Pitacos


Tá tudo bonito na Fórmula 1 atual, mas... qual é o problema?

Não sei o que se passa, se é o meu estado de espírito ou se é o alinhamento dos astros com a constelação de Áries. Não sei se outros compartilham da mesma impressão, ou se é só uma chateação exclusivamente minha. Na semana anterior ao GP da Austrália, confesso que não estava ligando muito para a corrida. Escrevi normalmente por aqui, apresentei todas as doze equipes, dei meus pitacos, assisti ao primeiro treino livre de sexta-feira, cheguei atrasado a uma aula na faculdade por ter visto o treino classificatório de sábado e acompanhei a corrida inteira. Mas sabe quando você acompanha tudo isso mais pelo costume e pela força interna que ainda move sua paixão pelo automobilismo e menos pela diversão em si? Pois é.

Um parágrafo desses pode soar estranho para alguém que escreveu sobre Fórmula 1 em mais de 90% dos posts até aqui. E soa ainda mais estranho por se tratar de alguém que não se sente bem perdendo uma única etapa, mesmo que ela seja tão inútil como o GP da China ou o GP da Espanha. Na verdade, nos últimos dois ou três anos, eu devo ter perdido uma ou outra corrida por ano. E se interessa a algum de vocês, nem fiquei muito incomodado, algo impensável há uns oito ou nove anos. Hoje em dia, só me incomodaria mais por não conseguir postar as notas de pilotos e equipes na segunda-feira. Palavras de alguém que gosta muito do esporte, mas que não consegue esconder seu tédio com o presente e sua desilusão com o futuro.

Muita gente já falou sobre uma suposta chatice da Fórmula 1. Muito já foi comentado sobre a falta de ultrapassagens, a burocracia, a importância do dinheiro, as ordens de equipe, a falta de personalidade dos pilotos e o tédio proporcionado pelas pistas de Hermann Tilke. Não vou por este caminho, até porque discordo da maioria dessas reclamações. As ultrapassagens, segundo uma estatística divulgada na internet, foram bem numerosas, só perdendo para a enlouquecida corrida de 2010. As pistas do Tilke podem ser pouco originais, mas são bem melhores do que muita coisa celebrada por aí. Ordens de equipe, burocracia e dinheiro sempre existiram. O problema é outro – bem mais abstrato e subjetivo.

Por que você vê uma corrida de Fórmula 1? Motivos inúmeros: a tecnologia dos carros, o luxo, a velocidade, os pilotos ou qualquer coisa que destaque a categoria de qualquer outro esporte no planeta. Eu, que não sou rico e não sou engenheiro, sou um tipo de fã bem mais prosaico: aquele que, no fundo, só quer ver uma corrida de carros que proporcione diversão.  Sem complicações, sem as breguices típicas de quem acha que está por cima da carne seca, sem excesso de regulamentos e limitações, sem tumultos extra-pista. Só quero ver uma corrida e sair satisfeito por ter me entretido.

Austrália/1989: quem não se divertiu com uma corrida tão absurda?

O problema já começa por aí. Cada vez menos pessoas encaram o automobilismo como pura forma de se divertir. Nada contra lucrar e fazer o negócio funcionar de maneira séria e profissional, muito pelo contrário. O problema é querer transformar o lado esportivo em uma coisa séria e certinha demais. Não pode ter isso, não pode fazer aquilo, o piloto entra na pista pensando na opinião da mídia e no retorno que o patrocinador deverá ter com sua imagem, a pista deve ter tantos m²s de área de escape e tantos milhares de pneus na barreira, o fã não pode sequer ver o carro sendo montado nos pits, há necessidade de credencial para isso e para aquilo. Que negócio é esse? Pessoal, isso daí é só uma corrida de carro!

Em 1999, quando comecei a assistir Fórmula 1 de verdade, as coisas nem eram tão diferentes em um primeiro momento. Os pilotos já se comportavam como estrelas, a novíssima pista de Sepang inaugurava um padrão clínico de construção de novos circuitos, as equipes torravam centenas de milhões de dólares e as corridas eram chatas em sua maioria. Até aí tudo bem, mesmo porque boa parte das coisas, se pararmos para pensar, segue igual desde o início dos anos 70, quando a Fórmula 1 ganhou corpo estruturado. Mas havia diferenças fundamentais até mesmo entre 1999 e hoje em dia.

1999 foi um ano em que, independente do resultado, poucos saíram insatisfeitos. Todas as corridas tiveram algum fato inesperado, que podia mudar o panorama do campeonato da água para o vinho. As áreas de escape ainda eram feitas de grama e brita, os autódromos ainda não tinham aquela insuportável cara de estacionamento de shopping e os carros eram diferentes entre si. Sem punições distribuídas a torto e direito ou restrições tão severas a corridas com chuva, havia uma maior liberdade para a ocorrência do imponderável. E os regulamentos, embora sempre tivessem mudanças pontuais todo ano, não se diferiam muito dos utilizados nos anos anteriores. Os engenheiros não tinham de queimar neurônios com um KERS ali ou um difusor duplo acolá. Enfim, as corridas eram tão chatas como hoje – mas os detalhes, que não podem ser considerados como meros, eram simplesmente mais interessantes. E foi daquela Fórmula 1 que eu aprendi a gostar.

Hoje em dia, se eu não acompanhasse, não sei se eu me interessaria pela Fórmula 1. E vejo que isso acontece com muita gente. “As corridas de antigamente eram mais legais” pode até ser uma frase errônea, mas é um indicativo de que há algo errado. Mas o quê?

Argentina/1996: carros diferentes, asfalto ruim, caixa de brita... e tudo isso há apenas 15 anos!

As corridas continuam chatas, as ordens de equipe seguem existindo, as equipes continuam torrando milhões e os pilotos seguem se achando a última bolacha do pacote. Mas e os demais detalhes que acompanham a categoria? O regulamento está muito estrito, o que limita a criatividade de engenheiros e pilotos. A busca pela perfeição levou a Fórmula 1 a ser imune a erros e desvios de rota – o que tornou tudo insuportavelmente previsível. As áreas de escape asfaltadas são iguais, os deslumbrados torcedores de olhos puxados são iguais, os grampos de 90° são iguais, os xeiques que fomentam a brincadeira são iguais, os carros são iguais, os motores são iguais, os comportamentos dos pilotos são iguais. Enfim, de uns poucos anos para cá, todos os componentes da categoria passaram a seguir um script.

E todos ficaram intolerantes com as distorções, com as diferenças, com tudo aquilo que não segue o “padrão Fórmula 1 de qualidade”. Por isso que as pessoas não toleram equipes como a Hispania ou a Virgin, saltimbancos que não gastam fortunas e que buscam unicamente a sobrevivência. Por isso que elas zombam quando o asfalto se desmancha ou o bueiro de um trecho de rua escapa. Por isso que reclamam quando um trecho fica empoçado após um temporal. Por isso que clamam por mais segurança (como se isso fosse possível) quando um Mark Webber dá cambalhota após um erro seu. Por isso que bradam contra a Ferrari quando o piloto sai dos boxes com a mangueira do carro. Todos se esquecem que são essas pequenas coisas que trazem a graça da categoria. São os momentos mais amadorísticos, mais heterodoxos que nos vêm à lembrança, como Mônaco/1996 ou Austrália/1989. Alguém aqui se lembra de alguma coisa memorável e divertida que aconteceu no Bahrein?

Nesse fim de semana, dei-me conta que todo esse jeitão clínico e certinho da Fórmula 1 chegou a um ponto insustentável, que subverte o aspecto relaxado e até mesmo libertário que caracterizou o automobilismo desde seu nascimento. Como a FIA consegue transformar a questão da ultrapassagem em algo tão complicado, enfadonho e burocrático? É KERS pra lá, é zona de ultrapassagem pra cá, é asa móvel por cima, é mudança de pontuação pra baixo, mas e aí? Funcionando ou não, é coisa demais para uma mísera manobra.

Mas não é só isso. Um conservadorismo torpe parece ter tomado conta de tudo. Os pilotos disputam as corridas tensos e com um monte de coisas na cabeça. Com a dificuldade para fazer ultrapassagens, a impossibilidade de se posicionar no vácuo do piloto da frente, a falta de elasticidade dos motores atuais, os infinitos botões do volante, as ordens pelo rádio, o excesso de curvas de baixa, o rigor dos comissários e as muitas obrigações profissionais que devem ser realizadas longe de um carro, como dá pra ser alguém que corre muito, se diverte e ama o que faz? Só mesmo um monte de almofadinhas infantilizados e corporativizados para tolerarem tudo isso.

Brasil/1980: alguma semelhança com a atualidade?

E tem mais. Várias outras coisas me afastam da Fórmula 1 aos poucos. A língua de Bernie Ecclestone, que parece fazer questão de irritar quem não concorda com seu modelo de administração. A gestão modorrenta e situacionista de Jean Todt, que não parece estar fazendo muita questão de consertar as cagadas de Mosley e Balestre. Os horários cada vez menos favoráveis a ocidentais. A preocupação maior de pilotos e equipes em “parecer” do que em “vencer”. A sanha por uma polêmica pelo prazer maior de ganhar manchetes. A arrogância desmedida daqueles que acham que podem mais porque “venceram mais em determinado momento” ou “cativam mais fãs”. A formação cada vez mais hermética de panelinhas.

Eu não nego que a Fórmula 1 não é minha categoria preferida. Nesse momento, sem maiores opções, cito a GP2 como o melhor campeonato de monopostos do mundo. Mas mesmo ela, que se preocupa demais em se parecer com a Fórmula 1, não chega aos pés das antigas Fórmula 3000 e Fórmula 2 em termos de diversão.  Espero que a Indy, que anda inventando demais mas que ainda se preocupa com o espectador, siga por um caminho menos restrito. E ainda assim, acho difícil que tenhamos algo parecido com a CART – um campeonato sensacional, no qual as corridas não precisavam de chuva ou invencionices para serem divertidas e imprevisíveis.

Não, não quero dizer que a Fórmula 1 das antigas era melhor porque as corridas eram mais legais, os pilotos eram melhores, havia menos arrogância ou as pistas eram espetaculares. Tudo isso daí é puro preconceito com o contemporâneo, já que o automobilismo é minimamente caro, corporativo, arrogante e eventualmente enfadonho desde há mais de 100 anos. A Fórmula 1, nos últimos anos, teve até mais brigas do que há 10 anos. As disputas pelo título vêm sendo até mais encarniçadas do que o que tínhamos nos “áureos tempos de Senna e Clark”.

Mas falta alguma coisa. Falta mais diversão pura e simples. E ao menos para mim, são os menores e mais preciosos detalhes que podem me deixar muito ou nada satisfeito.

Porque a temporada de pitacos está de volta. Nesse ano, um tour pelas cervejas de cada país. Prepare-se pra tomar Itaipava no Brasil e Stella Artois em Spa.

GP DA AUSTRÁLIA: Primeira prova do ano desde 1996, a corrida da ilha é uma das mais esperadas. Pelos pilotos, que amam a badalada cidade de Melbourne e a traiçoeira pista do Albert Park. Pelos torcedores, que saciam a vontade de ver os carrinhos coloridos na pista. Por Bernie Ecclestone, que sempre enche as burras. Por quem escreve sobre o esporte, porque é finito o marasmo. Os nativos, por outro lado, consideram a prova altamente dispendiosa e barulhenta e querem ver a Fórmula 1 o mais longe possível da Oceania. Enquanto isso não ocorre, curtamos.

107%: Só vejo dois destinos para essa regra: ou ela cai após muita pressão das equipes nanicas ou a Fórmula 1 raramente terá mais do que 21 ou 22 carros nas corridas desse ano. A Hispania, que ainda nem conseguiu montar o segundo carro, é presa fácil nesse limite. A Virgin conseguiu a proeza de construir um carro ainda pior do que o do ano passado. Jerôme D’Ambrosio ficou a quase três segundos do limite nos treinos livres e nem Timo Glock está conseguindo salvar a honra alvinegra. Eu acho a regra dos 107% deveras idiota, mas a situação das duas pequeninas é altamente preocupante. E acho que a Lotus deveria se preocupar também.

