Céu branco. Frio. Ameaça de neve, segundo o Weather Channel. Sebastian Vettel veste seu gorro azul, ajeita-o em sua cabeça disforme, coloca suas luvas avermelhadas. Assopra. O ar quente de suas entranhas se condensa em contato com o ambiente. Faz frio, de fato.

Falta pouco para as sete da noite. Vettel entra em seu Infiniti FX50 e segue em direção a um prédio localizado no distrito monegasco de Moneghetti. Quarenta e poucos andares. Vigésimo sexto. Vettel vai à portaria e, batendo as mandíbulas em resposta ao sofrimento glacial, apenas balbucia ao porteiro uma palavra: Bernie.

Bernie Ecclestone estava esperando por ele em um de seus apartamentos. Assim como esperava por várias outras gentes da Fórmula 1. Não, ele não queria discutir um novo Acordo da Concórdia ou anunciar aos íntimos a criação do Grande Prêmio do Inferno. Por incrível que pareça, o pequeno judeu também sabe se divertir. Todo final de dezembro, ele promove um amigo secreto entre as figurinhas do paddock. Tão secreto que ninguém mais sabe. Só eu, porque tenho informantes muito bons nos boxes. Mentira, mas a história vale lá alguma pataca.

Quase todos os convidados do amigo secreto, que incluíam pilotos, chefes de equipe e pessoas de alguma relevância, apareceram. Somente Jean Todt, presidente da FIA, não quis saber. Todt é chatão, mandou dizer que não queria ver Luca di Montezemolo nem vestido com o macacão da Peugeot. Mas quem disse que sua presença era necessária? Havia vinho, cerveja, uísque e amendoim para todo mundo. E se o excesso de testosterona na sala causasse algum efeito colateral nos presentes, Bernie tinha uma agenda cheia de contatos de grid girls que poderiam dar um pulo até o apê.

Todo mundo estava descontraído. Não havia inimizades e rivalidades. Pelo menos, não nas proximidades do Natal. Bernie Ecclestone achava que todo aquele clima horrível deveria se restringir ao paddock apenas para atrair a atenção dos espectadores. Fora das pistas, todo mundo poderia fingir ser gente normal.

Após algumas doses de álcool e muita bandalha, Ecclestone decide iniciar o amigo secreto. Tem de ser ele, que é o dono da bodega. Não vou alongar demais os diálogos. Tento, pelo menos:

BERNIE: Galera, vamos lá. Meu amigo secreto é italiano e é da Cosa Nostra.

COULTHARD: Pleonasmo…

Risos generalizados.

BERNIE: Ele divide o cabelo no meio e se acha o dono do planeta. Vem cá, Luca, seu lindo!

Ecclestone havia tirado Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari. Sorridente, o italiano se aproxima, tasca dois beijos à siciliana no rosto de Bernie e pega seu presente. É um envelope.

MONTEZEMOLO: O que será que…? Ah…

Um vale-presente da Harrods. Cinco libras. Um vale de cinco míseras libras.

BERNIE: Você sabe, eu não tive dinheiro para comprar um presente melhor, desculpe-me. (risos)

Sem graça, Montezemolo prossegue:

MONTEZEMOLO: Meu amigo secreto parece ter nascido com paralisia cerebral. E gosta de um dedão no rabo.

Sebastian Vettel, é óbvio. Sempre sorridente, o bicampeão se aproximou, abraçou honestamente il capo italiano e pegou seu presente, que também era um envelope. Ao abrir, uma surpresa: era um contrato para correr na Ferrari a partir de 2013.

Todo mundo se entreolhou naquela sala. Constrangido, Vettel não sabia muito bem o que fazer:

VETTEL: É uma… boa brincadeira, haha! Erm… Vou pegar meu presente!

Um negócio grande. Formato de quadro.

VETTEL: Cause I’m a Canberra Milk Kid!

