dezembro 2010


O campeão Sebastian Vettel

Depois de fazer resumos não tão breves sobre a GP2 e a Indy, tentarei ser um pouco mais sucinto sobre a Fórmula 1, que é a categoria mais importante para este site depois da Fórmula 3000 Internacional. Prolixo e enfadonho do jeito que sou, é claro que não vou conseguir. Até porque, como sempre, há muito o que falar. Com 19 etapas, 24 pilotos, pontuações absurdas e vários diz-que-me-diz, esse especial tem tudo para superar o meu recorde de tamanho de artigo escrito. E olha que já consegui superar, facilmente, as 2.000 palavras…

Ah, a Fórmula 1. Depois de sucessivas temporadas recheadas de escândalos, puxadas de tapetes e litígios resolvidos no tapetão, a atual temporada foi a primeira em que os ventos sopraram mais calmamente. É claro que sempre há uma ordenzinha de equipe aqui ou uma declaração polêmica acolá, mas tudo isso faz parte de um esporte que lida com cifras monstruosas, pilotos egocêntricos e dirigentes velhos, gordos e mafiosos. Depois de tantas tempestades, um pouco de bonança não fez mal a ninguém.

Os problemas da categoria permaneceram estritamente os mesmos de sempre. Os custos continuam astronômicos, e uma Virgin ou Hispania chegou a gastar apenas 10% do orçamento da Ferrari. As corridas continuaram chatas na maioria das pistas, e tanto a prova de Spa-Francorchamps como a de Suzuka, novamente, ficaram abaixo da média. As ultrapassagens continuam complicadíssimas. Os pilotos seguem antissociais e reclusos em seus motorhomes e mundinhos asperger. Novidade, mesmo, tivemos em relação aos campeões. Um alemão com cara de atraso mental e uma equipe azulada, jovial e rebelde estamparam seus nomes nos anais da história.

Sebastian Vettel, 23, ganhou seu primeiro título em Abu Dhabi há cerca de um mês. Venceu cinco provas e fez 256 pontos, média de 13,47 pontos por corrida. O que isso significa? Em uma análise bastante simplista e até mesmo forçada, se um piloto tivesse terminado em terceiro em todas as corridas, teria roubado o título das mãos de Vettel. Os números, frios e pouco significativos se vistos isoladamente, são apenas a face mais visível de um ano em que, definitivamente, ninguém foi impecável. Muito pelo contrário.

Os dois pilotos da Red Bull são os exemplos mais gritantes de um ano em que o nível técnico da turma não foi dos mais altos. Tanto Sebastian Vettel quanto Mark Webber tinham nas mãos um carro claramente superior ao da concorrência, o RB6, um elegante e esguio bólido cujo desenho foi assinado pelo mago Adrian Newey. 15 poles-positions em 19 fins de semana, algumas delas chegando a ultrapassar um segundo de diferença em relação às demais equipes, são o suficiente para me apontar tamanho domínio. Mas a disparidade entre poles e vitórias é absurda. Apenas nove vitórias foram obtidas pelos rubrotaurinos. Dessas nove, oito ocorreram com o piloto saindo da pole-position. Ou seja, nada menos que sete poles-positions foram desperdiçadas.

O terceirão Mark Webber, de ombro estourado

Há quem não ache isso anormal. Eu acho é absurdo. Mesmo tendo um carro claramente mais rápido, a Red Bull fez de tudo para perder seus dois títulos. E o pior é que não dá pra jogar a maioria das as culpas em possíveis quebras. De fato, Sebastian Vettel teve muito azar com problemas de motor em Sakhir e em Yeongam, além de um freio estourado em Melbourne. Mas errou de maneira primária em várias etapas, a destacar os acidentes infantis com Webber em Istambul e com Button em Spa-Francorchamps. O que salvou seu campeonato foi seu carro e o fato de ser claramente mais rápido do que Webber.

Esse daqui foi uma atração à parte nesse ano. Mark Alan, cujo feito mais interessante em 2010 foi um comercial feito para uma marca de leite longa vida, teve a melhor chance de sua vida. Após o GP da Hungria, ele era o piloto que havia vencido mais corridas até então (quatro, contra duas de Vettel). Em Suzuka, ele tinha 14 pontos de vantagem para o vice-líder em Alonso. Nas últimas etapas, no entanto, Webber simplesmente apagou e caiu de primeiro para terceiro colocado. Há algumas semanas, ele revelou que disputou as últimas etapas com um ombro fraturado, consequência de um acidente de bicicleta sofrido pouco antes da corrida de Cingapura. O que digo sobre isso?

Digo simplesmente que é por isso que ele não é um campeão do mundo, e provavelmente não será. Não tenho absolutamente nada contra o piloto andar de bicicleta, muitíssimo pelo contrário. Mas como explicar um piloto que se estropia duas vezes em dois anos seguidos? Na melhor das hipóteses, ele é um tremendo de um azarado. Na pior delas, um otário. Um cara cujo emprego exige perfeito condicionamento físico deve redobrar os cuidados. E ao que parece, não é o caso dele.

O chato é que Mark Webber não terá outra oportunidade tão boa para ser campeão. Em 2010, sendo segundo piloto da Red Bull, ele apostou que seus bons resultados fariam a equipe tratá-lo com mais carinho. Mas é evidente que não seria assim. E Webber decidiu protestar em Silverstone, reclamando que uma asa nova que estrearia naquela corrida só foi colocada no carro de Vettel. O australiano mostrou que não precisava dela, venceu e deu banana para todo mundo. Mas pegou mal. Hoje em dia, é Vettel o campeão do mundo. Se havia alguma minúscula possibilidade do alemãozinho não monopolizar as atenções de Didi Mateschitz e companhia, ela simplesmente desapareceu após Abu Dhabi. E se tornou mero sonho ridículo após a revelação da fratura do ombro. Em 2011, Webber será apenas o tiozão que comboiará a estrelinha alemã da Red Bull.

Fernando Alonso, o vice-campeão marrento

Mas se nem Vettel e nem Webber, que também errou em algumas ocasiões importantes, convenceram por completo, quem convenceu? Bom, as a matter of fact, tivemos outros dois postulantes ao título: os indefectíveis Fernando Alonso e Lewis Hamilton. Os dois, já campeões e líderes incontestes de suas respectivas equipes, fizeram valer sua fama e seus salários e conseguiram colocar seus carros, que não eram páreo para os RB6 azulados, na briga pelo título até a última corrida. Mas não foram perfeitos.

Fernandinho, o da bonita camisa avermelhada, foi contratado pela Ferrari a peso de ouro. Substituiria o morto-vivo Kimi Raikkonen e tinha o enorme desafio de conquistar os corações ferraristas. Foi muito bem-sucedido. Com sua extrema autoconfiança, sua enorme cara-de-pau e sua imensa capacidade de liderança, Alonso conseguiu congregar a Ferrari ao seu redor da mesma maneira que Michael Schumacher costumava fazer. E além de tudo, ele ganhou corridas e peitou o mundo.

O espanhol venceu cinco provas e marcou duas poles sensacionais em Monza e em Marina Bay. Fez corridas dignas de campeão do mundo, mas fez muita cagada também. Porém, seu ponto mais baixo no ano foi o lamentável GP da Alemanha.

Naquela corrida, a Ferrari exercia seu domínio de uma maneira só vista na era Schumacher. Só que o líder era o piloto errado, o brasileiro Felipe Massa. Alonso vinha logo atrás, esperando por algo. It’s ridiculous, comentava o bicampeão em inglês carregado de sotaque, possesso com o fato de estar mais rápido do que Massa sem poder estar à sua frente. Para sua sorte, a Ferrari compreende muito bem seu inglês asturiano. Na volta 47, Rob Smedley apareceu no rádio de Massa com uma frase que pode ser considerada a mais emblemática do ano: Felipe, Fernando is faster than you. Can you confirm you understood that message?

Lewis Hamilton, o pior dos melhores. Ou não?

 

Massa, fluente no mesmo inglês de Alonso e da Ferrari, entendeu.  E deu passagem a Alonso, abdicando-se de sua única vitória no ano. Alonso ganhou, fez festa, deu beijinho, mandou um salve para a galera e um beijo pra Xuxa. Ainda mais absurdo, atribuiu o mérito da vitória a si mesmo. Todo mundo falou mal. Todo mundo está falando mal até agora. Mas o cara é assim mesmo. E graças a seu comportamento antiético, deplorável e filho da puta, ele é bicampeão mundial e herói nacional da Espanha. E Maquiavel sorri.