PNEUS: Nem KERS, nem asa móvel: o que vai trazer graça às corridas neste ano serão os pneus Pirelli, cujo comportamento é absolutamente imprevisível. Após a primeira sessão, correu pelo mundo uma fotografia do deplorável estado de um dos pneus do Red Bull de Sebastian Vettel. Ainda assim, Fernando Alonso disse que os pneus poderão até apresentar maior resistência, já que Melbourne é uma pista que não consome muita borracha. Em 2011, você já entendeu qual será a grande dor de cabeça de pilotos, engenheiros e mecânicos.

PANORAMA: A Red Bull mandou e desmandou no primeiro treino e a McLaren conseguiu surpreendente dobradinha na segunda sessão. A Ferrari esteve sempre ali, a Williams surpreendeu positivamente com Barrichello, a Mercedes ficou no mesmo patamar, a Renault começou mal, a Force India está até pior, a Sauber tá lá no meio, a Toro Rosso não manteve a forma da pré-temporada e as novatas de 2010 continuam na merda. Este é o panorama dos primeiros quilômetros de Melbourne. No entanto, tudo isso pode mudar, já que treino livre é menos conclusivo do que amistoso contra time de cidade pequena. Ou não.

LITO CAVALCANTI: Além de realizar a primeira transmissão em alta definição, a SporTV agora está permitindo que os comentaristas leiam mensagens de telespectadores no Twitter. E logo na primeira sessão, o velho Lito Cavalcanti deu uma verdadeira bordoada em um sujeito que, descrente de seu comentário sobre o aspecto ecológico do KERS, soltou um “COMO ASSIM???” em caixa alta para o comentarista. Revoltado, Lito respondeu ironicamente ao espectador, repetindo a informação em voz sarcástica. Em casa, ri pra caramba. O Lito é o dono da verdade de sempre. E os internautas brasileiros seguem como ótimos fornecedores de risadas.

Sebastian Vettel e o dedo pro alto. Cool! Ou não...

Parem as máquinas: o campeão mundial de Fórmula 1 Sebastian Vettel não é cool. Quem nos revelou fato tão esclarecedor e relevante foi Ari Koivula, executivo finlandês que comanda a Mad Croc, conhecida marca de energéticos na Europa. Segundo Koivula, “pessoas dinâmicas e contemporâneas não possuem a linguagem corporal típica de ‘filhinho de papai’ e o corte de cabelo característicos de Vettel”. Para o nórdico, pilotos realmente cool são Kimi Räikkönen e Kamui Kobayashi.

É mais uma guerrinha besta, esta dos energéticos. Vettel é a principal estrela da Red Bull, marca indiscutivelmente dominante neste próspero mercado. Para alfinetá-lo, Ari Koivula utilizou Kamui Kobayashi como contraponto. Não são muitos os que se lembram disso, mas a Sauber de Kobayashi é patrocinada pela Mad Croc. A citação de Räikkönen, por outro lado, é bem curiosa, já que o piloto finlandês é patrocinado exatamente pela Red Bull. Na certa, é uma menção intranacional. Mas não vou falar sobre a “Guerra da Taurina”. Que diabos é esse negócio de “ele é mais cool do que você”? Estamos falando de Fórmula 1 ou das bandas britânicas que aparecem na NME?

Na Fórmula 1, assim como em qualquer coisa que movimenta toneladas de verdinhas, a construção da imagem vem sendo uma das atitudes mais necessárias para a sobrevivência comercial. Não basta ao piloto ser veloz, consistente, inteligente e vencedor. Para ser considerado completo, ele deve ser bonito, falar bem, sorrir para as fotos, ser amigo dos jornalistas, agradar aos fãs e agir de modo politicamente correto. Mas se ele também não quiser fazer nada disso e preferir agir como um James Hunt contemporâneo, há uma cartilha prontinha para isso: desarrume o cabelo, não faça a barba, apareça tocando guitarra em algum vídeo, dê alguma declaração bombástica criticando as regras atuais, apareça com a mulher mais bonita do paddock e vá em todas as festas. Nunca se esquecendo, é claro, do boné do patrocinador na cabeça.

Os pilotos, em sua maioria pessoas intelectualmente limitadas, não parecem se importar em seguir uma das duas tendências. E são incapazes de enxergar uma terceira via que seja. Ou você é bonitinho, filho da vovó e apreciador de leite com pera, ou você é um playboy babaca e inconsequente. Aderindo a qualquer uma dessas correntes, você cativará uma legião de fãs e captará uns bons dividendos ao seu patrocinador.

James Hunt fumando. Uma coisa é NASCER assim. A outra é QUERER SER assim.

E é claro que, dos dois lados, a construção da imagem é sempre malfeita e incompleta. No seu início de carreira, Sebastian Vettel era só um moleque que parecia se divertir. Simpático, sorridente e acessível, galgou fãs, amigos e boas referências na mídia. Quando venceu sua primeira corrida na Fórmula 1, todo mundo comemorou ao seu lado. Em um momento no qual os holofotes não estavam voltados em sua direção, Vettel não precisava parecer legal na frente das câmeras – ele simplesmente era.

Mas o sucesso veio, e sua personalidade se modificou drasticamente. Vettel percebeu que as pessoas o viam como um cara legal, um sujeito avesso ao corporativismo da Fórmula 1, e passou a utilizar esta fama ao seu favor. Hoje em dia, suas atitudes são milimetricamente calculadas para serem icônicas, heroicas ou divertidas. O dedo em riste para o alto. O “Yeah! Yeeeah!”. As brincadeiras com uma guitarra do ZZTop. A referência a uma vitória de Senna que ele diz ter visto em 1991. Os capacetes com muitas cores e grafismos. Hoje, como campeão mundial, Sebastian ainda é um sujeito legal. Pasteurizadamente legal.

E é por isso que ele já não convence mais ninguém. Como piloto Red Bull, Vettel carrega certa obrigação de se portar como um cara descolado perante todos. Até aí, tudo bem. O problema é que algumas atitudes suas parecem estar diametralmente opostas a outras, e ele acaba não passando imagem alguma. Ou talvez a imagem de um moleque perdido e dissimulado. Vejamos.

Se depender da Red Bull, Sebastian Vettel seria um novo Kimi Räikkönen. Ou, pior ainda, um James Hunt. Baladeiro, politicamente incorreto, efusivo, formador de tendências e ídolo de uma geração de transgressores. Mas Vettel, por natureza, não é nada disso. Se ele toca guitarra e faz pinturas psicodélicas no capacete, ele também gosta de ficar em casa jogando em seu Playstation e gosta também de dar nomes de mulher para seus carros, atitudes muito pouco “descoladas”. Além do mais, apesar de sua simpatia pública, Vettel é aquele que não conversa com os demais pilotos alemães do grid, que diz que nunca foi amigo de seu companheiro Mark Webber e que aponta o dedo para comissários de pista quando não gosta de alguma decisão desfavorável.

Kamui Kobayashi. Nesse momento, o cool é ele.

De verdade, não tenho nada contra ele ter feito qualquer uma dessas coisas, até porque todos somos humanos e cometemos nossas cagadas. O problema é querer abraçar uma postura para parecer bacana sem realmente querer fazê-lo e sem sequer saber fazê-lo. Pessoas como James Hunt agem como agem unicamente porque querem e porque não sabem agir de qualquer outra maneira. Para eles, ser cool é natural. Mais ainda: é irrelevante. Eles sabem que não há glamour nenhum na vida que escolheram levar. Muito pelo contrário: o que mais recebem são críticas. Só que eles são convictos o suficiente para seguir em frente com sua personalidade.

É claro que Vettel não é o único culpado. Na verdade, a mentalidade dele só reflete o que as pessoas esperam de um ídolo hoje em dia. A fala do Ari Koivula é um bom exemplo disso. Seja lá qual for o motivo, uma celebridade contemporânea deve obrigatoriamente ter uma imagem. Na Fórmula 1, o piloto precisa ter um papel extra-pista, seja como mocinho, vilão, junkie, coitadinho ou amigão. O fato de Nick Heidfeld e Timo Glock serem menos lembrados até mesmo que polêmicos das antigas, como Jacques Villeneuve, é uma boa prova para esta constatação.

Os torcedores politicamente corretos querem um piloto que sorria, seja amigável, participe de programas educativos ou sociais, não beba, não fume, seja fiel à sua namorada e faça a barba todos os dias. Um Ayrton Senna, digamos assim. Os politicamente incorretos, por outro lado, querem um porra-louca que beba, fume, use drogas, coma todas as grid girls, fale bosta e ouça Matanza. Um Nelson Piquet, digamos assim. Os dois lados esperam por super-heróis que personifiquem aquilo que as pessoas normais não são. Falta lembrar apenas que os pilotos também são pessoas normais. E que há sempre um meio termo. O cara pode falar palavrão, beber umas de vez em quando, temer a Deus e ver Bob Esponja, não pode?

Reconheço que virou clichê entre os palpiteiros contemporâneos falar sobre o caráter pasteurizado e artificial das pessoas. Mas não há saída: a realidade é essa e tende a ficar cada vez pior. Nós não admitimos, mas queremos ver a vida edulcorada como uma grande novela. Encaramos as celebridades como mocinhos e vilões e ai delas se não encarnarem um dos papéis. É a supervalorização da imagem.

Kimi Räikkönen, o Iceman. Mas será que ele é tão "Iceman" assim?

E o mais chato é que até mesmo alguns “descolados” históricos podem estar fazendo apenas tipo. Um caso é o de Kimi Räikkönen. Em um primeiro instante, eu realmente o considerava um autista por opção, alguém que só queria saber de beber um pouco de vodca e dirigir carros velozes e que não se importava com qualquer outra coisa. Com o passar do tempo, Kimi passou a explorar este seu lado aparecendo em vídeos idiotas, utilizando um pseudônimo “James Hunt” nas corridas no gelo e até assumindo o apelido Iceman, o “Homem de Gelo”. Sua equipe no WRC se chama Ice 1 Racing. Que tipo de cool é esse que explora sua imagem até mesmo no nome de sua equipe?

O cool do momento é Kamui Kobayashi. As declarações dele são muito engraçadas, sua história é razoavelmente comovente, sua aparência é absolutamente cômica, seu inglês é trôpego e suas atitudes dentro da pista são completamente piradas. Até aqui, me parece ser o único que ainda faz as coisas inocentemente, sem dar importância para o resto. Mas creio ser apenas uma questão de tempo para ele começar a se achar o último sushi da bandeja e explorar esse seu lado caricatural. Não duvido que ele pinte sua cara abestalhada no topo do capacete, por exemplo.

Não acredito em imagem. Ou melhor, acredito apenas naqueles que têm uma imagem, mas que não podem tirar proveito disso. Ou que acabam até se dando mal com ela. James Hunt sempre foi considerado um idiota prepotente, e nunca arredou pé. Morreu pobre, esquecido e não duvido que sua causa mortis tenha sido relacionada a álcool ou drogas. Nelson Piquet sempre falou o que pensava. Como resultado, ganhou a antipatia dos jornalistas e dos fãs brasileiros. Se realmente existem pessoas cool, são essas daí. Da mesma maneira, ser doidão e descolado apenas para aparecer é uma das coisas mais imbecis do planeta. Uma pessoa nerd, careta, sem amigos e contente com si mesma vale muito mais do que um playboy popular, “pegador” e infeliz por ser apenas uma miragem.

Não há receita exata para ser legal. Como não há receita exata para ser bonito, bem-sucedido ou popular. Sinceramente, aqueles que vivem em busca constante de uma imagem e aqueles que acham que a imagem é mais importante do que o conteúdo ou a eficiência merecem tomar no cool.

