Os inimigos da Indy não são “só” a Fórmula 1 e a NASCAR. Longe disso. O problema vai muito além das duas rivais. A verdade é que a categoria de Tony Kanaan, Hélio Castroneves e caterva está guerreando pelo simples direito de sobreviver contra um bocado de pessoas, empresas e situações. Com uma velha baioneta.

GP MONACO F1/2013

 

CULTURA EUROPEIA: Sejamos honestos: ninguém aqui começou a acompanhar o automobilismo assistindo às corridas da Indy. Se houver um único leitor que se encaixe nesse perfil, legal, sinta-se à vontade para se manifestar. Mas saiba que você é uma exceção tão improvável quanto um javali com duas cabeças.

O automobilismo europeu, capitaneado pela Fórmula 1 e pelas corridas de protótipos, só se tornou o mais forte de todos porque não perdeu tempo em expandir seus eventos para além do Velho Continente. O norte da África, por exemplo, recebeu suas primeiras corridas de Grand Prix nos anos 20. A América do Sul já atraia pilotos consagrados lá do Hemisfério Norte desde o final dos anos 40. O mesmo aconteceu na Austrália e na Nova Zelândia a partir dos anos 60.

O intercâmbio de ases do volante não é a única contribuição europeia ao automobilismo das periferias. Africanos, sul-americanos, australianos e neozelandeses absorviam carros, tecnologias, equipamentos, regulamentos e formatos esportivos das competições europeias. Todos eles acabaram criando categorias claramente inspiradas nos grandes prêmios de Fórmula 1 e nas competições de turismo e protótipos que eram realizados na Itália, na França, na Alemanha e na Inglaterra. Lógico que as populações autóctones acabaram se acostumando com o estilo europeu de corridas.

Os Estados Unidos, por outro lado, nunca fizeram questão de exportar seu modelo de automobilismo, baseado em circuitos ovais, grande mercantilização, priorização ao show, grids lotados e liberdade técnica. Um paradigma, diga-se, absolutamente coerente com a filosofia política do país, em que predominava a liberdade, a livre iniciativa, a meritocracia e a tecnocracia. Os europeus, mais elitistas e metódicos, nunca fizeram questão de levaram a sério o esporte a motor americano, considerado demasiado banal e populista. Onde já se viu o caipirão do Tennessee levar seu carro para correr numa pista imbecil com curvas feitas somente para a esquerda apenas pelo prazer de embolsar ten thousand bucks? Isso é um desrespeito aos nobres homens de cachecol que ignoram a morte e a reprovação dos familiares pelo desafio masculinizante de cruzar Paris a Nantes no menor tempo possível!

Até o final dos anos 80, a situação era mais ou menos essa, com o automobilismo americano permanecendo alheio ao que acontecia no restante no mundo. Exceções existiram, como as corridas da USAC em Silverstone e Brands Hatch no ano de 1978, mas no geral era uma para cá e outra para lá. O que mudou?

Emerson Fittipaldi e Nigel Mansell. O sucesso de ambos abriu os olhos de milhares de pessoas, que descobriram meio que do nada que existia uma categoria quase tão legal quanto a Fórmula 1 com a vantagem de ser muito mais barata e muito menos fresca. Emmo e Nigel fizeram com que dois grandes mercados tradicionais, o Brasil e a Grã-Bretanha, passassem a dar alguma bola para as corridas norte-americanas. Eles também abriram a porta para que inúmeros outros pilotos de fora da América do Norte explorassem o sonho americano.

Mas a aproximação não foi muito além disso. O europeu continuou tratando a Fórmula 1 como uma coisa superior e intangível, ao passo que a Indy era vista mais como uma segunda opção, uma alternativa para idosos e fracassados. Como os demais povos haviam se acostumado com o automobilismo feito na Europa, eles também não conseguiam tratar a Indy com o mesmo respeito e a mesma devoção da Fórmula 1. Para toda essa gente, a Indy era apenas uma solução no caso da falta de uma opção melhor.

Mesmo duas décadas depois, a mentalidade permanece mais ou menos a mesma. Europeus, sul-americanos, australianos e asiáticos continuam fieis à Fórmula 1 e a todas as suas peculiaridades enquanto desprezam solenemente as corridas dos EUA. Comparações são inevitáveis e quase sempre favoráveis à F-1, mais “sofisticada”, “tecnológica” e “privilegiada com os melhores pilotos”. Com relação à Indy, há um bocado de preconceito, outro tanto de desconhecimento e umas três colheres de sopa de má vontade.

Quem é fanático pela Fórmula 1 e pelo automobilismo europeu em geral não costuma tolerar circuitos ovais, pistas que não seguem os irreais padrões da FIA, companheiros de equipe que correm com pinturas diferentes, pontuações muito exageradas, pódios com apenas um piloto e bobagens do tipo. Como esse tipo de gente não costuma acompanhar a Indy com muito afinco, as atenções só se voltam a ela quando acontece alguma merda, como a sequência de acidentes bobocas em Baltimore ou a pancada de Dario Franchitti em Houston. E aí os amantes da Fórmula 1, com um sorriso maroto no canto da boca, destilam seu veneno: “a Indy é uma bosta”, “categoria de amadores”, “pura bagunça” e por aí vai.

Nada contra o sujeito achar a Indy uma merda. O problema é quando a categoria leva esse tipo de crítica a sério. Na época do acidente que matou Dan Wheldon em Las Vegas, vários jornalistas “especializados” surgiram das catacumbas e encheram a boca para afirmar que corridas em ovais são imbecis e deveriam acabar. Precisando mostrar que estava trabalhando para tornar as provas mais seguras, a diretoria da Indy adotou uma política de evitar correr em ovais com grande inclinação e 1,5 milha de extensão, mantendo apenas a pista de Texas no calendário. Além disso, o DW12 sofreu modificações aerodinâmicas que reduziram drasticamente a possibilidade de pack racing, ou seja, aquelas célebres disputas roda a roda que envolviam vários carros em altíssima velocidade. Não interessa aqui julgar se essas mudanças foram boas ou não. O que importa é que uma de suas grandes motivações foi a pressão feita pela opinião pública. Uma opinião pública que não necessariamente gosta da Indy como ela é.

Muita gente quer que a Indy mude por completo, se tornando algo semelhante à anestésica Fórmula 1. Calendários sem ovais, autódromos tão luxuosos quanto desinteressantes, punições a rodo, pilotos conservadores, grids limitados e custos nas alturas são vistos como a solução para um certame mais sério. Só que há um pequeno detalhe aí. Por mais que a Indy tente emular a Fórmula 1, ela ainda não será a Fórmula 1. E continuará sendo tratada como um produto inferior.

Um dos grandes males da Indy é a crítica que vem de gente que quer uma Fórmula 1 americana. Essa crítica está se tornando cada vez mais frequente e poderosa. Para um número cada vez maior de pessoas, uma corrida com 20 carros em Abu Dhabi é muito melhor do que uma com 30 carros no Texas. O mundo não está ficando um desastre?

O jornalista Marshall Pruett entrevistando Rubens Barrichello no início do ano passado

O jornalista Marshall Pruett entrevistando Rubens Barrichello no início do ano passado

 

MÍDIA ESCRITA: Primeira pergunta: quantos blogs cujo foco é a Indy você conhece?

No Brasil, conheço três, mas nenhum com post recente. O Blog do Borgo, do míope João Paulo Borgonove, não fala de Indy há um bocado de tempo, mas suas belas palavras sobre goleiros e torcidas compensam. O Indianista, do Rafael Marinho, é muito bacana, mas o último texto é de agosto. E há também o Blog da Fórmula Indy, que não é atualizado desde fevereiro. Fora do território tupiniquim, há este daqui, que é muito bom.

A verdade é que as motivações para criar e manter um blog diário sobre a Indy não são muitas. Além da audiência não ser excepcional, as notícias sobre a categoria não são tão numerosas como as sobre a Fórmula 1. Logo, não há, muito que discutir. É sempre mais fácil manter um site que fala sobre várias categorias e concede atenção especial à F-1. Louvo, por conta disso, o esforço de quem tenta promover a Indy aqui no Brasil.

Da mesma forma, os grandes sites de automobilismo obviamente dão mais espaço à Fórmula 1. Não estão errados, pois a Indy não costuma render muito mais audiência do que uma GP2 da vida. Num texto escrito para a revista Racing em 2001, o editor Sérgio Quintanilha confessou que a edição que contava a vitória de Hélio Castroneves em Indianápolis havia vendido menos do que aquela da vitória inútil de Ralf Schumacher no GP do Canadá de Fórmula 1. Pura constatação da realidade. Seja em revista, jornal ou internet, é muito mais lucrativo falar sobre um modorrento GP asiático vencido pelo Sebastian Vettel do que sobre o possível título do Hélio Castroneves.

Até aí, tudo bem. O problema é quando esses mesmos veículos tratam a Indy com desdém, fazendo comparações inócuas e imbecis com a Fórmula 1 ou simplesmente mencionando a categoria apenas para criticá-la de forma oportunista. Não quero citar nomes, mas o fato é que esse tipo de postura existe. O jornalismo esportivo, nesse caso, é utilizado apenas para cornetagem. O cidadão sequer acompanha a Indy e só dá as caras nos momentos negativos com escritos inflamados contra o “amadorismo” e a “precariedade”. Os dias seguintes à tragédia de Las Vegas em 2011, por exemplo, foram uma boa época para diferenciar os reais jornalistas dos carniceiros.

Antes que alguém entenda mal, sou fã do jornalismo crítico. A Indy tem mil e um pepinos a serem resolvidos, mas também tem ótimas qualidades que não são encontradas em nenhuma outra categoria. Cabe aos veículos de comunicação meter o pau quando há problemas e emitir notas positivas quando as coisas funcionam bem. Só que você também precisa de embasamento histórico para fazer qualquer julgamento. O cara que fala mal da Indy unicamente porque acha que corridas em ovais são absurdas ou que a Fórmula 1 é mais limpinha não deve ser levado a sério.

Seria essa situação diferente nos Estados Unidos? Mais ou menos.

