Trinta anos, não é? Um bocado de tempo. Hoje, o mundo do automobilismo celebra o aniversário de passamento (nunca vou entender como se celebra uma morte, mas tudo bem) de um dos pilotos mais emocionantes que a Fórmula 1 já viu. Em uma equivocada tentativa de ultrapassagem sobre Jochen Mass durante os últimos minutos de um treino oficial, Gilles Villeneuve passou desta para melhor. Diz a lenda que o canadense estava desesperado porque seu companheiro, o arquirrival Didier Pironi, havia feito um tempo 0,1 segundo melhor. Estava alucinado naquele dia, o sábado anterior ao GP da Bélgica de 1982. Acabou pagando com a vida.

Villeneuve pai não está no rol de meus pilotos preferidos. Muito pelo contrário. Tenho para mim que um piloto que chega à Fórmula 1, onde os carros são muito velozes e a pressão é máxima, deve aprender a tomar juízo. Ultrapassar por fora, escorregar, se esquecer de frear, fazer malabarismo, tudo isso daí deve ser feito nas categorias menores, onde o tempo de corrida é mais curto, as velocidades são mais baixas e se dá melhor quem chama mais a atenção. Na Fórmula 1, a coisa é diferente. Era bonito ver Villeneuve correr. Mas os resultados não correspondiam às façanhas.

Se me perguntarem qual é o melhor ano da carreira automobilística de Gilles Villeneuve, nem paro para responder: 1976. Naqueles dias, ele era apenas um piloto de Fórmula Atlantic na América do Norte. Mas que piloto!

Gilles sempre foi um cara com óleo de motor correndo pelas veias. Do tipo que faz uma cópia da chave do carro do pai, espera uma noite chuvosa para dirigir, pilota feito um maluco pelas ruas, bate e destrói o único carro da família, tudo isso aos 15 anos de idade. Do tipo que se envolve em um racha numa rodovia, acelera ao máximo, dá de cara com um comboio de vacas abobalhadas e termina no hospital necessitando de oitenta pontos na testa. Do tipo que precisou ganhar um snowmobile para acalmar um pouco. Do tipo que venceu quase tudo o que poderia nas corridas na neve.

Mas a verdade é que Villeneuve só trocou os snowmobiles pelos carros por razões puramente pragmáticas. No início dos anos 70, mesmo mal tendo ultrapassado a casa dos vinte anos de idade, já era homem casado e pai de dois filhos. Precisava de uma profissão um pouco mais sólida e rentável do que a de corredor das neves. Alguém lhe sugeriu pilotar monopostos. Formidável, não?

Villeneuve já havia feito algumas corridas de turismo no Canadá, mas não havia ficado tão empolgado. Os monopostos e suas reações rápidas lhe pareciam mais interessantes. Em 1973, Gilles entrou no famoso curso de pilotagem de Jim Russell. Saiu de lá aprovado com louvor e foi direto para a Fórmula Ford 1600 do Canadá. Num velho Magnum, ele chegou, viu e venceu o campeonato. Da maneira que ele sabia fazer: rodas na grama, rodas no ar, deslizadas, ultrapassagens assustadoras.

Em 1974, Villeneuve decidiu subir para a Fórmula Atlantic, a principal categoria de base da América do Norte. Havia uma equipe nova que estava precisando de piloto. Sediada no Canadá, ela era comandada por um ex-piloto e empresário chamado Kris Harrison. Gilles se encontrou com Harrison, apresentou-se e disse que queria correr.

Gilles Villeneuve em 1974

– Não, eu não estou interessado em pilotos sem experiência.

– OK. Então fale com este cara aqui.

E entregou um papel a Harrison. Jacques Couture era o nome que estava no papel. Era instrutor da escola de pilotagem de Jim Russell e acompanhava a Fórmula Ford canadense de perto. Sem nada a perder, Harrison ligou a Couture e ouviu maravilhas sobre o garoto franco-canadense: ele é campeão de snowmobiles e também manda muito bem nos carros. Seria uma tremenda idiotice se você não o contratasse, falou Couture.

Kris Harrison decidiu empregar Gilles Villeneuve em sua nova equipe, a Ecurie Canada. Mas não o faria de graça: o piloto teria de levar algo em torno de 70 mil dólares. Só que Gilles não tinha esta grana. Havia algumas soluções razoáveis para obtê-lo: assaltar um banco, vender drogas ou simplesmente trabalhar. Nosso herói preferiu outra saída: vendeu o motorhome onde a família morava. E ainda avisou sua esposa, Joanne, somente após a transação ter sido concluída. “Querida, vendi o motorhome. Beleza?”. Todos teriam de dormir no trailer da Ecurie Canada. Joanne poderia ter dado escândalo, mas não o fez porque sabia que o automobilismo era a coisa mais importante do mundo para seu lunático marido.