Mas Massa deve ter rido por último em Abu Dhabi. Líder do campeonato antes da última etapa, Fernando Alonso só precisava de um estúpido terceiro lugar. Fez o terceiro lugar no grid e completou a primeira volta em quarto. A partir daí, só tristeza. A Ferrari antecipou um pouco sua parada, no que foi uma decisão errada. Fernandinho, que não é garoto-propaganda da USTOP, voltou atrás do soviético Vitaly Petrov. E ficou atrás dele até a bandeirada final. Puto da cara, Alonso falou cobras e lagartos para o russo quando ambos voltavam para os boxes. É, Alonso. Você pode ser o cara, mas nem você é infalível. Perder ainda faz parte do negócio.

E o Miltão? Lewis Hamilton fez um ano muito bom. Na verdade, até algumas etapas para o fim do campeonato, era ele o cara que eu queria ver campeão. Após a famigerada etapa de Hockenheim, ele chegou a ter 14 pontos de vantagem para o vice-líder, que por acaso era seu companheiro Jenson Button. Foi seu ápice em um campeonato que começou com atuações espetaculares e bonitas de se ver, dignas de um Ayrton Senna dos tempos da Lotus. Depois disso, ele até venceu de maneira magistral em Spa-Francorchamps, mas a McLaren começou a perder o rumo. Após Spa, a equipe cromada nunca mais conseguiu ter um carro bom o suficiente para brigar com Ferrari e Red Bull. Lewis até chegou em Abu Dhabi com chances remotas de título, precisando torcer para que Ayrton Senna vencesse a corrida e John Lennon aparecesse de mãos dadas com Marilyn Monroe. Como nada disso aconteceu, ele terminou o ano em quarto, tendo vencido três corridas, feito uma pole-position e 240 pontos.

Foram esse os quatro principais pilotos da temporada. Vettel foi o campeão, mas errou demais. Webber também errou muito, além de ter sido inconstante, de não ter mantido um bom relacionamento com a equipe e de não ter sido sequer responsável com seu corpo. Alonso foi sensacional em alguns instantes, mas foi errático em outros e ainda se mostrou um tanto chorão e antiesportivo. E Hamilton esteve longe de apresentar no final do campeonato a mesma forma mostrada no início. Sendo assim, quem realmente brilhou, então?

Te conto amanhã, quando continuar a segunda parte.

Eu sou daquela categoria doentia de torcedores que se simpatizam por aqueles que não podem se jactar das vitórias, do dinheiro e da fama. Copa do Mundo, pra mim, é ocasião boa para torcer por países africanos, asiáticos ou do Leste Europeu. No futebol brasileiro, só me interesso em saber sobre aquele time que está na segunda divisão do campeonato amazonense. As Olimpíadas são uma excelente oportunidade para ver as performances de Antígua e Barbuda, Tuvalu e Comores. E o automobilismo só me é fascinante do meio do grid para trás. Se o carro não consegue se classificar para o grid, então, melhor ainda. Por alguma razão neurológica, não consigo me interessar pelos vencedores.

É difícil explicar o porquê. Talvez seja aquele sentimento de comiseração quase comunista que deseja, utopicamente, ver uma competição onde todos podem ganhar. Afinal de contas, ver o Schumacher ganhando tudo e a Minardi não conseguindo um podiozinho sequer não só é chato como também um tanto quanto injusto. Deve ser isso. No fundo da minha irredutível e irascível alma, há ainda um sentimento de amor ao próximo e esperança por dias melhores para todos, ricos e pobres. Esse lirismo e esse sentimentalismo ridículo explicam o meu motivo de gostar da Eurobrun ou da Spirit, fui claro?

O Top Cinq de hoje relembra cinco dos carros que não ganham nem par ou ímpar que este daqui que escreve mais gosta. Infelizmente, deixei alguns carros muito legais de fora, como o Lola T93/30. Mas a lista está aí. E sugiro a vocês fazerem a sua. Qualquer dia, faço um Top Cinq só com as preferências rejects dos leitores. Se precisam de inspiração, http://www.f1rejects.com.

5- AGS JH27 (1991)

Em termos de beleza, eu reconheço que não serão muitos os que concordarão comigo. Além das linhas relativamente ultrapassadas, a disposição de cores ficou meio estranha. São dois tons de azul separados por linhas amarelas e vermelhas. Mais um pouco e teríamos um desses carrinhos coloridos de criança. Mas fazer o quê? Eu gostei. Embora os carros pretos da Automobiles Gonfaronnaises Sportives, utilizados entre 1989 e 1990, sejam muito bonitos, o meu preferido da minúscula equipe francesa é este aí.

O JH27 foi criado para ter competido durante todo o ano de 1991. Mas faltou dinheiro e a equipe utilizou uma versão atualizada do carro de 1990, o JH25B, durante quase todo o tempo. Após um monte de fins de semana tenebrosos com o carro antigo, a equipe finalmente conseguiu deixar dois JH27 prontinhos para seus pilotos, Fabrizio Barbazza e Gabriele Tarquini, estrearem em Monza.

Infelizmente, assim como seu antecessor, o JH27 também não prestava e tanto Barbazza quanto Tarquini ficaram a mais de 1,6 segundo atrás do último pré-classificado. Em Portugal, Barbazza sobrou novamente, mas Tarquini até conseguiu passar pela pré-classificação. Só que o JH27 não era bom o suficiente para passar pela classificação oficial e o italiano só conseguiu andar mais rápido do que os pilotos da igualmente indecente Lambo. E o sonho de participar da corrida se esvaiu.

Para o fim de semana seguinte, em Barcelona, houve mais uma novidade: a troca de Tarquini por Olivier Grouillard. O francês foi sumariamente demitido por telegrama da Fondmetal devido a um problema de desobediência ocorrido em Estoril e encontrou um espaço na equipe que chegou a colocá-lo para correr na Fórmula 3000. Olivier só achou tempo para fazer o molde de seu banco no fim de semana e tanto ele como Barbazza só conseguiram andar por algumas voltas. Sem a patética Coloni de Pedro Chaves para ficar em último, restou aos dois AGS pontearem a tabela de cabeça para baixo.

A AGS estava no bico do corvo, mas ainda assim queria disputar o GP do Japão. Empacotou seus poucos bens e mandou um único JH27, o de Fabrizio Barbazza, para lá. Mas poucos dias antes do primeiro treino, a equipe anunciou que não dava mais e abandonou a Fórmula 1. E essa foi a curta trajetória do carrinho colorido.

4- SIMTEK S941 (1994)

Essa foto foi roubada descaradamente do F1 Nostalgia do meu amigo Rianov. Apesar de ter ceifado a vida de um austríaco e de ter arrebentado um italiano, o carro é simplesmente fascinante. O formato e as cores casam de uma maneira notável, criando, talvez, o melhor conjunto visual de 1994.

Apesar de ser o primeiro carro da Simtek Grand Prix, o S941 não é o primeiro chassi da Simtek Research, empresa de engenharia que desenvolveu o S921 para a Andrea Moda e um rascunho de S931 para a natimorta Bravo. Não por acaso, o primeiro Simtek é bastante parecido com o Andrea Moda preto. Ele foi projetado pelos engenheiros Nick Wirth e Paul Crooker e pilotado por nada menos que seis pilotos.

Equipado com o antiquado motor Ford HB, o Simtek S941 era um carro conservador repleto de problemas. Apesar de dotado de boa estabilidade, ele não tinha potência alguma nas retas e era extremamente pesado. Além disso, a falta de dinheiro era grande, como pudemos perceber no uso da prosaica alavanca manual de câmbio. Na verdade, a participação da Simtek teve um peso político muito grande.

Naquela época, a Fórmula 1 já tinha muito nojinho fresco de equipe novata, ainda mais se ela não tivesse vínculos com uma grande corporação ou se não fosse uma equipe já consagrada em outras categorias. Mas a Simtek, mesmo desconhecida para a esmagadora maioria das pessoas, não teve grandes entraves para se inscrever para a temporada de 1994. O motivo? Um dos donos da equipe era exatamente Max Mosley, o presidente da FIA. E além da inscrição ter sido facilitada, a entidade ainda fez vista-grossa com relação às exigências de segurança do S941. Em outras palavras, se o S941 tivesse sido construído por qualquer outra equipe, ele teria sido barrado em um crash-test qualquer.

Mas o Simtek arroxeado pôde participar, bonitão como só ele. E o carro, de fato, era bonito pacas, roxo na parte superior e preto nas laterais. O patrocínio da MTV só serviu pra deixá-lo ainda mais interessante. É uma pena que o que lhe sobrava em beleza lhe faltava em segurança. Frágil, o Simtek tinha problemas estruturais pouco visíveis a olho nu. E a vista-grossa da FIA deixou passar um bólido que simplesmente não aguentava uma batida mais forte. E Roland Ratzenberger acabou pagando o preço maior.

