Pitacos


Quatro etapas da atual temporada já se foram, todos só falam em Vettel, Alonso, Schumacher e Hamilton e a briga lá no pelotão da frente está mais acirrada do que nunca. Eu pergunto: e daí? Não costumo dar muita importância para o pessoal lá da ponta. As quatro grandes já têm dinheiro, fama e resultados o suficiente para não precisarem da minha compaixão. Olho com atenção, sim, para as equipes do fundão, mais precisamente para as equipes pobres de marré.

Nesse caso, são duas: a HRT e a Sauber. Por que não Lotus e Virgin? A Lotus é rica, tem o governo malaio por trás. E tanto Richard Branson (US$ 2,5 bilhões de patrimônio) como Tony Fernandes (US$ 290 milhões) nadam em dinheiro. Não que Peter Sauber ou José Ramón Carabante recebam Bolsa-Família e andem de Brasília amarela, mas é evidente que não possuem o poderio financeiro de seus dois concorrentes. O resultado é que, aparentemente, suas equipes são as de menor potencial de crescimento do campeonato.

Os números não mentem. Com quase 400 milhões de dólares, a Ferrari é a equipe com maior orçamento do campeonato. A Mercedes, com 263 milhões, e a McLaren, com 208 milhões, vêm logo atrás. Na ponta de baixo da tabela, temos Lotus com 79 milhões, Sauber com 70 milhões, Virgin com 54 milhões e HRT com míseros 50 milhões de dólares. Vale lembrar: a Virgin só corre com 54 milhões porque quer, já que a equipe insistiu na filosofia de provar para todos que, sim, é possível competir com o valor proposto no ano passado pela FIA para a redução de custos.

Explicações iniciais entregues, vemos que Sauber e HRT padecem no paraíso e não podem se dar ao luxo de estarem garantidas para 2011. Percorremos caso por caso.

Tá vendo aquele Certina lá no retrovisor? É o principal patrocinador da Sauber em 2010

A Sauber, de história bonita nos campeonatos de protótipos, nunca foi nada além de uma equipe média sem carisma. Podia andar mais ou menos perto dos carros de ponta, mas nunca saiu lá do meio. A princípio, essa é a cara da equipe em 2010. Não fosse pela expectativa geral de ver Kamui Kobayashi repetir suas atuações do final do campeonato passado e ninguém sentiria falta dos carros brancos de laterais pretas. Na pré-temporada, o carro até se comportou relativamente bem e muita gente saiu dizendo que “essa deverá ser a melhor equipe dos intermediários”.

Não só isso não aconteceu como o C29 vem apresentando uma sequência desagradável de quebras: três motores Ferrari foram para o espaço nos últimos dois fins de semana, um de Kobayashi e dois de De La Rosa. Para uma temporada que prevê apenas seis motores para cada piloto, não é um bom sinal. A Ferrari diagnosticou um problema generalizado no sistema de válvulas pneumáticas dos motores. Mas não é só isso: na Austrália, o bico do carro de Kobayashi escapou ainda na primeira volta, resultando em um grande acidente do japonês. O azar de Kamui é conhecido desde a GP2, mas os carros da Sauber colaboram.

Para piorar, o maior problema da equipe não é este, mas sim a falta de dinheiro. A Sauber é, sem a menor sombra de dúvida, o carro mais limpo do campeonato até aqui. Olhando fotos, só consigo identificar os relógios Certina nos retrovisores e os suplementos nutricionais Scalp-D, cujo emblema está escrito em katakana, alfabeto japonês, na lateral do aerofólio traseiro. E só. O próprio site da Sauber destaca a Certina como seu “patrocinador principal”. Pedro de la Rosa já falou que a equipe precisa de patrocinadores pra desenvolver o carro. Caso contrário, a equipe ficará ainda mais para trás. E o próprio espanhol já está com seu emprego ameaçado. Os endinheirados Luca Filippi e Pastor Maldonado estão apenas esperando o chamado.

"Bruno"? O que será que essa empresa produz?

