Julian Leal. Ele foi um dos piores pilotos que eu já vi na GP2, mas não teve dificuldade alguma para arranjar uma vaga nesta temporada

É Pai Verde de Ogum fazendo mais uma previsão. Certeira? Infelizmente, as chances são grandes. A temporada 2012 da GP2 Series, oitava de sua história, está prestes a começar. No verdadeiro microondas de Gaia que é o Sudeste Asiático, vinte e seis jovens e ansiosos pilotos darão as caras para os desafios da primeira rodada dupla da temporada, a ser realizada nos dias 24 e 25 de março. O palco será o circuito malaio de Sepang, que fará parte do calendário convencional da GP2 pela primeira vez.

Não que eu esteja lá babando por esta temporada. Normalmente, fico mais animado para ver a GP2 do que a própria Fórmula 1, que não anda tendo lá grandes atrativos para um início de temporada. Neste ano, porém, pelo que foi visto até aqui, a categoria júnior de Bernie Ecclestone e Bruno Michel terá de se esforçar se não quiser ter sua pior temporada até aqui. Custos nas alturas, pilotos medíocres, calendário excessivamente abrangente, conflitos de horários com a Fórmula 1 e poucas possibilidades de aprendizado para o piloto são os principais problemas que ameaçam a ainda grande credibilidade da GP2.

Até aqui, vinte e dois pilotos estão confirmados. O último a ter seu nome sacramentado foi o francês Nathanael Berthon, que nunca foi nada além de um participante do meio do pelotão na World Series by Renault nos últimos dois anos. Berthon fará companhia ao suíço Fabio Leimer, piloto que ganhou certa notoriedade quando foi revelado que sua carreira custou, até aqui, nada menos que 16 milhões de dólares. Tudo isso por um sujeito que está entrando em sua terceira temporada na GP2 tendo vencido apenas duas corridas na categoria até aqui.

É este tipo de comportamento exagerado e desesperado que está levando a categoria a um discreto porém implacável buraco. E não podemos criticar apenas Fabio Leimer quando temos pilotos como Giedo van der Garde e Dani Clos torrando o dinheiro de seus patrocinadores há séculos. Van Der Garde é genro de Michel Boeknoorn, magnata holandês dono de uma fortuna de 1,3 bilhão de euros. Ele é dono de grandes empresas como a Spyker Cars e a McGregor, além de apitar nos rumos da gigante francesa de alimentos Danone.

Van Der Garde vem disputando categorias de base relevantes desde 2004, quando fez sua estréia na Fórmula 3 Euroseries. De lá para cá, tudo o que ele conseguiu foi um título na World Series by Renault em 2008. Neste ano, ele fará 27 anos e participará de sua quarta temporada na GP2 Series pela Caterham. Para ele, é tudo ou nada: se não for campeão, nunca mais conseguirá nada na Europa e terá de refazer sua carreira em outro planeta.

Por outro lado, as equipes não reclamam. Afinal, Giedo é um dos poucos pilotos que podem pagar os mais de dois milhões de euros exigidos anualmente por uma equipe de ponta da GP2. De quebra, aceitemos ou não, ele ainda é bastante experiente e tem um título em uma categoria importante. Seu carro em 2012 estará coberto de decalques da McGregor e ainda terá um ou outro adesivo da Voicecash, que também pertence ao sogrão.

Giedo van der Garde: o sogro é um dos homens mais ricos da Europa. Não por acaso, o carro está todo coberto com adesivos de suas empresas

Dani Clos também tem um sogro conveniente. Hristo Stoichkov, já ouviu falar? Consagrado atacante da seleção búlgara nos anos 90, parceiro de Romário no Barcelona e um dos escolhidos por Pelé na lista dos 125 melhores jogadores de futebol ainda vivos. Hoje em dia, ele gerencia um time da primeira divisão do campeonato búlgaro. Sua filha, Mihaela Stoickhova, trabalha atualmente em um programa de TV na Bulgária após ter morado na Espanha durante quase toda a vida. Desnecessário dizer que a família Stoickhov nada em dinheiro, portanto. No ano passado, o ex-jogador tentou articular uma vaquinha de 5 milhões de euros para financiar a carreira de Clos na Fórmula 1. Mesmo que não tenha logrado, você vê que o piloto espanhol está muito bem acompanhado nesta sua jornada.