Você tem alguma paciência para ler em inglês? Então dê uma olhada nesse artigo. Sua autora é Jenna Fryer, jornalista que cobre o automobilismo dos EUA para a Associated Press há mais de dez anos. Jenna trabalha com a NASCAR desde 2000, esta é sua praia. Sua primeira corrida de monopostos foi a Indy 500 de 2003. De lá para cá, ela começou a aparecer cada vez mais nos eventos da Indy. Mas seu negócio continuou sendo as corridas de stock-cars.

Nesse artigo, Jenna faz um apanhado de todos os problemas que a Indy teve em Houston. O calombo na curva 1, a chicane de pneus, a bagunça na definição do grid de largada para a segunda corrida, a queda de Randy Bernard, as múltiplas funções ocupadas por Mark Miles, as multas por mau comportamento, todos esses problemas foram abrigados sob um único lema: “isso é tão IndyCar…”.

É engraçado. Na Fórmula 1, se os pneus traseiros de quatro carros explodem em uma única corrida, a culpa é da Pirelli. Se um carro de serviço entra no meio da pista durante bandeira verde, a culpa é da organização da prova. Na NASCAR, se um carro voa em direção às telas de proteção e quase acerta os espectadores, ah, isso daí faz parte do show. Porém, o calombo da curva 1 e o acidente de Franchitti são “problemas da Indy”. Entendeu a diferença? Os jornalistas atribuem todos os problemas da Indy à própria Indy, coisa que não necessariamente é feita com outros certames na mesma frequência e na mesma intensidade.

Virou moda no jornalismo americano escrever verdadeiros memorandos, artigos quase tão grandes quanto os deste blog, que elencam todos os problemas da Indy de forma a atribuir a responsabilidade completa à categoria como um todo. Um bom exemplo é esse texto aqui, postado em um portal sediado no simpático estado do Iowa. Errado ele não está, pois descreve um fato, a total incompetência da Indy em se tornar popular e notória mesmo realizando corridas mais interessantes que as da NASCAR. Só que o foco da crítica, mais uma vez, se volta à Indy em si. Não é um problema “do departamento de marketing” ou “da falta de apelo midiático dos pilotos”, mas de toda a IndyCar.

Os comentaristas descobriram que é muito mais interessante e lucrativo dramatizar a situação da Indy do que expor a realidade, que tem partes boas e partes ruins. A temporada está ótima, o carro é relativamente seguro, o nível dos pilotos é alto, os carros de ponta expõem excelentes patrocinadores e a categoria como um todo parece estar em um patamar muito melhor do que aquele de 2007 ou 2008. Tudo isso daí parece não ter importância alguma diante dos problemas, como a baixíssima audiência televisiva, os erros de organização, os acidentes e a incerteza com relação à viabilidade comercial no futuro. Grande parte da mídia americana que ainda se interessa pela Indy optou por apenas ressaltar esses pontos negativos, ignorando por completo que a categoria não é um desastre completo.

Eu estaria sendo injusto se eu deixasse de mencionar os jornalistas que fazem um trabalho ótimo de debate sobre a categoria, como Robin Miller e Marshall Pruett, ambos do portal Racer. São caras que criticam duramente quando há o que ser criticado e que também sabem elogiar nos momentos oportunos. A Racer, aliás, merece aplausos por ser o único portal esportivo de relevância que concede mais atenção à Indy do que à NASCAR.

Infelizmente, são poucas andorinhas que não fazem verão. A mídia esportiva, tanto aqui como lá, simplesmente gosta de falar mal da Indy. Gratuitamente. Destrutivamente. Para quê? Para chamar a atenção, ué.

indyband

 

TELEVISÃO: No dia 7 de agosto de 2008, Tony George anunciou uma das parcerias mais estranhas da história do automobilismo americano. O chefão da IndyCar Series assinou um contrato de dez anos com a Versus, um obscuro canal esportivo da TV paga americana, para a transmissão da maioria das corridas da categoria em HD a partir de 2009. Pertencente à NBCUniversal, a Versus estava presente em cerca de 74 milhões de lares nos EUA. O problema é quase ninguém se dava ao trabalho de assistir à sua programação obscura. Em termos de audiência, os números da Versus eram marginalmente superiores àqueles registrados por canais que vendem badulaques e joias.

Vamos às comparações. 2008 foi o ano em que a Indy Racing League englobou a ChampCar, formando uma única categoria top de monopostos nos Estados Unidos. Quem transmitia as corridas naquela época era a ESPN por meio de seus dois canais principais e da ABC. A audiência média registrada naquela temporada foi de 778 mil espectadores por etapa. Em 2009, sabe qual foi a média obtida pela Versus? 315 mil espectadores, número cerca de 60% inferior ao ano anterior.

As coisas só pioraram de lá para cá, mesmo com a mudança de nome do canal – saiu Versus e entrou NBCSN. Hoje em dia, são poucas as etapas que conseguem atrair mais do que 370 mil espectadores, o que não significa mais do que humílimos 0,25 pontos no índice Nielsen. As duas corridas de Houston, por exemplo, só tiveram 160 mil telespectadores, audiência próxima do traço segundo o jargão televisivo.

As poucas provas ainda transmitidas pela ABC apresentam desempenho melhor, mas não muito. As 500 Milhas de Indianápolis conseguiram audiência de 3,8 pontos, algo em torno de 5,67 milhões de espectadores. Parece um número excelente, mas não é. Em 2012, a emissora conseguiu 4,3 pontos com o evento. Em 2005, foram 6,5 pontos. Em 1995, impressionantes 9,5 pontos. Dali para trás, resultados acima dos sete pontos eram frequentes para a Indy.

As razões para a queda brusca de audiência são muitas e vão desde a instabilidade política da categoria até a ausência de um piloto americano carismático e famoso no grid. Mas não é absurdo dizer que a obscuridade da NBCSN e a má divulgação das corridas são dois enormes obstáculos para seu crescimento. Se todas as corridas da Indy estivessem sendo transmitidas por um canal mais relevante, o sucesso do certame certamente seria maior. Dou um exemplo: as etapas de Pocono e Texas. Beneficiadas por um ótimo trabalho de divulgação e pela transmissão na ABC, ambas conseguiram 1,1 ponto de audiência. Longe de ser um número realmente bom, já é alguma coisa perto do descalabro da NBCSN.

No Brasil, a coisa não é muito melhor. A TV Bandeirantes transmite as corridas de forma absolutamente irregular e aleatorizada desde 2004. O horário vespertino das corridas certamente não ajuda, pois geralmente coincide com o dos jogos de futebol. Dessa forma, várias corridas são picotadas de maneira patética, isso quando são efetivamente transmitidas, o que não ocorre na maioria das vezes. E não podemos condenar a Bandeirantes. Alguém aqui seria louco de deixar de transmitir o Brasileirão para mostrar uma corrida que ninguém quer ver?

O interessante é que a afirmação “ninguém quer ver” não é exatamente verdadeira. De forma surpreendente, a Indy consegue números bastante razoáveis na Bandeirantes. A Indy 500 e a São Paulo Indy 300 registraram picos de 5 pontos, resultados notáveis para uma emissora que não está entre as três maiores do Brasil. Até mesmo outras corridas conseguiram alguma pontuação: as etapas de Long Beach e Texas deram 2 pontos, aproximadamente a metade do que o futebol consegue na emissora. Isso mostra que a Indy não é um “Show da Vida com R. R.  Soares”. Há, sim, gente que liga a TV e assiste.

O foda é que as perspectivas para o futuro são muito ruins. Nos EUA, a Indy terá de aturar a NBCSN por pelo menos mais cinco temporadas. No ano que vem, ela ainda será obrigada a dividir seu espaço com a NASCAR, que terá uma parte de suas corridas transmitidas nesse canal. Haverá concorrência de horário e de atenções e é evidente que o certame da família France sai em larga vantagem. De cabeça, digo que a NBCSN pagará mais de 3 bilhões de dólares para mostrar as corridas da Sprint Cup e da Nationwide Series. Sabe quanto ela pagou pela Indy? Cerca de 50 milhões de dólares. Faça as contas.

No Brasil, corremos o risco de ficar sem ter onde assistir às corridas da Indy a partir do ano que vem. Apesar da audiência bastante razoável e dos bons lucros auferidos com a promoção da São Paulo Indy 300, a Bandeirantes não só não está mais interessada em mostrar as corridas da categoria como também provavelmente não mais cuidará da realização da etapa de Sampa. A decisão está praticamente confirmada. Se a Indy não encontrar nenhuma outra casa, algo que não parece muito fácil, seus fãs brasileiros poderão ficar sem ela pela primeira vez desde 1985, ano em que a mesma TV Bandeirantes iniciou as transmissões regulares do certame.

Quer dizer, da mesma forma que a mídia escrita não ajuda, a TV também parece fazer de tudo para não mostrar a Indy. Como alguém pode querer que ela cresça no meio de tantas adversidades?

E não acabou. Mais inimigos virão.

Don Pentecost, idealizador da Force 1 USA, o único projeto conhecido de uma nova equipe de Fórmula 1

Ando falando bastante de Estados Unidos por aqui, não é? Minha equipe dos sonhos, South Park, NASCAR… No fundo, tudo isso daí é pano de fundo para este post, que eu deveria ter escrito há pelo menos dois meses. O Bandeira Verde apresenta hoje um sujeito visionário, ambicioso e até meio doido cujo grande sonho é o de ter sua própria equipe de Fórmula 1. Até aí, tudo bem, há vários deste tipo ao redor do mundo. Mas o que dizer quando o cidadão é americano, tem 56 anos de idade, pertence à classe média, nunca sequer pisou num autódromo europeu e ainda por cima planeja ser o primeiro piloto da equipe?

Dia desses, xeretando um destes fóruns estrangeiros de automobilismo, encontrei por acaso uma menção a uma nova equipe de Fórmula 1. Interessado que sou na geométrica expansão do magérrimo grid atual, me interessei e dei uma olhada no que se tratava. Havia um link, este aqui, que me conduziu ao site da Force 1 USA.