E lá foi Gilles Villeneuve na Fórmula Atlantic em 1974. Seu primeiro ano foi difícil e ele só conseguiu um único pódio em Westwood. Nas demais corridas, bateu ou teve problemas no carro amarelo patrocinado pela Schweppes. Em um dos acidentes, em Mosport, quebrou a perna esquerda. Sem dinheiro e sem grandes resultados, ele não pôde permanecer na Ecurie Canada em 1975. Percebendo que Gilles estava deprimido com o provável fim prematuro de sua carreira, Joanne lhe sugeriu que formasse sua própria equipe.

Villeneuve aceitou a ideia e foi à luta. Sem dinheiro, arranjou um March 75B, dois motores Ford BDD e alguns pneus meio que à base do “prometo que te pago um dia”. Formou a Ecurie Villeneuve, superestrutura de fazer inveja a qualquer equipe de ponta da Fórmula 1: Gilles seria o piloto, o chefe de equipe, o mecânico e o motorista da van.

Faltando poucos dias para a primeira etapa, Gilles teve uma ideia esperta para conseguir dinheiro. Nos tempos dos snowmobiles, ele era o principal piloto da Skiroule, uma das principais fabricantes da geringonça do Canadá. A Skiroule o adorava e vivia insistindo para que deixasse para lá esse negócio de automobilismo e voltasse às corridas na neve. Então, Villeneuve propôs que a empresa patrocinasse sua equipe de Fórmula Atlantic. Em troca, ele voltaria às competições de snowmobiles. A proposta foi aceita e a temporada de 1975 ficou garantida. Até deu para contratar um mecânico auxiliar.

A Fórmula Atlantic teve apenas seis corridas em 1975. Gilles ganhou uma, no circuito canadense de Gimli. A vitória foi assombrosa: no treino oficial, ele só conseguiu o 19º tempo. Mas choveu horrores no dia seguinte e Villeneuve mostrou do que ele era capaz. Simplesmente ultrapassou os dezoito pilotos que estavam à sua frente e ganhou a corrida com 15 segundos de vantagem para o segundo colocado, um tal de Bobby Rahal. Só não obteve vantagem maior porque escapou da pista duas vezes.

Por incrível que pareça, haveria uma corrida ainda melhor para Gilles Villeneuve em 1975. A etapa de Trois-Rivières era simplesmente a mais esperada do ano na Fórmula Atlantic, algo como as 500 Milhas de Indianápolis. Pilotos respeitados da Europa viajavam ao Canadá apenas para fazer esta corrida visando embolsar uma grana extra. Gente da laia de Patrick Depailler, Jean-Pierre Jarier e Vittorio Brambilla. Havia algo em torno de quarenta inscritos.

Villeneuve em 1975 com um capacete à la Eddie Irvine

Gilles Villeneuve deu de ombros para as dificuldades e se qualificou em terceiro. Na corrida, ultrapassou Patrick Depailler como se o francês fosse um aleijado. Depois, partiu para o ataque sobre o líder Jean-Pierre Jarier. Tinha grandes chances de vitória, mas sua pilotagem abusada acabou sobrecarregando os freios. Resultado: abandono na volta 60. Contudo, a atuação foi boa o suficiente para deixar os europeus de queixo caído. Quem este québécois de merda pensa que é?

Somente os bons resultados puderam manter em pé a carreira de Gilles Villeneuve. Em relação às finanças, 1975 foi outro ano bem difícil. Para segurar o apoio da Skiroule, Villeneuve teve de participar de 36 corridas de snowmobile com a empresa naquele ano. Venceu somente 32. Impressionada, a Skiroule decidiu manter o patrocínio para 1976 sem exigir que ele disputasse mais corridas na neve.

A vitória em Gimli e a atuação em Trois-Rivières transformou Gilles Villeneuve na grande atração do automobilismo norte-americano de base naqueles dias. Várias equipes de ponta da Fórmula Atlantic entraram em contato com ele oferecendo contratos polpudos para a temporada de 1976. Duas das ofertas chamavam bastante a atenção: a Doug Shierson Racing (que viria a ser a equipe de Raul Boesel na Indy em 1989) possuía a melhor estrutura, mas queria colocar Villeneuve ao lado de Bobby Rahal. O canadense não estava interessado em dividir uma equipe com outro piloto.