Nos boxes da HRT, a situação é ainda pior. O carro em si é um problema, a desorganização reina e o dinheiro é raro. Já correm boatos na Europa que a equipe poderia abandonar a atual temporada para se desenvolver para 2011. Não seria uma idéia ruim: o carro ainda está mais de um segundo atrás dos Virgin e Lotus, foi duramente criticado por Geoff Willis e, a princípio, não há perspectivas grandes de melhora. Em Barcelona, a equipe virá com uma nova caixa de câmbio, mas isso não resolverá o problema: o carro simplesmente não possui downforce algum. E o pior é a equipe, mesmo sem querer trabalhar com a Dallara, ainda é refém da construtora italiana, pois essa possui todos os dados de construção e performance dos carros. Qualquer mudança que a equipe queira fazer necessitará de um pedido aos italianos. E olha que dizem até que a última parcela da construção dos carros nem foi paga…

O carro vem com alguns patrocinadores a mais que a Sauber. Bruno Senna conseguiu trazer a Embratel e o Banco Cruzeiro do Sul. Este último acordo foi feito dias antes da corrida do Bahrein. Na China, a equipe colocou o emblema da FCACA, uma empresa de competições chinesa no estilo Prodrive. Além disso, o perdulário Sakon Yamamoto foi contratado como terceiro piloto. Porém, não há uma empresa grande disposta a apoiar a balbúrdia. Nas fotos e na TV, o que predomina são os nomes dos pilotos, Bruno e Karun. O desespero por patrocinadores é tão grande que surgiu um outro boato (equipes frágeis são vulneráveis a boatos) que a HRT só teria dinheiro para competir até Mônaco. Só nuvens negras pelos lados de Múrcia.

Eu não me lembro de histórias como essas nos últimos 15 anos. Em tempos remotos, equipes como Coloni, Andrea Moda e Life sofriam com sua precariedade técnica e financeira. Os tempos, porém, eram outros e equipes problemáticas eram aceitas. A Fórmula 1 do século XXI não tolera os fracos e ver a Sauber sem patrocínios e a HRT capengando emanam de mim sentimentos misturados de nostalgia, pena e escárnio. Que a bonança venha para os suíços e os espanhóis.

Os Estados Unidos voltarão a ter uma equipe brigando por uma vaga na Fórmula 1.

Depois do fracasso da USF1 de Peter Windsor e Ken Anderson, um grupo sediado no estado da Carolina do Norte chamado Cypher anunciou, via Twitter e Facebook, sua inscrição para a próxima temporada. À americana, a Cypher faz estardalhaço, diz que já possui uma estrutura pronta para abrigar uma equipe e é pretensiosa a ponto de colocar uma frase de Henry Ford no Twitter: reunir-se é um começo, permanecer unidos é um progresso e trabalhar unidos é o sucesso

Mais informações? Só com o tempo. Os boatos que eu consegui unir são que a equipe será liderada por um certo Louis Cypher e os funcionários são aqueles remanescentes da USF1. E mais nada.

Ah, eles perguntaram no Facebook que pilotos americanos que gostaríamos de ver no grid.

Enfim, mantenham-se céticos. Mas a Cypher está aí. E não duvidem se a FIA insistir na idéia de ter uma equipe americana para acabar abraçando outro engodo.

Primeiramente, reconheço que o título é um belo de um clichê. Já devo ter visto uns três ou quatro artigos, em português ou inglês, com essa referência ao filme do Benjamin Button. Eu até tentei evitar o assunto pra não ter de utilizar desse subterfúgio batido. Mas depois de assistir ao Grande Prêmio da China e de ver mais uma demonstração tão genial quanto minimalista do inglês, comecei a matutar “qual é a tua, Button?”. É realmente curioso, o caso de Jenson Button.

Mas qual é exatamente o caso de Jenson Button? Desde que ele estreou na Fórmula 1, o inglês nunca chamou a atenção por suas pirotecnias. Na verdade, eu mal consigo me lembrar de atuações mais agressivas dele. Porém, lá está Button andando muito rápido e superando seus companheiros de equipe, alguns de maneira humilhante. De Jarno Trulli a Lewis Hamilton, todos vem sofrendo ao lado de Jenson. Qual é o segredo?

Jenson e sua discrição 2 x 0 Lewis e sua pirotecnia

É uma pergunta retórica, é claro. Não tenho a resposta exata e nem sei se vou ter. O fato é que desde que ele estreou na Fórmula 1 em 2000, ele só foi visivelmente superado pelo seu companheiro em duas temporadas: em 2001, por Giancarlo Fisichella (na pontuação, 8 x 2 para o italiano) e em 2008, por Rubens Barrichello (11 a 3 para o brasileiro). Houve também o ano de 2000, no qual Button terminou atrás de Ralf Schumacher nas tabelas, mas vale dizer que o inglês estava em sua temporada de estréia e fez uma segunda metade de campeonato mais convincente. Nos outros anos, vitórias indiscutíveis do inglês.

