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O que é o Natal para você? Não, não estou me referindo ao lado espiritual da coisa. O negócio aqui é puramente telúrico. O que é o Natal para você?

Natal é a família rindo e fazendo barulho ao redor de uma mesa repleta de comida boa. Natal é a árvore de plástico lá na sala cujas luzinhas cintilantes fazem a alegria de fornecedores de energia elétrica. Natal é aquela decoração vermelha e verde que embeleza (ou enfeia) as casas ao redor do mundo. Natal é aquele amontoado de caixas de presentes revestidas com o embrulho esverdeado do Mappin. Natal é a festa que é sua, é nossa, é de quem quiser.

Esse é o meu Natal, e provavelmente o de muitos de vocês. Gosto disso. Época boa, aconchegante, meio hipócrita, mas quem liga? Por conta disso, não estou com vontade de falar sobre automobilismo ou o raio que o parta. Eu quero é contar história. Quatro histórias de quatro Natais de quatro pessoas completamente diferentes. Algumas mais próximas, outras completamente distantes do parágrafo aí em cima, tudo o que eu quero é mostrar exemplos de como cada um de nós celebra a data mais importante do Cristianismo e da rua 25 de Março.

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Atrás das verdejantes montanhas que repousam à margem do Reno, uma sequência linear de pequenas vilas torna colorida e vivaz aquele deslumbrante relevo virgem certamente pavimentado por alguma entidade divina em um dia bastante inspirado. Interessa-nos apenas uma dessas vilas, aquela cujo sonoro nome é Heppenheim.

Entre antigos casarões de telhados avermelhados e a Catedral de São Pedro, uma das casas mais ao sopé da montanha é a que mais nos chama a atenção. Certamente não pelo deslumbre, pois todas são grandes, imponentes, um tanto barrocas e razoavelmente apertadas, mas pelo burburinho. Pelas janelas altas e retangulares, percebem-se luzes e ruídos pouco germânicos. Do lado de fora, entre vários BMWs e Mercedes, um Infiniti Q60 azulado tenta encontrar uma vaga. Seu motorista, usualmente tão rápido, está ligeiramente atrasado.

Vamos chamá-lo de Sicrano. Mesmo tendo apenas 26 anos de idade, ele é o membro mais famoso e bem-sucedido da família. De uns anos para cá, em todas as reuniões familiares, o cara se tornou o definitivo centro das atenções, contador oficial de histórias e distribuidor dos presentes mais caros. Por conta ao ofício, Sicrano tem pouco tempo para visitar sua amada cidade-natal. O Natal é uma das raras épocas livres para tal.

Sem ver sua família há muito, Sicrano ansiosamente aperta a campainha. Ele está acompanhado de Hanna, sua bela namoradinha dos tempos da high school. Papai Norbert abre a porta, arregala os olhos e abraça o rebento com força titânica. “Demorou, hein, garoto?”.

Os parentes se aglutinam na porta. Um a um, eles abraçam Sicrano com força, distribuem beijos na bochecha de Hanna e afagam sua barriga, em estágio inicial de gestação. A família alemã, tão gélida e impessoal nos demais dias do ano, se italianiza no período natalino. Sicrano, sem tirar o enorme e irregular sorriso da cara, cumprimenta todos como se fosse um candidato à Presidência:

– Papai, como está?

– Mamãe, que saudade de sua salada de batatas!

– Fabian, moleque, aprendeu a fazer embaixadinha no Fifa 14?

– Melanie, cadê o namorado?

– Stefanie, como é difícil te ver por aqui!

– Vovô, que bom que o senhor está andando!

Entre saudações e manifestações calorosas, a pergunta que silenciou o casarão:

– E o Billy?

Billy é o melhor amigo de Sicrano, um Lulu da Pomerânia branquinho, peludinho, engraçadinho e burro como uma porta. Nascido em 1998, Billy sempre foi a alegria da casa, com sua cara de tonto, sua mania de roubar chinelos e seu bizarro hábito de latir para a máquina de lavar. Nos últimos tempos, coitado, não vinha enxergando bem e uma das patinhas já não apresentava mais as forças de outrora. Mas ele vinha resistindo bem aos obstáculos do tempo. Capenga, mas forte e resistente.

– E o Billy? – voltou a indagar Sicrano, apreensivo.

Soturnos, os familiares se entreolham. Mamãe se aproxima, suspira e anuncia a fatídica notícia:

– Morreu. Há dois meses.

Lágrimas vêm aos olhos de Sicrano:

– E por que vocês não me avisaram?

– Foi em um fim de semana em que você estava trabalhando, preferimos não contar nada para te poupar do sofrimento. Sabemos que você é o que mais gostava dele.

É verdade. Billy era o melhor amigo de Sicrano e vice-versa. Antigamente, os dois brincavam, corriam e pulavam o dia inteiro. Quando Sicrano saiu de casa para o mundo, a saudade derrubou ambos, mas ele sempre retornava a cada seis meses para rever seu mascote. Mesmo envelhecendo, Billy ainda era a mesma bola de pelos brincalhona e abobalhada que corria esbaforido rumo à porta a cada vez que seu dono apertava a campainha.

Pois não teve ninguém correndo à porta naquele Natal.

A feição sempre feliz e sorridente de Sicrano mudou na hora. Ele se sentou à mesa e passou a maior parte do tempo mudo, alternando entre lentas garfadas na salada de batatas e tímidos goles de refrigerante. Os familiares, que riam e bebiam abundante cerveja até sua chegada, reduziram suas celebrações a um quase-luto. Se o astro da família não estava feliz, então ninguém mais estava.

Sicrano havia tido um 2013 excepcional até então. Consagrou-se como um dos melhores que já existiram em sua área, embolsou mais alguns milhões de dólares e ainda recebeu a notícia de que se tornaria pai. Tudo o que ele queria era chegar à sua antiga casa e comemorar suas vitórias particulares com algumas lambidas de seu antigo companheiro. Sem Billy, tudo perdia um pouco da graça. E quem tem animal de estimação sabe que nem mesmo um quarto título mundial em um esporte pode compensar sua ausência.

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– ¡Hijoputa, gilipollas, cabrón, voy a matarte!

– ¡Cálmate, Fulano!

Fulano acorda com um rápido movimento. Suado e com os olhos arregalados, ele olha para os lados e vê que não há nada de errado. Absolutamente nada. Foi apenas um pesadelo. Mais um. A namorada, uma bela modelo de origem eslava, manifesta sua opinião:

– Fulano, você tem de voltar ao psiquiatra. Isso não é normal. É a sexta ou sétima vez que você acorda no meio da noite querendo matar alguém.

– Não é alguém. É apenas uma pessoa.

Mesmo na véspera de Natal, Fulano não deixa suas obsessões profissionais de lado. Típico espanhol do sangue quente, ele é um desses que não admitem não serem os maiores fodões do pedaço. Até alguns anos atrás, Fulano era considerado o melhor em sua profissão, um cara cuja perspicácia parecia não poder ser alcançada por ninguém nos próximos anos. Num belo dia, um moleque esquisito de nome Sicrano apareceu e botou fogo no cabaré, conseguindo resultados inacreditáveis logo de cara e conquistando a confiança e a admiração de todos. A verdade é que não demorou mais do que um ou dois anos para que surgisse alguém aparentemente superior a Fulano.