Leimer, Van Der Garde e Clos são três figuras irreais em um mundo que perdeu cerca de 50 trilhões de dólares apenas na crise de 2008 e que definitivamente optou pelo conservadorismo na hora de manejar a riqueza. As quotas de patrocínio estiveram na linha de frente das áreas mais afetadas por se tratarem de uma questão supérflua e não-produtiva. Ninguém quer gastar dinheiro para brincar de mecenas ou para auferir os tais “ganhos institucionais” que não servem para muita coisa na hora em que a fome aperta. Entramos em uma era de prudência, de cintos apertados. Agora me responda: onde há prudência em um esporte no qual se admite o gasto de 16 milhões de dólares apenas para o sujeito ficar se divertindo nas categorias de base?

Ao que parece, a GP2 ainda não digeriu bem esta nova e dura realidade. Em entrevista ao site Autosport, o diretor Bruno Michel afirmou que a categoria “não tinha qualquer intenção de reduzir os custos de participação para atrair pilotos que não podem sustentá-los”. Para demonstrar convicção, Michel simplesmente desdenhou o caso de Jules Bianchi, francês que disputou as duas últimas temporadas da GP2 e que preferiu, neste ano, concentrar suas forças na World Series by Renault. “Bianchi se tornou o terceiro piloto de uma equipe de Fórmula 1 (Force India) e obviamente não tinha dinheiro para fazer, ao mesmo tempo, uma temporada na GP2. Dito isso, se seus empresários acreditavam que havia uma grande necessidade de correr e que seria conveniente fazê-lo em outra categoria, assim é a vida”, disse ele.

Ou seja, a GP2 pode ficar esvaziada e risível, mas não deixará de manter a pompa e o nariz empinado. Michel e Ecclestone crêem que há glamour com Stéphane Richelmi, Julian Leal, Rodolfo Gonzalez, Max Chilton e Simon Trummer. A World Series by Renault, para essa gente, inexiste. Ela pode atrair todos os bons pilotos das categorias de base, mas ainda não é a GP2. Por isso, não se basta. Este é o raciocínio.

É triste saber que o certame que revelou nomes como Lewis Hamilton, Nico Rosberg, Kamui Kobayashi, Nico Hülkenberg e Sergio Pérez seja comandado por pessoas tão mesquinhas e fechadas. O que não se percebe é que o modelo esportivo e comercial da GP2 começa a dar sinais de esgotamento. Ainda são iniciais e pequenos, mas se não forem resolvidos, a categoria não terá vida muito longa.

Vale dizer que as duas categorias que antecederam a GP2, a Fórmula 2 e a Fórmula 3000, faliram por algumas razões que encontram eco nos dias atuais. A primeira, que durou até 1984 e revelou nomes como Ronnie Peterson, Jacky Ickx, Jacques Laffite e Clay Regazzoni, deixou de existir porque os custos estavam absurdos, ninguém mais demonstrava qualquer interesse e a qualidade dos pilotos havia decaído absurdamente. Já a Fórmula 3000, que durou vinte anos e revelou gente como Jean Alesi, Juan Pablo Montoya e Nick Heidfeld, também desapareceu por causa dos custos absurdos, do desinteresse e da falta de qualidade dos pilotos.

Fabio Leimer, o piloto de 16 milhões de dólares. E olha que ele nem chegou à Fórmula 1 ainda

Vale dizer que a GP2 já está enfrentando o problema dos custos e da falta de qualidade dos pilotos. O novo chassi Dallara, implantado na última temporada, elevou as cifras a um patamar inaceitável. Equipes como a ART Grand Prix passaram a cobrar até 2,5 milhões de euros para uma temporada completa. Dois paus e meio para custear uma categoria que quase ninguém assiste – o que essa gente tem na cabeça? E mesmo as equipes pequenas não cobravam menos de 1,5 milhão de euros. Gastar esta fortuna para passar um ano sofrendo na Trident é algo que não faz sentido para mim, desculpe.

Antigamente, conseguia-se dinheiro via indústria tabagista ou atividades ilegais. O patrocínio dos cigarros acabou oficialmente em agosto de 2005 por meio de proibição em toda a União Européia e creio inocentemente que lavar dinheiro via patrocínios esportivos esteja ligeiramente mais difícil hoje do que em outros verões. Atualmente, só há duas grandes maneiras de obter financiamento para correr: entrar em um daqueles grandes e concorridíssimos programas de desenvolvimento de pilotos ou torrar o dinheiro da empresa do papai ou de algum conhecido. Que é a solução tomada por grande parte do grid da GP2.