Na pista, Jenson Button é um cara limpo na pilotagem. Vi uns vídeos onboard dele e de Rubens Barrichello para fazer a comparação com um piloto de ponta e, longe da minha análise ter algum tipo de precisão, a impressão é que Jenson utiliza o volante de maneira extremamente sutil, com golpes rápidos que buscam apenas manter o carro o mais preso possível ao traçado ideal. Nas saídas de curva, Button reacelera de maneira brusca. Já Barrichello faz movimentos progressivos tanto ao volante quanto nos pedais. E aí pode estar a primeira diferença: o minimalismo de Button ao volante leva o inglês a cometer menos erros. E a ser mais “exato”.

E na prática, é o que vemos. Jenson anda muito rápido, mas quase nunca erra. No ano passado, seu único abandono por acidente ocorreu em Spa, em um toque com Romain Grosjean na primeira volta. Além do mais, é um piloto cujos carros raramente quebram. Vimos Jarno Trulli (8 contra 5), Takuma Sato (9 contra 5), Jacques Villeneuve (6 contra 3) tendo mais carros quebrados do que Button. Quando temos três exemplos, é difícil argumentar apenas que “Button tem carros melhores”. Outra coisa interessante é que, nesses casos, a maioria dos problemas dos concorrentes eram relacionados a motor, enquanto que os de Button eram na sua maior parte problemas não-relacionados diretamente à pilotagem, como o sistema hidráulico. E mesmo contra Barrichello, durante os quatro anos em que correram juntos, a diferença a favor de Barrichello não foi tão grande, 6 quebras dele contra 9 de Button. Mas aí há de se considerar dois fatores subjetivos, sorte e estrela.

Olhando o que a Hortência disse, até que ela tem um pingo de razão ao dizer que falta estrela a Barrichello. Não só a ele como a outros pilotos de pilotagem similar a Button, como Nick Heidfeld e Giancarlo Fisichella. Mas a tal da estrela sobra ao inglês. Mesmo sem ter o melhor carro em vários anos de sua carreira, principalmente em 2007 e em 2008, Button sempre conseguiu chamar a atenção. Em 2007, fez 6 pontos com um carro péssimo, sendo que poderia até ter feito mais não fosse o acidente de Nurburgring. Em 2005, seu BAR não era páreo para as equipes de ponta. Mesmo assim, Jenson marcou pontos em todas as corridas do ano a partir de Magnycours.

Na mesma draga que era a Honda em 2007, Jenson 6 x 0 Barrichello

Falemos da sorte. Não há campeão sem sorte, já dizia o cidadão. E Button a teve aos montes em 2009. Nunca teve problemas em seu carro, enquanto que seu companheiro se perdia em atuações irregulares e problemas mecânicos no carro. Os demais concorrentes, também conhecidos como Red Bull Racing, também não conseguiam manter a regularidade nos resultados e também lamentavam problemas mecânicos. E olha que Button, até Fevereiro, estava desempregado. É aquela história de estar no lugar certo e na hora certa. A sorte e a estrela se manifestaram mais do que nunca em Jenson Button em 2000.

Citei tantos fatores externos que nem falei tanto de Jenson Button. E o cara, se não aparenta ser brilhante, o foi durante várias ocasiões. Em Barcelona, no ano passado, ele permaneceu atrás de Barrichello durante boa parte da corrida. Porém, antes de suas paradas nos boxes, deu uma de Schumacher e andou rápido o suficiente para tomar a ponta do brasileiro. Só nesse ano, venceu duas corridas na base da estratégia e da prudência. Seu companheiro Lewis Hamilton é o showman do ano, fez corridas de recuperação espetaculares e ultrapassou um monte de gente. Mas e daí? Quem lidera o campeonato é Button. Que é o segundo piloto da equipe.

Termino contando outra história. Em 1999, Jenson Button estrearia na Fórmula 3 inglesa pela poderosa Promatecme, equipe oficial da Renault na categoria. Sua credencial era um título na Fórmula Ford local no ano anterior. Seu companheiro de equipe seria o brasileiro Aluízio Coelho, piloto considerado até então muito promissor que havia feito até mesmo um teste na Williams um tempo antes. Todo mundo esperava que Coelho detonasse Button, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: o inglês, terceiro colocado nas tabelas, fez 123 pontos a mais que o brasileiro e impressionou até mais do que os dois primeiros no campeonato, Marc Hynes e Luciano Burti. Frank Williams gostou do que viu e contratou Button. E onde estão hoje Coelho e Hynes? Burti é coadjuvante na Stock Car e comenta as corridas da Globo aonde seu antigo rival brilha.

Essa sequência de fatos não explicou o curioso caso de Jenson Button. Mas deixou um fato maior no ar: Jenson Button é um cara diferenciado e está bem acima da média. Ninguém sabe o porquê. Mas cada vez menos gente contesta essa afirmativa.

Uma fábrica chinesa da Nike. Seu tênis reluzente e caro saiu daí.

