Realidade


churrasco

OBS: Todos os personagens aqui mencionados são ficcionais, inclusive os baseados em pessoas reais. Qualquer semelhança nominal ou descritiva com o mundo real é mera coincidência. Esse texto contém linguagem grosseira e não deve ser lido por ninguém.  Mas se acontecer de alguém ler isso aqui e ficar puto, não me processe. Sou pobre, bonzinho, da paz e não tenho nada contra ninguém. Podemos resolver as paradas com cerveja e armas.

“Cadê aquele tênis que eu comprei na semana passada?”

O vaidoso Nico Rosberg revira sua mala atrás daquele Nike de 700 dólares que ele adquiriu em Mônaco. Apesar da fama de metrossexual enjoado, Nico não é o tipo de cara que gasta tanto nesse tipo de coisa. Ocorre que a ocasião exigia tal dispêndio. Hoje é dia de churrasco na chácara brasileira de Bernie Ecclestone.

Churrasco feito por um inglês? Não torça o nariz, pois não há motivos para tanto. Para celebrar o fim da temporada de 2014, Bernie decidiu convidar toda a galera chique e elegante da Fórmula 1 para uma algazarra em uma deslumbrante propriedade localizada em Angra dos Reis. O terreno de mais de 50 mil metros quadrados abrigava um velho casarão em estilo clássico, uma lagoa, três piscinas olímpicas, campo de futebol e uma pista de kart devidamente projetada por Hermann Tilke, especialista em pistas de kart.

Quem deu à festança um toque brasileiro foi justamente Fabiana Flosi, a primeira-dama da Fórmula 1. Ciente das graves limitações gastronômicas típicas dos britânicos, ela resolveu tomar a frente dos comes convidando alguns amigos seus para assarem picanhas e linguiças. Bernie sabia que seus colegas europeus não saberiam sequer esquentar uma lasanha no micro-ondas. Confiar na esposa era o mais prudente.

E assim foi. Todos os pilotos que participaram da temporada de 2014, do campeão Lewis Hamilton ao modesto Will Stevens, foram convidados para o churras com futebol e piscina sob o sol fluminense. Tragam cerveja. Podem trazer mulheres, filhos e amantes, também. Evento família, sem exageros. Angra dos Reis, dia 30 de dezembro, não se esqueçam.

angra

Ao receberem seus convites, Nico Rosberg e Lewis Hamilton logo correram para ver quem conseguiria chegar antes do outro pagando menos. Não tinha nada de competição amistosa e divertida aí, mas apenas uma vontade quase patológica de ser melhor que o outro. Nico encontrou uma ótima promoção Paris – São Paulo por 1.800 dólares, mas Lewis se deu melhor com uma passagem apenas um pouco mais cara que o faria chegar ao Brasil um dia antes. Coincidência das coincidências: ambos acabaram reservando o mesmo hotel no Rio de Janeiro.

Fernando Alonso fez questão de alugar uma Ferrari lá na Avenida Europa, em São Paulo. Ele não toleraria a ideia de chegar ao churrasco sem a namorada mais bonita e o carro mais bacana. Pagou mais de 50 mil reais para ficar com uma 360 Modena por dois dias. Andar de Honda Fit? Nem pensar.

Daniil Kvyat quase não veio porque seus pais não queriam deixar. No fim das contas, Kvyat prometeu se comportar e não fazer bagunça na casa do vovô Bernie. O mesmo não aconteceu com Max Verstappen, que ficou de castigo porque não havia arrumado a cama.

Kamui Kobayashi, Marcus Ericsson e Will Stevens quase não vieram. Juntaram suas parcas economias e compraram um lugar na classe econômica para voar de madrugada. André Lotterer fez um empréstimo com os caras da Audi e Max Chilton ganhou a passagem aérea de presente de Natal do pai.

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Nico Rosberg chegou à chácara exatos três minutos antes de Lewis Hamilton. Os dois saíram do hotel com seus respectivos Mercedes CLS e cruzaram os mais de 110 quilômetros da rodovia Rio-Santos que ligavam o Rio a Angra em menos de trinta minutos – radares e curvas não foram respeitados. Entre fechadas e xingamentos, Nico e Lewis sobreviveram à luta fratricida e chegaram inteiros à chácara do Berniezão. Por ter chegado antes, o alemão fez questão de ocupar duas vagas no estacionamento, dificultando ainda mais a vida de Hamilton.

Nico tinha os tênis mais legais, mas a camiseta de Lewis Hamilton era mais bacana e seus óculos escuros eram mais modernos. Em se tratando de álcool, Rosberg derrotou o colega ao levar cerveja artesanal e algumas garrafas de vodka, ao passo que Hamilton só havia trazido um engradado quente de Brahma. Em termos de namorada, você decide o vitorioso. A de Alonso é melhor.

Falando no diabo, ele foi um dos que chegou mais cedo. Fez questão de estacionar sua Ferrari na frente do portão justamente para passar inveja em seus colegas. Levou cerveja e carne de primeira, saiu contando a todos que era um churrasqueiro do caralho e que faria o melhor “bife de chorizo” do mundo, ignorando que não estava em Buenos Aires.

O contente Daniel Ricciardo foi reconhecido à distância graças ao seu sorriso de comercial de pasta de dente. Chegou de óculos escuros, camiseta colorida, bermuda alaranjada e chinelão Rider. Foi o primeiro cara da Red Bull a chegar.

Sebastian Vettel, mais comportado, veio logo depois. Não estava muito feliz. O Renault Fluence que ainda tinha de dirigir por contrato parou no meio do caminho por causa de um escapamento furado. Garoava naquele momento. Vettel deu um jeito de vedar o escapamento e seguiu adiante, chegando todo molhado no churrasco. Se estivesse de Ferrari, isso não aconteceria. Jean-Éric Vergne, que veio de carona, concordava plenamente.

Kevin Magnussen veio com papai Jan. Os dois estacionaram seu carro ao lado do Honda Accord de Jenson Button. O peralta Kevin ainda fez questão de pegar uma pedra e traçar um risco na lateral do carro do antigo companheiro, represália infantil pela sua situação de desempregado.

Felipe Massa chegou numa boa com sua Ferrari. Levou esposa e seus filhos Felipinho e Valtteri Bottas. É um cara bem família. Bottas estava morrendo de fome, apesar de ter devorado um saco de Doritos antes de chegar.

Adrian Sutil e Esteban Gutiérrez foram dos últimos a chegar. O primeiro trombou seu Celta alugado em um cruzamento, brigou com o motorista, jogou-lhe uma latinha de cerveja no meio da cabeça e arranjou um problemão. Em janeiro, Sutil terá de retornar ao Brasil para trocar umas ideias com um magistrado da Comarca de Angra dos Reis. Já Gutiérrez subiu na calçada, atropelou um cachorro e ainda bateu na traseira de um Corolla. Mesmo assim, não perdeu o churrasco.

Mas nada superou a chegada de gala dos dois homens de Enstone. Pastor Maldonado não sabia o caminho até a chácara, não tinha um GPS e acabando combinando com Romain Grosjean que o seguiria. Tudo se encaminhava de forma surpreendentemente segura até o momento em que Maldonado decidiu mexer no rádio do carro, trocando aquela porcaria imperialista de hip-hop californiano por uma boa e tradicional canção do falecido Simón Díaz. Desatento, ele parou de prestar atenção no que acontecia logo à frente e acabou acertando em cheio a traseira do carro de Grosjean quando ambos estavam a poucas quadras da chácara. Percorreram o restante do caminho a pé. Na entrada, Romain ainda tropeçou em uma pedra, caiu e levou Pastor junto com ele. Estavam empatados.

Marcus Ericsson, André Lotterer, Will Stevens, Kamui Kobayashi e Max Chilton vieram de busão. Diz a lenda que ainda fizeram questão de pular a catraca. Vinte centavos fazem toda a diferença, cara.

Kimi Räikkönen chegou sabe-se lá como, quando e por quê. Estava vermelho, cambaleante e com cheiro pronunciado de álcool.

churrascocachorro

A galera logo foi se organizando da melhor forma possível. Fernando Alonso chegou ao churrasqueiro, que por sinal era o primo de Fabiana Flosi, e se ofereceu para assumir as picanhas, maminhas e linguiças. Não parava de repetir que era especialista em carnes, que manjava muito dos paranauês e que o fato de ser espanhol não o impedia de fazer um bife ancho daqueles. Desnecessário dizer que o churrasqueiro logo percebeu que o Gourmet das Astúrias era um pé no saco.

Sebastian Vettel estava ali, quieto no canto, visivelmente incomodado com a presença daquele australiano de cabelo ruim e sorriso constante. Daniel Ricciardo era um dos reis do churrasco, todo contador de piadas, o verdadeiro rei dos causos. Os caras se sentaram ao seu redor e ficavam ali, escutando as anedotas que o dândi não cansava de narrar enquanto ria aleatoriamente.

Em outra rodinha, Nico Rosberg e Lewis Hamilton contavam aos presentes sobre suas façanhas pessoais. “Levei cinco meninas para cama de uma só vez quando ainda estava na Fórmula 3“, jactava-se Hamilton. “Aprendi a falar húngaro em apenas oito meses”, rebateu Rosberg. “Sou amigo do Jay-Z”, treplicou Lewis. “Já corri de kart contra o Ayrton Senna”, devolveu Nico. Os dois passaram longos minutos apresentando seus currículos de feitos, façanhas e conquistas. Os ouvintes podiam ser divididos em dois grupos, os que estavam de saco cheio de tanta autopromoção e os que fingiam que estavam interessados.

Felipe Massa estava sentado em uma mesa isolada, cuidando do Felipinho e dividindo uma cerveja sem álcool com a Rafaela. Homem responsável, bom pai de família, não estava disposto a beber e a passar vergonha ali na frente de seu filho.

Na maior ansiedade, Valtteri Bottas devorava todos os pães franceses enquanto esperava pela primeira rodada de carnes. Kevin Magnussen e Daniil Kvyat tomavam Fanta enquanto discutiam efusivamente sobre os novos lançamentos do Playstation 4.

Pastor Maldonado quebrou uma das garrafas de vodca. Sergio Pérez pisou no pé de Adrian Sutil, irritando profundamente o alemão de sangue tão uruguaio como o de Luis Suárez. Os dois quase saíram na porrada. Copos voaram.

Kimi Räikkönen estava por aí, com um copo meio vazio na mão, a cara vermelha e um sorriso crescente.

futebol

Numa dessas, Bernie quis juntar a galera para uma partida de futebol. Dava para dividir onze pilotos para cada lado. Havia, é claro, mais do que 22 homens, mas como sempre há alguém (Räikkönen) que não quer participar, então seria possível ajustar as coisas numa boa.

Sempre muito democrático, Bernie resolveu formar os times do jeito que ele queria. De um lado, botou Hamilton, Rosberg, Ricciardo, Kvyat, Grosjean, Alonso, Massa, Bottas, Hülkenberg, Lotterer e Stevens. Do outro, enfiou Vettel, Magnussen, Button, Pérez, Vergne, Ericsson, Maldonado, Chilton, Kobayashi, Sutil e Gutiérrez.