Lógico que isso lhe causou tremendo incômodo. Sempre cheio da soberba, Fulano não podia aceitar que um cidadão muito mais novo e razoavelmente mais simpático lhe roubaria o cinturão tão cedo. Não deu nem para gozar das benesses do reinado direito. Num primeiro instante, ele bem que tentou intimidar Sicrano psicologicamente. Não funcionou. Na verdade, foi o próprio Fulano que acabou com a mente destroçada.

Ele jamais admitia sua fraqueza às pessoas. Nas redes sociais, sempre falava sobre trabalho, esforço, perseverança e samurais. Muitos aplaudiam, quase ninguém conhecia a realidade. Nos últimos dois anos, Fulano frequentou psicólogos e psiquiatras para tentar reverter a depressão e a baixa autoestima. Se entupiu de remédios, tentou de tudo para confortar-se à dura realidade ou simplesmente esquecê-la, mas nada disso funcionou. A simples existência de Sicrano havia se tornado uma cruz para Fulano.

– Fica calmo, Fulano. Hoje, vamos à ceia de Natal de sua família. Relaxa um pouco.

OK, é Natal, vamos relaxar.

Fulano relaxou e deixou de lado suas angústias naquele dia. Viajou às Astúrias, chegou à casa de seus pais abarrotado de presentes, abraçou os familiares e apresentou a todos sua nova namorada, que deixou primos e agregados mordidos de inveja e o pai cheio de orgulho. Tudo indicava que seria uma noite muito agradável.

Minutos depois, quando Fulano já está à mesa com uma suculenta coxa de peru na boca, a campainha toca. É um primo distante, que quase nunca frequenta as festas. Ao seu lado, a esposa e um garoto de uns oito ou nove anos de idade. Gordinho, sardento, peralta, risonho, simpático e vestido com uma camisa diferente. Uma camisa azul e amarela ornamentada com um touro vermelho. Exatamente a mesma roupa que Sicrano utiliza para trabalhar de vez em quando.

Ao ver o garoto com a mesma indumentária de seu rival, Fulano fica branco como se tivesse visto uma horda de zumbis irrompendo sua casa. O suor frio escorre pelo rosto, as feições congelam, a respiração se torna pungente, um sentimento sincero de raiva selvagem toma conta de seu corpo.

– Fulano, o que foi? – pergunta, assustada, a namorada.

– A camisa… A camisa…

A namorada entendeu logo de cara.

– Por favor, é só um garoto. Deixa ele. Sicrano não tem nada a ver com isso.

– Não…

O pior é que o garoto realmente parecia ser uma graça. Atração maior da ceia, ele pulava, falava coisas engraçadas, corria atrás dos animais da casa, fazia sua festa particular naquela navidade. Todos, à exceção de Fulano, riam de suas macaquices.

– Ele é uma gracinha, vai – sussurrava a namorada.

– Por favor, me deixa quieto.

Fulano passou o resto da ceia com a cara de alguém que está vendo sua mulher e seu melhor amigo transando na sua cama. A coxa de peru descia pela garganta como um pedaço de concreto. Nada mais importava, apenas aquele garoto que se tornou o centro das atenções com o carisma transbordante e aquela maldita camisa azul e amarela. Assim como Sicrano. Talvez aquele garotinho ali fosse uma brincadeira do destino, uma versão miniaturizada de Sicrano que os deuses colocaram em seu caminho apenas para aborrecê-lo. A paranoia estava tomando conta de Fulano.

Ao voltar para a casa, Fulano tomou alguns calmantes e só acordou na tarde do dia seguinte. O samurai foi derrubado novamente. Por um garoto. Um Sicraninho.

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Centro de Convenções de Los Angeles, noite anterior ao Natal. Uma multidão de rappers, modelos e celebridades dos Estados Unidos e da Europa adentra aquele pavilhão todo geométrico e envidraçado para participar de uma das festas mais quentes daquele fim de ano. Champanhe francês, canapés de caviar e presunto cru, farinha colombiana e muita música eletrônica deram o tom daquela ceia pouco ortodoxa para os padrões mortais. Mas quem estava por trás de tudo aquilo?

Era exatamente ele, nosso querido Luisinho.

De origem relativamente humilde, Luisinho era um inglês que ganhou muito dinheiro com eventos esportivos ao redor do mundo. Funcionário muito bem conceituado de uma montadora alemã, ele se destacava por ser praticamente o primeiro negro em um meio absolutamente ariano, uma prova de que os tempos, felizmente, estavam mudando. Naturalmente talentoso, Luisinho era o tipo de cara que não precisava trabalhar muito para conseguir bons resultados. Isso significava que ele poderia ter mais tempo livre para se divertir. E aí residia o problema.

Luisinho era alguém, em tese, tinha tudo para ser feliz: dinheiro, respeito, liberdade e moral. Só que ele não era. Fora do seu trabalho, sua vida era uma verdadeira bagunça novelesca. De cabeça fraca, o cidadão é do tipo que se perde com festas, polêmicas idiotas e desavenças com antigos amigos. Dependendo da época, suas confusões pessoais acabam até mesmo influenciando sua vida profissional. Por conta disso, já faz algum tempo que ele não consegue satisfação nem em um aspecto e nem em outro.

Mas nenhum de seus dramas é maior do que o amoroso. A vida de Luisinho não anda para frente principalmente por causa de sua ex-namorada Nicoletta, popstar que trabalha como cantora e apresentadora de TV. Os dois se conheceram ainda antes do auge, tiveram um início de namoro maravilhoso, cresceram, foram ficando cada vez mais famosos e também cada vez mais ocupados e o relacionamento começou a se deteriorar. Como o tempo livre era muito curto, Luisinho e Nicoletta não encontravam nenhuma brecha na agenda para se curtir.

A torta começou a desandar quanto tanto Luisinho como Nicoletta foram flagrados pulando a cerca – coisas do distanciamento, né? A relação se estremeceu e os dois terminaram e voltaram várias vezes. Atualmente, estão separados. Mas Luisinho não aceita o rompimento. Ele ama Nicoletta, não consegue viver sem ela e até mesmo trabalhar está sendo uma penúria. Para a noite de Natal, uma tática será tentada.

Luisinho convidou sua meia dúzia de amigos verdadeiros e seus milhares de amigos falsos para uma festança inesquecível em Los Angeles. Nicoletta obviamente foi uma das convidadas “por questão de amizade”. Ele aproveitaria o burburinho para tentar uma reaproximação com sua amada. Plano besta, né? Só poderia ter saído da cabeça de alguém muito desesperado. E muito tapado.

Festa iniciada, os convidados chiques e famosos foram chegando aos montes e nada de Nicoletta. As horas passavam e Luisinho ia ficando cada vez mais ansioso. Enquanto seus pares se esbaldavam gratuitamente com ótima comida e bebida, nosso herói apaixonado estava encostado em um canto sem beber nada e com os braços cruzados. Se a Nicoletta não chegar, o que será de mim?

Madrugada adentro e nem sinal da Nicoletta. A angústia tomava conta de Luisinho, que tentava respondê-la com visitas frequentes ao lavabo, onde arremessava água em sua cara tentando despertar daquele pesadelo. Lá pelas três da manhã, uma lindíssima modelo dinamarquesa se aproxima daquele rapaz de coração quebrantado:

– Luisinho, está tudo bem? – indaga a moça em inglês perfeito, com leve sotaque britânico.

– Sim, tudo certo.

