com alguma equipe média na GP2. Mas não apito em nada, apenas torço.

Enquanto isso, hora de comemorar em algum pub.

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