Seguinte, personas. Um jornal belga, o La Libre, andou falando que a Virgin deverá ter, de fato, um novo companheiro de equipe para o alemão Timo Glock. Lucas di Grassi, portanto, estaria realmente fora. A novidade é que quem ocuparia essa vaga não será mais o belga Jerôme D’Ambrosio. O agraciado é o holandês Giedo Van Der Garde, sexto colocado na atual temporada da GP2 Series.

Segundo o jornal, o próprio D’Ambrosio teria desistido da vaga, uma vez que não tem dinheiro o suficiente. Van Der Garde, por outro lado, é MUITO rico. Por meio de seus patrocinadores, como a grife McGregor, ele teria conseguido oferecer o dobro da quantia oferecida pelo belga. Além disso, seu padrasto seria um dos homens mais ricos da Holanda.

O contrato seria assinado em Interlagos. É uma pena que isso venha a acontecer. Tanto Di Grassi quanto D’Ambrosio são bem mais talentosos do que Van Der Garde, que é bastante experiente e só conseguiu o título da World Series by Renault em 2008 devido a isso.

Vale lembrar que o jornal é belga e não seria normal da parte deles anunciar o infortúnio do único piloto de seu país com chances concretas de chegar à Fórmula 1. A conferir.

INTERLAGOS: De todas as cidades que sediam uma corrida de Fórmula 1, como bom desfavorecido financeiramente, só conheço São Paulo, que fica a 100 quilômetros de Campinas. E São Paulo é foda, cidade para quem gosta do urbano em seus aspectos positivo e negativo, para quem acha que os congestionamentos e a poluição podem ser compensados por prédios de 60 andares, supermercados que ficam abertos de madrugada e cultura a granel. É verdade que o Autódromo José Carlos Pace fica um pouco longe de tudo isso, lá nos cus de Judas da Zona Sul, mas perdoa-se. Falando nele, é um dos melhores do campeonato. Tem trechos de alta, média e baixa velocidade, subidas e descidas e até mesmo uma reta dos boxes rodeada por muros baixos e arquibancadas coladas à pista, um tanto quanto nostálgico. A chuva, que faz parte do cotidiano paulistano, sempre dá o ar da graça. No geral, as corridas são boas.

ALONSO: Ele chega ao Brasil com 11 pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Se conseguir sair de São Paulo abrindo mais 14 pontos, já pode ir para o Café Photo fazer a festa com os mecânicos barrigudos da Ferrari. Será uma tarefa dura, no entanto. Interlagos é uma pista versátil, característica que favorece os versáteis carros da Red Bull. E abrir 14 pontos de vantagem nunca é fácil, mesmo sabendo que os dois pilotos rubrotaurinos são doutores em jogar pontos no lixo. Além do mais, seu histórico em Interlagos é desfavorável: desde que estreou na Fórmula 1, Fernando já venceu em nada menos que 18 pistas diferentes. E Interlagos é a única em que competiu em todas as suas temporadas desde a estreia sem ter obtido uma única vitoriazinha sequer.

WEBBER: E o cara que tem mais chances de tirar o título de Alonso é exatamente o “Canberra Milk Kid”. Mesmo estando 11 pontos atrás, é ele quem tem o melhor carro e a simpatia da torcida. E ao contrário de Alonso, o australiano já contabiliza uma vitória na pista brasileira, registrada exatamente no ano passado. De quebra, ainda deu um belo chute nos fundilhos de seu companheiro Sebastian Vettel e da Red Bull ao dizer que “a equipe só o trata como uma estrela por ser mais jovem”. Confiante, o rapaz. E quer saber? Meu fortuito sexto sentido diz que o australiano tem mais chances de ganhar o caneco.

HERBERT: E o piloto-comissário de Interlagos não será Emerson Fittipaldi, Bird Clemente, Otávio Mesquita ou Pedro Paulo Diniz, mas o simpático e baixote inglês de 46 anos. De carreira irregular porém relevante, Johnny Herbert tem algumas histórias para contar sobre Interlagos. Não muito boas, é verdade. Em 1992, ele foi envolvido na lambança causada pelos dois carros da Ligier no S do Senna e saiu da corrida meio puto da vida. Em 1994, ele ficou a apenas uma posição de marcar um pontinho com sua precária Lotus. Em 1998, ele deu uma porrada tão forte no Bico de Pato durante os treinos que acabou lesionando o pescoço e teve de abandonar precocemente a corrida. O melhor, no entanto, foi o X dado na Benetton de Michael Schumacher no fim da corrida de 1993, uma das melhores cenas que já vi. Infelizmente, ele perdeu o que seria seu primeiro pódio na Fórmula 1 na penúltima volta. No fundo, as boas recordações de Herbert sobre o Brasil se restringem à sua performance fantástica em Jacarepaguá na sua corrida de estréia.

HISPANIA: Este site tem a Hispania como sua equipe favorita e torce para seu sucesso, mesmo que isso signifique largar em 20º ou acertar o ponto da paella. E a equipe, bem ou mal, está movendo os palitinhos. Finalizou um acordo com a Williams para receber sistemas de transmissão prontinhos de Grove. Está negociando com a Toyota para obter a fábrica da equipe, localizada na cidade alemã de Köln, e talvez o projeto do carro. De quebra, um jornal de Murcia noticiou que o interminável Pedro de la Rosa, 39, foi contratado para ser o primeiro piloto da equipe em 2011. Mesmo sem grana, sem experiência e sem grandes ambições, a equipe tenta seguir em frente. Se depender da minha solitária e irresponsável torcida, ela vai fazer os engomadinhos metidos a cool da Virgin e da Lotus comerem poeira.

Meu pequeno e humilde censo sobre os gostos dos leitores deste humilde sítio eletrônico está concluído. Resultados interessantes. No geral, tudo dentro do esperado. Mas sempre há alguma surpresa aqui ou acolá. E alguns dos meus pilotos preferidos foram impiedosamente surrados, o que me fez cogitar fechar o Bandeira Verde e abrir um site sobre quiromancia ou física nuclear. Meus votos não contaram aqui. Abro exceções a alguns votos atrasados. Aos resultados, vamos:

MCLAREN JENSON BUTTON 15 X 13 LEWIS HAMILTON

MEU VOTO: LEWIS HAMILTON

Já começo levando pau aqui. De certa forma, um resultado que me surpreendeu. Achei que Hamilton seria votado em massa, mas o pessoal parece gostar bastante do estilo mais comedido e mais discreto do campeão de 2009. De qualquer jeito, disputa acirrada entre a dupla que reedita Ayrton Senna e Alain Prost.  

Thiago Medeiros: “Acho impressionante alguém ser campeão do mundo pilotando politicamente correto daquela forma. É um dos poucos casos em que gosto mais da competência que do show”

MERCEDES – MICHAEL SCHUMACHER 17 X 11 NICO ROSBERG

MEU VOTO: MICHAEL SCHUMACHER

Aqui, pesou o currículo impecável do heptacampeão mundial, até porque não creio que as pessoas tenham pensado em seu desempenho nesta temporada para votar nele. Pelo visto, a discrição de Nico Rosberg não consegue agradar a muitos.