SHANGHAI: É o que eu chamo de circuito genérico: não é de baixa velocidade, não é de média velocidade, mas não é o circuito que todos encheriam a boca para dizer que é de alta. A melhor curva do circuito é aquela caracol lá do começo. O resto é absolutamente chato e dispensável. Enfim, não gosto. Talvez seja minha implicância com a terra de Confúcio. Deve chover nesse ano. No ano passado, choveu e a corrida foi de razoável para boa. Enfim, não tô esperando muito. 

FERRARI: Sabe aquele duto utilizado na frente do cockpit da McLaren que estaria ajudando os carros cromados nas retas? Pois é, a Ferrari copiou e irá utilizá-lo em apenas um carro, o de Fernando Alonso. Inovação na Fórmula 1 é isso: em um dia, é novidade; no outro, é regra.

MCLAREN: Falando na dita cuja, será que é a vez dela? Sebastian Vettel e Mark Webber, a dupla da melhor equipe da temporada até aqui, foram bastante cautelosos a respeito do favoritismo da Red Bull e citaram a McLaren. Joguinho psicológico para deixar jogar a pressão lá pelos lados de Woking? Ou será que o negócio é sério? De qualquer jeito, ainda aposto em Vettel.

SAUBER: Está empatada com a Virgin em termos de carros que chegaram ao fim nessas três corridas: apenas um, o de De La Rosa em Mélbourne. Porém, ao contrário da patota do Branson, a Sauber é uma equipe estabelecida há um bocado de tempo e fez a pré-temporada inteira. O próprio piloto espanhol já admitiu que o desempenho de Fevereiro era apenas mito. E sem dinheiro, não acho que a situação melhore. Para ser bem honesto, acho que será a equipe que mais perderá terreno até o fim do ano.

TERREMOTO: Faltando apenas três dias para o início das atividades, um violento terremoto devastou uma parte da região do Tibet, matando mais de 600 pessoas. O circuito de Shanghai fica a poucos milhares de quilômetros do epicentro, mas nada foi afetado. Só pergunto uma coisa: com que ânimo os chineses vão assistir à corrida? Chineses que, diga-se, normalmente já não têm lá muito ânimo pela Fórmula 1. As suntuosas arquibancadas de Shanghai costumam ficar vergonhosamente vazias. Deve ser o único lugar na China passível de ficar vazio…

Nunca me interesso por notícias da AutoGP, aquela categoria nova que vai substituir a Euro F3000. Mas uma, do ItaliaRacing, me chamou a atenção. Era uma notícia referente à equipe Supernova e sua dupla de pilotos para 2010. Um dos pilotos será o ótimo e esquecido Jonny Reid, um dos destaques da A1GP. E o outro? O outro é o motivo desse post.

Esse cara vai andar na AutoGP em 2010...

O outro tem mais de 30 anos de idade, foi piloto de testes da Benetton na Fórmula 1 em 2000, já venceu corridas na Fórmula 3000 Internacional, já correu pela Jordan na Fórmula 1 e foi campeão da GP2 Series em 2008. Seu nome é Giorgio Pantano. Sim, o Pantano!

O que um cara desses faz na AutoGP, que utilizará os antigos Lola-Zytek da A1 e que servirá, no máximo, como trampolim para a própria GP2? Serão apenas seis fins de semana de corrida e a premiação de 200 mil euros para o campeão não é para um Giorgio Pantano da vida se empolgar.

O caso do Pantano é o mais absurdo exemplo de como há um completo desequilíbrio entre vagas nas categorias top, excesso de vagas nas categorias de base e excesso de pilotos formados por estas categorias. Já andei falando sobre isso aqui.

SEPANG: Tem muitos que não gostam, tem muitos que adoram. Eu acho legal, é bem larga e permite um monte de ultrapassagens em várias curvas. Aliás, falando em curvas, eu não me lembro de nenhum outro autódromo com tantas curvas cegas como em Sepang. Mas é pista tilkiana feita por muçulmanos, né? Então é natural que haja gente que pragueje.

CHUVA:  A meteorologia diz que ela virá. E geralmente ela vem. É a Malásia, meus caros! Clima equatorial que nem o da Amazônia. Ao que eu me lembre, choveu em algum momento das corridas de 2000, 2001, 2004 e 2009 e as nuvens fizeram cara feia em outras oportunidades. Só não estragando a corrida como fez no ano passado, ela é benvinda. Bem-vinda?

