scottdixon

25 de setembro de 2005, o dia em que Scott Dixon salvou sua carreira.

Ele não é casado com atriz de Hollywood, não ganhou nenhum concurso de dança, não tem sobrenome marcante e também não é uma figura proeminente das redes sociais. Mesmo nos Estados Unidos, eu arriscaria dizer que se trata de uma pessoa anônima, do tipo que pode caminhar tranquilamente no parque ou fazer compras no Target sem ser importunado por fãs tresloucados. No país em que qualquer imbecil pode se transformar em uma celebridade milionária, chega a ser estranho que alguém que tenha vencido uma edição da Indy 500 e três títulos da IndyCar Series não seja efusivamente paparicado e bajulado.

Pois há um piloto assim e seu nome é Scott Ronald Dixon. Cara de moleque, nascido na Austrália em 1980, emigrado para a Nova Zelândia ainda na infância e muitíssimo bem casado com a atleta Emma Davies, Scott Dixon se sagrou campeão da Indy pela terceira vez no último sábado. Ele repetiu os títulos de 2003 e 2008 após ter terminado em quinto a MAVTV 500 IndyCar World Championships, a última etapa da temporada. Foi a coroação definitiva de um corredor que teve um primeiro semestre apenas morno e um segundo semestre avassalador, com quatro vitórias e outras atuações que se destacaram pelo equilíbrio entre velocidade e regularidade.

Se Scott Dixon realmente almejasse tanto, não faltaria muito para ele se tornar o maior piloto de todos os tempos do automobilismo de monopostos americano em termos de resultados. Consideremos apenas o que se passou na Indy Racing League entre 1996 e 2007 e na IndyCar Series unificada a partir de 2008. Aos 33 anos, Dixon já é o recordista em número de vitórias (32), voltas mais rápidas (20), pódios (74) e voltas na liderança (4.154). Como ainda é muito mais jovem do que seus principais rivais (Dario Franchitti tem 40 anos, Hélio Castroneves e Tony Kanaan têm 38), Scott tem totais chances de ampliar seus recordes atuais, obter novos e ainda sacramentar seu nome como o recordista absoluto, aquele que reinaria também se levadas em conta a CART, a antiga Indy e até mesmo a USAC. Faltariam, por exemplo, apenas quatro títulos para ele se igualar a A. J. Foyt como o maior campeão do automobilismo de monopostos nos EUA. Para quem entrou na casa dos 30 anos de idade há pouco, um feito absolutamente factível.

O curioso é que faltou pouco para nada disso ter acontecido. Para que Scott Dixon se tornasse um dos monstros do automobilismo americano, sua carreira teve de passar por uma reviravolta quase inacreditável. Em meados da década passada, muitos acreditavam que o neozelandês não passaria de mais um piloto que “poderia ter sido grande”. Motivos para isso não faltaram.

Scott Dixon respira automobilismo desde que nasceu. Papai e mamãe eram pilotos de dirt tracks na Oceania e esta última só parou de competir quando faltavam poucas semanas para o nascimento de seu rebento. Precoce de tudo, o garoto de Brisbane iniciou sua profícua carreira nos monopostos aos 13 anos, quando conseguiu uma licença especial para disputar a Fórmula Vee neozelandesa. Mesmo precisando acoplar um colchão em sua bunda para conseguir enxergar acima do cockpit, Scott conseguiu se sobressair logo de cara e venceu o campeonato em 1994.

A partir daí, sem a necessidade de colchões, Dixon desembestou a ganhar títulos um atrás do outro. Em 1995, foi o campeão da Classe 2 da Fórmula Ford neozelandesa com 13 vitórias em 14 corridas. No ano seguinte, papou sem dificuldades o título principal da mesma categoria. Tão bom era o garoto de olhos minúsculos que um bocado de gente importante da Nova Zelândia decidiu injetar dinheiro em sua carreira visando levá-lo a correr em campeonatos maiores da Austrália. Os investidores criaram a Scott Dixon Motorsport, uma espécie de fundo que angariou cerca de 1 milhão de dólares, grana que foi utilizada para custear sua passagem pela Fórmula Holden, a categoria máxima de monopostos na terra de cangurus. O esforço foi recompensado com o título de Scott em 1998, obtido após cinco vitórias em dez etapas.

A partir do momento em que se tornou o piloto mais promissor de toda a Oceania, Scott Dixon recebeu várias ofertas para correr profissionalmente na Austrália. No entanto, seu sonho era o de se tornar um piloto de ponta em uma categoria internacional. Em 1999, ele se associou ao ex-piloto sueco Stefan Johansson e decidiu disputar a Indy Lights, categoria de acesso da CART. Sem dificuldades de adaptação, conseguiu resultados bons logo de cara e chegou a deixar a etapa de Nazareth como o líder do campeonato. Faltou apenas ter vencido mais etapas além da de Chicago, em que fez a pole-position e liderou de ponta a ponta. No fim das contas, terminou o ano em quinto, atrás apenas de pilotos com muito mais experiência do que ele.

Em 2000, Dixon decidiu permanecer na Indy Lights e assinou com a PacWest, aquela mesma da CART. Fundada por empresários do ramo de telecomunicações de Seattle, a PacWest era uma das únicas equipes do certame maior que investiam diretamente na Indy Lights. Sem precisar se preocupar com dinheiro, Scott Dixon pilotou com tranquilidade e simplesmente engoliu a concorrência sem dó, ganhando seis corridas e o título da temporada. Poderia ter vencido com mais facilidade, mas cometeu alguns erros tontos nas últimas etapas e quase entregou o troféu a Townsend Bell. Uma vitória magistral na prova final de Fontana sacramentou o sucesso de Dixon.

Após ter triunfado em absolutamente todas as categorias por onde passou, a PacWest decidiu promover Dixon para o segundo carro da PacWest na temporada da CART em 2001. Como companheiro do catarinense Mauricio Gugelmin, Scott não esperava muito mais do que alguns pontos e um ou outro pódio. A PacWest não vinha passando por uma grande fase (sua última vitória havia acontecido em 1997) e o motor Toyota não era exatamente o mais forte da categoria.

Mas Dixon se sobressaiu e conseguiu ganhar sua primeira corrida no automobilismo top logo em sua terceira aparição, as 225 Milhas de Nazareth. Ele largou em 23º e foi escalando posições sabe-se lá como. No final da corrida, estava liderando a corrida logo à frente de um enfurecido Kenny Bräck, que pilotava um velocíssimo Lola-Ford. Mesmo sem experiência e sem um carro à altura do rival, Dixon conseguiu se defender dos ataques do sueco e cruzou a linha de chegada apenas três décimos à frente dele. Na volta de desaceleração, ainda bateu rodas com o brasileiro Max Wilson. Mesmo assim, chegou ao topo do pódio inteiro.

