Top Cinq


Pense na atual década. Antes que comecem com aquele estúpido questionamento sobre quando começou a atual década, eu democraticamente determino que ela se iniciou em 2001 e vai terminar no final desse ano. E exijo que todos aceitem, é claro. Dito isso, pense na atual década. Se você acompanhou todas as temporadas com uma certa assiduidade, poderá se lembrar de lguns nomes. E se a sua memória for boa, vários nomes lhe virão à cabeça. Mas você, provavelmente, não se lembrará de todos. E sempre haverá uma turma de pilotos que é esquecida constantemente pelos fãs da Fórmula 1. Coitados. Mas eu, que sou muito bondoso, darei um espaço a eles. Com vocês, os cinco caras dessa década que são absolutamente deixados de lado pela memória de todos.

5- RALPH FIRMAN

Para muitos brasileiros, o nome Ralph Firman remete ao velho dono da antiga Van Diemen, a empresa que fazia os melhores bólidos de Fórmula Ford nos anos 70 e 80. Pela sua equipe, correram pilotos do naipe de Emerson Fittipaldi, Ayrton Senna, Roberto Moreno e Mauricio Gugelmin. O velho Ralph tem dois filhos que decidiram não decepcionar o pai e acabaram se tornando pilotos profissionais. No entanto, Natasha, a caçula, não chegou tão longe quanto seu irmão Ralph Jr, que pilotou para a Jordan em 2003.

Ralph Firman Jr., ou simplesmente Ralph Firman para nós, fez uma carreira bastante relevante no automobilismo-base, tendo vencido a Fórmula 3 inglesa em 1996 e a competitiva Fórmula Nippon em 2002. Como prêmio por esse título, a BAR decidiu lhe dar um teste no final daquele ano em Barcelona. Apesar do desempenho ter sido razoável, Firman não estava esperando por uma vaga na Fórmula 1, uma vez que já tinha 27 anos e não estava mais na boca do povo.

Para sua felicidade, a Jordan estava bastante interessada nele. Na verdade, não exatamente nele, e sim em seu dinheiro. Eram tempos difíceis para a equipe amarelada e Eddie Jordan precisava de um piloto pagante que compensasse a saída maciça dos patrocinadores da equipe. Vencendo a disputa contra o jovem Felipe Massa, Firman foi confirmado como piloto da Jordan no começo de 2003. Ninguém estava depositando muita esperança no piloto irlandês.

De fato, ele não fez nada de mais a não ser sofrer dois perigosos acidentes em Interlagos e em Hungaroring. Em ambos, a culpa foi do seu carro, que quebrava sem mais nem menos em trechos velozes dos circuitos citados. Nas demais corridas, Firman demonstrou dificuldades com um carro lento e difícil de guiar e com o desconhecimento acerca da maioria dos circuitos. Apenas um ponto foi marcado, em Barcelona. A temporada de Firman foi tão fraca que Eddie Jordan cancelou o contrato de três anos que tinha com o cidadão e, após um breve flerte com a Minardi, o piloto nunca mais foi visto nas corridas de Fórmula 1.

4- FRANCK MONTAGNY

Típico indivíduo que chama mais atenção fora do que dentro das pistas, Franck Montagny teve uma passagem breve pelas corridas de Fórmula 1. Bicampeão da World Series by Nissan em 2001 e em 2003, o francês se destacava mais pela aparência de roqueiro doidão coberto de piercings do que por sua performance nas pistas. Ainda assim, o cara estava longe de ser um mau piloto.

O mais injusto em Montagny é o fato dele ter feito testes entre 2002 e 2007 mas só ter feito sete minguadas corridas pela Super Aguri em 2006. Por um bom tempo, ele andou sozinho pelas pistas do Mediterrâneo testando suspensões, motores e apetrechos aerodinâmicos para as equipes Minardi, Renault, Jordan, Toyota e Force India. Em várias ocasiões, a mídia vinculou seu nome a alguma vaga, como ocorreu no ano passado, quando alguns jornalistas franceses garantiram que a segunda vaga na Renault seria dele. Mesmo assim, ele nunca conseguiu nada além de uma oportunidade meia-boca na Super Aguri.

Montagny entrou na equipe de Aguri Suzuki para substituir o japonês Yuji Ide, que havia tido um desempenho lamentável nas quatro primeiras etapas em 2006. Fez as tais sete corridas e não chamou a atenção em nenhuma. Terminou três, teve problemas em outras três e ainda se envolveu no engavetamento do GP dos EUA. Nos treinos, sua melhor posição foi um 19º em Indianápolis. Após o GP da França, ele teve de ceder seu lugar ao endinheirado Sakon Yamamoto. E Montagny voltaria a passar a vida dando voltas solitárias pelos autódromos da vida.

3- PATRICK FRIESACHER

À primeira vista, quem analisa sua carreira conclui que o cara é um infeliz. Mais ou menos, respondo. Na verdade, o fato de ter conseguido chegar à Fórmula 1 deve ser tratado como uma vitória pessoal para o austríaco Friesacher por uma razão bem especial: por muito pouco, ele não perdeu sua perna em um acidente de kart. Depois de um longo período de convalença, Patrick voltou à ativa e subiu rapidamente no automobilismo. Sua passagem pelas primeiras categorias foi boa, mas não chamou a atenção. Fez quatro temporadas na Fórmula 3000 e venceu em apenas duas ocasiões. Era um cara que mostrava arrojo mas que dava a impressão de que não chegaria a lugar algum.

Para sua sorte, Paul Stoddart, dono da Minardi, não pensou assim. Em novembro de 2004, ele foi convidado a testar um carro da equipe italiana ao lado de vários outros pilotos. Andou muito bem e fez o segundo melhor tempo entre os nove que testaram. Como ele também levava uma boa grana em sua carteira, a Minardi não tardou muito e o contratou para pilotar o primeiro carro da equipe.

Nas onze corridas que fez pela equipe, Friesacher não andou tão mal. Conseguiu bater o bom Christijan Albers em algumas ocasiões nos treinos e também não comprometeu muito nas corridas, apesar de ter rodado sozinho em três ocasiões. Na única chance que teve de verdade, o polêmico GP dos EUA de apenas seis carros, Friesacher terminou… em sexto. Apesar de tudo isso, o austríaco não teve uma performance geral tão ruim assim. Porém, a partir do momento em que o dinheiro acabou, a Minardi não tardou em chutar sua bunda para colocar o holandês Robert Doornbos em seu lugar.

2- GIANMARIA BRUNI


Este é um que confesso que certamente seria esquecido em uma lista minha de todos os pilotos da década. O italiano, que mais se parecia com um desses lutadores de jiu-jitsu, participou de apenas uma temporada na Fórmula 1. E não conseguiu fazer nada que chame a atenção.

Campeão da Fórmula Renault européia em 1999, Bruni é um competente piloto que começou a aparecer de verdade no início da década, quando fazia algumas boas corridas na Fórmula 3 inglesa no período em que corriam medalhões como Antonio Pizzonia, Takuma Sato e Tomas Scheckter. Sem conseguir vencer no certame, ele foi tentar a sorte na Fórmula 3000 italiana, a prima favelada da Fórmula 3000 internacional. Em 2003, quase ganhou o campeonato, mas preferiu trocar a disputa pelo título por uma sessão de testes com a Minardi no final do ano. Como seu desempenho nos testes era notável, Paul Stoddart decidiu contratá-lo como primeiro piloto da equipe em 2004.

Bruni é o único piloto dessa lista que conseguiu fazer uma temporada completa. No entanto, assim como os outros, não brilhou em momento algum. O Minardi PS04B era um carro absolutamente inguiável e o motor Cosworth era ainda mais fraco que o utilizado no ano anterior. No fim das contas, o coitado ainda conseguiu terminar o campeonato atrás de seu limitado companheiro, o húngaro Zsolt Baumgartner, que fez um ponto sortudo em Indianápolis. As imagens que tenho na cabeça sobre Gianmaria Bruni são dele brigando com sua equipe em Mélbourne, dele brigando com Giorgio Pantano após um acidente na largada em Spa-Francorchamps e do belíssimo incêndio em seu carro nos boxes do circuito de Monza.

1- NICOLAS KIESA

Eu nunca imaginei que Nicolas Kiesa conseguiria ser o primeiro colocado no ranking de qualquer coisa que fosse. Mas aqui, ele é! O franzino dinamarquês, último dos moicanos de seu país na Fórmula 1, fez as cinco corridas mais apagadas de toda a década. O mais impressionante é que, se você pensar bem, sua atuação foi melhor do que a de muitos pilotos por aí. Explico depois o porquê.

Kiesa sempre foi um peso morto do automobilismo, algo como o Grêmio Prudente no campeonato brasileiro. Não era ruim demais e também não era grandes coisas. Antes de subir para a Fórmula 1, ele conseguiu vencer apenas duas corridas na carreira! A segunda vitória, por sinal, entrou para a história do automobilismo como uma das cenas mais patéticas já presenciadas. Kiesa herdou a vitória do GP de Mônaco de 2003 da Fórmula 3000 internacional quando o sueco Bjorn Wirdheim, líder durante toda a corrida, estupidamente parou o carro antes da linha de chegada para comemorar aquela que seria uma bela vitória.

De certa forma, a vitória bizarra na F3000 projetou Nicolas Kiesa para a Fórmula 1. No mesmo dia em que Antonio Pizzonia foi substituído por Justin Wilson na Jaguar, Paul Stoddart decidiu que Kiesa substituiria o inglês na Minardi. O dinamarquês bateu Vitantonio Liuzzi na preferência da equipe, talvez sua vitória mais relevante na vida.

Kiesa fez as cinco últimas corridas de 2003. Largou atrás do companheiro Jos Verstappen em todas elas, e com a monstruosa diferença média de 1s356 entre os dois. No entanto, seu mérito maior estava nas corridas. Como o cara era muito lento, seu carro não trabalhava muito. E o resultado é que Kiesa conseguiu terminar todas as cinco corridas! Eu me arriscaria a dizer que, ao completar 100% das cinco corridas disputadas, seu aproveitamento é o melhor da história da categoria! Exagero? Claro que sim. Mas é que é muito ruim ser o primeiro apenas em um ranking furreca com esse.

Para saturar a semana deste blog com este assunto insuportável, trago à lembrança dos leitores alguns casos de pilotos que sucumbiram às decisões de seus patrões e tiveram de ceder passagem aos seus companheiros. Aos iniciantes que se estarreceram com a atitude de Felipe Massa, saibam que ordens de equipes são tão antigas quanto a prostituição ou o estelionato. Nos anos 50, o ótimo Peter Collins já teve de abandonar uma corrida para entregar seu carro a Juan-Manuel Fangio. A Lotus, amada por muitos, tinha esquemas claros e francos de primeiro e segundo piloto. A implantação dos pit-stops representou uma excelente oportunidade para chefes de equipe e estrategistas executarem operações do gênero sem chamar a atenção.