Foi um massacre. O time de Rosberg e Hamilton enfiaram uns inacreditáveis quinze gols nos adversários. Hamilton e Rosberg, no ataque, competiram para ver quem marcaria mais. Apesar do melhor momento do futebol alemão, Lewis se deu melhor com sete bolas na rede. Rosberg fez seis e o incrível Ricciardo, mesmo jogando como volante, meteu três lá de longe.

Felipe Massa e Valtteri Bottas, devido aos seus atributos físicos, ficaram lá na defesa. Não tiveram muito trabalho, pois Sebastian Vettel conseguiu errar todas as bolas que chutou ao gol. A vida não estava fácil para o alemão. Magnussen chegou a abrir o placar com um golaço lá da lateral, mas depois não fez mais nada no jogo. Vergne fez alguns gols, mas ninguém ligou. Pérez também fez, mas notabilizou-se mais pelas faltas e carrinhos desleais. O time perdedor contabilizou seis gols.

O jogo foi nervoso. O pobre Massa tomou trombadas de Kobayashi, Pérez e Magnussen, chegando a ficar de ponta-cabeça por conta desse último. Maldonado e Gutiérrez se desentenderam em alguns momentos e até trocaram alguns empurrões, mesmo pertencendo ao mesmo time. O inexpressivo Ericsson, no papel de arqueiro, só levou bolada o tempo todo.

Porém, foda mesmo foi a disputa entre Hamilton e Rosberg pela artilharia do jogo. Os dois se recusavam a tocar a bola um para o outro e, em consequência, perderam vários gols de bobeira. Vez por outra, um até roubava a pelota do outro, querendo assumir o protagonismo do jogo. Tamanha gula garantiu a vitória ao seu time, mas também um clima bem pesado entre os dois atacantes. Lá do lado de fora, alguém sugeriu que apenas um deles ficasse como centroavante, mas a sugestão foi recusada tanto por Bernie como pelos dois jogadores.

Alonso saiu do jogo dizendo que ninguém foi melhor do que ele. É claro que, como meio-campista, sua esperteza e seus passes precisos ajudaram e muito o time. Mas também não precisava sair dizendo que “se não fosse por mim, Nico e Lewis não teriam feito nada“. É bom mencionar: o espanhol não fez gol algum no jogo e já estava com o ego nas alturas. Se tivesse marcado, trocaria o nome para Xabi.

piscina

O intensificado calor vespertino e o maior nível médio de gradação alcóolica no sangue conduziu toda a gente a uma das piscinas. Só tinha homem ali, as mulheres ficaram do lado de fora, mas ninguém estava nem aí.

Já mais louco que o Batman e o Wolverine juntos, Kimi Räikkönen pulou na água com copo e tudo. Não parava de rir, de gritar e de atazanar seus colegas. Os demais foram entrando aos poucos. Fernando Alonso apenas repetia que havia ganhado inúmeros troféus em campeonatos de natação lá nas Astúrias. Valtteri Bottas estava pronto para pular, mas o zombeteiro Daniel Ricciardo advertiu que toda a água da piscina iria embora caso ele fizesse isso. Felipe Massa não entrou na piscina porque não tinha altura para isso. Daniil Kvyat pôde entrar, mas só com boia.

Lewis Hamilton e Nico Rosberg se entreolhavam. Um sabia que o outro provavelmente o empurraria com tudo na piscina. Por via das dúvidas, se afastaram. Cada um entrou por um canto.

Sempre competitivo, Fernando Alonso sugeriu aos amigos que fizessem uma competição para ver quem atravessava a piscina no menor tempo. Kimi Räikkönen diligentemente o mandou tomar no cu. Valtteri Bottas recusou, pois sabia que transatlântico não acelera. Os arquirrivais Lewis Hamilton e Nico Rosberg toparam o desafio. Daniel Ricciardo e Sebastian Vettel também. Somente eles, diga-se.

Os cinco se posicionaram e largaram. Vettel vinha razoavelmente bem, mas uma cãibra na perna o fez sair da disputa mais cedo. O tal multicampeão de natação Fernando Alonso era o último colocado, mas se esforçava como ninguém para recuperar terreno. Lá na frente, para variar, Nico Rosberg e Lewis Hamilton dominavam a parada. Um dos dois fatalmente ganharia.

Lewis tinha um antebraço de distância de vantagem de Nico, que não podia aceitar essa situação. Quando se aproximavam do final da piscina, Rosberg tomou uma medida desesperada e desleal. Esticou o braço esquerdo e puxou com tudo a perna de Hamilton, que perdeu o equilíbrio e o ritmo. Lewis se debateu, tentou se recuperar e acabou acertando um chute no olho do adversário. Longe dessa balbúrdia, Daniel Ricciardo seguiu nadando numa boa e ganhou a competição.

Hamilton e Rosberg começaram a brigar feio na piscina, o primeiro com o pé torcido e o segundo com a cara roxa. “Invejoso do caralho”, “canalha” e “filho da puta” foram alguns dos impropérios mais brandos proferidos pela dupla do barulho. Os outros caras tiveram de separá-los e Bernie os chamou no canto e disse que, se não parassem com essa merda, não teriam suas superlicenças renovadas para 2015. Problema resolvido na hora.

Para evitar maiores problemas, Ecclestone resolveu guardar um pouco das bebidas mais fortes. Ficou surpreso quando encontrou a grande maioria das garrafas já vazia. Kimi Räikkönen havia passado por ali.

cerveja

Depois do sol forte à tarde, o excesso de umidade e a baixa pressão atmosférica abriram caminho para a formação de gigantescas nuvens acinzentadas. Em questão de minutos, aqueles amontoados condensados que mais se assemelhavam a enormes carneiros obesos no céu começaram a despejar água na cabeça de todos. Angra dos Reis rapidamente se tornou uma cidade monçônica, encharcada.

Na chácara do velho Bernie, a galera toda se enfurnou debaixo da cobertura da churrasqueira. Para animar um pouco o churrasco, Felipe Massa decidiu improvisar um sambinha com os amigos brasileiros da Fabiana Flosi. Pegaram pandeiro, cavaquinho, violão e tentaram cantar alguns dos maiores sucessos do samba e do pagode. Não obtiveram muito êxito, pois eram quase todos paulistas branquelos de classe alta ali. Os gringos, no entanto, nem perceberam a ruindade musical ali presente. Afinal de contas, você sempre pode confiar cegamente em um brasileiro em se tratando de samba.

Numa dessas, entediados e já em um nível alcóolico considerável, os caras começaram a engrenar conversas um pouco menos brandas e solenes do que o esperado para os convivas da Fórmula 1. Quando começaram a falar em putarias, Fernando Alonso contou que já havia traçado mais de 500 mulheres e que se orgulha de nunca ter ficado com alguma “chica fea”. Lewis Hamilton e Jenson Button não cansavam de contar sobre suas andanças pelo mundo das celebridades. Desnecessário dizer que suas mulheres não pareciam muito confortáveis com a conversa.

Os mais comportados, como Felipe Massa, Sebastian Vettel e Nico Rosberg, não tinham muito o que comentar. Ficaram ali, só escutando, sem grandes histórias para se vangloriar. Will Stevens, quase sempre ignorado, dizia que era muito difícil ser o rei da mulherada andando de Caterham e correndo na World Series by Renault. Faz sentido. Esteban Gutiérrez afirmou que andar de Sauber e ser muito feio também não ajuda muito. Também faz sentido. Daniil Kvyat, sempre muito curioso, perguntava aos mais velhos sobre o que deveria fazer para conseguir levar uma mulher para a cama. Kevin Magnussen demonstrava interesse parecido, mas o pai Jan fazia cara feia – ele não queria que seu filho repetisse a cagada de iniciar uma prole antes dos 25 anos de idade.

O testemunho mais bizarro de todos logicamente foi o de Kimi Räikkönen, que falava abertamente do mau cheiro predominante no órgão sexual da maioria de suas namoradas finlandesas. Depois, ainda confessou surpresa pelo fato de Adrian Sutil não ser gay. Todos riram do arroubo de sinceridade, a não ser o constrangido piloto da Sauber, que já preparava um copo para qualquer contingência.

Eles também tentaram falar sobre política, religião e futebol. É claro que a conversa não rendeu muita coisa a partir daí porque os pilotos, de forma geral, são intelectualmente rasos e absolutamente incapazes de emitir opiniões que vão além do senso comum. Na política, são do tipo que não gostam dos Estados Unidos e também não curtem a Coréia do Norte. Em se tratando de religião, até acreditam em Deus, mas não sabem nem onde fica o Vaticano. Com relação a futebol, só sabiam falar da Champions League e do título mundial do Real Madrid. Quer dizer, nada que você não escute enquanto almoça com seus colegas de trabalho.

Diante de tanta ladainha e da melhora das condições climáticas, Bernie Ecclestone teve outra ideia. Que tal fazer uma corrida de kart?

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Todos os caras toparam o desafio – corrida de kart, para eles, é que nem pelada de fim de ano para os jogadores de futebol. Isso significava que a tal brincadeira do Bernie poderia ter mais de vinte participantes na pista, algo inimaginável na sua Fórmula 1. Mas haveria karts para tanto? Não. Assim como em todas as demais áreas, o downsizing era a palavra de ordem ali. Apenas vinte caras poderiam competir. O problema é que havia mais do que isso ali.

Sempre muito democrático, Ecclestone decidiu de forma unilateral como a coisa funcionaria. Assim como nos bons tempos de Ayrton Senna e Alain Prost na McLaren, a superlotação seria decidida em uma pré-classificação. Isso significa que os coitadinhos, aqueles com menos moral, teriam de disputar um treino suicida para ver quem correria contra os picas. Mas precisa de tanto? “Sim, precisa, queremos emoção e pré-classificação é uma forma de emoção”, resumiu Bernie com aquele laconismo característico.

Adrian Sutil, Esteban Gutiérrez, Marcus Ericsson, Kamui Kobayashi, André Lotterer, Will Stevens e Max Chilton competiriam pelos quatro karts restantes em uma corridinha de dez minutos. A galera aí não gostou das regras e afirmou que era ridículo que eles tivessem de lutar para correr ao passo que um cachaceiro como Kimi Räikkönen tivesse vaga garantida. “Kimi faz parte do show, precisamos de alguém para trazer grandes emoções na prova”, retrucou Ecclestone, sempre mais preocupado com a polêmica do que com a sensatez.

E lá foram os caras. A pista molhada apenas tornou seu trabalho mais difícil. Sutil e Gutiérrez largaram na frente, mas ambos conseguiram a proeza de rodar sozinhos ainda na primeira volta. A emocionante e inesquecível disputa entre Marcus Ericsson e André Lotterer pela liderança fez com que os pilotos já garantidos para a corrida principal ignorassem a ação e fossem pegar mais cerveja e linguiça lá na mesa.