António Guimaraes: “É o piloto com mais titulos mundiais, é hepta-campeão!“

RED BULL – SEBASTIAN VETTEL 15 X 13 MARK WEBBER

MEU VOTO: SEBASTIAN VETTEL

Mesmo com a ótima temporada de Webber, muitos acreditam que Vettel ainda tem mais talento natural e mais potencial para se tornar um fenômeno nos próximos anos. Ainda assim, é notável o número de pessoas que apoiam o australiano.

Joel Batata: “Agressivo e imaturo. E isso é muito bom”

FERRARI – FELIPE MASSA 9 X 17 FERNANDO ALONSO (DOIS NÃO ESCOLHERAM NINGUÉM)

MEU VOTO: FERNANDO ALONSO

A presepada de Hockenheim e a excepcional forma de Fernando Alonso nesta temporada custaram a Massa um bocado de pontos. O espanhol, favorito ao título, também é o favorito dos leitores aqui, mesmo sendo um dos sujeitos mais polêmicos que a Fórmula 1 já conheceu.

 Roberto L.: “Bicampeão mundial, andando pra caralho num carro que não é essa Brastemp toda. Merece todo o respeito e admiração. Massa é bom piloto, mas não chega aos pés do espanhol”

WILLIAMS – RUBENS BARRICHELLO 27 X 1 NICO HÜLKENBERG

MEU VOTO: RUBENS BARRICHELLO

Uma surra daquelas. E Rubens, mesmo com 38 anos de idade e 17 na Fórmula 1, ainda consegue agradar a muitos com sua experiência e suas boas colaborações para a Williams. E olha que Hülkenberg definitivamente não pode ser considerado um mau piloto.

Arthur Simões: “O cara é foda! Quase 40 anos e correndo como uma criança… ou melhor, como um novato”

RENAULT – ROBERT KUBICA 27 X 1 VITALY PETROV

MEU VOTO: VITALY PETROV

É de pedir pra sair e ir pra casa. Robert Kubica é um dos maiores talentos da Fórmula 1 atual e vem fazendo uma temporada simplesmente impecável. Quem torce pelo Petrov (no caso, eu e o Bruno Simões) o faz porque é um dos sujeitos mais pitorescos do grid. Surra inquestionável e previsível.

Pedro Meinberg Junior: “Merecia um carro melhor, mas é excelente vê-lo render tanto com um carro limitado”

FORCE INDIA ADRIAN SUTIL 26 X 1 VITANTONIO LIUZZI (UM VOTOU EM PAUL DI RESTA, TEST-DRIVER)

MEU VOTO: VITANTONIO LIUZZI

Terceira surra consecutiva, dessa vez por um pouco menos: 26 x 1. Nesse caso, até eu pensei em votar em Adrian Sutil, pois também gosto do seu estilo de pilotagem e torço para que encontre uma boa vaga. Mas Liuzzi é campeão de Fórmula 3000 Internacional e não tem como eu não ter simpatia por ele. O Pedro Meinberg Junior também gosta mais dele.

Gabriel Vargas: “Veloz e pouco sutil

TORO ROSSO – SEBASTIEN BUEMI 8 X 18 JAIME ALGUERSUARI (UM NÃO ESCOLHEU, UM VOTOU NO TEST-DRIVER DANIEL RICCIARDO)

MEU VOTO: JAIME ALGUERSUARI

Fiquei surpreso, já que achei que Buemi ganharia com facilidade. Mas o suíço não está fazendo uma grande temporada e Alguersuari, que não é nenhuma Brastemp, está convencendo um pouco mais. Mas a dupla peca por ser absolutamente sem sal.

Lucas Domakoski: “Não tenho nenhuma simpatia especial por nenhum dos dois, mas o espanhol às vezes mostra alguns lampejos de agressividade”

LOTUS – JARNO TRULLI 3 X 21 HEIKKI KOVALAINEN (QUATRO NÃO ESCOLHERAM)

MEU VOTO: HEIKKI KOVALAINEN

É isso aí. Teve mais gente que não votou em ninguém do que apoiadores do veterano Trulli. Mas a verdade é que o italiano foi completamente ofuscado pelo ótimo desempenho do outrora desacreditado Kovalainen. Resultado previsível.

Natan D. Rodrigues: “Dá um banho de aguerrimento no Trulli.”

HISPANIA – SAKON YAMAMOTO 1 X 22 BRUNO SENNA (KARUN CHANDHOK RECEBEU TRÊS VOTOS, CHRISTIAN KLIEN RECEBEU UM E UMA PESSOA NÃO VOTOU EM NINGUÉM)

MEU VOTO: BRUNO SENNA

É difícil fazer uma avaliação dessas com uma equipe que teve quatro pilotos diferentes nessa temporada. Bruno Senna, no fim das contas, só recebeu mais votos por falta de opção, já que Sakon Yamamoto é naturalmente inferior ao brasileiro e Karun Chandhok acabou saindo muito cedo.

Rodrigo Rocha: “Provavelmente é o piloto da F1 com menos corridas na carreira (somando todas as categorias), ainda tem muito a aprender, mas já é rápido. É que com Hispania não dá para avaliar”

SAUBER – NICK HEIDFELD 5 X 20 KAMUI KOBAYASHI (UM NÃO VOTOU EM NINGUÉM, DOIS INDECISOS)

MEU VOTO: NICK HEIDFELD

É uma das duplas mais simpáticas do grid. A vitória de Kamui Kobayashi era esperada, já que o japonês é a sensação do momento. Heidfeld, no entanto, não foi tão absurdamente mal como eu esperava. Um dos votantes, o Luís, simplesmente não escolheu ninguém por gostar dos dois. E é isso que acontece. São dois pilotos legais.

Luís: “Sempre fui fã do Nick e agora do Koba”

VIRGIN – TIMO GLOCK 3 X 22 LUCAS DI GRASSI (TRÊS NÃO ESCOLHERAM NINGUÉM)

MEU VOTO: LUCAS DI GRASSI

Ao contrário da Sauber, a Virgin tem uma das duplas mais apagadas do grid. Ainda assim, Lucas di Grassi vem agradando a vários com sua evolução no ritmo de corrida. E é um sujeito mais gente boa do que o fechado Glock.

Lucas Domakoski: “É um bom piloto, simpático e batalhador. Timo Glock é um piloto mediano, arrogante e mal-humorado”

Puta que o pariu, hein? Eu, todo pimpão, achava que havia encontrado a imagem mais difícil de todos os tempos. Aí aparecem o Rianov, o Arthur Simões, o Daniel Machado e o Renato Breder e acertam o carro, o piloto, o ano e o mineiro-russo-carioca do F1 Nostalgia ainda faz um ippon e emplaca que o circuito é Paul Ricard. Esses caras passam o dia inteiro vendo fotos vintage por aí, só pode ser!