Restou a ele, então, aceitar o convite da mesma Ecurie Canada que lhe havia aberto as portas na Fórmula Atlantic e que só inscreveria apenas um carro. Melhor estruturada do que em 1974, a esquadra de Kris Harrison contava agora com o engenheiro Ray Wardell, que já havia trabalhado com a March na Fórmula 1. Sem sofrer com as mesmas enormes dificuldades financeiras de outrora, Gilles Villeneuve finalmente teria uma oportunidade boa na Fórmula Atlantic. Começaria aí a melhor temporada de sua vida.

Em 1976, haveria dois campeonatos de Fórmula Atlantic na América do Norte. Um deles ocorreria nos Estados Unidos e seria comandado pela IMSA. O outro era basicamente aquele que Villeneuve vinha disputando, com todas as corridas realizadas no Canadá. Gilles decidiu disputar ambos. Mas como não tinha dinheiro sobrando, priorizaria a temporada canadense, que era a mais importante. Ganhar a taça americana era apenas um bônus.

Villeneuve estava muito feliz. Sua família o apoiava por completo. Joanne e os filhos Jacques e Melanie não reclamavam em ter de morar em um motorhome e viajar o tempo todo desde que o papai ganhasse corridas. Quando não estava correndo ou se divertindo com a família, Gilles ficava esmiuçando seu belo carro ou discutindo acertos com os engenheiros. Também tentava conhecer os circuitos antes dos concorrentes. Pegava um carro de rua, colocava Ray Wardell ao seu lado e dirigia exatamente do seu jeito desvairado.

Com o March 76B pintado de verde, Villeneuve partiu para a primeira corrida do ano. Era a primeira etapa da Fórmula Atlantic americana, realizada em Road America no dia 11 de abril. Havia exatos quarenta inscritos, número considerado absurdo para os boiolas de hoje em dia. Para resolver o problema, a organização realizava dois treinos classificatórios, um para cada grupo de vinte carros. Aí, sim.

Gilles Villeneuve e o patrocínio da Skiroule, que era sua equipe nas corridas de snowmobile

Villeneuve não tomou conhecimento da concorrência e marcou a pole-position. Na corrida, disparou logo na primeira curva, abriu 13 segundos em quarenta voltas e venceu. Como prêmio, levou 2.500 dólares para casa. Para quem chegou a ficar sem ter onde morar, nada mal, nada mal mesmo.

As duas próximas corridas também eram etapas da Fórmula Atlantic americana. Em 2 de maio, 44 pilotos apareceram para a corrida de Laguna Seca. Villeneuve foi o segundo mais rápido de seu grupo na qualificação, mas acabou saindo apenas na terceira posição. O que não lhe significava nada: na corrida, partiu como um míssil, deixou os dois primeiros para trás e ganhou de novo.

Na corrida seguinte, realizada em Ontario, que não tem nada a ver com o estado canadense, Villeneuve fez barba, cabelo e bigode. Com maestria. Na qualificação, meteu oito décimos no segundo colocado no grid de largada, nosso conhecido Bobby Rahal. Largou e desapareceu na liderança. Marcou sua primeira volta mais rápida no ano. Cruzou a linha de chegada com 15 segundos de vantagem para o segundo colocado. Para comemorar a conquista, deu-se o luxo de ir com a família à Disneylândia.

Três vitórias em três corridas realizadas na Fórmula Atlantic americana. Mesmo estando ainda no mês de maio, Gilles já estava com o título praticamente garantido. A próxima corrida da categoria só seria realizada no fim de agosto. Neste meio tempo, seriam realizadas todas as seis corridas da Fórmula Atlantic canadense.

“Três coisas me fizeram melhor neste ano. O carro está melhor ajustado, eu tenho a chance de fazer mais corridas do que no ano passado e também estou menos cansado, já que não estou mais trabalhando como mecânico. Eu e o meu engenheiro, o Ray Wardell, estamos melhorando nosso relacionamento a cada corrida”.

Uma semana após a corrida americana de Ontario, Gilles Villeneuve voltou ao Canadá para disputar a primeira etapa da Fórmula Atlantic canadense, a ser realizada no autódromo de Edmonton, que não tem nada a ver com a pista de rua da Indy. Adivinhem o resto. Ele marcou a pole-position e abriu um calendário de diferença para o segundo colocado na corrida. O que poderia parar Gilles Villeneuve?

Somente um problema. A segunda etapa da Fórmula Atlantic canadense foi realizada em Westwood no dia 30 de maio. Gilles Villeneuve largou na pole-position e vinha liderando a corrida sob chuva forte com dezoito segundos de vantagem, mas teve problemas com o motor e abandonou na volta 24. Venceu Marty Loft. Será que o franco-canadense teria mais dificuldades no certame canadense do que no americano?

Amanhã, a segunda parte.

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