Felipe Massa e Fernando Alonso não são nem os primeiros e nem serão os últimos envolvidos em polêmicas do tipo. Vamos às cinco histórias:

5- NICK HEIDFELD E FELIPE MASSA, ALEMANHA 2002

Engana-se redondamente quem acha que uma ordem de equipe em Hockenheim é novidade para Felipe Massa. Em seu primeiro ano na Fórmula 1, ele era o segundo piloto da Sauber. Seu companheiro, não muito mais experiente do que ele, era o alemão Nick Heidfeld.

A primeira ocasião na qual os dois se encontraram na pista foi em Nürburgring, em junho de 2002. Massa vinha em sexto e Heidfeld vinha logo atrás. Naquele período, apenas os seis primeiros marcavam pontos. Peter Sauber acreditava que o alemão, sendo o primeiro piloto e também mais experiente, merecia mais este pontinho. Desse modo, ele pediu para que Massa deixasse Heidfeld passar no fim da corrida. Displicente, Felipe não cumpriu a ordem. A rebeldia levou a um clima bastante desconfortável na equipe suíça.

Semanas depois, a situação se repetiu em Hockenheim. Massa estava novamente à frente de Heidfeld, embora dessa vez nenhum deles estivesse perto dos pontos. Peter Sauber pegou seu rádio novamente e pediu para que o brasileiro deixasse seu companheiro passar. Vendo que a situação poderia se complicar ainda mais, especialmente após um deprimente GP da Inglaterra, ele deixou. Posteriormente, os dois ganharam algumas posições e Heidfeld terminou em sexto, com Massa logo atrás.

Muitos argumentam que Massa deixou Heidfeld passar e foi demitido do mesmo jeito. Excluindo outros fatores, o que foi decisivo, na verdade, foi sua atitude em Nürburgring.

4- EDDIE IRVINE E MIKA SALO, ALEMANHA 1999

O que vocês acham de um piloto que cede sua única oportunidade concreta de vitória ao companheiro de equipe. Pois foi o que Mika Salo fez em 1999. Pela mesma Ferrari. No mesmo circuito de Hockenheim. Oh, coincidências…

Salo foi contratado pela Ferrari para substituir Michael Schumacher, ferido na perna em um acidente em Silverstone. Como a equipe italiana teve de depositar suas fichas no irlandês Eddie Irvine, ficava claro que o finlandês só estava lá com o objetivo de ajudar seu companheiro. Mika só conseguiria alguma coisa boa por sobras, portanto.

Na sua segunda corrida pela equipe, o ex-Lotus, Tyrrell e Arrows fez sua atuação mais expressiva na vida. Saindo da quarta posição, ele fez uma superlargada e pulou para segundo. Com o desastroso trabalho de pits na McLaren de Mika Hakkinen, Salo assumiu a liderança por alguns instantes. Momentos depois, Hakkinen sofreu um forte acidente e deixou a corrida. A Ferrari tinha a dobradinha na mão, mas seus pilotos estavam ocupando as posições erradas.

Na volta 26, a Ferrari simplesmente pediu para o finlandês dar passagem a Irvine. Sem contestar, ele reduziu e cumpriu o que lhe foi pedido. E Irvine assumiu a liderança, com Salo sempre poucos segundos atrás. E a Ferrari faz a festa na pista alemã.

Há quem ache que Salo foi absolutamente bundão por ter dado de presente sua única chance na vida. No entanto, ele acreditava que outra oportunidade viria. Além disso, nada menos do que seis equipes (a própria Ferrari, Jordan, Benetton, Sauber, Williams e Prost) apareceram com propostas a ele após a corrida. Se ele soubesse que nada disso daria certo, é bem possível que ele passasse por cima da ordem.

3- GERHARD BERGER E AYRTON SENNA, JAPÃO 1991

Um caso no qual houve boa intenção para com o segundo piloto. Um caso no qual, mesmo assim, os dois pilotos saíram contrariados.

Pouco antes da corrida japonesa, Ron Dennis fez um pedido a Ayrton Senna. Como o brasileiro estava muito à frente de Nigel Mansell no campeonato, não havia necessidade de vencer. Se o inglês abandonasse a prova, Ayrton deveria dar passagem a Gerhard Berger, que trabalhou muito para ajudá-lo em ocasiões como a corrida de Barcelona. Meio assim, Senna aceitou. Provavelmente, não esperava o abandono de Nigel.

Mas aconteceu. Mansell escapou da pista ainda no começo da corrida e a McLaren estava diante de uma dobradinha histórica. O título já estava vencido e uma vitória de Berger só deixaria todo mundo feliz. Mas não foi bem assim. Senna liderou toda a corrida, e Ron Dennis sempre pedia o cumprimento da ordem. A frase repetida várias vezes era “lembre-se do que conversamos”. O brasileiro confessou que cogitou desobedecer Dennis deliberadamente ou simplesmente fingir que não havia escutado o rádio. Mas nada disso era possível.

Restou ao brasileiro liderar até os últimos metros, quando ele tirou o pé e deixou Berger passar para atravessar a linha de chegada em primeiro. Enquanto Galvão Bueno achava a atitude de Senna praticamente divina, os dois pilotos mostravam-se chateados com a situação. Enquanto Senna dizia que a decisão “doeu bastante”, Berger afirmou que “havia sido um gesto estúpido, que só mostrava que ele era o dono da casa”. E a intenção era exatamente essa: mostrar quem mandava na McLaren.

2- MIKA HAKKINEN E DAVID COULTHARD, AUSTRÁLIA 1998

Muitos enxergam a McLaren como a verdadeira reserva moral entre as equipes da Fórmula 1. Poucos se lembram que a equipe já utilizou de subterfúgios tão obscuros quanto a Ferrari. Não me refiro ao escândalo de espionagem em 2007, mas sim à velha e pura ordem de equipe. David Coulthard, segundo piloto da equipe em 1998, foi a vítima da ocasião.

Naquele tempo, todos os convivas do paddock tinham total certeza de que havia uma clara diferença de tratamento dispensado aos pilotos da equipe por Ron Dennis. Mika Hakkinen, piloto da equipe desde 1993, era o queridinho do patrão. Por mais que o finlandês tenha feito um 1997 bem mais discreto do que Coulthard, Dennis apostava todas as suas fichas nele. Por algum motivo desconhecido, Coulthard nunca recebeu o melhor tratamento por parte de sua equipe. Muitos dizem que ele não era bom o suficiente, mas não era exatamente essa a realidade. Eu acredito que seu ímpeto se apagou após passar um longo período sendo tratado como um piloto de segunda na McLaren.

Não acreditam? Melbourne sediava a primeira etapa do campeonato de 1998. Na teoria e na prática, os dois pilotos tinham exatamente as mesmas chances de título. Hakkinen e Coulthard dividiram a primeira fila nesta ordem. O finlandês largou bem e manteve-se na ponta até que, inesperadamente, ele entrou nos pits na volta 36. Segundo Ron Dennis, alguém conseguiu acessar o rádio da McLaren e mandar o finlandês entrar nos boxes.

Ele entrou e, percebendo que não havia nada errado, simplesmente passou reto. O tempo perdido foi o suficiente para que Coulthard assumisse a liderança. Tudo indicava que a corrida seguiria deste jeito até o final, mas não foi o que aconteceu. Ameaçando seu emprego, Ron Dennis mandou Coulthard deixar Hakkinen passar. Sem escolha, ele o fez em frente à reta dos boxes na volta 55 e o finlandês ganhou a corrida.

Pobre Coulthard. Seu maior pecado era não ser do agrado de Ron Dennis. Como isso faz diferença…

1- MICHAEL SCHUMACHER E RUBENS BARRICHELLO, ÁUSTRIA 2002

Hoje não, hoje não, hoje sim… hoje sim?!

Quem não se lembra da tragicômica narração do global Cléber Machado na ocasião da marmelada mais escandalosa da história da categoria? Eu me lembro. Vi aquilo com meus próprios olhos no dia 12 de maio de 2002, dia das mães. Ao dar passagem a Michael Schumacher nos metros finais do GP da Áustria de 2002, Rubens Barrichello escancarou ao mundo o que ele significava para a Ferrari: uma engrenagem. Assim como a faxineira, o aprendiz de mecânico e o massagista, ficou claro que Barrichello trabalhava quieto para Schumacher.

O dramático da história é que Rubens fez um fim de semana perfeito até aquele momento. Havia liderado o primeiro treino livre e o warm-up. Havia feito a pole-position com um tempo seis décimos mais rápido que o de Schumacher. Havia liderado a corrida de ponta a ponta. Diante disso, nenhuma outra pessoa naquele dia merecia vencer. Mas a Ferrari não pensava assim.

Havia acontecido algo parecido no ano anterior. Barrichello e Jean Todt, na época diretor “esportivo” da equipe, discutiram calorosamente via rádio nas últimas voltas e o brasileiro foi obrigado a ceder sua segunda posição a Schumacher a fórceps. Em 2002, no entanto, a ordem veio na última volta de maneira sutil e sucinta, assim como a reação de Barrichello:

– Rubens, pode deixar Schumacher passar?
– Sim, mas vocês têm certeza de que é isso que querem?
– Sim, temos.
– O Michael já sabe disso?
– Sim, sabe.
– Então, tá.

Na linha de chegada, Barrichello reduziu e Schumacher venceu a corrida. Todos no autódromo vaiaram. O mundo se indignou. Muitos decretaram a morte da Fórmula 1 ali, naquele isolado circuito austríaco de A1-Ring. O que se seguiu nos momentos seguintes foi o vexame. Ralf Schumacher, irmão de Michael e quarto colocado naquela corrida, fez uma careta que misturava pena e vergonha alheia da dupla ferrarista. No pódio, o constrangido Schumacher entregou seu troféu a Barrichello, além de pedir ao brasileiro para subir no degrau mais alto.

Como punição, a Ferrari teve de pagar 1 milhão de dólares e só. Uma merreca que pode ser justificada pela forte influência exercida pela equipe italiana nos homens da FIA. As reputações da Ferrari, de Schumacher, de Barrichello e da própria Fórmula 1 foram seriamente afetadas por esse episódio. Muitos disseram que Schumacher, com todo o seu poder de influência, poderia ter evitado a situação. Afinal de contas, havia ainda onze etapas pela frente e ele já tinha chegado a A1-Ring com 21 pontos de vantagem sobre Juan Pablo Montoya. A Ferrari argumentou que tudo podia acontecer e esses pontos poderiam fazer falta no fim do ano.

Não fizeram. E o esporte ficou maculado para sempre.

A temporada 2010 vem assistindo a um interessante caso de litígio dentro da equipe mais descolada da Fórmula 1. Descolada. Odeio esse termo, desculpem. Mas tenho de usar, já que é esta a imagem que a Red Bull Racing quer passar a todos. Afinal de contas, nós, taurinos, somos relaxados e sabemos nos divertir. Não somos como os sisudos da McLaren ou os corporativistas histriônicos da Ferrari. Somos legais. Até o ano passado, todo mundo acreditava nisso. Nesse ano, a agora equipe de ponta vem passando por momentos de sisudez e corporativismo histriônico com as bicadas que os pilotos, Sebastian Vettel e Mark Webber, vêm trocando entre si.

