Quatro etapas da atual temporada já se foram, todos só falam em Vettel, Alonso, Schumacher e Hamilton e a briga lá no pelotão da frente está mais acirrada do que nunca. Eu pergunto: e daí? Não costumo dar muita importância para o pessoal lá da ponta. As quatro grandes já têm dinheiro, fama e resultados o suficiente para não precisarem da minha compaixão. Olho com atenção, sim, para as equipes do fundão, mais precisamente para as equipes pobres de marré.

Nesse caso, são duas: a HRT e a Sauber. Por que não Lotus e Virgin? A Lotus é rica, tem o governo malaio por trás. E tanto Richard Branson (US$ 2,5 bilhões de patrimônio) como Tony Fernandes (US$ 290 milhões) nadam em dinheiro. Não que Peter Sauber ou José Ramón Carabante recebam Bolsa-Família e andem de Brasília amarela, mas é evidente que não possuem o poderio financeiro de seus dois concorrentes. O resultado é que, aparentemente, suas equipes são as de menor potencial de crescimento do campeonato.

Os números não mentem. Com quase 400 milhões de dólares, a Ferrari é a equipe com maior orçamento do campeonato. A Mercedes, com 263 milhões, e a McLaren, com 208 milhões, vêm logo atrás. Na ponta de baixo da tabela, temos Lotus com 79 milhões, Sauber com 70 milhões, Virgin com 54 milhões e HRT com míseros 50 milhões de dólares. Vale lembrar: a Virgin só corre com 54 milhões porque quer, já que a equipe insistiu na filosofia de provar para todos que, sim, é possível competir com o valor proposto no ano passado pela FIA para a redução de custos.

Explicações iniciais entregues, vemos que Sauber e HRT padecem no paraíso e não podem se dar ao luxo de estarem garantidas para 2011. Percorremos caso por caso.

Tá vendo aquele Certina lá no retrovisor? É o principal patrocinador da Sauber em 2010

A Sauber, de história bonita nos campeonatos de protótipos, nunca foi nada além de uma equipe média sem carisma. Podia andar mais ou menos perto dos carros de ponta, mas nunca saiu lá do meio. A princípio, essa é a cara da equipe em 2010. Não fosse pela expectativa geral de ver Kamui Kobayashi repetir suas atuações do final do campeonato passado e ninguém sentiria falta dos carros brancos de laterais pretas. Na pré-temporada, o carro até se comportou relativamente bem e muita gente saiu dizendo que “essa deverá ser a melhor equipe dos intermediários”.

Não só isso não aconteceu como o C29 vem apresentando uma sequência desagradável de quebras: três motores Ferrari foram para o espaço nos últimos dois fins de semana, um de Kobayashi e dois de De La Rosa. Para uma temporada que prevê apenas seis motores para cada piloto, não é um bom sinal. A Ferrari diagnosticou um problema generalizado no sistema de válvulas pneumáticas dos motores. Mas não é só isso: na Austrália, o bico do carro de Kobayashi escapou ainda na primeira volta, resultando em um grande acidente do japonês. O azar de Kamui é conhecido desde a GP2, mas os carros da Sauber colaboram.

Para piorar, o maior problema da equipe não é este, mas sim a falta de dinheiro. A Sauber é, sem a menor sombra de dúvida, o carro mais limpo do campeonato até aqui. Olhando fotos, só consigo identificar os relógios Certina nos retrovisores e os suplementos nutricionais Scalp-D, cujo emblema está escrito em katakana, alfabeto japonês, na lateral do aerofólio traseiro. E só. O próprio site da Sauber destaca a Certina como seu “patrocinador principal”. Pedro de la Rosa já falou que a equipe precisa de patrocinadores pra desenvolver o carro. Caso contrário, a equipe ficará ainda mais para trás. E o próprio espanhol já está com seu emprego ameaçado. Os endinheirados Luca Filippi e Pastor Maldonado estão apenas esperando o chamado.

"Bruno"? O que será que essa empresa produz?

Nos boxes da HRT, a situação é ainda pior. O carro em si é um problema, a desorganização reina e o dinheiro é raro. Já correm boatos na Europa que a equipe poderia abandonar a atual temporada para se desenvolver para 2011. Não seria uma idéia ruim: o carro ainda está mais de um segundo atrás dos Virgin e Lotus, foi duramente criticado por Geoff Willis e, a princípio, não há perspectivas grandes de melhora. Em Barcelona, a equipe virá com uma nova caixa de câmbio, mas isso não resolverá o problema: o carro simplesmente não possui downforce algum. E o pior é a equipe, mesmo sem querer trabalhar com a Dallara, ainda é refém da construtora italiana, pois essa possui todos os dados de construção e performance dos carros. Qualquer mudança que a equipe queira fazer necessitará de um pedido aos italianos. E olha que dizem até que a última parcela da construção dos carros nem foi paga…

O carro vem com alguns patrocinadores a mais que a Sauber. Bruno Senna conseguiu trazer a Embratel e o Banco Cruzeiro do Sul. Este último acordo foi feito dias antes da corrida do Bahrein. Na China, a equipe colocou o emblema da FCACA, uma empresa de competições chinesa no estilo Prodrive. Além disso, o perdulário Sakon Yamamoto foi contratado como terceiro piloto. Porém, não há uma empresa grande disposta a apoiar a balbúrdia. Nas fotos e na TV, o que predomina são os nomes dos pilotos, Bruno e Karun. O desespero por patrocinadores é tão grande que surgiu um outro boato (equipes frágeis são vulneráveis a boatos) que a HRT só teria dinheiro para competir até Mônaco. Só nuvens negras pelos lados de Múrcia.

Eu não me lembro de histórias como essas nos últimos 15 anos. Em tempos remotos, equipes como Coloni, Andrea Moda e Life sofriam com sua precariedade técnica e financeira. Os tempos, porém, eram outros e equipes problemáticas eram aceitas. A Fórmula 1 do século XXI não tolera os fracos e ver a Sauber sem patrocínios e a HRT capengando emanam de mim sentimentos misturados de nostalgia, pena e escárnio. Que a bonança venha para os suíços e os espanhóis.

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