Don Pentecost, idealizador da Force 1 USA, o único projeto conhecido de uma nova equipe de Fórmula 1

Ando falando bastante de Estados Unidos por aqui, não é? Minha equipe dos sonhos, South Park, NASCAR… No fundo, tudo isso daí é pano de fundo para este post, que eu deveria ter escrito há pelo menos dois meses. O Bandeira Verde apresenta hoje um sujeito visionário, ambicioso e até meio doido cujo grande sonho é o de ter sua própria equipe de Fórmula 1. Até aí, tudo bem, há vários deste tipo ao redor do mundo. Mas o que dizer quando o cidadão é americano, tem 56 anos de idade, pertence à classe média, nunca sequer pisou num autódromo europeu e ainda por cima planeja ser o primeiro piloto da equipe?

Dia desses, xeretando um destes fóruns estrangeiros de automobilismo, encontrei por acaso uma menção a uma nova equipe de Fórmula 1. Interessado que sou na geométrica expansão do magérrimo grid atual, me interessei e dei uma olhada no que se tratava. Havia um link, este aqui, que me conduziu ao site da Force 1 USA.

Force India? Não. A Force 1 USA é a única equipe declaradamente interessada em ingressar no circo da Fórmula 1. Ela foi idealizada por Don Pentecost, um californiano de 56 anos que já fez de tudo nessa vida e que deseja criar uma equipe de Fórmula 1 totalmente americana onde ele será um dos pilotos. O objetivo final é o de ser o campeão mais velho da história da categoria com uma equipe que representa totalmente o seu país.

Pentecost busca encontrar investidores nos EUA que apoiem seu projeto. Ao mesmo tempo, ele está desenvolvendo um projeto que busca criar um combustível alternativo que acabe com a dependência do petróleo do Oriente Médio. Ele fala em investimentos de 89 milhões de dólares e retorno que alcança a casa do trilhão de dólares. Não entendi muito bem qual é a relação entre uma coisa e outra, até porque apenas a gasolina pode ser utilizada na Fórmula 1, mas as ideias estão todas em sua cachola e registradas em seu site.

Mandei um e-mail a Don Pentecost perguntando se ele gostaria de me conceder esta entrevista. Solícito, ele não tardou em responder. Ela foi feita em junho, mas por questões de tempo, só consegui publicá-la agora. Conheça o cinquentão que quer fundar sua própria equipe de Fórmula 1 e pilotar um de seus carros rumo ao sonho de um título 100% ianque.

VERDE – PRIMEIRAMENTE, GOSTARIA DE TER ALGUMAS INFORMAÇÕES BÁSICAS SUAS: NOME, IDADE, EMPREGO, LOCAL DE NASCIMENTO…

DON PENTECOST – OK. Meu nome é Don Pentecost e tenho mais de 50 anos de idade (você até deve ficar assustado quando eu digo que posso ser um piloto de ponta na Fórmula 1 com mais de 50 anos na cara). Nasci em Newport Beach, no condado de Orange, estado da Califórnia.

Eu trabalhava para o exército americano fornecendo treinamento de combate cara-a-cara para uma empresa civil. Durante um bom tempo, vivi e trabalhei no exterior, principalmente em países do terceiro mundo. Trabalhei como instrutor de boxe e de autodefesa, transportador de móveis, motorista de reboque, diretor geral de uma empresa de logística e diretor de operações de uma empresa de comércio exterior. Também fui segurança de uma boate. Meu emprego mais duradouro foi o de transportador. É o mais difícil e cansativo que existe. Até mesmo o trabalho na construção civil é mais fácil.

COMO COMEÇOU SUA PAIXÃO PELO AUTOMOBILISMO? PELO QUE LI NO SITE, VOCÊ TEVE UMA CARREIRA BASTANTE LONGA NO MOTOCROSS.

Minha paixão pelas corridas começou aos 10 anos de idade. Minha família costumava acampar bastante e meu pai comprou pra mim uma motocicleta off-road para eu dar umas voltas por aí. Eu andava com ela o dia todo e só parava para abastecer.

Participei da minha primeira corrida numa pista plana aos 14 anos. Não venci e a motocicleta ainda ficou com a transmissão quebrada. Ela ficou parada durante seis meses até o dia em que arranjei dinheiro para consertá-la. Meus pais compraram para mim duas motos com o passar do tempo, mas eu tinha de me virar para conseguir comprar as outras coisas, como um pneu novo ou um capacete.