Mark Webber, que achou simpática a homenagem do garoto que ganhou toda a moral do mundo dividindo a mesma equipe que ele. Ao abrir o pacote, ele estranha o presente. Um quadro com a pintura de uma flor?

WEBBER: O que é isso, cara?

VETTEL: É uma vitória-régia amazônica. Estou dando uma vitória para você.

Todo mundo riu da piada, meio boba. Mark, no entanto, ficou enfurecido. Pelo menos, seu presente prometia ser tão bom quanto.

WEBBER: OK… Meu amigo secreto é velho, chato (todos apontam para Ron Dennis) e fala um inglês terrível, digno do Hitler.

Hitler, austríaco? Ah, é claro, Helmut Marko, um dos diretores da Red Bull. Webber e Marko não se bicam muito, até porque o australiano quase caiu fora da equipe graças ao ex-piloto. O presente está em uma caixinha.

Marko abre. Um frasco?

WEBBER: Colírio.

MARKO: Para quê?

WEBBER: Para ajudar a tirar a pedra que entrou no seu olho.

Ébrios, todos caem na gargalhada. Marko, caolho e longe de ser o rei do bom humor, franze a testa e pega seu presente.

MARKO: Meu amigo secreto, quando entrou na Fórmula 1, saía do carrinho de bebê direto para o nosso carro. Fora que ele é todo cheio de gostar de música eletrônica, essas coisas barulhentas dos jovens de hoje em dia.

Uma explicação sistemática dessas não empolgou ninguém, mas todos perceberam que se tratava de Jaime Alguersuari. O catalão deu um sorriso e pegou seu pacote. Um CD. Muito moderno. Do Haddaway. Helmut Marko não é muito habilidoso em termos sociais.

ALGUERSUARI: P-puxa, que legal. Super na moda. Certamente vou utilizar nos meus shows.

MARKO: Você certamente terá muito tempo para fazer seus shows no ano que vem.

Silêncio fúnebre. Jaime pega seu presente.

ALGUERSUARI: Meu amigo secreto pensa que é um garotão descolado, mas não passa de um gordo nerd e decadente (uuuuuh, assustaram-se os convivas). Tinha uma época que o cara mudava a cor do cabelo todo dia. Mas vou dizer, é um grande piloto.

Cor do cabelo? Gordo nerd? É o Jacques Villeneuve, um dos convidados que não fazem mais parte do paddock. Um gritou “puxa-saco!”. O outro foi mais incisivo: “Dá pra ele, Jaime!”.

ALGUERSUARI: Sou seu fã, cara. Espero que goste.

Organic Life by DJ Squire.

Cara-de-pau, o sujeito. Deu o próprio CD para Villeneuve. A sorte dele é que Jacques adora música e, vez por outra, escreve umas resenhas em seu site. Certamente, é um presente que o agradará.

VILLENEUVE: Francamente, mano, já ouvi tuas músicas e achei uma bosta. Valeu pelo presente, você é um moleque bom, mas tenta arranjar uma vaga de piloto de testes na HRT porque teu negócio não é ser DJ.

Villeneuve é assim mesmo, muito agradável. Coitado do Alguersuari, levou pedrada dos dois lados. Quanto ao resto, todo mundo estava morrendo de medo do presente do canadense.

VILLENEUVE: Seguinte, meu amigo secreto já foi meu companheiro de equipe. Eu não achava que perderia dele. Perdi e ainda fui demitido por causa disso. Jenson, seu canalha, você é meu amigo secreto.

O pessoal achava que o presente seria uma granada pré-ativada. Que nada, Jenson Button ganhou um relógio de quase dez mil dólares. Villeneuve lhe deu um apertado abraço.

VILLENEUVE: Valeu mesmo. A BAR era uma desgraça.

Todos gostavam do Button, que era gente boa e muito rico. Todo mundo queria ser seu amigo secreto.

BUTTON (e seu sotaque incompreensível): Então, sendo bem direto porque quero encher mais um copo de uísque, meu amigo secreto é o outro italiano mafioso da sala.