Lotterer superou Ericsson e assumiu a liderança com facilidade. Kamui Kobayashi vinha em terceiro, mas foi obrigado a abandonar porque teve o azar de pegar o kart com uma peça de suspensão remendada. Will Stevens subiu para terceiro e o lanterninha Max Chilton, que não desiste nem em caso de explosão nuclear, assumiu o quarto lugar. E foram esses quatro aí que garantiram presença na prova principal.

Lá do lado de fora, Nico Rosberg e Lewis Hamilton faziam seu aquecimento enquanto se entreolhavam com fúria. Os dois não se esqueceram do que havia acontecido na piscina e no futebol. Vencer aquela corrida era, acima de tudo, questão de honra para eles. Fernando Alonso afirmava que a vitória estava no papo. Kimi Räikkönen se preparava para a competição entornando mais uma garrafa de pinga barata.

Nico Hülkenberg não conseguia caber no kart. “Da próxima vez, não coma tanto churrasco e apareça aqui com uns 10cm a menos”, provocou Ecclestone. Valtteri Bottas perguntou se os outros caras teriam de carregar lastro em seus carrinhos para se igualarem ao seu peso. Resposta negativa. Bottas percebeu ali que estava fora do páreo. O paranoico Sebastian Vettel revirou o kart atrás de alguma fonte de problemas ou azares. Jenson Button traçou como meta fugir da presença nefasta de Sergio Pérez. Todos os outros dezoito kartistas curiosamente tinham o mesmo plano.

E lá foram os caras. Lewis Hamilton bem que tentou, mas Nico Rosberg marcou a pole-position na corrida. Fernando Alonso e Sebastian Vettel ficaram logo atrás. Daniil Kvyat surpreendeu e obteve o quinto posto, posicionando-se logo à frente do xará Daniel Ricciardo. Valtteri Bottas, como esperado, ficou em último. Humilhado, consolou-se com um bom pedaço de alcatra mal passada.

Findo o treino classificatório, os pilotos rumaram para suas posições definitivas no grid. Temendo algum tipo de reação de Lewis Hamilton, o vilão Nico Rosberg sacou algumas poucas tachinhas de seu bolso e sorrateiramente as arremessou para o lado onde seu adversário largava. Olhou para o lado e mostrou seu aterrorizante sorriso de quem faz branqueamento nos dentes. Hamilton, que só é bobo de vez em quando, percebeu que alguma coisa fedia lá pelos lados de Wiesbaden.

Os caras largaram. Hamilton percebeu muito rapidamente que havia algo estranho à sua frente e girou o volante para a esquerda, quase colocando seu kart sobre a grama. Conseguiu evitar as tachinhas. Desavisado, Sebastian Vettel veio logo atrás e passou em cheio por cima da armadilha, furando dois de seus pneus. Não havia mais jeito. O alemão parou seu carrinho logo ali.

Furioso, Lewis iniciou perseguição implacável contra Rosberg. Os dois passaram várias voltas grudados, extrapolando todos os limites da responsabilidade, como se fossem Tom e Jerry. Nico se defendia muito bem e o rival não encontrava nenhuma brecha para ultrapassá-lo.

Anoitecia. A visibilidade estava cada vez pior. Havia um ou outro poste de luz espalhado pela pista, nada que substituísse com alguma competência a iluminação solar. A prova se encaminhava para o fim e o trabalho ficava cada vez mais complicado. Caso quisesse vencer aquela porra, Lewis Hamilton precisaria tomar uma decisão drástica. Aí veio o insight: o que Ayrton Senna faria nessa situação?

A resposta veio rapidamente. Em uma curva pra lá de fechada, Lewis meteu por fora, forçou a barra, ultrapassou e ainda colocou Nico Rosberg na grama de forma razoavelmente desleal. O branquelo ficou possesso e tentou partir para o troco. O alemão, conhecido na paróquia pela sua serenidade e sua sensatez em tempos de paz, assumiu o papel de franco-atirador e começou a perseguir Hamilton de forma ainda mais alucinada. Não demorou muito e a merda aconteceu.

Nico se colocou por fora e tentou uma ultrapassagem não muito provável sobre o rival. Lewis olhou para trás, assistiu à gênese da tentativa e se recusou terminantemente a abrir qualquer espaço. Os dois se tocaram. A roda traseira do kart de Hamilton explodiu. Fim de prova para o campeão de 2014, que saiu pelo mundo a gritar impropérios e palavrões contra seu antigo melhor amigo.

O kart de Nico Rosberg seguiu adiante, mas sem o mesmo desempenho de outrora. Os demais competidores se aproximavam e o ultrapassavam com alguma facilidade. Como não podia deixar de ser, o novo líder passou a ser ele mesmo, o glorioso Daniel Ricciardo.

Lá atrás, o pau comia. Sergio Pérez e Felipe Massa se engancharam e foram parar lá nos pneus, para desespero da Rafaela e alívio dos demais pilotos, que se livraram da presença incômoda do mexicano. Fernando Alonso prometeu mundos e fundos, mas tomou calor até mesmo do Will Stevens. Pastor Maldonado bateu sozinho porque ficou apreciando a beleza do pôr-do-sol e se desconcentrou. Kimi Räikkönen estava lento e errático, mas surpreendentemente não fez nenhuma bobagem. Imprevisível, parou na 14ª volta simplesmente porque estava de saco cheio da corrida. Desceu do kart e foi curar sua pré-ressaca com paleta de chocolate e Coca-Cola.

Daniel Ricciardo venceu o desafio e foi seguido por Valtteri Bottas e Daniil Kvyat. O finlandês deu uma sorte lascada: apesar de sua obesidade, conseguiu pegar o kart mais rápido e se recuperou tranquilamente. Largando da última posição, Bottas ultrapassou todo mundo e finalizou apenas atrás de Ricciardo. O menino da vila Kvyat terminou em terceiro e comemorou como se tivesse vencido um campeonato de bolinha de gude. A propósito, alguém joga isso nos Montes Urais?

Ricciardo desceu do carro sorrindo. Sorrindo muito. Mas muito mesmo, mais do que o normal. No pódio improvisado com cadeiras, ele ganhou uma garrafa de Velho Barreiro e uma agenda – Bernie não caprichou no presente porque, sabe como é, a grana estava curta nesse ano, a justiça alemã não lhe custou barato. Compreensível.

Depois da premiação, Bernie ainda falou em tom sério: “Parabéns, Daniel, você é o real campeão da temporada de 2014. Lewis, entregue seu troféu a ele quando voltar para a Europa”. O já estupefato Hamilton tomou um susto, mas depois todos entenderam que se tratava do mais puro humor judeu.

Ricciardo não foi o campeão do mundo, mas foi o homem de 2014. Porque um sujeito que só sorri em um ambiente tão podre como o da Fórmula 1 só pode ser o cara mais legal do mundo.

De noite, a festança ainda continuou barulhenta e intensa. Hamilton e Rosberg estavam isolados em seus respectivos cantos, fazendo cara de bosta e bebericando apenas água. Nenhum deles estava com clima para mais nada. Fernando Alonso começou a fazer algumas mágicas e não foi capaz de terminar nenhuma delas. Mas jurou que, lá nas Astúrias, suas habilidades circenses são conhecidas por todos. Nico Hülkenberg estava lá, mas ninguém se importava. Daniil Kvyat estava com soninho e foi nanar num quarto lá do casarão, sendo acompanhado pelo Felipinho. Kimi Räikkönen e Valtteri Bottas reiniciaram os trabalhos às sete e pouco da noite, cada um em sua especialidade. E a comunidade da Fórmula 1, tão carrancuda, tão inacessível, tão bizarramente insípida e pouco humanizada, adentrava as horas escuras daquele final de dezembro celebrando um dos poucos momentos em que todos bebiam e sorriam.

Daniel, é claro, sorria mais do que os outros.

danielricciardo

Lá da França, em sua casa, Jules Bianchi mandou uma mensagem a todos.

Olá, pessoal, tudo bom? Espero que tenham se divertido bastante aí com as putarias do Bernie. Infelizmente não pude ir nesse ano, mas espero estar de volta com vocês no ano que vem. Estou bem, ainda um pouco dolorido, mas me sinto ótimo, melhor do que nunca. Fico o dia todo jogando videogame, brincando com meus cachorros e revendo corridas antigas, uma verdadeira vida de criança. Logo, estarei com vocês por aí, andando pelos paddocks e procurando um emprego. Me aguardem! Jules “.

Que nossos sonhos se tornem realidade em 2015.

#ForzaJules

julesbianchi

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O que é o Natal para você? Não, não estou me referindo ao lado espiritual da coisa. O negócio aqui é puramente telúrico. O que é o Natal para você?

Natal é a família rindo e fazendo barulho ao redor de uma mesa repleta de comida boa. Natal é a árvore de plástico lá na sala cujas luzinhas cintilantes fazem a alegria de fornecedores de energia elétrica. Natal é aquela decoração vermelha e verde que embeleza (ou enfeia) as casas ao redor do mundo. Natal é aquele amontoado de caixas de presentes revestidas com o embrulho esverdeado do Mappin. Natal é a festa que é sua, é nossa, é de quem quiser.

Esse é o meu Natal, e provavelmente o de muitos de vocês. Gosto disso. Época boa, aconchegante, meio hipócrita, mas quem liga? Por conta disso, não estou com vontade de falar sobre automobilismo ou o raio que o parta. Eu quero é contar história. Quatro histórias de quatro Natais de quatro pessoas completamente diferentes. Algumas mais próximas, outras completamente distantes do parágrafo aí em cima, tudo o que eu quero é mostrar exemplos de como cada um de nós celebra a data mais importante do Cristianismo e da rua 25 de Março.

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Atrás das verdejantes montanhas que repousam à margem do Reno, uma sequência linear de pequenas vilas torna colorida e vivaz aquele deslumbrante relevo virgem certamente pavimentado por alguma entidade divina em um dia bastante inspirado. Interessa-nos apenas uma dessas vilas, aquela cujo sonoro nome é Heppenheim.

Entre antigos casarões de telhados avermelhados e a Catedral de São Pedro, uma das casas mais ao sopé da montanha é a que mais nos chama a atenção. Certamente não pelo deslumbre, pois todas são grandes, imponentes, um tanto barrocas e razoavelmente apertadas, mas pelo burburinho. Pelas janelas altas e retangulares, percebem-se luzes e ruídos pouco germânicos. Do lado de fora, entre vários BMWs e Mercedes, um Infiniti Q60 azulado tenta encontrar uma vaga. Seu motorista, usualmente tão rápido, está ligeiramente atrasado.

Vamos chamá-lo de Sicrano. Mesmo tendo apenas 26 anos de idade, ele é o membro mais famoso e bem-sucedido da família. De uns anos para cá, em todas as reuniões familiares, o cara se tornou o definitivo centro das atenções, contador oficial de histórias e distribuidor dos presentes mais caros. Por conta ao ofício, Sicrano tem pouco tempo para visitar sua amada cidade-natal. O Natal é uma das raras épocas livres para tal.