Max Chilton é filho de um dos diretores da AON, uma das maiores seguradoras do planeta. Jolyon Palmer é filho do ex-piloto Jonathan Palmer, um dos grandes promotores de corridas na Inglaterra. Johnny Cecotto Jr. é filho daquele antigo motociclista que foi companheiro de Ayrton Senna na Toleman. Davide Valsecchi, Josef Kral, Stefano Coletti e Rodolfo Gonzalez também são conhecidos pelos rotundos apoios que os cercam.

Para ser honesto, são poucos os pilotos que estão na GP2 mais pelo talento do que pelo dinheiro. Não, não sou inocente de acreditar que haja algum aí que não leve grana nenhuma – todos levam, e muita. Porém, nomes como James Calado e Esteban Gutierrez, que são apoiados por programas de desenvolvimento de pilotos e que não disporiam de meios de estar na categoria por si só, são cada vez mais raros. O resultado: em 2012, teremos o pior grid da história da categoria, lotado de pilotos de currículo prévio fraquíssimo e disposição para gastar o que for.

São poucos os que realmente têm cara de Fórmula 1. Felipe Nasr, felizmente para os torcedores brasileiros, aparenta ser um deles. Gutierrez, Calado e Marcus Ericsson também. Abaixo deles, Rio Haryanto, Stefano Coletti e Nigel Melker precisarão trabalhar muito para conseguir um lugar na categoria maior sem maiores problemas. O resto é composto por veteranos eternamente esperançosos (Van Der Garde, Valsecchi, Razia, Leimer, Kral, Cecotto Jr., Crestani) e gente genuinamente ruim (Gonzalez, Chilton, Trummer, Leal, Richelmi). É possível apontar um futuro campeão do mundo entre todos os nomes citados neste parágrafo? Sou honesto, mas acho extremamente difícil.

Infelizmente, os problemas da GP2 não se restringem apenas aos custos e à qualidade dos pilotos. Na verdade, eles até são a causa ou a conseqüência de outros problemas.

Dani Clos. Este também tem um sogro importante, o ex-jogador Hristo Stoichkov

A GP2 cobra até 2,5 milhões de euros por uma temporada, mas o que ela oferece ao otário que aceita pagar tudo isso? Algo entre nove e doze rodadas duplas compostas por um treino livre de meia hora, um treino oficial de meia hora, uma corrida de 170km e outra de 120km e uns dez dias de testes coletivos na pré-temporada. Só. Não há mais sessões de treinos nos fins de semana. Testes privados são apenas um sonho de uma noite de verão. O caso é que o piloto da GP2 não só paga muito como também anda muito pouco e acaba não se preparando direito.

Mas e se ele quiser fazer uns testes na Fórmula 1 para ganhar quilometragem, conseguirá? Não. Em primeiro lugar, porque a própria Fórmula 1 limitou drasticamente seus testes. Na prática, um jovem mancebo só poderá ter o gostinho de andar em um carro desses naqueles três dias destinados à garotada em Abu Dhabi. Portanto, aquelas funções de “piloto de testes” e “piloto-reserva” se tornaram inúteis e desapareceram.

Mas há também os treinos livres de sexta-feira, alguém poderia argumentar. Sim, é verdade, mas não para os pilotos da GP2, que não podem pilotar carros da Fórmula 1 sabe-se lá o porquê. Logo, se o cara quiser participar destes treinos livres, ele terá de estar totalmente disponível naquele fim de semana. Isso só é possível para o pessoal da World Series by Renault, cujos fins de semana não coincidem com os da Fórmula 1. Logo, dá para conciliar as duas vidas, coisa que a quadrada GP2 não permite.

A World Series by Renault, por sinal, está se dando bem nestes vacilos que a rival mais rica anda cometendo. Com um carro atualizado, o advento do DRS, orçamentos que não ultrapassam a casa do milhão de dólares, um sistema de provas que inclui dois treinos livres de 75 minutos e dois treinos oficiais, um calendário restrito à Europa e uma maior possibilidade de testes durante o ano, a categoria ganha em atratividade e desvia boa parte das atenções antes reservadas apenas à GP2. As recentes migrações de Jules Bianchi e Sam Bird provam que a World Series tem totais condições para satisfazer quem deseja subir à Fórmula 1.