Tony Kanaan: de campeão a desempregado sem um puto no bolso

Nos anos 90, quando a Fórmula 1 começou a enriquecer demais e a brincadeira se tornou muito cara, os olhos do mundo da velocidade se voltaram para o outro lado do Atlântico, aquele país caipira e provinciano conhecido como Estados Unidos da América. Enquanto a maior categoria europeia padecia da falta de astros, da diminuição do número de equipes e da chatice das corridas, os ianques se divertiam com a Fórmula Indy, uma categoria que chamava a atenção pela velocidade nos ovais, pelas cores dos carros, pelo caráter quase caricatural de seus pilotos… e pelo dinheiro escapando pelo ladrão. Pois é, esses tempos de fartura viraram história.

Após perderem Ayrton Senna, os brasileiros foram os primeiros a se interessarem em massa pelos monopostos americanos. Até meados dos anos 90, a Indy não passava de um reduto de sujeitos que eram bichinhas e democratas demais para correrem na NASCAR e retrógrados e obesos demais para se sujeitarem aos caprichos da Fórmula 1. Os americanos comandavam o negócio e estrangeiros eram poucos e não muito competentes, salvo os casos óbvios de Emerson Fittipaldi, Arie Luyendyk e alguns canadenses perdidos. Europeus e sul-americanos só recorriam à Indy unicamente no caso de fracasso no Velho Continente. Em 1995, no entanto, André Ribeiro, Gil de Ferran e Christian Fittipaldi estrearam a legião de pilotos xeno que almejavam construir uma carreira longa e sólida nos States.

Os três vinham de ambientes diferentes. Christian, ainda um moleque na fase inicial da carreira, havia se cansado de andar lá atrás na Fórmula 1. Ele tinha convites para seguir na Europa, mas preferiu a Indy visando voltar à briga pela vitória. Gil de Ferran havia acabado de disputar o título da Fórmula 3000 e também tinha convites da Fórmula 1, mas preferiu a Indy pelas boas possibilidades esportivas e financeiras. E André Ribeiro havia saído diretamente da Indy Lights para a Indy – o caso mais claro de piloto que deliberadamente preferiu a carreira norte-americana.

E logo em 1995, Gil e André conseguiram vencer suas primeiras corridas. Christian, que levava quatro milhões de dólares para a Walker, não venceu, mas obteve um brilhante segundo lugar nas 500 Milhas de Indianápolis. O sucesso dos tupiniquins atraiu um bocado de gente que não tinha lá grandes esperanças na Europa, como Mark Blundell, Roberto Moreno, Alessandro Zanardi e Massimiliano Papis. E o resto da história todos nós conhecemos: a estrangeirada tomou o espaço dos americanos e após o título de Jimmy Vasser em 1996, nenhum outro nativo conseguiu um título na categoria.

A invasão desenfreada de estrangeiros deu a impressão de que a Indy, que virou CART, era como aquela menina fácil que dorme com um exército inteiro. As premiações eram inúmeras e muito fartas, os patrocinadores disputavam espaços minúsculos em todos os carros e os pilotos que precisavam levar patrocínio não tinham lá muito trabalho para encontrar parcerias. Era o sonho americano em sua expressão esportiva. Mas como dizia aquela frase, o sonho acabou.

Jean-Karl Vernay, o campeão da Indy Lights. Ele deverá perder uma vaga para uma inglesinha que nem sabe fazer curva direito

Nas duas últimas semanas, dois campeões declararam que estavam basicamente na merda. Um deles, vá lá, é da quase irrelevante Indy Lights. O francês Jean-Karl Vernay (aviso aos navegantes: não confundir com Jean-Eric Vergne, o atual campeão da Fórmula 3 britânica) anunciou que seu patrocinador, a Lucas Oil, pulou fora e ele estava completamente aberto a qualquer convite vindo da Europa ou da América do Norte. Se fosse pra correr de patinetes na Bulgária, ele estaria dentro. Se fosse pra andar de carroça no Wyoming, melhor ainda.

Vernay é o atual campeão da Indy Lights e, na teoria, ninguém merece mais do que ele uma vaga na Indy “Heavy”. De fato, ele dominou a última temporada, vencendo cinco etapas e subindo ao pódio em outras quatro ocasiões. Durante esta pré-temporada, ele manteve contatos com a Conquest, pequena equipe do belga Eric Bachelart. A Conquest estava muito interessada nele, mas ela sabe que não conseguiria sobreviver se não empregasse ao menos um piloto pagante. Bachelart vem conversando também com a inglesa Pippa Mann, de carreira discretíssima, e com Paul Tracy, que foi campeão da ChampCar em 2003. Uma dupla composta por Tracy e Vernay seria o sonho de consumo da equipe, mas em tempos duros como esse, não passa de sonho. A endinheirada Pippa é a favorita à vaga, ao menos para todas as corridas ovais.

O outro piloto que está em mau momento, pasmem, é Tony Kanaan, campeão da Indy Racing League em 2004 e um dos melhores pilotos do grid. Após perder o patrocínio da 7-Eleven e ser dispensado da Andretti Autosport, Tony acertou um contrato meia-boca com a De Ferran Dragon, típica equipe do meio do pelotão comandada por Gil de Ferran, Steve Luczo e Jay Penske, filho do dono da Penske. Estava tudo certo, mas com uma condição: os dois lados, equipe e piloto, deveriam correr atrás de patrocínio. Havia a HP, mas só ela não era suficiente. Infelizmente, apesar de Tony ter conseguido dois milhões de dólares, a De Ferran Dragon não conseguiu completar o orçamento e a parceira acabou. A equipe fechou as portas e o piloto está aí, livre, nem um pouco leve e solto.

Em um mundo justo e bonito, Tony e Vernay não correriam o sério risco de ficar desempregados. Este mundo justo e bonito existiu naquela Indy da qual estava me referindo no começo do texto. Naqueles tempos, as equipes grandes nadavam em patrocinadores, as médias conseguiam se virar numa boa e apenas algumas pequenas mendigavam patrocínio de pilotos pagantes.

Exemplo? Peguemos 1997, já que há um guia da temporada aqui do meu lado. A Penske tinha a Marlboro e a Mobil 1 e isso já era o suficiente. A Newman-Haas tinha Kmart, Budweiser, Havoline, Duracell, Gillette, Braun, Toshiba e Bosch entre as principais apoiadoras. A Chip Ganassi contava com Target, Coca-Cola, Energizer, STP, Gillette, TDK e Kleenex. A Rahal tinha a Miller e a Shell. A Patrick era apoiada pela Brahma. A Forsythe tinha a Player’s. A Green tinha a Kool. A Walker tinha a Valvoline.

Michael Andretti e sua lista telefônica negra

Vamos para o meio do grid. A Pacwest tinha a Hollywood e a Motorola. A Tasman tinha a LCI, a Marlboro, a MTV, a Kibon, a Tecate e a Quaker State. A Bettenhauser tinha a Alumax e a Kawneer. A Arciero-Wells tinha a Panasonic e a MCI. Lá no fim do grid, a All American era patrocinada pela Castrol e pela Jockey. A Payton-Coyne era apoiada pela Herdez e pelo Mexlub. A Della Penna tinha os adesivos da Ralph Food 4 Less, da Budweiser e da Fujifilm. A Davis tinha a Marlboro e a Indusval. Até mesmo a ridícula Project Indy tinha o patrocínio da Gällecoder, da Charter America e da gigante farmacêutica Smith, Kline & Beecham. Apenas a Hogan não era patrocinada, mas Carl Hogan mantinha a equipe com o dinheiro da sua empresa de caminhões e com o substancial apoio da Mercedes.

As empresas grandes eram muitas e patrocinavam várias equipes. É evidente que há, por aí, vários casos de patrocinadores que só estavam lá porque eram ligados a pilotos. Mas perceba que eles costumavam apoiar pilotos talentosos, como a Tecate de Adrian Fernandez e a Hollywood de Mauricio Gugelmin. Um caso como o de Hiro Matsushita, herdeiro da Panasonic, não era muito comum e era bastante ridicularizado.

Vamos a 2011, catorze anos depois. A Penske, de fato, está sorrindo à toa. Patrocinada por Shell, AAA, Izod, PPG, Verizon e Itaipava em algumas etapas, é basicamente a única equipe do grid a ter algum aumento substancial em seus patrocinadores. Pela história que possui e pelos excelentes contatos de Roger Penske, não é algo que assusta. A Chip Ganassi tem as eternas Target e Energizer, a Nicorette, a Polaroid, a Microsoft, a Air Wick e mais um monte de empresas que a fazem a equipe mais bem patrocinada no grid. Em 2011, haverá também a Service Central e a Novo Nordisk, associadas aos novos contratados, Graham Rahal e Charlie Kimball.

OK, mas e as outras? Todas fodidas, devendo até as calças. A Andretti, outrora pertencente ao grupo das grandes, terá de se satisfazer com a GoDaddy.com, com a Venom e com a DHL. A Dreyer só tem, por enquanto, a Z-Line do carro do Justin Wilson. A A.J. Foyt seguirá com a ABC. A HVM será patrocinada por uma tal de Entergy. A KV só sobrevive aos acidentes de seus contratados com os apoios da Lotus Cars e da PDVSA, ligada a Ernesto Viso. A Sam Schmidt, que comprou a FAZZT, terá a Bowers & Wilkins patrocinando Alex Tagliani. E a Panther é patrocinada pela Guarda Nacional Americana.

Viu a diferença? Empresas desconhecidas ou médias que definitivamente não acabam dando à Indy aquele ar de efervescência comercial. O pior é que a presença de patrocinadores que não concentram suas operações nos Estados Unidos, como é o caso da PDVSA e da Ipiranga, estão aumentando demais. Os carros estão ficando cada vez menos patrocinados. E menos americanos.

Até o Dennis Vitolo andava em um carro bem patrocinado

Os pilotos estrangeiros invadiram a Indy de vez. Em 2011, até que teremos um bom número de americanos correndo durante todo o ano, seis (Graham Rahal, Charlie Kimball, Danica Patrick, Marco Andretti, Ryan Hunter-Reay e JR Hildebrand). Em temporadas recentes, o número foi constantemente mais baixo. Se os estrangeiros que viessem ainda fossem crème de la crème como em outros tempos, ótimo. Mas a qualidade caiu demais. Pippa Mann e Simona de Silvestro, infelizmente, não significavam nada além de rostinhos bonitos (nem tanto, no caso da inglesa) na Europa. A Simona ainda fez um ano de estreia muito bom, mas ninguém queria saber dela no Velho Continente. Ernesto Viso, Mike Conway e Bertrand Baguette e Francesco Dracone também não eram as meninas dos olhos de ninguém. De uns sete anos para cá, infelizmente, o automobilismo de monopostos americano virou refúgio dos losers da Europa.

Todo mundo reclama da presença de pilotos pagantes na Fórmula 1, mas a coisa é bem pior na Indy. Na primeira, a enorme presença de pilotos endinheirados sempre foi uma constante, até porque a categoria é naturalmente caríssima. A Indy, por outro lado, sempre foi o destino dos desafortunados que queriam resolver seus problemas financeiros nos ovais. A situação, agora, é outra: são as equipes que buscam os pilotos pagantes. E não são somente as pequenas. Quem imaginaria ver a Newman-Haas e a Andretti buscando trazer gente que pudesse completar o orçamento? A situação destas duas é um claro sinal dos novos tempos.

Há várias explicações. Culpar a concorrência da NASCAR era bem válido até alguns anos atrás, mas a situação financeira de suas próprias equipes também já não é a mesma de primaveras mais vistosas. De qualquer jeito, se não houvesse a categoria das bolhas, as coisas não seriam tão difíceis. Eu preferiria apontar uma mudança cultural nas empresas após a crise de 2008. A verdade é que, depois da implosão das bolhas especulativas, as companhias ficaram bem mais cautelosas e conservadoras. E o patrocínio, como um todo, diminuiu para todos os esportes, já que ele é considerado, pelos tesoureiros, um “custo supérfluo”. Quem acaba salvando as contas são empresas cujo cuore é o marketing, como já foi o caso dos cigarros e como é o caso dos energéticos de latinha.