Sem ver sua família há muito, Sicrano ansiosamente aperta a campainha. Ele está acompanhado de Hanna, sua bela namoradinha dos tempos da high school. Papai Norbert abre a porta, arregala os olhos e abraça o rebento com força titânica. “Demorou, hein, garoto?”.

Os parentes se aglutinam na porta. Um a um, eles abraçam Sicrano com força, distribuem beijos na bochecha de Hanna e afagam sua barriga, em estágio inicial de gestação. A família alemã, tão gélida e impessoal nos demais dias do ano, se italianiza no período natalino. Sicrano, sem tirar o enorme e irregular sorriso da cara, cumprimenta todos como se fosse um candidato à Presidência:

– Papai, como está?

– Mamãe, que saudade de sua salada de batatas!

– Fabian, moleque, aprendeu a fazer embaixadinha no Fifa 14?

– Melanie, cadê o namorado?

– Stefanie, como é difícil te ver por aqui!

– Vovô, que bom que o senhor está andando!

Entre saudações e manifestações calorosas, a pergunta que silenciou o casarão:

– E o Billy?

Billy é o melhor amigo de Sicrano, um Lulu da Pomerânia branquinho, peludinho, engraçadinho e burro como uma porta. Nascido em 1998, Billy sempre foi a alegria da casa, com sua cara de tonto, sua mania de roubar chinelos e seu bizarro hábito de latir para a máquina de lavar. Nos últimos tempos, coitado, não vinha enxergando bem e uma das patinhas já não apresentava mais as forças de outrora. Mas ele vinha resistindo bem aos obstáculos do tempo. Capenga, mas forte e resistente.

– E o Billy? – voltou a indagar Sicrano, apreensivo.

Soturnos, os familiares se entreolham. Mamãe se aproxima, suspira e anuncia a fatídica notícia:

– Morreu. Há dois meses.

Lágrimas vêm aos olhos de Sicrano:

– E por que vocês não me avisaram?

– Foi em um fim de semana em que você estava trabalhando, preferimos não contar nada para te poupar do sofrimento. Sabemos que você é o que mais gostava dele.

É verdade. Billy era o melhor amigo de Sicrano e vice-versa. Antigamente, os dois brincavam, corriam e pulavam o dia inteiro. Quando Sicrano saiu de casa para o mundo, a saudade derrubou ambos, mas ele sempre retornava a cada seis meses para rever seu mascote. Mesmo envelhecendo, Billy ainda era a mesma bola de pelos brincalhona e abobalhada que corria esbaforido rumo à porta a cada vez que seu dono apertava a campainha.

Pois não teve ninguém correndo à porta naquele Natal.

A feição sempre feliz e sorridente de Sicrano mudou na hora. Ele se sentou à mesa e passou a maior parte do tempo mudo, alternando entre lentas garfadas na salada de batatas e tímidos goles de refrigerante. Os familiares, que riam e bebiam abundante cerveja até sua chegada, reduziram suas celebrações a um quase-luto. Se o astro da família não estava feliz, então ninguém mais estava.

Sicrano havia tido um 2013 excepcional até então. Consagrou-se como um dos melhores que já existiram em sua área, embolsou mais alguns milhões de dólares e ainda recebeu a notícia de que se tornaria pai. Tudo o que ele queria era chegar à sua antiga casa e comemorar suas vitórias particulares com algumas lambidas de seu antigo companheiro. Sem Billy, tudo perdia um pouco da graça. E quem tem animal de estimação sabe que nem mesmo um quarto título mundial em um esporte pode compensar sua ausência.

jealous

– ¡Hijoputa, gilipollas, cabrón, voy a matarte!

– ¡Cálmate, Fulano!

Fulano acorda com um rápido movimento. Suado e com os olhos arregalados, ele olha para os lados e vê que não há nada de errado. Absolutamente nada. Foi apenas um pesadelo. Mais um. A namorada, uma bela modelo de origem eslava, manifesta sua opinião:

– Fulano, você tem de voltar ao psiquiatra. Isso não é normal. É a sexta ou sétima vez que você acorda no meio da noite querendo matar alguém.

– Não é alguém. É apenas uma pessoa.

Mesmo na véspera de Natal, Fulano não deixa suas obsessões profissionais de lado. Típico espanhol do sangue quente, ele é um desses que não admitem não serem os maiores fodões do pedaço. Até alguns anos atrás, Fulano era considerado o melhor em sua profissão, um cara cuja perspicácia parecia não poder ser alcançada por ninguém nos próximos anos. Num belo dia, um moleque esquisito de nome Sicrano apareceu e botou fogo no cabaré, conseguindo resultados inacreditáveis logo de cara e conquistando a confiança e a admiração de todos. A verdade é que não demorou mais do que um ou dois anos para que surgisse alguém aparentemente superior a Fulano.

Lógico que isso lhe causou tremendo incômodo. Sempre cheio da soberba, Fulano não podia aceitar que um cidadão muito mais novo e razoavelmente mais simpático lhe roubaria o cinturão tão cedo. Não deu nem para gozar das benesses do reinado direito. Num primeiro instante, ele bem que tentou intimidar Sicrano psicologicamente. Não funcionou. Na verdade, foi o próprio Fulano que acabou com a mente destroçada.

Ele jamais admitia sua fraqueza às pessoas. Nas redes sociais, sempre falava sobre trabalho, esforço, perseverança e samurais. Muitos aplaudiam, quase ninguém conhecia a realidade. Nos últimos dois anos, Fulano frequentou psicólogos e psiquiatras para tentar reverter a depressão e a baixa autoestima. Se entupiu de remédios, tentou de tudo para confortar-se à dura realidade ou simplesmente esquecê-la, mas nada disso funcionou. A simples existência de Sicrano havia se tornado uma cruz para Fulano.

– Fica calmo, Fulano. Hoje, vamos à ceia de Natal de sua família. Relaxa um pouco.

OK, é Natal, vamos relaxar.

Fulano relaxou e deixou de lado suas angústias naquele dia. Viajou às Astúrias, chegou à casa de seus pais abarrotado de presentes, abraçou os familiares e apresentou a todos sua nova namorada, que deixou primos e agregados mordidos de inveja e o pai cheio de orgulho. Tudo indicava que seria uma noite muito agradável.

Minutos depois, quando Fulano já está à mesa com uma suculenta coxa de peru na boca, a campainha toca. É um primo distante, que quase nunca frequenta as festas. Ao seu lado, a esposa e um garoto de uns oito ou nove anos de idade. Gordinho, sardento, peralta, risonho, simpático e vestido com uma camisa diferente. Uma camisa azul e amarela ornamentada com um touro vermelho. Exatamente a mesma roupa que Sicrano utiliza para trabalhar de vez em quando.

Ao ver o garoto com a mesma indumentária de seu rival, Fulano fica branco como se tivesse visto uma horda de zumbis irrompendo sua casa. O suor frio escorre pelo rosto, as feições congelam, a respiração se torna pungente, um sentimento sincero de raiva selvagem toma conta de seu corpo.

– Fulano, o que foi? – pergunta, assustada, a namorada.

– A camisa… A camisa…

A namorada entendeu logo de cara.

– Por favor, é só um garoto. Deixa ele. Sicrano não tem nada a ver com isso.

– Não…

O pior é que o garoto realmente parecia ser uma graça. Atração maior da ceia, ele pulava, falava coisas engraçadas, corria atrás dos animais da casa, fazia sua festa particular naquela navidade. Todos, à exceção de Fulano, riam de suas macaquices.

– Ele é uma gracinha, vai – sussurrava a namorada.

– Por favor, me deixa quieto.

Fulano passou o resto da ceia com a cara de alguém que está vendo sua mulher e seu melhor amigo transando na sua cama. A coxa de peru descia pela garganta como um pedaço de concreto. Nada mais importava, apenas aquele garoto que se tornou o centro das atenções com o carisma transbordante e aquela maldita camisa azul e amarela. Assim como Sicrano. Talvez aquele garotinho ali fosse uma brincadeira do destino, uma versão miniaturizada de Sicrano que os deuses colocaram em seu caminho apenas para aborrecê-lo. A paranoia estava tomando conta de Fulano.

Ao voltar para a casa, Fulano tomou alguns calmantes e só acordou na tarde do dia seguinte. O samurai foi derrubado novamente. Por um garoto. Um Sicraninho.

corno

Centro de Convenções de Los Angeles, noite anterior ao Natal. Uma multidão de rappers, modelos e celebridades dos Estados Unidos e da Europa adentra aquele pavilhão todo geométrico e envidraçado para participar de uma das festas mais quentes daquele fim de ano. Champanhe francês, canapés de caviar e presunto cru, farinha colombiana e muita música eletrônica deram o tom daquela ceia pouco ortodoxa para os padrões mortais. Mas quem estava por trás de tudo aquilo?

Era exatamente ele, nosso querido Luisinho.

De origem relativamente humilde, Luisinho era um inglês que ganhou muito dinheiro com eventos esportivos ao redor do mundo. Funcionário muito bem conceituado de uma montadora alemã, ele se destacava por ser praticamente o primeiro negro em um meio absolutamente ariano, uma prova de que os tempos, felizmente, estavam mudando. Naturalmente talentoso, Luisinho era o tipo de cara que não precisava trabalhar muito para conseguir bons resultados. Isso significava que ele poderia ter mais tempo livre para se divertir. E aí residia o problema.

Luisinho era alguém, em tese, tinha tudo para ser feliz: dinheiro, respeito, liberdade e moral. Só que ele não era. Fora do seu trabalho, sua vida era uma verdadeira bagunça novelesca. De cabeça fraca, o cidadão é do tipo que se perde com festas, polêmicas idiotas e desavenças com antigos amigos. Dependendo da época, suas confusões pessoais acabam até mesmo influenciando sua vida profissional. Por conta disso, já faz algum tempo que ele não consegue satisfação nem em um aspecto e nem em outro.

Mas nenhum de seus dramas é maior do que o amoroso. A vida de Luisinho não anda para frente principalmente por causa de sua ex-namorada Nicoletta, popstar que trabalha como cantora e apresentadora de TV. Os dois se conheceram ainda antes do auge, tiveram um início de namoro maravilhoso, cresceram, foram ficando cada vez mais famosos e também cada vez mais ocupados e o relacionamento começou a se deteriorar. Como o tempo livre era muito curto, Luisinho e Nicoletta não encontravam nenhuma brecha na agenda para se curtir.

A torta começou a desandar quanto tanto Luisinho como Nicoletta foram flagrados pulando a cerca – coisas do distanciamento, né? A relação se estremeceu e os dois terminaram e voltaram várias vezes. Atualmente, estão separados. Mas Luisinho não aceita o rompimento. Ele ama Nicoletta, não consegue viver sem ela e até mesmo trabalhar está sendo uma penúria. Para a noite de Natal, uma tática será tentada.