O estranhamento entre companheiros de equipe é absolutamente normal e faz parte do esporte. Como disse Juan Pablo Montoya em certa ocasião, os colegas de time não são obrigados a se portarem como namorados. De fato, ele tem razão. Na verdade, não são muitas as duplas de pilotos que apresentaram um bom relacionamento. No entanto, alguns pilotos, como é o caso do próprio colombiano, levam a rivalidade a níveis que afetam até mesmo a estabilidade da equipe. O Top Cinq de hoje relembrará cinco duplas que se tornaram célebres pelas brigas típicas de marido e mulher em fim de casamento. Neste exato momento, ainda não dá pra dizer que Webber e Vettel chegaram a este ponto. É bom eles tomarem conhecimento do que uma inimizade pode fazer.

5- GILLES VILLENEUVE E DIDIER PIRONI


Dois pilotos educados, refinados e bastante ambiciosos que destruíram uma amizade pelo temor que um causava ao outro. Temor puro e mútuo. Mas não vou ser injusto. Didier Pironi foi o verdadeiro causador da inimizade por enxergar Gilles Villeneuve como uma ameaça à sua carreira vitoriosa.

Os dois competiram juntos na Ferrari por uma temporada completa em 1981 e mais algumas corridas de 1982. No primeiro ano, como o carro era muito ruim, não houve rivalidade entre ambos. No entanto, Villeneuve fez um ano impecável, venceu duas corridas e marcou 25 pontos contra apenas 7 de Pironi. Nos bastidores, Enzo Ferrari já havia prometido: se o carro de 82 for bom, a equipe faria de tudo para fazer o canadense campeão. É óbvio que o maquiavélico francês, que não chegava perto do companheiro nem nos contratos de patrocínio, não estava feliz com a situação.

O primeiro sinal do distanciamento foi o fato de Didier não ter convidado Gilles para seu casamento, no início de 1982. A temporada começou com Villeneuve andando bem mais rápido, errando bem mais e marcando menos pontos do que Pironi. O racha ocorreu em Imola, quando a Ferrari vinha fazendo uma dobradinha Villeneuve-Pironi. Como a corrida já estava sob controle total, a equipe pediu para que os pilotos poupassem os pneus diminuindo o ritmo. Villeneuve obedeceu, mas Pironi não fez o mesmo e o ultrapassou na Tosa, assumindo a ponta. O canadense não achou ruim, atacou o companheiro e o ultrapassou, retomando a liderança. Mas Pironi estava diabólico e ultrapassou Villeneuve novamente na penúltima volta. E venceu a corrida.

No pódio, o clima estava péssimo. Pironi nem olhava para a cara do enfurecido Villeneuve, que declarou à mídia que nunca mais falaria com ele. O fim das relações entre os dois foi o assunto mais comentado da Fórmula 1 pelos quinze dias seguintes. Em Zolder, Pironi estava à frente de Villeneuve nos treinos, e o canadense estava bastante desesperado com a situação. Faltando poucos minutos para o fim dos treinos, ele foi à pista, tentou ignorar o retardatário Jochen Mass, sofreu um acidente e morreu. Meses depois, Pironi também sofreu um gravíssimo acidente em Hockenheim, mas este ao menos sobreviveu.

Em 1987, pouco antes de morrer, Didier Pironi viria a dar o nome de Gilles a um de seus filhos. Posso ser bem honesto? Um misto de demagogia e consciência pesada.

4- NIGEL MANSELL E NELSON PIQUET


“Mansell é o maior idiota que eu já vi”. Essa frase foi dita por um ex-companheiro de equipe do inglês, o sempre afiado Nelson Piquet.

Nigel Mansell e Nelson Piquet eram duas das figuras mais emblemáticas da Fórmula 1 dos anos 80. Cada um deles tinha sua personalidade, que era diametralmente oposta à do outro. Piquet era um iconoclasta, um transgressor do status quo mofino da categoria. Era criativo, vibrante, aventureiro, gostava de levar uma boa vida com suas mulheres e seus iates. Destacava-se pelo sarcasmo frequentemente confundido com arrogância ou grosseria. Já Mansell, formado em engenharia, fazia o perfil low profile. Tinha sua mulher, considerada muito feia por Piquet, seus filhos e sua vida pacata típica de um inglês do interior, o que talvez explique sua falta de malícia perante o mundo da Fórmula 1. Descrições psicológicas feitas, falemos da Williams.

Mansell e Piquet foram companheiros na equipe de Sir Frank Williams por apenas dois anos, 1986 e 1987. Tempo suficiente para que a equipe se dividisse entre os defensores da molecagem de Piquet e os da ingenuidade de Mansell. Frank Williams gostava muito de Nigel, mas ficava deslumbrado com a perspicácia do brasileiro. Já Patrick Head era 100% Mansell, e como sua influência era tão forte quanto a de Frank, a equipe acabava privilegiando o piloto inglês. Dois episódios ilustram bem esse protecionismo: no GP da Alemanha de 1986, Nigel Mansell tinha problemas com os pneus e deveria parar nos pits para trocá-los. No entanto, Nelson Piquet prega uma surpresa em todos e entra nos pits, antecipando sua troca de pneus e obrigando Mansell a ficar com aqueles pneus por mais uma longa volta. Com isso, Nelson ganhou o tempo necessário para vencer a corrida de forma antológica. Após a corrida, Piquet ainda deu um tapinha nas costas do enfurecido Patrick Head.

No ano seguinte, a Williams havia desenvolvido um sistema de suspensão ativa que vinha dando alegrias a Piquet e muitas dores de cabeça a Mansell. O brasileiro venceu três corridas no meio do ano, enquanto que Mansell sofria para acertar seu carro. A briga entre os dois chegou a um ponto em que Nelson escondia os acertos de seu carro, o que dificultava ainda mais a vida do oponente. Como forma de ajudar Mansell, Patrick Head decidiu que os Williams não teriam mais suspensão ativa para as três últimas etapas de 1987. Mesmo assim, Piquet sagrou-se campeão em 1987. Contra a vontade de boa parte da equipe.

3- JUAN PABLO MONTOYA E RALF SCHUMACHER

É uma dupla que tem muito em comum com Mansell e Piquet. Ambos competiram pela Williams. Ambos dividiram as opiniões da equipe. Ambos apresentavam personalidades bastante distintas. Montoya era o latino enfurecido, capaz de escandalizar uma Fórmula 1 inteira pelo lado bom e pelo lado ruim. Ralf era o germânico que fazia cara amarrada e que parecia demonstrar uma constante ponta de inveja pelo sucesso do irmão Michael. Admirador dos tipos efusivos, Frank Williams apostava no colombiano, cria sua desde 1997. Patrick Head ficava em cima do muro. Quem dava apoio a Ralf era a BMW, fornecedora de motores da equipe.

A rivalidade entre os dois começou já na pré-temporada de 2001, com alfinetadas trocadas por meio de declarações na mídia e atitudes pueris como o isolamento dos mecânicos. Durante o ano de 2001, enquanto Montoya ainda aprendia a terminar duas corridas consecutivas, Ralf fazia seu melhor ano na Fórmula 1. Conforme o colombiano aprendia a terminar duas corridas consecutivas, ele começava a andar à frente do alemão com mais frequência. E Ralf se desestabilizava.

Em 2002, ambos estavam em condições parecidas – levando surra da Ferrari. Ralf e Montoya ficavam naquela de andar em terceiro e quarto o tempo todo, demonstrando até mesmo uma certa apatia. No entanto, em Indianápolis, os dois protagonizaram um belíssimo espetáculo ao baterem um no outro na primeira curva da segunda volta da corrida. Enquanto Montoya saía pela grama, Ralf ficava sem o aerofólio traseiro. Nos boxes, Patrick Head se descabelava com os dois estrupícios.

Depois disso, Ralf decaiu e Montoya deu uma sossegada. Nunca foram amigos, embora Juan Pablo tenha até admitido certa vez que “Ralf é um cara legal”, o que é uma visível atitude política. No fim das contas, ambos deixaram a equipe no fim de 2004. Só que, ao contrário de Mansell e Piquet, nenhum deles saiu de lá campeão.

2- AYRTON SENNA E ALAIN PROST

Já falei dessa rivalidade trocentas e três vezes, e a repetição acontece porque essa foi a rivalidade mais conhecida da história da Fórmula 1. Ela envolveu dois monstros sagrados da Fórmula 1 em um período no qual os pilotos começavam a ter mais fama do que a própria categoria. E acabou culminando em um acidente que decidiu um título.

Ayrton Senna e Alain Prost tinham muito em comum e muitas diferenças. Ambos eram bastante compenetrados e perfeccionistas. Ambos eram políticos com quem lhes interessava. Ambos eram maquiavelicamente pragmáticos. Ayrton Senna gostava de chuva e de correr em pistas de rua. Alain Prost odiava chuva e pistas de rua, mas acertava os carros de um jeito que o brasileiro não conseguia. Quando Senna chegou na McLaren, Prost já tinha feito quatro temporadas com a equipe de Woking. Os dois correram juntos por apenas dois anos, 1988 e 1989. No começo, o relacionamento era notavelmente bom.

Em Estoril/1988, no entanto, a torta começou a desandar. Na segunda volta da segunda largada, Prost tentou ultrapassar Senna na reta dos boxes. O brasileiro deu uma fechada violenta no francês, que quase bateu na mureta do lado direito. Mesmo assim, Prost insistiu e conseguiu a ultrapassagem. Findada a corrida, Prost criticou Senna pela atitude e chamou o brasileiro para um café avec macarons no motorhome da McLaren para discutir o que aconteceu. Eles conversaram e tudo foi resolvido.

Imola/1989. Havia um acordo prévio entre os pilotos da McLaren que, após a primeira curva, um não deveria ultrapassar o outro na primeira volta. Como a corrida teve duas largadas, Senna considerou que o acordo já não valia mais desde a primeira largada. E na primeira volta da segunda largada, o brasileiro ultrapassou Prost na Tosa, disparou e venceu a corrida. O relacionamento entre os dois acabou aí.

Prost e Senna deixaram de se falar e a maioria da McLaren se colocou ao lado do brasileiro. Sem clima para permanecer na equipe, o francês anunciou no fim de semana da corrida da sua casa que estava de malas prontas para ir embora. O ambiente permaneceu negativo até o GP do Japão. Como já contei essa história, dispenso detalhes. Os dois se chocaram na chicane e Prost ganhou o título.

Depois desse acidente, eles ainda se atacaram em outras ocasiões, seja por acidentes na pista ou por declarações ferinas. A reconciliação veio apenas no fim de 1993. Pelo que um fez ao outro, especialmente nas corridas japonesas de 1989 e 1990, até que ela veio rápida e facilmente.

1- CARLOS REUTEMANN E ALAN JONES

Ah, equipe Williams. Conseguir colocar três duplas nesse ranking é a prova absoluta de sua incapacidade em gerenciar conflitos, atributo básico para o bom funcionamento de uma empresa. O conflito aqui é o menos conhecido, mas talvez o mais agressivo da história da equipe.