Force India? Não. A Force 1 USA é a única equipe declaradamente interessada em ingressar no circo da Fórmula 1. Ela foi idealizada por Don Pentecost, um californiano de 56 anos que já fez de tudo nessa vida e que deseja criar uma equipe de Fórmula 1 totalmente americana onde ele será um dos pilotos. O objetivo final é o de ser o campeão mais velho da história da categoria com uma equipe que representa totalmente o seu país.

Pentecost busca encontrar investidores nos EUA que apoiem seu projeto. Ao mesmo tempo, ele está desenvolvendo um projeto que busca criar um combustível alternativo que acabe com a dependência do petróleo do Oriente Médio. Ele fala em investimentos de 89 milhões de dólares e retorno que alcança a casa do trilhão de dólares. Não entendi muito bem qual é a relação entre uma coisa e outra, até porque apenas a gasolina pode ser utilizada na Fórmula 1, mas as ideias estão todas em sua cachola e registradas em seu site.

Mandei um e-mail a Don Pentecost perguntando se ele gostaria de me conceder esta entrevista. Solícito, ele não tardou em responder. Ela foi feita em junho, mas por questões de tempo, só consegui publicá-la agora. Conheça o cinquentão que quer fundar sua própria equipe de Fórmula 1 e pilotar um de seus carros rumo ao sonho de um título 100% ianque.

VERDE – PRIMEIRAMENTE, GOSTARIA DE TER ALGUMAS INFORMAÇÕES BÁSICAS SUAS: NOME, IDADE, EMPREGO, LOCAL DE NASCIMENTO…

DON PENTECOST – OK. Meu nome é Don Pentecost e tenho mais de 50 anos de idade (você até deve ficar assustado quando eu digo que posso ser um piloto de ponta na Fórmula 1 com mais de 50 anos na cara). Nasci em Newport Beach, no condado de Orange, estado da Califórnia.

Eu trabalhava para o exército americano fornecendo treinamento de combate cara-a-cara para uma empresa civil. Durante um bom tempo, vivi e trabalhei no exterior, principalmente em países do terceiro mundo. Trabalhei como instrutor de boxe e de autodefesa, transportador de móveis, motorista de reboque, diretor geral de uma empresa de logística e diretor de operações de uma empresa de comércio exterior. Também fui segurança de uma boate. Meu emprego mais duradouro foi o de transportador. É o mais difícil e cansativo que existe. Até mesmo o trabalho na construção civil é mais fácil.

COMO COMEÇOU SUA PAIXÃO PELO AUTOMOBILISMO? PELO QUE LI NO SITE, VOCÊ TEVE UMA CARREIRA BASTANTE LONGA NO MOTOCROSS.

Minha paixão pelas corridas começou aos 10 anos de idade. Minha família costumava acampar bastante e meu pai comprou pra mim uma motocicleta off-road para eu dar umas voltas por aí. Eu andava com ela o dia todo e só parava para abastecer.

Participei da minha primeira corrida numa pista plana aos 14 anos. Não venci e a motocicleta ainda ficou com a transmissão quebrada. Ela ficou parada durante seis meses até o dia em que arranjei dinheiro para consertá-la. Meus pais compraram para mim duas motos com o passar do tempo, mas eu tinha de me virar para conseguir comprar as outras coisas, como um pneu novo ou um capacete.

Eu admirava todos os grandes pilotos de motocross naquela época. A maioria deles vinha da Europa. Quando havia um europeu correndo em Saddleback Park, eu pedalava por 20 milhas até lá só para poder assistir às corridas. Minha segunda moto foi uma Sachs, que quebrava mais do que andava. Pelo menos, consegui uma oportunidade para disputar as corridas de 125cc. Arranjei a primeira moto off-road de dois tempos que a Honda produziu, uma 250 Elsinore. Não era a moto mais fácil de pilotar, mas era veloz e confiável. Logo na primeira corrida em que participei com ela, ganhei.

Então, eu entrei para o Continental Motorsport Club (CMC), que era o principal clube de automobilismo da Califórnia naquela época. Mas assim que eu me tornei profissional, o fator dinheiro realmente se tornou um problema. Eu superei alguns dos melhores motociclistas do país com um orçamento ridículo e só conseguindo correr uma vez por mês, além de não ter recursos para treinar entre as corridas. Para ficar em forma, eu pedalava bicicletas BMX durante quatro, cinco horas diárias. Como costumo dizer, atingi o “muro do baixo orçamento”.

Correr de motocicleta ainda é muito mais barato do que correr de carro, mas até mesmo no motocross os pilotos são financiados por pais endinheirados. Eu descobri desde cedo que os pilotos podem pagar para alcançar o topo, ou quase isso, mesmo que não tenham nenhum talento natural. Eu sou um atleta nato e pratiquei esportes durante toda a minha vida. A maioria dos pilotos não é de atletas, especialmente os que pilotam carros. O motocross é um dos esportes que mais exigem preparo físico no mundo e, de longe, o mais exigente entre os esportes a motor. O fato da Fórmula 1 exigir um certo grau de condicionamento físico me fez sentir atraído pela categoria.

O meu pai não respeitava muito o motociclismo como esporte da mesma forma que nunca achou que o automobilismo era um esporte de verdade.  Ele já foi campeão de salto com vara e também foi dono de uma das primeiras academias de levantamento de peso na Califórnia. Para ele, os esportes reais eram aqueles que existiam em Olimpíadas: natação, atletismo, etc. Meu pai queria que eu ficasse na natação pensando nos Jogos Olímpicos. Se eu quebrasse a perna no esporte a motor, não poderia nadar.

VOCÊ TAMBÉM PARTICIPOU DE ALGUMAS CORRIDAS DE OFF-ROAD, CERTO?

Eu pude disputar algumas corridas durante dois anos porque o amigo de um amigo meu tinha um carro disponível. Ele sabia que eu era meio doidão e não tinha medo de nada. No entanto, eu também sabia dosar os riscos que eu corria. Pilotei um Ford Bronco 68 construído em um chassi tubular. Ele possuía um motor V8 que produzia 450cv.

Disputei corridas num circuito fechado em Carson City, Nevada. Larguei em 30 e venci 27. Não consegui terminar duas devido a problemas mecânicos e bati em uma. Este tipo de circuito incluía alguns saltos e eu capotei duas vezes e meia após sair meio torto de uma curva.

Mesmo assim, eu tive a impressão que as corridas de carro eram bem mais tranquilas do que as de moto. Com quatro rodas e uma estrutura de proteção completa, é evidente que a coisa se torna mais fácil. Nenhuma forma de esporte a motor é mais agressiva do que o motocross. Você aprende a entrar mais agressivamente nas curvas e acelera novamente mais cedo, além de não ter muito o que pensar a não ser tomar a linha correta no meio de um bocado de tráfego.

Eu competi contra Scott Gilman no motocross e o superei, ainda que ele tivesse um orçamento bem maior graças aos pais. Ele foi a Abu Dhabi para disputar corridas de barcos sem qualquer experiência prévia e acabou ganhando cinco títulos. Espero fazer o mesmo na Fórmula 1.

FOI NESSE ACIDENTE QUE VOCÊ MACHUCOU SERIAMENTE SEU PESCOÇO, NÃO É?

Após as capotagens, meu carro ficou de ponta-cabeça e eu machuquei o pescoço devido a um problema com o cinto de segurança. Mas ele é muito saudável, mesmo que o lado esquerdo consiga se esticar um pouco mais que o lado direito. No raio-X, a situação parece um pouco mais dramática, mas o meu pescoço ainda é muito forte e não sinto dor alguma.

Esta é a primeira parte. Amanhã, ou depois, a segunda

 

Durante este período de férias da Fórmula 1, vamos falar um pouco de desenho animado. Gosto deles. Os mais antigos, é claro. Cresci vendo Pernalonga, Tom e Jerry, Pica-Pau, Papa-Léguas e outros desenhos curtos, agressivos e que me ensinaram a explodir salas com dinamites vermelhas, distribuir marretadas em gatos cinzentos e enganar morsas bigodudas. Agradeço por ter nascido na última época em que as crianças ainda eram educadas para a total amoralidade mundana. Hoje, os rebentos assistem ao Discovery Kids e se tornam crianças mimadas, limitadas e alérgicas a tudo.

Cresci e a minha sede pela total falta de escrúpulos e de bons predicados permaneceu viva. A partir do momento em que passamos a ter TV por assinatura em casa, adotei Homer Simpson e sua família. Um gordo amarelo, maquiavélico, mal-educado, alcóolatra, preguiçoso e imbecil me fez aprender a rir da mediocridade, a tolerá-la sem maiores estresses. Homer me ensinou que as pessoas são estúpidas e fazem coisas absurdas para se dar bem, mas o conjunto da obra é sempre positivo.

Mais tarde, South Park. Minha primeira experiência com esse desenho foi um VHS que meu primo gravou da MTV lá pelos idos de 1998, 1999. Para uma criança de dez anos, South Park é apenas um desenho onde todos falam palavrão e qualquer coisa que tem palavrão de graça é engraçado aos olhos desta faixa etária. Conforme você cresce, entende que a saga daquelas quatro crianças do Colorado não é apenas um cotidiano escroto rodeado por um cocô falante ou um professor que muda de sexo o tempo todo.

South Park me ensinou que tudo é ruim e bizarro o suficiente para ser achincalhado. Não há lado político: você pode rir do “hippie liberal babaca” ou do “caipira furioso racista conservador” numa boa. E sempre com alguma musiquinha melosa por trás. “Hoje, eu aprendi que ser pirata na Somália não é uma coisa divertida e cheia de tesouros. No fundo, nós levamos uma boa vida em South Park”, tudo isso com algumas criancinhas assustadas e um bocado de africanos famélicos com rifles nas mãos.

Em 2010, foi exibida a 14ª temporada da série. O oitavo episódio é de especial interesse deste sujeito esverdeado aqui.

Eric Cartman é um dos quatro protagonistas de South Park. O melhor deles. Ele é gordo, não tem pai, odeia minorias, fala merda pra caralho, desrespeita as pessoas, manipula as crianças menos inteligentes, não se constrange em ferrar com os outros para conseguir o que quer e é odiado por todos, especialmente por Kyle Broflowski, o pequeno judeu do grupo. Cartman é o protagonista do episódio que eu vou apresentar, “Poor and Stupid”.