– O que está acontecendo? Você deu a festa, mas mal te vi se divertindo…

– Não se preocupe, estou bem.

– Quer dançar?

Um homem solteiro jamais responderia algo diferente de “com certeza” para uma moça daquelas, rosto de Angelina em corpo de Gisele, estudante de medicina em Londres, fluente em seis línguas, muito bem humorada, simpática como só ela e perfumada como um buquê fresco. Luisinho titubeou, mas aceitou. Por educação. Sua cabeça não estava ali.

O interesse da dinamarquesa era enorme, mas Luisinho nem deu bola. Sua resposta à música eletrônica, às luzes e àquela mulher era somente a mais sincera indiferença. Os movimentos eram automáticos, o olhar estava perdido, a solidão aumentava a cada batida, estava tudo um inferno. Mesmo sendo o dono da festa e o macho alfa da história, Luisinho era algo como o homem mais infeliz do planeta.

A festa acabou lá pelas oito da manhã e Nicoletta não apareceu. Luisinho se despediu de todos, não demonstrou qualquer forma de interesse posterior na modelo dinamarquesa e passou todo o dia de Natal dormindo. Milhões de pessoas dariam tudo para ter a vida que ele tem e Luisinho daria seus milhões apenas para ter Nicoletta de volta. Papai Noel que se vire para atender todos esses pedidos.

bebado

– Acorda, vagabundo.

O quê?

– Vamos, levante-se.

Não me enche o saco, porra.

– Levante-se!

De compleição gélida como um assassino serial, o policial finlandês apenas cutuca seu cassetete nas costas daquele cidadão debruçado na calçada em estado semiconsciente. Ao lado daquele corpo quase cataléptico, uma garrafa de vodca pela metade. Pelo estado do rapaz, é bem possível que ele já tenha virado umas três como aquela e não tenha aguentado a quarta.

O policial se abaixa, mexe no bolso do bebum, revira a carteira e encontra sua identidade. O nome dele é algo como Quico Matias, mas as pessoas só o chamam de Quico. Aí o policial, sempre sério e discreto, levanta uma sobrancelha espantada. Quico é um cara razoavelmente rico e famoso, uma dessas celebridades que vivem fazendo bobagens e alimentando revistas de fofoca. Seu comportamento errático e sua afeição por líquidos etílicos já se tornaram suas grandes marcas registradas.

Como estamos na Finlândia, o policial não surrupiou alguns euros da carteira do contraventor ou o subornou. Ao invés disso, ele o arrastou pelas pernas até o banco traseiro de um furgão “poliisi” preto e branco. Atordoado, Quico fez o traslado até a delegacia mais próxima em um estado físico próximo do apodrecimento, com a camisa do White Zombie toda amassada e alguns perdigotos de vômito espalhados pela perna.

Mesmo sendo uma celebridade, Quico não teve nenhum tratamento especial, muito pelo contrário. Enquanto algum familiar não aparecesse para pagar sua fiança, ele passaria a noite da véspera de Natal em uma cela junto de outros criminosos finlandeses, tão perigosos como tartarugas de ponta-cabeça. Duas horas depois, aparece a mãe de Quico.

Assustada e, ao mesmo tempo, resignada com a situação deplorável de seu filho, dona Paula limpou sua boca e o colocou dentro do carro. Tão logo as portas do Saab se fecharam, ela iniciou a típica bronca materna:

– Você não muda…

– …

– Não muda mesmo, né?

– …

– Todos em casa, preocupados com você, esperando você para começar a ceia…

– …

– E você caído no chão, sem um pingo de consideração pelas pessoas que te amam.

– …

– Olha, nada pior para uma mãe do que a ligação de um policial dizendo que seu filho está desmaiado na sarjeta…

– …

– Você não vai falar nada?

Quico não abriu a boca. Ele só adormeceu até chegar à casa de sua família, uma confortável mansão erguida nos arredores de Espoo. Ao chegar, desceu do carro, cambaleou até a porta, entrou de qualquer jeito, ignorou a presença de toda a família, conduziu-se até o quarto do irmão e desabou sobre a cama.

Quico só viria a acordar umas cinco da manhã, quando todos já tinham ido embora e as luzes estavam apagadas. A cabeça latejava, o fígado borbulhava, o corpo estava que só o bagaço. Ele não conseguia mais dormir. Aos poucos, alguns pensamentos começaram a tomar conta de sua mente:

“Putz, minha mãe foi me buscar lá na delegacia em plena véspera de Natal. Que mãe maravilhosa que eu tenho. Se fosse filho meu, não só não pagava a fiança como ainda o fazia dividir a cela com o Kid Bengala. Pensando bem, ela não merece o filho que tem. Eu sou um bosta, um irresponsável, um cara que só se preocupa com o próprio umbigo. Para mim, tudo se resume a beber e a dividir banheiras com meus amigos branquelos e nus. Eu sou um desperdício humano, um Neandertal que só faz a humanidade caminhar para trás, um troglodita. Ninguém me leva a sério, os jornalistas adoram debochar de meu vício, meus colegas de trabalho me tratam como um retardado. Até minha mulher, que era uma miss, me deixou. Sobraram apenas alguns colegas bêbados e um monte de dinheiro que, definitivamente, não compra a felicidade. A vida, para mim, não tem sentido algum, nem mesmo no Natal. Que diabos. Eu deveria é tomar vergonha na cara. É isso mesmo. Para acabar com todos esses pensamentos, com essa depressão, eu tenho de tomar uma atitude de homem”.

Quico se levantou rapidamente, foi até a adega da mansão, entornou meia garrafa de vinho, deu algumas risadas e caiu no sofá.

“Pronto, não estou pensando em mais merda alguma. Mais tarde vou pra sauna encher o cu de uísque com a galera do mal“.

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Moral das histórias? Sim, há. Seu Natal é uma merda? Dá tudo errado? Você odeia a data? Saiba que há gente muito mais rica em situação muito pior que a sua nessa época do ano. Então larga de choradeira, vá comer uma coxa de peru e aproveite a única época do ano em que, mesmo de forma hipócrita, as pessoas te tratam bem.

Feliz Natal a todos os cristãos, feliz Hanukkah aos judeus e feliz Especial do Roberto Carlos a quem não acredita em nada.

Verde

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Era uma vez um homem de baixíssima estatura, cabelo alvo e olhos de águia protegidos por um clássico par de óculos redondos. Apesar do relativo handicap físico que a natureza impiedosamente lhe conferiu, trata-se de um homem altivo, poderoso e de inteligência ímpar, admirado por muitos e temido por tantos outros. A idade já bastante avançada não lhe consumiu qualquer traço de disposição ou astúcia. Que homem é este? Naquela pequena plaquinha devidamente pregada na porta de entrada de um gélido escritório na City londrina, pode-se avistar uma parte de seu nome: Mr. Bernard.

Daquela ampla sala com bela vista para o Tâmisa, Mr. Bernard comandava os rumos de um verdadeiro império. Seu ofício, muito bem executado desde há algumas décadas, é o de mandar e desmandar em um campeonato de carros de corrida que aceleram bastante em suntuosos circuitos ao redor do mundo. O ganha-pão de milhares e o divertimento de milhões estavam em suas enrugadas mãos.