Uma pena. Afinal de contas, a GP2 é, ainda, uma categoria excelente. Embora ainda longe do ideal, sua estrutura de marketing, divulgação e transmissão televisiva é muito melhor do que a das antigas Fórmula 3000 e Fórmula 2. Além disso, o carro é um foguete: motor de 600cv, câmbio semi-automático, pneus Pirelli iguais aos da Fórmula 1 e desenho aerodinâmico que também segue as tendências da categoria maior. É desnecessário dizer, também, que dividir o mesmo paddock com a Fórmula 1 é algo que não tem preço. Por fim, as corridas são muito boas mesmo sem DRS. Esta, aliás, é talvez a grande vantagem sobre a World Series by Renault, que precisará do artefato da asa móvel para dar um pouco de ânimo às suas entediantes provas.

Mas nada disso ajuda quando Julian Leal e Rodolfo Gonzalez tomam as vagas de jovens talentos com qualidade e sem infinitos apoios financeiros. Dependendo apenas do interminável dinheiro de alguns playboys incompetentes, a GP2 desvia do nobre objetivo de mandar carne fresca e de boa qualidade à Fórmula 1. Se continuar assim, disse lá em cima, vai morrer.

Fabio Leimer, o grande "havoc" desta temporada

Leia a primeira parte aqui. E a segunda aqui.

Quem realmente foi ladeira abaixo em direção a um bueiro foi a Rapax, que em comum com a Addax só tem a feiura no nome. A equipe, que surgiu das cinzas da Piquet GP, não passou nem perto dos muitos trunfos da temporada 2010, quando foi campeã com Pastor Maldonado. Nesse ano, ela apostou em uma dupla temerária: Fabio Leimer como primeiro piloto e Omar Julián Leal como o segundão. Tudo o que poderia dar errado deu.

Na verdade, Leimer fez uma temporada parecidíssima com a do ano passado, com a diferença que a Rapax é inegavelmente melhor estruturada que a Ocean. Assim como no ano passado, seu ponto alto foi a vitória de ponta a ponta na segunda corrida em Barcelona. Fora isso, ele conseguiu terminar em segundo na segunda corrida de Monza e teve alguns desempenhos aceitáveis nos treinos oficiais. Mas o suíço chamou a atenção mesmo por ter sofrido dois dos acidentes mais perigosos da temporada: na largada da primeira corrida em Istambul, ele capotou após ter catapultado por sobre a traseira de alguns rivais. Meses depois, na segunda corrida de Spa-Francorchamps, Leimer rodou na Eau Rouge e bateu com extrema violência na Radillon. Saiu ileso, mas deu trabalho para seu anjo da guarda.

Pelo menos, Leimer ainda tem alguma salvação. O mesmo, no entanto, não pode ser dito sobre seu companheiro Julián Leal, seguramente o pior piloto da temporada. Não dava para esperar muito de alguém que tem como melhor resultado na carreira um nono lugar em uma temporada da AutoGP, mas ele também não precisava abusar da ruindade. Seu momento mais baixo ocorreu logo na segunda corrida de Istambul, quando ele empurrou Davide Rigon para o muro da reta dos boxes, o que resultou em fraturas múltiplas na perna do italiano. No resto do ano, Leal só foi visto rodando, saindo da pista ou atrapalhando os outros. Velocidade ele também não tem. Sobra o quê, então? Dinheiro de Cali e Medellín.

Na décima posição, para minha enorme infelicidade, a Arden. Infelicidade por duas razões. Quando comecei a acompanhar a antiga Fórmula 3000 Internacional a sério, a equipe que mandava na categoria era exatamente ela, que ganhou os dois títulos da história da categoria com Bjorn Wirdheim e Vitantonio Liuzzi. Hoje em dia, a Arden não passa de uma discretíssima participante do meio do pelotão para trás. Além disso, seu proprietário é Christian Horner, exatamente o mandachuva da Red Bull. Acredito eu que o fato da sua equipe de Fórmula 1 ter ficado mais relevante nos últimos anos acabou relegando a Arden ao segundo plano.

O primeiro piloto da equipe foi o checo Josef Kral. É difícil julgá-lo, já que eu nunca esperei nada dele, seu carro estava longe de ser bom e, no fim das contas, ele até marcou razoáveis 15 pontos. Podemos analisar seu ano por duas óticas. A primeira diz que Kral foi a única esparsa razão de sorrisos por parte da Arden – todos os pontos foram marcados pelo cara, que mostrou bom desempenho em algumas corridas. Pesa contra ele, no entanto, o fato de ter desperdiçado suas duas poles dominicais. Em Valência, Josef cometeu um erro na primeira curva e perdeu algumas posições. Em Spa-Francorchamps, o checo não foi páreo para Luca Filippi e Jules Bianchi. Seu melhor resultado foi um segundo lugar em Mônaco. Para ser honesto, pelo bem ou pelo mal, o líder da Arden foi ele e não há muito mais o que criticar.