Eu admirava todos os grandes pilotos de motocross naquela época. A maioria deles vinha da Europa. Quando havia um europeu correndo em Saddleback Park, eu pedalava por 20 milhas até lá só para poder assistir às corridas. Minha segunda moto foi uma Sachs, que quebrava mais do que andava. Pelo menos, consegui uma oportunidade para disputar as corridas de 125cc. Arranjei a primeira moto off-road de dois tempos que a Honda produziu, uma 250 Elsinore. Não era a moto mais fácil de pilotar, mas era veloz e confiável. Logo na primeira corrida em que participei com ela, ganhei.

Então, eu entrei para o Continental Motorsport Club (CMC), que era o principal clube de automobilismo da Califórnia naquela época. Mas assim que eu me tornei profissional, o fator dinheiro realmente se tornou um problema. Eu superei alguns dos melhores motociclistas do país com um orçamento ridículo e só conseguindo correr uma vez por mês, além de não ter recursos para treinar entre as corridas. Para ficar em forma, eu pedalava bicicletas BMX durante quatro, cinco horas diárias. Como costumo dizer, atingi o “muro do baixo orçamento”.

Correr de motocicleta ainda é muito mais barato do que correr de carro, mas até mesmo no motocross os pilotos são financiados por pais endinheirados. Eu descobri desde cedo que os pilotos podem pagar para alcançar o topo, ou quase isso, mesmo que não tenham nenhum talento natural. Eu sou um atleta nato e pratiquei esportes durante toda a minha vida. A maioria dos pilotos não é de atletas, especialmente os que pilotam carros. O motocross é um dos esportes que mais exigem preparo físico no mundo e, de longe, o mais exigente entre os esportes a motor. O fato da Fórmula 1 exigir um certo grau de condicionamento físico me fez sentir atraído pela categoria.

O meu pai não respeitava muito o motociclismo como esporte da mesma forma que nunca achou que o automobilismo era um esporte de verdade.  Ele já foi campeão de salto com vara e também foi dono de uma das primeiras academias de levantamento de peso na Califórnia. Para ele, os esportes reais eram aqueles que existiam em Olimpíadas: natação, atletismo, etc. Meu pai queria que eu ficasse na natação pensando nos Jogos Olímpicos. Se eu quebrasse a perna no esporte a motor, não poderia nadar.

VOCÊ TAMBÉM PARTICIPOU DE ALGUMAS CORRIDAS DE OFF-ROAD, CERTO?

Eu pude disputar algumas corridas durante dois anos porque o amigo de um amigo meu tinha um carro disponível. Ele sabia que eu era meio doidão e não tinha medo de nada. No entanto, eu também sabia dosar os riscos que eu corria. Pilotei um Ford Bronco 68 construído em um chassi tubular. Ele possuía um motor V8 que produzia 450cv.

Disputei corridas num circuito fechado em Carson City, Nevada. Larguei em 30 e venci 27. Não consegui terminar duas devido a problemas mecânicos e bati em uma. Este tipo de circuito incluía alguns saltos e eu capotei duas vezes e meia após sair meio torto de uma curva.

Mesmo assim, eu tive a impressão que as corridas de carro eram bem mais tranquilas do que as de moto. Com quatro rodas e uma estrutura de proteção completa, é evidente que a coisa se torna mais fácil. Nenhuma forma de esporte a motor é mais agressiva do que o motocross. Você aprende a entrar mais agressivamente nas curvas e acelera novamente mais cedo, além de não ter muito o que pensar a não ser tomar a linha correta no meio de um bocado de tráfego.

Eu competi contra Scott Gilman no motocross e o superei, ainda que ele tivesse um orçamento bem maior graças aos pais. Ele foi a Abu Dhabi para disputar corridas de barcos sem qualquer experiência prévia e acabou ganhando cinco títulos. Espero fazer o mesmo na Fórmula 1.

FOI NESSE ACIDENTE QUE VOCÊ MACHUCOU SERIAMENTE SEU PESCOÇO, NÃO É?

Após as capotagens, meu carro ficou de ponta-cabeça e eu machuquei o pescoço devido a um problema com o cinto de segurança. Mas ele é muito saudável, mesmo que o lado esquerdo consiga se esticar um pouco mais que o lado direito. No raio-X, a situação parece um pouco mais dramática, mas o meu pescoço ainda é muito forte e não sinto dor alguma.

Esta é a primeira parte. Amanhã, ou depois, a segunda

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