Mr. Bernard é um sujeito compenetrado. Obstinado. Obcecado. Para ele, nada há de mais importante nessa vida ordinária do que dinheiro e poder. Quanto mais dinheiro, melhor. Quanto mais poder, melhor. Quanto mais dinheiro, mais poder, e vice-versa. Tendo ambos em abundância, qualquer outra coisa pode ser obtida. Mas do que mais Mr. Bernard precisaria se ele tem dinheiro e poder?

Mr. Bernard realmente não pensa em mais nada. Por causa disso, ele transformou seu campeonato de carros de corrida em uma verdadeira máquina de fazer dinheiro fácil. Os valores pagos pelas televisões ao redor do planeta, as inúmeras placas de publicidade, as inscrições feitas pelas equipes, as quantias despendidas pelos organizadores dos grandes prêmios, os direitos sobre o uso da marca, a receita da cantina, todo o fluxo de verdinhas tem um único destino: a conta corrente de Mr. Bernard. O que sobra para os outros? Muito pouco.

A ganância desmedida de Mr. Bernard se reflete na total pasteurização do seu campeonato de carros de corrida. Nos início dos anos 70, quando Mr. Bernard ainda trabalhava apenas como dono de equipe, a categoria não se diferenciava muito de uma festa campestre com relação ao ambiente e ao luxo. Pilotos destemidos conduziam baratinhas sem cinto de segurança ou qualquer outro artefato que protegesse sua integridade em circuitos sem barreiras de pneus e áreas de escape. Como os custos eram baixos e a liberdade era alta, qualquer um entrava. Qualquer um mesmo. Nem precisava de credencial.

Em poucos anos, Mr. Bernard transformou aquele arraial em um dos maiores espetáculos do planeta. Os carros se tornaram mais velozes, mais seguros e mais rentáveis. Em seus cockpits, os flamboyants diletantes deram lugar a atletas do mais alto nível. Os circuitos se transformaram em verdadeiros colossos arquitetônicos. Empresas e políticos apareceram aos montes trazendo grana e prestígio. A televisão levou o show para todos os cantos do planeta. Mr. Bernard ficou rico. Bilionário.

O problema é que a categoria, que era legal e democrática, se tornou um negócio antipático, frio, burocrático, distante das pessoas. Os antigos fãs se afastaram e não são muitos os jovens que se interessam. Mr. Bernard não se importa. A opinião da vassalagem não vale uma única libra. Não importa se os circuitos mais tradicionais estão desaparecendo, as equipes estão ficando empobrecidas, muitos ótimos pilotos nem sonham em passar pelo portão dos autódromos e a audiência esteja caindo. O que importa é a conta corrente.

– Mr. Bernard, eu não consigo pagar os 50 milhões de dólares anuais para manter meu país no calendário. Por favor, faça um desconto para mim.

– Claro. Dou um desconto de até 50 milhões de dólares se quiser. Basta não ter mais corrida no seu país.

– Mr. Bernard, minha equipe está falindo. Não consigo achar patrocinadores, o dinheiro das cotas televisivas é muito pouco e os custos só estão subindo.

– Vocês vão sair? Ótimo. Sem seu motorhome, teremos mais espaço no paddock.

– Tio, me dá dinheiro pra comprar um pacote de bolacha?

– Peça ao Mr. Max.

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Noite do dia 24 de dezembro. Após um longo dia de trabalho, Mr. Bernard decide retornar para sua rotunda mansão. O pequeno ancião pega seu agasalho preto, um gorro de lã, luvas, deixa o escritório e entra em seu Pagani Zonda, estacionado na calçada da frente. Neva muito. Sem pneus com corrente, é necessário certo cuidado para dirigir pelas longas ruas londrinas.

Silenciosamente, Mr. Bernard chega em casa. O britanicamente eficiente relógio na parede do hall não mente: é quase meia-noite. Sem fome, nosso bom velhinho sobe lentamente as escadas desejando apenas uma boa noite de sono. Ele se aproxima da porta do quarto. Fechada. Tenta abri-la. Ela está trancada. A esposa deve estar uma fera. Por que será? O que eu fiz? Mr. Bernard pensa por alguns segundos e se lembra do ocorrido. Ele estava dando ré com seu Pagani, não olhou para o retrovisor, passou em cima da patinha do pobre poodle de estimação da patroa e sequer pediu desculpas. É, ele terá de passar a noite no sofá.

Sem sua cama, Mr. Bernard decide adiantar o trabalho para o dia seguinte. Ele desce lentamente as escadas, vai à cozinha, pega uma xícara morna de café e ruma ao escritório da mansão, um enorme cômodo com centenas de livros, papeis e uma réplica 1:2 de uma Ferrari. Instalado confortavelmente em sua poltrona, Mr. Bernard ligou seu notebook, companheiro inseparável, e reiniciou seus trabalhos. Entre suas tarefas, um plano de negócios para um futuro GP do Sudão, um estudo que justificaria um aumento de 568% nos valores de inscrição das equipes e um projeto de cobrança para cada foto tirada nas corridas e publicada em mídia impressa e internet.

Mr. Bernard é um homem sério e que não se desconcentra por qualquer coisa. Enquanto dedilha rapidamente pelo teclado, a janela maior do escritório faz um ruído incômodo, como se quisesse abrir violentamente. Seria o vento da nevasca? Não pode ser, pois não está nevando tanto assim, os galhos das árvores lá fora não estão se mexendo tanto. Cupins? Um rato? Nada disso parecia provável.

De repente, a janela se abre com força.

Uma forte luz irrompe o escritório. Mr. Bernard, que não se assusta com quase nada, dá um pulo para trás. Será que minha hora chegou? Poxa vida, sou jovem e bonito demais para morrer. A luz amarelada vem acompanhada de uma espécie de neblina espessa e de cheiro forte, algo semelhante a gelo seco. Eis que uma parte desta neblina começa a formar uma espécie de molde. Um molde humano. Uma coisa horrível. Um fantasma.

– Niki Lauda?!

– CALADO! Você sabe bem quem eu sou.

A forma humana não tem rosto. Sua cabeça tem o formato de um capacete. Amarelo. Com uma listra verde e outra azulada. O fantasma parece estar vestido. Um macacão. A harmonia azul e branca é agredida por manchas aleatórias de tom avermelhado.

– Venha comigo.

– Espere, para onde você está me levando? Eu tenho de trabalhar.

– VENHA COMIGO.

O escritório desapareceu no meio da neblina. Em poucos segundos, a neblina deu lugar a um autódromo. Muitas vozes eram ouvidas. Em italiano. Pelo que Mr. Bernard conseguiu interpretar, faltava pouco para o início de uma corrida.

“Eu era seu piloto favorito. Em seu campeonato, ninguém me superava. Ganhei três títulos. Venci dezenas de corridas. Muitas em circunstâncias inacreditáveis, que aumentavam a dramaticidade e tornavam seu campeonato ainda mais atraente e bonito. Os fãs, e eles eram contados aos milhões, ligavam a televisão e compravam ingressos apenas para me ver. A verdade é que, sem mim, seu esporte perderia grande parte da graça”.

O pole-position daquela corrida era um piloto muito parecido com o tal fantasma. Enquanto ele entrava no carro, o fantasma prosseguia:

“Você lucrou muito comigo, Bernard. Você sabe disso. O que você não sabe era a dor que senti no coração por ter de correr naquele dia”.