Mas é isso mesmo. O carro é um Osella FA1D pilotado pelo italiano Corrado Fabi no circuito de Paul Ricard no início de 1983. A pintura vermelha não era a usual para a pequena equipe italiana. Naqueles dias, a Osella procurava um novo patrocinador, uma vez que havia perdido, de uma vez só, a Denim, a Pioneer e a S.A.I.M.A. Pouco antes do início da temporada, fecharam um acordo com a Kélémata, uma companhia italiana de cosméticos. E a pintura passou a ser toda azzurra.

Quanto ao piloto, não há muito o que dizer sobre ele. Irmão de Teo Fabi, Corrado era um jovem e promissor piloto italiano que havia vencido a Fórmula 2 em 1982. Em 1983, pilotando o mesmo carro da foto, fez sua única temporada completa na Fórmula 1. Sem conseguir chamar a atenção, Corrado acabou ficando sem uma vaga para o ano seguinte. O que o salvou foi exatamente seu irmão, que achava que poderia competir na Fórmula 1 e na Fórmula Indy ao mesmo tempo. Vendo que não era possível, Teo Fabi acabou se concentrando apenas na Fórmula 1 e deixou sua vaga na equipe Forsythe para o irmão menor, que acabou completando a temporada da Indy. Semanas antes de sua estréia na Indy, Corrado Fabi havia feito três corridas na Fórmula 1 pela Brabham. E também em substituição ao irmão, ocupado com a Indy. Irmãozaço, esse.

Hoje em dia, ele leva uma vida pacata e distante dos carros e das rebimbocas das parafusetas. Bom, em partes. Corrado é o diretor da empresa de transportes da família. E lidera também a associação comercial de sua região. É o Paulo Skaf da Fórmula 1.

Enfim, mistério solucionado. Das próximas vezes, nada de fotos de Fórmula 1.

Lotus e Virgin, duas das equipes que "não trazem nada de bom" e "só envergonham a Fórmula 1"

É incrível como a diferença de mentalidades pode fazer com que dois esportes a motor distintos tomem rumos completamente opostos. Há dois dias, nosso querido executivo sefardita Bernie Ecclestone voltou a espinafrar as humildes equipes novatas da Fórmula 1. Sem meias palavras, ele disse que elas Lotus, Virgin e Hispania são uma vergonha, não agregam nada de positivo e deveriam simplesmente ser enxotadas a pontapés de seu esporte lindo e precioso. É a milésima declaração negativa a respeito da participação das novatas feita por um dirigente de alto quilate da categoria.

Saltando das quatro para as duas rodas, leio no ótimo blog dos jornalistas do Grande Prêmio que a Moto2, a categoria imediatamente inferior à consagrada MotoGP, terá 22 equipes e 40 motos para o ano que vem. Substituindo a antiga 250cc, a Moto2 foi uma das agradáveis surpresas da atual temporada do esporte a motor mundial. Em 2010, a categoria teve grids cheios, uma enorme variedade de motos, patrocinadores fortes, motociclistas de altíssima qualidade, corridas ótimas e, acima de tudo, propulsores de 600cc que superam facilmente a performance obtida pela categoria-mãe há apenas dez anos. Confesso que nunca dei muita bola para corrida de motos, mas fiquei motivado para acompanhar o Mundial de Motovelocidade no ano que vem. E o mais bizarro é que só pretendo acompanhar a Moto2.

Com os dois parágrafos acima, quis eu sugerir que a Moto2 é melhor que a Fórmula 1? Na verdade, sim, mas não posso ser tão radical, até porque o cerne da questão é outro. A Fórmula 1, com toda sua pompa, sua tradição e seu nariz empinado, acredita piamente que sabe fazer um campeonato de corridas melhor, mais emocionante, mais luxuoso e mais tecnológico do que qualquer outra categoria unicamente por ter as tais pompa, tradição e nariz empinado. Na verdade, a categoria só ganha no luxo. Ela não é a mais tecnológica (qualquer campeonato de protótipos contribui muito mais atualmente com a vanguarda automobilística), não é a mais emocionante e, ao menos para mim, não é a melhor.

É uma declaração que soa absurda para alguém que fala de Fórmula 1 em 90% dos textos, mas devo confessar que, se pudesse, só escreveria sobre a GP2, a Fórmula 3000 Internacional e as demais categorias de base. Gosto delas porque são campeonatos baratos, nos quais qualquer um pode se inscrever e os grids costumam lotar, e extremamente competitivos. Até mesmo a GP2, que se comporta como uma Fórmula 1 em miniatura, ainda é mais ou menos assim. Na verdade, escarro nas tradições e na arrogância da tal “categoria máxima do automobilismo”, que não consegue enxergar um palmo além do enorme nariz.

Completamente descolada da realidade e das necessidades do mundo atual, a categoria de Bernie Ecclestone e companhia aposta que um punhado de grifes e aquela sensação girondina de aristocracia travestida de pretensa modernidade podem, por si só, fazer com que a Fórmula 1 continue majoritária, vivaz e bonita. Afinal de contas, estamos distantes dos avanços da tecnologia automobilística e não conseguimos realizar corridas divertidas, mas temos Ferrari, Alonso, Hamilton, Vettel, McLaren, Mônaco, Abu Dhabi, Cingapura, Santander, Vodafone, e isso já nos basta. Pode até ser o suficiente para os extravagantes sheiks árabes, os ingênuos espectadores do Extremo Oriente e para alguns ocidentais ávidos pelo consumismo tapado, pelo culto à imagem e pela ostentação, mas para quem realmente quer ver uma boa corrida, definitivamente não é.

Toni Elías, da Moto2. Que parece tomar um rumo melhor que a Fórmula 1

O desprezo de Ecclestone pelas equipes novatas é um claro sinal de que os velhos dirigentes da categoria ainda agem movidos por aquele sentimento de superioridade que faz com que pensem que apenas seus poucos e bilionários amigos podem entrar na brincadeira. Mas a verdade, seu Bernie, é que são as incômodas presenças da Hispania, da Lotus e da Virgin que garantem um grid de 24 carros em teu esporte. Sem elas, você estaria perdendo seus parcos cabelos com apenas 18 carros e equipes como a Williams e a Toro Rosso ameaçando desaparecer a qualquer momento. Além do mais, as três se dispuseram a participar da Fórmula 1 quase que de maneira heroica, uma vez que foram atraídas pelo tal teto orçamentário do Max Mosley. Sem o teto, poderiam ter simplesmente chutado o balde e abandonado o barco, mas preferiram continuar. Será que, ao invés de escárnio e descrença, não é o caso de agradecer a elas por não termos um número ainda menor de carros e um número ainda maior de pilotos se matando por uma vaga?