Luisinho convidou sua meia dúzia de amigos verdadeiros e seus milhares de amigos falsos para uma festança inesquecível em Los Angeles. Nicoletta obviamente foi uma das convidadas “por questão de amizade”. Ele aproveitaria o burburinho para tentar uma reaproximação com sua amada. Plano besta, né? Só poderia ter saído da cabeça de alguém muito desesperado. E muito tapado.

Festa iniciada, os convidados chiques e famosos foram chegando aos montes e nada de Nicoletta. As horas passavam e Luisinho ia ficando cada vez mais ansioso. Enquanto seus pares se esbaldavam gratuitamente com ótima comida e bebida, nosso herói apaixonado estava encostado em um canto sem beber nada e com os braços cruzados. Se a Nicoletta não chegar, o que será de mim?

Madrugada adentro e nem sinal da Nicoletta. A angústia tomava conta de Luisinho, que tentava respondê-la com visitas frequentes ao lavabo, onde arremessava água em sua cara tentando despertar daquele pesadelo. Lá pelas três da manhã, uma lindíssima modelo dinamarquesa se aproxima daquele rapaz de coração quebrantado:

– Luisinho, está tudo bem? – indaga a moça em inglês perfeito, com leve sotaque britânico.

– Sim, tudo certo.

– O que está acontecendo? Você deu a festa, mas mal te vi se divertindo…

– Não se preocupe, estou bem.

– Quer dançar?

Um homem solteiro jamais responderia algo diferente de “com certeza” para uma moça daquelas, rosto de Angelina em corpo de Gisele, estudante de medicina em Londres, fluente em seis línguas, muito bem humorada, simpática como só ela e perfumada como um buquê fresco. Luisinho titubeou, mas aceitou. Por educação. Sua cabeça não estava ali.

O interesse da dinamarquesa era enorme, mas Luisinho nem deu bola. Sua resposta à música eletrônica, às luzes e àquela mulher era somente a mais sincera indiferença. Os movimentos eram automáticos, o olhar estava perdido, a solidão aumentava a cada batida, estava tudo um inferno. Mesmo sendo o dono da festa e o macho alfa da história, Luisinho era algo como o homem mais infeliz do planeta.

A festa acabou lá pelas oito da manhã e Nicoletta não apareceu. Luisinho se despediu de todos, não demonstrou qualquer forma de interesse posterior na modelo dinamarquesa e passou todo o dia de Natal dormindo. Milhões de pessoas dariam tudo para ter a vida que ele tem e Luisinho daria seus milhões apenas para ter Nicoletta de volta. Papai Noel que se vire para atender todos esses pedidos.

bebado

– Acorda, vagabundo.

O quê?

– Vamos, levante-se.

Não me enche o saco, porra.

– Levante-se!

De compleição gélida como um assassino serial, o policial finlandês apenas cutuca seu cassetete nas costas daquele cidadão debruçado na calçada em estado semiconsciente. Ao lado daquele corpo quase cataléptico, uma garrafa de vodca pela metade. Pelo estado do rapaz, é bem possível que ele já tenha virado umas três como aquela e não tenha aguentado a quarta.

O policial se abaixa, mexe no bolso do bebum, revira a carteira e encontra sua identidade. O nome dele é algo como Quico Matias, mas as pessoas só o chamam de Quico. Aí o policial, sempre sério e discreto, levanta uma sobrancelha espantada. Quico é um cara razoavelmente rico e famoso, uma dessas celebridades que vivem fazendo bobagens e alimentando revistas de fofoca. Seu comportamento errático e sua afeição por líquidos etílicos já se tornaram suas grandes marcas registradas.

Como estamos na Finlândia, o policial não surrupiou alguns euros da carteira do contraventor ou o subornou. Ao invés disso, ele o arrastou pelas pernas até o banco traseiro de um furgão “poliisi” preto e branco. Atordoado, Quico fez o traslado até a delegacia mais próxima em um estado físico próximo do apodrecimento, com a camisa do White Zombie toda amassada e alguns perdigotos de vômito espalhados pela perna.

Mesmo sendo uma celebridade, Quico não teve nenhum tratamento especial, muito pelo contrário. Enquanto algum familiar não aparecesse para pagar sua fiança, ele passaria a noite da véspera de Natal em uma cela junto de outros criminosos finlandeses, tão perigosos como tartarugas de ponta-cabeça. Duas horas depois, aparece a mãe de Quico.

Assustada e, ao mesmo tempo, resignada com a situação deplorável de seu filho, dona Paula limpou sua boca e o colocou dentro do carro. Tão logo as portas do Saab se fecharam, ela iniciou a típica bronca materna:

– Você não muda…

– …

– Não muda mesmo, né?

– …

– Todos em casa, preocupados com você, esperando você para começar a ceia…

– …

– E você caído no chão, sem um pingo de consideração pelas pessoas que te amam.

– …

– Olha, nada pior para uma mãe do que a ligação de um policial dizendo que seu filho está desmaiado na sarjeta…

– …

– Você não vai falar nada?

Quico não abriu a boca. Ele só adormeceu até chegar à casa de sua família, uma confortável mansão erguida nos arredores de Espoo. Ao chegar, desceu do carro, cambaleou até a porta, entrou de qualquer jeito, ignorou a presença de toda a família, conduziu-se até o quarto do irmão e desabou sobre a cama.

Quico só viria a acordar umas cinco da manhã, quando todos já tinham ido embora e as luzes estavam apagadas. A cabeça latejava, o fígado borbulhava, o corpo estava que só o bagaço. Ele não conseguia mais dormir. Aos poucos, alguns pensamentos começaram a tomar conta de sua mente:

“Putz, minha mãe foi me buscar lá na delegacia em plena véspera de Natal. Que mãe maravilhosa que eu tenho. Se fosse filho meu, não só não pagava a fiança como ainda o fazia dividir a cela com o Kid Bengala. Pensando bem, ela não merece o filho que tem. Eu sou um bosta, um irresponsável, um cara que só se preocupa com o próprio umbigo. Para mim, tudo se resume a beber e a dividir banheiras com meus amigos branquelos e nus. Eu sou um desperdício humano, um Neandertal que só faz a humanidade caminhar para trás, um troglodita. Ninguém me leva a sério, os jornalistas adoram debochar de meu vício, meus colegas de trabalho me tratam como um retardado. Até minha mulher, que era uma miss, me deixou. Sobraram apenas alguns colegas bêbados e um monte de dinheiro que, definitivamente, não compra a felicidade. A vida, para mim, não tem sentido algum, nem mesmo no Natal. Que diabos. Eu deveria é tomar vergonha na cara. É isso mesmo. Para acabar com todos esses pensamentos, com essa depressão, eu tenho de tomar uma atitude de homem”.

Quico se levantou rapidamente, foi até a adega da mansão, entornou meia garrafa de vinho, deu algumas risadas e caiu no sofá.

“Pronto, não estou pensando em mais merda alguma. Mais tarde vou pra sauna encher o cu de uísque com a galera do mal“.

raccoon

Moral das histórias? Sim, há. Seu Natal é uma merda? Dá tudo errado? Você odeia a data? Saiba que há gente muito mais rica em situação muito pior que a sua nessa época do ano. Então larga de choradeira, vá comer uma coxa de peru e aproveite a única época do ano em que, mesmo de forma hipócrita, as pessoas te tratam bem.

Feliz Natal a todos os cristãos, feliz Hanukkah aos judeus e feliz Especial do Roberto Carlos a quem não acredita em nada.

Verde

garybrabham1990

Por Marcos “Cuca” Belludo

Sou da época em que o sonho maior de um moleque era tomar o carro do pai para levar a menina para um rolê. Pegar a chave do SP2 do velho, buscar a namoradinha na casa dela, comer um bauru na lanchonete e depois dar-lhe uns bons amassos em um drive-in. A garotada hoje em dia não faz mais isso, não é? Com essas coisas de celular, internet, ecologia, viadagem, parece que o que essa nova geração mais quer é ficar tirando foto de vitrine de shopping center e depois postar naquele tal de Alfacebuque. É Alfacebuque que se fala, não é?

Meu nome é Marcos Belludo, apelido Cuca. Já passei dos cinquenta há algum. Nasci em São Paulo, passei meus primeiros anos no meio da italianada da Mooca e depois me mudei para a região do Santana na adolescência. Meu pai era dono de uma oficina mecânica, a Garagem do Zelão, lá na Rua Darzan, perto da esquina com a Cruzeiro do Sul. Grande Zelão! Suas duas maiores paixões eram o Palestra Itália e aquela oficina.

Na adolescência, após a escola, eu passava o tempo ajudando o meu pai no conserto dos carros. Era divertido pra caramba. Adorava mexer nos motores daqueles carrões do passado, Opala, Maverick, Galaxy, Dart, Aero Willys… Não tinha nada desse negócio de carro 1.0, essas porcarias de afeminado. Nos meus tempos, cilindrada de motor e número de cilindros eram atributos tão importantes quanto tamanho de pau. Nego que andava de Dodge Dart V8 comia a mulherada a tarrafa.

De tanto mexer com carros, eu e meu pai acabamos adotando o automobilismo como nossa outra grande paixão esportiva além do Palestra. Ele me levava a Interlagos para assistir àquelas corridas de Fórmula Vee, Stock Cars, Força Livre, enfim, tudo o que andava sobre rodas. Na televisão, acompanhávamos as corridas do Nelson Piquet, que comia, com o perdão do linguajar, o rabo da concorrência com a Brabham branca e azul. O cara manjava das coisas, aquecia os pneus com cobertor térmico na Fórmula 3, introduziu os reabastecimentos na Fórmula 1, um ídolo para a classe dos mecânicos.

A partir de 1984, comecei a ir a todos os Grandes Prêmios do Brasil com meu pai. Jacarepaguá, Rio de Janeiro, um calor demoníaco, mas a gente fazia a maior festa mesmo assim. Meu pai fechava a oficina na semana da corrida, nós pegávamos o SP2, viajávamos até o Rio, alugávamos um espaço em um camping e dormíamos na barraca. Durante o dia, quando não íamos ao autódromo, ficávamos torrando a pele na praia. À noite, a gente ia para os bares na orla e ficava bebendo e paquerando a mulherada bronzeada do Rio. Era uma curtição do caramba.

O legal de Jacarepaguá é que o acesso aos boxes e ao paddock era muito fácil. Meu pai tinha um amigo, o Sargento Videla, que sempre era escalado para trabalhar na segurança do GP do Brasil. Nós obviamente não tínhamos credencial para meter o bedelho lá nas partes fechadas do circuito, mas o Videla dava um jeito e nos colocava lá dentro. Dessa forma, a gente caminhava tranquilamente pelo pit lane, observava os mecânicos trabalhando nos carros, conversava com um ou outro gringo e até conseguia fotos e autógrafos com os pilotos.