FAUZY: Faz sua estréia em um fim de semana de Fórmula 1 como terceiro piloto da Lotus. Isso significa que ele substituirá Heikki Kovalainen nos treinos livres de sexta-feira. Seu currículo é impressionante: backmarker na F3 Inglesa e na GP2 e o vice-campeonato no campeonato mais fraco da história da World Series by Renault. Mas Fairuz Fauzy é malaio e a Petronas adora sua cara redonda, então…

SCHUMACHER: Ele disse que “ainda podemos brigar pelo título”. Podemos quem, cara pálida? Ele “podemos” ou sua equipe “podemos”? Nesse momento, nenhum dos dois. De qualquer jeito, a mídia, que vira e mexe age como aquele isqueiro pronto para acender o pavio e ver tudo explodindo, está tentando reviver a rivalidade entre ele e Fernando Alonso depois da fechada do alemão no qualifying de Melbourne. Veremos se ela conseguirá.

VETTEL:  Duas poles, nenhum pódio. Digo o seguinte: eu torço profundamente por sua vitória em Sepang. Questão de justiça. Espero que “Luscious Liz” não o deixe na mão outra vez.

Dizem que esse coala morreu pouco tempo depois de tomar a água. RIP.

MELBOURNE: Cidade bonita, grande, recheada de prédios, gente bonita e e qualidade de vida. Eu não sou exatamente fã da Austrália, mas reconheço uma enorme vantagem sobre o “fake” desértico financiado com petrodólares que é o Bahrein. O circuito é dos mais bacanas, sinuoso e ao mesmo tempo rápido, tudo isso com muros ali do lado. As corridas são sempre estranhas e lotadas de acidentes e ultrapassagens. A única coisa ruim é o horário. Ver corrida à meia-noite é muito legal. Às três da manhã, um estorvo. Eu sempre acabo dormindo.

RED BULL: Pois é, o carro é realmente bom. O chassi, made by Adrian Newey, é impecável e o motor Renault garante potência e economia. Só a confiabilidade do conjunto é que anda deixando a desejar. Mas a partir do momento em que isso estiver resolvido, é só partir para o abraço. E contrariando Lewis Hamilton, duvido muito que Mark Webber esteja pensando em se aposentar.

EMOÇÃO: E aí, anda faltando ou não? Mark Webber reclamou um bocado nesses dias. Hoje, Fernando Alonso, Robert Kubica e Michael Schumacher rebateram dizendo que não estava tão pior do que sempre foi. Bernie Ecclestone disse que não dá pra fazer nada nesse ano e que a primeira corrida não pode ser o único parâmetro. Ele está certo. Sakhir, apesar de eu gostar do traçado, nunca rendeu uma corrida espetacular. Mas Melbourne provavelmente não deverá ser considerada também, já que tudo lá é louco.

CHANDHOK: Vamos acompanhar sua estréia na Fórmula 1 nesse fim de semana (ou alguém aí considera aquelas cinco míseras voltas barenitas?). O monocelha-man já disse que se terminar, será um milagre. Modestíssimo como um dalit. Ele mesmo sabe que a possibilidade de se esborrachar em um muro australiano por aí é grande.

RENAULT: Virá com patrocínio novo, de uma financeira monegasca pertencente ao Grupo Renault. Me parece mais uma transferência de poupança para conta-corrente, mas tudo bem, é válido. O diabo da situação é colocar aquele horrível “DIAC” na lateral do carro. A pintura na pré-temporada era tão bonita, mas esse monte de marca acabou com ela.

DIAC? Puta que o pariu, hein...

O que a temporada 2010 tem de pior não é a falta de brigas ou algumas equipes muito atrás das outras, mas sim a maldita pontuação. Com os dez primeiros pontuando, todo mundo que acompanha o campeonato deverá ter em mãos calculadora e papel. São 25 pontos pra lá, 15 pra cá, piloto tal fez 8 e assim por diante, e o resultado é números grandes e dificuldade extra até para se prever o final do campeonato. Se o piloto tem 48 pontos de vantagem para o segundo faltando quatro etapas, ele não poderá terminar nessa posição, deve fazer tantos pontos, bla-bla-bla.

A mudança foi feita pra premiar o vencedor e estimular que os pilotos, pretensamente acomodados, larguem de preguiça e se matem por uma ou duas posições a mais. Será que a pontuação, atualmente em 25-18-15-12-10-8-6-4-2-1, realmente faz isso? Vejamos. É um texto meio pesado, mas tenta explicar se essa pontuação só enrola ou realmente é mais justa.

Alonso felizão com a vitória e com os 25 pontos. Mas até quando é pra ele ficar feliz?