E é por isso que coloquei a Moto2 como contraponto. Ela poderia simplesmente dizer não a tantas inscrições e manter um limite de 30 motos, “mantendo apenas os melhores pilotos e aumentando os espaços nos boxes disponíveis a cada equipe”. Ao invés disso, deixou entrar quem quisesse. E sobrevive quem conseguir. É evidente que algumas dessas 22 equipes não deverão fazer mais do que uma ou duas corridas, mas a categoria também permite a inscrição de novas equipes no decorrer do ano. Em 2010, a Moto2 teve 39 equipes disputando ao menos uma etapa, mas apenas 21 delas competiram em todas. Ao meu ver, algo saudabilíssimo. E tudo isso acontece porque os organizadores sabem que um grid saudável é um grid lotado e flexível. E a elasticidade é tamanha que, no caso de uma crise econômica generalizada, uma perda de 10 equipes não representa um estrago tão grande. É tudo uma questão de leitura da realidade. A Fórmula 1, por outro lado, sofre um enorme baque a cada vez que uma única equipe diz adeus.

Vários podem alegar que tudo o que eu disse é equivocado unicamente porque estou comparando uma categoria top do automobilismo com uma categoria menor do motociclismo. Além do mais, alguns podem até dizer que a MotoGP tem grids até menores que o da Fórmula 1. Eu respondo dizendo que se a Fórmula 1 quiser sobreviver, e aí incluo também o prisma econômico, ela tem de parar de jogar todas as suas fichas no luxo e nas marcas. O automobilismo e o motociclismo de base têm muito a ensinar. Por mais que muitos torçam o nariz para isso, a verdade é que o esporte a motor sustentável, realista e divertido deve ser baseado na filosofia do automobilismo de base. Quanto à MotoGP, os grids minúsculos são compensados com corridas das mais emocionantes e disputadas.

E aí entra o meu lado mais radical. Eu, que sempre fui a favor da Fórmula 1 como uma categoria com equipes que constroem seu próprio carro, começo a contestar o tal campeonato de construtores. É melhor extingui-lo e criar dois campeonatos, um para motores e outro para chassis. E as empresas automobilísticas produziriam chassis e motores em série para quem quiser comprar. No máximo, poderiam criar suas equipes de fábrica.  Fico imaginando uma equipe que utiliza chassi Ferrari e motor Mercedes, ou um chassi Lola e motor Aston Martin, ou a Ferrari mantendo um pacote oficial Ferrari-Ferrari para Fernando Alonso. E falando em Alonso, também aproveito e digo que é melhor que cada equipe tenha apenas um carro.

Achar que a Fórmula 1 deve olhar para a Moto2 e tomar medidas como as descritas acima é loucura, coisa de retardado? Pois então fique aí com sua normalidade. Mas não reclame depois que a categoria está chata, que os grids estão pequenos e que os caras só correm em pistas que mais se parecem com shoppings-centers.

Aproveitando que esse site vai ficar parado até quarta-feira, queria saber quais são as preferências dos respeitáveis leitores.

Sexuais? Gastronômicas? Etílicas? Não. É simples. A Fórmula 1 tem doze equipes e 24 pilotos. Para cada uma das 12 equipes, só poste qual é o seu piloto preferido. Não é nada que toma muito tempo, acho eu.

Deixo a minha, com alguns comentários:

MCLAREN LEWIS HAMILTON – No grid atual, é o piloto que mais me lembra Ayrton Senna. É agressivo, voa na chuva, anda de McLaren e tem capacete amarelo. Além do mais, como provado na Coréia do Sul, é um sujeito que gosta dos desafios e que não se acomoda.

MERCEDES – MICHAEL SCHUMACHER – O que dizer que um cara que foi sete vezes campeão mundial? Para mim, ele é o maior de todos os tempos.

RED BULL – SEBASTIAN VETTEL – Apesar de estar em um momento particularmente burro, considero que é um cara que vai dar muito o que falar no futuro. Não foi campeão no ano passado e as coisas estão difíceis neste ano, mas ainda é jovem e tem muito tempo pela frente.

FERRARI – FERNANDO ALONSO – Se Hamilton é o Senna, Alonso é uma mistura bastante interessante de Schumacher das antigas com Prost. É um piloto completo e um seguidor fiel de Maquiavel. Muitos o odeiam por esse lado pouco politicamente correto, mas é exatamente isso que o coloca em um nível acima.

WILLIAMS – RUBENS BARRICHELLO – Perdoe-me, Nico Hülkenberg, mas teu companheiro de equipe ancião ainda tem muita lenha para queimar. É excelente acertador de carros e voa na chuva. E é um cara que ainda emociona quando consegue uma performance melhor.

RENAULT – VITALY PETROV – Não vou negar que minha admiração se dá mais pelo nome dele ser legal e por sua nacionalidade, inédita na Fórmula 1. No mais, era um cara legal de se assistir na GP2. E que até pode dar certo na Fórmula 1, desde que receba uma segunda chance e que não bata tanto.

FORCE INDIA – VITANTONIO LIUZZI – É um cara bastante subestimado que aprendi a admirar na Fórmula 3000, quando conseguiu a proeza de vencer 7 das 10 corridas da temporada de 2004. Ainda acho que merecia uma chance melhor. Mas não tenho nada contra Adrian Sutil.

TORO ROSSO – JAIME ALGUERSUARI – Não que eu o ache grandes coisas, mas o maior problema é que não consigo engolir Sebastien Buemi. Gosto de ver o espanhol largando à frente do helvético e terminando nos pontos. Sim, gosto de eventos raros.

LOTUS – HEIKKI KOVALAINEN – Heikki é outro sujeito bastante subestimado devido à sua fraca passagem pela McLaren. Mas é um piloto de respeito. Na Lotus, está andando bem melhor que seu companheiro de equipe.

HRT – BRUNO SENNA – Não vou muito com a cara do sobrinho, mas a presença de Sakon Yamamoto simplesmente vai contra minha religião. Eu torcia pelo Karun Chandhok.

SAUBER – NICK HEIDFELD – Parada dura. Kamui Kobayashi é o piloto do momento, muito rápido e um tanto quanto avoado. Mas Nick Heidfeld é meu piloto preferido desde 2005. Considero-o um dos melhores do grid, e também um dos mais injustiçados de todos os tempos.

VIRGIN – LUCAS DI GRASSI – É a dupla mais insossa do grid, mas Lucas di Grassi deu uma boa melhorada de uns fins de semana para cá. Acho que, na verdade, trato os dois da mesma maneira: com indiferença.

E você? Quais são os seus pilotos preferidos em cada equipe? Nem precisa explicar, é só jogar a lista.

Gentemmm, como diria Cissa Guimarães, ser funcionário público é ótimo. Além do feriado de terça feira, nós temos um feriado amanhã, e a sexta-feira também é livre. Portanto, este digníssimo sítio vai ficar inativo até quarta-feira.

Para não manter isso daqui às moscas, deixo um pequeno grande desafio para ustedes. Não faço idéia do circuito. Por isso, mandem só o piloto, o carro e o ano e já está de bom tamanho.

Uma hora e 42 minutos. Esse é o tempo que todos nós tivemos de esperar pela bendita largada da corrida coreana. Na calada da noite, irritado, eu olhava para as horas correndo e me sentia um completo idiota por ter de esperar por uma estúpida corrida de carros por tanto tempo. E fiquei com raiva de Bernie Ecclestone, dos pilotos homossexualizados, da pista mal-feita e até mesmo da mãe-natureza, que poderia ter mandado o dilúvio em uma pista que realmente precisasse dela para ter uma competição minimamente interessante, como Hungaroring ou Sakhir, e não em um negócio que nem havia sido finalizado direito.