Então, se você quer ver aquele monte de empresas das listas da Forbes nos seus carrinhos ou se você quer que seu piloto preferido apareça com uma carteira de patrocinadores que apoiam seu talento, não vá com tanta sede ao pote. A Indy está em processo de recuperação, com nova gestão, novo carro e novas pistas. O orçamento é o mesmo de sempre, cerca de 20 milhões de dólares para as maiores equipes e menos de 10 milhões para as menores. Estes valores são mais ou menos os mesmos há mais de dez anos, e se considerarmos a inflação, podemos até concluir que os custos caíram de lá para cá. Se tudo vai dentro dos conformes, o que acontece? O caso é que patrocinar deixou de ser um bom negócio para as empresas. Os pagantes tenderão a dominar o automobilismo. E as histórias de Tony Kanaan e Jean-Karl Vernay mostram que, por toda aquela questão do american dream e da possibilidade de ganhar dinheiro com seu próprio esforço, a Indy é bem mais afetada por isso que qualquer outra categoria no mundo.

Daqui a alguns anos, não teremos pilotos brasileiros na Fórmula 1. Essa frase não foi dita por um fanfarrão como eu ou por um domingueiro qualquer. Quem a proferiu com austeridade foi Felipe Massa, piloto brasileiro que corre na Ferrari. Entrevistado pelo Estadão, Massa explicou que os pilotos brasileiros estão seguindo diretamente para as corridas de turismo e utilizou até mesmo uma superficial contradição econômica para ilustrar a mudança de mentalidade ao dizer que os pilotos brasileiros não vão mais para o exterior mesmo com o câmbio favorável, exatamente o contrário do que acontecia dez anos atrás.

O único argumento que pode ser utilizado contra Felipe Massa é o caráter cada vez mais internacionalizado dos grids da Fórmula 1. Há cada vez mais países presentes e cada vez menos pilotos por país, configurando quase uma Copa do Mundo de pilotos. Se não vamos mais ter três brasileiros no grid, também não teremos mais três britânicos ou seis alemães, já que todos dividirão espaço com chineses, indianos, filipinos, guatemaltecos e marcianos.

Descartando esse argumento, que é bastante lógico, hora de refletir um pouco.

Massa está basicamente certo. A possibilidade de não ter mais ninguém que tenha nascido entre o Oiapoque e o Chui correndo na Fórmula 1 daqui a alguns anos é considerável. Vou além: nem mesmo as categorias internas de turismo terão lá um futuro muito promissor. Qualquer coisa relacionada a automobilismo aqui dentro tenderá a sumir, ou no máximo se tornará uma iniciativa isolada e semiamadora. Da Fórmula 1 até o kart, estamos ferrados. E a culpa é de tudo. De todo mundo.

Comecemos por cima.

Temos atualmente dois brasileiros na Fórmula 1, Massa e Rubens Barrichello. Juntos, contabilizam 22 vitórias, três vice-campeonatos e dez temporadas na Ferrari, a equipe de maior prestígio do automobilismo. Mesmo dizendo que prefiro Barrichello a Massa com sobras, reconheço que ambos são pilotos de altíssima qualidade sob qualquer prisma. Qualquer país se sentiria lisonjeado por ser representado por um deles. Mas não o Brasil, eterna república exportadora de bananas e prostitutas.

Rubens e Massa são impiedosamente massacrados por uma mídia ignorante e sensacionalista e por torcedores estúpidos e imediatistas. Inicialmente, pelo terrível crime de não trazerem os títulos e as glórias que Senna trouxe ao país. Depois, por terem se curvado às ordens de equipe da Ferrari, que seria inimiga do Brasil. Argumentos infantis e idiotizados. São dois profissionais de competência reconhecida e de sucesso claro. Só que o brasileiro, inebriado pelo fenômeno messiânico de Ayrton Senna, é incapaz de reconhecê-lo.

Barrichello e Massa. Há futuro depois deles?

O resultado é claro. Reparem que nenhum deles conseguiu manter um patrocínio pessoal por muito tempo na Fórmula 1. Após o fim da parceria com a Arisco, Barrichello foi patrocinado pela Davene durante alguns poucos anos. Depois, ficou quase dez anos sem um patrocinador pessoal e só voltou a ter um em 2009, quando conseguiu o apoio da revista Caras. Já Massa teve (não sei se ainda tem) o pequeno apoio dos biscoitos Club Social. As empresas morrem de medo de se associar a pilotos com a imagem de perdedor. E quem faz a imagem? Mídia e torcedores. A culpa é deles. Minha. Sua.

Ao mesmo tempo, quantos pilotos se sentem estimulados a fazer uma carreira visando a Fórmula 1 se, mesmo vencendo corridas, serão chamados de perdedores no caso de não conseguirem um título? Qual é o incentivo que damos ao dizer que “depois de Senna, o Brasil nunca mais teve um piloto”? Qual é o incentivo que damos ao deixar de lado os medalhões Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, tão campeões como Senna? O caso é que o Brasil ainda não superou a perda de Ayrton Senna. Pois já é hora de começar a superar. Ninguém será Ayrton Senna e os pilotos não devem ser responsabilizados por isso. Mas as pessoas acham o contrário. A culpa é deles. Minha. Sua.

Do mesmo jeito que maltratamos nossos pilotos na Fórmula 1, ignoramos solenemente os pilotos brasileiros das outras categorias. Indy? Era coisa do Emerson e olhe lá. GP2, Fórmula 3, World Series? Várzea, pior que segunda divisão do Campeonato Acreano, na sempre persistente e burra comparação futebolística. Não fazemos o mínimo esforço para sequer acompanhar o pessoal que tentou uma carreira diferente nos Estados Unidos ou aqueles jovens que comem o pão que o diabo amassou para tentar subir à Fórmula 1 um dia. Falamos mal de Barrichello, Massa, Nelsinho e outros sem sequer pensar no que eles passaram antes de chegar ao topo do automobilismo.

Você, que fala mal das performances do Luiz Razia na GP2, já viu alguma corrida dele? Você já se preocupou em saber quem são César Ramos, Felipe Nasr ou Nicolas Costa? Eu tenho uma seção aqui destinada a pilotos brasileiros que ainda estão nas categorias de base, a “O futuro já começou”. Conta um pouco de suas carreiras e mostra até mesmo seus patrocinadores. E é uma das menos acessadas. Como diabos você quer ver algum tipo de renovação se ninguém, nem mesmo a porra da mídia especializada, se lembra que há moleques bons de volante e sem qualquer apoio nas categorias menores? A culpa é deles. Minha. Sua.

Luiz Razia. Falar mal de seu desempenho na GP2 é fácil. Mas alguém se dispõe a ajudar?

Aí você diz que eu entro em contradição, já que fui contra Bruno Senna na disputa pela vaga na Renault. E que pego no pé do cara. Meu problema com ele não é pessoal, muito pelo contrário. É inegável que as portas foram abertas com muito mais facilidade para ele do que para pilotos brasileiros bem mais talentosos. E que isso só aconteceu por causa do sobrenome. Me responda uma coisa: qual você acredita ser a reação de um jovem brasileiro que está abandonando a carreira porque sabe que só alguém com o sobrenome e os contatos de Bruno Senna terá alguma chance? Ou com o dinheiro de um desses pivetes que se aventuram por aí? E o que você acha do fato das empresas só apoiarem um piloto devido ao seu sobrenome ou aos bons contatos? Você, que acha normal a ascensão de Bruno Senna ou o sucesso de um Pedro Paulo Diniz, contribui com a decadência do automobilismo. A culpa é deles. Minha. Sua.

Chegamos no kart e no automobilismo brasileiro. Todos, e isso certamente me inclui, falam mal da Stock Car, da Fórmula Future, das categorias de turismo tomadas pelos milionários, do kartismo. Adoram descer o cacete na CBA, nas federações estaduais, na Vicar, nos jornalistas pelegos, em tudo aquilo que, de alguma forma, se relaciona diretamente com o esporte a motor aqui.

Mas o que os jornalistas e palpiteiros de oposição, e isso me inclui, estão fazendo para melhorar? Bosta nenhuma. Não utilizam seu poder de influência para mobilizar os fãs, não protestam, não peitam a turma que está mandando, não fazem picas. Só ficam confortavelmente instalados em suas cadeiras giratórias escrevendo, tomando café da Starbucks e garantindo sua audiência. Isso porque falo daqueles que, definitivamente, não estão do lado do sistema. Dispenso comentários sobre os jornalistas pelegos, aqueles que acham que está tudo bem. São apenas parte da podridão e merecem meu desprezo. A culpa é deles. Minha. Sua.

Com isso, quero dizer que as categorias estão às mil maravilhas? Claro que não. O automobilismo brasileiro está morto. Falido. Corroído por gestões péssimas, para não dizer o mínimo. Não consigo sequer garantir a idoneidade da dinheirama que gira nesse meio. A CBA não faz nada, as federações estaduais só emitem carteirinhas e não promovem porcaria nenhuma, o kartismo é uma panelinha e as categorias principais só sobrevivem porque há uma pequena turma de endinheirados que precisa enfiar seu dinheiro em algum lugar. A maior parte dos poucos pilotos brasileiros que estão no exterior nunca precisou desse amontoado de lixo daqui. E espero que nenhum deles tenha a indecência e o cinismo de agradecer ao automobilismo brasileiro pelas suas conquistas.

Kart. Tem salvação?

Quem comanda tudo isso aí? Pessoas. O que quero dizer com essa terrível obviedade? Que os chefões do imberbe automobilismo brasileiro são gente como a gente. Que, um dia, também já deve ter se revoltado com as mesmas coisas que nós. Todos falamos mal deles, mas garanto uma coisa: a esmagadora maioria faria igual. Quem aí, estando na presidência de uma federação qualquer, não faria de tudo para encher seus bolsos? Eu não sou hipócrita e afirmo que não me garantiria. E por um motivo: o poder. Todo o esquema o obriga a deixar de lado os bons costumes e a fazer parte das tramoias. Sobreviver em um meio asqueroso desses significa participar de tudo. Por isso que sigo escrevendo. Ao menos aqui, meu caráter segue intocado.

Mas por que a gestão do automobilismo brasileiro é assim? Porque o brasileiro é, por natureza, um povo de caráter duvidoso, inteligência abaixo da média e egoísmo latente. Somos e merecemos ser subdesenvolvidos, pois preferimos colocar nossos valores e nossas necessidades pessoais à frente de um bem comum. A CBA, e também a CBF e todos os órgãos que envolvem um mínimo de política nesse país, são apenas uma representação institucionalizada explícita de nosso comportamento. L’êtat, c’est moi. A culpa é deles. Minha. Sua.

Aí você tende a por a culpa na Globo, que não apoia os pilotos brasileiros. Mas como ela poderia se, por exemplo, a audiência da Stock Car, que é a categoria mais conhecida e mais prestigiada do país, é tão baixa que a emissora platinada perdia feio para a Record? Como ela vai dar alguma atenção se a demanda por automobilismo é baixa? A Globo, uma empresa, só cumpre as leis da oferta e da demanda. Ela realmente é oportunista e não está preocupada em desenvolver uma nova geração de pilotos, mas quem disse que é sua obrigação? Por acaso, a BBC faz alguma coisa pra ajudar os pilotos ingleses? Mais uma vez, se nós realmente não damos a importância que achamos que o automobilismo merece, nada irá acontecer e a mídia popular seguirá marginalizando o esporte a motor. A culpa é deles. Minha. Sua.