“Eu não deveria ter largado. Após o que aconteceu no sábado, a morte daquele rapaz, tudo o que eu mais queria era ir para a casa rever minha namorada e descansar um pouco. Mas você não quis. Você queria realizar aquela merda daquela corrida. Ninguém mais queria. Todos desejavam cancelar as atividades e ir embora. Só você, caralho, queria essa corrida. Apenas para não perder dinheiro. Unicamente por causa da porra da sua carteira. E sabe o que aconteceu?“.

Mr. Bernard, assustado, e o fantasma, indiferente, assistem ao talentoso piloto, muito mais rápido que os demais, espatifando seu belo carro azul e branco num implacável muro de concreto. As cenas a seguir são das mais dramáticas: o corpo do super-herói inerte, a poça de sangue, o desespero tomando conta de todos.

“Você perdeu seu piloto favorito. Você perdeu sua galinha dos ovos de ouro. Tudo porque você não faz concessões. Você nunca faz concessões. Você se acha perfeito. Tão perfeito que vai dormir no sofá em plena véspera de Natal. Eu estou aqui, em outra dimensão, rindo da mediocridade de sua alma, Bernard!”.

O tom exaltado do fantasma arrepia Mr. Bernard, cujos batimentos cardíacos disparam. Enquanto gritava, o capacete do fantasma desaparecia lentamente, pondo à mostra a face destruída de um ídolo, uma mistura de horror e escatologia. Mr. Bernard põe as mãos em seus olhos tentando evitar aquela imagem desagradável. Subitamente, tudo escurece. Tudo. Some o autódromo, o piloto, os paramédicos, o fantasma, tudo some. Acabou? É isso?

Não acabou.

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A escuridão não dura mais do que alguns poucos segundos. Mr. Bernard não faz a menor ideia do que está acontecendo. Seria algum efeito do café? Enquanto tentava articular algum pensamento, surge um pequeno foco de fumaça em um canto. A fumaça cresce rapidamente e se transforma em uma nova cortina de neblina espessa.

Tremendo da ponta do cabelo até a unha do dedão do pé, Mr. Bernard permanece estático. Após invadir toda a escuridão, a neblina começa a ganhar forma. Muito rapidamente. Uma nova forma humanoide.

O que seria este fantasma? Ele também está de capacete e macacão, mas o formato avantajado do corpo parece não condizer com a forma de um piloto de corridas. Em sua mão direita, uma chave de roda. Mr. Bernard, completamente assustado, faz a pergunta óbvia “quem é você?”.

“Eu sou um mecânico espanhol. Venha comigo”.

Em segundos, Mr. Bernard e o fantasma parecem atravessar várias dimensões. De repente, a imagem ganha cor e nitidez. A imagem de uma pequena e simpática cidade espanhola.

Mr. Bernard e o fantasma se aproximam de uma casa. Quadrada, pequena, antipática. O gramado alto, a caixa de correio danificada e os pneus velhos espalhados pelo quintal indicavam que os tempos andavam difíceis para quem quer que habitasse aquela modesta construção. Os dois se aproximam de uma das janelas, que dava para uma sala de jantar.

Na ponta da mesa, um homem muito semelhante ao fantasma. Nas demais cadeiras, uma mulher de boa porém sofrida aparência e duas crianças de olhar cabisbaixo. Na outra ponta, um enfraquecido idoso que tentava manter o sorriso no já desgastado rosto.

– Papai, o que vamos ganhar nesse ano?

– Minha querida filhinha, o papai não tinha muito dinheiro. Comprei essa bonequinha aqui. Ela não é a que você queria, mas saiba que o papai comprou com todo o amor e coração.

A menina ameaça torcer o nariz, mas ciente das dificuldades da família, troca a frustração pelo sorriso conformado.

– Querido, até quando as coisas serão assim? – pergunta a entristecida esposa.

– Não sei. A equipe ainda não me pagou nada.

– Nada, nada?

– Eles não tinham dinheiro algum. Tudo estava ficando cada vez mais caro. Não dá pra culpar o pessoal lá dentro. Os chefes não tinham dinheiro algum para conseguir pagar sequer os fornecedores.

– E o tal do Mr. Bernard ajudou sua equipe de alguma forma?

– Nada disso. Ele disse que é até bom. E que não queria doze, mas só dez equipes na categoria.

– Não acredito.

– Na verdade, não é que a equipe precisava de ajuda dele. Era só uma questão de baixar os custos. Estávamos viajando para vários países, as taxas estavam altíssimas e as possibilidades de retorno eram cada vez menores. Com a crise, fica ainda mais difícil para obter patrocínio. A verdade é que Mr. Bernard quer mais é que as equipes pequenas sumam. A minha sumiu e ele deve estar todo feliz em sua enorme casa.

Enquanto pai e mãe discutem, o garoto interrompe com a pergunta fatal:

– Papai, e o meu presente?

– Filhão… Meu filho… Você é o homenzinho da casa, está crescendo e consegue entender as coisas. Eu comprei apenas uma lembrancinha para sua irmã porque ela ainda é pequena. Não fique chateado com o papai. Eu prometo que quando as coisas melhorarem, você vai ganhar um baita presentão.

– Tudo bem.

Uma única lágrima escolheu pelo rosto do garoto, que a limpou rapidamente com os dedos e prosseguiu comendo seu modesto prato de frango com alface. O pai não aguentava mais aquela situação. Ficar sem emprego em pleno Natal era o pior que poderia acontecer.

Pouco depois, todos foram dormir. Todos menos um. Após perceber que a esposa havia adormecido, o pai se levantou e foi sorrateiramente em direção a um armário. Uma das portas foi aberta cuidadosamente e ele começou a tatear as coisas lá dentro. Ah, encontrei. Um pequeno revólver. Após recarregá-lo, o homem saiu de casa, andou por alguns poucos quilômetros e avistou uma praça vazia. Sentou-se em um banco, pensou por alguns segundos e sacou a arma de seu bolso.

“Quer ver o resto?”, perguntou o fantasma, com um sorriso transbordando cinismo e sadismo. Mr. Bernard ficou sem resposta. Para seu alívio, as imagens desapareceram rapidamente.

“Como é bom ter menos equipes no grid, não é? Afinal de contas, é menos gente empregada também. O melhor de tudo é que sobrará mais dinheiro e mais espaço no paddock para você! Feliz Natal!“.

Após pronunciar essas palavras, a figura do fantasma desaparecia em meio a risadas cínicas e mais fumaça. Naquela altura, Mr. Bernard soluçava como um bebê prestes a cair no choro. Totalmente amedrontado, ele fechou seus olhos esperando que tudo aquilo acabasse. Após alguns segundos, os olhos reabriram. O escritório. Os livros. A poltrona. A réplica da Ferrari. Tudo estava lá. Acabou. ACABOU!

Só que não.

yemen

Enquanto tentava se recompor de toda a loucura, uma forte ventania invadia o aposento de Mr. Bernard. Vento bravo. Enquanto o velho tenta fechar a janela, uma grande sombra se forma em uma das paredes.

Mr. Bernard observa a sombra com apreensão. A sombra estava estática. Ela era grande, assustadora e inexplicável, mas não fazia absolutamente nada. Os segundos se passavam e absolutamente nada acontecia. Aí o medo deu lugar à irritação:

– Você é mais um fantasma?

Nada.

– O que diabos você quer?

Nada.

– Você quer me passar mais alguma mensagem?

Nada.

– Por favor, reaja! Grite, destrua esse escritório, faça qualquer coisa.

Nada.

– Então vá para o inferno. Vou voltar para o trabalho.