Mas o fato é que a chuva apareceu e as condições para uma corrida debaixo d´água eram as mais desfavoráveis possíveis. É uma pena, já que a diversão aumenta exponencialmente quando os pilotos não têm qualquer aderência ou visibilidade e as rodadas, as ultrapassagens e os acidentes acontecem a granel. Para quem gosta de um pouco de bagunça, como é o meu caso, um prato cheio. Mas tem horas em que a organização simplesmente não permite ou a chuva simplesmente é forte demais e não há como ter toda essa diversão. Como não vou chegar nem perto de um PC até quarta-feira que vem, adianto o Top Cinq de hoje para falar de cinco corridas não tão remotas que acabaram tendo o andamento prejudicado devido à chuva.

5- JAPÃO/1994

Com seus famosos tufões, o Japão tem um histórico considerável de corridas chuvosas. Algumas delas decidiram títulos, como ocorreu em 1976, em 1988 e em 2000 (será que a lógica segue em 2012?). Em 2004, ocorreu até adiamento de treino oficial. Quando a Fórmula 1 segue em direção à Terra do Sol Nascente, todos ficam com aquela enorme expectativa de ver uma corrida absolutamente encharcada em uma das pistas mais velozes e desafiadoras do campeonato.

Em 1994, choveu horrores no sábado e no domingo da corrida, coisa de louco. Naquele ano, todos estavam completamente paranoicos com relação à segurança e o medo era geral. E se acontecesse alguma merda? E bater em Suzuka, ainda mais na curva 130R, não era pouca porcaria, não. Ainda assim, os organizadores deram a largada normalmente, com os carros saindo de suas posições do grid.

Mas a chuva estava intensa demais. E logo nas primeiras voltas, tivemos Heinz-Harald Frentzen escapando na primeira curva, Hideki Noda rodando na primeira volta e Johnny Herbert, Taki Inoue e Ukyo Katayama aquaplanando e rodando na reta dos boxes. Não dava para continuar assim e a direção de prova decidiu, então, colocar o safety-car na pista. No regulamento do período, constava que o carro de segurança só entraria na pista em caso de acidente que fosse muito forte ou que bloqueasse a pista, o que não era o caso naquele momento. Pela primeira vez na história da categoria, o safety-car entrava na pista para evitar mais problemas com a chuva.

Após sete voltas atrás do safety-car, a organização decidiu reiniciar a corrida no melhor estilo Indy, com os carros largando em movimento. Mas a chuva continuava forte e Franck Lagorce, Pierluigi Martini e Michele Alboreto rodaram logo na relargada. Poucas voltas depois, Martin Brundle e Gianni Morbidelli sofreram acidentes violentos e a turma decidiu dar bandeira vermelha logo de uma vez. Todos tiveram de esperar a chuva dar uma trégua por um bom tempo. Ela realmente diminuiu, mas nem tanto, e a corrida reiniciada foi uma das melhores daquele ano.

4- MÔNACO/1984

Se correr com chuva já é algo naturalmente temerário, correr em Mônaco com chuva é de deixar uma mãe de piloto rezando para todos os santos e orixás. Em 1984, o pequeno principado localizado às margens do Mediterrâneo foi atingido por um temporal daqueles de ensopar os cabelos cheios de laquê das madames locais. A turma esperou a chuva passar por cerca de 45 minutos, mas a nuvenzinha maligna teimava em permanecer sobre suas cabeças. Então vamos realizar a corrida assim mesmo, pensaram em uníssono os organizadores da prova.

Naqueles tempos, a Fórmula 1 era ligeiramente menos fresca e não havia essa de “ah, é perigoso fazer largada parada nessas condições”. Os 20 carros largaram normalmente, mas todos sabiam que poucos sobrariam no final. Logo na Saint Devote, três ficaram pelo meio do caminho: a dupla da Renault, Derek Warwick e Patrick Tambay, e o Ligier de Andrea de Cesaris. Tambay acabou quebrando uma perna e teve de se ausentar da etapa seguinte.

E a corrida foi uma loucura. Alain Prost liderou no começo, mas foi ultrapassado por Nigel Mansell, que vinha dirigindo seu Lotus como um doido. E sua loucura só poderia levar a um acidente na subida da Beau Rivage na volta 15. Recuperando a ponta, Prost passou a dirigir com bastante cautela. Enquanto isso, os jovens Ayrton Senna e Stefan Bellof ultrapassavam tudo quanto era gente e se aproximavam rapidamente da liderança. E a chuva permanecia violenta.

Diante disso, o diretor de prova Jacky Ickx decidiu unir o útil ao agradável e acabou com a corrida na volta 31, dando a vitória a Alain Prost. A alegação oficial era a chuva, mas muitos desconfiaram que Ickx, ex-piloto de Fórmula 1 e piloto da Porsche no Mundial de Marcas, quis favorecer Prost, cujo McLaren utilizava motor… Porsche! O fato é que tanto Senna quanto Bellof se consagraram como os nomes a serem observados como futuros pilotos de ponta, enquanto que Prost, ao marcar apenas metade dos pontos, acabou perdendo o título para Niki Lauda no final do ano exatamente devido a isso: se a corrida tivesse sido finalizada mais à frente, Prost talvez nem venceria, mas os seis pontos do segundo lugar lhe daria o título. O destino é bem-humorado.

3- MALÁSIA/2009

Na semana do Grande Prêmio da Malásia de 2009, circularam algumas imagens na internet mostrando fotos de como andava o clima na região de Kuala Lumpur naqueles dias. O céu estava literalmente preto em alguns pontos, algo digno de filme de terror. A Malásia é um país localizado próximo à linha do Equador e o índice pluviométrico é amazônico: chove muito e chove todo dia à tarde. E ainda por cima, Bernie Ecclestone havia decidido que, a partir daquele ano, a largada ocorreria às 17h locais. Então, simplesmente não havia como contestar as possibilidades quase totais de temporal na hora da corrida.

Milagrosamente, a largada ocorreu em pista seca. Mas o céu estava absurdamente escuro, algo próximo do noturno. E conforme as voltas passavam, o negócio ficava cada vez mais dramático. Na volta 19, as primeiras gotas começaram a cair e a turma seguiu direto para os pits. Alguns colocaram pneus de chuva forte, outros foram mais corajosos e calçaram pneus intermediários. Estes últimos, encabeçados pelos teutônicos Timo Glock e Nick Heidfeld, se deram muito bem e ganharam várias posições.

Mas a tempestade era apenas questão de pouco tempo. E ela chegou de vez na volta 31. Rapidamente, a pista foi completamente coberta por uma espessa camada de água, que chegava a formar correntezas nos trechos em descida. E ninguém mais conseguia parar na pista.