Eu poderia me estender bem mais para mostrar os inúmeros fatores que levaram o automobilismo brasileiro e seus pilotos ao buraco que estão. Mas não quero torrar muito mais tempo e nem arranjar possíveis confusões. O fato é que está tudo errado. Pilotos, dirigentes, categorias, empresas, jornalistas, eles, tu, eu.

É incrível como um único fim de semana pode mudar a vida de uma pessoa. Até a semana passada, dois pilotos eram completos zeros à esquerda na escala de importância da humanidade. Um deles, helvético, estava deitado em seu confortável chalé na pequena Vandoeuvres tomando uma cerveja Feldschlösschen, comendo uns amendoins e esperando por uma oportunidade que caísse do céu. O outro, americano do primitivo estado do Tennessee, é um moleque que estava se preparando para fazer sua segunda corrida na categoria mais importante do automobilismo americano. Pois não é que, cada um ao seu modo, eles viraram o centro das atenções?

Nunca falei dos dois por aqui. Na verdade, nunca achei que faria isso. E acho que nunca mais voltarei a fazê-lo. Conheço o primeiro desde 2005, ano em que fez algumas etapas na temporada inicial da GP2. Só tomei conhecimento do segundo no ano passado, ao ver trechos (Deus me livre de ver uma corrida inteira) de algumas etapas da NASCAR Nationwide Series, a GP2 da NASCAR. O primeiro nunca me encheu os olhos. O segundo parecia bom, mas era ofuscado em um campeonato dominado por pilotos da Sprint Cup.

Falo de Giorgio Mondini e Trevor Bayne. Você conhecia algum deles até este fim de semana? Se é um sujeito com boa memória e fanatismo patológico por Fórmula 1, talvez se lembrará de Mondini, piloto de testes da finada MF1 em 2006. Caso contrário, é apenas mais um nome reject a ser ridicularizado por sua persona. Bayne, por outro lado, será lembrado por aqueles entediados que se dispõem a acompanhar algumas etapas da Nationwide Series no Speed. Em 2010, ele terminou o ano em sétimo. À sua frente, cinco pilotos da divisão principal e Justin Allgaier, sujeito para quem torci à distância. Felipe Giacomelli, o cara que acompanha até mesmo a Fórmula Renault turcomena, crê que Trevor foi a única coisa realmente boa da Nationwide em 2010.

Na semana passada, discutiu-se muito a respeito de quem andaria na Hispania ao lado do indiano Narain Karthikeyan. Colin Kolles, o dentista que não entende muito de carro, disse que três ex-pilotos de Fórmula 1 andariam em Barcelona. O primeiro, tudo bem, era Karthikeyan. O segundo, sem surpreender muita gente, seria Vitantonio Liuzzi, defenestrado da Force India. O terceiro era o mistério maior. Christian Klien? Sakon Yamamoto? Christijan Albers? Yuji Ide? Mauricio Gugelmin? Jean-Pierre Beltoise? Não. Erramos todos. A Hispania, sempre pronta a pregar uma peça, trouxe das catacumbas dos Alpes o suíço Giorgio Mondini, de 30 anos.

Giorgio Mondini testando o MF1 em Indianápolis/2006

Mondini nunca foi lá o melhor piloto do mundo. Nem da Europa. Nem da Suíça. Quiçá, nem mesmo de Vandoeuvres. Seu maior feito foi vencer a Fórmula Renault V6 em 2004, batendo Ryan Sharp, Andrea Belicchi e Neel Jani. Em 2005, fez algumas corridas na GP2 e na A1. Na GP2, só consigo me lembrar da porrada que ele deu na Radillon na encharcada Sprint Race em Spa-Francorchamps. Na A1, defendendo as cores suíças, também não fez nada. Por isso, todo mundo ficou surpreso com sua contratação para pilotar o MF1 em alguns treinos de sexta-feira na temporada 2006 da Fórmula 1.

Naquele ano, a MF1 foi um verdadeiro cabide de empregos, pondo pra testar também Adrian Sutil, Markus Winkelhock, Alexandre Premat e Ernesto Viso. Giorgio andou em nove dos dezoito treinos e até conseguiu ficar em quinto na segunda sessão dos treinos livres do GP dos Estados Unidos, batendo Michael Schumacher e Fernando Alonso. No entanto, não fez mais nada que o credenciasse a uma vaga de titular. Em 2007, correu em campeonatos de GT e na World Series by Renault e não conseguiu sequer completar a temporada em lugar algum. Em 2008, ficou em casa. Em 2009, fez três corridas da Le Mans Series. Em 2010, voltou a ficar em casa. Não entendo como a Hispania aceita colocar para correr um cara cuja carreira é tão errática. É difícil falar em motivações financeiras, já que Mondini não tinha dinheiro sequer para um ano completo na GP2.

Em Barcelona, Giorgio Mondini fez 26 voltas com o F110 utilizado pela Hispania no ano passado. Sua melhor marca foi 1m31s584, seis décimos mais lenta que a do Virgin de Jerôme D’Ambrosio. No mesmo dia, Vitantonio Liuzzi também testou pela HRT e fez 1m27s044. Não é necessário ser gênio para perceber que Mondini não tem condições para estar na Fórmula 1. Colin Kolles, que disse ter ficado muito satisfeito com seu desempenho, não é (muito) burro e deve ter consciência de que, na verdade, o cara é bem limitado. Como não acredito que a Hispania irá contratá-lo, creio que este teste em Barcelona foi a última experiência do suíço na Fórmula 1. Mas deve ter sido bacana para ele. Em uma pré-temporada das mais desinteressantes da história, até mesmo um sujeito como Giorgio Mondini consegue ter seus quinze minutos de fama.

Do outro lado do Atlântico, Trevor Bayne foi o herói nacional do fim de semana. Com apenas 20 anos de idade e uma única e estúpida corrida de Sprint Cup em 2010 no currículo, Bayne surpreendeu a todos e papou a Daytona 500, corrida mais importante de todo o extenso calendário da NASCAR. Enquanto alguns astros davam adeus à disputa naquele big one do começo da corrida, outros padeciam com problemas e todos faziam de tudo para encontrar seu parzinho, Bayne dirigiu como gente grande, segurou a pressão de Carl Edwards no final e venceu.

Apesar de não ter sido tão legal como em outras edições, esta edição da Daytona 500 foi uma das mais movimentadas da história. Trocas de líderes, pilotos alternando entre céu e inferno, erros e batidas edulcoraram esta que é, ao lado das 500 Milhas de Indianápolis, a corrida mais importante dos EUA. Pode-se dizer que qualquer um poderia ter vencido, tanto que até mesmo zebras como os David Ragan e Gilliland estavam no páreo pela vitória no final. O imponderável salvou uma prova marcada pelo novo asfalto de Daytona, que eliminou as tradicionais e divertidas ondulações, e pela interação por pares, técnica feita para ganhar velocidade. Ô coisa irritante…

Trevor Bayne, the american hero

Em um 2010 árido em termos de revelações, Bayne é um alento. Sua primeira temporada completa na Nationwide Series foi bem expressiva e, apesar de não ter conseguido vencer nenhuma corrida, fez quatro poles e deixou imagem bem melhor do que a de Justin Allgaier, o melhor piloto da temporada a não correr também na Sprint Cup. Allgaier até conseguiu vencer uma corrida, muito mais devido à boa estrutura da Penske do que ao seu talento nato. Trevor, por outro lado, demonstrou combatividade e brigou de igual para igual contra adversários bem mais experientes. Como recompensa, ganhou uma vaga na Wood Brothers para fazer 17 etapas nesse ano. E já venceu uma. Parece ter futuro, não?

Nesse ano, Bayne seguirá na categoria de acesso para ganhar o título. Após ver pilotos da Sprint Cup dominando as últimas temporadas da Natiowide Series, a NASCAR decidiu restringir a marcação de pontos e a briga pelo título em apenas um único campeonato. Quem quiser correr em dois ou três terá de escolher um único para marcar pontos. Com isso, Bayne, que optou pela Nationwide Series, não contabilizará os pontos da vitória em Daytona. Mas entrará como favorito ao título de sua categoria escolhida, tendo medalhões da Sprint Cup correndo contra ou não.

E o que uma vitória em Daytona não faz, hein? Trevor Bayne e sua equipe estiveram entre as expressões mais comentadas no Twitter mundial na última noite. E vocês sabem como é o automobilismo nos Estados Unidos. Além de embolsar uma bolada, Bayne aparecerá em fotos, revistas, jornais, programas de entrevista e, quem sabe, no Dancing with Stars. Uma vitória em Daytona realmente transforma um Clark Kent em um Superman.

À sua maneira, cada um deles esteve no topo do mundo. Um deles, embora não tenha vencido nada, obteve uma vitória pessoal ao conseguir dirigir um carro de Fórmula 1 após ter sua carreira praticamente interrompida. O outro remou contra a maré e venceu a corrida mais importante de sua categoria. Hoje em dia, dá pra dizer que Giorgio Mondini e Trevor Bayne estão satisfeitos. O que importa é cultivar o nosso jardim, dizia o filósofo.

Foto tirada pelo piloto holandês Giedo van der Garde, da Addax, da janela de seu hotel, em Manama

Pois é, não tem mais GP2 Asia nesse fim de semana. Agora pouco, a Federação de Automobilismo do Bahrein, tão importante como um Ministério da Agricultura em Cingapura, anunciou que a rodada dupla a ser realizada no autódromo de Sakhir, segunda dessa temporada, foi cancelada por motivos de força maior. Os tais motivos de força maior são óbvios: a revolta do povo, que exigia reformas econômicas, políticas e o fim das diferenças institucionais entre sunitas e xiitas. O governo barenita, sempre amigável e disposto a conversar, tentou pacificar a situação com tanques de guerra e bombas de gás lacrimogênio. É óbvio que não funcionou.

Há dois dias, escrevi um memorando sobre a situação árabe, as consequências que a revolta no Bahrein poderia trazer para o automobilismo e a desfaçatez de Bernie Ecclestone em ignorar solenemente o que se passa fora dos autódromos. Naquele momento, eu achava que as manifestações não chegariam a um ponto extremo e que haveria corrida de GP2. Como sempre, estava completamente errado. Depois da Tunísia e do Egito, as atenções da mídia se voltaram para o pequeno país insular.

Por isso, volto a falar no assunto. Dessa vez, com outro enfoque. Temos vinte corridas realizadas em dezenove países no calendário atual, além de outros tantos países querendo sediar etapas.

O automobilismo é um esporte dos mais inúteis. Qualquer assunto é mais importante do que este, mesmo para uma pessoa que quer arranjar um emprego lá no meio, como é o meu caso. Na verdade, o esporte em si é inútil perante outras áreas, como a economia e a política. Durante a Segunda Guerra Mundial, campeonatos de futebol, olimpíadas e corridas foram sumariamente deixados de lado. Em meados dos anos 70, devido ao aumento brusco dos preços do petróleo estabelecido pelo cartel da OPEP em 1973, a prática do automobilismo chegou a ser proibida no Brasil. E muito se falou, naquela época, sobre o fim do esporte a motor como um todo no mundo ocidental.  

Jenson Button em Abu Dhabi: lá dentro, tudo lindo; lá fora...

Com Bernie Ecclestone, no entanto, a Fórmula 1 se transformou em um eldorado isento das nuances do mundo exterior. Faça chuva ou faça sol, com ou sem crise, com ou sem estouros de bolhas especulativas, crashes, guerras, crises políticas, incongruências jurídicas, violência e toda a sorte de problemas, haverá Fórmula 1 onde, como e quando o pequeno judeu quiser. Vale dizer: só ele e a estrutura do seu esportezinho está protegida, já que equipes, pilotos e patrocinadores continuam vulneráveis à história do mundo real. Se a economia inglesa quebrar, as equipes locais estão fodidas. Se a economia alemã for pro saco, a Mercedes repensa sua participação na mesma hora. Se os espanhóis se afundarem, como quase aconteceu alguns meses atrás, Santander, Hispania e os seus dois grandes prêmios dançam. Mas a Fórmula 1 segue incólume.

