O mundo empresarial é cheio de figuras inusitadas. Pudera, pois muitos deles são brilhantes e justificam a fama (e a fortuna) que amealharam. Podem, portanto, fazer e falar o que quiserem. E alguns aproveitam isso ao máximo, como é o caso de um inglês nanico e de origem judaica, Bernard Charles Ecclestone.

Já se falou muito sobre ele. Já se escreveu muito sobre ele. Bernie Ecclestone é uma notícia ambulante, alguém que sempre traz uma polêmica nova para atiçar pilotos, chefes de equipe, jornalistas e torcedores. Seria injusto dedicar apenas um post a ele, o cara é digno de uma biografia. E é difícil defini-lo, afinal o cara muda de opiniões ao sabor dos ventos (e da economia). Particularmente, o observo com um misto de admiração e asco. E creio que é isso mesmo que ele quer causar.

Não vou entrar em muitos detalhes sobre sua vida. Bernie começou a vida ganhando dinheiro vendendo motos e títulos imobiliários. Sua entrada no automobilismo se deu como empresário de Stuart Lewis-Evans e Roy Salvadori, além de acionista na equipe Connaught. Em 1958, decidiu fazer algumas corridas pela Connaught, mas não largou em nenhuma, e acabou desistindo da idéia de ser piloto. Depois disso, sua carreira na Fórmula 1 como manager só cresceu: empresário de Jochen Rindt, dono da Brabham, líder da associação de construtores na F1 e “dono” da categoria. Não só sua carreira cresceu, mas sua fortuna também. Em 2009, Bernie tinha um patrimônio de quase 1,5 bilhão de libras. E isso porque ele havia perdido quase 1 bilhão de libras com relação a 2008!

O engraçado em Ecclestone é a maneira com a qual encara sua vida. Profissional é a palavra. Bernie diz adorar essa palavra, pois o trabalho e o dinheiro são sua vida. E uma Fórmula 1 profissional é o que ele quer. Seu maior medo é ver o trabalho realizado para transformar uma competição amadorística com um monte de garageiros europeus em um show de âmbito mundial e cifras bilionárias ser reduzido a nada. Para isso, já decidiu: seu substituto não precisará entender de corrida de carro, apenas de negócios. Para o chefão, a categoria é, sim senhor, um negócio. Um negócio que todos vocês reclamam por ser comercial demais mas amam assistir aos domingos. Constatar uma coisa dessas é irritante, mas é genial ao mesmo tempo.

Aos 79 anos, o cara não está nem aí. Costuma ser direto e irônico. Politicamente correto não é com ele. Já chegou ao ponto de elogiar Adolf Hitler pelo fato do führer conseguir ter o controle total das coisas. Já declarou que não gosta de democracia, pois uma ditadura faz as coisas funcionarem melhor. Já disse o mesmo sobre a tortura. Já declarou que as mulheres só deveriam vestir branco, pois todo apetrecho de cozinha é branco. Já disse que Kimi Raikkonen é mais legal bêbado. Já disse que não tinha uma amante porque não tem tempo e nem potência para dar conta dela. É um Sílvio Santos britânico.

Um cara amalucado como esse, porém, sempre representa um perigo com relação a novas idéias para a categoria. A implantação de atalhos nas pistas não foi sua primeira idéia duvidosa. Em 1987, Bernie insistiu que o grid de largada fosse decidido em uma complicadíssima fórmula que usaria variáveis como uma minicorrida realizada aos sábados e a posição das equipes no campeonato. Em 89, Bernie sugeriu que o vencedor de uma corrida deveria fazer um pitstop obrigatório na corrida seguinte, e a cada corrida consecutiva adicional que ele vencer, aumenta-se o número de pits. Em 2002, a pior: Bernie sugeriu que houvesse um rodízio de pilotos nas equipes para cada corrida. Schumacher na Minardi, Barrichello na BAR, Yoong na McLaren e assim por diante. A F1 ideal para o Bernie, administrada unicamente por ele e com idéias do gênero, seria no mínimo muito diferente de qualquer coisa já vista antes.

O que Bernie gostaria para a categoria é um esporte dinâmico, que vai atrás dos países mais promissores comercialmente falando. Como a Ásia está em situação econômica muito melhor que a Europa, é pra lá que a F1 vai. Os torcedores são poucos, mas gastam muito, e isso é que o importa. A qualidade das pistas não importa muito (Bernie já deixou claro que as ultrapassagens não ocorrem por falta de arrojo dos pilotos), mas sim as instalações, ou o que a pista representa para a F1. Em 86, Bernie elegeu Hungaroring como a melhor pista do mundo. Em 2008, o título foi para Valência. O grid para ele poderia ter apenas 20 carros. Mais do que isso significa ter de dar mais dinheiro para as equipes, mais boxes a serem construídos e mais um punhado de problemas logísticos. O que importa é ter um show de elite, feito para a elite frequentar e os torcedores assistirem da TV.

Este é o homem que comanda o campeonato que você assiste. Eu acho que a F1 seria mais divertida sem ele, e muitos concordam. Mas isso não importa para Bernie Ecclestone. Falem bem ou falem mal, mas falem!

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