Scott ainda embolsou um pódio em Milwaukee e pontos em outras nove corridas. Terminou o ano na oitava posição com 98 pontos e o título de “Estreante do Ano”. A título de comparação, o segundo melhor estreante da temporada foi o mineiro Bruno Junqueira, que somou apenas 68 pontos mesmo tendo pilotado um carro da poderosa equipe Chip Ganassi. O outro piloto da PacWest, Gugelmin, obteve míseros 17 pontinhos. A temporada de Dixon pode não ter sido excepcional à la Montoya em 1999, mas certamente foi boa o suficiente para credenciá-lo como um dos nomes do futuro.

2001 foi um ano muito feliz, mas 2002 foi uma desgraça. Dixon iniciou a temporada da CART na mesma PacWest, que havia mudado de nome para PWR e perdido um monte de patrocinadores. Falida da Silva, a equipe só conseguiu disputar as três primeiras corridas sem obter resultados de monta. O sumiço da PWR, no entanto, não significou o fim da carreira do neozelandês, que assinou com a Chip Ganassi Racing para disputar as corridas restantes naquele ano. Dixon pilotaria o terceiro carro da equipe e teria de se contentar com o cargo de escudeiro de Bräck e Junqueira.

O primeiro ano de Dixon na Ganassi não foi exatamente dos sonhos. Scott conseguiu apenas um segundo lugar em Denver, logo atrás do colega Junqueira. Em Miami, ele tinha boas chances de vitória, mas acabou sendo tirado da pista por Tony Kanaan. Fora isso, não lhe aconteceu mais nada de relevante em 2002. O neozelandês terminou o campeonato apenas em 13º, com 97 pontos. Apesar disso, o patrão Chip Ganassi optou por dispensar Junqueira e Bräck e elevar Scott Dixon ao papel de primeiro piloto de sua equipe em 2003, ano em que ela faria sua migração definitiva para a Indy Racing League. A aposta, à primeira vista, parecia arriscadíssima. Mas Chip, que sempre foi especialista em farejar novos talentos, sabia o que estava fazendo.

Contra adversários do naipe de Hélio Castroneves, Gil de Ferran, Tony Kanaan, Sam Hornish Jr. e Al Unser Jr., Scott Dixon conseguiu se sagrar campeão logo em seu primeiro ano na categoria de Tony George. Ele venceu as corridas de Homestead, Pikes Peak e Richmond, finalizou em segundo em outras cinco etapas e ainda sobreviveu a um acidente monstruoso em Motegi, onde bateu em alta velocidade após se tocar com Kanaan. Quebrou alguns ossos da mão, mas conseguiu se recuperar a tempo para disputar sua primeira Indy 500. Nem precisava ter se dado ao trabalho, pois bateu sozinho durante uma bandeira amarela e passou vergonha diante de 300 mil pessoas.

Até aí, a carreira de Scott Dixon só avançou para o alto e avante. Aos 23 anos, o cara já tinha amealhado um título na Indy Racing League e um monte de dinheiro. Dali para frente, caberia ao neozelandês manter seu status de piloto fodão e perseguir números cada vez mais respeitáveis. Mas os dois anos que viriam logo a seguir quase enterraram precocemente sua então bonita carreira.

Em 2004, a Toyota, que era uma das três fornecedoras de motores da IRL, confundiu as coisas, entregou motores de Indy para o departamento de jipes e propulsores do Toyota Bandeirante às suas equipes no certame norte-americano. Em consequência disso, todos os pilotos que corriam com o apoio da empresa de Aichi, como era o caso do próprio Dixon, se deram mal frente à superioridade latente da Honda. Como a IRL, naquele ano, era composta apenas por circuitos ovais, a anemia dos motores Toyota comprometeu por completo as chances de todas as equipes que o utilizavam.

Dixon ainda brigou pela vitória na corrida de Homestead antes de bater sozinho. Em Phoenix, terminou na segunda posição atrás de Tony Kanaan. Depois disso, não obteve nenhum outro resultado que prestasse na temporada. Ainda conseguiu sofrer dois acidentes fortes durante os treinos da etapa de Milwaukee, machucando um tornozelo e a mão direita no segundo deles. Na tabela final do ano de 2004, Scott terminou em 10º com 355 pontos, 263 a menos que o campeão Kanaan. O negócio ficou tão feio para Dixon que seu companheiro, o novato inglês Darren Manning, ficou logo atrás com 323 pontos.  A única coisa boa para o neozelandês foi o teste que ele fez com o carro da Williams em abril no circuito de Barcelona, seu único contato com um bólido de Fórmula 1 até hoje.

Veio 2005.

Um ano ruim não foi o suficiente para destruir por completo a reputação de Scott Dixon, que ainda era considerado não só um dos melhores pilotos da categoria como também um dos favoritos francos ao título da Indy Racing League naquela temporada. Tudo dependeria, nesse caso, do potencial do chassi Panoz, que já havia ficado devendo em relação ao Dallara em 2004, e do motor Toyota, reformado após o debacle do ano anterior.

Não funcionou. O Panoz podia até ser mais boa-pinta, mas ficava claramente atrás da Dallara principalmente nos ovais de grande extensão. Quanto ao propulsor Toyota, bem, reformar um motor de Toyota Bandeirante não quer dizer que ele se transformará em um foguete da noite para o dia… Honda e Chevrolet continuariam chutando bundas na Indy Racing League em 2005. Azar da Chip Ganassi, que continuaria a ver navios com seu Panoz-Toyota enquanto a então dominante Andretti-Green seguiria rindo à toa com seus pacotes Dallara-Honda.

Para dificultar ainda mais as coisas, Mr. Chip inventou de expandir o número de carros de sua equipe para três, inscrevendo Ryan Briscoe ao lado de Dixon e Darren Manning em todas as corridas. Péssima ideia. Os três pilotos se envolveram em quase trinta acidentes durante todo o ano, esgotando recursos, a energia dos mecânicos e a paciência do patrão. Até mesmo Dixon, que nunca foi muito de bater, estourou seu carro no muro em algumas ocasiões.

Em Homestead, Scott bateu sozinho durante a prova. Em St. Petersburg, foi tocado por Kosuke Matsuura e deu sorte de não ter abandonado. Em Motegi, foi colhido por Jeff Bucknum e conduzido ao muro logo na primeira volta. Na Indy 500, Dixon bateu forte na curva 1 após se tocar com Richie Hearn. Em Richmond, estraçalhou seu carro no muro após ter sido empurrado por Dario Franchitti.

Depois da pancada de Richmond, Dixon sossegou nos acidentes. No entanto, os resultados continuaram não aparecendo. Nas etapas de Michigan, Kentucky e Chicago, o Panoz-Toyota nº 9 pifou e parou no meio do caminho. Nas outras corridas, o neozelandês quase sempre terminou do meio para trás. Até a penúltima etapa do campeonato, a de Watkins Glen, Scott tinha somado apenas 248 pontos. Isso lhe conferia uma modestíssima 15ª posição no campeonato, 322 pontos atrás do líder Dan Wheldon. Por incrível que pareça, ele ainda era o melhor piloto da Chip Ganassi no campeonato.