De repente, a sombra cresceu de forma definitiva e engoliu tudo. Num piscar de olhos, Mr. Bernard estava em um autódromo. Mas que autódromo era aquele?

Era um autódromo grande, bonito, imponente, perfeito. Mr. Bernard sorriu. “Nem eu acreditava que poderia construir algo tão maravilhoso”, pensou. Mas que lugar era aquele? Caminhando mais um pouco, ele avistou uma bandeira vermelha, branca e preta. E um letreiro “Yemen International Circuit”. Espertamente, ele percebeu que estava no paddock do Grande Prêmio do Iêmen. O ano também estava claro na placa: 2020.

A sombra, que estava ao lado de Mr. Bernard, avançou imediatamente para onde havia um rebuliço de gente. Nosso velhinho foi até lá. O que ele encontrou ali foi seu verdadeiro objeto de desejo, aquilo que ele achava que seria a melhor coisa do mundo para sua categoria.

Li Stein, 20 anos de idade, era o motivo do rebuliço. Mr. Bernard rapidamente entendeu o porquê: ela era perfeita. Li Stein era bonita, feminina, expressiva, se articulava bem e parecia ter ideias fortes. Negra e judia, ela havia nascido numa família pobre na China e cresceu na vida apenas por causa do talento como pilota – um verdadeiro e improvável estrondo comercial. Para melhorar, ela liderava o campeonato e vinha com tudo para ser tricampeã do mundo. Não por acaso, a moça tinha bilhões de torcedores em todo o planeta. Todos a amavam. Uma unanimidade. E o automobilismo, obviamente, lucrava muito com o fenômeno Li Stein.

Stein e os demais pilotos participariam pela primeira vez do GP do Iêmen, país conhecido pelos grandes problemas de ordem religiosa. Poucos eram a favor da corrida, ainda mais em um circuito localizado a poucos quilômetros de uma base da Al Qaeda. O mentor desse absurdo, obviamente, era Mr. Bernard, que apesar dos seus 90 anos de idade, ainda tinha disposição para levar seu esporte para os lugares mais remotos do mundo. Mr. Bernard recebeu algo em torno de 950 milhões de dólares para realizar corridas no Autódromo Internacional do Iêmen durante cinco anos.

Li Stein, mulher e judia, não estava muito segura. Durante todo o tempo, ela andava com três ou quatro seguranças que a protegiam de qualquer coisa. Apesar dos olhares negativos de grande parte dos iemenitas que estavam presentes no autódromo, nada aconteceu no paddock. Mais tranquila, Li foi para a pista, liderou todos os treinos e marcou a pole-position com o carro da China Racing, projetado por Adrian Newey e equipado com motor JAC.

Li entrou no carro, foi para a pista e colocou seu carro no grid. Enquanto esperava pela volta de apresentação sentadinha no carro, um grupo de uns trinta malucos cobertos com burca irrompeu o autódromo, atirando em todos e destruindo tudo pela frente. Eles tinham um alvo certo.

Os terroristas se aproximaram do carro da China Racing e começaram a disparar na pobre Li Stein sem a menor dó. Uma saraivada de tiros, dezenas deles. Em poucos segundos, a linda mocinha que carregava a bandeira da China no bolso do macacão e utilizava um quipá nas entrevistas coletivas, que era seguida por mais de 400 milhões de pessoas no Twitter, que doava parte de seu salário a programas de caridade em países pobres, que lotava autódromos em todo o planeta, estava morta.

O mundo ficou atônito. Nunca a morte de uma celebridade foi tão comentada na internet, na mídia, nas redes sociais. Bilhões ficaram de luto. O automobilismo perdeu sua estrela maior. Logo na corrida seguinte, as arquibancadas ficaram vazias. Sem Li Stein, o interesse pelo esporte despencou rapidamente. Os patrocinadores começaram a ir embora. Em poucos anos, os grandes prêmios deixaram de existir.

Mr. Bernard, naquela altura vertendo algumas poucas lágrimas, observava as imagens do auge e da decadência de seu certame como um curta-metragem. A sombra estava ali, ao seu lado, imóvel. Após toda a dramática trajetória passar aos seus olhos, uma última e definitiva imagem: o túmulo de Mr. Bernard. O desgosto pelo fim das corridas foi forte demais para o velhinho.

– Eu entendi a mensagem – afirmou Mr. Bernard, num tom sério – Tomarei providências imediatas amanhã cedo, em pleno Natal.

Em segundos, a sombra começou a se esvair lentamente. Uma névoa tomou conta de tudo, mas era uma névoa diferente, serena, inodora, uma calma transição.

A névoa desaparece em pouco tempo. Mr. Bernard reconhece a calculadora, a poltrona, a janela aberta, o gato preto fazendo arruaça na árvore do lado de fora. Ele estava de volta ao escritório.

natal

Mr. Bernard é homem de palavra. Em pleno Natal, ele convocou uma coletiva de imprensa para anunciar novidades para seu esporte em 2013:

– Fim imediato dos GPs da Bélgica, do Japão, do Canadá, da Austrália, da Itália e do Brasil. Os seis espaços livres seriam ocupados por GPs extras em Abu Dhabi e no Bahrein.

– Expulsão de todas as equipes que não terminaram a temporada 2012 nas três primeiras posições. As três equipes restantes deverão inscrever quatro carros cada.

– Aumento de 894% nos valores de inscrição de equipes.

– Fim da transmissão das corridas em TV aberta.

 

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Na noite do dia 25 de dezembro, Mr. Bernard trabalhava silenciosamente no escritório de sua mansão. De repente, a janela maior se abre e uma ventania adentra o cômodo. Em seguida, uma grande névoa se forma logo à sua frente. Eram os três fantasmas do dia anterior.

– Vocês por aqui… – resmungou Mr. Bernard, nem um pouco assustado.

– Porra, Mr. Bernard, você não aprendeu nada com ontem?

– Não.

– Nós esperávamos ao menos que o espírito natalino fizesse de você uma pessoa melhor, menos gananciosa. Todos os mãos-de-vaca que recebem fantasmas de Natal se tornam sujeitos generosos e bondosos.

– Pois é, mas vocês se esqueceram de um único e pequeno detalhe.

– Qual?

– EU SOU JUDEU E NÃO ACREDITO EM NATAL. Sumam daqui, por favor.

 

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Aos que tiveram a paciência de chegar até aqui e acreditam em Cristo, desejo um sincero feliz Natal.

Aos que tiveram a paciência de chegar até aqui e não acreditam em Cristo, desejo um sincero feliz Hanukkah, feliz Ramadã ou simplesmente que não façam merda nesses últimos dias do ano.

Verde

Céu branco. Frio. Ameaça de neve, segundo o Weather Channel. Sebastian Vettel veste seu gorro azul, ajeita-o em sua cabeça disforme, coloca suas luvas avermelhadas. Assopra. O ar quente de suas entranhas se condensa em contato com o ambiente. Faz frio, de fato.

Falta pouco para as sete da noite. Vettel entra em seu Infiniti FX50 e segue em direção a um prédio localizado no distrito monegasco de Moneghetti. Quarenta e poucos andares. Vigésimo sexto. Vettel vai à portaria e, batendo as mandíbulas em resposta ao sofrimento glacial, apenas balbucia ao porteiro uma palavra: Bernie.

