Imagem que circula pela internet sobre um layout ideal para a USF1. Uma equipe americana ideal deveria ser mais ou menos assim

Conto-lhes uma pequena história. Ela é relacionada às Olimpíadas. Sabe o Dream Team, a famosa seleção americana de basquete que venceu de maneira avassaladora as Olimpíadas de 1992, fazendo uma inacreditável média de 44 pontos a mais que os adversários? Conto como a ideia de montar um grupo que incluía Michael Jordan, Magic Johnson e Karl Malone, um verdadeiro “time dos sonhos”, surgiu.

Até 1989, os países não podiam escalar jogadores profissionais de basquete para suas seleções oficiais, aquelas que disputavam as competições sancionadas pela FIBA. Motivos? A óbvia disparidade técnica entre uma seleção com os melhores dos EUA e as demais seleções provavelmente era um deles. Outro seria a má vontade das ligas nacionais de basquete, que não aceitariam ceder de bandeja seus melhores jogadores para as competições internacionais. Imagine se Michael Jordan estourasse o ombro num jogo contra a Bulgária, por exemplo? Portanto, as seleções só poderiam participar de Olimpíadas e caterva com amadores e universitários, aqueles que praticam esportes apenas para comer a cheer girl loirinha.

Só que alguns fatos não correlatos levaram às mudanças que, enfim, resultaram no Dream Team. Em 1987, de maneira surpreendente, a seleção brasileira fez talvez o melhor jogo de sua história e obteve uma improvável vitória contra os Estados Unidos em plena cidade de Indianápolis. Era a final do basquete masculino dos Jogos Pan-Americanos daquele ano e a surpresa foi tamanha que a organização não tinha sequer o hino nacional brasileiro para executar. No ano seguinte, nas Olimpíadas de Seul, os Estados Unidos perderam para a União Soviética na semifinal e acabou tendo de se contentar com uma humilhante medalha de bronze. Aí, não.

Em abril de 1989, a FIBA começou a estudar a possibilidade de permitir que os jogadores das ligas profissionais integrassem as seleções. Num congresso realizado na Finlândia, esta ideia foi submetida à votação. A Grécia se absteve do voto por acreditar que isso levaria à “excessiva comercialização do basquete”. Treze países foram contrários à ideia, incluindo aí, curiosamente, os Estados Unidos e a União Soviética. Mas os demais 56 países votaram a favor e, já a partir da próxima competição, os países puderam escalar seus melhores jogadores profissionais para disputar o que fosse.

Os Estados Unidos foram contra porque não queriam ver seus jogadores tendo problemas com contusões em jogos de seleção. Perder um Michael Jordan significava perder dinheiro. Por outro lado, se as seleções utilizariam os melhores jogadores de seus respectivos países, os americanos não poderiam arriscar em não fazer o mesmo. Repetir a derrota para o Brasil no Pan-Americano ou, pior ainda, para os comunistas nas Olimpíadas não pegaria bem. Já que as regras eram aquelas, o negócio era apelar de uma vez e juntar os melhores jogadores da NBA num balaio só. Após muito trabalho para conseguir a liberação dos grandes times, os americanos conseguiram reunir a fina flor do seu basquete para disputar os Jogos Olímpicos de 1992. O resto da história todo mundo sabe.

Mas por que toda essa aula? Sei lá, precisava escrever uma introdução. Quero falar apenas de uma vontade pessoal.

Recentemente, surgiu um boato de que a Coca-Cola, aquela, substituiria a Vodafone no papel de principal patrocinadora da McLaren a partir de 2014. Gigante britânica das comunicações, a Vodafone injeta cerca de 60 milhões de euros anuais na equipe de Lewis Hamilton desde2 007, mas a má e velha crise teria obrigado a empresa a “realocar seus gastos em áreas mais sensíveis“, frase prolixa e inútil que certamente deve ter circulado por lá. Mas tudo bem. Refrigerante é sempre algo mais agradável que celular.

Circuit of the Americas, a milésima tentativa de Bernie Ecclestone para conquistar o coração dos americanos

A presença de uma marca global como a Coca-Cola seria uma boa para uma categoria que flerta com os Estados Unidos há uns milhares de anos. Neste ano, a Fórmula 1 desembarcará no Texas e realizará seu primeiro grande prêmio no portentoso, aparatoso e cheiroso Circuit of the Americas. No ano que vem, quem receberá uma corrida pela primeira vez será o estado de New Jersey, que realizará uma corrida de rua tendo como cenário a skyline de Manhattan. Ou seja, tem corrida pro redneck gordão republicano e pro vegan bi-curioso democrata.