O patrão Chip Ganassi obviamente ficou de saco cheio com tudo isso. Conto uma historinha que eu li em algum lugar, não me lembro onde, sobre uma possível reunião que ele teria tido com seus três contratados. A portas fechadas, Ganassi esmurrou a mesa, deu uma bronca daquelas nos pilotos e mandou Darren Manning embora no ato – em entrevista ao Autosport, o inglês afirmou que a demissão foi feita pelo diretor Mike Hull e não fez menção alguma a uma possível bronca de Ganassi. Prosseguindo com a lenda, depois de expulsar o britânico, Chip ainda fez sua ameaça a Briscoe e ao próprio Dixon: se vocês continuarem destruindo meus carros, seus idiotas, meto o pezão nas suas bundas e ainda mando a fatura do conserto para vocês pagarem!

Briscoe nem chegou a terminar o ano inteiro, pois sofreu um acidente colossal em Chicagoland e teve de passar alguns bons meses preso a uma cama de hospital. Dos três que iniciaram a temporada, sobrou apenas Dixon, que ainda nutria alguma simpatia por parte de Chip Ganassi. Mas o neozelandês sabia que estava correndo sob provação. Caso não conseguisse ao menos um resultado realmente decente nas últimas provas, não permaneceria na equipe vermelha em 2006.

A penúltima etapa da temporada de 2005 foi realizada em Watkins Glen. Naquele ano, a Indy Racing League quebrou um de seus grandes tabus e realizou suas primeiras corridas em circuitos mistos e de rua: além de Watkins, as pistas de St. Petersburg e Sonoma também sediaram provas do certame.

Os pilotos jamais haviam pisado em Watkins Glen, um autódromo que chegou a ficar fechado nos anos 80 por problemas financeiros. A Indy havia realizado corridas por lá entre 1979 e 1981. Vinte e quatro anos depois, a galera da IRL recolocaria o circuito nova-iorquino no cenário americano do automobilismo de monopostos.

Os primeiros treinos livres foram realizados na sexta-feira. Choveu um bocado e os pilotos não conseguiram a quilometragem que gostariam. Scott Dixon fez apenas 25 voltas e ainda conseguiu resultados razoáveis nos treinos livres. Na qualificação de sábado, ele obteve a quarta posição no grid de largada. Esse teria sido um resultado ótimo se não fosse por um detalhe: seu companheiro de equipe, o novato Giorgio Pantano, surpreendeu a todos cavando um lugar na primeira fila. Tomar tempo de um desconhecido que estava fazendo apenas seu primeiro fim de semana na categoria era tudo o que Dixon não precisava naquela altura.

O céu amanheceu coberto no domingo, tempo tipicamente britânico. Se a chuva correspondesse ao negrume das nuvens, os pilotos teriam de trocar seus simpáticos carrinhos por lanchas. Felizmente, São Pedro colaborou e tivemos apenas um pouco de água, nada que impedisse os destemidos homens da Indy de acelerar a uns trezentos e tanto por hora.

Scott Dixon fez uma boa largada e deixou o companheiro Pantano e o canadense Patrick Carpentier para trás, permanecendo atrás apenas dos brasileiros Hélio Castroneves e Tony Kanaan, que havia pulado da quinta para a segunda posição na primeira curva. As posições se mantiveram mais ou menos assim até a volta 20, quando foi iniciada ainda em bandeira verde a primeira rodada de pit-stops. Dixon parou nos boxes na 21ª passagem, retornando no meio do bolo. Uma bandeira amarela foi acionada na volta 28 por conta do acidente de Buddy Rice, o que fez todo mundo se juntou novamente. Com isso, Scott acabou subindo para a segunda posição, atrás apenas de Castroneves.

Na relargada, Dixon apertou Castroneves até o brasileiro começar a suar sangue. Na volta 31, Scott colocou por fora e ultrapassou Hélio antes da Inner Loop, assumindo a liderança da prova. A partir dali, ele só perdeu a ponta na segunda rodada de pit-stops. O neozelandês parou na volta 42 e reassumiu a primeira posição já na 48ª passagem.

Na volta 54, uma bandeira amarela causada por uma rodada de Alex Barron juntou todos os carros novamente. Assim que a bandeira verde foi acionada, Dixon tentou se livrar do segundo colocado Tony Kanaan, só que o brasileiro jamais lhe deu qualquer refresco. Mas a sorte, aquela que vinha faltando ao neozelandês, finalmente lhe sorriu. Castroneves e o tcheco Tomas Enge cometeram haraquiri na última volta e fizeram com que a corrida acabasse sob bandeira amarela. Scott Dixon não precisou manter o pé afundado no acelerador para cruzar a linha de chegada na primeira posição e ganhar sua primeira corrida desde 2003.

Os mecânicos avermelhados da Chip Ganassi comemoraram como se tivessem vencido o Super Bowl. Depois de dois anos, a equipe finalmente voltava a vencer alguma coisa na Indy Racing League. O triunfo garantiu a Scott Dixon um prêmio de 120 mil dólares e também a renovação de contrato com a Chip Ganassi por mais algumas temporadas. Após dois anos de escuridão, a carreira do melhor piloto da história da Nova Zelândia estava garantida por mais algum tempo.

Ganassi, que raramente erra, acertou em cheio na decisão de continuar com seu pupilo. A vitória na Indy 500 de 2008, os títulos de 2008 e 2013 e as 28 vitórias subsequentes não me deixam mentir. Se não fosse por aquela então inofensiva vitória na chuvosa pista de Watkins Glen, esses números jamais teriam sido conquistados. A essa altura, Scott Dixon estaria criando ovelhas numa fazenda na Nova Zelândia. Os bichinhos terão de achar outro pastor.

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Não deu. De novo. Ontem, o presidente do novíssimo, grandíssimo e indefinidíssimo Circuito das Américas anunciou que não haverá corrida de Fórmula 1 por lá em 2012. Talvez haja em 2013, mas que ninguém ponha muita fé nisso, até porque o mundo obviamente acabará antes. O nascente autódromo de Austin, que marcaria o retorno da categoria euroasiática aos Estados Unidos após cinco anos, teve suas obras sumariamente interrompidas há alguns dias. Havia um diz-que-me-diz que envolvia os promotores do GP, os chefões do novo circuito, o governo texano e Bernie Ecclestone. Não quero entrar em detalhes enfadonhos. Faltava um contrato que pudesse garantir a realização da prova em Austin no ano que vem. Havia uma tratativa provisória, mas nada assinado e registrado em cartório.

Nada disso interessa a nós, pois. O que acontece é que não teremos mais Fórmula 1 nos Estados Unidos no ano da graça de 2012. Não que isso nos faça tanta falta. Já ficamos sem Spa-Francorchamps, Suzuka, Monza, Montreal e nada aconteceu. Já perdemos Österreichring, o antigo Hockenheim e o antigo Interlagos e nada aconteceu. Nunca tivemos Enna-Pergusa e a Fórmula 1 não deixou de ser grandiosa por causa disso. Uma corridinha a mais ou a menos em mais uma pista tilkeana com cara de filme de sci-fi não é o que resolverá os problemas da humanidade.