A primeira pontuação da história da Fórmula 1, o 8-6-4-3-2, era bastante elitista: só quem terminasse lá na frente de fato é que marcaria pontos. Se terminou em sexto, senta e chora. Mas não é só isso: entre 1950 e 1980 entre 1985 e 1990, havia o sistema de descartes, que desconsiderava os piores resultados de cada piloto. Sua pontuação, no final do ano, só contemplaria os resultados das melhores corridas. Mas quantas eram essas melhores corridas? No geral, eram metade mais três, mas dependia muito do regulamento do ano. Nos anos 50, por exemplo, se um campeonato tinha 11 corridas, dividia-se em duas partes, uma de 6 e outra de 5 corridas. E pegava-se os 5 melhores resulados da primeira parte e os 4 da segunda melhor. Os matemáticos piravam com os descartes, que serviam para estimular os pilotos a brigarem por melhores resultados e a não se acomodarem com poucos pontos.

Até 2003, muito pouco foi modificado. Em 1960, o sexto colocado passou a marcar um pontinho. No ano seguinte, o vencedor passou a receber 9 pontos. Em 1991, a maior mudança: a FISA acabou com os descartes e aumentou em um ponto o 1º lugar. Entre 1991 e 2002, tivemos o 10-6-5-4-3-2-1. Aí o Schumacher resolveu ganhar tudo e a FIA, para conter essa chatice, diminuiu a importância da vitória e passou a dar pontos para o sétimo e o oitavo colocados. Entre 2003 e 2009, portanto, tivemos o 10-8-6-5-4-3-2-1.

Todas essas mudanças tentavam balancear basicamente a importância da vitória. Ora se tentava aumentar o valor da vitória, ora se tentava valorizar as outras posições. Mas vamos à matemática. Você odeia matemática, eu sei, mas é a melhor maneira de entender.

A razão de pontos, em 1950, era basicamente 4 – 3 – 2 – 1,5 – 1. Vamos analisar as mudanças com apenas as cinco primeiras posições e com a quinta posição sempre valendo 1. Em 1970, a razão era 4,5 – 3 – 2 – 1,5 – 1. Em 1995, o vencedor chegou ao ápice com a razão 5 – 3 – 2 – 1,5 – 1. Aí, com a mudança em 2003, veio a redenção da turma de fora do pódio: 2,5 – 2 – 1,5 – 1,25 – 1. Nunca foi tão bom ser quinto colocado como nessa pontuação. E nunca foi tão, como posso dizer, pouco necessário se arriscar por uma vitória.

Hoje em dia, a razão é de 2,5 – 1,8 – 1,5 – 1,2 – 1. O que isso quer dizer? Que por mais que a mudança tenha sido radical do ano passado para cá, a pontuação continua desfavorável ao vencedor. Na verdade, a única coisa que a pontuação fez foi piorar a situação do segundo e do quarto colocados. Mesmo nas posições abaixo, as coisas mudam pouco. Eu me arriscaria a dizer que a única serventia da nova pontuação é dar pontos ao nono e décimo colocados.

Esse é um cara que se deu bem com um regulamento que valorizava as vitórias

Se bem que, às vezes, nem isso funciona. Uma curiosidade: se essa pontuação atual valesse no ano de 1989, apenas os mesmos 29 pilotos que fizeram pontos no sistema 9-6-4-3-2-1 conseguiriam fazer pontos agora, mesmo com a pontuação contemplando até o 10º colocado. Nenhum piloto que não marcou pontos no sistema antigo conseguiria marcar agora.

Agora eu termino explicando: como chegamos a isso? Vou usar agora o aumento absoluto. A pontuação do vencedor, entre 1950 e 2010, aumentou de 8 para 25 (aumento de 212,5%). O aumento do segundo foi de 6 para 18 (aumento de 200%). O do terceiro foi de 4 para 15 (275%). O do quarto foi de 3 para 12 (300%). E o do quinto foi de 2 para 10 (400%). Viu só? A F1, conforme os anos passaram, melhorou a pontuação do terceiro colocado para baixo. E ao invés de aumentar mais a do primeiro, preferiu aumentar menos a do segundo. Qual é a conclusão? O segundo colocado, em termos absolutos, foi o que mais se fodeu na brincadeira. Isso porque até o ano passado, o mais prejudicado era o vencedor. Sem ter os descartes, a FIA simplesmente tornou as duas primeiras posições bem mais desinteressantes do que elas eram até 2002.

Pensando bem nisso, é uma boa explicação do porquê da postura extremamente cautelosa de pilotos como Jenson Button em 2009 e Fernando Alonso em 2005. E essa nova pontuação também não impede isso.

Giorgio Pantano, campeão da GP2 em 2008. Se não teve vaga pra ele, imagine pro resto...