Jolyon Palmer. O pai se formou em medicina, mas era um bom piloto. Quanto ao filho, bem... este, sim, poderia ter sido médico

E o Jolyon Palmer? Já começamos errado com um nome tão esquisito, Jolyon. Primeiranista na GP2, ele não esperava muita coisa ao ser contratado pela Arden. No início do ano, o próprio pai, “dotô” Jonathan, disse que o filho precisaria de algumas temporadas na categoria para conseguir bons resultados. Que seja, então. Palmer não fez nada de bom e nem de ruim: não andou bem na maioria dos treinos, não errou muito, não comprometeu e não marcou nenhum ponto. Não foi o pior dos estreantes graças ao baixíssimo nível dos novatos nesta temporada.

A Ocean Racing Technology, equipe do famoso Tiago Vagaroso Monteiro, teve mais um ano lá na rabiola da tabela. Uma pena, já que a equipe começou bem pra caramba em 2009 e prometia ser a ameaça que sua antecessora, a BCN Competición, nunca conseguiu ser. Sua dupla de pilotos durante boa parte do ano não era absurdamente ruim, mas nenhum dos dois caras era um virtuose. Falo primeiro de Kevin Mirocha. Filho de poloneses, o alemão foi um dos últimos pilotos confirmados para esta temporada e gerou dúvidas em muita gente pelo fato de seu currículo ser tão bonito quanto seu sobrenome. Mesmo assim, ele não comprometeu. Chegou a andar em segundo na primeira corrida de Istambul e, se não marcou pontos, também não fez nada do nível de Julián Leal. Destaco a fechada monstruosa que deu em Jules Bianchi na segunda corrida de Valência. Como era o Bianchi, dá para perdoar.

Mirocha foi substituído nas últimas rodadas por Brendon Hartley, o neozelandês que já foi um dos pilotos preferidos da Red Bull um dia. Aparentemente, Hartley tem muito menos dificuldades na GP2 do que na World Series, na qual ele nunca conseguiu se destacar. Pela Ocean, o andrógino conseguiu marcar quatro bons pontos em Spa-Francorchamps, sendo estes os únicos da equipe lusa. O outro carro azul claro e preto foi pilotado por Johnny Cecotto Jr., o filho do motociclista. Cecotto não marcou ponto algum e até cometeu alguns erros bizarros, mas chamou a atenção ao fazer a melhor largada que eu já vi na GP2, pulando de 11º para terceiro na primeira curva da segunda prova de Spa-Francorchamps. Momento legal de um cara que parece fazer uma grande corrida por ano – não me esqueço de sua atuação em Mônaco no ano passado.

Por fim, para minha surpresa, a Carlin. Última colocada entre as equipes, a tradicional equipe inglesa só conseguiu quatro pontos, todos eles marcados pelo mauricinho Max Chilton. O inglês, filho de um dos sócios da equipe, apareceu bem apenas em Mônaco e em Silverstone. Na segunda prova da rodada monegasca, ele largou em segundo, mas foi ultrapassado por muita gente e terminou apenas em sexto. Enfim, Chilton não fez muito mais do que seu talento permite.

O outro carro foi o maior bacanal do grid deste ano. Trevor Carlin decidiu contratar algum piloto experiente para ajudar a acertar o carro para Max Chilton e foi atrás de gente com talento e sem dinheiro. Seria uma atitude legal se tivesse havido algum senso de continuidade. Mikhail Aleshin (Istambul, Barcelona, Hungaroring e Spa-Francorchamps), Álvaro Parente (Valência, Silverstone, Nürburgring e Monza) e Oliver Turvey (Mônaco) passaram pelo segundo carro azulado. O inglês chegou a terminar a primeira corrida monegasca em sétimo, mas foi punido e perdeu os pontos. Parente, um dos bons, largou lá na frente em Silverstone e em Monza, mas perdeu suas chances com o mau estado de seus pneus na Inglaterra e com um erro estúpido da equipe na Itália. E não pegou bem para Mikhail Aleshin ter tido tantas dificuldades para andar ao menos perto de Chilton. O saldo final deste carro nº 25 é zero.