Os americanos, então, estão pouco se lixando. No Twitter, procurei saber se o cancelamento da corrida era um assunto muito debatido pelas multidões ianques. Não era. Em Austin, o assunto mais comentado era um show do Green Day. Faz bastante sentido. A Fórmula 1 nunca deu certo nos Estados Unidos, terra dos american idiots. Não foi por falta de esforço. Ela já tentou realizar até três corridas por lá em um mesmo ano. Ela já tentou empregar astros do automobilismo americano. Ela já tentou dar vida a uma equipe nacional, a abortada USF1. Nada funcionou. O Top Cinq de hoje enumera alguns motivos para isso.

5- FALTA DE DINHEIRO

Falar em falta de dinheiro no país que produz 15 trilhões de dólares anuais e que cultiva a ideologia do american dream soa muito estranho. Mas é isso mesmo, caros primatas. O dinheiro que sobra nos esportes nacionais simplesmente não dá as caras naquele esporte elitista, enfadonho e mofino que os europeus tanto acham graça. Os americanos até possuem os dólares, mas simplesmente não estão dispostos a gastá-los com a Fórmula 1.

O circuito de Austin é um exemplo bem claro disso. Os diretores do autódromo precisavam pagar o adiantamento de 25 milhões de dólares a Bernie Ecclestone, que é mau e impiedoso. O governo texano, comandado pelo conservador fiscal e candidato à presidência Rick Perry, prometeu os 25 milhões sem grandes problemas. Apesar de republicano e austero, Perry é um desses sujeitos que liberam dinheiro público com facilidade a projetos que lhe convêm. Os texanos, que odeiam que um maldito burocrata coloque as mãos em seu dinheiro suado, protestaram. Não por acaso, a maioria deles era contra a realização da corrida.

De repente, o governo estadual decidiu cortar os 25 milhões e a festa acabou. É a segunda vez que um grande projeto americano morre de inanição. Para quem não se lembra, a USF1 foi limada da temporada 2010 após não conseguir reunir nada além de um jornalista picareta (Peter Windsor), um engenheiro de segunda (Ken Anderson), um sócio otário (Chad Hurley), alguns mecânicos, um bico de carro e um canal no Youtube. O que faltou? Credibilidade. E dinheiro. Como nenhuma empresa americana se interessou pela equipe, Windsor e Anderson tiveram de vender um carro ao argentino José-Maria Lopez , que estamparia um humilhante adesivo do governo Kirchner no Type 1. Ao invés de Coca-Cola e McDonald’s, churrasco.

O problema financeiro não é novo. Em 1980, o circuito de Watkins Glen devia 800 mil dólares em premiações às equipes de Fórmula 1. Sem ter como pagar, o autódromo pediu concordata e ficou fechado por algum tempo. Alguns anos depois, a equipe Lola Haas se orgulhava de ter o pomposo patrocínio da gigante de alimentos Beatrice. Infelizmente, uma troca de presidentes mudou os planos da Beatrice, que anunciou redução e posterior retirada de patrocínio. Com isso, a equipe de Carl Haas se viu sem patrocínio, não conseguiu nenhum outro apoio nos EUA e acabou após um ano e pouco. Quem disse que dinheiro é fácil na terra do sonho?

4- DESINTERESSE

No ano passado, as 500 Milhas de Indianápolis alcançaram sua pior pontuação na história do índice Nielsen, equivalente ao IBOPE brasileiro. Cerca de 5,7 milhões de americanos acompanharam a corrida pela Versus, o que representou míseros 3,6 pontos Nielsen. As demais corridas daquela temporada da IndyCar Series não ultrapassaram um ponto na audiência. E as arquibancadas não apresentaram números muito melhores. Com exceção das 500 Milhas, as etapas da Indy raramente contaram com mais de 100 mil pessoas. Kentucky cairá fora da próxima temporada porque reuniu míseros 20 mil pagantes. Em Milwaukee, apenas 15 mil se deram ao trabalho de comparecer.

Os números são bem mais rotundos quando falamos em NASCAR, especialmente a Sprint Cup. As 500 Milhas de Daytona tiveram audiência de 8,6 pontos (quase 16 milhões de telespectadores) e 182 mil espectadores acompanharam pessoalmente. As demais etapas registram audiência média entre quatro e cinco pontos Nielsen. Detalhe: ela vinha caindo nos últimos três anos. Dá para sentir a força da NASCAR sobre a Indy. Mesmo assim, não dá para comparar sua audiência com a de outros esportes, como a liga de basquete da NBA, cujas partidas raramente ficam abaixo dos dez pontos Nielsen.

Se a NASCAR redneck, republicana e obesa fica muito abaixo do basquete, do beisebol e do futebol americano na preferência do americano médio e se a ainda americaníssima Indy fica dramaticamente atrás da NASCAR na preferência automobilística local, qual é o espaço real da Fórmula 1, que pouco tem a ver com o típico ianque?

Depende muito da pista e da ocasião, mas o fato é que os Estados Unidos até têm muita gente disposta a assistir às corridas, só que eles não são tão representativos. Em 2000, nada menos que 230 mil pessoas assistiram ao primeiro GP dos Estados Unidos em Indianápolis. Foi um número animador e único, pois a audiência só despencou nos anos seguintes, quando a corrida já não era mais uma novidade exótica. Em 2007, 120 mil pessoas compareceram. Ainda assim, um número ainda animador e que não foi repetido em nenhum outro lugar. Nos circuitos de rua, a audiência era irregular: podia chegar a 80 mil pessoas em um ano e a 18 mil em outro, como aconteceu com o GP dos EUA de 1991. Só lembrando: boa parte da audiência da Fórmula 1 nos Estados Unidos é composta por latinos e por gente vinda de fora.

3- POLÊMICAS E ERROS

Deve existir algum fantasma soviético, japonês, árabe ou britânico que amaldiçoe a presença da Fórmula 1 nos Estados Unidos. Sempre acontece algo de errado por lá. Sempre. A possibilidade de haver uma corrida que dê totalmente certo é algo absolutamente descartado. Fico até aliviado que não haja corrida em Austin. Imagino Mark Webber voando naquele retão de Bonneville e caindo em cima de uns carros estacionados lá fora.

Nem sei por onde começar. O acontecimento mais nonsense, de longe, foi o de 2005. Como a Michelin não teve competência para confeccionar um pneu que resistisse à curva 13 de Indianápolis, a fábrica francesa recomendou a todos os seus clientes que não participassem da corrida. Os clientes em questão loteavam nada menos que 70% do grid. Obedientes, eles entraram na pista, fizeram a volta de apresentação e recolheram seus carros para os boxes. Resultado: apenas os seis carros com pneus Bridgestone – Ferrari, Jordan e Minardi – largaram para a corrida. 80 mil espectadores ficaram revoltadíssimos com o que viram. Quem não se esquece da cena do cara que jogou uma garrafa no meio da pista enquanto ia embora?

Em 2002, a mesma pista de Indianápolis presenciou uma das chegadas mais patéticas da história da Fórmula 1. Os ferraristas Michael Schumacher e Rubens Barrichello, que corriam nesta ordem, se aproximaram da linha de chegada quase emparelhados. A intenção era cruzar a brickyard no melhor estilo Le Mans. Só que Schumacher errou, freou demais e acabou entregando a vitória de presente a Barrichello. Os americanos ficaram com cara de tacho, mas alguns brasileiros nacionalistas e patéticos comemoraram. “A dívida está paga”, disse o narrador oficial, referindo-se à marmelada austríaca.