Assim como as duplas anteriores, os dois pilotos são completamente diferentes entre si. Jones encarnava o arquétipo do australiano parrudo e agressivo, enquanto que o judeu Reutemann desfilava com sua elegância e prepotência pelo paddock. Os dois foram companheiros de equipe em 1980 e 1981. No primeiro ano, tudo correu de modo tranquilo, Jones foi campeão e Reutemann ficou em terceiro. Como o australiano também tinha mais tempo de casa, nada mais natural do que ele ser considerado o primeiro piloto da equipe em 1981.

No entanto, a hierarquia veio abaixo logo na segunda etapa do campeonato, o Grande Prêmio do Brasil. Carlos Reutemann liderou a corrida desde a primeira volta, com Alan Jones sempre atrás. A Williams mandou Reutemann ceder passagem a Jones, mas diante de uma considerável torcida argentina no circuito de Jacarepaguá, ele recusou, manteve-se à frente e venceu a corrida. Enquanto Reutemann era celebrado sob gritos de “Lole! Lole!”, Jones se recusava a subir ao pódio para receber o troféu de segundo lugar.

A partir daí, Jones passou a nutrir um enorme sentimento de ódio por Reutemann, que respondia com desprezo. A Williams tomou partido do australiano, e a confusão estava instalada. O clima na equipe estava muito ruim e nem os bons resultados obtidos pelo argentino recuperaram os ânimos. No fim das contas, Reutemann chegou à última corrida, em Caesar’s Palace, com 49 pontos e a liderança do campeonato. Nelson Piquet, o vice-líder, estava apenas um ponto atrás. Alan Jones, com 37, estava completamente fora da disputa. Antes da corrida, disse a todos que não ajudaria seu companheiro por acreditar que não havia o que fazer, uma vez que segurar os outros pilotos seria antidesportivo. Balela, é claro.

O caso é que a Williams não moveu uma única palha para ajudar o argentino, que apesar de ter obtido a pole-position, teve um carro completamente problemático durante a corrida, perdeu várias posições e terminou apenas em oitavo. E quem venceu? Alan Jones, que dispôs de um carro impecável. Com os resultados, Nelson Piquet venceu o título com apenas um ponto de vantagem sobre Reutemann.

Mesmo depois da saída de ambos da Williams, o ódio continuou. Após Jones ter anunciado sua aposentadoria, Reutemann se aproximou dele pedindo para “enterrar o passado”, ao que o australiano educadamente responde algo como “só se for no seu rabo!”. No fim de 1981, alguém perguntou a Alan Jones se ele correria em 1982. Cáustico, responde que só faria o GP da Argentina para ver a reação da torcida local…

Anteontem, a Indy anunciou que a fornecedora de seu novo chassi a partir de 2012 será a Dallara, a mesma que fornece para a categoria desde 1996. Ganhou o projeto mais razoável, o que mais se assemelha a um monoposto contemporâneo. Para mim, uma boa notícia. Havia cinco projetos em disputa e os quatro perdedores eram visivelmente piores. Lola e Swift, embora já tenham tido experiência prévia na CART, não são empresas confiáveis como a Dallara. A tal da BAT é uma iniciativa de alguns amigos que resultou em um projeto lançado de última hora. Por fim, tivemos o horrendo Delta Wing, um negócio que mais se parece com um caça do que com um carro de corrida.

O Delta Wing é o bichão mais feio que ousou aparecer no automobilismo nos últimos anos, mas ele não é o único. O Top Cinq de hoje exibirá cinco fanfarronices de engenheiros e projetistas que resultaram em verdadeiras aberrações da história da indústria do automobilismo. Não vou falar daqueles carros de Fórmula 1 que já conhecemos, como o Tyrrell P34 ou o Eiffeland, mas de idéias felizmente esquecidas por todos. São carros que, de alguma maneira, buscaram soluções novas e, ao que parece, não necessariamente obtiveram sucesso.

5- SCHIESSER SF84

Esse daí é o mais engraçadinho dos cinco, se é que dá pra dizer assim. Não há muitas informações sobre ele. Pelo pouco que pude apurar, e se eu estiver completamente certo, a Schiesser era uma pequena empresa alemã liderada por John Scheisser que fazia carros para categorias-base há um bom tempo. Este SF84 foi utilizado na Fórmula Ford 2000 alemã em 1984. Ele ainda pode ser visto em competições históricas na terrinha do Schumacher. Infelizmente, não dá pra saber se essa Schiesser é a mesma empresa que patrocinou Stefan Bellof no Mundial de Marcas lá nos distantes anos 80. Apesar do troço ser feio, achei simpático por se parecer com um inseto, sei lá.

4- KAUHSEN

Já andei falando dos desvaneios de Will Kauhsen em um outro Top Cinq um tempo atrás. O alemão, piloto de sucesso, queria porque queria ter uma equipe revolucionária de Fórmula 1 com o seu nome. Para isso, bastava fazer um carro de corrida com o que estava na moda até então, o efeito solo.

Com apenas três mecânicos, Kauhsen construiu um protótipo que, apesar de dispor do tal efeito, era completamente defasado e ridículo. O negócio era tão pouco animador que a turma se viu obrigada a construir um segundo bólido, este da foto. Tirando o fato de ser uma aberração estética, o carro tinha poucas diferenças com relação ao anterior: era mais comprido e tinha um tanque de gasolina maior. Porém, ele ainda carregava um prosaico câmbio Hewland de apenas 5 marchas e pneus Goodyear de quinta categoria.

A esquisitice foi testada inicialmente pro Patrick Nève em Zolder e em Paul Ricard, mas o belga estava absolutamente incomodado com a total imprevisibilidade do comportamento apresentado nas curvas. Harald Ertl também testou em Hockenheim, sofrendo um acidente forte devido a um problema nos freios. Além de muito feio, o carro era completamente incapaz de conseguir algo de decente. Ele não chegou a competir em nenhuma corrida, já que a equipe foi obrigada a fazer um terceiro carro antes mesmo do início da temporada!

3- MALLOCK MK11B (1971)

Essa coisa medonha aí disputou a Fórmula 3 inglesa no ano de 1971. A Mallock era uma pequena oficina criada por Arthur Mallock, um fanático pelo automobilismo que competia como piloto desde o final dos anos 40. No fim dos anos 60, Arthur passou a se dedicar ao gerenciamento das carreiras de seus filhos, Ray e Richard, ao mesmo tempo em que desenvolvia carros para eles.

Este MK11B foi criado a partir de um chassi Clubmans, que disputava corridas de protótipos. Perdeu os para-lamas, ganhou pneus mais largos, asas típicas da Fórmula 3, um motor 1600cc e foi para as corridas. Muita gente deu risada do monstrinho, que mais se parecia com uma prancha com rodas. No entanto, o MK11B não fez tão feio e, nas mãos de Ray Mallock, obteve um quarto lugar em Outlon Park, um quinto em Thruxton e um sexto em Castle Combe. Nada mal.

2- EAF DW2

Este é figurinha fácil nos fóruns de automobilismo por aí. Quando se fala em monoposto feio, todos se lembram do pobre Eagle EAF DW2. Este, ahm, distinto carro foi utilizado por Ken Hamilton, pai de Davey e sem relação alguma com Lewis, na Indy 500 de 1982.

O EAF foi o sonho de um multimilionário do inóspito estado americano do Idaho. Ele queria ajudar Ken, um astro do automobilismo “idahense”, com uma equipe endinheirada e um carro revolucionária para aquela Indy 500. O tal empresário era Dean Wilson, dono da Eagle Aircraft Company, empresa especializada na construção de aviões pulverizadores de inseticida. Wilson, não tão inteligentemente, acreditava que os conhecimentos aerodinâmicos utilizados nos seus simpáticos aviões cairiam como luva em um carro feito para rodar em ovais.

Quando ele foi apresentado pela primeira vez, o próprio Hamilton não acreditava que seria obrigado a andar naquilo. O troço simplesmente contrariava qualquer regra básica de aerodinâmica para automobilismo. Cada parte do carro parecia existir unicamente para funcionar como uma sólida barreira contra o fluxo de ar, reduzindo qualquer possibilidade de andar rápido em retas. O negócio era tão estúpido que a entrada de ar simplesmente não conseguia captar o ar porque ficava localizada atrás do santantônio. Diante disso, Ken Hamilton fez algumas declarações pessimistas mas eufemísticas, como “o carro é aerodinamicamente inviável” e “na melhor das hipóteses, estou a cerca de 12 ou 14 milhas de me classificar”.

No fim das contas, Hamilton ficou em um distante 47º nos treinos e, obviamente, não se classificou. Ao menos, ele ficou à frente de inacreditáveis 35 carros. A Indy 500 daquele ano teve o pantagruélico número de 82 inscritos. Aos que acham que a Fórmula 1 será banalizada com 26 carros no grid, CHUPA!

1- GP LIMOS

O primeiro lugar dessa lista é um não-carro de corrida. Eu nem deveria tê-lo colocado aqui, mas um “monoposto” (monoposto que é monoposto só comporta uma pessoa, diz a etimologia) que consegue ser mais feio e ainda mais pretensioso que o EAF DW2 definitivamente merece o primeiro lugar, mesmo que não seja feito para corridas.

Desenvolvido por Michael Pettipas, O GP LIMOS é uma limusine travestida de carro de corrida que pode carregar até sete passageiros. A aparência é a de um carro de Fórmula 1, apesar da frente se assemelhar a de um trator. O GP LIMO possui bico, aerofólios dianteiro e traseiro, santantônio e laterais típicas de um bólido da categoria máxima do automobilismo. O sonho de Pettipas é bastante ambicioso: quebrar o recorde de mundial de velocidade, pertencente atualmente ao Bugatti Veyron, que alcançou 407 km/h.

Como ocorre com toda idéia do tipo, não acredito que dê em algo. Pode ser um enorme golpe de marketing. O que importa, porém, é que o GP LIMOS já conseguiu ser o primeiro lugar em algo. O primeiro lugar entre os bólidos de corrida mais feios do mundo.

Ayrton Senna era o mais veloz. Alain Prost era o mais sensato. Nelson Piquet era o mais esperto. A Fórmula 1 consagrou quatro nomes nos anos 80, gente que dava às corridas um ar novelístico. Os torcedores raramente se portavam indiferentes perante eles, que protagonizavam cenas de romance, terror, comédia e ação dentro e fora das pistas. Quem gostava do Senna odiava o Piquet, e vice-versa. Havia quem achasse os dois uma dupla de patetas latinoamericanos, preferindo o Professor Prost. E havia quem gostasse do quarto elemento, que não foi citado acima. Com vocês, Nigel Ernest James Mansell.