Mikhail Aleshin: o campeão da World Series teve sérias dificuldades para acompanhar o ritmo do fraco Max Chilton. Não pegou bem

Comentados os pilotos e as equipes, faço algumas observações ulteriores. A GP2 acertou na mosca ao escolher a tradicional Carlin e a endinheirada Air Asia como as duas equipes novatas deste ano. Aos poucos, a categoria consegue se livrar das equipes mais inúteis ou menos confiáveis, como eram os casos da DPR, da Durango e da BCN. Tudo bem, ainda restam coisas como Trident, Coloni e Ocean, mas nenhuma delas é um caso perdido. Ainda.

O novo carro. Bruno Michel, promotor da categoria, afirmou recentemente que a categoria teve a oportunidade de adotar o KERS e a asa-móvel no carro deste ano, que será utilizado até o fim de 2013. Mas a categoria recusou, uma vez que seu objetivo é o de testar jovens pilotos e qualquer tipo de auxílio nas ultrapassagens não agregará muito na formação deles – opinião certeira. Além disso, o novo Dallara-Mecachrome ficaria ainda mais caro do que ele já é: as equipes de ponta chegaram a cobrar dois milhões de euros por piloto para cobrir as despesas da mudança. Pelo menos, o resultado foi bom. O carro está muito mais próximo da Fórmula 1 em termos aerodinâmicos, mas há a vantagem dele permitir ultrapassagens e traçados diferentes, talvez até mais que seu antecessor, utilizado até o ano passado.

As corridas. Consegui acompanhar várias etapas de sábado desta temporada e deixei as de domingo para lá, pois ninguém merece acordar às cinco da matina. No geral, foram boas. Houve, é claro, muita corrida chata, como em Barcelona e em Spa-Francorchamps (por incrível que pareça), mas Istambul, Mônaco, Silverstone, Nürburgring e Hungaroring (por incrível que pareça, de novo) puderam prover alguma diversão para os espectadores. As ultrapassagens foram muitas, os erros aconteceram aos montes entre os pilotos mais experientes e os acidentes, felizmente, não foram tão violentos ou perigosos. Fabio Leimer à parte, o pessoal soube levar o carro para casa.

A concorrência com a World Series. Quem acha que a World Series by Renault é uma categoria melhor unicamente porque os caras da Red Bull correm por lá precisa rever urgentemente seus conceitos sobre a vida e a morte. Não nego que a qualidade dos seus estreantes foi bem alta, mas do que adianta para o certame se todos eles pretendem ir para a GP2 em um futuro não muito distante? Vale notar que três dos últimos quatro campeões da tão superestimada categoria, Álvaro Parente, Giedo van der Garde e Mikhail Aleshin, foram direto para o campeonato de Bernie Ecclestone e companhia. E o carro do ano que vem da World Series, embora não apresente grandes modificações aerodinâmicas, terá a asa móvel. Talvez para aumentar um pouco a ação em suas chatíssimas corridas.

Esta foi a GP2 em 2011. Em novembro, haverá ainda uma corrida especial em Abu Dhabi, com direito a premiação em dinheiro e tudo. Assistam. Vale a pena, como sempre. Você pode me xingar, mas em termos de monopostos na Europa, não há nada melhor e mais divertido que a GP2.

Felipe Nasr, o mais novo campeão da Fórmula 3 britânica. O que será de sua vida no ano que vem?

Um dos grandes pecados deste sítio foi não ter dedicado uma única linha a Felipe Nasr, o mais novo campeão da badalada Fórmula 3 britânica, neste ano. No ano passado, contei um pouco de sua carreira aqui. De lá para cá, Felipe assinou com a campeoníssima Carlin para disputar uma segunda temporada na Fórmula 3, ganhou sete corridas e garantiu o título com duas rodadas triplas de antecipação. Sambou em cima do promissor Kevin Magnussen e de gente com alguma experiência, como William Buller, Carlos Huertas, Jazeman Jaafar e Rupert Svendsen-Cook. Um título incontestável, é claro.

Mas o que isso significa?

Neste exato momento, apenas que ele deve comemorar muito seu segundo título importante no automobilismo internacional (o primeiro foi o da Fórmula BMW Européia em 2009) com seus amigos, algumas mulheres e bastante bebida. Ainda restam mais seis etapas, três em Donington Park e três em Silverstone. Ganhar mais umas duas ou três para fechar o ano com chave de ouro seria muito legal para ele.

A pergunta caberá melhor após o dia 9 de outubro, data das duas últimas corridas da rodada de Silverstone. Assim que a temporada 2011 da Fórmula 3 britânica estiver encerrada, Felipe deverá ligar para todos os departamentos de marketing e publicidade das grandes empresas brasileiras, trocar afagos e carícias com os chefões das categorias maiores, arranjar uma namorada de família muito rica (que nem fizeram Dani Clos e Giedo van der Garde), aparecer no maior número possível de programas da Globo e exercitar ao máximo seus contatos e sua imagem. Em suma, será hora de pensar no futuro.