Quando a Fórmula 1 correu em Phoenix, havia duas questões bem incômodas: o clima e o limite de tempo. Em 1989, os pobres pilotos tiveram de disputar uma longuíssima e dificílima corrida sob o calor de quase 40°C em pleno verão no deserto do Arizona. Um grotesco erro de cálculo fez a corrida ter 81 voltas, mas apenas 75 puderam ser completadas em duas horas. No ano seguinte, a organização decidiu realizar a corrida em março, visando evitar o verão americano, e reduziu o número de voltas para 72. Deu muito certo, mas o limite de tempo voltou a ser extrapolado no ano seguinte, quando o número de voltas foi aumentado para 82. Ayrton Senna venceu após 81 voltas.

Entre erros de organização (boxes apertadíssimos em Caesar’s Palace), resultados polêmicos (ainda há quem ache que Michael Schumacher deveria ter perdido a vitória da corrida de 2003 por ultrapassagem em bandeira amarela) e azares (um acidente na largada da prova de 2006 deixou os espectadores acompanhando pouco mais de dez carros na pista), muita coisa falhou nos Estados Unidos. O Pacheco diria “ah, se fosse no Brasil…”

2- PISTAS RUINS

Os Estados Unidos são, com alguma folga, o país com o maior número de autódromos no mundo. Só de ovais, existem mais de mil. De circuitos mistos, o país também está muito bem servido. Ele tem Elkhart Lake, Road Atlanta, Mid-Ohio, Laguna Seca, Watkins Glen, Sebring, Lime Rock, Homestead, Daytona, Portland, Sonoma, Indianápolis, Alabama e por aí vai. Então, por que diabos a Fórmula 1 tem tanta dificuldade para permanecer no calendário com uma pista boa e aceita pelo público em geral?

Você deve ter uma resposta na ponta da língua. Boa parte das pistas americanas que sediaram alguma corrida de Fórmula 1 é de rua, citadina, dessas que atrapalham a dinâmica da cidade. Em 1976, o respeitabilíssimo circuito de Long Beach estreou no calendário da categoria. A pista era uma beleza, desafiadora e nem tão travada. O público californiano, que só quer se divertir, adorou e o número de espectadores só crescia a cada ano. Enfim, estava tudo bem, mas havia um enorme problema financeiro aí. Chris Pook, o organizador da corrida, achava que a prova de Fórmula 1 era muito cara. Então, para 1984, foi anunciado que Long Beach passaria a receber corridas da Indy, mais populares e menos dispendiosas.

Long Beach foi uma boa exceção. Caesar’s Palace, que sediou a última etapa das temporadas 1982 e 1983, era uma pista chatíssima com boxes apertadíssimos. Dallas era outra merda que só ficou eternizada pelo desmaio de Nigel Mansell na linha de chegada. Detroit era detestada por quase todos e sua única vantagem era o belíssimo cenário. Eu gosto de Phoenix, mas sei que sou exceção. Em comum, todas estas pistas eram incapazes de realizar boas corridas e de atrair o mesmo público de Long Beach e Watkins Glen.

Falando em The Glen, e as pistas permanentes? Os primeiros GPs foram realizados nos autódromos de Sebring e Riverside. Eu nunca liguei para Sebring, mas gosto demais de Riverside, típica pista americana de alta velocidade do pós-guerra. Ambas realizaram corridas boas e bem-frequentadas, mas sucumbiram à falta de dinheiro. Depois delas, Watkins Glen permaneceu no calendário com um traçado excelente, um público fiel e corridas sensacionais. Infelizmente, faliu no início dos anos 80.

Indianápolis foi o último circuito misto a sediar o GP. Era uma coisa esquisita, água com óleo: um trecho misto bastante estreito, sinuoso e lento ligado a um considerável trecho da pista oval. Os engenheiros se confundiam na hora de acertar o carro, pois tinham de privilegiar uma ou outra parte. As corridas eram muito boas e o público, apesar de declinante a cada ano que passava, era muito bom. Enfim, eu gostava. Não eram muitos, no entanto, que compartilhavam desta opinião. Acabou caindo fora por problemas financeiros e pelas polêmicas sucessivas.

Austin? Uma pista tilkeana em um país que simplesmente ignora a existência de Hermann Tilke. Sinceramente, não sei se daria certo. Americanos gostam de pistas mais selvagens, menos frescurentas, e este não parecia ser o caso do Circuito das Américas. Pode funcionar no Quirguistão ou no Vietnã, mas não na terra do Tio Sam.

1- AUTOMOBILISMO ALIENÍGENA

Um europeu é aquele sujeito magro que usa óculos e echarpe, que bebe vinho, que escuta Oasis, que anda de bicicleta, que ri de Monty Python e que torce pro Jenson Button na Fórmula 1. Um americano é aquele sujeito absurdamente gordo e protestante que usa boné e camiseta, que coleciona armas, que escuta Johnny Cash, que mora em uma enorme casa com quintal no Tennessee, que anda de Ford F150 e que torce pro Kevin Harvick na NASCAR. Você não precisa ser um antropólogo para perceber certa diferença de universos aí.

Por mais que a Fórmula 1 se esforce trazendo o Kyle Busch e a Danica Patrick pelada para a Ferrari, por mais que ela incentive a criação de equipes da GM e da Ford patrocinadas pela Coca-Cola e pelo Exército, por mais que ela promova dez corridas americanas em uma mesma temporada, por mais que ela injete dinheiro no país, por mais que ela consiga evitar as polêmicas e os problemas, por mais que tudo dê certo e que os deuses abençoem a Fórmula 1 na América, nada dará certo? E sabe o porquê? Porque a Fórmula 1 não pertence a este mundo.

Americanos são muito orgulhosos e egocêntricos. O Superbowl, para se ter uma ideia, é considerado um evento mundial por eles. O basquete, o beisebol e o futebol americano são os esportes mais admirados no país simplesmente porque os Estados Unidos mandam neles. E, verdade seja dita, os ianques nunca foram nada na Fórmula 1. Eddie Cheever disputou um bocado de corridas nos anos 80, mas e daí? Michael Andretti foi contratado a peso de ouro pela McLaren e só passou vexame. Scott Speed tem nome, discurso e jeito de piloto campeão, só faltou ter sido campeão. Os campeões, Mario Andretti e Phil Hill, ficaram lá para trás. E o Andrettão nem é americano. Nasceu em uma cidadezinha que fica na divisa da Itália com a Croácia. Ele está mais para Tito do que para Reagan.

Se a Fórmula 1 quer dar certo nos Estados Unidos, ela deverá mudar praticamente tudo. Os grids deverão passar a ter 30 ou 40 carros, todos eles coloridos e muito bem patrocinados por grandes empresas. Os pilotos, obesos e com cara de ontem, deverão se comportar como estrelinhas pop que alimentam altas rivalidades no Twitter e trocam uns socos ocasionalmente. Nas arquibancadas, vendedores de cachorro-quente e cerveja Coors. Os acidentes fazem parte do show e a bandeira amarela deve ser acionada sempre que o diretor de prova tiver vontade de ir ao banheiro.