Tadinho do Mansell, muitos pensavam. Nascido em uma minúscula cidade do interior inglês, Nigel parecia ser o mais vulnerável e limitado dos quatro, um tanto quanto perdido em um ambiente insalubre no qual um come o outro sem grande cerimônia. Teatral, fanfarrão, choramingão, desastrado e um puta piloto, ele se comportava como um verdadeiro anti-herói, um gênio às avessas. Não por acaso, havia aqueles que achavam que se tratava de um piloto diferenciado e havia também aqueles que pensavam que o Leão não passava de um retardado sem rédeas. Eu não nego a ninguém: estou no segundo grupo. Perder três títulos mundiais da maneira que perdeu é coisa de retardado sem rédeas. Mas… que retardado foda!

Recentemente, Mansell se envolveu em um violento acidente nas 24 Horas de Le Mans. Em determinado momento, ele perdeu o controle de seu Ginetta-Zytek e estampou o guard-rail, saindo do carro de maca e com uma concussão no seu pequeno cérebro. Neste próximo fim de semana, ele será um dos comissários do Grande Prêmio da Inglaterra. Diante de tantos acontecimentos, eu tenho de homenageá-lo. Mas como estou falando de Nigel Mansell, conto sobre cinco acidentes que poucos se lembram.

5- FÓRMULA 1, DETROIT, 1985

(4:11)

Nos anos 80, os pilotos pagavam todos os seus pecados ao serem obrigados a correr em Detroit, um circuitinho vagabundo localizado no meio da enorme cidade americana. Em 1985, Nigel Mansell, ainda considerado apenas um idiota veloz, fazia seu primeiro ano na equipe Williams e estava muito esperançoso sobre suas possibilidades naquele circuito de rua.

Após obter um excelente segundo lugar nos treinos, Mansell perdeu uma posição na largada para um incrível Keke Rosberg. Sofrendo com os pneus duros, o inglês se arrastava e perdia posições também para Elio de Angelis e Stefan Johansson. Na volta 23, ele rumou aos pits e trocou os pneus. Três voltas mais tarde, o inglês entrou rápido demais na curva 2, pisou em uma zebra, passou reto e acertou o muro com força. Vendo o vídeo, nem pareceu ter sido tão forte, mas acreditem: foi.

O inglês saiu do carro zonzo, com a mão machucada e o nariz sangrando. Esse negócio dele sair do carro todo estropiado, aliás, era uma marca registrada sua.

4- TOCA, DONINGTON PARK, 1993

Em novembro de 1993, após ganhar o título da Indycar, Nigel Mansell foi convidado para disputar uma etapa do TOCA, campeonato inglês de turismo, em um Ford Mondeo pintado de azul e estampado com o Red Five. Diante de 60 mil espectadores e visando o suntuoso prêmio de 120 mil libras esterlinas, Nigel veio para a corrida do seu modo habitual: inconsequente e perigoso.

Em uma pista levemente úmida, Nigel ocupava a terceira posição quando acabou entrando rápido demais no Old Hairpin, perdeu o controle, tentou consertar, piorou a situação e atravessou na frente do Vauxhall Cavalier de Tiff Needell a mais de 200 km/h. Tocado pelo Vauxhall, o Mondeo de Mansell rodopiou e atingiu com violência o muro. Nigel perde a consciência e sua cabeça rodopia enquanto o carro não para.

Segundos depois, o inglês recuperou a consciência e, após ser extraído do carro em uma operação que durou 20 minutos, rumou para um hospital para exames. Tirando algumas dores nas costas, nada de errado havia acontecido com o Leão.

3- THUNDER IN THE PARK DAY, DONINGTON, 2001

Em 2001, Nigel Mansell chegou a ser cogitado para ocupar o segundo carro da Minardi ao lado do jovem Fernando Alonso. O boato, extremamente estapafúrdio, resultou em um convite de Paul Stoddart a Nigel para ele participar do Thunder in the Park Day, um dia de descontração promovido pela Minardi no qual havia uma corrida com carros de dois lugares no circuito de Donington. Nigel pilotaria um dos cinco carros e carregaria a bordo o empresário Jonathan Frost, que havia pago 80 mil dólares pela diversão.

Como de costume, Mansell dirigiu como se não tivesse mulher e filhos. Na corridinha, ele e Fernando Alonso, que trazia consigo a jornalista Louise Goodman, disputavam a liderança agressivamente. Na última curva, Mansell veio mais rápido do que a sensatez permite e acertou com tudo a traseira do Minardi de Alonso. O inglês voou e caiu na contra-mão, enquanto que o espanhol atravessava a linha de chegada sem a asa traseira.

No fim das contas, Mansell terminou em segundo e Alonso em terceiro. O vencedor foi exatamente Paul Stoddart, que era piloto nas horas vagas. O Leão ainda saiu ironizando que “tentou passar por cima de Fernando e Louise porque eles são muito baixinhos”…

2- INDY, PHOENIX, 1993

(1:24)

Mansell doidão. Se na Fórmula 1 ele já aprontava das suas, na Indy ele se transformou na grande atração da temporada de 1993 com suas loucuras nos circuitos ovais. Ele não desacelerava, andava e ultrapassava por fora e não tinha o menor medo de nada. O preço a ser pago foi uma pancada daquelas no curto porém traiçoeiro oval de Phoenix, no estado do Arizona. Segunda etapa do campeonato de 1993, 4 de abril de 1993.

No primeiro dia de treinos, Mansell foi o primeiro piloto da história da pista ao andar na casa dos 20 segundos. Desvairado, ele veio para o segundo dia de treinos visando andar ainda mais rápido. Não deu certo, é claro: tentando andar mais do que o permitido em uma curva, seu Lola-Ford rodopiou a mais de 280 km/h e estampou o muro de traseira. Uma roda marota ainda voou e atingiu o capacete de Mansell, que desmaiou na hora.

O Leão só viria a acordar 20 minutos depois, quando já estava no centro médico. Depois disso, ele rumou de helicóptero ao hospital, fez alguns exames e, apesar de ter diagnosticado um estiramento em um tecido adiposo localizado nas costas, decidiu ignorar as recomendações médicas e voltou ao autódromo para disputar o qualifying. A direção de corrida, sensata, impediu sua participação e Mansell ficou de fora da corrida. Um mês depois, ele ainda teve de passar por uma cirurgia para resolver o estiramento.

1- FÓRMULA 1, INTERLAGOS, 1992

Este acontecimento reune tudo que é típico de Nigel Mansell: uma tentativa imbecil de ultrapassagem, uma peleja com Ayrton Senna, um acidente, um piloto zonzo e um pouco de choradeira. Vamos lá, então.

Nos treinos livres de sábado, Mansell fez um tempo quase dois segundos mais rápido que o de Riccardo Patrese, o segundo mais rápido. Nos segundos finais do treinos, qualquer um que estivesse em sua posição sossegaria e reduziria para voltar para os pits. Mas não o Leão, que estava acelerando com tudo quando encontrou, no Bico de Pato, o McLaren de Ayrton Senna, que estava em volta rápida. Sem a menor noção, Nigel tentou ultrapassar Senna por fora, ficou sem espaço, rodopiou e acertou o muro com relativa força.

Mansell saiu do carro grogue e chorando! Estava em estado de choque e com uma boa dor de cabeça, tanto que teve de se debruçar por alguns segundos no muro aonde deu a pancada. Após dar um pulo no centro médico, tomou uma aspirina e voltou para fazer a pole-position à tarde. Dessa vez, uma novidade: Nigel Mansell assumiu a culpa pela batida. Também, pudera…

Gostou dos acidentes sofridos no circuito de rua de Valência pelo australiano Mark Webber na Fórmula 1 e pelo checo Josef Kral na GP2? Pois é, eu também. Acidentes do gênero, quando ninguém sai quebrado, são dos mais divertidos que existem pela sua plasticidade visual e pelo estrago causado nos carros. O Bandeira Verde irá relembrar de cinco bons vôos que ficaram na memória dos fãs. Nenhum piloto ou animal saiu ferido nas gravações.

5- BUDDY RICE, IRL EM CHICAGO, 2004

O primeiro da lista ocorreu com um piloto que foi ultraestimado em sua época devido a uma vitória obtida nas 500 Milhas de Indianápolis há seis anos. O americano Buddy Rice, um típico yankee branquelo e rechonchudo que competia na Indy Racing League, se aproveitava do bom G-Force equipado com motor Honda e preparado pela equipe Rahal-Letterman para fazer de 2004 o melhor ano de sua vida. No entanto, o destino sempre deve estar pronto para pregar uma peça. Buddy Rice quase morreu do coração na corrida de Chicago.

Na volta 185, o americano vinha segurando a quarta posição contra Darren Manning, da Chip Ganassi. Em uma manobra errônea, Manning acabou tocando a traseira do carro de Rice, que perdeu o controle e, com a passagem de ar por baixo do assoalho, acabou levantando vôo, deu uma pirueta no ar e caiu de cabeça para baixo, se arrastando logo ao lado do muro. Fenomenal!

Buddy saiu inteiro do carro. E o acidente serviu para os urubus da Indy Racing League cobrirem de críticas os carros da categoria, alegando que eles seriam extremamente sensíveis a qualquer mudança na passagem de ar pelo carro, o que poderia ocasionar mais voos. Estes críticos não deixavam de ter alguma razão, e esse Top Cinq ainda vai mostrar o porquê.

4- CHRISTIAN FITTIPALDI, GP DE MONZA, 1993

Ah, eu não me canso de ver esse acidente. Chega a ser teatral ver dois companheiros de equipe causando um acidente tão impressionante na reta final de um Grande Prêmio em Monza.

Já falei deste acidente em outro Top Cinq, então serei breve: na última volta do GP da Itália de 1993, o brasileiro Christian Fittipaldi atacava o italiano Pierluigi Martini visando a sétima posição. Ambos eram pilotos da Minardi e já estavam brigando havia algumas voltas. Na reta final, Christian pega o vácuo do carro de Martini e tenta uma ultrapassagem pelo lado direito.

O italiano dá uma leve fechada, os dois carros tocam rodas e Christian faz uma pirueta de dar inveja a muito ginasta por aí. Fittipaldi ainda consegue aterrissar com as quatro rodas no chão e ainda completa a corrida com o carro todo torto. Um gran finale, sem dúvida.

3- PETER DUMBRECK, 24 HORAS DE LE MANS, 1999

Em 1999, a Mercedes-Benz tinha um carro tão veloz quanto perigoso na disputa pela almejadíssima vitória nas 24 Horas de Le Mans: o CLK-LM. Ele era belíssimo, todo cinzento e de perfil baixo, mas tinha um gravíssimo problema aerodinâmico no qual qualquer entrada de ar por baixo suprimiria o downforce, mandando o bólido para o espaço. Nos treinos, um dos pilotos da equipe, o australiano Mark Webber (HÁ!), sofreu nada menos do que dois vôos com seu carro nº 4. No último deles, no warm-up, o carro desceu a Mulsanne de cabeça para baixo por vários metros. O fotógrafo brasileiro Miguel Costa Jr. quase foi atingido pelo CLK-LM voador de Webber.

No entanto, o absurdo maior ficou reservado para a corrida. Peter Dumbreck, um dos pilotos do carro nº 5, estava fazendo as primeiras horas da corrida quando, de súbito, o CLK-LM passou por cima de uma ondulação localizada alguns metros depois da curva Mulsanne e o ar que passou por debaixo do assoalho fez o bólido levantar vôo. Como a velocidade era alta, o Mercedes começou a dar uma sequência de piruetas no ar até cair para fora do autódromo, no meio das árvores.