Nasr é o que temos de mais interessante no automobilismo de base europeu hoje em dia. Não me refiro apenas a resultados, mas também à sua boa fama. Luiz Razia, único representante brasileiro na GP2, não faz uma boa temporada e está sendo altamente bombardeado por isso. Os demais jovens ianomâmis da Fórmula 3 são bons, mas não têm dinheiro. Ou cacife. Nos demais campeonatos, inexistimos. Na GP3, por exemplo, o cara que substituiu Pedro Nunes na ART Grand Prix ganhou logo em seu primeiro fim de semana, em Spa-Francorchamps. O filho do cabeleireiro não tinha feito ponto algum até ali. Portanto, se o país quer ter para quem torcer nas corridas nos próximos anos, as fichas deverão ser majoritariamente colocadas no filho de Samir Nasr.

O carro de 2012 da World Series by Renault, a categoria-escola preferida de todo mundo neste momento. Será que é um bom negócio para o Nasr?

Só que há vários caminhos a serem tomados e é impossível saber qual deles dará em algo. Ao vencer a Fórmula 3 britânica, Felipe Nasr abre portas em várias categorias razoavelmente fortes. O Felipe Giacomelli, primo do Bruno e único paulista que mora em Brasília por vontade própria, escreveu em seu excelente World of Motorsport um artigo sobre as possibilidades do xará em 2012. Graças a ele, não preciso me aprofundar sobre todas as opções. Tenho apenas pequenos comentários sobre algumas dessas possibilidades.

A primeira opção é a World Series by Renault, categoria que está um pouco abaixo da GP2 na escala européia. No ano que vem, ela estreará um carro novo, mais potente e com o mesmo dispositivo da asa móvel que está sendo utilizado na Fórmula 1. Muita gente acha que a World Series, cujo nome oficial é Fórmula Renault 3.5, terá tudo para superar de vez a GP2, que estaria em decadência. Conclusão precipitada, esta. A GP2 não atraiu tantos novatos bons como a prima mais pobre exatamente pelo fato de ter estreado um carro novo nesta temporada, o que levou a um exorbitante aumento nos custos e afugentou muita gente boa. No ano que vem, quem passará por isso será a própria World Series.

Além disso, penso que a World Series pode ser uma encrenca bem grande para um novato bem gabaritado. Veja o caso de César Ramos, o gaúcho que ganhou a Fórmula 3 italiana no ano passado. Com ótima reputação, ele fez alguns ótimos testes na pré-temporada, assinou com a Fortec e iniciou o campeonato sendo considerado um dos favoritos. Para ser bem honesto, eu não estava tão otimista assim. Um bom motivo para isso é o fato de seu companheiro de equipe ser Alexander Rossi, um dos pilotos mais promissores do automobilismo de base mundial.

Enquanto a turma do “ôba!”, como dizia Ivan Lessa, regurgitava as enormes chances de título de César Ramos, o fidagal representante da turma do “êpa!” aqui acreditava que seria um ano bem ingrato para ele. Eu tinha certeza de que Rossi seria o piloto mais bem-sucedido da Fortec e que Ramos teria problemas com isso. Não deu outra: enquanto o americano contabiliza uma vitória e está na sexta posição do campeonato, César tem 75 pontos a menos e está apenas em décimo. Para piorar as coisas, Ramos quase ficou de fora das últimas etapas por problemas financeiros. Sabe-se lá como, conseguiu dinheiro para competir em Silverstone. Mas seu futuro é incerto.

A World Series by Renault só vale a pena em um único caso específico: quando o piloto é apoiado por uma grande empresa. Para gente como Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne (Red Bull), Kevin Korjus (GENII) e Alexander Rossi (Lotus), a categoria é excelente. Quem não está em nenhum esquema poderoso, como é o caso de César Ramos, não desfruta de segurança alguma e só conta com fatores tão volúveis como seu desempenho e seus patrocinadores. E é óbvio que um piloto nessa situação acaba não tendo condições de disputar nada com um Ricciardo ou um Vergne.