No texto que escrevi há dois dias, falei sobre a sanha de Ecclestone em buscar as tais “economias emergentes”, aquelas que estão crescendo rapidamente nos últimos dez anos e ameaçando a tal “supremacia ocidental judaico-cristã do Hemisfério Norte”. Por mais que elas cresçam, apareçam na Forbes e se tornem casos a serem estudados em cursos de Economia, continuam sendo aquilo que sempre foram: países miseráveis e instáveis comandados por governos tiranos, enlouquecidos e desinteressados pelas mazelas do povo. Há dez ou quinze anos, quem comandava o calendário da Fórmula 1 eram os países ricos. As exceções eram Brasil, Argentina, Malásia e talvez a Hungria. Quer dizer, por mais problemas que venham a ter, nenhum desses países nos dias atuais é um problema em si.

Hoje em dia, a situação é outra. Listo os países problemáticos que constam no calendário:

BAHREIN: Está aí para todos verem. Economia combalida com relação aos vizinhos, governo sunita que beneficia sua denominação minoritária e ignora a maioria xiita, liberdade de expressão e liberdade política restritas.

CHINA: Uma metástase. Economia que cresce artificialmente, à base de câmbio artificialmente desvalorizado, exportações de produtos de baixa qualidade, desrespeito ao meio-ambiente e regime de semiescravidão. O governo é comandado pelo Partido Comunista, único partido do país. Liberdade nula de expressão e de imprensa. Movimentos fortes de independência no Tibete e no Uiguristão. Maior exército do mundo, com sobras. De fato, um câncer em metástase. Se realmente se tornar o país mais poderoso do mundo, é melhor que um meteoro venha e destrua o planeta.

TURQUIA: Apesar de ser uma economia em franca expansão, de tudo ser muito bonito e de haver democracia, as influências das vertentes mais totalitárias do islamismo ainda são fortes. As mulheres, apesar de mais livres do que em alguns países vizinhos, ainda estão longe de ter todos os direitos básicos. A liberdade de imprensa é restrita e a corrupção rola solta lá nos altos escalões do governo. Os juros estão entre os mais altos do mundo. Mas a questão mais delicada é a dos curdos, minoria étnica que luta pela independência e que é sumariamente maltratada pelo governo.

CINGAPURA: O país, olhando por fora, é sensacional. Prédios belíssimos (mas não muito altos, já que a lei proíbe), economia poderosa, tecnologia saindo pelo ladrão e povo muito bem educado. Mas o governo é bastante autoritário e as leis são rigorosíssimas. Não me furto em dizer que, nesse sentido, é o país mais coercitivo do mundo.

CORÉIA DO SUL: É outro país excelente para se viver, com skylines altíssimas, tecnologia de ponta, uma das melhores educações do mundo, corpo político sólido e respeito por parte dos ocidentais. Mas há uma Coréia do Norte logo acima, gerida por um ditador esquizofrênico e oligofrênico que não tem o menor compromisso com a sensatez ou com o bom convívio. No ano passado, pouco tempo antes da corrida, os militares de seu Kim Jong-Il afundaram um navio de guerra sul-coreano, matando 46 tripulantes. Uma guerra é algo sempre iminente.

ÍNDIA: A economia cresce a taxas galopantes, mas o restante do país é deplorável. As relações sociais ainda são definidas por castas: rico não se mete com pobre e vice-versa, como acontecia naquela novela da Globo. Os indianos ganham muito pouco e ainda migram para outros países, aceitando ganhar bem menos que outros profissionais e causando uma espécie de dumping salarial. As grandes cidades do país são uma sujeira que só elas. Não há políticas de contenção de crescimento demográfico, e especialistas dizem que é uma questão de tempo para o país ultrapassar a China como o mais populoso do mundo. Para piorar, há um conflito eterno com o Paquistão pela região da Caxemira que pode descambar para uma guerra nuclear entre os dois países, portadores da bomba atômica.

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS: É um desses países ilusórios que se sustentam com suas intermináveis reservas de petróleo. Suas duas jóias, Dubai e Abu Dhabi, são cidades imponentes e modernas que atraem abastados de todo o mundo. Por fora, bela viola… Por dentro, aquele autoritarismo típico de países que levam a Sharia, o código de leis islâmico, ao pé da letra. Além disso, é um país ridiculamente desigual: se você acha que só existem as duas grandes cidades, sheiks bilionários e ocidentais esbanjadores, está enganadíssimo. Há um povo bem sofrido e bem esquecido nas demais regiões.

Nova Délhi, capital da Índia: é pra lá que a Fórmula 1 vai no final do ano

Eu poderia falar também do Brasil e de seus costumeiros problemas sociais ou da combalida economia espanhola, mas prefiro me ater ao período expansionista da Fórmula 1. Basicamente todos os países novos que entraram no calendário desde 2004 são extremamente problemáticos. Endinheirados, mas problemáticos. Tudo bem que Bernie Ecclestone só fala a língua monetária, mas a tendência paradoxal é esta: seu esporte, por mais que tente se isolar em seu mundinho, estará cada vez mais vulnerável aos absurdos destes países. O episódio da GP2 Asia pode ter sido só a ponta do iceberg.

E há outros países duvidosos querendo entrar no calendário. A Rússia quer ter uma corrida em Sochi daqui a alguns anos. O que ela tem grande, tem de problemática. Conflitos étnicos (Chechênia, Ossétia do Norte e Daguestão), política feita por baixo dos tapetes, intimidações a jornalistas opositores, crime organizado fortíssimo, enormes problemas sociais e um presidente-marionete comandado pelo mafioso ex-comunista Vladimir Putin. O Cazaquistão do ditador Nursultan Nazarbayev também já chegou a pleitear uma corrida. O Vietnã, regime totalitário e obscuro comandado por militares comunistas, também. Bernie Ecclestone é aberto a conversas com todos. Quem pagar, leva. E quem acaba sobrando são corridas como a belga, a inglesa, a francesa, a alemã, todas realizadas em pistas históricas e em países bons.

Bernie ainda sorri porque a grana entra. Mas quero ver o dia em que houver um bombardeio durante um GP asiático qualquer. Podem matar os pilotos, os mecânicos e os espectadores que ele não liga. Podem matar suas duas filhas que ele não liga. Podem matar sua namorada brasileira que ele não liga. Podem matá-lo, mas ele também não liga. O problema é que sobra pra sua carteira e pros seus cartões de crédito também. Aí ele chora.

Red Bull: ninguém sabe quanto ela gasta exatamente. O que se sabe é que ela gasta pra caramba

Na Fórmula 1 atual, não basta ser a melhor equipe. Ela tem de ser a melhor gastando pouco. É uma constatação que soa absolutamente primária, quase idiota. Mas não é, muito pelo contrário. Na verdade, a questão dos custos é uma das maiores contradições da categoria atualmente.

Nos últimos tempos, circularam alguns boatos sobre um possível patamar de gastos acima do recomendável por parte da Red Bull. A título de informação, as equipes assinaram, no ano passado, o Acordo de Restrição de Recursos, que delimita uma espécie de teto orçamentário entre os participantes. O objetivo é claro: conter a escalada de custos, fenômeno iniciado há cerca de 25 anos e que chegou a um patamar insustentável na década passada.

Esse acordo, cuja sigla em inglês é RRA, não tem caráter coercitivo. Assina quem quer e cumpre quem tiver um mínimo comprometimento com uma ideia que visa a sobrevivência e a sustentabilidade da categoria a médio prazo. Segundo os tais boatos supracitados, a Red Bull, signatária do acordo, simplesmente o deixou de lado e gastou bem mais que o combinado, algo em torno de 450 milhões de dólares. Os boatos teriam ganhado força após a equipe se mostrar favorável a um aumento do patamar acordado.

Ontem, Dietrich Mateschitz, dono da Red Bull, disse que houve um mal-entendido gerado por um jornalista alemão, que teria contabilizado como um só os gastos somados da Red Bull Racing, da Scuderia Toro Rosso e da Red Bull Technologies. Segundo Mateschitz, a equipe teria tido apenas o quarto maior orçamento da categoria em 2010, perdendo para as gigantes Ferrari, McLaren e Mercedes. Faz sentido, já que a mídia havia divulgado a informação de que quem gastava mais era a tradicional equipe italiana, com valores entre 350 e 400 milhões de dólares. A Red Bull diz que gastou oficialmente 216 milhões de dólares, embora algumas fontes apontem para 310 milhões. Olhando esses números, você vê que os boatos devem ter sido plantados por algum ferrarista empedernido.

McLaren: as concorrentes reclamavam porque ela gastava em 1988 o equivalente a 100 milhões de dólares hoje em dia...

Até aí, tudo bem. Mas um indivíduo chato e crítico como eu não poderia deixar passar despercebido um detalhe. Mesmo com o tal Acordo de Restrição de Recursos, a categoria segue caríssima e inacessível. As equipes médias não conseguem completar seus orçamentos e são obrigadas a recorrer a pilotos pagantes numa situação sem precedentes. E as equipes pequenas, coitadas, nem sabem o que serão delas amanhã. Na melhor das hipóteses, um lavador de dinheiro de algum país obscuro acaba tomando conta. Na pior, não haverá amanhã. E até mesmo as grandes já não respiram dinheiro como outrora. O que está acontecendo?

Em primeiro lugar, é bom que se fique claro: com ou sem teto, a Fórmula 1 ainda é um dos esportes mais caros do mundo. Ridicularizar a Hispania por gastar “meros” 52 milhões de dólares em um único ano é abraçar a irrealidade, é acreditar que apenas bilionários de outro planeta podem participar do esporte. José Ramón Carabante, dono da equipe, é um dos magnatas do emergente mercado imobiliário espanhol. Se tá difícil pra ele, imagine pros outros.

Ainda mais irreal é achar que a Ferrari ou a Red Bull é que estão certas e que o patamar financeiro delas é absolutamente normal e aceitável para uma categoria que se diz a mais importante do automobilismo. Como dito acima, a Ferrari gasta algo entre 350 e 400 milhões de dólares. Esta quantia ainda é bem menor do que os gastos de grandes times de futebol como o Real Madrid (575 milhões de dólares) e o Barcelona (540 milhões). Mas aí há uma diferença enorme. Os times gastam fortunas montando verdadeiros dream teams e mantendo estruturas imensas. Não por acaso, possuem torcida global e são vistos como os maiores do mundo, inigualáveis. Não podem ser tratados como o padrão, portanto. E o faturamento costuma ser bastante compensador. Somando contratos de patrocínio, vendas de souvenires e direitos de transmissão, o Real fatura 592 milhões e o Barça fatura 537 milhões. Quem pode se gabar de faturar tanto assim na Fórmula 1? Talvez a Ferrari, mas há quem diga que a Fiat é que mantém a brincadeira. Como disse certa vez Giacomo Caliri, chefe de mecânicos da Minardi, “isso daqui (a Fórmula 1) é paixão, apenas. Não há lucros”.

Alguns podem até achar absurdo quando eu falo que as equipes, no geral, não conseguem faturar tanto quanto gastam. Mas a verdade, infelizmente, é essa aí. E não pensem que é algo recente. A esmagadora maioria das equipes que já passaram pela Fórmula 1 trabalhava no vermelho, dependendo da salvação de montadoras e patrocinadores ou, em tempos mais recentes, de Bernie Ecclestone. A BAR perdeu nada menos que 300 milhões de dólares em seus cinco primeiros anos de existência. A Williams perdeu 88 milhões de dólares entre 2007 e 2008. A Force India vem perdendo cada vez mais dinheiro a cada ano que passa e os auditores fiscais ingleses estão sempre de olho.