Todo mundo aplaudiu, mas um olhava para o outro e perguntava “porra, justo ele?”. Flavio Briatore foi o contemplado da vez. Jenson e Flavio se odeiam há muito tempo.

O presente era um kit. Uma tintura de cabelo e um desses espartilhos que reduzem a cintura.

BUTTON: Caramba, Flavio, você come as mulheres mais bonitas do mundo, mas se parece com uma almôndega. E ainda insiste em usar cabelo branco mesmo tendo esta pele bronzeada de almôndega crua. Queria saber o que a Heidi Klum e a Naomi viram em você.

BRIATORE (cochichando no ouvido): Já que você gosta tanto de almôndega, vou enfiar as minhas duas na tua boca, cazzo.

Murmuradas estas belas palavras, Briatore pegou o presente de seu amigo secreto, verteu uma lágrima e iniciou o discurso mais emotivo da noite:

BRIATORE: Quando meu amigo secreto era novo, eu abri as portas da minha equipe para ele. Dei-lhe casa, comida, carinho e um carro bom. Ele ganhou dois títulos para mim (as atenções se voltam para duas pessoas), mas me largou e foi andar a cavalo. Me deixou sozinho e desamparado.

Inconclusivo. Quem é, pô?

BRIATORE: Aturar Jean Alesi e Gerhard Berger foi um pesadelo.

Ah, tá, é o Michael Schumacher. O alemão sorri cinicamente, como só ele sabe fazer, e pega seu presente. Um álbum de fotos com momentos felizes de Michael na Benetton.

BRIATORE: Você era muito feliz na Benetton. Por que me abandonou?

SCHUMACHER (seco): Continuei muito feliz na Ferrari e na Mercedes e ainda me pagavam mais.

Esta doeu em mim, a alguns milhares de quilômetros de distância. Briatore ficou vermelho ferrarista de raiva e se sentou. Sempre tranquilo, Schumacher iniciou seu discurso.

SCHUMACHER: Eu amo meu amigo secreto. Ele testava o meu carro enquanto eu saía de férias, trabalhava o acerto para eu copiar, roubava pontos dos meus adversários e até dava posições de graça para mim. Putz, valeu mesmo!

Difícil, pois todos os seus companheiros de equipe cabiam neste discurso. Aí o Schumacher deu aquela olhada sarcástica e apontou seu amigo secreto, que não poderia ser outro além de Rubens Barrichello.

Suando frio e sorrindo de modo amedrontado, Rubens desembrulha seu presente. Sabe aquela tartaruguinha do Pânico na TV? Pois é.

SCHUMACHER: Vi aquela brincadeira que teus amigos fizeram no Brasil e quis fazer também.

BARRICHELLO: Amigos…

Risadas generalizadas. Mas Rubens, azedo com o quelônio, muda de semblante na hora quando pega o presente que irá dar para o seu amigo secreto.

BARRICHELLO: OK, meu amigo secreto é um cara gente boa pra caramba, mas tem uma voz de adolescente bobo que vou te falar. E ele nunca ganha o desafio que promove!

Felipe Massa, este era o nome. Sorridente, ele se aproximou do velho amigo brasileiro, que carregava uma caixa.

BARRICHELLO: Chega mais perto, eu é que vou abrir seu presente.

Massa estranhou, mas se aproximou. Rubens mexeu no pacote.

MASSA: Ai!

Ao balançar a caixa, uma mola voou em direção à testa de Felipe, que deu um pulo para trás. Todo mundo riu, até Felipe, que costuma levar as piores brincadeiras numa boa.

Era a vez do outro paulista. Ele começa:

MASSA: No meu país, a gente diria que ele está participando do amigo secreto por cota. Vamos dizer que ele é bronzeado pra caramba.

No mundo ariano da Fórmula 1, ficava claro quem era seu amigo secreto. Lewis Hamilton se levantou, agradeceu e perguntou o que significava a tal da cota. Depois, pegou seu presente.