Duas voltas depois, a direção de prova resolveu acionar a bandeira vermelha e todo mundo estacionou nos pits. Enquanto gente como Mark Webber demonstrava preocupação com um possível reinício, o iconoclasta Kimi Raikkonen entrou nos boxes, foi até um frigobar e pegou uma Coca-Cola e um Magnum de chocolate para forrar o estômago, protagonizando a cena mais curiosa da Fórmula 1 em 2009. Depois de um tempo, o pessoal percebeu que já estava anoitecendo e decidiu encerrar a corrida de vez.

2- JAPÃO/2007

Para quem reclamou um monte sobre o enorme período em que o safety-car ficou na pista na corrida coreana, saibam que a Fórmula 1 experimentou uma situação parecida há apenas três anos, na primeira corrida realizada no remodelado circuito de Fuji.

Para aborrecimento de alguns e felicidade de muitos, a chuva apareceu com força durante boa parte do fim de semana. No treino oficial, apesar de não ter chovido na hora, a pista estava molhada devido à precipitação ocorrida minutos antes. Mas ninguém imaginava que o dilúvio de Noé apareceria no dia seguinte, na hora da corrida.

Assim como no GP da Coréia desse ano, a corrida japonesa foi transmitida de madrugada para os brasileiros. Logo, qualquer atraso seria um incômodo extra para quem se dispôs a ficar acordado até altas horas da matina. Para mim, a situação não podia ser pior, já que eu tinha de viajar de manhã. Com a chuva torrencial que caía pouco antes da largada, a organização decidiu colocar o safety-car para andar à frente dos pilotos por algumas voltas. Ninguém chiou, até porque não era a primeira vez que a Fórmula 1 realizava uma largada lançada.

O que foi inédito para todos foi o tempo em que o safety-car permaneceu na pista: 19 voltas, pouco mais de 40 minutos de espera. Eu devo ter ficado até mais irritado naquele dia do que neste último fim de semana, mas a corrida que se seguiu foi sensacional, uma das melhores da década. O destaque fica para a briga pela sétima posição entre Felipe Massa e Robert Kubica na última volta. No melhor estilo Gilles x Arnoux, os dois dividiram todas as curvas e tocaram rodas até a bandeirada final. Valeu a pena esperar tanto.

1- AUSTRÁLIA/1991

E quem lidera a lista é a corrida mais curta da história da categoria.  O Grande Prêmio da Austrália, última etapa do campeonato de 1991, teve apenas 14 voltas, 52,92 quilômetros e 24 minutos e meio de duração. Agradeçam o registro histórico à chuva torrencial que caiu justamente na hora da corrida.

Sim, porque a manhã de domingo e os dois dias de treinos foram ensolarados como deve ser um bom dia de praia em Surfers Paradise. Mas sabe como é, o clima da Austrália é altamente imprevisível e aquele belo céu azul pode se transformar em um conluio de nuvens cumulonimbus prontas para despejar água abundante na cabeça dos pilotos. E foi o que aconteceu. Debaixo de muita chuva, os pilotos alinharam no grid e largaram.

Dois anos atrás, o GP da Austrália teve até mais chuva durante a corrida e poderia perfeitamente constar nessa lista. Mas a chuva da edição de 1991 era intensa o suficiente para formar poças e correntes de água no asfalto. Para piorar as coisas, o sistema de drenagem era péssimo, algo absolutamente comum em circuitos de rua, e os muros em volta do traçado só ajudavam a manter ainda mais água na pista. E o resultado foi um verdadeiro balé dos pilotos.

Nicola Larini bateu seu Lambo no retão Brabham, mesmo lugar aonde escaparam também Michael Schumacher, Jean Alesi e Pierluigi Martini. Michele Alboreto rodou na curva 5. Stefano Modena escapou da pista, assim como Gerhard Berger, que aquaplanou e rodopiou para fora da pista na curva 16. No entanto, os acidentes mais violentos foram os de Mauricio Gugelmin e Nigel Mansell. Gugelmin escapou na curva que antecede a reta dos boxes e bateu violentamente na mureta dos boxes. Seu March chegou a subir na tal mureta e ficou por lá. Já Mansell, que perseguia Ayrton Senna incessantemente, rodou na curva 3 e bateu de frente no muro, machucando a perna e tendo de ser levado ao centro médico.  

A chuva havia chegado a níveis intoleráveis e, na volta 17, Ayrton Senna começou a fazer sinais pedindo para a interrupção da corrida. Imediatamente, o diretor de prova acionou a bandeira vermelha. No final da volta 16, para se ter uma ideia, havia menos de dez carros na pista e os seis primeiros eram Senna, Piquet, Morbidelli, De Cesaris, Zanardi e Modena. Para evitar essa distorção, a organização preferiu considerar que a corrida foi interrompida na volta 14, duas voltas antes da última efetivamente concluída.

Apesar da corrida estar interrompida e da chuva estar inacreditavelmente forte, o diretor de prova queria retomar a corrida. Ele chegou a acionar a placa de 10 minutos, indicando o tempo que faltava para a nova largada, mas os pilotos, liderados por Ayrton Senna e Riccardo Patrese, pressionaram para que a corrida não fosse reiniciada e os resultados fossem considerados finais. Depois de muito trololó, a direção de prova cedeu e os resultados finais foram aqueles da volta 14: Senna, Mansell, Berger, Piquet, Patrese e Morbidelli.

A largada estava prevista para ocorrer às 15h no horário local, cerca de 4h da manhã no horário de Brasília. Mas a chuva, cuja probabilidade de aparecer na hora da corrida era de 60%, deu as caras e resolveram adiar a brincadeira em dez minutos. Esperavam por uma rápida colaboração da natureza, mas ela não veio. Então, decidiram largar atrás do safety-car. Deram três voltas. A chuva ainda estava muito forte. Alguém decidiu acionar a bandeira vermelha. Todos se regozijaram. Os pilotos estacionaram seus carros no grid.

45 minutos se passam. Alguns pilotos ficam no cockpit. Outros saem para ir ao banheiro. Outros vão tomar Coca-Cola com picolé de chocolate. Outros saem para uma cópula rápida com a esposa. Ou com a grid girl. Ou com o mecânico. Os espectadores coreanos, sempre frigidamente sorridentes, sacam suas câmeras Konica Minolta, Sony e Kodak para registrar imagens daquele evento diferente realizado por ocidentais loiros e bizarros. Enquanto isso, muitos e muitos milhões de otários ocidentais aguardavam a maldita relargada tomando uma Stella Artois ou roendo as unhas. No Brasil, a coisa era ainda pior. Sendo de madrugada, muitos sacrificaram o sono, a balada ou a cópula rápida para assistir ao diabo da corrida.

Após este interminável período sabático, a organização decide recolocar os carros na pista. Atrás do safety-car, é claro. O pessoal quer saber como está a pista. A chuva, sempre intrépida, não para. Ela diminui e aumenta com a regularidade de uma pessoa com taquicardia. Os pilotos, milionários, politicamente corretos e criados no condomínio com achocolatado feito pela vovó, reclamam da chuva, da pista, da lama, da precariedade do sistema de drenagem, da falta de aderência dos pneus, da Dilma e do Serra. E tome volta após volta atrás do safety-car. 14, mais precisamente. Aquilo que podemos chamar de corrida de carro só começou, de verdade, na volta 18. Após 1h42 de espera, mais precisamente. E contra a vontade da maioria dos pilotos.