Spoiler? Talvez. Mas não vou contar até o fim, é claro. Você que se vire para assistir. Para quem tem conta no Netflix, é fácil encontrar. Você também pode ficar com a TV ligada na VH1 (que patrocinou a Simtek em 1994) ou no Comedy Central (que nunca patrocinou ninguém), esperando pacientemente pelo episódio.

Tudo começa com o pobre Cartman sentado no corredor da escola, chorando copiosamente. Kyle e Stan Marsh, dois dos protagonistas, se aproximam e perguntam o que aconteceu. “Vocês se lembram de quando o professor pediu pra gente falar do que nós queremos ser quando crescermos?”, perguntou Cartman. “Pois eu nunca vou conseguir realizar o meu sonho”.

– E qual é o seu sonho?

– Ser piloto da NASCAR. Mas eu não tenho jeito pra isso – respondeu Eric, sempre chorando.

– Ah, coitado. Mas, olha, você pode se esforçar e tentar mudar até lá.

– Não, não posso. Eu não sou pobre e estúpido o suficiente para ser piloto da NASCAR.

Kyle e Stan ficam putos da vida. Como assim?

– Vejam o Kenny, por exemplo. Ei, Kenny, você gosta de NASCAR?

– Aham!

– Viram?

Kenny McCormick é o quarto dos protagonistas. Trata-se de um moleque pobre, pervertido e ininteligível que morre em todo episódio. “Oh, my God, they killed Kenny! Bastards!”.

– Cartman, você é pobre e é retardado pra caralho – responde Kyle.

– Ah, Kyle, eu agradeço a força, mas sei que não sou pobre e estúpido o suficiente.

Cartman segue em frente no seu sonho de ser um piloto da NASCAR. Então, ele recorre a Butters Stotch, o meu personagem preferido ao lado de Cartman. Butters é um garoto bonzinho, ingênuo e medroso que sempre é castigado pelo pai e é desrespeitado por todos os demais moleques da escola. Bobinho, Butters sempre aceita participar das bobagens de Cartman. Com o coração aberto e um sincero sorriso no rosto. “Butters, eu preciso ficar pobre e estúpido”.

Para início de conversa, Eric entrega a Butters toda a sua fortuna: 63 dólares. Pronto. Após ter ficado miserável, só faltava a ele ficar totalmente burro. Para isso, Cartman acaba descobrindo, por acaso, que se ele comesse Vagisil, um remédio utilizado para curar doenças venéreas, poderia perder a memória e, portanto, ficaria completamente tapado.

Cartman e Butters vão a um supermercado arranjar Vagisil. Encontram. Só que o desajustado Eric não quis saber: pegou alguns tubos e, ali mesmo, começou a jorrá-los em sua boca. Depois, julgando-se totalmente retardado, ele pegou um carro normal para ver se estava totalmente apto para pilotar um carro da NASCAR. Sem conseguir controlá-lo, Cartman causa um acidente monstruoso e vai parar no hospital. Todos ficam assombrados com o que aconteceu e até mesmo o jornal na televisão comentou sobre a história do tal moleque idiota, levantando o debate sobre a falta de inteligência do fã típico da NASCAR. A fama repentina foi muito boa para Eric Cartman.

O criador da Vagisil ficou impressionado com a publicidade que o balofo gerou ao seu produto e decidiu lhe recompensar. Num belo dia, ele aparece de surpresa na casa de Eric Cartman e lhe dá o presente tão sonhado: um carro da NASCAR totalmente patrocinado pelo remédio. Com isso, o moleque estaria pronto para começar sua carreira de piloto da categoria. Não conto o resto. Assistam. Não é o melhor episódio da história de South Park, mas é muito legal para alguém que gosta de automobilismo. Destaque para a participação especial de alguns pilotos, como Danica Patrick e Dale Earnhardt Jr.

Nos Estados Unidos, até poucos anos atrás, a NASCAR era o esporte que mais crescia no país. Não estou exagerando. Em meados de 2004, ela assinou um contrato de 4,48 bilhões de dólares com a Fox visando ampliar ainda mais a cobertura televisiva da Cup, o certame principal. A categoria, que perdia em popularidade até mesmo para a Indy nos anos 90, se tornou um verdadeiro fenômeno entre os americanos mais tradicionalistas na última década.

Há uma boa explicação sociológica para isso. Ao contrário das categorias de monopostos, que originavam como uma brincadeira de gente rica, a NASCAR surgiu literalmente no submundo americano. Nos anos 30, contrabandistas de álcool (durante um bom tempo, as bebidas alcóolicas foram proibidas nos Estados Unidos ) utilizavam carros velozes para conseguir transportar seu produto e escapar da polícia.

Com a entrada em vigor da 21ª Emenda, que revogava a proibição da venda de álcool, os bandidos decidiram mudar de ramo: empresas que queriam evadir seus lucros passíveis de taxação a outros países recorriam aos fora-da-lei para que estes levassem o dinheiro aos portos de escoamento. Novamente, carros possantes eram utilizados para a tarefa.

Com o recrudescimento da vigilância fiscal, os carros ficaram sem uso por algum tempo até que alguém percebeu que daria para realizar corridas muito legais com eles. Durante anos, a cidade de Daytona Beach, localizada na Flórida, sediou várias corridas de rua em que participavam pessoas e carros do país inteiro. As provas acabaram ganhando notoriedade e um dos pilotos, um certo Bill France, decidiu estruturar melhor o calendário dos eventos. Em 1947, France fundou a National Championship Stock Car Series, que é basicamente o embrião da NASCAR Sprint Cup que temos hoje em dia.

A base administrativa e comercial da NASCAR se encontra no sul dos Estados Unidos. A sede da categoria ainda está localizada em Daytona Beach, FL. Quase todas as equipes surgiram na Carolina do Norte, mais precisamente em Charlotte. A maioria das corridas é realizada nos estados sulistas. Logo, não seria estranho se a esmagadora maioria dos fãs viesse dessa região. E sabemos bem quem são estes fãs.

Já ouviu falar do redneck? É aquele cara quarentão, barbudo, branquelo, muito alto e totalmente obeso que vive em uma enorme casa no campo, coleciona armas, dirige uma picape F150, frequenta alguma igreja batista ou presbiteriana, bebe cerveja, vota no Partido Republicano, tem um sotaque bem estranho, não gosta de pagar impostos e se mostra contrário às coisas ditas progressistas, como mulheres usando saia curta.

Muita gente tem tudo contra eles, a começar pelo inabalável ranço conservador. Eu não consigo ser contrário a um monte de barnabés ruivos que só querem viver na deles, com sua cerveja e sua picape, desejando a tranquilidade que apenas o provincianismo sulista poderia proporcionar. O redneck só grita quando alguém o incomoda, seja o esquilo que rói suas calças cargo ou o governante democrata que anuncia aumento de impostos para financiar alguma coisa lá na puta que o pariu de Massachusetts. É, em suma, um ermitão. O que você faz com um ermitão? Deixa-o em paz.

A grande maioria dos fãs da NASCAR segue exatamente este arquétipo, considerado estúpido e pobre por Eric Cartman. Na pirâmide social americana, o redneck é considerado um típico integrante da classe média baixa. Com relação à educação, o sujeito definitivamente passa longe de algum curso de Business ou Engineering em Harvard ou no MIT. Sua escola é a da vida.

Sinceramente, acho que a imagem do “fã da NASCAR” é um pouco superestimada por aqueles que se incomodam em demasiado com os caipiras sulistas. Como disse lá em cima, não tenho muito em comum com eles, tirando talvez o desprezo aos democratas. Para mim, uma vida boa seria aquela no centro de uma velha cidade europeia, com direito a vinho, uma TV ligada em um jogo do campeonato britânico e um pouco de britpop. Mas e se o sujeito quiser apenas viver no meio do mato, longe do urbanismo, da modernidade, das tendências, do politicamente correto, enclausurado em seu peculiar porém confortável mundo? Porque achamos Woodstock o máximo e condenamos o caipira americano, sendo que ambos, no fundo, são apenas tipos que querem viver suas vidas isolados das interferências externas?

Eric Cartman é um filho da puta que julga mal todos que gostam da NASCAR, do mesmo jeito que ele não gosta de judeus e de Scott Tenorman. Aliás, assista também o episódio “Scott Tenorman Must Die”. Depois, me agradeçam.

Imagem que circula pela internet sobre um layout ideal para a USF1. Uma equipe americana ideal deveria ser mais ou menos assim

Conto-lhes uma pequena história. Ela é relacionada às Olimpíadas. Sabe o Dream Team, a famosa seleção americana de basquete que venceu de maneira avassaladora as Olimpíadas de 1992, fazendo uma inacreditável média de 44 pontos a mais que os adversários? Conto como a ideia de montar um grupo que incluía Michael Jordan, Magic Johnson e Karl Malone, um verdadeiro “time dos sonhos”, surgiu.

Até 1989, os países não podiam escalar jogadores profissionais de basquete para suas seleções oficiais, aquelas que disputavam as competições sancionadas pela FIBA. Motivos? A óbvia disparidade técnica entre uma seleção com os melhores dos EUA e as demais seleções provavelmente era um deles. Outro seria a má vontade das ligas nacionais de basquete, que não aceitariam ceder de bandeja seus melhores jogadores para as competições internacionais. Imagine se Michael Jordan estourasse o ombro num jogo contra a Bulgária, por exemplo? Portanto, as seleções só poderiam participar de Olimpíadas e caterva com amadores e universitários, aqueles que praticam esportes apenas para comer a cheer girl loirinha.

Só que alguns fatos não correlatos levaram às mudanças que, enfim, resultaram no Dream Team. Em 1987, de maneira surpreendente, a seleção brasileira fez talvez o melhor jogo de sua história e obteve uma improvável vitória contra os Estados Unidos em plena cidade de Indianápolis. Era a final do basquete masculino dos Jogos Pan-Americanos daquele ano e a surpresa foi tamanha que a organização não tinha sequer o hino nacional brasileiro para executar. No ano seguinte, nas Olimpíadas de Seul, os Estados Unidos perderam para a União Soviética na semifinal e acabou tendo de se contentar com uma humilhante medalha de bronze. Aí, não.