Milagrosamente, Peter saiu do carro com apenas algumas escoriações. A Mercedes, porém, aprendeu a lição. Após três vôos, a equipe retirou o carro nº 6, último remanescente da marca de três pontas, da corrida.

2- MANFRED WINKELHOCK, F2 EM NÜRBURGRING, 1980

Sensacional, este aqui.

O alemão Manfred Winkelhock conduzia seu March amarelado pelo longuíssimo e sinuoso circuito de Nürburgring em uma corrida de Fórmula 2 no ano de 1980. Em determinado momento da corrida, ele danificou seu bico no toque com um adversário. Como o dinheiro de sua equipe era escasso, o pai de Markus acreditou ser melhor continuar daquele jeito até onde desse.

Não deu. O carro perdeu considerável downforce e só mesmo a perícia de Manfred poderia mantê-lo na pista. No entanto, a descida Flugplatz acabou pondo um ponto final nessa insistência. Ao iniciar esta descida, um enorme fluxo de ar passou pelo bico do carro. Como o bico estava danificado, o ar conseguiu empurrar o carro para cima e o resultado foi esse daí: uma pirueta seguida de uma sequência de capotagens.

No primeiro instante, todos pensaram “já era”. Mas Manfred saiu ileso do carro. Um milagre, considerando a falta de segurança dos carros de Fórmula 2 naquele período. Infelizmente, o alemão faleceria em um acidente bem menos plástico com um Porsche no circuito de Mosport em 1985.

1- DARIO FRANCHITTI, DOIS EM UMA SEMANA, 2007 

O primeiro lugar só poderia ficar com um cara que consegue a proeza de sofrer duas piruetas em apenas seis dias!

5 de agosto de 2007, Grande Prêmio de Michigan, Indy Racing League. Franchitti, da Andretti Green, disputava a liderança com o inglês Dan Wheldon, da Chip Ganassi. Na volta 143, os dois vinham juntos pela reta quando Dario acabou esterçando demais à esquerda. Os dois carros se engancharam e Franchitti fez um revival de Buddy Rice ao levantar vôo e cair de cabeça para baixo. No entanto, o escocês fez um trabalho ainda melhor ao levar um monte de gente embora com ele: Scott Dixon (que chegou a ser atingido pelo Dallara voador), Tomas Scheckter e Ed Carpenter. No fim das contas, cinco carros destruídos e nenhuma unha quebrada. O mais impressionante, no entanto, é que Franchitti repetiu a dose na corrida seguinte, apenas seis dias depois! E o pior é que o acidente aconteceu logo depois da bandeirada!

11 de agosto de 2007, Grande Prêmio de Kentucky, Indy Racing League. Após terminar em sétimo, Dario Franchitti tirou o pé do acelerador para fazer a volta de retorno aos pits. No entanto, à sua frente, havia um japonês que desacelerou demais de maneira irresponsável. E aí começa o pandemônio: sem saída e em velocidade ainda elevada, Franchitti bate na traseira de Kosuke Matsuura, levanta vôo, dá uma pirueta no ar e aterrissa batendo de traseira no muro.

Mais uma vez, Dario Franchitti sai ileso. E até ganha um apelido bastante simpático, outrora pertencente a um tricampeão de Fórmula 1: o escocês voador.

Ah, a Copa. Não me canso de falar sobre ela aqui. Do fundo da minha alma, cago e ando para o que acontece dentro do campo. A graça maior, para mim, é colocar 32 países das mais variadas localizações para resolverem suas diferenças futebolísticas (e, às vezes, políticas). Gosto de ver as cores das camisas das seleções, os nomes dos jogadores, a quantidade de brancos na seleção sul-africana, de negros na seleção francesa, de maoris na neozelandesa e por aí vai. Gosto de ler a abordagem da mídia para com países exóticos. Gosto de ver países inimigos se enfrentando. Me lembro de ter adorado ver Estados Unidos e Irã há doze anos. Dessa vez, torço por um improbabilíssimo Coréia do Norte versus Coréia do Sul. Não tem Kim Jong Il, o negócio é na base da pelota. Ah, a Copa.

Rivalidades entre países não acontecem, no entanto, só na Copa. Em outros esportes, ela até acontece com mais força, como é o caso das Olimpíadas. No automobilismo, no entanto, não é algo tão comum. Não digo pelas rivalidades em si, que obviamente existem, mas pelo fato de não haver identidades definidas: uma Ferrari italiana já foi comandada por um francês napoleônico, projetada por um sul-africano e por um inglês e pilotada por um alemão e por um brasileiro. Diante disso, projetos de ordem patriótica são até incomuns no mundo da velocidade. O Bandeira Verde irá relembrar alguns casos em que o automobilismo assistiu a disputas entre países e a lampejos de orgulho patriota.

5- COPA DAS NAÇÕES NA CART

Helio Castroneves, um dos responsáveis pelo sucesso do Brasil na Nations Cup entre 1999 e 2002

Quais campeonatos eram disputados na antiga CART? O de pilotos, muitos responderiam. Alguns ainda se lembrariam do “rookie of the year”, prêmio no qual concorriam todos os estreantes que disputavam a temporada inteira. Quem se lembrou apenas desses campeonatos errou. Havia vários campeonatos, na verdade. Alguns aconteciam até mesmo fora das pistas, como o prêmio pelo carro mais bonito e o prêmio para o melhor mecânico que utilizava ferramentas Craftsman. Um festival de premiações e dólares entrando nos bolsos dos felizardos.

E havia também uma “Copa das Nações”, campeonato paralelo disputado entre 1979 e 2006. A idéia era simples: o país que conseguia somar mais pontos com seus pilotos vencia. Saía na vantagem o país que conseguia colocar mais pilotos no grid. Entre 1979 e 1992, os Estados Unidos reinaram sozinhos. A explicação era óbvia: sendo uma categoria americana, a maior parte dos pilotos naturalmente seria yankee. No entanto, a partir do início dos anos 90, começou a haver um intenso movimento migratório de pilotos vindos da América do Sul, da Europa e da Ásia. Em 1993, o Brasil foi o primeiro país a quebrar a hegemonia americana no campeonato. Desde então, os brasileiros conseguiram vencer mais quatro vezes, entre 1999 e 2002. Foi um período particularmente próspero, no qual o país chegava a ter mais de dez pilotos do grid, sendo que vários corriam em equipes de ponta. Os outros países que conseguiram vencer a “copinha” foram o Canadá (2003 e 2004) e a França (2005 e 2006).

4- EQUIPES NACIONAIS

Ligier, a equipe nacional mais emblemática da Fórmula 1

A Fórmula 1 sempre foi um esporte extremamente globalizado. Mesmo assim, muitos donos de equipe alimentam o sonho de dirigir uma equipe 100% nacional. Esta idéia, que não é nova, só tende a aumentar em um esporte que busca ampliar cada vez mais suas fronteiras. A Fórmula 1 tem inúmeras histórias do gênero. Não vou me ater a equipes grandes como Ferrari e Mercedes. A quarta posição da lista será dedicada a pessoas e grupos que quiseram carregar para si a responsabilidade de representar uma nação inteira.

A França teve várias equipes de cunho nacionalista, mas a Ligier sempre se destacou nesse sentido. A equipe, 100% azul e 100% financiada com dinheiro estatal, era liderada por Guy Ligier, amigo pessoal do presidente desenvolvimentista François Mitterrand. A amizade permitiu que a Ligier se estabelecesse, sem grandes dores de cabeça, no interior francês. E rendeu até mesmo a construção de um circuito, Magnycours, que pudesse ser utilizado como quintal de testes para a equipe. Em momentos de dureza, Ligier ligava para Mitterrand e o presidente liberava uma boa verba para apaziguar as angústias.

O Brasil teve a Copersucar, projeto liderado pelos irmãos Fittipaldi com aval do governo militar dos anos 70. Oportunistas, os milicos enxergaram na equipe tupiniquim uma maneira de projetar um Brasil supostamente renovado com o malfadado “milagre econômico”. A Itália tinha a Scuderia Italia, que buscava resgatar até mesmo a cor vermelha em seus carros. A Inglaterra tinha a BRM, que tinha “british” até mesmo no nome. A Índia tem a Force India, que sonha em colocar um piloto indiano em posição de vencer corridas. Os Estados Unidos tiveram várias, como a Parnelli, a Penske e a Haas. E por aí vai. Esse negócio de nação mexe muito com o povo. Não duvide: a Fórmula 1 das montadoras dará lugar à Fórmula 1 dos países.

3- EFDA NATIONS CUP

O nome é complicado, mas a idéia é simples: é uma competição anual realizada entre países entre 1990 e 1998. A EFDA era composta por duas corridas realizadas em um único fim de semana em determinada pista européia (Estoril, Zandvoort e Magnycours foram as que mais apareceram). Os carros utilizados eram oriundos dos campeonatos regulares da Fórmula Opel Lotus, categoria imediatamente anterior à Fórmula 3. As equipes eram representadas por países, e cada uma delas tinha dois carros. Era uma competição interessante, que revelou um bom número de pilotos como Pedro Lamy, Jos Verstappen e Tom Coronel.

Os organizadores tratavam a competição com status de Olimpíadas. Para isso, eles até entregavam medalhas de ouro, prata e bronze para os três primeiros colocados. Além do mais, para encher o grid, algumas esquisitices eram permitidas. Algumas equipes corriam com as insígneas da Escandinávia, da União Européia, da Ásia ou até mesmo das Nações Unidas! Em algumas edições, tivemos países bastante incomuns no automobilismo, como a Estônia, a Croácia, a Arábia Saudita e a antiga Alemanha Oriental. Eram bacanas, as corridas. E a idéia durou mais tempo que a A1.

2- CARROS E CORES

Cliff Allison e seu "British Racing Green"

Carro azul é francês. Carro verde é inglês. Carro vermelho é italiano. Se você já viu alguma corrida antiga, e já teve a oportunidade de ver alguma imagem colorida da época, já deve ter percebido que é esse o padrão de cores utilizado pelas equipes dos seus respectivos países. Esta era uma maneira de identificar a origem das equipes e até mesmo dos pilotos, que tendiam a correr pelas equipes de seu país.

Onde surgiu este padrão? Não há uma resposta clara. Dizem que as corridas de longa duração promovidas pelo milionário Gordon Bennett Jr. na Europa no começo do século XX já observavam um padrão próximo ao que se tornou convencional: os franceses corriam com carros azuis, os belgas corriam com os amarelos, os alemães corriam com os brancos e os americanos utilizavam o vermelho. Com o tempo, alguns padrões foram se modificando pelos mais variados motivos. Os alemães, por exemplo, começaram a utilizar o cinza quando a Mercedes-Benz, visando reduzir o peso dos carros, decidiu retirar sua pintura branca e deixá-los do jeito que eles saíram da linha de produção, com a carenagem cinzenta.