3- RIAL ARC-02 (1989)

Após um bom 1988, a Rial Racing iniciava o ano de 1989 como uma das atrações do meio do pelotão. O ARC-01, criado pelo ex-Ferrari Gustav Brunner, era bastante rápido, mas tinha um tanque de gasolina minúsculo e não tinha indicador de gasolina. Era um problema ridículo demais para ser repetido no segundo carro, o ARC-02. Dessa vez, a mão santa de Brunner, que se cansou do mau-humor constante do chefão Günter Schmid, não estaria presente.

O ARC-02 foi desenvolvido por Bob Bell, ex-Brabham. Desenvolver, na verdade, é modo de falar, já que ele não passava de uma versão repaginada do ARC-01, que por sua vez era baseado no Ferrari de 1987. Ao menos, ele tinha uma aparência mais próxima dos anos 90. E a disposição de cores, com dois tons de azul, laterais brancas e a indefectível faixa branca da Marlboro, era uma das mais atraentes da polpuda temporada de 1989.

Infelizmente, o carro era muito ruim. Christian Danner, o primeiro piloto, se esforçou bastante e até conseguiu pegar três pontos na corrida de Phoenix. O segundo carro, que teve de enfrentar a pré-classificação na primeira metade do ano, só fazia número. Além do mais, o clima da equipe era péssimo, com o mercurial Schmid perdendo a paciência com todos e fazendo com que os membros fugissem da equipe como o diabo foge da cruz. Sem grandes perspectivas e sem dinheiro, restou à equipe fechar as portas no fim de 1989.

2- LOLA T97/30 (1997)

Muita gente torce o nariz para este carro, que é o mais novo dessa lista. De fato, ele é, muito provavelmente, o mais lento de todos aqui. Mas aqui vale o que eu falei pro AGS: um carro colorido com aparência de brinquedo da Fisher-Price. Branco, amarelo, azul e vermelho se encontram de uma maneira difusa e realçam o patrocínio estimado em 20 milhões de dólares da gigante dos cartões de crédito Mastercard.

Basicamente, o T97/30 deu errado porque foi feito às pressas. A Lola tinha planos muito ambiciosos para um retorno em 1998, mas a Mastercard obrigou a turma de Huntingdon a adiantar o projeto em um ano. Como o pedido veio no segundo semestre de 1996, a Lola teria apenas alguns meses para preparar um carro para a próxima temporada. Então, pegaram o T96/00 utilizado na Indy e deram uma sapecada nele, introduzindo os apêndices que lhe configuram como um carro de Fórmula 1. Diz a lenda que até mesmo algumas partes do T96/50 de Fórmula 3000 foram aproveitadas. O resultado final não parecia tão ruim, à primeira vista. Era apenas um carro de Fórmula 1 um tanto gordinho e de aparência conservadora.

Cinco chassis desse Frankenstein foram finalizados até fevereiro de 1997. Fora das pistas, tudo ia bem: os patrocinadores eram muitos e os dois pilotos, Ricardo Rosset e Vincenzo Sospiri, sorriam de orelha a orelha. Mas o sorriso acabou tão logo eles fizeram o primeiro shakedown com o T97/30, já em março de 1997. O carro não tinha sustentação aerodinâmica nenhuma, saindo de frente e de traseira o mesmo tempo. O motor Ford V8 rendia quase 100cv a menos que o da concorrência. E o câmbio… bem, o próprio Rosset falou que ele simplesmente não trocava de marcha. Você mexia na alavanca e nada acontecia. Legal, né?

Mas o fato é que o carro, aos olhos deste que escreve, era bonito. E foi para a pista tentar largar na primeira corrida de 1997, em Melbourne. O resultado? Sospiri tomou 11,6 segundos. Rosset, 12,7. E não passaram pela regra dos 107%, evidentemente. O vexame foi tão grande que a Mastercard desistiu do patrocínio dias depois e a Lola saiu pela porta dos fundos após uma única corrida.

1- ONYX ORE-1 (1989)

Este, a quem interessar possa, é o meu carro preferido. Em toda a história da Fórmula 1, não há um carro mais bonito do que o Onyx ORE-1 de 1989. E tenho dito.

Alan Jenkins, ex-McLaren e ex-Penske, foi chamado para desenhar o primeiro carro da equipe, que já tinha um bom currículo de vitórias na Fórmula 3000. O pacote inicial era o básico daquela época: motor Cosworth DFV, pneus Goodyear e um patrocínio pequeno da Marlboro. Faltava, no entanto, um patrocinador mais substancial. O belga Bertrand Gachot, o segundo piloto da equipe, sabia disso e foi atrás de um apoio na Bélgica. Acabou dando de cara com um economista com muito de gênio e tudo de louco: Jean Pierre Van Rossem. Escrevo um texto sobre ele, prometo.

Por meio de seu programa de computador, o Moneytron, Van Rossem pegava fortunas alheias, calculava prognósticos de ganhos e ia lá na NYSE nova-iorquina para investir e ver a dinheirama crescendo. Gachot entregou seus 2 milhões de dólares a Van Rossem e ele retornou com 9 milhões. A Onyx ficou muito agradecida, mas, como contrapartida, Jean-Pierre exigiu ficar com a maior parte da equipe. Com cara feia, o antigo dono Mike Earle acabou cedendo. E Van Rossem teria uma equipe só pra ele.

A Moneytron era uma marca que, na prática, não existia. Mesmo assim, Jean-Pierre foi lá e estampou alguns adesivos nos carros. A pintura, que deveria ser vermelha e branca, acabou dando lugar a um azul meio claro com trechos em branco e lilás. É uma combinação de cores bem estranha, mas acreditem: ficou muito bom no Onyx. O chassi, todo esguio e longo, também acabou chamando bastante a atenção. Diz a lenda que o sistema de absorção de choques era revolucionário. E os amortecedores utilizados eram minúsculos.

A Onyx era uma festa para o doidão belga, mas o atraso no recebimento do dinheiro fez atrasar também o desenvolvimento do carro. No fim, ele só ficou pronto no dia da apresentação oficial, que por acaso era também o dia do embarque dos carros para o Brasil, onde seria realizada a primeira etapa do campeonato. Três voltas no autódromo de Jacarepaguá e outras 31 no kartódromo (!): essa era a quilometragem total do ORE-1 antes de sua estréia.

Que foi uma bosta, com os dois carros não conseguindo largar. Mas ele não era tão ruim assim, tanto que Stefan Johansson conseguiu um quinto lugar em Paul Ricard e um inacreditável terceiro lugar em Estoril. Ainda assim, era um bólido um tanto quanto irregular: ele andava muitíssimo bem em um fim de semana, mas não conseguia sequer se pré-qualificar no outro.

Infelizmente, a equipe era uma bagunça. A cada mês, havia um dono diferente e o dinheiro era muito escasso. Em 1990, o ORE-1 ainda foi utilizado nas duas primeiras etapas, já que havia um enorme atraso no organograma de desenvolvimento do novo carro e não havia dinheiro para testes ou desenvolvimentos maiores. Uma pena. Um carro bonito como esses não pertencer a uma turma tão desorganizada.

A Lotus Renault para 2011

De um lado, um grupo de malaios liderado por um sujeito gordo e com cara de mafioso. Este sujeito, magnata dos transportes aéreos, liderou o desenvolvimento de uma equipe local cuja temática maior era a nostalgia – a memória de um nome consagrado. Do outro lado, outro grupo de malaios liderado por uma fábrica estatal de carros vagabundos. Esta gente comprou 75% das ações de uma equipe francesa de Fórmula 1 para nomeá-la com sua marca mais conhecida e que, por um incrível acaso, é o mesmo nome da outra equipe malaia. Os dois grupos, oriundos daquele país quente e cheio de pernilongos, conseguiram a proeza de deixar a Fórmula 1 com duas equipes de mesmo nome.

Já falei antes sobre a picuinha entre a turma da Lotus Cars e da Lotus Racing, que será Team Lotus em 2011. Para quem não está disposto a aturar outro texto desses gigantescos, resumo a ópera: num belo dia, Tony Fernandes decidiu renomear a Lotus Racing como Team Lotus. Por alguma razão desconhecida, o pessoal da montadora Proton, que é dona da Lotus Cars e que até participou dos primeiros dias do projeto Lotus Racing, decidiu peitar o bambambã mafioso. Os dois lados se encontraram na justiça, ninguém chegou à conclusão alguma e a Proton acabou comprando a maior parte das ações da Renault, criando a Lotus Renault F1 Team. Já Fernandes não mudou sua posição e terá a Team Lotus no ano que vem. Sim, é isso mesmo que você leu. Até o momento, haverá duas equipes Lotus em 2011.

Para falar a verdade, apesar de absolutamente pitoresca e farsesca, não acho tão ruim assim a existência de duas equipes Lotus per si. A Lotus Renault já divulgou uma imagem computadorizada daquela que deverá ser sua pintura em 2011: um carro preto com algumas linhas douradas e aerofólios avermelhados. Por outro lado, a Team Lotus, apesar de também querer correr com preto e dourado, não descarta continuar com o verde e o amarelo para a próxima temporada. Se for assim, serão dois carros belíssimos, certamente. Além disso, ver Galvão Bueno perdido em declarações como “e a Lotus da Proton passa a Lotus do Tony Fernandes” não terá preço, como diz a empresa odiada por fãs do Wikileaks.