Bernie Ecclestone estava esperando por ele em um de seus apartamentos. Assim como esperava por várias outras gentes da Fórmula 1. Não, ele não queria discutir um novo Acordo da Concórdia ou anunciar aos íntimos a criação do Grande Prêmio do Inferno. Por incrível que pareça, o pequeno judeu também sabe se divertir. Todo final de dezembro, ele promove um amigo secreto entre as figurinhas do paddock. Tão secreto que ninguém mais sabe. Só eu, porque tenho informantes muito bons nos boxes. Mentira, mas a história vale lá alguma pataca.

Quase todos os convidados do amigo secreto, que incluíam pilotos, chefes de equipe e pessoas de alguma relevância, apareceram. Somente Jean Todt, presidente da FIA, não quis saber. Todt é chatão, mandou dizer que não queria ver Luca di Montezemolo nem vestido com o macacão da Peugeot. Mas quem disse que sua presença era necessária? Havia vinho, cerveja, uísque e amendoim para todo mundo. E se o excesso de testosterona na sala causasse algum efeito colateral nos presentes, Bernie tinha uma agenda cheia de contatos de grid girls que poderiam dar um pulo até o apê.

Todo mundo estava descontraído. Não havia inimizades e rivalidades. Pelo menos, não nas proximidades do Natal. Bernie Ecclestone achava que todo aquele clima horrível deveria se restringir ao paddock apenas para atrair a atenção dos espectadores. Fora das pistas, todo mundo poderia fingir ser gente normal.

Após algumas doses de álcool e muita bandalha, Ecclestone decide iniciar o amigo secreto. Tem de ser ele, que é o dono da bodega. Não vou alongar demais os diálogos. Tento, pelo menos:

BERNIE: Galera, vamos lá. Meu amigo secreto é italiano e é da Cosa Nostra.

COULTHARD: Pleonasmo…

Risos generalizados.

BERNIE: Ele divide o cabelo no meio e se acha o dono do planeta. Vem cá, Luca, seu lindo!

Ecclestone havia tirado Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari. Sorridente, o italiano se aproxima, tasca dois beijos à siciliana no rosto de Bernie e pega seu presente. É um envelope.

MONTEZEMOLO: O que será que…? Ah…

Um vale-presente da Harrods. Cinco libras. Um vale de cinco míseras libras.

BERNIE: Você sabe, eu não tive dinheiro para comprar um presente melhor, desculpe-me. (risos)

Sem graça, Montezemolo prossegue:

MONTEZEMOLO: Meu amigo secreto parece ter nascido com paralisia cerebral. E gosta de um dedão no rabo.

Sebastian Vettel, é óbvio. Sempre sorridente, o bicampeão se aproximou, abraçou honestamente il capo italiano e pegou seu presente, que também era um envelope. Ao abrir, uma surpresa: era um contrato para correr na Ferrari a partir de 2013.

Todo mundo se entreolhou naquela sala. Constrangido, Vettel não sabia muito bem o que fazer:

VETTEL: É uma… boa brincadeira, haha! Erm… Vou pegar meu presente!

Um negócio grande. Formato de quadro.

VETTEL: Cause I’m a Canberra Milk Kid!

Mark Webber, que achou simpática a homenagem do garoto que ganhou toda a moral do mundo dividindo a mesma equipe que ele. Ao abrir o pacote, ele estranha o presente. Um quadro com a pintura de uma flor?

WEBBER: O que é isso, cara?

VETTEL: É uma vitória-régia amazônica. Estou dando uma vitória para você.

Todo mundo riu da piada, meio boba. Mark, no entanto, ficou enfurecido. Pelo menos, seu presente prometia ser tão bom quanto.

WEBBER: OK… Meu amigo secreto é velho, chato (todos apontam para Ron Dennis) e fala um inglês terrível, digno do Hitler.

Hitler, austríaco? Ah, é claro, Helmut Marko, um dos diretores da Red Bull. Webber e Marko não se bicam muito, até porque o australiano quase caiu fora da equipe graças ao ex-piloto. O presente está em uma caixinha.

Marko abre. Um frasco?

WEBBER: Colírio.

MARKO: Para quê?

WEBBER: Para ajudar a tirar a pedra que entrou no seu olho.

Ébrios, todos caem na gargalhada. Marko, caolho e longe de ser o rei do bom humor, franze a testa e pega seu presente.

MARKO: Meu amigo secreto, quando entrou na Fórmula 1, saía do carrinho de bebê direto para o nosso carro. Fora que ele é todo cheio de gostar de música eletrônica, essas coisas barulhentas dos jovens de hoje em dia.

Uma explicação sistemática dessas não empolgou ninguém, mas todos perceberam que se tratava de Jaime Alguersuari. O catalão deu um sorriso e pegou seu pacote. Um CD. Muito moderno. Do Haddaway. Helmut Marko não é muito habilidoso em termos sociais.

ALGUERSUARI: P-puxa, que legal. Super na moda. Certamente vou utilizar nos meus shows.

MARKO: Você certamente terá muito tempo para fazer seus shows no ano que vem.

Silêncio fúnebre. Jaime pega seu presente.

ALGUERSUARI: Meu amigo secreto pensa que é um garotão descolado, mas não passa de um gordo nerd e decadente (uuuuuh, assustaram-se os convivas). Tinha uma época que o cara mudava a cor do cabelo todo dia. Mas vou dizer, é um grande piloto.

Cor do cabelo? Gordo nerd? É o Jacques Villeneuve, um dos convidados que não fazem mais parte do paddock. Um gritou “puxa-saco!”. O outro foi mais incisivo: “Dá pra ele, Jaime!”.

ALGUERSUARI: Sou seu fã, cara. Espero que goste.

Organic Life by DJ Squire.

Cara-de-pau, o sujeito. Deu o próprio CD para Villeneuve. A sorte dele é que Jacques adora música e, vez por outra, escreve umas resenhas em seu site. Certamente, é um presente que o agradará.

VILLENEUVE: Francamente, mano, já ouvi tuas músicas e achei uma bosta. Valeu pelo presente, você é um moleque bom, mas tenta arranjar uma vaga de piloto de testes na HRT porque teu negócio não é ser DJ.

Villeneuve é assim mesmo, muito agradável. Coitado do Alguersuari, levou pedrada dos dois lados. Quanto ao resto, todo mundo estava morrendo de medo do presente do canadense.

VILLENEUVE: Seguinte, meu amigo secreto já foi meu companheiro de equipe. Eu não achava que perderia dele. Perdi e ainda fui demitido por causa disso. Jenson, seu canalha, você é meu amigo secreto.

O pessoal achava que o presente seria uma granada pré-ativada. Que nada, Jenson Button ganhou um relógio de quase dez mil dólares. Villeneuve lhe deu um apertado abraço.

VILLENEUVE: Valeu mesmo. A BAR era uma desgraça.

Todos gostavam do Button, que era gente boa e muito rico. Todo mundo queria ser seu amigo secreto.

BUTTON (e seu sotaque incompreensível): Então, sendo bem direto porque quero encher mais um copo de uísque, meu amigo secreto é o outro italiano mafioso da sala.

Todo mundo aplaudiu, mas um olhava para o outro e perguntava “porra, justo ele?”. Flavio Briatore foi o contemplado da vez. Jenson e Flavio se odeiam há muito tempo.

O presente era um kit. Uma tintura de cabelo e um desses espartilhos que reduzem a cintura.