Parece brincadeira? Não é. Americanos não gostam de frescuras e, cá entre nós, a Fórmula 1 está repleta delas.

Na terça-feira, os organizadores do mais novo circuito misto de primeira linha dos Estados Unidos vieram a público para anunciar algumas novidades. Quando todo mundo já tinha em mente que o circuito receberia o nome de Austin, referente à cidade texana onde ele será construído, fomos surpreendidos novamente com o pomposo nome de “Circuito das Américas”. Pomposo a ponto de ser brega. Mas fazer o quê? Se nome significasse algo, Magny-Cours seria muito melhor que Zandvoort.

O circuito receberá dois dos principais esportes a motor do mundo, a Fórmula 1 e o Mundial de Motovelocidade. As motos já correm nos Estados Unidos há muito tempo, e com bastante sucesso. O problema maior é a Fórmula 1, que nunca foi aceita de braços abertos pelos americanos. E isso incomoda demais gente como Bernie Ecclestone, que não se conforma em não conseguir conquistar o mais poderoso mercado consumidor do planeta.

Bernie já tentou de tudo. Nos anos 80, chegou ao absurdo de realizar três corridas no país em um mesmo ano, caso único na história da categoria. O que ele não sabe – ou prefere ignorar – é que os nativos gostam de velocidade e de entretenimento, duas coisas encontradas com mais abundância na Indy (velocidade) ou na NASCAR (entretenimento) do que na categoria europeia. E as pistas que já sediaram corridas, vou te contar uma coisa… Dá pra entender perfeitamente o motivo do rechaço. Apresento cinco delas. Nenhuma durou muito tempo no calendário. Detalhe: gosto muito de três delas, tirando apenas as duas primeiras colocadas.

5- WATKINS GLEN


Localizada no elegante estado de Nova Iorque, The Glen foi uma das pistas mais desafiadoras do calendário da Fórmula 1. Já falei dela mais detalhadamente antes. Não preciso me alongar demais. Parece evidente que Watkins Glen foi a pista de maior sucesso dos Estados Unidos na Fórmula 1.

Os motivos são claros. Watkins Glen é localizada em uma região de pessoas com cabeça mais aberta, gente que fuma maconha, participa de ONGs ecológicas, compra produtos da Apple e anda de metrô com um copo de cappuccino da Starbucks na mão. Como Nova Iorque é um lugar onde pessoas do mundo inteiro se reúnem para construir suas vidas e se divertir um pouco, não dá para ser muito nacionalista e conservador. A Fórmula 1, portanto, seria recebida com muito mais boa vontade na Nova Inglaterra do que em um rincão perdido no meio do  Arkansas.

O outro motivo é esportivo. Watkins Glen é uma pista veloz, bonita e perigosa, lugar onde se pratica um automobilismo mais próximo das origens. Portanto, é possível apreciar a beleza e a velocidade de um carro de corrida sem moderação. E isso, obviamente, atraía o povão. Não por acaso, esta foi a única pista que conseguia atrair multidões apaixonadas de todos os lugares.

The Glen permaneceu no calendário da Fórmula 1 entre 1961 e 1980. Os pilotos adoravam correr por lá por vários motivos: pista legal, premiação mais alta do que a média, fãs interessados, estrutura de primeiro nível. Mas havia também alguns problemas graves. Perigosíssima, Watkins Glen ceifou as vidas de Helmuth Koinigg e François Cevert na primeira metade da década de 70. Após a morte do austríaco Koinigg, os organizadores decidiram reformar a pista para diminuir a velocidade e aumentar a segurança. A reforma foi feita, mas deixou enormes dívidas para trás. Para piorar, a farta premiação não estava sendo paga às equipes, e a dívida com elas chegou a 800 mil dólares no fim dos anos 70. Praticamente falido, o circuito deixou o calendário após 1980. E os EUA nunca mais conseguiram atingir o mesmo nível de sucesso.

4- INDIANÁPOLIS


Desse circuito, eu me lembro muito bem, até porque foi um dos meus favoritos da década passada. O Indianápolis Motor Speedway, que já havia aparecido nos calendários da Fórmula 1 entre 1950 e 1960 por meio das 500 Milhas, retornava após 40 anos com uma proposta bem interessante de traçado. Assim como ocorre em Homestead e Daytona, seria construído um setor misto dentro do espaço rodeado pelo oval do estado de Indiana, e as duas partes seriam conectadas. Portanto, os pilotos teriam de enfrentar um trecho sinuoso e um outro que aproveita a reta dos boxes e o curvão 1, só que no sentido contrário. Achei legal pacas.

E muita gente concordou comigo, tanto que nada menos que 250.000 pessoas (sim, um quarto de um milhão de pessoas!) compareceram à primeira corrida da história desse novo circuito. Mika Hakkinen tinha tudo para vencer com seu McLaren, mas o motor Mercedes estourou e Michael Schumacher acabou herdando a vitória. Choveu um pouco e a corrida foi bem movimentada em seu início. Não poderia ter havido estreia melhor.

O problema é que Indianapolis deu o azar de sediar alguns dos eventos mais infelizes da história recente da categoria. Em 2002, Rubens Barrichello foi considerado o vencedor após tomar a vitória de Michael Schumacher na linha de chegada, ato ridículo que foi justificado como uma retribuição ao escândalo austríaco. No ano seguinte, o mesmo Barrichello se envolveu em um polêmico acidente com Juan Pablo Montoya, que acabou perdendo a chance de disputar o título com Schumacher e Kimi Räikkönen.

Mas o pior aconteceu em 2005. A Michelin, uma das fornecedoras de pneus da época, estava morrendo de medo dos seus pneus se deteriorarem a ponto de causar um acidente na curva do oval. Esse temor surgiu após o acidente de Ralf Schumacher na sexta-feira, causado pelo estouro do pneu traseiro esquerdo. Então, a fornecedora sugeriu às suas clientes para que não participassem da corrida. Obedientes, as sete equipes que utilizavam a marca recolheram seus carros após a volta de apresentação. E a corrida teve apenas seis carros! Os fãs ficaram revoltadíssimos, muitos abandonaram o autódromo após a largada e todo o dinheiro da bilheteria teve de ser devolvido. E a Fórmula 1 nunca mais recuperou sua imagem no país, saindo de lá em 2007.

3- PHOENIX


Essa é uma dessas pistas que só eu e mais 13 gostamos. O circuito de rua de Phoenix, localizado no coração do cruel deserto do Arizona, sediou apenas três corridas de Fórmula 1 entre 1989 e 1991 e saiu sem deixar muitas saudades à maioria dos fãs da velocidade.