O problema maior, no caso, é o uso gratuito, egocêntrico e até desrespeitoso de uma marca unicamente pela nostalgia que ela gera nos fãs mais antigos. Não vou falar só da Lotus aqui. O alvo da minha verborragia é essa busca eterna por aquilo que já passou. Por mais que nós não percebamos, a Fórmula 1 de 2010 reflete muita coisa das antigas. E o episódio Lotus representa apenas a situação mais extremada e vulgar dessa avidez pelo antigo.

E a possível pintura do Lotus da Team Lotus em 2011. Duas equipes Lotus, quatro carros pretos. Hunf...

Olhemos para o grid. Entre os pilotos da temporada atual, temos Nico Rosberg, filho de Keke Rosberg, e Bruno Senna, sobrinho do homem. É injusto dizer que o que mantém o piloto da Mercedes na Fórmula 1 é basicamente o fato de espelhar seu pai. Afinal, Nico sempre mostrou talento o suficiente para fazê-lo merecer uma boa posição na categoria. O sobrenome Rosberg, na verdade, não lhe ajudou muito. O que lhe ajudou, sim, foi a ótima posição financeira do seu pai, que conseguiu manter equipes particulares de kart, Fórmula BMW ADAC e Fórmula 3 para o filhote. Ainda assim, há aqueles que olham para o cara e se lembram das pirotecnias do pai, que é considerado até hoje um dos pilotos mais arrojados da história da categoria.

Perdoem-me os fãs, mas Bruno Senna é, sim, um produto da nostalgia. E ele sabe disso. No seu segundo ano de GP2, seu carro tinha os adesivos do S do Senna e do Senninha, marcas indissociáveis de seu tio. Bruno não é bobo. Associar-se ao tio tricampeão facilitaria absurdamente as coisas. De fato, facilitou. O efeito colateral, no entanto, é que quase todos acabam por enxergá-lo unicamente como uma emulação contemporânea de Ayrton Senna. Não existe o Bruno, mas o sobrinho do Senna. E a perda de identidade do cara, que tem competência o suficiente para não precisar aparecer pelo sobrenome, é uma consequência direta do sentimento eterno de nostalgia.

E do mesmo jeito que tivemos Rosberg e Senna, tivemos também Nakajima, Piquet, Hill, Villeneuve… Se considerarmos outras categorias, a lista fica muito maior: Mansell, Prost, Stewart, Fittipaldi, Jones, Lauda, Scheckter, Fangio, Andretti, Brabham e por aí vai. Fazendo uma constatação rápida, todos os campeões de Fórmula 1 entre 1977 e 1993 tiveram ao menos um filho ou parente competindo em alto nível no automobilismo. Não quero ser injusto e dizer que todos chegaram lá unicamente porque são oportunistas que querem desfrutar da fama de seu sobrenome. Mas há, em muitos casos, aqueles que querem ver “os filhos de campeões” na Fórmula 1 ou na Indy unicamente porque “ah, como é bom ver o sobrenome tal de volta ao automobilismo”, mesmo que o cara seja um tremendo de um pé de breque. Já vi até mesmo gente defendendo seriamente a ida do Nicolas Prost para a Ferrari!

A nostalgia não é uma coisa ruim. Se uma pessoa é nostálgica, é porque provavelmente teve momentos de satisfação em outros verões. Há também gente como eu, os pseudonostálgicos que não viveram os períodos passados, mas que ridiculamente celebram os “bons tempos”, seja lá o que diabos isso signifique. Um pouco de saudosismo não faz mal porque nos mantém de olhos abertos, cientes de quando há uma piora em uma situação. Na Fórmula 1, o pessoal sempre fala das corridas de antigamente. Mesmo exageradas, superestimadas ou simplesmente equivocadas, as declarações são um sinal de que, no mínimo, as corridas atuais não divertem e emocionam tanto como outrora. E é o tipo de nostalgia que deve ser, no mínimo, considerada por todos os envolvidos no esporte.

Se for pra ter duas Lotus, que mantenham uma verde!

Mas há aquela nostalgia gratuita, que existe simplesmente pelo predicado cego de que “tudo que era antigo é melhor”. Muitas vezes, o sujeito diz que a Fórmula 1 era melhor há vinte ou trinta anos unicamente porque havia Senna, Marlboro, Piquet, Alfa Romeo, Estoril, Lauda, Nordschleife, efeito solo ou Ghinzani, sem saber identificar os problemas daqueles tempos e sem perceber que as coisas simplesmente evoluem e que os dias atuais também têm coisas ótimas e que gerarão saudades nas gerações futuras. E é desse tipo de saudosismo tacanho que coisas como a disputa pelo nome Lotus se alimentam.

O que temos, nessa disputa, é um arranca-rabo para saber quem irá carregar o nome que trará uma leva de fãs que gostam da nova Lotus unicamente por ser a reencarnação da Lotus. É patético. Estas equipes preferem se apoderar do duvidoso privilégio de reaproveitar um nome histórico a desenvolver um novo nome e uma nova imagem. Afinal de contas, unem o útil ao agradável: em uma Fórmula 1 lotada de aparências, fazer uma referência a uma equipe antiga é legal, é cool. E atrai fãs, que podem até se interessar em consumir os produtos que anunciamos. É um tipo de marketing que está na moda: explorar velharias para conquistar os saudosistas. Que nem esses artistas alternativos que fazem questão de vender suas músicas no discão de vinil.

Tenho um exemplo que demonstra como o problema é de mentalidade. No ano passado, Ross Brawn explicou como foi decidido o nome de sua equipe, a Brawn GP. A princípio, seus conselheiros consideraram nomes como o insosso Pure Racing, o sonoro Brackley e… o antigo Tyrrell. Brawn recusou, dizendo que não queria saber de nostalgia barata e que o negócio era criar uma equipe que fizesse história com imagem própria. E deu certo. A Brawn entrou para a história à sua maneira. Imagine que merda que seria se, ao invés disso, uma Tyrrell paraguaia tivesse sido campeã em 2009…

Portanto, parem de buscar o antigo no contemporâneo. A Lotus verdadeira já era. A Lotus Racing dessa temporada é, sem dúvida, uma iniciativa bacana e tal, mas a briguinha fraticida pelo nome simplesmente mancha qualquer tentativa de homenagem. É bem mais digno competir como Genii Racing e 1Malaysia Team. Por mais que esses nomes não signifiquem nada, são histórias individuais sendo construídas. E vai que, por exemplo, a 1Malaysia dê certo e passe a ganhar títulos. Ela passaria a ser a história, e não a usurpadora dela.

Mas se o pessoal não mudar de ideia, eu recomendo o seguinte: não fiquem presos à Lotus. Havia outras equipes legais antigamente. Fico sonhando com o dia em que teremos Onyx-Renault e Rial-Renault.

Este carro, de pintura bastante interessante e aparência um tanto quanto robusta, é o ancestral do atual carro campeão, o Red Bull RB6. Explica-se: a Red Bull Racing é a equipe que foi criada no fim de 2005 a partir do espólio da Jaguar Racing, que por sua vez havia comprado a Stewart Grand Prix no fim de 1999. E a simpática Stewart, que chamava a atenção pela pintura branca coberta com aquele tartan que identifica o clã escocês a que pertencia a família Stewart e pelo enorme patrocínio do banco HSBC, surgiu como equipe de Fórmula 1 em 1997. Ela já participava, com enorme sucesso, da Fórmula 3 inglesa e da Fórmula 3000 Internacional desde o início dos anos 90, mas sua empreitada na Fórmula 1 só se deu no final da década. E o primeiro carro que surgiu daquela pequena fabriqueta de Milton Keynes foi o SF1.

O sonho da dupla Jackie e Paul Stewart de abrir uma equipe de Fórmula 1 surgiu ainda em 1995, quando se comentava muito sobre um possível fim da Fórmula 3000 e muitas equipes da categoria, como a DAMS, a Supernova e a Durango, apareceram com projetos para a ascensão para a categoria principal. No entanto, apenas a turma dos escoceses tinha bala na agulha para isso. Em fevereiro de 1996, Jackie Stewart anunciou que, no ano seguinte, estrearia sua própria equipe na Fórmula 1. O mais legal é que tudo seria feito do zero, algo positivo para uma Fórmula 1 que só perdia carros a cada ano que passava.