Estava aqui dando uma olhada nos campeonatos em 2010 e algo me chamou muito a atenção. Vocês já viram o número de categorias de base internacionais que existem, ou existirão, nesse ano? Se vocês não se atentam para esse tipo de coisa, contem comigo: GP2 Series, World Series by Renault, AutoGP, GP3 Series, Fórmula 2, Fórmula 3 Européia, Fórmula Master. Todas essas são categorias de cunho europeu que visam unicamente mandar pilotos para as categorias top do automobilismo de monopostos, ou seja, a Indy e a Fórmula 1.

É campeonato demais. Não era pra haver tantos, ainda mais sabendo que o mundo não se encontra em situação financeira confortável e Fórmula 1 e Indy estão em situação econômica ainda mais delicada.

Todos os campeonatos são conceitualmente muito parecidos entre si. São categorias monomarca com grids entre 20 e 30 carros e algo entre seis e doze fins de semana anuais de corridas. Até mesmo os calendários são parecidos: pistas como Barcelona, Magnycours, Spa-Francorchamps, Nurburgring, Hockenheim, Algarve, Valência e Oschersleben aparecem com frequência em vários destes calendários. Não por acaso, vemos sempre a mesma panelinha de equipes participando desses campeonatos: ART Grand Prix, Addax, Carlin, Arden, Durango, Coloni, Rapax, Tech 1, Manor e por aí vai.

E aí me surge a pergunta: pra quê? Não há necessidade de tantos. As equipes de Fórmula 1 e Indy se importam apenas com a GP2, a World Series e a Fórmula 3 Européia, e olhe lá. Nem mesmo os campeões das outras categorias são levados em conta. O campeão da Fórmula 2, Andy Soucek, só encontrou uma mísera vaga de piloto reserva da Virgin. Muitas dessas categorias só existem mesmo para tirar dinheiro de otários. Com o excesso de vagas por aí, muitos pilotículos ricos aparecem e se iludem com a idéia que podem subir para patamares maiores um dia. Aí ele descobre que ninguém dá a mínima para o campeonato que ele corre e tudo o que ele conseguiu fazer foi jogar o dinheiro no lixo. E as ART e Addax da vida enchem as burras.

Andy Soucek, campeão de F2 em 2009. Ninguém deu bola

A Fórmula 1 tem apenas 24 carros. A Indy tem um número variável entre 20 e 33 carros dependendo da corrida. Sendo bem otimista, são cerca de 50 carros em categorias top, e a cada ano devem abrir apenas umas 10 vagas para novatos. Agora vamos às categorias de base: 24 na GP2, 26 na World Series, 24 na Fórmula 2, 30 na GP3, 25 na AutoGP, 19 na Fórmula 3 Européia e por aí vai. São quase 150 pilotos, e olha que eu nem considero os campeonatos nacionais de relevância, como a Fórmula 3 Inglesa. 150 pilotos disputando 10 vagas anuais no automobilismo top. Pra mim, a matemática já é o suficiente pra dizer que há algo muito errado. A maioria dos pilotos acaba parando em categorias de turismo e protótipos ou em campeonatos B como a Superleague, como é o caso de Giorgio Pantano, campeão da GP2 em 2008.

E são campeonatos que competem entre si e que só destroem uns aos outros. A GP3 praticamente afundou a F3 Européia e a Fórmula 2 surgiu como uma alternativa mais barata à GP2. Os grids acabam perdendo muito em qualidade e em quantidade, especialmente nas categorias menos favorecidas tecnicamente. No fim das contas, nesses campeonatos, apenas meia dúzia de pilotos de cada grid é competitiva. O resto é composto por brações endinheirados e iludidos com a idéia de que chegarão lá em cima um dia. Nem mesmo as corridas são tão boas: algumas categorias como a World Series realizam provas tão ou mais chatas do que as da Fórmula 1. Não há qualidade, diversão, aspecto técnico, não há nada.

É uma situação insustentável. Esse é um motivo que me faz defender uma expansão considerável dos grids da Fórmula 1 e Indy, mas sei que isso é insustentável a curto prazo. O negócio é ver algumas categorias morrendo. Restando apenas a GP2, a Fórmula 2 (por ser muito barata) e a Fórmula 3 Européia, além dos campeonatos nacionais, está bom demais.

O mundo empresarial é cheio de figuras inusitadas. Pudera, pois muitos deles são brilhantes e justificam a fama (e a fortuna) que amealharam. Podem, portanto, fazer e falar o que quiserem. E alguns aproveitam isso ao máximo, como é o caso de um inglês nanico e de origem judaica, Bernard Charles Ecclestone.