Toyota: símbolo dos tempos desproporcionalmente caros

Quando não há prejuízos enormes, as equipes conseguem, no máximo, lucros marginais. A Toro Rosso teve um felicíssimo 2008, vencendo uma corrida e terminando o ano no azul. Sabe quanto foi o montante lucrado? 720 mil dólares. Embora a pequena equipe italiana tenha um dos menores orçamentos da categoria, convenhamos: é um lucro irrisório em se tratando de uma categoria global e bilhardaria como é a Fórmula 1.

Quer dizer, as equipes não conseguem fazer da Fórmula 1 algo realmente lucrativo. Mas a contradição maior, que é também o tema do post de hoje, é a seguinte: como as equipes reduzem cada vez mais seus gastos e, ao mesmo tempo, apresentam cada vez mais problemas financeiros? Será que os gastos estão sendo realmente reduzidos?

A resposta é: não exatamente. O que aconteceu, no máximo, foi a diminuição do exagero e da putaria que vigoravam na Fórmula 1 até uns quatro ou cinco anos atrás. Naquela época, dominada por montadoras, os orçamentos ultrapassavam facilmente os 500 milhões de dólares. Houve um ano que a Toyota, símbolo máximo dos dias perdulários da categoria, gastou nada menos que 900 milhões de dólares. Em 2008, cinco das onze equipes (Ferrari, McLaren, Toyota, Renault e Honda) gastaram, no mínimo, 400 milhões de dólares. Fazer o patamar cair de 400 para 300 milhões é, de fato, uma conquista notável em termos relativos. Mas não se enganem: 300 milhões de dólares por ano continuam sendo uma quantia exageradamente alta. A Fórmula 1 não precisa disso.

Exemplos? A Benetton gastou meros 14 milhões de dólares para ser campeã do mundo em 1994. Em valores atuais, isso dá 20 milhões de dólares, menos que a metade da quantia que a Hispania gasta para passar vergonha. Em 1988, a McLaren gastou mais de 50 milhões de dólares em sua campanha de 15 vitórias em 16 corridas. Em valores atuais, isso dá quase 100 milhões de dólares. E as demais equipes reclamavam que ela estava elevando os patamares financeiros a valores insustentáveis…

Benetton: campeã em 1994 com 14 milhões de dólares

Só que há outra coisa a ser considerada. Com 14 ou 50 milhões de dólares, Benetton e McLaren conseguiam manter um staff aceitável, motorhomes, muitos testes, motores e pneus especiais, alterações periódicas em seus carros, muitos chassis e contratos com pilotos de alto nível. Hoje em dia, há limitações severas no uso de motores e pneus, os testes foram praticamente banidos, os motorhomes são limitados em tamanho, as horas de uso do túnel de vento são limitadas por regulamento, o carro reserva está banido e o desenvolvimento de motores é congelado por alguns anos. Em uma categoria tão limitada, como é que as equipes gastam tão mais do que em tempos mais livres?

A resposta é pura especulação. Para começar, a logística foi o fator que mais encareceu nos últimos anos. Até 10 anos atrás, a Fórmula 1 realizava no máximo 17 corridas por ano. As pistas eram quase todas localizadas na Europa, com breves escapadas para a América do Norte, o Brasil, o Japão e a Austrália. Hoje em dia, com mais da metade das 20 corridas sendo realizada no amplo e distante continente asiático, as expensas com aviões e navios se multiplicaram. Não dá pra fazer tudo com caminhões e motorhomes como em outros tempos.

Na verdade, os testes foram reduzidos exatamente para que o calendário pudesse ser aumentado e para que os gastos inicialmente destinados a eles pudessem ser transferidos para as novas corridas asiáticas. Mas não é só isso. Os salários aumentaram demais, tanto de pilotos como do restante do pessoal das equipes. As mudanças anuais de regulamentos também representam enormes gastos em pesquisa e desenvolvimento. E o regulamento cada vez mais restrito faz com que as equipes gastem milhões de dólares em minúsculas inovações em uma asinha ali ou em uma entrada de ar acolá. Em resumo, reduziram em quantidade para aumentar em aperfeiçoamento e em corridas distantes. O que não melhorou as coisas.

Portanto, se você ainda acha que equipes como Hispania e Virgin devem ser eliminadas segundo um darwinismo inconsequente que prega que só deve sobreviver quem puder gastar o máximo possível e se você também acha que não há o menor problema em ver uma Ferrari ou uma Red Bull gastando mais de 300 milhões de dólares por um único ano, reveja seus conceitos. É gente com a sua mentalidade que faz com que as equipes estejam morrendo de medo do amanhã. Que faz com que a conta não feche.

Manifestantes fugindo de bomba de lacrimogênio no Bahrein: é o mundo árabe em ebulição política

Hoje, vou misturar alguns assuntos que me interessam bastante. Mais precisamente, geopolítica, autismo político e automobilismo.

Nesses últimos tempos, uma onda de protestos e rebeliões abateu diversos países da África Islâmica e do Oriente Médio. Todos estes movimentos são movidos por pura revolta de seus povos contra os desmandos de seus líderes políticos, sujeitos corruptos que estão em suas confortáveis posições há muitos anos, muitas vezes escarrando sobre o caro conceito de democracia. O primeiro foco de manifestações surgiu na Tunísia no dia 17 de dezembro de 2010, quando milhares de pessoas se reuniram em Túnis para gritar contra os altíssimos níveis de desemprego, inflação e corrupção. Após quase um mês de duras retaliações por parte do governo, centenas de mortes e caos, a vitória: o presidente Zine El Abidine Bem Ali, que estava em seu 24º ano de governo, pôs-se em retirada.

O interessante é que a vitória tunisiana inspirou uma série de povos de diversos países islâmicos a fazer o mesmo. Argelinos, mauritanos, sudaneses, omanis, sírios, marroquinos, iemenitas, iranianos e outros sete povos bradaram contra os intermináveis problemas políticos e econômicos de suas nações, mas o destaque maior vai para a situação egípcia, largamente noticiada na mídia mundial.

Em 20 dias, um levante de quase um milhão de pessoas conseguiu mandar às favas o presidente Hosni Mubarak, 82 anos de idade e 30 de poder ilimitado. A listinha de motivos para o expurgo era considerável: abuso de decretos emergenciais, polícia repressiva, liberdade de expressão suprimida, ausência de eleições, corrupção desmedida, desemprego, alta nos preços dos alimentos e baixos salários. O fim do domínio de Mubarak trará novos horizontes para o Egito. Horizontes positivos? Impossível dizer, ainda mais sabendo que a obscura Irmandade Muçulmana, facção que originou a Al-Qaeda, é uma das favoritas nas pesquisas ligadas ao pleito que será realizado nos próximos meses. O que importa é que o Egito vinha precisando de um pouco de ar fresco.

E o automobilismo? O que tem a ver com isso?

Sakhir, circuito barenita. Será que vai ter corrida por lá?

O Bahrein, país que ganhou destaque ao receber diversas corridas automobilísticas, é um desses países onde povo e governo se enfrentam, ainda que sem a magnitude de Egito e Tunísia. O início das manifestações se deu no dia 4 de fevereiro, quando centenas de pessoas se reuniram pacificamente na frente da embaixada egípcia em Manama, capital barenita, para prestar solidariedade ao povo egípcio. Dias depois, via internet, manifestantes decidiram iniciar um enorme protesto contra os problemas de seu próprio país. O dia escolhido foi 14 de fevereiro de 2011, exatos dez anos após o referendo que sacramentou o pequeno país insular como uma monarquia constitucional. Este seria o anger day, o dia de fúria do povo.

E assim foi feito. Ontem, dia 14, milhares de barenitas foram às ruas para reclamar sobre a situação econômica e legislativa do país. O governo, assim como nos demais, revidou com tropas de choque e helicópteros. Um manifestante foi morto e outro ficou gravemente ferido. Contrariando o lamentável preconceito gratuito contra muçulmanos, os barenitas são considerados um povo pacífico a amigável. Os protestos foram bem mais amenos do que o que foi visto nos demais países revoltosos. Ninguém sequer considerava retirar do poder o rei Hamad ibn Ibsa Al Khalifa, coroado em 2002.

Primeiro país a comercializar petróleo no Golfo Pérsico, o Bahrein é uma ilhota cuja imagem é bastante positiva: seu IDH de 0,801 é considerado altíssimo e sua renda per capita é de 27.214 dólares. Segundo índices de liberdade econômica, o país é o mais liberal e adequado para negócios entre todos do Oriente Médio. A capital, Manama, é uma moderna e próspera cidade de apenas 160.000 habitantes.  E ao contrário de boa parte de seus vizinhos, os costumes são relativamente liberais: as mulheres podem dirigir e se vestir do jeito que quiserem, há liberdade religiosa garantida por lei, festas e boates são totalmente permitidas e o consumo de álcool é permitido desde que feito dentro de recinto. O lado bom, porém, termina por aí.

Em termos econômicos, o Bahrein ainda perde para seus vizinhos Catar e Emirados Árabes Unidos. O desemprego se encontra em torno dos 15%, situação até pior do que no Egito e na Tunísia. A inflação é de 7%, patamar não exatamente baixo. A especulação imobiliária, fenômeno típico desses países que flutuam em petróleo farto, levou a uma disparada nos preços das habitações. E os salários são os mais baixos entre os pequenos países do Oriente Médio. Um povo bem informado e não conformista como é o barenita deve obviamente se indignar com essa situação. Mas a encrenca é mais abaixo e envolve as duas denominações islâmicas que coabitam o país, os xiitas e os sunitas.

Quando nós queremos dizer que alguém é radical demais, dizemos que ele é xiita. Coitados dos xiitas, pois. Saddam Hussein e a história mostraram que os sunitas mereciam, no mínimo, ter a mesma fama. É evidente que, lá no fundo, muçulmano nenhum merecia a fama de intolerante, mas o que vemos em todo o mundo árabe é uma perseguição de gato e rato entre os dois lados. No Bahrein, os xiitas representam cerca de 70%, mas não mandam em quase nada lá. O rei Al Khalifa é sunita, assim como a esmagadora maioria do corpo político, militar, econômico e legislativo do país. Não por acaso, as leis favorecem os sunitas de maneira gritante e os xiitas são marginalizados em vários aspectos, em especial na participação política. Os protestos do povão majoritariamente xiita pedem por uma equalização geral entre as duas denominações. Nada de sair por aí beneficiando sunita e deixando os xiitas de lado, é o que a voz do povo pede.

OK, mas o que diabos o automobilismo tem a ver com isso?

Kyalami, anos 70. Imagem que vale mil palavras.

Os protestos no Bahrein ainda não acabaram (hoje mesmo, houve uma segunda morte de um popular) e não parece haver previsão para um término. O problema é que a GP2 Asia tem uma rodada dupla marcada exatamente para este próximo fim de semana, dias 18 e 19. Dois dias atrás, uma das equipes da categoria, a inglesa iSport, informou via Twitter que ela e as demais haviam sido notificadas pelos consulados barenitas espalhados pela Europa sobre a instabilidade política do país e sobre cuidados a serem tomados.

E vai ter Fórmula 1 por lá em menos de um mês. E aí? Como serão as coisas até lá? E se os protestos descambarem para o caos geral? Se o negócio estiver realmente feio, imagino que europeu nenhum vai arriscar seu pescoço por lá unicamente para participar de uma corrida estúpida. Fico imaginando a bizarra possibilidade das duas rodadas duplas de Sakhir serem canceladas e a temporada 2011 da GP2 Asia ter tido uma única rodada em Abu Dhabi. E, é claro, imagino também a possibilidade de não ter a abertura da temporada de Fórmula 1 no Bahrein.

Bernie Ecclestone acha que a Europa não tem mais salvação. E não tem mais tanto interesse em América do Norte, América Latina ou Japão. Para ele, a Fórmula 1 deve mirar esses países emergentes que começaram a ganhar importância geopolítica e econômica nos últimos dez anos. O efeito colateral é ter de lidar com regimes autoritários, corruptos ou anacrônicos que massacram seus povos, pisam em cima da liberdade e da democracia, ignoram os direitos humanos, desprezam a crítica mundial e chantageiam os países ocidentais com suas valiosas commodities. E agora, ele pode acabar ficando sem o GP do Bahrein desse ano. Vale a pena, Bernie?