Os Stewart eram pobres, mas limpinhos e organizadinhos. Em um primeiro momento, enquanto a novíssima fábrica em Milton Keynes não ficava pronta, o pessoal se reunia na pequena oficina que sediava as estruturas de F3 e F3000. Aos poucos, mecânicos e engenheiros, muitos deles egressos de outras equipes, eram contratados.  No final de 1996, já eram 100 os funcionários da Stewart Grand Prix. Entre eles, gente de gabarito como o diretor técnico Alan Jenkins, roubado da Footwork e o aerodinamicista Eghbal Hamidy, saído da Williams. Se o staff crescia a passos largos, os acordos comerciais e tecnológicos impressionavam ainda mais.

A Stewart não teve dificuldades para roubar a parceria da gigante de automóveis Ford das mãos da Sauber. Com esse apoio, a equipe passou a ter acesso ao Centro de Engenharia Avançada da Ford, localizado no estado americano de Michigan. Este centro tinha como chamariz maior o uso de supercomputadores que faziam detalhadas análises a respeito do comportamento aerodinâmico de carros e partes. Em outras palavras, a Stewart passou a ter acesso ao moderníssimo sistema CFD (dinâmica de fluido computacional), aquele que a Virgin tanto se orgulha de ter utilizado para desenvolver seu carro. O SF1, primeiro carro da equipe, foi também o primeiro carro da história da Fórmula 1 a ter parte de seu desenvolvimento aerodinâmico feito em computador, dispensando algumas boas horas de túnel de vento. Mas ao contrário da combalida equipe de Richard Branson, a Stewart não dispensou o tradicional ventiladorzão, aproveitando o equipamento da Swift, localizado na Califórnia. O mais interessante é que esse é o mesmo túnel de vento que a campeã Williams utilizava. Logo, as coisas estavam bem encaminhadas.

E ao contrário dos tempos atuais, não era tão difícil assim arranjar patrocinadores em 1996. A Stewart conseguiu um contrato com a HSBC que previa 8 milhões de dólares anuais durante cinco anos, um outro com o governo malaio que renderia 8,2 milhões de dólares anuais em 1997 e 1998 e mais alguns bons apoios da Texaco, da Sanyo e da Hertz. Estima-se que o orçamento da equipe para o ano de estreia girava em torno dos 30 milhões de dólares. Este valor, na verdade, não era muito maior do que o que a ridiculamente falida Mastercard Lola conseguiu juntar para sua estreia, mas vale considerar que o fato da Ford fornecer motores gratuitos e todo o suporte técnico oficial já representava uma enorme economia para os cofres de Jackie e Paul Stewart.

Os pilotos seriam o brasileiro Rubens Barrichello, ex-Jordan, e o dinamarquês Jan Magnussen, a sensação da Fórmula 3 inglesa em 1994. Para um ano de estreia, a estrutura da equipe era exemplar.

O SF1 foi lançado em dezembro de 1996, sendo o primeiro da temporada de 1997 a ser mostrado aos curiosos olhos do mundo. De aparência bastante conservadora, ele tinha laterais altas, bico alto mas curvado para baixo, asa traseira reduzida e tampa do motor curvada. Embora não tivesse arrancado suspiros de ninguém, também não era um carro para fazer passar vergonha. Além do mais, os pneus Bridgestone poderiam representar um ótimo diferencial.

Quando o carro entrou na pista, ele realmente se mostrou muito rápido. Mas também era muito problemático. Ainda na pré-temporada, Magnussen sofreu um violento acidente e acabou machucando uma das pernas. A causa do acidente foi o ponto fraco do SF1, as falhas estruturais na suspensão, que tornavam o bólido até meio perigoso. Com o início da temporada, outro grave problema foi descoberto: o sistema de óleo simplesmente não conseguia lubrificar os componentes do motor de maneira correta. E o resultado foi uma série de motores estourados, principalmente em pistas velozes. Além disso, o câmbio e o sistema hidráulico também renderam várias dores de cabeça.

No fim, os dois pilotos conseguiram terminar, juntos, apenas oito das 34 corridas (um altíssimo índice de 76% de abandonos) e Barrichello conseguiu um milagroso segundo lugar em Mônaco, corrida chuvosa que exigiu muito menos do Stewart do que faria uma prova normal. A conclusão era de que SF1 era um carro veloz que poderia perfeitamente colocar o brasileiro entre os dez primeiros em um grid (Magnussen simplesmente não conseguia andar nada), mas que não conseguia concretizar as coisas em resultados finais. Rubens andou muitíssimo bem nos treinos em Buenos Aires, em Montreal e em A1-Ring e chegou até a sonhar com a vitória em Nürburgring, mas problemas ocorridos em todas estas corridas acabaram deixando o belo carrinho branco parado em algum ponto da pista.

No fim, a Stewart terminou o ano com seis pontos e o nono lugar entre as equipes. Rubens Barrichello, o único piloto a pontuar, ficou em 13°. Ainda houve uma pequena polêmica sobre o fato do nome da equipe não constar na primeira lista de inscritos para 1998 devido a uma dúvida suscitada pela FIA a respeito da real saúde financeira da equipe. Mas tudo deu certo e a equipe seguiu existindo pelos dois anos seguintes até se tornar Jaguar e, posteriormente, a Red Bull que ganhou tudo nesse ano e que quase todos aprenderam a gostar.

A falta de tempo é grande, então tento escrever o menor texto de todos para não deixar esse site às moscas nesses primeiros dias da semana.

A foto é de Max Wilson, gaúcho de Hamburgo que se sagrou, nesse fim de semana, o mais novo campeão da Stock Car V8.  Wilson, que pilotou o Vectra amarelo da RC Competições nessa temporada, já esteve diretamente envolvido com a Fórmula 1 no final dos anos 90. Naqueles tempos, a Williams empregava vários pilotos bastante promissores como eventuais pilotos de testes. A preferência maior recaía sobre a turma da Fórmula 3000 Internacional, como eram os casos de Nicolas Minassian, Soheil Ayari e do próprio Wilson.

Max assinou com a equipe de Frank Williams em 1997. Naqueles bons tempos de vários pilotos brasileiros brilhando nas pistas internacionais, Wilson era um dos destaques da F3000. Pilotando um Lola-Zytek com o patrocínio da Petrobras, ele conseguiu terminar o ano em um ótimo quinto lugar. Sua equipe, a inglesa Edenbridge, o contratou após observá-lo dando um show na pista molhada de Interlagos no ano anterior, quando o ITC veio ao Brasil realizar sua etapa final e o brasileiro, que corria regularmente na Fórmula 3 alemã, decidiu fazer a corrida como convidado.

O teste da foto aconteceu em Magny-Cours com o Williams FW20 equipado com motor Mecachrome, que nada mais era que o Renault do ano anterior rebatizado com o nome da pequena preparadora de motores francesa. Fico devendo informações sobre número de voltas completadas e tempos. Mas apesar do bom relacionamento com todos, Max Wilson sabia que seu espaço na Williams seria pequeno. O test-driver oficial da equipe era o colombiano Juan Pablo Montoya, que causava furor com seu brilhantismo na mesma Fórmula 3000 do brasileiro. Enquanto Wilson terminou seu segundo ano apenas em nono, Montoya foi campeão de maneira soberba e se tornou o queridinho de Frank Williams. Restava apenas esperar.

Em 1999, Max Wilson decidiu continuar na Fórmula 3000, dessa vez correndo pela equipe oficial da Petrobras. Com mais de quarenta carros no grid, as coisas estavam complicadíssimas para os pilotos da categoria e Max não teve lá muita sorte no ano, como em Imola, quando foi tirado da pista por Nick Heidfeld enquanto era o líder. Seu melhor resultado foi um segundo lugar em Hockenheim. Os vínculos com a Williams ainda existiam, mas estavam bem mais fracos.

No final do ano, Wilson se candidatou a uma vaga na Minardi. Tinha um bom relacionamento com a Telefónica, patrocinadora principal da equipe, e a Petrobras também estava disposta a dar uma forcinha.  Mas a concorrência pela vaga de companheiro de Marc Gené era muito forte e quem tivesse mais dinheiro acabaria se dando melhor. No fim, o escolhido foi o argentino Gaston Mazzacane, que levava o maciço dinheirinho da PSN, antigo canal latino de esportes.

Wilson ficou parado em 2000, mas conseguiu retornar ao automobilismo no ano seguinte disputando a CART. Em um primeiro momento, ele assinou um contrato com a novata Sigma. Porém, para sua infelicidade, Oriol Servia não conseguiu assinar com a Prost para correr na Fórmula 1 e acabou voltando para os EUA, tomando a vaga de Wilson na Sigma. Mas a decepção de Max acabou no dia seguinte ao da súbita demissão, quando a Arciero o contratou para correr em seu Lola-Phoenix.

A oportunidade de correr na segunda maior categoria de monopostos do mundo parecia boa, mas a equipe era muito ruim e o carro, apesar de bonito, era lento e quebrador. E ele também não conseguiu completar o ano na equipe, já que Alex Barron entrou no seu lugar nas últimas etapas.