Tá todo mundo de brincadeira, né? Não me lembro de um atraso tão grande quanto esse na Fórmula 1 contemporânea. Talvez tenha acontecido em alguma corrida isolada de 1956 ou 1961, mas eram outros tempos, o televisionamento era incipiente e basicamente irrelevante. Hoje em dia, há uma série de coisas a serem respeitadas: os contratos com as televisões ao redor do mundo, os contratos com os patrocinadores e o compromisso com o espectador. Coisas estas que, ironicamente, se tornaram sine qua non exatamente devido à profissionalização extrema da categoria. E do mesmo jeito que não dá pra perdoar uma pista que só conseguiu ser finalizada faltando apenas dez dias para sua corrida de batismo, não dá pra perdoar duas horas de atraso. Se as condições de corrida estão tão ruins, que adiem a corrida para outro dia. É mais digno e os tais contratos, embora prejudicados, não deixam de ser respeitados. Ou, em último caso, recolham a bola e cancelem a brincadeira. Deixar o espectador coreano tomando chuva na cara ou o espectador ocidental chupando o dedo feito um idiota por quase duas horas é um tremendo desrespeito para com quem religiosamente garante a audiência dessa categoria superestimada e cheio de frescuras que é a Fórmula 1.

Ah, mas estava perigoso demais, dizem alguns. Puta que o pariu, respondo eu. Puta que o pariu! O circuito de Yeongam, por mais inacabado que estivesse naquele determinado momento, não é todo esse absurdo que muitos preconizavam logo nos primeiros treinos. Os trechos ditos mais perigosos não são tão velozes e há áreas de escape e pneus de proteção o suficiente. Vitaly Petrov bateu forte, destruiu o carro e só ficou absolutamente irritado. Além do mais, qualquer corrida de Fórmula 1 é amparada por várias UTIs móveis e helicópteros prontos para seguir para o primeiro hospital limpo e tecnologicamente impecável que há por perto. E olha que nem vou entrar no mérito da segurança praticamente perfeita do bólido contemporâneo de Fórmula 1. Dirigindo meu precário Corsa 99 nas ruas campineiras a 60km/h, eu me encontro em situação muito mais insegura e desprotegida do que um piloto qualquer. Na Fórmula 1, o cara só morre se for azarado demais. Ou nem isso, vide Felipe Massa.

Yeongam

E faço a pergunta: o fascínio do automobilismo não é exatamente o confronto contra o perigo? Se ninguém quer perigo em uma corrida de carro, acabem com o automobilismo e vamos todos jogar pôquer. Desde que o homem conseguiu construir uma geringonça que consegue se locomover sem a necessidade de ter um animal como força propulsora, há aquela tentação de fazê-lo andar mais rápido que o amigo sem se estrebuchar em uma árvore qualquer. Automobilismo é risco, e sempre foi assim. É evidente que ninguém quer ver o cara morrendo de maneira sórdida em um acidente. Mas se o sujeito se dispõe a pilotar um carro de corrida, é porque ele tem consciência de que faz algo extremamente perigoso e que a próxima corrida pode ser sua última. Mas os moleques da Fórmula 1 atual simplesmente se esqueceram disso. Pelo visto, os inegavelmente felicíssimos 16 anos sem uma morte deixaram os caras mal-acostumados.

Bato agora na organização. Eu concordo plenamente com o fato de que a chuva estava forte. E concordo também que era caso de adiar e de dar bandeira vermelha. E até engulo o fato dos pilotos ficarem algumas voltas atrás do safety-car. No GP do Japão de 2007, também ficamos esperando pela largada por quase uma hora. O que não dá pra aceitar é desrespeito ao espectador. E também não consigo entender o porquê de ter esperado por tanto tempo.

Fiquei com a impressão de que estavam esperando a pista ficar completamente seca. Em um determinado instante, nas últimas voltas atrás do safety-car, o inglês Lewis Hamilton (quem mais poderia ser?) disse pelo rádio que queria correr, que dava para correr e que a pista já permitia até mesmo o uso de pneus intermediários. Por isso que gosto do Hamilton. Me arrisco a dizer que, no grid atual, é o cara que mais entende que o automobilismo envolve riscos e desafios. E sobre a questão dos pneus intermediários, ele não estava errado. Alguns trechos consideráveis estavam praticamente secos e o problema maior residia na formação de poças em determinadas curvas, alegavam alguns.

Mas se há chuva, há formação de poças, santa mãe. Além disso, a esmagadora maioria dos circuitos não consegue escoar a água por completo, especialmente os mais antigos. Até um tempo atrás, ninguém reclamava ou adiava a corrida por isso. E muito me irrita essa aversão pela chuva. A insistência em manter o safety-car na pista apenas para esperar pela pista mais seca possível foi uma das coisas que mais me irritou desde que comecei a ver corridas. A chuva sempre foi um fator importante nas corridas de carro e os pneus para chuva forte existem exatamente para enfrentá-la. O caso é que eles mal estão sendo utilizados nos últimos anos. Tanto em Spa-Francorchamps quanto em Yeongam, os organizadores decidiram interromper a corrida ao menor sinal de chuva um pouco mais forte, esperando que a pista secasse o suficiente para não haver a necessidade de pneus para temporais. E o resultado é este: corridas castradas e pilotos bundões.

Será que a tendência é o fim dessas corridas?

E é por isso que, especialmente após a corrida coreana, comecei a acreditar que, a médio prazo, a FIA passará a evitar a chuva até mesmo por meio de regulamento, assim como ocorre com a NASCAR e com as corridas de ovais na Indy. Mas estes últimos casos são absolutamente compreensíveis, já que realizar corridas em ovais com chuva é simplesmente irresponsável. A Fórmula 1 não tem esse problema, mas deve passar pelas cabeças de Todt, Ecclestone e companhia que as corridas chuvosas são dispendiosas (um monte de gente bate), mais demoradas e até mesmo atrapalham a visibilidade de placas publicitárias e adesivos.  Além do mais, é perigoso e as tias solteironas do politicamente correto estão sempre aí para encher o saco.

Aos poucos, toda e qualquer chuva fará com que o safety-car entre na pista. Aí a FIA chega e acaba com a existência de pneus de chuva forte. Aí o calendário é remodelado de modo a pegar os períodos secos de cada país, como ocorreu com Interlagos e Indianápolis (felizmente, deu errado nos dois casos). E quando nós dermos conta, não há mais corridas com pista molhada. Paranoia? Provavelmente. Mas em se tratando da capacidade da FIA em destruir o automobilismo, acredito em qualquer coisa.

Antes que digam que corridas prejudicadas pela chuva já aconteceram antes, digo que tenho total noção delas. A largada do GP da Bélgica de 1989 foi adiada em meia-hora. E o GP da Austrália de 1991 foi interrompido após apenas 13 voltas. Sei disso. Mas não me conformo com esta tendência de transformar qualquer chuva em algo absurdo e cruel para os pilotos. Eles são muito bem pagos para correr. E a pista, por sua vez, teve um bocado de tempo para acertar a questão do escoamento de água, tão comezinha na construção dos circuitos atuais.