Os franceses são azuis. Os italianos são vermelhos. Os ingleses são verdes. Os americanos são brancos com listras azuis. Os alemães são cinzentos. Os brasileiros são amarelos com rodas verdes. Os japoneses são brancos com um círculo vermelho. Os irlandeses são verdes com uma listra alaranjada. Os argentinos são azuis com detalhes em amarelo. Os egípcios são rosados. E assim por diante. Com o advento dos patrocinadores, no final dos anos 60, os carros passaram a deixar de lado estas cores nacionais para receber as Marlboros e Martinis da vida. Porém, os resquícios desses padrões permaneceram. A Ferrari não é vermelha por acaso. Idem para a Mercedes.

1- BRASIL X ARGENTINA

Hélio Castroneves e seu Ralt branco em uma etapa do começo de 1993

Brasil e Argentina protagonizam aquela que, talvez, é a maior rivalidade entre países do universo esportivo. É o único caso no mundo entre países que se odeiam devido ao futebol. Brasileiros consideram argentinos arrogantes e metidos a europeus. E Maradona não passa de um barrigudo cheirador. Argentinos consideram brasileiros subdesenvolvidos e pouco confiáveis. E Pelé não lambe as botas de Diego Armando. Porém, considero eu que o maior confronto direto entre os dois países na história não aconteceu nos campos, mas sim nas pistas. Buenos Aires, última etapa da temporada 1993 do campeonato sul-americano de Fórmula 3.

O título daquele campeonato seria decidido entre um brasileiro, o jovem Hélio Castro Neves (nada de Castroneves, isso é invenção do novo milênio), e um argentino, Fernando Croceri. Considerado uma zebra no início do campeonato, Helinho havia vencido duas corridas a bordo de um antigo Ralt/Mugen apelidado de “batmóvel” devido à pintura preta para as etapas finais do campeonato. Já Croceri, patrocinado maciçamente pela petrolífera YPF, utilizava um equipamento mais moderno e vinha liderando o campeonato. Para ele, bastava um segundo lugar para ser campeão. Helinho precisava vencer a corrida.

Contrariando os prognósticos mais conservadores, Castro Neves liderava a corrida de Buenos Aires e Croceri era apenas o quinto colocado. O título, portanto, iria para o brasileiro. Porém, em uma manobra jamais vista na história do automobilismo mundial, os argentinos decidiram se unir. Não importava que Croceri era tão adversário deles quanto Castro Neves, a ordem era impedir que um brasileiro fosse campeão.

Entre Hélio e Fernando, havia três argentinos: Gabriel Furlan, Ricardo Risatti e Fabián Malta. Na última volta da corrida, os três simplesmente estacionaram o carro e deixaram Croceri passar. Com isso, ele assumiu a segunda posição que precisava para ser campeão. A vitória não serviu ao brasileiro.

A patriotada pegou mal pra caramba. Os donos de equipe Amir Nasr, chefe de Castro Neves, e Augusto Cesário, chefe de Croceri, brigaram e não se falam até hoje. Os organizadores brasileiros, revoltados, criaram um campeonato nacional para 1994. Os argentinos estariam vetados. Foi, literalmente, uma cisão. Posteriormente, as relações foram reatadas. Mas a Fórmula 3 sul-americana nunca mais se recuperou deste episódio. A credibilidade já havia ido para o saco.

Ah, a Copa do Mundo. Tempo de bandeirinhas, paredes pintadas de verde e amarelo, álbuns da Panini, expedientes interrompidos e latinhas de cerveja espalhadas na rua. Tempo em que corintianos, palmeirenses, flamenguistas, gremistas e ibienses se unem por um único ideal, o hexacampeonato. Tempo de não se pensar em mais nada. Todos estão contaminados pelo espírito da maior festa mundial do futebol. Todos uma pinóia! Este escriba mal-humorado e do contra, que nunca foi fã do dito esporte, não está ligando muito. Mas é impossível ignorar a Copa, porque o noticiário e todas as pessoas ao seu redor só falarão sobre isso.

O Top Cinq de hoje irá relembrar cinco casos em que o futebol, chamado por alguns de esporte bretão, teve algum vínculo com o automobilismo. Porque até mesmo um esporte hermético, elitista e carrancudo como as corridas de carro se rende à exuberância futebolística.

5- BARTHEZ, PILOTO

Fabien Barthez, lembra-se dele? Até eu, completo ignóbil no assunto, sei de quem se trata. Ele era o goleiro careca da seleção francesa que venceu o Brasil na final da Copa de 1998. Além dos brasileiros, os torcedores do Manchester United também não tinham lá grandes lembranças dele, que atuou por lá entre 2000 e 2004: seus frangos eram tantos que os ingleses sardonicamente o apelidaram de “Mãos de Manteiga”.

Pois não é que ele decidiu tentar outra coisa na vida? Após se aposentar, no fim de 2007, Fabien migrou para o automobilismo, fazendo algumas corridas na Porsche Supercup nos dois últimos anos. O desempenho foi razoavelmente bom a ponto de uma equipe do Campeonato Francês de GT, a GCR Mediaco, tê-lo contratado para toda a temporada 2010.

Como está sua temporada? Seis corridas já foram realizadas e Barthez está na 22ª posição do campeonato, com 18 pontos. Parece pouco, mas até pódio ele já conseguiu. O melhor, no entanto, é que o careca está dois pontos à frente de Olivier Panis, ex-piloto de Fórmula 1! O negócio até que vai bem pro “Butter Hands”.

4- RICARDO ZONTA NO BARÇA

Na atual temporada de Stock Car V8, Ricardo Zonta corre com as cores do Corinthians pintadas em seu carro e em seu macacão. É o verdadeiro piloto da Fiel. O que poucos sabem é que este é o segundo time que o paranaense defendeu nas pistas.

Em 2002, sem muitas perspectivas de competir na Fórmula 1, Zonta aceitou uma proposta de dar um passo atrás e competir no então novíssimo Telefonica World Series, um campeonato do mesmo nível da Fórmula 3000 patrocinado pela empresa de telefonia e pela Nissan. O carro, um Dallara equipado com o motor japonês, era cerca de dois segundos mais rápido que o Lola-Zytek da F3000 e permitiria que Ricardo não perdesse ritmo de corrida. Além disso, ele receberia para correr, um luxo em se tratando de uma categoria de base.

O mais interessante do negócio, porém, era a equipe de Zonta. A Gabord Competición era patrocinada pelo Barcelona. Sim, o time de Ibrahimovic, Messi e Henry! O carro era pintado de azul e bordô, além de carregar o emblema do time. E a trajetória vencedora do Barça acabou se repetindo na World Series: com 9 vitórias, Ricardo Zonta se consagrou o campeão da temporada.

3- SCHUMACHER E O ECHICHENS

Michael Schumacher, o heptacampeão de Fórmula 1, não esconde de ninguém que sua segunda paixão é o futebol. Jogador frustrado assumido, ele costuma dizer que gostaria de ter atuado profissionalmente, mas não era bom o suficiente para isso. Suas atuações futebolísticas vistas por aí em eventos de caridade e em amistosos, no entanto, não sugeriam isso. O alemão, vez ou outra, aparece com boas jogadas e até marca uns gols de vez em quando.

Recentemente, um clube moldávio, o Olimpia, anunciou que estava leiloando uma vaga no elenco do clube e queria muito ver o piloto alemão ocupando-na. Schumi, obviamente, nem deu bola. Seu time do coração, se é que dá pra falar assim, é o FC Echichens, um pequeno clube suíço que está atualmente na quinta divisão (!) do campeonato nacional. Patrocinador da equipe, Michael chegou a atuar profissionalmente pelo clube em 2007, quando o Echichens estava na terceira divisão lutando para fugir do rebaixamento. O alemão até chegou a marcar alguns gols, mas sua presença não ajudou muito na sorte do time.

2- PREMIER1 GRAND PRIX

Qual foi o primeiro projeto de categoria que intencionava mesclar futebol e automobilismo? Quem respondeu Superleague Formula errou. Foi o Premier1 Grand Prix.

Esta iniciativa surgiu no final de 2001, quando um empresário inglês, Colin Sullivan, teve a brilhante (?) idéia. Ao contrário da real porém pouco ousada Superleague, o Premier1 prometia ser um campeonato global que competisse com a Fórmula 1. Os carros seriam feitos pela Dallara e teriam pneus slick, câmbio semi-automático e motores V10 feitos pela Judd que alcançavam gloriosos 750cv de potência. O calendário inicial passaria por circuitos como Donington, Buenos Aires, Jacarepaguá, Zandvoort, Dijon e Estoril. A intenção era ter pilotos de nome, como Damon Hill e Nigel Mansell. Tudo muito bonito no papel.

Sullivan esperava ter 24 times em seu campeonato, sendo que um deles seria o Flamengo. Quatro (se minha memória não me trai, o Anderlecht, o Benfica, o Leeds United e o Feyenoord) chegaram a exibir o Dallara com suas pinturas em eventos oficiais. O Benfica, inclusive, já tinha um pré-contrato com Pedro Lamy, sócio do clube.

Como todo projeto ambicioso demais, o Premier1 afundou sem ter realizado uma única corrida. O campeonato, que deveria ter se iniciado em junho de 2002, foi adiado para março de 2003, depois para 2004 e após isso, nunca mais se tocou no assunto. Faltou dinheiro e credibilidade.

1- IRLANDA X ITÁLIA

Essa história é legal. Como foi, aliás, a Copa do Mundo de 1994.

Como costuma ocorrer em tempos de Copa do Mundo, o pessoal da Fórmula 1 deixa um pouco a tensão e o nervosismo de lado para se divertir com o futebol. Como o paddock é composto por pessoas de vários países e planetas, provocações e brincadeiras acontecem aos montes entre mecânicos, pilotos, jornalistas e aspones. Ao mesmo tempo, vemos cenas que em tempos normais nunca aconteceriam, como pilotos e mecânicos de equipes concorrentes se reunindo em um único motorhome para assistir a um jogo.

Em 1994, as sempre espirituosas Jordan e Minardi protagonizaram uma curiosa rivalidade baseada nos resultados das seleções de seus países, respectivamente Irlanda e Itália, na Copa. Ambas estavam no grupo E, acompanhadas por México e Noruega. Naqueles tempos, apenas uma das quatro seleções do grupo sobrava na primeira fase.

No dia 18 de junho, Irlanda e Itália se enfrentaram no Giants Stadium e os irlandeses venceram o jogo por 1 x 0. Fanfarrão, Eddie Jordan emplacou um adesivo em seus carros esfregando na cara dos muitos italianos presentes no paddock o resultado: “Ireland 1 Italy 0”. Rubens Barrichello e Eddie Irvine disputaram o GP da França, realizado no dia 3 de julho, mostrando a provocação ao mundo.

Mas a turma da azzurra riu depois, e riu com gosto. No dia seguinte ao da corrida, a Irlanda jogou contra a Holanda pelas oitavas de final, perdeu por 2 x 0 e abandonou a Copa. Três dias depois, pelas mesmas oitavas de final, a Itália vencia a Nigéria por 2 x 1.