Em 2002, ele decidiu dar um rumo completamente diferente à sua vida ao anunciar sua transferência para a Austrália para disputar o competitivíssimo V8 Supercar, um dos melhores campeonatos de turismo do mundo. Max ficou por lá até 2008 e apesar de conseguir viver de automobilismo pela primeira vez, nunca conseguiu resultados relevantes devido à qualidade ruim das equipes pelas quais passou.

Cansado de tantas desventuras, Max decidiu voltar ao Brasil para correr na Stock Car V8 em 2009. E os bons resultados dos tempos da Fórmula 3 e da Fórmula 3000 não demoraram para voltar. No primeiro ano, ele conseguiu vencer uma corrida em Santa Cruz do Sul e terminou o ano em nono. Mas as coisas melhoraram visceralmente nesse ano. Com um carro bom e uma equipe estruturada, Wilson venceu duas etapas e ficou à frente de Cacá Bueno por um mísero ponto. E o gaúcho de Hamburgo conseguiu celebrar, após terminar a etapa de Curitiba em oitavo, o primeiro título da sua vida.

É isso aí. Parabéns, Max.

Antes de tudo, esse negócio de quando começa e quando termina a década é uma chatice tremenda. Para todos os efeitos, eu democraticamente decido que, nesse post, a década começou em 2000 e terminou em 2010. Eu sei que está errado, mas não dou importância. É assim e pronto. OK?

Dito isso, digo que a década que se encerrará no próximo dia 31 foi marcada pelo surgimento de uma turma bastante exclusiva e impressionante de pilotos que mandaram e desmandaram em suas respectivas categorias. E não estou falando de categoria de fundo de quintal, não. Cinco dos campeonatos mais importantes do mundo se tornaram, nos últimos anos, meros palcos para o show individual de cinco pilotos, que despertavam cega admiração nos espectadores e medo nos adversários. Para quem gosta de ver a cobra fumar nas brigas por títulos, foram anos até meio chatos. Mas para quem gosta de ver a excelência no automobilismo, anos inesquecíveis.

O Top Cinq de hoje, um dos últimos do ano, relembrará um pouco dos domínios empreendidos por esses cinco pilotos. Só uma curiosidade: quatro deles já andaram em um carro de Fórmula 1. Sinal de que até mesmo a categoria de nariz empinado se curva ao poderio desses sujeitos.

5- SEBASTIEN BOURDAIS (4 TÍTULOS NA CHAMPCAR ENTRE 2004 E 2007)

Sebastien Bourdais em San Jose, 2006

Quando Sebastien Bourdais desembarcou nos EUA pela primeira vez, no início de 2003, ninguém o levou muito a sério. Com sua aparência esquálida e seus indefectíveis óculos, Sebá parecia ter saído diretamente do elenco do filme “A Vingança dos Nerds”. Mas o francês, filho do ex-piloto Patrick Bourdais, não era um zé-mané qualquer. Aos 24 anos, ele já apresentava no currículo um título na Fórmula 3000 Internacional, um na Fórmula 3 francesa e um na Fórmula Campus.

Bourdais assinou com a Newman/Haas para competir na CART, que passava por maus momentos. Os americanos cagavam e andavam para o campeonato, que buscava cada vez mais europeização. O piloto, por sua vez, apostava na categoria como uma alternativa à Fórmula 1, que simplesmente o ignorou na hora de trazer pilotos novos para 2003. Seu companheiro era o brasileiro Bruno Junqueira, que entrava no seu terceiro ano da categoria. As circunstâncias não pareciam fáceis para ele, portanto.

Mas Bourdais aprendeu tudo muito rapidamente. Logo na primeira corrida, em St. Petersburg, ele marcou a pole-position e liderou as primeiras voltas. Na rodada seguinte, em Monterrey, ele repetiu a pole-position. A primeira vitória viria em Brands Hatch, duas corridas depois. A primeira vitória em oval viria logo a seguir, em Lausitzring. Na tabela final, quarto colocado. Um ótimo começo, sem dúvidas. Mas teria ele fôlego para conseguir coisa melhor?

Ô se teria. Sebastien simplesmente ignorou os concorrentes e papou os títulos de 2004, 2005, 2006 e 2007. É verdade que gente como Paul Tracy, Bruno Junqueira, Will Power, AJ Allmendinger e Robert Doornbos tentou dar trabalho, mas era simplesmente impossível pegá-lo. Versátil, ele conseguia andar bem em absolutamente qualquer tipo de pista. Sua fama era tamanha que ele era basicamente o único piloto do combalido grid a contar com o apoio de uma grande empresa, o McDonald’s. Depois de tanto tempo de vida fácil e ciente que a Champcar acabaria mais cedo ou mais tarde, Bourdais decidiu migrar para a Fórmula 1 em 2008. A passagem não foi tão boa, a Toro Rosso o demitiu após um ano e meio e hoje ele milita na Superleague e nos protótipos.

4- JIMMIE JOHNSON (5 TÍTULOS NA NASCAR CUP ENTRE 2006 E 2010)

Jimmie Johnson em Loudon, 2010

Em 2001, um californiano de El Cajón surgiu de mansinho no campeonato principal da NASCAR, cujo nome era associado, na época, aos cigarros Winston. Fez três corridas pela Hendrick Motorsport e ninguém deu muita bola. O californiano, que era um piloto apenas razoável na Busch Series, entrou na equipe de Rick Hendrick por meio de sua amizade com o supercampeão Jeff Gordon. E apesar do desempenho nessas provas não ter sido sensacional, a Hendrick decidiu dar uma oportunidade ao jovem piloto. Em 2002, ele foi contratado para correr durante toda a temporada.

Johnson agradeceu à oportunidade da melhor maneira possível: vencendo três corridas e terminando o ano em um soberbo quinto lugar. Ainda assim, a NASCAR não lhe deu o prêmio de Estreante do Ano por não considerá-lo tão consistente como um piloto de ponta deveria ser. Em 2003, ele venceu outras três provas e foi vice-campeão. Se naquela época houvesse o sistema de pontuação do Chase, aquela parte do campeonato onde os melhores colocados nas tabelas acabam empreendendo uma briga particular pelo título, ele teria se sagrado campeão. Mas tudo bem, outras chances viriam.

Em 2004, ele venceu oito provas e repetiu o vice-campeonato. No ano seguinte, venceu quatro e terminou em quinto. Na última corrida do ano, tinha até chances de ser campeão, mas um acidente o fez ficar atrás de Tony Stewart, Greg Biffle, Carl Edwards e Mark Martin na prova e no campeonato. Estava na hora de ser campeão.

A NASCAR passou a ser sua a partir de 2006. Naquele ano, Johnson venceu cinco corridas e ganhou seu primeiro título. No ano seguinte, um domínio acachapante com dez vitórias e o segundo título. Em 2008, a categoria deixou de ser patrocinada pela Nextel e passou a receber tutu da Sprint, mas o campeão, com sete vitórias, continuava o mesmo. Em 2009, mais sete vitórias e o quarto título. Em 2010, Jimmie Johnson se tornou o primeiro piloto da história da categoria a ganhar o título por cinco vezes seguidas. O título veio após Johnson conseguir reverter uma vantagem fácil de Clint Bowyer nas últimas provas. Aos 35 anos, ele ainda tem muito pela frente. Mais títulos virão.

3- MICHAEL SCHUMACHER (5 TÍTULOS NA FÓRMULA 1 ENTRE 2000 E 2004)

Michael Schumacher em Spa-Francorchamps, 2004

De todos da lista, o alemão de Hürth é o único a ter vencido campeonatos de sua categoria nos anos 90. Com a Benetton, Michael Schumacher ganhou os títulos de 1994 e 1995. Mas foi na Ferrari que ele se consagrou como um dos grandes da história do automobilismo.

Michael Schumacher foi contratado pela Ferrari por 25 milhões de dólares anuais para tentar acabar com o incômodo jejum de mais de 15 anos sem títulos. Em uma verdadeira operação de guerra, a Ferrari abriu a carteira para trazer, junto com ele, o engenheiro Ross Brawn e o projetista Rory Byrne, colegas de Schumi na Benetton. As primeiras temporadas, embora tenham representado enorme avanço para a Scuderia Rossa, não proporcionaram o fim do tal jejum. Michael precisou de cinco temporadas para vencer o primeiro campeonato de pilotos para a equipe desde 1979. E não parou mais.

O alemão foi campeão em 2000 ganhando nove corridas e batendo um Mika Hakkinen inspiradíssimo. Em 2001, mesmo com a concorrência forte da McLaren e da Williams, Schumacher ganhou outras nove corridas e seu quarto título. Em 2002, 11 vitórias e um título covarde de tão fácil. Em 2003, a concorrência melhorou e tanto Kimi Raikkonen como Juan Pablo Montoya deram o maior cansaço no piloto da Ferrari. Ainda assim, Schumacher venceu seis corridas e se sagrou hexacampeão, o primeiro da história da Fórmula 1. E o sétimo título veio no ano seguinte, com nada menos do que 13 vitórias.