Em abril de 1989, a FIBA começou a estudar a possibilidade de permitir que os jogadores das ligas profissionais integrassem as seleções. Num congresso realizado na Finlândia, esta ideia foi submetida à votação. A Grécia se absteve do voto por acreditar que isso levaria à “excessiva comercialização do basquete”. Treze países foram contrários à ideia, incluindo aí, curiosamente, os Estados Unidos e a União Soviética. Mas os demais 56 países votaram a favor e, já a partir da próxima competição, os países puderam escalar seus melhores jogadores profissionais para disputar o que fosse.

Os Estados Unidos foram contra porque não queriam ver seus jogadores tendo problemas com contusões em jogos de seleção. Perder um Michael Jordan significava perder dinheiro. Por outro lado, se as seleções utilizariam os melhores jogadores de seus respectivos países, os americanos não poderiam arriscar em não fazer o mesmo. Repetir a derrota para o Brasil no Pan-Americano ou, pior ainda, para os comunistas nas Olimpíadas não pegaria bem. Já que as regras eram aquelas, o negócio era apelar de uma vez e juntar os melhores jogadores da NBA num balaio só. Após muito trabalho para conseguir a liberação dos grandes times, os americanos conseguiram reunir a fina flor do seu basquete para disputar os Jogos Olímpicos de 1992. O resto da história todo mundo sabe.

Mas por que toda essa aula? Sei lá, precisava escrever uma introdução. Quero falar apenas de uma vontade pessoal.

Recentemente, surgiu um boato de que a Coca-Cola, aquela, substituiria a Vodafone no papel de principal patrocinadora da McLaren a partir de 2014. Gigante britânica das comunicações, a Vodafone injeta cerca de 60 milhões de euros anuais na equipe de Lewis Hamilton desde2 007, mas a má e velha crise teria obrigado a empresa a “realocar seus gastos em áreas mais sensíveis“, frase prolixa e inútil que certamente deve ter circulado por lá. Mas tudo bem. Refrigerante é sempre algo mais agradável que celular.

Circuit of the Americas, a milésima tentativa de Bernie Ecclestone para conquistar o coração dos americanos

A presença de uma marca global como a Coca-Cola seria uma boa para uma categoria que flerta com os Estados Unidos há uns milhares de anos. Neste ano, a Fórmula 1 desembarcará no Texas e realizará seu primeiro grande prêmio no portentoso, aparatoso e cheiroso Circuit of the Americas. No ano que vem, quem receberá uma corrida pela primeira vez será o estado de New Jersey, que realizará uma corrida de rua tendo como cenário a skyline de Manhattan. Ou seja, tem corrida pro redneck gordão republicano e pro vegan bi-curioso democrata.

Há alguns dias, o sempre preciso Humberto Corradi afirmou, em seu habitual tom de mistério, que uma 13ª equipe poderia integrar a Fórmula 1 a partir de 2014. Sem dar mais informações, o blogueiro afirmou apenas que se trata de peixe grande e o próprio Bernie Ecclestone já teria dado sinal verde para a entrada desta equipe. Peixe grande? Aprovação de Bernie? Eu só consigo pensar numa equipe asiática. Ou americana.

Ao contrário da maioria das pessoas da minha idade, eu gosto dos Estados Unidos. Gosto da Indy. Aprendi a gostar um pouco da NASCAR. Gosto de hambúrguer e MMs. Gosto de algumas de suas séries enlatadas com risadas de fundo. Gosto dos seus carros enormes e beberrões. Gosto da bandeira. Gosto daquela fanfarrice marqueteira e efusiva típica. Gosto do dinamismo e da urbanidade extrema de Nova York. Gosto da tranquilidade da fazendinha localizada no interior do Iowa. Podem me chamar do que for. Você também gosta de um monte de coisas que vieram de lá.

Ultimamente, ando meio vidrado com essa coisa de automobilismo americano. Os caras sabem fazer das corridas um negócio divertido, rentável e popular. Ao contrário dos europeus, que não descem do salto mesmo nos dias menos frutíferos, os ianques desenvolveram um automobilismo mais democrático, livre e espetacular. Penso, obviamente, na NASCAR e na Indy das antigas, embora a Indy atual esteja se esforçando bastante para voltar a ser relevante. Enquanto isso, a Fórmula 1 se fecha cada vez mais no seu antipático clubinho VIP, composto por xeiques barbudos e criminosos do colarinho branco.

Posso parecer um tanto irreal, já que a Indy é ignorada pelo povão e a NASCAR passa por um momento decadente, mas devemos admitir que a vida não está fácil para ninguém. Porque quando a grana está mais abundante, o automobilismo dos States esbanja diversão e show. Você pode gostar do lado mais técnico, de analisar os carros pelo coeficiente aerodinâmico ou pelo virabrequim mais bonitinho. Eu sou burrão. Gosto mesmo é de ver engavetamento, drama e Dr. Jack Miller arremessando pasta de dente Crest para os espectadores em Indianápolis.

A Fórmula 1 só dará certo nos Estados Unidos no dia em que entender que os americanos pensam mais ou menos como eu. Não adianta erguer um monumento à ostentação no meio do Texas, um estado onde todo mundo é meio ogro. Não adianta achar que os americanos ficarão empolgados por muito tempo com as disputas entre um espanhol rabudo, um rapper, o Chris Martin, o Crocodilo Dundee, um alemão com cara de atraso mental e um finlandês chapado. Não adianta pensar que só o DRS e o pneu Pirelli feito de borracha escolar serão suficientes para prender as atenções de quem só está preocupado em sair com a família para ver uns carros se destruírem enquanto bebe uma Coors quente.

Falta uma equipe americana, por exemplo. Americana de verdade. Mais do que a Ganassi ou a Hendrick. Num mundo ideal, existiria uma. Um verdadeiro Dream Team.

O carro que a equipe americana utilizou na temporada 2006-2007 da A1GP, com direito a Burger King. Essa é uma pintura que um carro americano que se preze deveria utilizar

Eu conto a vocês o que gostaria de ver. Para começar, o nome. Um bem chamativo e pretensioso, quase brega. American Stars Motorsport, por exemplo. Poderíamos reduzi-lo para ASM. Alguém poderia se lembrar que existia uma ASM na Fórmula 3 há alguns anos. Pois ela virou ART e hoje é a tal Lotus GP. Portanto, a única ASM que existiria seria a American Stars Motorsport. Gostei desse nome. Preciso patenteá-lo.

A American Stars Motorsport seria comandada por Gary Geraldson, um branquelo de 1m85 e 150kg que não vive sem seu chapéu de caubói e o charuto na boca. Nascido no Tennessee, Geraldson é um cara que se mudou com a família para o Texas aos oito anos de idade. Num lance de extrema cagada, seu pai encontrou petróleo no quintal e os Geraldson se tornaram multimilionários do dia para a noite. Hoje, aos 52 anos, Gary é o cara que administra todos os negócios da família.

Nas horas vagas, Geraldson se diverte comendo frango frito, caçando raposas ou acompanhando o automobilismo. Como seu físico de 150kg é um pouquinho destoante do recomendável para um piloto de corridas, restou a ele assistir às corridas de longe. Seu negócio sempre foi a NASCAR, mas o magnata se apaixonou pela Fórmula 1 após assistir o GP dos EUA de 2007, vencido por Lewis Hamilton. De lá para cá, Gary decidiu criar sua própria equipe para disputar freadas contra Ferrari e McLaren.

A American Stars Motorsport surge como a escuderia mais rica da Fórmula 1. O orçamento extrapola a casa do meio bilhão de dólares graças não somente ao petróleo de Geraldson mas também aos patrocinadores – e que patrocinadores!

O que você acha de uma equipe apoiada pela American Airlines, pela Coca-Cola, pelo McDonald’s, pelo Bank of America, pelo Wal-Mart, pela FedEx e pela AT&T? Pois é, graças aos bons contatos de Geraldson com a elite empresarial americana, seu carro está lotado de decalques de grandes empresas. A American Airlines seria a principal patrocinadora.

É óbvio que uma típica equipe americana não poderia deixar de ter aqueles milhões de minúsculos patrocinadores técnicos que aparecem na lateral do carro, assim como acontece na NASCAR. Marcas como GE, 3M, K&N, Craftsman, Sunoco e outras estariam ali, entre o cockpit e o bico, disputando espaços caríssimos de não mais do que alguns cm². Bólido nenhum no grid tem mais adesivos do que o da American Stars. Uma verdadeira lista telefônica.

A pintura, é claro, será inspirada na bandeira americana. O carro será majoritariamente branco, mas terá várias partes em azul e vermelho. Nas partes em azul, haverá aquelas estrelinhas brancas que indicam os estados. No bico, haverá uma águia, animal simbolizado no brasão americano. Seria uma mistura das duas fotos que ilustram este post, o carro dos EUA na A1GP e o layout que algum desocupado criou para a finada USF1.

Kyle Busch, um bom piloto para chamar a atenção dos americanos

O carro será chamado de USA-1, nome não muito criativo, mas bastante claro. A gasolina será Esso e o motor será Ford, sem essas frescuras britânicas de Cosworth. Só o pneu terá de ser Pirelli, o que desagrada bastante o nacionalista Geraldson, que adoraria trazer a Goodyear de volta à Fórmula 1.

A sede da equipe ficará num moderno e gigantesco galpão construído dentro de uma prosaica fazenda no interior do Texas. Fuligem de fibra de carbono misturada com quirera de milho, é isso aí. Lá dentro, cerca de 200 funcionários tão obesos, branquelos e presbiterianos como Mr. Geraldson constroem o tão sonhado USA-1. A bandeira americana está sempre presente, assim como as máquinas de Coca-Cola e a minifilial do McDonald’s no refeitório.