Giancarlo Minardi aplicou, então, a vendetta. Em Silverstone, os carros de Pierluigi Martini e Michele Alboreto apareceram com um emblema “Italia IN – Ireland OUT”. Os italianos perderam a Copa quando Roberto Baggio chutou aquele pênalti em direção à Netuno. Mas Giancarlo Minardi, em sua disputa pessoal, deu uma piaba no espalhafatoso Eddie Jordan.

A Jordan começou...

... e a Minardi deu o troco

Mark Webber e Sebastian Vettel inspiram o Top Cinq de hoje (tem de ser hoje, porque não ligarei um PC até domingo). Ao se chocarem na volta 40 do Grande Prêmio da Turquia, os dois pilotos da Red Bull conseguiram acabar com o que vinha sendo um fim de semana quase impecável para a equipe das latinhas. É evidente que Christian Horner não ficou contente, mas seu sentimento é compartilhado por vários donos de equipe que já haviam visto seus pilotos batendo um no outro. Com vocês, cinco casos relativamente recentes de companheiros de equipe se engalfinhando no meio do caminho.

5- BERTRAND GACHOT E UKYO KATAYAMA, 1992

 

O simpático alpinista Ukyo Katayama e o antipático presidiário Bertrand Gachot eram companheiros de equipe na pequena Venturi em 1992. Os dois saltimbancos se acharam no meio do caminho em duas ocasiões naquela temporada.

A primeira vez ocorreu em Montreal. No grampo que antecede a parte de alta velocidade do circuito Gilles Villeneuve, Bertrand freou um pouco além do sensato e acertou a traseira do carro de Katayama, que vinha logo à frente. O bico do carro de Gachot escapou, enquanto que Katayama seguiu incólume em frente. Até aí, tudo bem, acidentes acontecem e não havia muito mais a discutir, já que os dois pilotos conseguiram prosseguir.

 

(2:48)

O problema é que Gachot viria a repetir o acidente em Suzuka, justamente na casa de Ukyo Katayama. Na chicane, o belga perdeu o ponto da freada mais uma vez, acertou o carro do japonês e os dois saíram para a brita. Katayama ainda conseguiu voltar, mas a suspensão do Venturi de Gachot estava bastante danificada e ele teve de parar por ali mesmo.

Dois acidentes com os mesmos companheiros de equipe. E ao contrário do que muitos pensariam, o japonês é a vítima!

4- MIKA HAKKINEN E DAVID COULTHARD, 1999

 

Mika Hakkinen teve uma temporada engraçada em 1999. Apesar de ter sido campeão, o finlandês teve momentos tragicômicos que quase entregaram o título ao norte-irlandês Eddie Irvine, da Ferrari. O diabo da história é que, em alguns deles, seu companheiro David Coulthard esteve envolvido.

Áustria, 25 de julho de 1999. Mika Hakkinen e David Coulthard dividiam a primeira fila. A largada foi perfeita e os dois McLaren mantiveram as duas primeiras posições na primeira curva. Na Remus, no entanto, Coulthard tentou uma ultrapassagem estúpida em um espaço que não existia e acabou batendo em Hakkinen, que rodou e caiu para a última posição.

Hakkinen voltou à pista, andou que nem um louco e ainda terminou em terceiro. Coulthard, em dia inspirado, ainda conseguiu perder a vitória para Irvine, que fez sua melhor apresentação naquela temporada e se aproximava da liderança do campeonato.

 

(0:45)

Em Spa-Francorchamps, apenas algumas semanas depois, Hakkinen e Coulthard voltaram a dividir a primeira fila. No entanto, Coulthard largou melhor que Hakkinen e tomou a liderança antes da primeira curva. O finlandês, inconformado, tentou ultrapassar por uma brecha muito pequena e deu um leve toque na traseira de Coulthard. Os carros não foram afetados e os dois seguiram nesta ordem até o fim da corrida. Hakkinen marcou apenas seis pontos, sendo que poderia ter feito dez se Coulthard tivesse dado passagem.

Se Mika Hakkinen tivesse perdido o campeonato de 1999, um dos culpados seria Coulthard.

3- CHRISTIAN FITTIPALDI E PIERLUIGI MARTINI, ITÁLIA 1993

 

Uma das melhores duplas da história da Minardi, Christian Fittipaldi e Pierluigi Martini não tinham o melhor relacionamento do mundo. Protegido da casa, Martini já era macaco velho no grid, mas não estava tendo vida tranquila com o jovem Fittipaldi, um dos destaques do meio do pelotão em 1993.

Nas últimas voltas da corrida de Monza, os dois vinham brigando por uma sétima posição que não valia pontos naqueles tempos. Christian vinha atacando Martini com bastante sede ao pote. O panorama se manteve o mesmo até a reta de chegada.

Fittipaldi colou no vácuo de Martini e tentou ultrapassá-lo pela direita. Pierluigi deu uma leve fechada e acabou tocando sua roda traseira direita na roda dianteira esquerda do carro do brasileiro. O restante, definitivamente, não precisa ser descrito. Apenas assista ao vídeo.

Anos depois, Christian admitiu que tinha certeza de que não conseguiria sair vivo. Mas saiu e atravessou a linha de chegada em oitavo. A partir desse momento, o relacionamento dos dois foi de vez para o vinagre.

2- JUAN PABLO MONTOYA E RALF SCHUMACHER, EUA 2002

 

Montoya e Ralf. Taí uma dupla para quem eu sempre torci contra.

O colombiano era egocêntrico, passional, falastrão, teimoso e um tanto quanto picareta, apesar de ser um piloto inegavelmente espetacular. Já o alemão, irmão de um certo heptacampeão, era igualmente egocêntrico, antipático, apático, inseguro e pouco inteligente, apesar de não ser um mau piloto. Ambos, goste eu ou não, eram pilotos de ponta e queriam o máximo de espaço possível dentro da Williams-BMW. Naqueles tempos, Juan Pablo tinha como maior apoiador Frank Williams, que adorava aquele comportamento deslumbrante e explosivo típico dos latinos. Já Ralf era defendido pela BMW, fornecedora dos motores e ávida por ver um alemão ganhando corridas com a insígnia da montadora.

Os dois começaram a correr juntos em 2001, ano de estréia de Montoya na Fórmula 1. Ainda na pré-temporada daquele ano, já não se falavam e a mídia só alimentava a rivalidade. Apesar disso, nas primeiras 33 corridas, nada de errado aconteceu entre os dois dentro da pista. Em Indianápolis, porém, o entrevero tão esperado viria a acontecer.

Imediatamente após completarem a primeira volta, Ralf estava em quarto e Montoya em quinto. O colombiano se posicionou atrás de Ralf buscando o vácuo para tentar a ultrapassagem no fim da reta dos boxes. Ralf veio para o lado direito e se Juan quisesse ultrapassar, teria de ser por fora. Em se tratando de Montoya, seria assim mesmo e ponto final.

Só que não deu certo. Montoya se posicionou na curva, tomando a quarta posição. Ralf subiu em cima da zebra do lado direito, rodou e atingiu Montoya, perdendo a asa traseira. O colombiano foi para a grama e perdeu duas posições. Já Ralf teve de ir aos pits colocar uma asa traseira nova e caiu para a última posição.

O melhor é a reação irada de Patrick Head. Mas ele deveria saber que, do jeito que os dois eram, um acidente entre os dois aconteceria mais cedo ou mais tarde.

1- AYRTON SENNA E ALAIN PROST, JAPÃO 1989

 

O primeiro lugar só poderia pertencer à duplinha da McLaren em 1989. Ayrton Senna, 29 anos, campeão do mundo. Alain Prost, 34 anos, bicampeão do mundo. Dois grandes pilotos, dois péssimos perdedores. Ambos se encontrariam em Suzuka, 15ª etapa do campeonato de 1989, para decidir um título mundial. O francês tinha a vantagem: se impedisse a vitória de Senna, já poderia se sagrar campeão ali mesmo.

Senna largou na pole-position e Prost saiu ao seu lado. Como vinha sendo o costume naquele ano, Prost largou melhor e tomou a ponta. E a corrida seguiu um verdadeiro gato-e-rato, com Senna sempre próximo de Prost, até a volta 47. Naquele momento, Senna se aproximou de Prost e colocou seu carro à direita para ultrapassá-lo na chicane que antecede a reta dos boxes. Mas Prost não estava disposto a aceitar e simplesmente jogou seu carro para cima do de Senna de forma nada sutil. Os dois se engancharam e ficaram parados ali na chicane.

A história é longa? É. Ela se iniciou ali? Não, é o ápice de uma crise que se iniciou a partir do GP de Portugal do ano anterior. Por isso mesmo, não me estendo muito, até porque a intenção é apenas relembrar o momento e mostrar o vídeo. O caso é que Prost foi campeão, Senna foi desclassificado e ainda teve problemas sérios com o presidente da FISA, Jean-Marie Balestre. Os dois campeões só viriam a se reconciliar no fim de 1993.

Se Christian Horner não se atentar para o acidente turco e preferir deixar Vettel e Webber resolverem suas diferenças dentro da pista, é bom ele se lembrar desses casos acima. Por mais que não gostemos da idéia do chefe de equipe domar seus pilotos, é indispensável pensar a respeito se a equipe quer manter a harmonia interna e chegar aos resultados desejados.

Mau-humorado, com a internet problemática e cheio de coisas para resolver. Por isso, sem texto grande por ora. O Top Cinq vai cumprir a máxima da imagem que vale mil palavras.

Como este Grande Prêmio da Turquia marca o GP de número 800 da Scuderia Ferrari, nada mais adequado do que homenagear as cinco Ferraris de Fórmula 1 preferidas deste escriba. O critério é um só: beleza. Porém, elas também entraram na história por outros motivos que serão contados aqui.

5- 312T (1975)

A chaleira deu o primeiro título a Niki Lauda. Ao meu ver, ao lado do Tyrrell P34 de seis rodas, é o carro mais emblemático dos anos 70.

4- 312T4B (1979)

Me perdoem pelo trocadilho, mas o carro com bico de rodo varreu a concorrência em 1979. Os destemidos Jody Scheckter e Gilles Villeneuve fizeram dobradinha naquele ano.

3- 640 (1989)

Minha Ferrari favorita no circuito com o cenário que eu mais gosto entre todos, Jacarepaguá. Tudo bem, não é o 640 definitivo, mas não há problema, já que a foto ficou excelente. Estreava aí o câmbio semiautomático. Carro rápido e problemático que deu três vitórias a Nigel Mansell e Gerhard Berger.

2- F2002 (2002)

Poderia ser mais bonita se não tivesse o patrocínio da Vodafone e se não tivesse tantas partes brancas. Mas o chassi, em si, é muito bonito. E o carro venceu 15 corridas entre 17. Se aquela máxima do carro bonito ser o que ganha corridas valer, está aí.

1- F2007 (2007)

Um carro 100% vermelho, ainda mais um vermelho forte e vivo como se espera de uma Ferrari, é a melhor maneira de terminar este post.

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