Phoenix entrou meio que de paraquedas no calendário, após o tal projeto de construção de um circuito permanente em Belle Isle, Detroit, ter falhado. Bernie Ecclestone não queria perder a corrida americana e até pensou em levá-la para o consagrado circuito de Laguna Seca, mas preferiu deixar a corrida na cidade de Phoenix por questões logísticas. O circuito nem era tão ruim, mas o fato de haver nove curvas feitas em segunda marcha não agradou a muitos. No mais, era um típico circuito de rua americano, com muros altos, retões largos, esquinas de 90° e uma paisagem completamente urbana, com placas e prédios escapando pelo ladrão. Em 1989, primeiro ano da corrida, os organizadores esperavam receber 100.000 pessoas. Apareceram pouco mais de 36 mil, e esse número só foi atingido porque os portões foram abertos no dia da corrida. Veja só o interesse do povo…

Ainda assim, as três corridas sediadas em Phoenix foram muito divertidas. Em 1989, o calor excessivo, a falta de aderência da pista e os acidentes solaparam nada menos que 19 pilotos. Em 1990, Ayrton Senna e o novato Jean Alesi protagonizaram uma das disputas mais bonitas da década. Em 1991, outra corrida cheia de abandonos e vitória magistral de Senna. No mais, os telespectadores eram os únicos que se divertiam. Os pilotos odiavam ter de correr sob o calor infernal do deserto por duas horas (o limite de tempo sempre estourava), os carros quebravam demais e os espectadores locais eram pouquíssimos. A saída de Phoenix não surpreendeu ninguém.

2- DETROIT


Se Phoenix não conquistou os corações de muitos, o que dizer de Detroit? Incansavelmente execrado pelos medalhões Nelson Piquet e Alain Prost, o circuito de rua de Detroit foi uma das piores pistas pelas quais a Fórmula 1 já correu. E considerando que a categoria já realizou corridas em muita porcaria nesses 60 anos, dá pra sentir o drama.

Detroit entrou no calendário como a terceira pista americana a compor o calendário de 1982. Eram tempos em que Bernie Ecclestone acreditava que bastava apenas lotear a temporada com corridas em cidades americanas para que os locais passassem a amar a categoria de uma hora para outra. E o começo foi terrível: na sexta-feira anterior à primeira corrida, os operários ainda não tinham fixado todas as lâminas do guard-rail. Graças a isso, os treinos foram todos adiados. E a população de Detroit gostou tanto da ideia de ter uma corrida que organizou uma passeata contra sua realização, alegando excesso de gastos públicos e caos urbano. Boa, Bernie!

E o circuito, localizado em frente ao Renaissance Center e às margens do Rio Detroit, era um lixo. Extremamente ondulado e cheio de bueiros, conseguiu desagradar a todos. Os organizadores esperavam ao menos ter uma corrida razoavelmente veloz, mas a velocidade média conseguiu ser mais baixa que a de Mônaco. E a corrida quase terminou em desastre, quando Riccardo Patrese bateu com tudo no carro estacionário de Roberto Guerrero. Seu Brabham pegou fogo e os bandeirinhas não sabiam sequer manejar um extintor. John Watson acabou vencendo aquele que foi considerado, até então, “o pior GP de Fórmula 1 de todos os tempos”.

As coisas melhoraram nos anos seguintes? Não. O circuito de Detroit continuou insuportavelmente lento, perigoso, travado e ondulado. As ultrapassagens tendiam à impossibilidade e os pilotos só ganhavam posições com os muitos abandonos que costumavam ocorrer. Só Ayrton Senna conseguia alguma felicidade por lá, com as três vitórias consecutivas entre 1986 e 1988. Após esta última edição, Bernie arrancou a corrida de lá e procurou incessantemente um outro lugar que pudesse fazer todo mundo esquecer daquele infelicíssimo circuito de rua que desagradou a todos em uníssono.

1- CAESAR’S PALACE


Detroit só não pegou o primeiro lugar porque houve duas corridas em Caesar’s Palace, eleito por muitos o pior circuito de todos os tempos. Tão ruim que deve ser a única coisa que conseguiu aparecer, pela terceira vez, na seção Top Cinq desse blog. Para os puristas, o circuito localizado no pátio do estacionamento de um dos cassinos mais badalados de Las Vegas simplesmente representava o avesso do automobilismo. Pista lenta e travada que só chama a atenção pelo ambiente altamente cafona e por todo aquele show de marketing típico dos promotores americanos. Pior até mesmo que Abu Dhabi.

Caesar’s Palace foi talvez um dos devaneios mais ridículos já saídos da mente asquenaze de Bernie Ecclestone. Em tempos nos quais ele queria fazer a população americana gostar paulatinamente de seu esporte, Bernie achou que sediar uma corrida no lugar mais libertário e surreal dos Estados Unidos atrairia os americanos em massa. Já que essa gente gosta tanto de dinheiro, de cassinos, de putaria e de néons, por que não levar uma corrida para um dos locais mais conhecidos de Las Vegas, o cassino Caesar’s Palace?

Péssima ideia. Embora o dinheiro jorrasse e a organização fosse esforçada, tudo lá era ruim ou bizarro. O traçado era basicamente uma mão com três dedos, uma coisa repetitiva e não muito atraente. Para piorar, o sentido era anti-horário, o que contrariava a tendência europeia de correr apenas no sentido horário. Os boxes eram apertadíssimos e os mecânicos tinham enorme dificuldade para montar e acertar os carros. E o calor era desgraçado. Detroit poderia ser tão ruim quanto, mas aquele maldito palacete em estilo romano e toda aquela fanfarronice de transformar tudo em uma festa, com direito a Diana Ross no pódio, só tornava as coisas piores.

E é brochante saber que Caesar’s Palace sediou duas decisões de título, em 1981 e em 1982. No primeiro ano, Nelson Piquet terminou em um morno quinto lugar após o argentino Carlos Reutemann cair da primeira posição para a oitava e ganhou seu primeiro título. Mas o brasileiro não pode comemorar, já que o calor era tão forte que ele estava quase desmaiado no Brabham. No ano seguinte, Michele Alboreto ganhou de forma surpreendente uma corrida que definiu o título em favor de Keke Rosberg. E o circuito de Las Vegas teve uma primazia que Silverstone, Nürburgring e Spa-Francorchamps nunca tiveram: o de fazer dois novos campeões. O mundo é mesmo uma merda.

Como um latino bigodudo e corroído pela miséria e pela mediocridade, o Calendário do Verde atravessa a fronteira e invade a nação yankee, os Estados Unidos da América. Ao contrário da maioria das pessoas da minha idade e da minha universidade, eu gosto dos States. Ao contrário da maioria das pessoas da minha matiz política, gosto pelos motivos errados. Gosto do hino nacional, embora ele se pareça com uma música da Kelly Clarkson ou da Shania Twain. Gosto da bandeira. Gosto dos nomes indígenas dos estados: Massachusetts, Connecticut, Delaware, Kansas. Gosto das tribos indígenas americanas, dizimadas pelos calvinistas ávidos pelo ouro do leste. Gosto da sua história. Gosto da American Airlines, da 7-Eleven, do Bank of America e da Target. E gosto muito das suas pistas de corrida, tanto é que coloquei nada menos do que três no calendário. E a primeira delas é a de Watkins Glen, localizada no pequeno estado de New York.