A partir de 2005, a maturação de Kimi Raikkonen e o surgimento de adversários como Fernando Alonso acabaram mostrando que todo domínio tem seu início e seu fim. Michael se aposentou em 2006, pescou, andou de moto, brincou com os filhos, se cansou de sua vidinha pacata e voltou à Fórmula 1 em 2010 para se divertir a bordo de um Mercedes. Ainda que ele saiba que um oitavo título é altamente improvável, Michael Schumacher está aí, mostrando que não só sabe dirigir como também ama fazê-lo.

2- VALENTINO ROSSI (7 TÍTULOS NAS 500CC E NA MOTOGP ENTRE 2001 E 2009)

Valentino Rossi em Motegi, 2005

Se há um sujeito nessa lista que além dominar em sua categoria, cativa a simpatia e a torcida de todos, este alguém é Valentino Rossi. O italiano, filho do ex-motociclista Graziano Rossi, é o único do Top Cinq que fez seu império no mundo das duas rodas. E de todos os imperadores, foi talvez o mais amado pelos plebeus, com seu estilo ousado de pilotagem, seus capacetes e suas comemorações após as (muitas) vitórias.

Rossi começou sua carreira no Mundial de Motovelocidade em 1996 com uma modesta Asprilla de 125cc. Entre tombos e mais tombos, alguns bons resultados e, pá!, um título em 1997. Subindo para as 250cc, mais tombos e mais dificuldades até que, pá!, outro título em 1999. Sua ascensão para as 500cc se deu com a Honda em 2000. Logo em seu primeiro ano, venceu duas corridas e chamou mais atenção do que o campeão, Kenny Roberts Jr.

O primeiro título veio no ano seguinte, 2001, com impressionantes 11 vitórias. No ano seguinte, as 500cc mudaram de nome, se tornando MotoGP, e de equipamento, introduzindo propulsores de 990cc. Só se esqueceram de mudar de campeão. Rossi ganhou os campeonatos de 2002 (11 vitórias) e 2003 (9 vitórias) com a Honda.  No ano seguinte, buscando novos desafios, ele migrou para a Yamaha, que até então não passava de mais uma manufatureira no grid. E não é que Rossi fez da Yamaha uma marca vencedora, papando os títulos de 2004 (9 vitórias) e 2005 (11 vitórias)? De quebra, graças à conexão entre Yamaha e Fiat, conseguiu descolar uns testes com carros de Fórmula 1 da Ferrari. Rossi sempre pensou nessa mudança com carinho.

Em 2006 e 2007, Nicky Hayden e Casey Stoner conseguiram quebrar a série de títulos de Rossi e muitos até ficaram com a impressão de que o italiano estava iniciando sua curva descendente. Mas eis que Valentino ganha indiscutivelmente o campeonato de 2008 com 9 vitórias e quase 100 pontos de vantagem sobre Stoner. Em 2009, seis vitórias e um sétimo título sobre Jorge Lorenzo. Em 2010, Rossi acabou fraturando sua tíbia em um violento acidente em Mugello e chegou a ficar de fora de algumas corridas. Com isso, não houve como brigar pelo título. Mas ele estará 100% em 2011, quando fará sua estreia peal Ducati. Será que ele consegue fazer o mesmo que fez com a Yamaha?

1- SEBASTIEN LOEB (7 TÍTULOS NO WRC ENTRE 2004 E 2010)

Sebastien Loeb na Nova Zelândia, 2007

E o primeiro colocado no Top Cinq é um francês de aparência absolutamente tranquila e desleixada que não toma conhecimento sobre seus adversários. Seu domínio é tamanho que não são muitos os pilotos e as equipes que se dispõem a lutar contra ele no WRC. Sebastien Loeb é o que mais me impressionou dos cinco por estar ganhando títulos desde 2004. São sete campeonatos consecutivos em que o campeão não é outro!

Loeb começou sua carreira devagarzinho, aos 21 anos. Após ganhar alguns campeonatos franceses de rali, ele chamou a atenção de Guy Frequelin, diretor da Citroen no WRC, que decidiu colocá-lo para correr em algumas etapas em 2001 e em 2002. A adaptação foi imediata e o Xsara, excelente carro em pistas asfaltadas, permitiu a Loeb quase vencer o Rali de Montecarlo em 2002. Meses depois, na Alemanha, ele venceu sua primeira etapa no Mundial. Mal sabiam todos que aquela seria a primeira de uma inacreditável sequência de oito vitórias consecutivas no país. Ele só não venceu em 2009 porque… não houve etapa alemã!

Loeb perdeu o título de 2003 por um estúpido ponto, mas não teve maiores problemas para vencer os títulos de 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 e, ufa!, 2010. São nada menos que 62 vitórias em 138 etapas, praticamente um trunfo a cada duas rodadas. Loeb costuma construir suas vitórias logo nas primeiras especiais, ao abrir enorme vantagem para o segundo colocado. E ele o consegue em qualquer tipo de pavimentação. E cometendo pouquíssimos erros, algo incomum no WRC!

Para se ter uma idéia, em 2006, ele quebrou o braço em um acidente de bicicleta na Suíça e perdeu as quatro etapas finais. Seu maior adversário, Marcus Grönhölm, venceu três dessas etapas. Ainda assim, Loeb tinha construído uma vantagem tão grande que ainda conseguiu se sagrar campeão com apenas um ponto de vantagem. É bom o cara ou não?

Romain Grosjean, a ave fênix do ano

Falo agora, com um pouco de peso no coração, sobre a Arden e a Supernova. Ambas têm em comum o excelente histórico na Fórmula 3000 Internacional e ambas acabaram sucumbindo ao surgimento de equipes mais organizadas e mais profissionais  com o advento da GP2. A Arden até chegou a brigar pelo título em 2005, mas acabou estagnando no meio do pelotão. Em 2010, com dois pilotos novatos, a equipe não conseguiu lá muita coisa. Charles Pic ainda fez uma pole-position em Hockenheim e venceu a primeira corrida de Barcelona após herdar a liderança. Fora isso, apenas um pódio na Alemanha foi obtido. Ainda assim, ano razoável para um estreante. Já seu companheiro, o venezuelano Rodolfo Gonzalez, marcou apenas quatro pontos e só fez bobagem. Sua participação pode ser explicada por uma palavra: PDVSA.

Se a Arden fez um ano apenas mediano, o que dizer da Supernova? Os carros azuis (sim, aquilo é um azul bem escuro) de David Sears tiveram talvez sua pior temporada desde o início da GP2. Lentos, eles não facilitaram a vida de seus pilotos. Que, diga-se, também não colaboraram muito. Marcus Ericsson, o sueco que entrou na categoria ostentando o título da Fórmula 3 japonesa e uma excelente participação no campeonato britânico, foi uma das decepções do ano. Chegou em sétimo na primeira corrida de Valência, venceu a segunda e fez um sexto lugar na primeira prova de Hockenheim. E só. Onze magros pontos e a desagradável impressão de que Ericsson não é aquele gênio que parecia ser até o início do ano.

Josef Kral, seu companheiro, foi ainda pior. Ninguém esperava absolutamente nada de sua temporada, e ele cumpriu. Só apareceu quando sofreu o acidente mais violento do ano, em Valência. Se arrebentou todo e precisou se ausentar por cinco rodadas. Retornou em Abu Dhabi e marcou três pontos. Será que o acidente o transformou em um piloto razoável? O matusalém Luca Filippi o substituiu em cinco rodadas e foi ligeiramente melhor, marcando cinco pontos em Hungaroring e em Spa-Francorchamps. Também, com quase 100 provas disputadas na GP2, não deixa de ser sua obrigação.

Outra das equipes que “brilhavam muito na Fórmula 3000” é a DAMS. Há uns quinze anos, ela era a queridinha de todo mundo e fez vários dos campeões da antiga categoria. Hoje em dia, na GP2, ela até tem a expertise, a tradição e o polpudo apoio oficial da Renault, mas não consegue concretizar sua estrutura em resultados. Jerôme D’Ambrosio, pelo terceiro ano seguindo, insistiu em seguir com a equipe de Jean-Paul Driot, acreditando que, dessa vez, ela iria. Não foi. Como de hábito, o carro da DAMS apresentou um índice de quebras maior que o normal e D’Ambrosio teve um início de temporada tão azarado quanto decepcionante, apesar da vitória na segunda corrida monegasca, a primeira de sua carreira na categoria. Em Hockenheim, ele foi substituído por Romain Grosjean. O período sabático lhe fez bem: no seu retorno, ele marcou pontos em Hungaroring e em Monza. Poderia ter vencido a primeira corrida de Spa-Francorchamps, mas o azar manifestou e seu carro quebrou no finalzinho. Apesar disso, Jerôme é um bom piloto e tem o ótimo apoio da Gravity por trás. Tem boas chances de subir para a Fórmula 1 no ano que vem.