A dupla de pilotos. Marqueteiro como poucos, Geraldson queria Danica Patrick e Kyle Busch como pilotos. Só que ele também não é idiota o bastante para largar a equipe na mão de dois briguentos egocêntricos do caralho. Danica acabou virando apenas a mocinha do calendário pregado no galpão texano. O pragmatismo acabou falando mais alto e o midiático Kyle Busch teria como companheiro o discreto e eficiente Ryan Hunter-Reay, piloto de Dallas que trabalharia como líder da equipe. O terceiro piloto seria o jovem Austin Dillon, um dos destaques das categorias de base da NASCAR.

Com patrocinadores fortes, apoio da Ford, Kyle Busch, Ryan Hunter-Reay e um espírito totalmente ianque, a American Stars Motorsport só precisava da atenção e do carinho do americano médio. Ousado, Mr. Geraldson decidiu anunciar a estreia de sua equipe na televisão. Comprou dois minutos do intervalo do Superbowl (!) para veicular um comercial piegas pra caramba sobre o sonho americano, os desafios da Fórmula 1, o projeto de Gary Geraldson, essas baboseiras. Na mosca: todo mundo passou a saber que um homem patriota e valoroso levaria as stars and stripes à Fórmula 1. Mais ainda: todo mundo descobriu que havia um troço chamado Fórmula 1.

O marketing não acabou por aí. Jornais, revistas e televisões continuaram vinculando material da American Stars até o início da temporada. Um canal no Youtube e uma página no Facebook foram criadas para mostrar tudo sobre a equipe: a vida pacata de Hunter-Reay, o trabalho no galpão, entrevistas com Gary Geraldson, curiosidades banais e por aí vai. Aos poucos a ASM se torna a escuderia mais popular nas redes sociais. Os americanos ficaram extremamente empolgados com a possibilidade de poder derrotar Sebastian Vettel e Fernando Alonso na casa deles.

No fim das contas, a ASM deu certo? Provavelmente não. Na certa, deve ter tido o mesmo fim inglório de USF1 e Lola-Haas. Após uns quatro anos, todos os patrocinadores devem ter caído fora e a patriótica American Stars provavelmente acabou tendo de contratar o chavista Ernesto Viso e o chinês Ho-Pin Tung. Mas não interessa. Só queria mostrar a vocês que tipo de equipe que eu gostaria de ver ocupando a 13ª vaga lá na frente.

Os EUA precisam, sim, de uma representação na Fórmula 1. Mas que seja uma equipe americana feita por americanos pensando no público americano: obesa, branquela e presbiteriana.

Não deu. De novo. Ontem, o presidente do novíssimo, grandíssimo e indefinidíssimo Circuito das Américas anunciou que não haverá corrida de Fórmula 1 por lá em 2012. Talvez haja em 2013, mas que ninguém ponha muita fé nisso, até porque o mundo obviamente acabará antes. O nascente autódromo de Austin, que marcaria o retorno da categoria euroasiática aos Estados Unidos após cinco anos, teve suas obras sumariamente interrompidas há alguns dias. Havia um diz-que-me-diz que envolvia os promotores do GP, os chefões do novo circuito, o governo texano e Bernie Ecclestone. Não quero entrar em detalhes enfadonhos. Faltava um contrato que pudesse garantir a realização da prova em Austin no ano que vem. Havia uma tratativa provisória, mas nada assinado e registrado em cartório.

Nada disso interessa a nós, pois. O que acontece é que não teremos mais Fórmula 1 nos Estados Unidos no ano da graça de 2012. Não que isso nos faça tanta falta. Já ficamos sem Spa-Francorchamps, Suzuka, Monza, Montreal e nada aconteceu. Já perdemos Österreichring, o antigo Hockenheim e o antigo Interlagos e nada aconteceu. Nunca tivemos Enna-Pergusa e a Fórmula 1 não deixou de ser grandiosa por causa disso. Uma corridinha a mais ou a menos em mais uma pista tilkeana com cara de filme de sci-fi não é o que resolverá os problemas da humanidade.

Os americanos, então, estão pouco se lixando. No Twitter, procurei saber se o cancelamento da corrida era um assunto muito debatido pelas multidões ianques. Não era. Em Austin, o assunto mais comentado era um show do Green Day. Faz bastante sentido. A Fórmula 1 nunca deu certo nos Estados Unidos, terra dos american idiots. Não foi por falta de esforço. Ela já tentou realizar até três corridas por lá em um mesmo ano. Ela já tentou empregar astros do automobilismo americano. Ela já tentou dar vida a uma equipe nacional, a abortada USF1. Nada funcionou. O Top Cinq de hoje enumera alguns motivos para isso.

5- FALTA DE DINHEIRO

Falar em falta de dinheiro no país que produz 15 trilhões de dólares anuais e que cultiva a ideologia do american dream soa muito estranho. Mas é isso mesmo, caros primatas. O dinheiro que sobra nos esportes nacionais simplesmente não dá as caras naquele esporte elitista, enfadonho e mofino que os europeus tanto acham graça. Os americanos até possuem os dólares, mas simplesmente não estão dispostos a gastá-los com a Fórmula 1.

O circuito de Austin é um exemplo bem claro disso. Os diretores do autódromo precisavam pagar o adiantamento de 25 milhões de dólares a Bernie Ecclestone, que é mau e impiedoso. O governo texano, comandado pelo conservador fiscal e candidato à presidência Rick Perry, prometeu os 25 milhões sem grandes problemas. Apesar de republicano e austero, Perry é um desses sujeitos que liberam dinheiro público com facilidade a projetos que lhe convêm. Os texanos, que odeiam que um maldito burocrata coloque as mãos em seu dinheiro suado, protestaram. Não por acaso, a maioria deles era contra a realização da corrida.

De repente, o governo estadual decidiu cortar os 25 milhões e a festa acabou. É a segunda vez que um grande projeto americano morre de inanição. Para quem não se lembra, a USF1 foi limada da temporada 2010 após não conseguir reunir nada além de um jornalista picareta (Peter Windsor), um engenheiro de segunda (Ken Anderson), um sócio otário (Chad Hurley), alguns mecânicos, um bico de carro e um canal no Youtube. O que faltou? Credibilidade. E dinheiro. Como nenhuma empresa americana se interessou pela equipe, Windsor e Anderson tiveram de vender um carro ao argentino José-Maria Lopez , que estamparia um humilhante adesivo do governo Kirchner no Type 1. Ao invés de Coca-Cola e McDonald’s, churrasco.

O problema financeiro não é novo. Em 1980, o circuito de Watkins Glen devia 800 mil dólares em premiações às equipes de Fórmula 1. Sem ter como pagar, o autódromo pediu concordata e ficou fechado por algum tempo. Alguns anos depois, a equipe Lola Haas se orgulhava de ter o pomposo patrocínio da gigante de alimentos Beatrice. Infelizmente, uma troca de presidentes mudou os planos da Beatrice, que anunciou redução e posterior retirada de patrocínio. Com isso, a equipe de Carl Haas se viu sem patrocínio, não conseguiu nenhum outro apoio nos EUA e acabou após um ano e pouco. Quem disse que dinheiro é fácil na terra do sonho?

4- DESINTERESSE

No ano passado, as 500 Milhas de Indianápolis alcançaram sua pior pontuação na história do índice Nielsen, equivalente ao IBOPE brasileiro. Cerca de 5,7 milhões de americanos acompanharam a corrida pela Versus, o que representou míseros 3,6 pontos Nielsen. As demais corridas daquela temporada da IndyCar Series não ultrapassaram um ponto na audiência. E as arquibancadas não apresentaram números muito melhores. Com exceção das 500 Milhas, as etapas da Indy raramente contaram com mais de 100 mil pessoas. Kentucky cairá fora da próxima temporada porque reuniu míseros 20 mil pagantes. Em Milwaukee, apenas 15 mil se deram ao trabalho de comparecer.

Os números são bem mais rotundos quando falamos em NASCAR, especialmente a Sprint Cup. As 500 Milhas de Daytona tiveram audiência de 8,6 pontos (quase 16 milhões de telespectadores) e 182 mil espectadores acompanharam pessoalmente. As demais etapas registram audiência média entre quatro e cinco pontos Nielsen. Detalhe: ela vinha caindo nos últimos três anos. Dá para sentir a força da NASCAR sobre a Indy. Mesmo assim, não dá para comparar sua audiência com a de outros esportes, como a liga de basquete da NBA, cujas partidas raramente ficam abaixo dos dez pontos Nielsen.

Se a NASCAR redneck, republicana e obesa fica muito abaixo do basquete, do beisebol e do futebol americano na preferência do americano médio e se a ainda americaníssima Indy fica dramaticamente atrás da NASCAR na preferência automobilística local, qual é o espaço real da Fórmula 1, que pouco tem a ver com o típico ianque?

Depende muito da pista e da ocasião, mas o fato é que os Estados Unidos até têm muita gente disposta a assistir às corridas, só que eles não são tão representativos. Em 2000, nada menos que 230 mil pessoas assistiram ao primeiro GP dos Estados Unidos em Indianápolis. Foi um número animador e único, pois a audiência só despencou nos anos seguintes, quando a corrida já não era mais uma novidade exótica. Em 2007, 120 mil pessoas compareceram. Ainda assim, um número ainda animador e que não foi repetido em nenhum outro lugar. Nos circuitos de rua, a audiência era irregular: podia chegar a 80 mil pessoas em um ano e a 18 mil em outro, como aconteceu com o GP dos EUA de 1991. Só lembrando: boa parte da audiência da Fórmula 1 nos Estados Unidos é composta por latinos e por gente vinda de fora.

3- POLÊMICAS E ERROS

Deve existir algum fantasma soviético, japonês, árabe ou britânico que amaldiçoe a presença da Fórmula 1 nos Estados Unidos. Sempre acontece algo de errado por lá. Sempre. A possibilidade de haver uma corrida que dê totalmente certo é algo absolutamente descartado. Fico até aliviado que não haja corrida em Austin. Imagino Mark Webber voando naquele retão de Bonneville e caindo em cima de uns carros estacionados lá fora.