Aversão à chuva, punições a torto e direito, pilotos com a profundidade intelectual e emocional de um molusco, pistas insossas e com cara de estacionamento de shopping. Esta é a Fórmula 1 das frescuras e das reclamações. Do jeito que as coisas estão, será melhor deixar a corrida de lado e fazer uma cópula rápida. Ou não tão rápida assim.

FERRARI9 – Comemorem, italianos! Um fim de semana que tinha tudo para ser discreto simplesmente se transformou em uma quase dobradinha. E tudo isso sem ter o melhor carro! Só não leva uma nota melhor porque Felipe Massa terminou em terceiro e porque a equipe de boxes deu uma boa atrapalhada na corrida de Fernando Alonso. Fora isso, nada a contestar.

MCLAREN7 – Não era, mesmo, um fim de semana para ela. Perder para a Red Bull não é nenhuma novidade nesse ano, mas ficar atrás da Ferrari não era algo que estava nos planos. Os dois pilotos terminaram com os pneus em pandarecos. Lewis Hamilton poderia ter vencido, mas seus freios também não estavam bons e um erro acabou fazendo com que ele ficasse atrás de Alonso. E Button só se deu mal lá no fim do grid.

MERCEDES6 – E o Schumacão salvou, novamente, as honras da gloriosa marca das três pontas. Nico Rosberg, pela segunda vez seguida, sofreu um acidente na qual não teve culpa nenhuma e perdeu uma ótima chance de pódio. Já Michael andou direitinho e, com aquela sorte que sempre o caracterizou, terminou em um ótimo quarto lugar.

RENAULT7,5 – O carro estava muito bom nos treinos, mas o aspecto fortuito da corrida fez com que o resultado fosse algo decepcionante. Robert Kubica teve problemas de aderência e só conseguiu se recuperar no final. Já Vitaly Petrov até conseguiu andar nos pontos, mas errou e bateu forte. Contar com a ajuda do russo tende à impossibilidade.

FORCE INDIA5 – Muito longe daquela forma apresentada no início do ano, resta à equipe indiana tentar superar, ao menos, a Sauber e a Toro Rosso. Todos esperavam, como de costume, pela boa atuação de Adrian Sutil, mas o alemão só fez cagada e foi até punido. Quem surpreendeu e salvou o fim de semana da equipe foi Vitantonio Liuzzi, que conseguiu um ótimo sexto lugar.

WILLIAMS6,5 – Andar bem nos treinos já deixou de ser algo notável para a equipe inglesa, e o desempenho na corrida também vinha sendo muito bom. No entanto, para desespero de todos, a volta 52 acabou com toda a felicidade do pessoal. Enquanto Rubens Barrichello errava e perdia duas posições, Nico Hülkenberg teve de ir aos boxes lentamente para trocar um pneu furado. Diante disso, ficar em 7º e 10º foi bastante chato.

SAUBER7 – Não foi bem nos treinos como de costume, mas conseguiu pontuar com os dois carros pela segunda vez seguida. Um dos carros, aliás, demonstrou que é bastante resistente a acidentes provocados por energúmenos: Kamui Kobayashi conseguiu sobreviver a dois toques de Sutil e terminou em oitavo. O sempre discreto e eficiente Nick Heidfeld terminou em nono.

TORO ROSSO3,5 – A mediocridade de sempre. Mal nos treinos, acabou tendo de depender dos esforços do jovem azarado Jaime Alguersuari, mas o espanhol perdeu um ponto ao ser ultrapassado por Hülkenberg na última volta. Sebastien Buemi bateu em Timo Glock e abandonou cedo.

LOTUS3 – Não fez nada de mais e quase perdeu a 10ª posição no Mundial de Construtores. Como esperado, Heikki Kovalainen foi o melhor entre os pilotos das equipes novatas. Já Jarno Trulli, para variar, teve problemas hidráulicos e abandonou.

HISPANIA4 – Chupa, Virgin. Chupa, Lotus. A gente termina lá atrás, mas termina com os dois carros inteiros! Tudo bem que a suspensão do carro de Bruno Senna arriou em um trecho de alta velocidade, mas ao menos aconteceu nos treinos livres. Tanto ele quanto Sakon Yamamoto levaram vagarosamente seus bólidos até o final, sendo a única equipe novata a consegui-lo com os dois carros.

RED BULL2 – Voltou a ter aqueles típicos fins de semana de domínio absoluto no treino oficial e fracasso retumbante na corrida. Após não terem dado chance à concorrência no sábado, os dois pilotos se deram vigorosamente mal na corrida. Mark Webber, por culpa dele, rodou após duas voltas sob bandeira verde, bateu e saiu da corrida. Sebastian Vettel, ao contrário, vinha fazendo tudo direitinho, mas o motor Renault lhe deixou na mão. Desse jeito, vai perder até mesmo o título de construtores. E realmente está merecendo perder.

VIRGIN2,5 – Tinha um carro até melhor que o Lotus e Timo Glock chegou a andar muito próximo dos pontos. Mas o saldo final da equipe foi um par de carros destruídos. Glock foi atingido de maneira grotesca por Buemi e Lucas di Grassi rodou sozinho enquanto tentava passar Yamamoto.

TRANSMISSÃO AIAIAIAIAI… PORCA MISÉRIA! – Em tempos infelizmente mais remotos, quando havia um lance de tensão na corrida, Galvão Bueno narrava sem precisar gemer ou gritar. Nos dias atuais, nosso querido narrador acaba soltando os tais gritinhos até mesmo quando um piloto espirra. Sem Luciano Burti, a transmissão ficou meio caduca e os dois globais cometeram uma série de erros ou comentários minimamente bizarros, como a ultrapassagem de “Rubinho” sobre “Barrichello” ou o tétrico “o mecânico da Ferrari perdeu a porca… porca miséria!”. Porca miséria mesmo!

CORRIDAÓTIMA CORRIDA DE NASCAR – É um assunto que vai render um texto amanhã. A Fórmula 1 das práticas covardes e homossexuais tentou, ao máximo, impedir a realização da corrida sob chuva. Eu compreendo perfeitamente quando as condições estão muito ruins, como realmente estavam nos primeiros momentos. O problema foi tentar adiar ao máximo esperando que a pista secasse e o uso do pneu de chuva forte se tornasse inútil. Pô, se for assim, é melhor fazer como a NASCAR e cancelar uma corrida toda vez que a pista ficar molhada. E nem há a necessidade de ter pneus de chuva forte. Foram poucas as ocasiões que fiquei tão irritado com Fórmula 1 como nas quase duas horas de espera. Após todo esse tempo, apenas uma corrida histórica poderia salvar o humor deste. Ela não aconteceu e o que tivemos de melhor foram os vários acidentes. O saldo final da primeira corrida coreana foi bastante negativo, o que é algo injusto para uma pista com muito potencial.