Eu era o maior fã do Piquet, o maior dos pilotos brasileiros, e da Ferrari, a mais tradicional das equipes italianas. Infelizmente, não era tão fácil assim obter acesso a qualquer um deles. O Nelson estava sempre rodeado de mecânicos, mulheres bonitas e uma infinidade de fotógrafos, jornalistas e chatos. A Ferrari era a equipe que mais se fechava ao povão, cercando seus boxes com cordões de segurança e bloqueando a passagem com caixas e pneus. O simples ato de tirar uma foto do carro vermelho era um desafio do cacete. Somente jornalistas do alto escalão conseguiam conversar com um Michele Alboreto da vida. E a situação não era muito diferente na McLaren, na Brabham ou na Lotus.

Em compensação, o acesso às equipes menores era uma beleza. Como ninguém tinha o menor interesse em ver os mecânicos da RAM trabalhando ou em entrevistar o Piercarlo Ghinzani, os boxes dessas escuderias pobres estavam sempre abertos e disponíveis para quem quisesse xeretar. Alguns dos seus integrantes até gostavam, pois eram tratados como celebridades. Celebridades anônimas, mas celebridades.

O melhor ano, sem a menor sombra de dúvida, foi 1989. O Senna tinha acabado de se tornar campeão do mundo, a Fórmula 1 virou uma verdadeira febre no Brasil, todo mundo estava interessado em carros e corridas. O preço do ingresso, tanto por conta da inflação absurda como por causa do sucesso dos pilotos brasileiros, estava altíssimo, mas mesmo assim demos um jeito e compramos. O ritual foi o mesmo de sempre: oficina fechada por uma semana, viagem, camping, praia, boteco e automobilismo.

Se não me engano, foi o ano em que mais teve equipes na história da Fórmula 1. Havia até mesmo um treino na sexta-feira de manhã que eliminava alguns dos pilotos logo de cara. Eu, que já estava na casa dos 25 anos, tinha muita curiosidade em ver todos os carros, inclusive os das equipes pequenas, de perto. Analisar a aerodinâmica, a suspensão, a posição do cockpit, enfim, comparar as características técnicas entre um carro e outro.

garybrabham

Assim como nos outros anos, o Sargento Videla liberou o acesso aos boxes na maior tranquilidade. Como não dava para fazer nada na McLaren e na Ferrari, decidi passar a maior parte do tempo apenas no meio das equipes menores. Graças às divertidas reuniões familiares que a família do meu pai, tutta italiana, sempre realizava, acabei aprendendo bem a língua da terra, o que me ajudou bastante a interagir bem com o pessoal das pequenas equipes italianas.

Fiquei particularmente interessado pela Coloni, aquela equipe pela qual corria o Roberto Pupo Moreno. O interesse se justificava por duas razões: a presença do próprio Moreno e a aparência do carro, que mais se parecia com um brinquedão. Fiquei lá nos boxes um tempão batendo papo com o Gianfranco, que era um mecânico que trabalhava cuidando das transmissões dos dois carros da equipe. Viramos amigos e até saímos nas noites de sábado e domingo daquele GP.

Muito bem, agora vocês me conhecem razoavelmente bem. A história de verdade começa aqui.

Mantendo o ritual anual, eu e meu pai compramos ingressos para o Grande Prêmio do Brasil de 1990, o sétimo consecutivo em que marcaríamos presença.  Dessa vez, a corrida seria no autódromo remodelado de Interlagos. Para mim, a novidade veio como uma ducha de água fria. Apesar da grande vantagem de ter uma corrida na minha própria cidade, o evento certamente não seria tão divertido como o de Jacarepaguá. Além de o traçado ter sido mutilado pelo próprio Senna e pela Luiza Erundina, os esquemas de segurança e organização em Interlagos eram bem mais restritivos do que no Rio de Janeiro. Não haveria Sargento Videla para me ajudar.

Tivemos de nos contentar com a arquibancada em frente à reta dos boxes, fazer o quê? Pelo menos, nesse ano, deu para juntar uma turma de amigos que jamais nos acompanharia nas antigas viagens ao Rio. Só que eu não estava satisfeito. Meu negócio era ver os carros de perto. E eu tinha um sonho secreto, o de ser mecânico de Fórmula 1. Se em Jacarepaguá esse desejo parecia improvável, em São Paulo ele soava ridículo e infantiloide.

Na quinta-feira anterior ao GP, todos os pilotos inscritos para a corrida foram à pista para um teste de reconhecimento. Naquela época, a Fórmula 1 sempre promovia essa sessão extra para que o pessoal se acostumasse com os novos traçados. O problema é que choveu pra caramba naquele dia, aquele típico toró de ventos fortes e trovoadas que sempre desaba no final de março, e ninguém conseguiu andar muito. Para nós que estávamos na arquibancada, não havia problema, a gente continuou fazendo algazarra.

Na hora do almoço, desci das arquibancadas e fui em direção ao portão ver se havia alguma barraca vendendo cerveja e sanduíche. De repente, sou cutucado no ombro. “Marcos, sei tu?”.

Era o Gianfranco, o tal do mecânico da Coloni. Muito feliz de me ver, o cara me abraçou e lascou um beijo no rosto – coisa normal entre os italianos – e depois mudou seu semblante. “Ascoltami, ho bisogno di parlare con te”, exclamou de forma séria.

O que será que ele queria comigo?

Você é mecânico, não é? Tem um amigo meu que é dono de equipe e está precisando urgentemente de um mecânico brasileiro que possa ajudar na montagem do carro e na compra de peças aqui na cidade. É um convite que vale apenas para esse fim de semana, mas como eu sei que você jamais dispensaria uma oportunidade dessas…

Fiquei branco na hora. Uma equipe de Fórmula 1 estava precisando de alguém como eu? Mas que equipe seria essa?

Não sei se você já ouviu falar, pois ela é novata e se chama Life.

Life? Com a cabeça, indiquei que não. Eu era uma pessoa muito bem informada sobre a Fórmula 1 e conhecia bem a grande maioria das equipes, mas nunca tinha ouvido falar daquela tal de Life. Para mim, foi até curioso saber que havia mais uma escuderia na categoria, que já estava bem abarrotada naquela época.

Ué, cara, você não viu o carro da Life passando pela pista? Ele é bem parecido com a Ferrari, mas não anda nada.

Ah, então aquele carro vermelho que se arrastava a uma velocidade de porca prenha não era uma Ferrari ou uma Dallara com problemas? Achei engraçado. Como pode uma equipe de Fórmula 1 ser tão descarada em copiar a Ferrari? Mesmo assim, topei na hora. Para mim, trabalhar como mecânico numa escuderia era um sonho. Nem que fosse por apenas dois dias e com o carro mais lento do mundo.

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Voltei para a arquibancada e contei para meu pai e meus amigos o convite que havia acabado de receber. Fizeram festa, me felicitaram, o velho ficou extremamente orgulhoso e pediu apenas uma foto minha com o uniforme da equipe. Depois, reencontrei o Gianfranco, que já estava ao lado do Ernesto Vita, o tal dono da Life. Uma conversinha de dez minutos bastou para resolver tudo. Vita me arranjou uma credencial sabe-se lá como, prometeu uniforme e até mesmo uma graninha, além de me deixar tirar algumas fotos lá de dentro.

Do nada, eu tinha virado um dos milhares de integrantes do circo da Fórmula 1. Me senti o homem mais feliz do mundo.

Ainda na hora do almoço, Vita me levou ao boxe nº 19, que era onde sua equipe dividia espaço com os técnicos da Goodyear. Confesso que o que eu encontrei lá não era muito diferente da nossa oficina: um punhado de mecânicos sujos e fodidos, poças de graxa, uma ou outra ferramenta espalhada pelo chão, alguns pneus e um carro em processo de reparo. Os mecânicos olharam para mim aliviados, sabendo que haveria mais alguém para ajudá-los no árduo trabalho de solucionar os inúmeros problemas que haviam aparecido nos treinos pela manhã. Fui apresentado a todos eles: Paolo, Davide, Francesco, Marco e Luigi. Encostado na parede, de braços cruzados e cara despreocupada, estava o piloto.

– “Marcos, não sei se você já ouviu falar no Gary Brabham” – apresentou Vita.

Brabham, filho do Jack? Puta que o pariu, fiquei maluco, cara. Eu estava de frente com um cara que não somente era piloto de corridas como também o herdeiro de um dos sobrenomes mais míticos do automobilismo. Como não sabia falar inglês e ele não sabia italiano, acabei apenas o cumprimentando com um sorriso assustado. Ele ainda arriscou um “piacere di conoscerti” decorado e eu respondi “il piacere è tutto mio”. Pode parecer viadagem, mas fiquei realmente feliz em trocar palavras com um Brabham, mesmo que não fosse “aquele” Brabham.

Depois da apresentação, Vita anunciou a hora do almoço. A turma não tinha nada para comer e estava esperando descolar uma boquinha grátis em uma das equipes que costumavam dar almoço para o pessoal do paddock: Ferrari, Benetton, Leyton House e Larrousse, se me lembro bem. Fomos à luta.

Na Ferrari, a fila era imensa, a macarronada era famosa e obviamente disputada a tapas, não tinha como. A Benetton estava distribuindo senhas, mas elas já haviam acabado quando chegamos lá. A Leyton House não fez comida para ninguém naquele dia não me lembro o porquê. Sobrou a Larrousse, onde todo mundo estava devorando um churrascão daqueles. Mas eles não nos deixaram entrar. Acharam que nós éramos penetras, veja só.

Então, Vita propôs que eu levasse a galera da Life para um rolê em São Paulo. Vamos comer churrasco em um restaurante de verdade, que tal? Achei a proposta ótima, mas havia um enorme problema. Seis dias antes, o Collor havia promulgado aquele maldito plano econômico que congelou as poupanças e travou o mercado cambial. Isso significava que quem estava com dólares nas mãos teria dificuldades para trocá-los por cruzeiros. Em São Paulo, naquele momento, pouquíssimos estabelecimentos estavam aceitando moeda estrangeira.

Então, entramos na Kombi que a Life havia alugado e fomos atrás de comida. No Centro, a maioria dos restaurantes não estava aceitando dólares. Acabamos encontrando em Perdizes uma padaria que aceitava dinheiro estrangeiro sabe-se lá o porquê e tivemos de nos entupir de sanduíche de presunto e suco de laranja. Detalhe: cada um pagou o seu. A Life não tinha dinheiro algum para pagar luxos como sanduíches em uma padaria meia-boca ao seu piloto e aos seus mecânicos.

Voltamos para Interlagos pouco antes do recomeço dos treinos. Assim que paramos, Brabham e os outros mecânicos desceram e Vita entregou a mim uma lista de coisas que eu deveria comprar nas lojas de autopeças ao redor do autódromo. Molas, parafusos, arruelas, óleo de câmbio, pinças de freios, esse tipo de coisa. Além da lista, o patrão me deu dez mil dólares. “Vire-se. E, por favor, tente não gastar tudo“, pediu.