Há alguns dias, o sempre preciso Humberto Corradi afirmou, em seu habitual tom de mistério, que uma 13ª equipe poderia integrar a Fórmula 1 a partir de 2014. Sem dar mais informações, o blogueiro afirmou apenas que se trata de peixe grande e o próprio Bernie Ecclestone já teria dado sinal verde para a entrada desta equipe. Peixe grande? Aprovação de Bernie? Eu só consigo pensar numa equipe asiática. Ou americana.

Ao contrário da maioria das pessoas da minha idade, eu gosto dos Estados Unidos. Gosto da Indy. Aprendi a gostar um pouco da NASCAR. Gosto de hambúrguer e MMs. Gosto de algumas de suas séries enlatadas com risadas de fundo. Gosto dos seus carros enormes e beberrões. Gosto da bandeira. Gosto daquela fanfarrice marqueteira e efusiva típica. Gosto do dinamismo e da urbanidade extrema de Nova York. Gosto da tranquilidade da fazendinha localizada no interior do Iowa. Podem me chamar do que for. Você também gosta de um monte de coisas que vieram de lá.

Ultimamente, ando meio vidrado com essa coisa de automobilismo americano. Os caras sabem fazer das corridas um negócio divertido, rentável e popular. Ao contrário dos europeus, que não descem do salto mesmo nos dias menos frutíferos, os ianques desenvolveram um automobilismo mais democrático, livre e espetacular. Penso, obviamente, na NASCAR e na Indy das antigas, embora a Indy atual esteja se esforçando bastante para voltar a ser relevante. Enquanto isso, a Fórmula 1 se fecha cada vez mais no seu antipático clubinho VIP, composto por xeiques barbudos e criminosos do colarinho branco.

Posso parecer um tanto irreal, já que a Indy é ignorada pelo povão e a NASCAR passa por um momento decadente, mas devemos admitir que a vida não está fácil para ninguém. Porque quando a grana está mais abundante, o automobilismo dos States esbanja diversão e show. Você pode gostar do lado mais técnico, de analisar os carros pelo coeficiente aerodinâmico ou pelo virabrequim mais bonitinho. Eu sou burrão. Gosto mesmo é de ver engavetamento, drama e Dr. Jack Miller arremessando pasta de dente Crest para os espectadores em Indianápolis.

A Fórmula 1 só dará certo nos Estados Unidos no dia em que entender que os americanos pensam mais ou menos como eu. Não adianta erguer um monumento à ostentação no meio do Texas, um estado onde todo mundo é meio ogro. Não adianta achar que os americanos ficarão empolgados por muito tempo com as disputas entre um espanhol rabudo, um rapper, o Chris Martin, o Crocodilo Dundee, um alemão com cara de atraso mental e um finlandês chapado. Não adianta pensar que só o DRS e o pneu Pirelli feito de borracha escolar serão suficientes para prender as atenções de quem só está preocupado em sair com a família para ver uns carros se destruírem enquanto bebe uma Coors quente.

Falta uma equipe americana, por exemplo. Americana de verdade. Mais do que a Ganassi ou a Hendrick. Num mundo ideal, existiria uma. Um verdadeiro Dream Team.

O carro que a equipe americana utilizou na temporada 2006-2007 da A1GP, com direito a Burger King. Essa é uma pintura que um carro americano que se preze deveria utilizar

Eu conto a vocês o que gostaria de ver. Para começar, o nome. Um bem chamativo e pretensioso, quase brega. American Stars Motorsport, por exemplo. Poderíamos reduzi-lo para ASM. Alguém poderia se lembrar que existia uma ASM na Fórmula 3 há alguns anos. Pois ela virou ART e hoje é a tal Lotus GP. Portanto, a única ASM que existiria seria a American Stars Motorsport. Gostei desse nome. Preciso patenteá-lo.

A American Stars Motorsport seria comandada por Gary Geraldson, um branquelo de 1m85 e 150kg que não vive sem seu chapéu de caubói e o charuto na boca. Nascido no Tennessee, Geraldson é um cara que se mudou com a família para o Texas aos oito anos de idade. Num lance de extrema cagada, seu pai encontrou petróleo no quintal e os Geraldson se tornaram multimilionários do dia para a noite. Hoje, aos 52 anos, Gary é o cara que administra todos os negócios da família.

Nas horas vagas, Geraldson se diverte comendo frango frito, caçando raposas ou acompanhando o automobilismo. Como seu físico de 150kg é um pouquinho destoante do recomendável para um piloto de corridas, restou a ele assistir às corridas de longe. Seu negócio sempre foi a NASCAR, mas o magnata se apaixonou pela Fórmula 1 após assistir o GP dos EUA de 2007, vencido por Lewis Hamilton. De lá para cá, Gary decidiu criar sua própria equipe para disputar freadas contra Ferrari e McLaren.

A American Stars Motorsport surge como a escuderia mais rica da Fórmula 1. O orçamento extrapola a casa do meio bilhão de dólares graças não somente ao petróleo de Geraldson mas também aos patrocinadores – e que patrocinadores!