Michael Herck: apesar de algumas surpresas, ainda não passa de um mauricinho limitado

O outro piloto foi o chinês Ho-Pin Tung. Confesso que, até o ano passado, o achava um tremendo de um injustiçado. Campeão da Fórmula 3 alemã, ele teve passagens bem infelizes na GP2 correndo pelas fracas BCN e Trident. Na DAMS com apoio da Renault, ele poderia mostrar seu pretenso talento. Mas ele não mostrou. Andou mal pra caramba em treinos de classificação e não conseguiu se recuperar nas corridas. De quebra, ainda se envolveu em um forte acidente em Hungaroring, fraturou uma vértebra e acabou ficando de fora de várias etapas. Retornou na última como um convidado pela Racing Engineering e também não fez nada. Seu substituto foi o franco-suíço Romain Grosjean. E esse merece um destaque especial.

Terminado o ano de 2009, Grosjean deixou a Fórmula 1 desmoralizado. Sua breve passagem pela Renault havia sido desastrosa, cheia de erros e problemas de adaptação em um carro muito ruim. Silenciosamente, retornou ao automobilismo em 2010 fazendo corridas no FIA GT e no AutoGP. Andou muitíssimo bem e deixou ambos os campeonatos na liderança. No último, aliás, sagrou-se campeão, mesmo disputando menos corridas que os concorrentes. Voltou à GP2, de mansinho, para fazer algumas corridas pela DAMS. Fez dois pódios e 14 pontos. Poderia até ter feito mais, se não tivesse sido atingido por Maldonado em Hockenheim. Um dos destaques do ano, sem dúvida. Merece pensar em um retorno à Fórmula 1.

Das demais equipes sem brasileiros, a que mais se destacou foi, acredite, a DPR. A equipe, criada pelo respeitável David Price, foi vendida por uma ninharia a André Herck, famoso dentista romeno que quis ter sua própria estrutura para empregar seu filho Michael. Desde então, a DPR veio ladeira abaixo e poucos se dispuseram a correr como segundão do filho do dono em uma equipe precária. Apenas o experiente Giacomo Ricci, que não tem dinheiro nenhum, não tem outra opção. Ricci, aliás, fez uma belíssima temporada. Com um carro muito precário, brigou pela vitória na primeira etapa de Barcelona e conseguiu vencer na segunda de Hungaroring, dando à equipe a primeira vitória desde 2005. Como sempre, acabou chutado sem dó ainda antes do fim do ano.  E Michael Herck? Bem, ele evoluiu.  Até pole-position em Spa e pódio em Valência ele conseguiu. Mas ninguém se ilude. Só a influência do papai vai conseguir alguma coisa além da GP2. No ano que vem, não teremos a DPR no grid e Michael Herck correrá pela Coloni. Há quem diga que é mais uma manobra de fagocitose de André Herck.

Sem a Durango e a BCN, quem passou a competir com a DPR pelo título de pior equipe é a italiana Trident. Ela, que começou ambiciosa, organizadinha e cheia da grana, se transformou em uma lamentável equipe de fundo de grid. Em 2010, o experiente Adrian Zaugg e o promissor Johnny Cecotto Jr. competiram juntos na maior parte do tempo. O sul-africano Zaugg, único negro do grid, fez o de sempre: andou rápido em algumas ocasiões, errou em outras e, acima de tudo, tomou porrada de outros pilotos como ninguém. Pobre Adrian. Quanto a Cecotto, ele também conseguiu andar bem ocasionalmente, como em Mônaco, mas faltou um pouco de constância. No fim do ano, a equipe o chutou e trouxe o mediano Edoardo Piscopo e o lamentável Federico Leo para seu lugar. Piscopo até conseguiu o milagre de marcar dois pontos, mas foi na base da cagada pura e simples.

Luiz Razia: começo bom, metade decepcionante e final razoável

E a última colocada da temporada, pobrezinha, foi a Ocean, equipe portuguesa de propriedade de Tiago Monteiro. A Ocean surgiu do espólio da BCN e prometia ser uma equipe bem mais profissional e competente que a ex-equipe espanhola. Em 2009, com os experientes Álvaro Parente e Karun Chandhok, conseguiu. Nesse ano, ela apostou nos novatos Max Chilton e Fabio Leimer e se deu muito mal. Chilton, filho do dono da Carlin Motorsports, demonstrou que não é do ramo e só marcou três pontos. O esquecido Leimer, campeão de Fórmula Master, foi melhor e até venceu a segunda etapa de Barcelona. Ambos erraram muito em corridas. Melhor sorte para o time luso em 2011.

Deixei por último as equipes que tiveram brasileiros. Nesse ano, apenas dois competiram: Luiz Razia e Alberto Valério. Pelo visto, ficou para trás aquele boom de brasileiros na categoria. Razia assinou com a Rapax, a equipe do campeão Maldonado, e vinha com boas expectativas para 2010. De fato, ele começou muito bem o ano, pontuou em seis corridas seguidas e terminou em segundo em duas oportunidades, nas Sprint Races de Barcelona e Istambul. Após o fim de semana turco, ele estava bem próximo dos ponteiros na tabela.

Infelizmente, a partir de Valência, a temporada se transformou em um calvário para o baiano. Uma série de azares e problemas o atingiu de maneira implacável. Acidentes como o da largada da primeira prova em Valência e o com Valsecchi na primeira prova de Hockenheim, ambos sem sua responsabilidade direta, também complicaram sua vida. No fim, um segundo lugar na última prova de Abu Dhabi representou um fecho bacana para um campeonato algo decepcionante. Afinal, ficar 59 pontos atrás de seu companheiro nunca é legal, mesmo que não consigamos saber o que realmente se passou lá dentro da Rapax. Toda a sorte do mundo para Luiz Razia em 2011.

E o Alberto Valério? Esse daqui, infelizmente, não tem muito jeito. Em seu terceiro ano, Valério demonstrou que até consegue andar muito rápido em algumas ocasiões, principalmente nos treinos oficiais, mas sempre há uma cagada a ser feita durante a corrida. Na segunda corrida de Mônaco, ele bateu sozinho após tentar ultrapassar Luiz Razia. Em Valência, ele acertou com tudo o carro de Sergio Perez na largada da segunda prova. Ele também rodou sozinho nas duas corridas de Istambul. Alberto deve ter algum talento natural, mas coloca tudo a perder com erros grosseiros, resultantes provavelmente de algum tipo de insegurança ou ansiedade. Ao menos, ele derrotou, tanto em velocidade como em pontos, o búlgaro Vladimir Arabadzhiev. Que, aliás, também fez besteiras aos montes.

Alberto Valério, uma vaca brava

Pobre Coloni… aliás, pobre é o caralho. A equipe é uma das mais picaretas da GP2, sendo conhecida por existir unicamente para tirar o dinheiro dos bolsos dos pilotos endinheirados. Enzo Coloni era um homem respeitável e que amava o automobilismo, mas seu filho Paolo, o atual chefe da equipe, é apenas um mercenário que não tem a menor intenção de construir uma equipe competitiva. Me arrisco a dizer que a Coloni da Fórmula 1, apesar de pobre, era bem mais profissional e séria do que a Coloni atual da GP2.

Ao menos, ela se tocou e decidiu mandar tanto Valério como Arabadzhiev embora no final do ano. No lugar de Valério, o excelente Álvaro Parente, que andou demais em Spa-Francorchamps e quase venceu a corrida de sábado. O búlgaro foi substituído por Brendon Hartley, ex-piloto Red Bull, que conseguiu marcar um pontinho na última etapa de Abu Dhabi. Isso prova que, se a Coloni investisse mais em pilotos, ela poderia brigar por vitórias e até mesmo pelo título.

Há mais o que falar? Comento rapidamente sobre as corridas. A GP2 foi aquela de sempre: algumas corridas excepcionais, outras bastante modorrentas, muito mais disputas do que na Fórmula 1 e a diversão de sempre. Os erros aconteceram à exaustão, mas os acidentes não foram tantos. Foram, sim, doloridos: Josef Kral, Jules Bianchi, Ho-Pin Tung e Dani Clos tiveram problemas com vértebras após suas pancadas.

Se eu tiver de dar uma nota à GP2, eu daria um 7,5. E talvez seja realmente essa nota que a categoria mereça. As corridas são boas, o carro é ótimo e os pilotos são talentosos, mas os problemas de organização, custos, promoção e credibilidade são os mesmos de 2005. Espero que as coisas sejam aprimoradas em 2011. Como esperei para 2010, 2009, 2008, 2007…

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