Nem sei por onde começar. O acontecimento mais nonsense, de longe, foi o de 2005. Como a Michelin não teve competência para confeccionar um pneu que resistisse à curva 13 de Indianápolis, a fábrica francesa recomendou a todos os seus clientes que não participassem da corrida. Os clientes em questão loteavam nada menos que 70% do grid. Obedientes, eles entraram na pista, fizeram a volta de apresentação e recolheram seus carros para os boxes. Resultado: apenas os seis carros com pneus Bridgestone – Ferrari, Jordan e Minardi – largaram para a corrida. 80 mil espectadores ficaram revoltadíssimos com o que viram. Quem não se esquece da cena do cara que jogou uma garrafa no meio da pista enquanto ia embora?

Em 2002, a mesma pista de Indianápolis presenciou uma das chegadas mais patéticas da história da Fórmula 1. Os ferraristas Michael Schumacher e Rubens Barrichello, que corriam nesta ordem, se aproximaram da linha de chegada quase emparelhados. A intenção era cruzar a brickyard no melhor estilo Le Mans. Só que Schumacher errou, freou demais e acabou entregando a vitória de presente a Barrichello. Os americanos ficaram com cara de tacho, mas alguns brasileiros nacionalistas e patéticos comemoraram. “A dívida está paga”, disse o narrador oficial, referindo-se à marmelada austríaca.

Quando a Fórmula 1 correu em Phoenix, havia duas questões bem incômodas: o clima e o limite de tempo. Em 1989, os pobres pilotos tiveram de disputar uma longuíssima e dificílima corrida sob o calor de quase 40°C em pleno verão no deserto do Arizona. Um grotesco erro de cálculo fez a corrida ter 81 voltas, mas apenas 75 puderam ser completadas em duas horas. No ano seguinte, a organização decidiu realizar a corrida em março, visando evitar o verão americano, e reduziu o número de voltas para 72. Deu muito certo, mas o limite de tempo voltou a ser extrapolado no ano seguinte, quando o número de voltas foi aumentado para 82. Ayrton Senna venceu após 81 voltas.

Entre erros de organização (boxes apertadíssimos em Caesar’s Palace), resultados polêmicos (ainda há quem ache que Michael Schumacher deveria ter perdido a vitória da corrida de 2003 por ultrapassagem em bandeira amarela) e azares (um acidente na largada da prova de 2006 deixou os espectadores acompanhando pouco mais de dez carros na pista), muita coisa falhou nos Estados Unidos. O Pacheco diria “ah, se fosse no Brasil…”

2- PISTAS RUINS

Os Estados Unidos são, com alguma folga, o país com o maior número de autódromos no mundo. Só de ovais, existem mais de mil. De circuitos mistos, o país também está muito bem servido. Ele tem Elkhart Lake, Road Atlanta, Mid-Ohio, Laguna Seca, Watkins Glen, Sebring, Lime Rock, Homestead, Daytona, Portland, Sonoma, Indianápolis, Alabama e por aí vai. Então, por que diabos a Fórmula 1 tem tanta dificuldade para permanecer no calendário com uma pista boa e aceita pelo público em geral?

Você deve ter uma resposta na ponta da língua. Boa parte das pistas americanas que sediaram alguma corrida de Fórmula 1 é de rua, citadina, dessas que atrapalham a dinâmica da cidade. Em 1976, o respeitabilíssimo circuito de Long Beach estreou no calendário da categoria. A pista era uma beleza, desafiadora e nem tão travada. O público californiano, que só quer se divertir, adorou e o número de espectadores só crescia a cada ano. Enfim, estava tudo bem, mas havia um enorme problema financeiro aí. Chris Pook, o organizador da corrida, achava que a prova de Fórmula 1 era muito cara. Então, para 1984, foi anunciado que Long Beach passaria a receber corridas da Indy, mais populares e menos dispendiosas.

Long Beach foi uma boa exceção. Caesar’s Palace, que sediou a última etapa das temporadas 1982 e 1983, era uma pista chatíssima com boxes apertadíssimos. Dallas era outra merda que só ficou eternizada pelo desmaio de Nigel Mansell na linha de chegada. Detroit era detestada por quase todos e sua única vantagem era o belíssimo cenário. Eu gosto de Phoenix, mas sei que sou exceção. Em comum, todas estas pistas eram incapazes de realizar boas corridas e de atrair o mesmo público de Long Beach e Watkins Glen.

Falando em The Glen, e as pistas permanentes? Os primeiros GPs foram realizados nos autódromos de Sebring e Riverside. Eu nunca liguei para Sebring, mas gosto demais de Riverside, típica pista americana de alta velocidade do pós-guerra. Ambas realizaram corridas boas e bem-frequentadas, mas sucumbiram à falta de dinheiro. Depois delas, Watkins Glen permaneceu no calendário com um traçado excelente, um público fiel e corridas sensacionais. Infelizmente, faliu no início dos anos 80.

Indianápolis foi o último circuito misto a sediar o GP. Era uma coisa esquisita, água com óleo: um trecho misto bastante estreito, sinuoso e lento ligado a um considerável trecho da pista oval. Os engenheiros se confundiam na hora de acertar o carro, pois tinham de privilegiar uma ou outra parte. As corridas eram muito boas e o público, apesar de declinante a cada ano que passava, era muito bom. Enfim, eu gostava. Não eram muitos, no entanto, que compartilhavam desta opinião. Acabou caindo fora por problemas financeiros e pelas polêmicas sucessivas.

Austin? Uma pista tilkeana em um país que simplesmente ignora a existência de Hermann Tilke. Sinceramente, não sei se daria certo. Americanos gostam de pistas mais selvagens, menos frescurentas, e este não parecia ser o caso do Circuito das Américas. Pode funcionar no Quirguistão ou no Vietnã, mas não na terra do Tio Sam.

1- AUTOMOBILISMO ALIENÍGENA

Um europeu é aquele sujeito magro que usa óculos e echarpe, que bebe vinho, que escuta Oasis, que anda de bicicleta, que ri de Monty Python e que torce pro Jenson Button na Fórmula 1. Um americano é aquele sujeito absurdamente gordo e protestante que usa boné e camiseta, que coleciona armas, que escuta Johnny Cash, que mora em uma enorme casa com quintal no Tennessee, que anda de Ford F150 e que torce pro Kevin Harvick na NASCAR. Você não precisa ser um antropólogo para perceber certa diferença de universos aí.

Por mais que a Fórmula 1 se esforce trazendo o Kyle Busch e a Danica Patrick pelada para a Ferrari, por mais que ela incentive a criação de equipes da GM e da Ford patrocinadas pela Coca-Cola e pelo Exército, por mais que ela promova dez corridas americanas em uma mesma temporada, por mais que ela injete dinheiro no país, por mais que ela consiga evitar as polêmicas e os problemas, por mais que tudo dê certo e que os deuses abençoem a Fórmula 1 na América, nada dará certo? E sabe o porquê? Porque a Fórmula 1 não pertence a este mundo.

Americanos são muito orgulhosos e egocêntricos. O Superbowl, para se ter uma ideia, é considerado um evento mundial por eles. O basquete, o beisebol e o futebol americano são os esportes mais admirados no país simplesmente porque os Estados Unidos mandam neles. E, verdade seja dita, os ianques nunca foram nada na Fórmula 1. Eddie Cheever disputou um bocado de corridas nos anos 80, mas e daí? Michael Andretti foi contratado a peso de ouro pela McLaren e só passou vexame. Scott Speed tem nome, discurso e jeito de piloto campeão, só faltou ter sido campeão. Os campeões, Mario Andretti e Phil Hill, ficaram lá para trás. E o Andrettão nem é americano. Nasceu em uma cidadezinha que fica na divisa da Itália com a Croácia. Ele está mais para Tito do que para Reagan.

Se a Fórmula 1 quer dar certo nos Estados Unidos, ela deverá mudar praticamente tudo. Os grids deverão passar a ter 30 ou 40 carros, todos eles coloridos e muito bem patrocinados por grandes empresas. Os pilotos, obesos e com cara de ontem, deverão se comportar como estrelinhas pop que alimentam altas rivalidades no Twitter e trocam uns socos ocasionalmente. Nas arquibancadas, vendedores de cachorro-quente e cerveja Coors. Os acidentes fazem parte do show e a bandeira amarela deve ser acionada sempre que o diretor de prova tiver vontade de ir ao banheiro.

Parece brincadeira? Não é. Americanos não gostam de frescuras e, cá entre nós, a Fórmula 1 está repleta delas.

Nesse próximo final de semana, Daniel Ricciardo será o mais novo estreante das corridas de Fórmula 1. O australiano de 22 anos recém-completados fará seu début no precário Hispania-Cosworth F111 em Silverstone. Ricciardo substituirá o indiano Narain Karthikeyan na árdua, terrível e ingrata tarefa de levar o carro vermelho, branco e preto a algum lugar que não a área de escape. Quem está financiando tudo é a Red Bull, que quer dar um pouco de quilometragem ao seu pupilo antes de colocá-lo em uma de suas duas equipes. Até mesmo a Hispania serve.

Um australiano fazendo sua estreia na pior equipe da Fórmula 1. Seria uma história se repetindo? Há 21 anos, um sujeito nascido em Londres por circunstâncias extemporâneas e naturalizado aussie mergulhou em uma das maiores furadas da história do automobilismo. Com vocês, Gary Brabham.

Filho do tricampeão Jack Brabham, Gary arriscou a vida e a reputação conduzindo um lamentável Life L190 nas pré-qualificações dos Grandes Prêmios dos Estados Unidos e do Brasil de 1990. Em nenhuma das ocasiões, ele conseguiu passar para os treinos oficiais. Pior ainda: em nenhuma das ocasiões, ele conseguiu fazer uma volta realmente rápida. Mas esta era apenas a ponta do iceberg. Os números não são capazes de mostrar como absolutamente tudo ali era patético.

Gary iniciou sua carreira na Fórmula Ford australiana em 1982. Demonstrando enorme talento, ele conseguiu quebrar o recorde da pista de Sandown com um carro de nove anos de idade! Nos anos seguintes, Brabham migrou para a Europa e obteve bons resultados na Fórmula 3 britânica, sagrando-se vice-campeão em 1988. Após isso, ele pulou para a Fórmula 3000 Britânica (não confundam com o certame internacional) e ganhou quatro corridas com a Bromley Motorsport, equipe que havia feito Roberto Moreno campeão na Fórmula 3000 Internacional no ano anterior. Tudo indicava que Gary Brabham havia herdado o talento do pai.