BUTTON: Caramba, Flavio, você come as mulheres mais bonitas do mundo, mas se parece com uma almôndega. E ainda insiste em usar cabelo branco mesmo tendo esta pele bronzeada de almôndega crua. Queria saber o que a Heidi Klum e a Naomi viram em você.

BRIATORE (cochichando no ouvido): Já que você gosta tanto de almôndega, vou enfiar as minhas duas na tua boca, cazzo.

Murmuradas estas belas palavras, Briatore pegou o presente de seu amigo secreto, verteu uma lágrima e iniciou o discurso mais emotivo da noite:

BRIATORE: Quando meu amigo secreto era novo, eu abri as portas da minha equipe para ele. Dei-lhe casa, comida, carinho e um carro bom. Ele ganhou dois títulos para mim (as atenções se voltam para duas pessoas), mas me largou e foi andar a cavalo. Me deixou sozinho e desamparado.

Inconclusivo. Quem é, pô?

BRIATORE: Aturar Jean Alesi e Gerhard Berger foi um pesadelo.

Ah, tá, é o Michael Schumacher. O alemão sorri cinicamente, como só ele sabe fazer, e pega seu presente. Um álbum de fotos com momentos felizes de Michael na Benetton.

BRIATORE: Você era muito feliz na Benetton. Por que me abandonou?

SCHUMACHER (seco): Continuei muito feliz na Ferrari e na Mercedes e ainda me pagavam mais.

Esta doeu em mim, a alguns milhares de quilômetros de distância. Briatore ficou vermelho ferrarista de raiva e se sentou. Sempre tranquilo, Schumacher iniciou seu discurso.

SCHUMACHER: Eu amo meu amigo secreto. Ele testava o meu carro enquanto eu saía de férias, trabalhava o acerto para eu copiar, roubava pontos dos meus adversários e até dava posições de graça para mim. Putz, valeu mesmo!

Difícil, pois todos os seus companheiros de equipe cabiam neste discurso. Aí o Schumacher deu aquela olhada sarcástica e apontou seu amigo secreto, que não poderia ser outro além de Rubens Barrichello.

Suando frio e sorrindo de modo amedrontado, Rubens desembrulha seu presente. Sabe aquela tartaruguinha do Pânico na TV? Pois é.

SCHUMACHER: Vi aquela brincadeira que teus amigos fizeram no Brasil e quis fazer também.

BARRICHELLO: Amigos…

Risadas generalizadas. Mas Rubens, azedo com o quelônio, muda de semblante na hora quando pega o presente que irá dar para o seu amigo secreto.

BARRICHELLO: OK, meu amigo secreto é um cara gente boa pra caramba, mas tem uma voz de adolescente bobo que vou te falar. E ele nunca ganha o desafio que promove!

Felipe Massa, este era o nome. Sorridente, ele se aproximou do velho amigo brasileiro, que carregava uma caixa.

BARRICHELLO: Chega mais perto, eu é que vou abrir seu presente.

Massa estranhou, mas se aproximou. Rubens mexeu no pacote.

MASSA: Ai!

Ao balançar a caixa, uma mola voou em direção à testa de Felipe, que deu um pulo para trás. Todo mundo riu, até Felipe, que costuma levar as piores brincadeiras numa boa.

Era a vez do outro paulista. Ele começa:

MASSA: No meu país, a gente diria que ele está participando do amigo secreto por cota. Vamos dizer que ele é bronzeado pra caramba.

No mundo ariano da Fórmula 1, ficava claro quem era seu amigo secreto. Lewis Hamilton se levantou, agradeceu e perguntou o que significava a tal da cota. Depois, pegou seu presente.

HAMILTON: Bonita embalagem. Vejamos…

Era um par de óculos. De grau. Lewis faz cara de que não entendeu nada.

MASSA: É para você parar de bater no meu carro. Bom trabalho, Lewis.

Hamilton fustiga o brasileiro, faz cara de criança mimada e segue em frente.

HAMILTON: Meu amigo secreto é um piloto legal e simpático pra caramba. Estou mentindo, é claro.

Todo mundo identificou o amigo secreto na hora, Fernando Alonso. Que se levantou, agradeceu a todos com beijos provocativos e pegou seu presente. Oh, que fofo. Que meigo. Um ursinho de pelúcia com carinha feliz e coraçõezinhos na orelhinha. Mas por quê?

HAMILTON: Cara, você finalmente terá alguém que suporte ficar ao seu lado!

Todos aplaudiram. Alonso, que não se abala nem com terremoto, deu de ombros e pegou seu presente. Faltavam poucas pessoas e todos estavam morrendo de medo de terem sido tirados por ele.

ALONSO: Meu amigo secreto é um cara ainda mais legal e simpático do que eu.

O único que cumpria estes requisitos irônicos naquela sala era Ron Dennis, ex-chefe da McLaren e amigo pessoal de Ecclestone. Sem sorrir, pois é fisiologicamente incapaz para isso, Ron se levanta e britanicamente pega seu presente.

Era uma placa. “Sorria, você está sendo filmado”. Risadas na sala. Dennis manteve-se bem-humorado como sempre, grunhiu e seguiu com o amigo secreto. Faltava pouco para acabar.

DENNIS: Meu amigo secreto não merece nenhuma descrição engraçadinha porque eu já lhe fiz o favor de empregá-lo por quase dez anos. Tome, Mr. Coulthard.

David Coulthard foi o infeliz contemplado. Todo mundo sabia que Ron Dennis não gostava muito dele. Mesmo assim, David é um gentleman e manteve o enorme e estranho sorriso. O presente era um boné da época da West. Com o nome de Mika Häkkinen estampado.

DENNIS: Eu sei que seu sonho era ser como ele na minha equipe. Então, aproveite.

Todo mundo achou uma tremenda sacanagem, porque o Coulthard é gente boa pacas e não merecia isso, mas ninguém falou nada porque era o Ron Dennis. Elegante, David seguiu em frente, abriu novo sorriso e fez uma declaração bombástica:

COULTHARD: Eu não queria assustar vocês, mas eu também tirei o Schumacher! Veja, comprei uma mão biônica com o dedo do meio apontado.

Como assim? Ninguém entendeu nada.

HEIDFELD: Ei, espera aí, ninguém me tirou?

Bernie Ecclestone era o responsável pelos papeizinhos. Aí ele se lembrou e bateu a mão na testa:

BERNIE: Putz, eu me esqueci totalmente do Nick Heidfeld. Sabia que estava faltando uma pessoa e pensei que não tinha escrito o nome do Schumacher. Aí eu acabei fazendo dois papeizinhos com o nome dele. Foi mal, Nick.

Heidfeld ficou de cara feia, até porque ele tinha comprado o presente mais legal para seu amigo secreto, que era o Bernie Ecclestone: uma BMW M1.

BERNIE: Valeu, Nick, mas eu já tenho este carro. De qualquer jeito, aceito. Posso vendê-lo para um amigo meu.

E abriu uma nova garrafa de Johnnie Walker. Após o amigo secreto, um estava olhando feio para o outro. Mas todos beberam e esqueceram suas rivalidades. O Natal não é época para essas coisas. Deixem as brigas para ser resolvidas nas corridas da próxima temporada.

Moral da história: o calendário prevê 364 dias para o ódio. Mas respeitem o dia 25 de Dezembro, pelo amor de Deus. Um Feliz Natal a todos os meus leitores, com muita paz, saúde e amor.

Leandro “Verde”