Se há algo que me incomoda de verdade nessa tal de Fórmula 1, é o seu autismo político. Nenhum esporte do mundo passa por cima de graves questões políticas para sustentar seu circo de maneira tão gritante como esse. Lembram-se do caso sul-africano? Enquanto o COI e a FIFA baniam a África do Sul de suas competições, lá estavam os malditos carrinhos coloridos desfilando em Kyalami aos olhos do apartheid. Bernie Ecclestone tem defeitos folclóricos e até divertidos, como a sovinice e o cinismo. Mas fazer vista grossa aos regimes políticos dos países que aceitam sediar seu esporte é canalhice demais, um lado realmente triste do dirigente.

Gosto de Fórmula 1. Mas se for pra trocar uma corrida banal e inútil por um dia de fúria, que venha!

Bruno na Hispania

Como alguns sabem, Bruno Senna figura lá no final da minha lista de 5000 pilotos brasileiros de Fórmula 1 favoritos. Abaixo dele, só Pedro Paulo Diniz e seu dinheiro do império varejista da família. As pessoas não se conformam com isso. Elas tendem a pensar que faço isso porque eu supostamente não teria o menor apreço pelo seu tio. Calúnia das bravas, é claro. A única coisa que realmente me incomoda em Ayrton Senna é todo esse messianismo onipresente e onipotente que o ronda. E o mesmo vale para o Bruno, piloto de qualidade e sujeito gente fina, talvez o mais entre os quatro brasileiros que correram no ano passado. Mas qual é o problema?

O problema é com as circunstâncias que o levaram a competir pelo lugar de primeiro piloto da Renault com o alemão Nick Heidfeld. Eu sei que muitos aqui vão pensar que estou empreendendo uma cruzada a favor de Heidfeld, meu piloto preferido, mas acreditem: não é. Por mais oportuna que seja a situação, não vou falar no alemão hoje. Só quero fazer com que reflitam um pouco sobre o que é a carreira de Bruno Senna.

Em linhas gerais, Senna é um cara de carreira rápida e relativamente expressiva. Seu início no kart se deu em 1989, aos cinco anos de idade. Fez bons campeonatos em São Paulo, mas nada que chamasse muito a atenção. Em fins de semana de férias, ele se mandava com seu famoso tio para se divertir no kartódromo do sítio da família. Ayrton, cuja opinião era inegavelmente respeitável, costumava dizer que “se vocês me acham bom, esperem só para ver meu sobrinho”…

Vindo de quem vem, não sou eu quem vai representar opinião dissonante. O problema começa a partir daquele primeiro de maio de 1994. Morto Ayrton Senna, o automobilismo se tornou uma espécie de tabu na família. Bruno ainda gostava do negócio, mas ninguém mais queria ver um segundo Senna morrendo dentro de um carro de corrida. E sua carreira foi interrompida ali. A morte do pai Flavio, dois anos depois, só enterrou de vez a ideia.  Por muitos anos, Bruno Senna não passou de um adolescente normal. Rico e de sobrenome nobre, mas normal.

Seu primeiro carro, o F-BMW

Um piloto de corrida é uma pessoa que desde cedo se dispõe a sacrificar seus fins de semana para dar voltas e mais voltas ao redor de um trecho asfaltado em forma de ameba dentro de um troço motorizado. Há toda uma preparação física, mental e emocional para construir a melhor trajetória possível. A família se empenha no sonho do garoto (ou garota, dependendo do caso), vendendo bens e sacrificando sua rotina. O dinheiro, sempre escasso e incerto, é utilizado com toda a cautela. A concorrência, no geral, é fortíssima. E muitos garotos com muito mais talento do que um Senna ou Schumacher simplesmente desaparecem porque não conseguem recursos para seguir em frente. Ou porque aquele moleque menos talentoso é filho de gente influente e tem um kart fora do regulamento, algo muito mais comum do que vocês imaginam.

Por isso, imagine você a reação de um jovem piloto do tipo Roberto Moreno quando vê que o sobrinho de um dos maiores pilotos de todos os tempos simplesmente passou por cima do kartismo e encontrou portas abertas e amigos com a maior facilidade do mundo unicamente por ser o sobrinho de um dos maiores. Continuo.

Ouvi falar de Bruno Senna pela primeira vez no início de 2004, quando, por acaso, assisti a uma reportagem do Globo Esporte sobre ele. Desnecessário dizer que a reportagem intercalava trechos com as grandes corridas de seu tio. Naquele momento, Bruno Senna havia acabado de fazer um teste com um Fórmula Renault em Interlagos. O repórter, cujo nome confesso não me lembrar agora, disse algo como “Bruno foi bem para alguém que ficou de fora durante tanto tempo”.  Após assistir à reportagem, que durou uns bons cinco minutos, concluí que haveria uma espécie de esforço geral para emplacar um segundo Senna no automobilismo.

Em 2004, havia bem mais pilotos brasileiros com potencial do que agora. Na Fórmula 3 britânica, Danilo Dirani surpreendia os ingleses e desafiava Nelsinho Piquet, o favorito franco ao título daquele ano. Na Indy Lights, Thiago Medeiros era a bola da vez. Havia outros nomes no exterior, como o próprio Lucas di Grassi, Allam Khodair e Fernando Rees. No Brasil, a Fórmula Renault e a Fórmula 3 apresentavam revelações como Daniel Serra, Alan Hellmeister, Alexander Foizer, Xandinho Negrão, Carlos Iaconelli e Alberto Valério. No kart, havia ainda Sérgio Jimenez e Pedro Bianchini, dois dos melhores nomes que já competiram na história do kartismo brasileiro. Reflita: será que Bruno Senna era tão melhor do que todos eles a ponto de merecer tanta atenção assim? Nem Nelsinho Piquet, piloto que eu sempre achei absolutamente superestimado, mereceu o mesmo nível de atenção.

Fórmula 3

O argumento é óbvio: nenhum deles é um Senna. E aí que vem a constatação mais cruel: as pessoas estão pouco se fodendo com o Bruno. O que importa é o sobrenome. Pelo bem ou pelo mal, é simplesmente impossível dissociá-lo da figura do Ayrton. É até chato para Bruno Senna, que se vê obrigado a escorar sua carreira nessa ligação. Poucos são os que prestam atenção no seu talento de forma crítica e isenta. A boa vontade da imensa maioria faz com que um resultado seu seja superestimado. Bruno é bom piloto, talvez bem melhor do que a maior parte dos seus concorrentes no automobilismo de base. Mas é evidente, se analisar os pormenores, que ele não é um sujeito diferenciado. E que o sobrenome ajuda bem mais do que deveria.

Enquanto muitos kartistas com muito mais talento do que dinheiro ou amigos sofrem para tentar um teste com um carro da Fórmula 3 sul-americana, Bruno conseguiu fazer sua reestreia no automobilismo diretamente na Fórmula BMW inglesa. Graças aos bons contatos com Gerhard Berger, ele conseguiu um terceiro carro da poderosa Carlin para fazer as seis últimas corridas da temporada de 2004. Em um grid de 22 carros, ele se destacou nos treinos de classificação, chegando a largar na primeira fila das duas etapas de Donington. Seus resultados em corrida não foram tão bons: um sexto lugar na primeira prova de Donington foi o melhor resultado. Nada mal. Um segundo ano na Fórmula BMW faria muito bem, mas…

Mas graças ao sobrenome, aos bons patrocinadores e aos ótimos contatos, ele descolou um carro na poderosa Double R para correr na Fórmula 3 britânica! Como pode um cara que não havia completado sequer seis meses nessa nova fase da carreira descolar um carro tão bom, enquanto que um Danilo Dirani, piloto excelente que mostrou muito talento nas Fórmula 3 sul-americana e britânica, era obrigado a correr pela fraca P1? Não é pro Dirani chegar e mandar todo mundo para o inferno?

Senna terminou o ano em décimo, cinco posições atrás de seu companheiro Dan Clarke, que também fazia a estreia na categoria. No ano seguinte, ele permaneceu na equipe e ganhou dois novos companheiros: Mike Conway e Stephen Jelley. Os três tinham um ano de experiência.

Senna não foi mal, vencendo as três primeiras etapas e mais outras duas durante o ano. Terminou o ano em terceiro, atrás de Conway e Oliver Jarvis, sempre demonstrando mais talento na chuva do que no seco. Foi um ano bom, o de 2006. Mas como Conway e Jarvis tiveram tanta dificuldade a mais para encontrar emprego para 2007 do que Senna, que migraria para a GP2? Conway ainda conseguiu uma vaga na Supernova, enquanto que Jarvis foi obrigado a emigrar para o Japão. Senna, disputado por várias equipes, assinou com a Arden, equipe que ainda tinha alguma moral, após ser vice-campeã com Heikki Kovalainen em 2005.

GP2, na Hungria, em 2008

Não vou me estender muito mais. Senna fez um razoável 2007, vencendo uma prova e terminando o ano em oitavo. Apesar de ter feito 24 pontos a mais que o companheiro, Adrian Zaugg, deu bem menos azar do que ele e chegou a andar atrás em várias ocasiões. No ano seguinte, ele descolou uma vaga na então melhor equipe do grid, a iSport. Apesar de ter vencido duas etapas e de ter se sagrado vice-campeão, foi um caso de carro que carregou o piloto nas costas. Senna fez boas apresentações em pista molhada, mas esteve apagado em várias ocasiões e não foi páreo para o campeão Giorgio Pantano. Lucas di Grassi, o terceiro colocado, fez seis corridas a menos e terminou um único ponto atrás. Independente do fato de Di Grassi ter vantagem prévia pelo fato de ter conhecido o carro antes dos seus concorrentes, não foi tão bom Senna ter ficado apenas um ponto à sua frente.

A partir daí, vocês sabem da história. Uma sessão de testes na Honda, um ano na LMS, a Hispania e o vestibular da Renault. Enquanto isso, onde estão os nomes que o bateram em algum momento? Onde estão aqueles pilotos que demonstraram talento puro nas categorias de base?

Há quem diga que seus resultados de base são bons o suficiente para credenciá-lo à uma vaga na Renault. Que base? Ele caiu de paraquedas na melhor equipe da Fórmula BMW e arranjou uma boa vaga na equipe que chegou a ser campeã de Fórmula 3 britânica sem ter qualquer retrospecto.  Na GP2, teve poucas dificuldades em arranjar lugares na razoável Arden e na poderosa iSport, desempregando gente com mais talento. Com equipes tão boas e apoio geral, não é difícil obter bons resultados.

Há quem siga pelo outro lado, apontando que resultados em categorias de base não contam e o que importa é impressionar na Fórmula 1. Então vamos fechar as categorias de base. E que as equipes de Fórmula 1 só contratem quem convier. É pra contratar pelo dinheiro? Coloquem o Bill Gates e o Eike Baptista. Uns três anos de treinos e voilà!, temos um piloto. É pra contratar pelo nome? Bota a Paris Hilton ou o Justin Bieber aí. É óbvio que isso é um exagero, mas se as pessoas se dispõem a “perdoar” o passado do Bruno Senna, por que não perdoariam qualquer outro piloto?

Deixo claro: acho Bruno Senna um piloto com qualidades e considero que, nas condições atuais, ele tem lugar na Fórmula 1. O que me incomoda é que ele recebe muito mais oportunidades do que seu talento, que está longe de ser inexistente, permitiria. E não adianta: seu sobrenome conta muito. Inconscientemente, as pessoas querem um Senna ali, ainda mais naquela Renault preta e dourada. Eu fico do lado de gente como Danilo Dirani e Roberto Moreno: trabalhar a vida inteira e mostrar resultados para colher menos frutos do que um sujeito de sobrenome nobre deve ser frustrante pra cacete.

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