Eu sou daqueles sujeitos insensíveis que acreditam na superioridade inegável da razão sobre a emoção por um único motivo: a emoção nos leva a tomar decisões absurdas e incorrigíveis. Após ganhar a Fórmula 3000 Britânica, Gary Brabham recebeu um convite para correr na Fórmula 3000 Japonesa, que também não tinha nada a ver com suas irmãs europeias. Naqueles tempos, ninguém no automobilismo via a ilhota do Extremo Oriente com bons olhos. Ir para lá significava enterrar a carreira antes mesmo dela engrenar, por mais que os ienes fossem abundantes e as prostitutas japas fossem mais fáceis. Não valia a pena.

Brabham tinha outros planos em mente. Ele queria correr na Fórmula 1. Na verdade, trabalhar como piloto de testes já estava bom demais. Por ter vencido um campeonato de Fórmula 3000, a FISA o havia agraciado com uma superlicença novinha em folha. Além disso, ele já havia feito um teste com um Benetton B188 no fim de 1988. Logo, dava para sonhar, por que não?

O problema é que, mesmo que a Fórmula 1 de vinte anos atrás tivesse quase quarenta carros inscritos, não era tão fácil assim achar vagas por lá. Em janeiro de 1990, a esmagadora maioria das equipes já tinha definido seus pilotos. A melhor vaga disponível era a de segundo piloto da Dallara, muito mais disputada do que sedutora. Na verdade, equipes como a Brabham, a Onyx e a Coloni não sabiam se teriam condições de seguir na Fórmula 1 em 1990. O que fazer então, Gary?

No fim de janeiro, Gary recebe uma misteriosa ligação. Uma nova equipe de Fórmula 1, sediada na vila italiana de Formigne, estava o convidando para dar um pulo em sua sede, comer uns profiteroles e discutir sobre uma possível associação para 1990. A tal equipe se chamava Life Racing Engines e era comandada por Ernesto Vita.

Ernesto Vita era um industrial italiano que acreditava que poderia faturar horrores com um projeto mirabolante, um motor W12 desenvolvido por Franco Rocchi, ex-engenheiro da Ferrari nos anos 60 e especialista em motores abundantes em cilindros. Esse motor era uma esquisitice como poucos. Vita e Rocchi propagandeavam que um W12 uniria a vantagem de ser compacto como um V8 com a maior capacidade de giros por minuto de um motor de 12 cilindros. A unidade, que tinha formato de flecha, era formada por três arranjos de quatro cilindros cada. Para pesadelo de aerodinamicistas, o motor tinha angulação de 60° e inaceitáveis 154kg de peso. E, em teoria, a versão inicial não passaria de 360cv e 12.500 giros por minuto.

No final dos anos 80, Vita e Rocchi circularam pelos paddocks da Fórmula 1 oferecendo o tal motor a todo mundo como se fossem vendedores ambulantes de livros. Como ninguém era doido o suficiente para aceitá-lo, os dois amigos decidiram fundar uma equipe unicamente para colocar sua obra-prima em funcionamento.

Vita e Rocchi compraram o carro que seria utilizado pela First Racing em 1989, terceirizaram algumas modificações no chassi para a instalação do portentoso propulsor, conseguiram a duras penas um acordo de fornecimento de pneus com a Goodyear e até arranjaram alguns patrocinadores. E voilà: estava nascida a Life. Faltava só um otário que se dispusesse a pilotar aquela coisa que se parecia com uma Ferrari de brinquedo.

Obviamente sem pensar muito, Gary Brabham pegou sua trouxa e viajou para a Itália esperando ser convidado para um teste ou coisa assim. Ao chegar lá, foi surpreendido com uma proposta para ser piloto oficial da equipe por dois anos. Como assim? É que você tem uma superlicença e já dirigiu um carro da Benetton, disseram os italianos. Passional, Brabham nem pensou duas vezes. Assinou o contrato ali mesmo, provavelmente não leu as letras miúdas que diziam que o carro seria uma merda e o piloto faria papel de tonto e contou a todos sobre o acordo que mudaria sua nova vida. No dia 24 de janeiro, a mídia inglesa anunciou oficialmente a contratação de Gary Brabham pela Life. Após 20 anos, o sobrenome Brabham estava de volta à Fórmula 1. Eba!

Chega a ser cômica a primeira declaração oficial de Gary Brabham como piloto da Life:

“Eu ainda estou me batendo na cara para ver se acordo deste sonho! Estou completamente surpreso! E olha que, antes disso, estava pensando em correr, no máximo, na Fórmula 3000 Japonesa. Foi uma oportunidade excepcional!”

Depois, Brabham fez alguns comentários que, a um observador mais atento, demonstram claramente a fria na qual ele estava entrando. Ria do trecho em destaque:

“Eles ainda não me deram maiores detalhes sobre o motor, mas eu o vi funcionando em alguns testes no dinamômetro. As instalações são muito boas. Vários dos funcionários já trabalharam na Ferrari e isso só aumenta o meu respeito pela equipe. Eu acredito que a Life é uma equipe que terá um grande futuro (SIC!).”

É estranho ver Gary Brabham elogiando a estrutura de uma escuderia que tinha basicamente um único chassi, dois motores, quase nenhuma peça sobressalente e não mais que oito ou nove funcionários. Mas tudo bem. O primeiro teste estava marcado para o dia 28 de janeiro, quatro dias depois do anúncio oficial, no circuito de Misano. Como nada estava pronto, é evidente que o teste não aconteceu.

Pouco após o anúncio, o projetista brasileiro Ricardo Divila, responsável pela criação do carro na época em que ele foi desenvolvido pela First Racing, ligou para Gary Brabham e recomendou a ele para que não corresse. Divila sabia bem que o F190 seria resistente como um castelo de cartas e um acidente qualquer poderia ser fatal. Gary deve ter dito algo como “relaxa, velho, vai ficar tudo bem” e não escutou o sábio conselho.

Na verdade, Gary Brabham só pilotou o carro pela primeira vez um mês depois, em Vallelunga. No dia 21 de fevereiro, a Life levou seu carro ao circuito romano e tentou fazer seu primeiro shakedown por lá. Infelizmente, os mecânicos estavam completamente perdidos, não sabiam sequer como montar as peças mais básicas do carro e demoraram demais para conseguir fazer o motor funcionar. Quando eles finalmente conseguiram, o sol já estava se pondo. Mesmo assim, Brabham não quis desapontar sua equipe e os gatos-pingados que apareceram para acompanhar este teste. Ele saiu dos boxes e deu uma voltinha para mostrar que, sim, o F190 andava. A felicidade foi tamanha na Life que, ao chegar aos pits, todos se abraçaram e comemoraram com champanhe!

O primeiro teste de verdade aconteceu uma semana depois, em Monza. Gary Brabham deu vinte voltas lentas até um pequeno incêndio acabar com a sessão. Ao voltar para os pits, a equipe percebeu que o carro tinha alguns pequenos problemas normais e absolutamente aceitáveis para um carro de Fórmula 1. O câmbio não passava da terceira marcha. Apenas alguns dos doze cilindros do motor estavam funcionando. O carro era tão pesado que o assoalho esfregava o chão sem dó.

O que Gary Brabham achava disso? Vamos fazer uma análise de discurso. A primeira declaração foi feita no mesmo dia do teste. A segunda foi feita em uma entrevista dada para o site F1 Rejects há alguns anos. Comparem:

“É óbvio que ainda há muito o que fazer e eu não terei muito tempo para testar e conhecer melhor o carro antes de Phoenix, mas o motor deverá ser fantástico. Nesse momento, estamos limitando o funcionamento a apenas 11 mil giros, mas é notável como o motor sobe rapidamente de quatro para os 11 mil giros. Esperamos que ele funcione muito bem em pistas de rua”.

“Quando fiz o teste em Monza, tive séria impressão que tudo lá era bem amador. Quando fiz alguns testes em linha reta, percebi que o carro da Life era pior do que eu esperava. Vários podres da equipe e do carro foram ocultados para eu nunca perceber”.

A Life estava desejando fazer mais testes em Monza e em Vallelunga e também estava planejando a construção de um segundo chassi, mas nada disso aconteceu. O negócio era ir para Phoenix daquele jeito mesmo.

Phoenix, Arizona, Estados Unidos, planeta Terra, 9 de março de 1990.

Aquele interessante circuito citadino localizado no meio do deserto seria o primeiro a receber os bólidos da Fórmula 1 em 1990. Fazia um calor desgraçado e a coisa mais comum era ver os europeus andando com roupas folgadas e tomando picolé para aplacar um pouco o sofrimento térmico. Às oito da manhã, a pista é aberta pela primeira vez. Enquanto Ayrton Senna e Alain Prost dormiam, nove pilotos entravam na pista para brigar por quatro vagas no treino oficial. É a temida e famigerada pré-classificação.

Gary Brabham estava lá nos pits, vestido com uma assustadora camiseta amarela e rosa e acompanhado da esposa. Os mecânicos se matavam para conseguir montar o carro. Os pneus não estavam calibrados. Faltava um equipamento para calibrá-los. Vergonha. Alguém vai lá nos boxes da vizinha Eurobrun e pede um emprestado. Conseguem. O trabalho é retomado. O carro fica “pronto”, apesar do tacômetro não estar funcionando. Paciência.

Nosso herói australiano vai à pista e dá quatro voltas lentas, sem afundar o pé no acelerador em momento algum. A melhor delas é 2m07s147, cerca de 30 segundos mais lenta do que a marca do Eurobrun de Claudio Langes. Após estas quatro voltas, Brabham decide pisar fundo pela primeira vez. De repente, um barulho. Muita fumaça. O motor não aguenta a acelerada e estoura vigorosamente. Acabava aí o fim de semana da Life Racing Engines.

A partir daí, outras coisas aconteceram e Gary Brabham acabou deixando a equipe após o Grande Prêmio do Brasil. Quer saber o que houve? Comento sobre isso amanhã. A história da Life é engraçada demais para ficar para trás.

Te cuida, Ricciardo!