Hans Joachim Stuck na corrida de 1979

Uma das pistas mais desafiadoras e perigosas dos Estados Unidos, The Glen pode se orgulhar de ter sido o palco de corridas de Fórmula 1 entre 1961 e 1980. É, portanto, a pista americana que permaneceu por mais tempo no calendário da Fórmula 1, algo notável em se tratando de um país que solenemente vira as costas para a categoria. Nos dias de hoje, recebe corridas da Indy, LMS e NASCAR. A versão escolhida é a de 1975, que vigora até hoje e que mescla trechos velozes com uma parte mista bastante técnica. Só arranquei o Inner Loop, algo absolutamente brochante para uma pista dessas.

A história do circuito começa em 1948, quando um jovem estudante de direito da Universidade Cornell decidiu levar para frente o sonho de criar um espaço para competições nos moldes europeus. Cameron Argetsinger havia herdado do pai a paixão pelo automobilismo e também um belo MG-TC, carro inglês preparado para corridas, mas não tinha onde correr. Diante disso, ele teve a idéia de utilizar o terreno da casa de verão de sua família para levantar um espaço para corridas. Naquele ano, Argetsinger criou um traçado que passava pelo terreno e também pelas ruas da pequena vila de Watkins Glen. A característica mais marcante dessa pista de 10,6 quilômetros era a mescla entre trechos asfaltados, cimentados e de terra.

A primeira corrida realizada ocorreu no dia 2 de Outubro de 1948, durou apenas oito voltas e foi vencida por Frank Griswold em um belo Alfa Romeo 8C de 1938. Sucesso de público, esta corrida foi a primeira realizada nos Estados Unidos após o término da Segunda Guerra Mundial. E a cada ano, até 1952, a pequena cidade de Watkins Glen recebia um punhado de doidos para a tal corrida anual do Argetsinger. Neste último ano, um carro escapou da pista e voou para cima dos espectadores. Um morreu e vários ficaram feridos. A partir daí, chegou-se à conclusão de que correr em uma pista dessas não era o mais adequado. Era necessário construir um circuito de verdade.

Em 1953, a corrida foi levada para um circuito provisório que também utilizava trechos de rua. Em 1956, no entanto, o grupo que comandava a corrida de Watkins Glen e que era liderado pelo próprio Argetsinger comprou um terreno de 2,2 km² e construiu um circuito de 3,8 quilômetros de extensão. Surgia aí o circuito permanente de Watkins Glen, que foi rapidamente adotado pela comunidade automobilística americana como um dos melhores do país. Não demorou muito e várias categorias como a NASCAR, a Fórmula Libre e a Fórmula 1 passaram a realizar provas por lá.

A partir daí, a história da pista alternou entre altos e baixos. Muitas corridas históricas, como a primeira vitória de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1, aconteceram em The Glen. Ao mesmo tempo, muitos pilotos perderam a vida lá, como François Cevert e Helmut Koinigg na mesma Fórmula 1. Em 1975, visando reduzir um pouco a velocidade e aumentar a segurança, a pista foi remodelada. No entanto, a mudança fez com que os organizadores se endividassem. No início dos anos 80, The Glen devia cerca de 800 mil dólares para as equipes de Fórmula 1. Sem ter como pagar, o autódromo declarou bancarrota no início de 1981. Ficou fechado por três anos, mas reabriu e é um sucesso até hoje.

TRAÇADO E ETC.

Em um calendário com tantas pistas grandes e velocíssimas, eu me arriscaria a dizer que Watkins Glen é um dos circuitos menos espetaculares que já constaram aqui nessa seção. Mas é óbvio que estou sendo injusto e imbecil ao dizer um absurdo desses. Com 5,435 quilômetros de extensão, 11 curvas e velocidade média beirando os 210 km/h, Watkins Glen é um traçado bastante veloz e, acima de tudo, extremamente perigoso. Marcado pelos guard-rails sempre posicionados ao lado do asfalto, o charme de The Glen é exatamente esse: acelerar muito e acenar para a Dona Morte, que está sempre ali, com sua foice e sua cara ameaçadora, esperando por um pneu furado ou um erro de pilotagem.

O traçado, em si, não é tão difícil para pilotos e carros. A pista é bastante larga e o asfalto, embora não seja um primor, não é dos piores. Não há curvas de baixa velocidade ou grampos: o piloto consegue fazer uma volta limpa sem usar as duas primeiras marchas. Sendo assim, se eu tivesse de sugerir um acerto para essa pista, eu retiraria o máximo de downforce e rebaixaria a suspensão o máximo possível. Um piloto novato não teria muitas dificuldades por aqui, talvez nem para ultrapassar. No entanto, para quem está acostumado com o padrão Tilke de segurança e frescura, Watkins Glen pode ser um enorme acinte. Quando os acidentes ocorrem, há destruição das boas.

Enfim, Watkins Glen é aquela pista que, sem grandes frescuras ou desafios técnicos, existe para divertir pilotos e espectadores sem ser demasiada artificial. Ela oferece tudo aquilo que precisamos: um cenário bonito, curvas velozes, retões e a sensação de que o automobilismo ainda é algo que requer paixão e coragem. Conheça as curvas principais:

THE 90º: Como o nome diz, é uma belíssima curva em 90º feita à direita em descida. Possui uma leve inclinação centrípeta. Um bom ponto de ultrapassagens, ainda mais sabendo que há uma generosa área de escape, algo considerado raro neste circuito.

THE ESSES: Ah, cara, que trecho filho da puta. Para mim, é a melhor sequência de curvas do mundo. Inicia-se com uma subida feita sutilmente à direita. Como o trecho inteiro é bastante largo, o piloto pode completá-lo com o pé totalmente fincado no acelerador sem problemas. Após completar a subida, o piloto começa a virar o volante à esquerda para completar o segundo trecho, que também é bastante veloz e um pouco mais curto. Em seguida, ele entra no trecho final, uma curva sutil à direita que desemboca no retão. Em momento algum, o piloto tira o pé. Os guard-rails estão sempre ali e, se algo acontece com o carro, o piloto terminará se acidentando em qualquer ponto por ali. Muitos já morreram dessa forma.

THE LOOP: Após o retão, o piloto apenas tira o pé para completar este curvão feito à esquerda em descida. É um trecho relativamente cego, no qual quem dirige não consegue enxergar seu final. Nos últimos metros deste curvão, o sempre temido guard-rail aparece no canto esquerdo.

CHUTE: Outro curvão de velocidade razoável feito nos mesmos moldes do The Loop. A diferença é que o guard-rail aparece em toda a totalidade do trecho.

TOE: O “dedão do pé” é um curvão de 180º feito em subida. É um trecho ligeiramente mais lento do que as curvas anteriores, e a visão também é cega em determinados pontos.

HEEL: Creio eu que seja o trecho mais lento dessa pista, se é que dá pra dizer assim. É uma pequena curva à direita onde o piloto é realmente obrigado a frear.

Onboard com Didier Pironi nos anos 70.