Tive de rodar a cidade inteira com a Kombi da Life até achar alguém que comprasse aqueles malditos dólares por uma cotação razoável. Depois, fui atrás de um amigo meu, fornecedor, e pedi para ele me ajudar a encontrar as peças. “É para um carro de Fórmula 1”, afirmei. Ele não acreditou muito, mas conseguiu a maior parte do que estava na lista. Faltaram algumas coisas, mas ele me deu um endereço de um ferro-velho (!) onde eu poderia achá-las a um preço camarada. Quando consegui juntar tudo, já era quase cinco da tarde.

Voltei a Interlagos num momento em que o treino já tinha acabado e as equipes já estavam trabalhando nos boxes. Os seguranças me viram carregando algumas caixas abarrotadas de peças, ficaram desconfiados e não queriam me deixar entrar no paddock mesmo com a credencial. Para minha sorte, um dos mecânicos da Life estava passando perto do portão, me reconheceu e pediu para que os seguranças me deixassem entrar. Depois, ainda me ajudou a carregar os caixotes até os boxes.

gbrabham

Gary Brabham tinha terminado o treino na última posição, mal conseguiu completar uma volta rápida direito. O carro era terrível, nem todos os cilindros do motor funcionavam, o câmbio era duríssimo, a suspensão era frágil pra caramba, o próprio chassi era muito fraco. Sério mesmo, se me apresentassem aquela merda sem dizer que havia sido projetada por profissionais, diria que se trata de um modelo de exposição construído por um zé-mané qualquer.

Anoiteceu, meu pai e meus amigos voltaram para casa e eu fiquei no autódromo ajudando os mecânicos a consertar aquela jabiraca, que teria de disputar o tal treino eliminatório na sexta-feira de manhã. A Life só tinha um chassi e dois motores, além de poucas peças sobressalentes. Nós tivemos de reaproveitar um bocado de coisas, como discos de freio e filtro de óleo, e sabíamos que um carro assim não chegaria a lugar nenhum. Além do mais, mexer no carro é um desafio quando só você e mais quatro estão trabalhando. Em alguns momentos, o próprio Gary Brabham pôs a mão na massa e nos ajudou.

Mas foi legal pra caramba. Os mecânicos eram divertidos, a gente ficou até onze horas da noite nos boxes contando piadas e dando risada enquanto tentávamos dar um jeito no carro, o Gary também era um cara sensacional, enfim, a Life era pobre e não tinha a menor chance de sucesso, mas a galera ainda sabia rir da vida. E isso é o que importa, no fim das contas.

Depois do expediente, como todos ainda éramos solteiros, levei a galera para conhecer algumas das boates mais interessantes de São Paulo. Os italianos se divertiram à beça, encheram a cara e seduziram muita patricinha com o papo de “siamo italiani e lavoriamo nella Formula 1”. Para mim, a noite não poderia ser mais legal: estava curtindo a vida com novos amigos e ainda poderia espalhar para todo mundo que trabalhava em uma equipe de Fórmula 1. Como pedir mais?

Infelizmente, tínhamos de acordar cedo na sexta-feira para o treino eliminatório. Voltei para casa às três da manhã, caí na cama e às cinco horas já estava de pé. Cheguei às sete em Interlagos, não havia quase ninguém no autódromo naquele horário. Nos boxes da Life, todo mundo estava cansado pra caramba, se bobear os caras atravessado a noite em claro.

Pouco depois, Ernesto Vita apareceu nos boxes com um pacote mirrado de pão francês, queijo prato e uma jarra de café. “Esse será o café da manhã de vocês”, afirmou às gargalhadas. Não havia muito tempo para comer, pois nós tínhamos de terminar o conserto do carro. Fiquei com a tarefa de refazer o alinhamento e o ajuste da asa dianteira. Não entendia merda alguma de acerto de monopostos, mas fiz o que pude. Na verdade, ninguém lá na equipe tinha qualquer experiência prévia em Fórmula 1. Os caras mais experientes tinham feito, na melhor das hipóteses, Fórmula 3000. Estávamos todos numa grande brincadeira, essa era a verdade.

Pouco após as oito da manhã, o carro ficou pronto novamente. O Gary se acomodou no cockpit e foi à pista para o treino. Como a transmissão televisiva interna não estava seguindo o Life e telemetria era um negócio que simplesmente não existia para nós, tivemos de correr para o muro dos boxes para ao menos ver nossa Ferrari de mentirinha passar pela reta. Só que ela não passou. Três, quatro, cinco minutos se seguiram e nada do Brabham cruzar a linha de chegada. Como a bandeira vermelha não havia sido acionada, só pudemos concluir que o carro tinha parado no meio do caminho.

Uns dez minutos depois, o Gary entrou nos boxes da Life puto da vida. Disse que o carro não aguentou 400 metros e parou três curvas adiante com o motor estourado. Aí um dos mecânicos, o Luigi, fez cara de “fiz cagada” e afirmou que tinha se esquecido de colocar óleo no motor. O australiano ficou maluco, quase saiu na porrada com o pobre do Luigi e tivemos de acalmá-lo. Compreendo a raiva. Deixar um bólido andar sem óleo é uma puta de uma burrice, pra dizer o mínimo.

Como não havia carro-reserva, a Life não tinha como participar do restante do treino e acabaria sendo eliminada do restante do fim de semana logo ali. Pouco antes do fim da sessão, o Ernesto veio a mim e me agradeceu pela ajuda prestada, ressaltando que me contrataria como efetivo se tivesse dinheiro. Ainda saí com os mecânicos na noite de sábado, bebemos um bocado e impressionamos muita mulher por aí.

No domingo, antes da despedida, os mecânicos me perguntaram se eu queria alguma coisa. “Só uma foto com vocês e o carro”, respondi. Por que eles negariam um pedido tão banal? Como o carro da Life já tinha voltado para os boxes da equipe, nada impediu que a gente se reunisse em torno dele. E enfim tiramos a foto: eu (sem uniforme), os mecânicos (sem uniforme) e o carro. Quando a revelei, pedi duas cópias, uma para mim e outra para meu pai.

Voltei para casa como uma criança feliz. O tempo passou, casei, arranjei dois filhos e continuei tocando a oficina. Hoje, passo o tempo comandando uma equipe de mecânicos maior do que a Life inteira, mas ainda gosto de colocar a mão na massa quando aparece um carro mais interessante como um velho Opala ou qualquer um desses carros da minha infância.

Na parede da oficina, a foto emoldurada do carro da Life está em destaque. Alguns clientes, aqueles que ainda dão alguma importância para a Fórmula 1, perguntam se aquele carro é uma Ferrari antiga.

– É, sim – respondo de forma marota.

Quem liga se isso é uma mentira? Eu, definitivamente, não ligo, até porque a verdade é bem mais legal.

Céu branco. Frio. Ameaça de neve, segundo o Weather Channel. Sebastian Vettel veste seu gorro azul, ajeita-o em sua cabeça disforme, coloca suas luvas avermelhadas. Assopra. O ar quente de suas entranhas se condensa em contato com o ambiente. Faz frio, de fato.

Falta pouco para as sete da noite. Vettel entra em seu Infiniti FX50 e segue em direção a um prédio localizado no distrito monegasco de Moneghetti. Quarenta e poucos andares. Vigésimo sexto. Vettel vai à portaria e, batendo as mandíbulas em resposta ao sofrimento glacial, apenas balbucia ao porteiro uma palavra: Bernie.

Bernie Ecclestone estava esperando por ele em um de seus apartamentos. Assim como esperava por várias outras gentes da Fórmula 1. Não, ele não queria discutir um novo Acordo da Concórdia ou anunciar aos íntimos a criação do Grande Prêmio do Inferno. Por incrível que pareça, o pequeno judeu também sabe se divertir. Todo final de dezembro, ele promove um amigo secreto entre as figurinhas do paddock. Tão secreto que ninguém mais sabe. Só eu, porque tenho informantes muito bons nos boxes. Mentira, mas a história vale lá alguma pataca.

Quase todos os convidados do amigo secreto, que incluíam pilotos, chefes de equipe e pessoas de alguma relevância, apareceram. Somente Jean Todt, presidente da FIA, não quis saber. Todt é chatão, mandou dizer que não queria ver Luca di Montezemolo nem vestido com o macacão da Peugeot. Mas quem disse que sua presença era necessária? Havia vinho, cerveja, uísque e amendoim para todo mundo. E se o excesso de testosterona na sala causasse algum efeito colateral nos presentes, Bernie tinha uma agenda cheia de contatos de grid girls que poderiam dar um pulo até o apê.

Todo mundo estava descontraído. Não havia inimizades e rivalidades. Pelo menos, não nas proximidades do Natal. Bernie Ecclestone achava que todo aquele clima horrível deveria se restringir ao paddock apenas para atrair a atenção dos espectadores. Fora das pistas, todo mundo poderia fingir ser gente normal.

Após algumas doses de álcool e muita bandalha, Ecclestone decide iniciar o amigo secreto. Tem de ser ele, que é o dono da bodega. Não vou alongar demais os diálogos. Tento, pelo menos:

BERNIE: Galera, vamos lá. Meu amigo secreto é italiano e é da Cosa Nostra.

COULTHARD: Pleonasmo…

Risos generalizados.

BERNIE: Ele divide o cabelo no meio e se acha o dono do planeta. Vem cá, Luca, seu lindo!

Ecclestone havia tirado Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari. Sorridente, o italiano se aproxima, tasca dois beijos à siciliana no rosto de Bernie e pega seu presente. É um envelope.

MONTEZEMOLO: O que será que…? Ah…

Um vale-presente da Harrods. Cinco libras. Um vale de cinco míseras libras.

BERNIE: Você sabe, eu não tive dinheiro para comprar um presente melhor, desculpe-me. (risos)

Sem graça, Montezemolo prossegue:

MONTEZEMOLO: Meu amigo secreto parece ter nascido com paralisia cerebral. E gosta de um dedão no rabo.

Sebastian Vettel, é óbvio. Sempre sorridente, o bicampeão se aproximou, abraçou honestamente il capo italiano e pegou seu presente, que também era um envelope. Ao abrir, uma surpresa: era um contrato para correr na Ferrari a partir de 2013.

Todo mundo se entreolhou naquela sala. Constrangido, Vettel não sabia muito bem o que fazer:

VETTEL: É uma… boa brincadeira, haha! Erm… Vou pegar meu presente!

Um negócio grande. Formato de quadro.

VETTEL: Cause I’m a Canberra Milk Kid!

Mark Webber, que achou simpática a homenagem do garoto que ganhou toda a moral do mundo dividindo a mesma equipe que ele. Ao abrir o pacote, ele estranha o presente. Um quadro com a pintura de uma flor?

WEBBER: O que é isso, cara?

VETTEL: É uma vitória-régia amazônica. Estou dando uma vitória para você.

Todo mundo riu da piada, meio boba. Mark, no entanto, ficou enfurecido. Pelo menos, seu presente prometia ser tão bom quanto.

WEBBER: OK… Meu amigo secreto é velho, chato (todos apontam para Ron Dennis) e fala um inglês terrível, digno do Hitler.