HAMILTON: Bonita embalagem. Vejamos…

Era um par de óculos. De grau. Lewis faz cara de que não entendeu nada.

MASSA: É para você parar de bater no meu carro. Bom trabalho, Lewis.

Hamilton fustiga o brasileiro, faz cara de criança mimada e segue em frente.

HAMILTON: Meu amigo secreto é um piloto legal e simpático pra caramba. Estou mentindo, é claro.

Todo mundo identificou o amigo secreto na hora, Fernando Alonso. Que se levantou, agradeceu a todos com beijos provocativos e pegou seu presente. Oh, que fofo. Que meigo. Um ursinho de pelúcia com carinha feliz e coraçõezinhos na orelhinha. Mas por quê?

HAMILTON: Cara, você finalmente terá alguém que suporte ficar ao seu lado!

Todos aplaudiram. Alonso, que não se abala nem com terremoto, deu de ombros e pegou seu presente. Faltavam poucas pessoas e todos estavam morrendo de medo de terem sido tirados por ele.

ALONSO: Meu amigo secreto é um cara ainda mais legal e simpático do que eu.

O único que cumpria estes requisitos irônicos naquela sala era Ron Dennis, ex-chefe da McLaren e amigo pessoal de Ecclestone. Sem sorrir, pois é fisiologicamente incapaz para isso, Ron se levanta e britanicamente pega seu presente.

Era uma placa. “Sorria, você está sendo filmado”. Risadas na sala. Dennis manteve-se bem-humorado como sempre, grunhiu e seguiu com o amigo secreto. Faltava pouco para acabar.

DENNIS: Meu amigo secreto não merece nenhuma descrição engraçadinha porque eu já lhe fiz o favor de empregá-lo por quase dez anos. Tome, Mr. Coulthard.

David Coulthard foi o infeliz contemplado. Todo mundo sabia que Ron Dennis não gostava muito dele. Mesmo assim, David é um gentleman e manteve o enorme e estranho sorriso. O presente era um boné da época da West. Com o nome de Mika Häkkinen estampado.

DENNIS: Eu sei que seu sonho era ser como ele na minha equipe. Então, aproveite.

Todo mundo achou uma tremenda sacanagem, porque o Coulthard é gente boa pacas e não merecia isso, mas ninguém falou nada porque era o Ron Dennis. Elegante, David seguiu em frente, abriu novo sorriso e fez uma declaração bombástica:

COULTHARD: Eu não queria assustar vocês, mas eu também tirei o Schumacher! Veja, comprei uma mão biônica com o dedo do meio apontado.

Como assim? Ninguém entendeu nada.

HEIDFELD: Ei, espera aí, ninguém me tirou?

Bernie Ecclestone era o responsável pelos papeizinhos. Aí ele se lembrou e bateu a mão na testa:

BERNIE: Putz, eu me esqueci totalmente do Nick Heidfeld. Sabia que estava faltando uma pessoa e pensei que não tinha escrito o nome do Schumacher. Aí eu acabei fazendo dois papeizinhos com o nome dele. Foi mal, Nick.

Heidfeld ficou de cara feia, até porque ele tinha comprado o presente mais legal para seu amigo secreto, que era o Bernie Ecclestone: uma BMW M1.

BERNIE: Valeu, Nick, mas eu já tenho este carro. De qualquer jeito, aceito. Posso vendê-lo para um amigo meu.

E abriu uma nova garrafa de Johnnie Walker. Após o amigo secreto, um estava olhando feio para o outro. Mas todos beberam e esqueceram suas rivalidades. O Natal não é época para essas coisas. Deixem as brigas para ser resolvidas nas corridas da próxima temporada.

Moral da história: o calendário prevê 364 dias para o ódio. Mas respeitem o dia 25 de Dezembro, pelo amor de Deus. Um Feliz Natal a todos os meus leitores, com muita paz, saúde e amor.

Leandro “Verde”

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