O que você acha de uma equipe apoiada pela American Airlines, pela Coca-Cola, pelo McDonald’s, pelo Bank of America, pelo Wal-Mart, pela FedEx e pela AT&T? Pois é, graças aos bons contatos de Geraldson com a elite empresarial americana, seu carro está lotado de decalques de grandes empresas. A American Airlines seria a principal patrocinadora.

É óbvio que uma típica equipe americana não poderia deixar de ter aqueles milhões de minúsculos patrocinadores técnicos que aparecem na lateral do carro, assim como acontece na NASCAR. Marcas como GE, 3M, K&N, Craftsman, Sunoco e outras estariam ali, entre o cockpit e o bico, disputando espaços caríssimos de não mais do que alguns cm². Bólido nenhum no grid tem mais adesivos do que o da American Stars. Uma verdadeira lista telefônica.

A pintura, é claro, será inspirada na bandeira americana. O carro será majoritariamente branco, mas terá várias partes em azul e vermelho. Nas partes em azul, haverá aquelas estrelinhas brancas que indicam os estados. No bico, haverá uma águia, animal simbolizado no brasão americano. Seria uma mistura das duas fotos que ilustram este post, o carro dos EUA na A1GP e o layout que algum desocupado criou para a finada USF1.

Kyle Busch, um bom piloto para chamar a atenção dos americanos

O carro será chamado de USA-1, nome não muito criativo, mas bastante claro. A gasolina será Esso e o motor será Ford, sem essas frescuras britânicas de Cosworth. Só o pneu terá de ser Pirelli, o que desagrada bastante o nacionalista Geraldson, que adoraria trazer a Goodyear de volta à Fórmula 1.

A sede da equipe ficará num moderno e gigantesco galpão construído dentro de uma prosaica fazenda no interior do Texas. Fuligem de fibra de carbono misturada com quirera de milho, é isso aí. Lá dentro, cerca de 200 funcionários tão obesos, branquelos e presbiterianos como Mr. Geraldson constroem o tão sonhado USA-1. A bandeira americana está sempre presente, assim como as máquinas de Coca-Cola e a minifilial do McDonald’s no refeitório.

A dupla de pilotos. Marqueteiro como poucos, Geraldson queria Danica Patrick e Kyle Busch como pilotos. Só que ele também não é idiota o bastante para largar a equipe na mão de dois briguentos egocêntricos do caralho. Danica acabou virando apenas a mocinha do calendário pregado no galpão texano. O pragmatismo acabou falando mais alto e o midiático Kyle Busch teria como companheiro o discreto e eficiente Ryan Hunter-Reay, piloto de Dallas que trabalharia como líder da equipe. O terceiro piloto seria o jovem Austin Dillon, um dos destaques das categorias de base da NASCAR.

Com patrocinadores fortes, apoio da Ford, Kyle Busch, Ryan Hunter-Reay e um espírito totalmente ianque, a American Stars Motorsport só precisava da atenção e do carinho do americano médio. Ousado, Mr. Geraldson decidiu anunciar a estreia de sua equipe na televisão. Comprou dois minutos do intervalo do Superbowl (!) para veicular um comercial piegas pra caramba sobre o sonho americano, os desafios da Fórmula 1, o projeto de Gary Geraldson, essas baboseiras. Na mosca: todo mundo passou a saber que um homem patriota e valoroso levaria as stars and stripes à Fórmula 1. Mais ainda: todo mundo descobriu que havia um troço chamado Fórmula 1.

O marketing não acabou por aí. Jornais, revistas e televisões continuaram vinculando material da American Stars até o início da temporada. Um canal no Youtube e uma página no Facebook foram criadas para mostrar tudo sobre a equipe: a vida pacata de Hunter-Reay, o trabalho no galpão, entrevistas com Gary Geraldson, curiosidades banais e por aí vai. Aos poucos a ASM se torna a escuderia mais popular nas redes sociais. Os americanos ficaram extremamente empolgados com a possibilidade de poder derrotar Sebastian Vettel e Fernando Alonso na casa deles.

No fim das contas, a ASM deu certo? Provavelmente não. Na certa, deve ter tido o mesmo fim inglório de USF1 e Lola-Haas. Após uns quatro anos, todos os patrocinadores devem ter caído fora e a patriótica American Stars provavelmente acabou tendo de contratar o chavista Ernesto Viso e o chinês Ho-Pin Tung. Mas não interessa. Só queria mostrar a vocês que tipo de equipe que eu gostaria de ver ocupando a 13ª vaga lá na frente.

Os EUA precisam, sim, de uma representação na Fórmula 1. Mas que seja uma equipe americana feita por americanos pensando no público americano: obesa, branquela e presbiteriana.

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