Já se falou muito sobre ele. Já se escreveu muito sobre ele. Bernie Ecclestone é uma notícia ambulante, alguém que sempre traz uma polêmica nova para atiçar pilotos, chefes de equipe, jornalistas e torcedores. Seria injusto dedicar apenas um post a ele, o cara é digno de uma biografia. E é difícil defini-lo, afinal o cara muda de opiniões ao sabor dos ventos (e da economia). Particularmente, o observo com um misto de admiração e asco. E creio que é isso mesmo que ele quer causar.

Não vou entrar em muitos detalhes sobre sua vida. Bernie começou a vida ganhando dinheiro vendendo motos e títulos imobiliários. Sua entrada no automobilismo se deu como empresário de Stuart Lewis-Evans e Roy Salvadori, além de acionista na equipe Connaught. Em 1958, decidiu fazer algumas corridas pela Connaught, mas não largou em nenhuma, e acabou desistindo da idéia de ser piloto. Depois disso, sua carreira na Fórmula 1 como manager só cresceu: empresário de Jochen Rindt, dono da Brabham, líder da associação de construtores na F1 e “dono” da categoria. Não só sua carreira cresceu, mas sua fortuna também. Em 2009, Bernie tinha um patrimônio de quase 1,5 bilhão de libras. E isso porque ele havia perdido quase 1 bilhão de libras com relação a 2008!

O engraçado em Ecclestone é a maneira com a qual encara sua vida. Profissional é a palavra. Bernie diz adorar essa palavra, pois o trabalho e o dinheiro são sua vida. E uma Fórmula 1 profissional é o que ele quer. Seu maior medo é ver o trabalho realizado para transformar uma competição amadorística com um monte de garageiros europeus em um show de âmbito mundial e cifras bilionárias ser reduzido a nada. Para isso, já decidiu: seu substituto não precisará entender de corrida de carro, apenas de negócios. Para o chefão, a categoria é, sim senhor, um negócio. Um negócio que todos vocês reclamam por ser comercial demais mas amam assistir aos domingos. Constatar uma coisa dessas é irritante, mas é genial ao mesmo tempo.

Aos 79 anos, o cara não está nem aí. Costuma ser direto e irônico. Politicamente correto não é com ele. Já chegou ao ponto de elogiar Adolf Hitler pelo fato do führer conseguir ter o controle total das coisas. Já declarou que não gosta de democracia, pois uma ditadura faz as coisas funcionarem melhor. Já disse o mesmo sobre a tortura. Já declarou que as mulheres só deveriam vestir branco, pois todo apetrecho de cozinha é branco. Já disse que Kimi Raikkonen é mais legal bêbado. Já disse que não tinha uma amante porque não tem tempo e nem potência para dar conta dela. É um Sílvio Santos britânico.

Um cara amalucado como esse, porém, sempre representa um perigo com relação a novas idéias para a categoria. A implantação de atalhos nas pistas não foi sua primeira idéia duvidosa. Em 1987, Bernie insistiu que o grid de largada fosse decidido em uma complicadíssima fórmula que usaria variáveis como uma minicorrida realizada aos sábados e a posição das equipes no campeonato. Em 89, Bernie sugeriu que o vencedor de uma corrida deveria fazer um pitstop obrigatório na corrida seguinte, e a cada corrida consecutiva adicional que ele vencer, aumenta-se o número de pits. Em 2002, a pior: Bernie sugeriu que houvesse um rodízio de pilotos nas equipes para cada corrida. Schumacher na Minardi, Barrichello na BAR, Yoong na McLaren e assim por diante. A F1 ideal para o Bernie, administrada unicamente por ele e com idéias do gênero, seria no mínimo muito diferente de qualquer coisa já vista antes.

O que Bernie gostaria para a categoria é um esporte dinâmico, que vai atrás dos países mais promissores comercialmente falando. Como a Ásia está em situação econômica muito melhor que a Europa, é pra lá que a F1 vai. Os torcedores são poucos, mas gastam muito, e isso é que o importa. A qualidade das pistas não importa muito (Bernie já deixou claro que as ultrapassagens não ocorrem por falta de arrojo dos pilotos), mas sim as instalações, ou o que a pista representa para a F1. Em 86, Bernie elegeu Hungaroring como a melhor pista do mundo. Em 2008, o título foi para Valência. O grid para ele poderia ter apenas 20 carros. Mais do que isso significa ter de dar mais dinheiro para as equipes, mais boxes a serem construídos e mais um punhado de problemas logísticos. O que importa é ter um show de elite, feito para a elite frequentar e os torcedores assistirem da TV.

Este é o homem que comanda o campeonato que você assiste. Eu acho que a F1 seria mais divertida sem ele, e muitos concordam. Mas isso não importa para Bernie Ecclestone. Falem bem ou falem mal, mas falem!

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