Hitler, austríaco? Ah, é claro, Helmut Marko, um dos diretores da Red Bull. Webber e Marko não se bicam muito, até porque o australiano quase caiu fora da equipe graças ao ex-piloto. O presente está em uma caixinha.

Marko abre. Um frasco?

WEBBER: Colírio.

MARKO: Para quê?

WEBBER: Para ajudar a tirar a pedra que entrou no seu olho.

Ébrios, todos caem na gargalhada. Marko, caolho e longe de ser o rei do bom humor, franze a testa e pega seu presente.

MARKO: Meu amigo secreto, quando entrou na Fórmula 1, saía do carrinho de bebê direto para o nosso carro. Fora que ele é todo cheio de gostar de música eletrônica, essas coisas barulhentas dos jovens de hoje em dia.

Uma explicação sistemática dessas não empolgou ninguém, mas todos perceberam que se tratava de Jaime Alguersuari. O catalão deu um sorriso e pegou seu pacote. Um CD. Muito moderno. Do Haddaway. Helmut Marko não é muito habilidoso em termos sociais.

ALGUERSUARI: P-puxa, que legal. Super na moda. Certamente vou utilizar nos meus shows.

MARKO: Você certamente terá muito tempo para fazer seus shows no ano que vem.

Silêncio fúnebre. Jaime pega seu presente.

ALGUERSUARI: Meu amigo secreto pensa que é um garotão descolado, mas não passa de um gordo nerd e decadente (uuuuuh, assustaram-se os convivas). Tinha uma época que o cara mudava a cor do cabelo todo dia. Mas vou dizer, é um grande piloto.

Cor do cabelo? Gordo nerd? É o Jacques Villeneuve, um dos convidados que não fazem mais parte do paddock. Um gritou “puxa-saco!”. O outro foi mais incisivo: “Dá pra ele, Jaime!”.

ALGUERSUARI: Sou seu fã, cara. Espero que goste.

Organic Life by DJ Squire.

Cara-de-pau, o sujeito. Deu o próprio CD para Villeneuve. A sorte dele é que Jacques adora música e, vez por outra, escreve umas resenhas em seu site. Certamente, é um presente que o agradará.

VILLENEUVE: Francamente, mano, já ouvi tuas músicas e achei uma bosta. Valeu pelo presente, você é um moleque bom, mas tenta arranjar uma vaga de piloto de testes na HRT porque teu negócio não é ser DJ.

Villeneuve é assim mesmo, muito agradável. Coitado do Alguersuari, levou pedrada dos dois lados. Quanto ao resto, todo mundo estava morrendo de medo do presente do canadense.

VILLENEUVE: Seguinte, meu amigo secreto já foi meu companheiro de equipe. Eu não achava que perderia dele. Perdi e ainda fui demitido por causa disso. Jenson, seu canalha, você é meu amigo secreto.

O pessoal achava que o presente seria uma granada pré-ativada. Que nada, Jenson Button ganhou um relógio de quase dez mil dólares. Villeneuve lhe deu um apertado abraço.

VILLENEUVE: Valeu mesmo. A BAR era uma desgraça.

Todos gostavam do Button, que era gente boa e muito rico. Todo mundo queria ser seu amigo secreto.

BUTTON (e seu sotaque incompreensível): Então, sendo bem direto porque quero encher mais um copo de uísque, meu amigo secreto é o outro italiano mafioso da sala.

Todo mundo aplaudiu, mas um olhava para o outro e perguntava “porra, justo ele?”. Flavio Briatore foi o contemplado da vez. Jenson e Flavio se odeiam há muito tempo.

O presente era um kit. Uma tintura de cabelo e um desses espartilhos que reduzem a cintura.

BUTTON: Caramba, Flavio, você come as mulheres mais bonitas do mundo, mas se parece com uma almôndega. E ainda insiste em usar cabelo branco mesmo tendo esta pele bronzeada de almôndega crua. Queria saber o que a Heidi Klum e a Naomi viram em você.

BRIATORE (cochichando no ouvido): Já que você gosta tanto de almôndega, vou enfiar as minhas duas na tua boca, cazzo.

Murmuradas estas belas palavras, Briatore pegou o presente de seu amigo secreto, verteu uma lágrima e iniciou o discurso mais emotivo da noite:

BRIATORE: Quando meu amigo secreto era novo, eu abri as portas da minha equipe para ele. Dei-lhe casa, comida, carinho e um carro bom. Ele ganhou dois títulos para mim (as atenções se voltam para duas pessoas), mas me largou e foi andar a cavalo. Me deixou sozinho e desamparado.

Inconclusivo. Quem é, pô?

BRIATORE: Aturar Jean Alesi e Gerhard Berger foi um pesadelo.

Ah, tá, é o Michael Schumacher. O alemão sorri cinicamente, como só ele sabe fazer, e pega seu presente. Um álbum de fotos com momentos felizes de Michael na Benetton.

BRIATORE: Você era muito feliz na Benetton. Por que me abandonou?

SCHUMACHER (seco): Continuei muito feliz na Ferrari e na Mercedes e ainda me pagavam mais.

Esta doeu em mim, a alguns milhares de quilômetros de distância. Briatore ficou vermelho ferrarista de raiva e se sentou. Sempre tranquilo, Schumacher iniciou seu discurso.

SCHUMACHER: Eu amo meu amigo secreto. Ele testava o meu carro enquanto eu saía de férias, trabalhava o acerto para eu copiar, roubava pontos dos meus adversários e até dava posições de graça para mim. Putz, valeu mesmo!

Difícil, pois todos os seus companheiros de equipe cabiam neste discurso. Aí o Schumacher deu aquela olhada sarcástica e apontou seu amigo secreto, que não poderia ser outro além de Rubens Barrichello.

Suando frio e sorrindo de modo amedrontado, Rubens desembrulha seu presente. Sabe aquela tartaruguinha do Pânico na TV? Pois é.

SCHUMACHER: Vi aquela brincadeira que teus amigos fizeram no Brasil e quis fazer também.

BARRICHELLO: Amigos…

Risadas generalizadas. Mas Rubens, azedo com o quelônio, muda de semblante na hora quando pega o presente que irá dar para o seu amigo secreto.

BARRICHELLO: OK, meu amigo secreto é um cara gente boa pra caramba, mas tem uma voz de adolescente bobo que vou te falar. E ele nunca ganha o desafio que promove!

Felipe Massa, este era o nome. Sorridente, ele se aproximou do velho amigo brasileiro, que carregava uma caixa.

BARRICHELLO: Chega mais perto, eu é que vou abrir seu presente.

Massa estranhou, mas se aproximou. Rubens mexeu no pacote.

MASSA: Ai!

Ao balançar a caixa, uma mola voou em direção à testa de Felipe, que deu um pulo para trás. Todo mundo riu, até Felipe, que costuma levar as piores brincadeiras numa boa.

Era a vez do outro paulista. Ele começa:

MASSA: No meu país, a gente diria que ele está participando do amigo secreto por cota. Vamos dizer que ele é bronzeado pra caramba.

No mundo ariano da Fórmula 1, ficava claro quem era seu amigo secreto. Lewis Hamilton se levantou, agradeceu e perguntou o que significava a tal da cota. Depois, pegou seu presente.

HAMILTON: Bonita embalagem. Vejamos…

Era um par de óculos. De grau. Lewis faz cara de que não entendeu nada.

MASSA: É para você parar de bater no meu carro. Bom trabalho, Lewis.

Hamilton fustiga o brasileiro, faz cara de criança mimada e segue em frente.

HAMILTON: Meu amigo secreto é um piloto legal e simpático pra caramba. Estou mentindo, é claro.

Todo mundo identificou o amigo secreto na hora, Fernando Alonso. Que se levantou, agradeceu a todos com beijos provocativos e pegou seu presente. Oh, que fofo. Que meigo. Um ursinho de pelúcia com carinha feliz e coraçõezinhos na orelhinha. Mas por quê?

HAMILTON: Cara, você finalmente terá alguém que suporte ficar ao seu lado!

Todos aplaudiram. Alonso, que não se abala nem com terremoto, deu de ombros e pegou seu presente. Faltavam poucas pessoas e todos estavam morrendo de medo de terem sido tirados por ele.

ALONSO: Meu amigo secreto é um cara ainda mais legal e simpático do que eu.

O único que cumpria estes requisitos irônicos naquela sala era Ron Dennis, ex-chefe da McLaren e amigo pessoal de Ecclestone. Sem sorrir, pois é fisiologicamente incapaz para isso, Ron se levanta e britanicamente pega seu presente.

Era uma placa. “Sorria, você está sendo filmado”. Risadas na sala. Dennis manteve-se bem-humorado como sempre, grunhiu e seguiu com o amigo secreto. Faltava pouco para acabar.

DENNIS: Meu amigo secreto não merece nenhuma descrição engraçadinha porque eu já lhe fiz o favor de empregá-lo por quase dez anos. Tome, Mr. Coulthard.

David Coulthard foi o infeliz contemplado. Todo mundo sabia que Ron Dennis não gostava muito dele. Mesmo assim, David é um gentleman e manteve o enorme e estranho sorriso. O presente era um boné da época da West. Com o nome de Mika Häkkinen estampado.

DENNIS: Eu sei que seu sonho era ser como ele na minha equipe. Então, aproveite.

Todo mundo achou uma tremenda sacanagem, porque o Coulthard é gente boa pacas e não merecia isso, mas ninguém falou nada porque era o Ron Dennis. Elegante, David seguiu em frente, abriu novo sorriso e fez uma declaração bombástica:

COULTHARD: Eu não queria assustar vocês, mas eu também tirei o Schumacher! Veja, comprei uma mão biônica com o dedo do meio apontado.

Como assim? Ninguém entendeu nada.

HEIDFELD: Ei, espera aí, ninguém me tirou?

Bernie Ecclestone era o responsável pelos papeizinhos. Aí ele se lembrou e bateu a mão na testa:

BERNIE: Putz, eu me esqueci totalmente do Nick Heidfeld. Sabia que estava faltando uma pessoa e pensei que não tinha escrito o nome do Schumacher. Aí eu acabei fazendo dois papeizinhos com o nome dele. Foi mal, Nick.

Heidfeld ficou de cara feia, até porque ele tinha comprado o presente mais legal para seu amigo secreto, que era o Bernie Ecclestone: uma BMW M1.

BERNIE: Valeu, Nick, mas eu já tenho este carro. De qualquer jeito, aceito. Posso vendê-lo para um amigo meu.

E abriu uma nova garrafa de Johnnie Walker. Após o amigo secreto, um estava olhando feio para o outro. Mas todos beberam e esqueceram suas rivalidades. O Natal não é época para essas coisas. Deixem as brigas para ser resolvidas nas corridas da próxima temporada.

Moral da história: o calendário prevê 364 dias para o ódio. Mas respeitem o dia 25 de Dezembro, pelo amor de Deus. Um Feliz Natal a todos os meus leitores, com muita paz, saúde e amor.

Leandro “Verde”