GP2, aquela que todo mundo diz que "está em decadência". Na minha modesta opinião, o melhor caminho para Nasr

É melhor ir para a GP2. Por incrível que pareça, mesmo sendo bem mais cara, a GP2 é mais democrática do que a World Series. Mesmo lá nas equipes de ponta, são poucos os pilotos que estão ligados a alguma equipe ou empresa esportiva. Entre os dez primeiros da tabela, apenas Romain Grosjean (GENII), Jules Bianchi (Ferrari) e Christian Vietoris (Mercedes) possuem algum importante apoio oficial. O resto se vira com patrocinadores pessoais e com resultados. Até mesmo os pilotos da Team Air Asia, equipe júnior da Lotus, não fazem parte do programa de desenvolvimento de pilotos da equipe. Davide Valsecchi e Luiz Razia trabalham como pilotos de testes da Lotus e podem até sonhar em disputar uma ou outra corrida, mas não têm a moral que Alexander Rossi possui.

Outra vantagem da GP2 é relacionada ao tempo de desenvolvimento do piloto. É bem mais razoável para um piloto jovem ficar três ou quatro anos na GP2 do que na World Series. O venezuelano Pastor Maldonado precisou de quatro temporadas para se sagrar campeão da categoria-escola de Bernie Ecclestone. Com o título, arranjou uma vaga na Williams. Outros pilotos que passaram um tempão por lá antes de subir para a Fórmula 1 foram Vitaly Petrov e Lucas di Grassi. O próprio Romain Grosjean participa da GP2 desde 2008. Enquanto isso, os melhores exemplos de pilotos que praticamente moraram na World Series são Daniil Move, Mikhail Aleshin e Pasquale di Sabatino. Algum deles conseguiu alguma coisa na vida até aqui? Por isso, se eu fosse o Felipe Nasr, planejaria ficar umas três temporadas na GP2 antes de ir para a Fórmula 1. Faltaria, para isso, o dinheiro. Eike Baptista, cadê você?

Mas felizmente há outras alternativas no planeta além da GP2 e da World Series by Renault. Nasr já está conversando com representantes da Ferrari e da McLaren sobre uma possível integração a um programa de desenvolvimento de pilotos. Vale notar que o empresário de Felipe é Steve Robertson, que também gerenciava a carreira de Kimi Räikkönen, ex-McLaren e ex-Ferrari, e de Jenson Button, atual segundo piloto da McLaren. Portanto, o inglês tem bom trânsito nas duas equipes. Qual é a melhor?

Sem pestanejar, a McLaren. Por algumas razões bem simples. O programa de desenvolvimento de pilotos da Ferrari já está saturado. Além disso, está concentrado em dois nomes: Sergio Pérez e Jules Bianchi. Seria um milagre se Nasr conseguisse ter o status destes dois lá em Maranello. Além disso, a Ferrari não é uma equipe conhecida por dar oportunidades a jovens famélicos. Todos os últimos onze titulares contratados pela equipe (Alonso, Fisichella, Badoer, Räikkönen, Massa, Barrichello, Salo, Irvine, Schumacher, Berger e Capelli) eram pilotos com experiência mínima de três temporadas completas. Na verdade, somente Massa tinha algum vínculo prévio com os ferraristas. Um Bianchi da vida só teria chance em uma Sauber ou Toro Rosso da vida. E só conseguiria subir para a Ferrari se absolutamente tudo desse certo.

Mas nada como estar associado a uma boa equipe de Fórmula 1, não?

Na McLaren, Nasr não teria de dividir as atenções com muita gente. Quem testa por lá são um trintão, Gary Paffett, e um quarentão, Pedro de la Rosa. No desatualizado site do programa de jovens pilotos da equipe, há três perfis, sendo que nenhum deles está em uma posição tão boa como Nasr. O mais conhecido é Oliver Turvey, que chegou à GP2 no ano passado. Neste ano, Oliver não está fazendo nada. Você pode argumentar que um bom programa de pilotos jamais deixaria alguém talentoso como Turvey parado. Há de se verificar, por outro lado, se o contrato do inglês não era lá aquelas coisas. Se Nasr conseguir um bom acordo com a equipe, pode repetir a trajetória de sucesso de um outro britânico – Lewis Hamilton, que saiu da GP2 para o estrelato na equipe de Woking.

Mesmo assim, não é fácil. Este é um problema deste automobilismo contemporâneo, cheio de alternativas. Há uns vinte anos, o cabra saía do kart e fazia o trajeto Fórmula Ford ou Fórmula Opel – Fórmula 3 – Fórmula 3000 – Fórmula 1 sem grandes segredos. Hoje em dia, Nasr tem tantos caminhos a trilhar que a possibilidade de fracasso se torna muito maior que a de sucesso. E há ainda a questão da falta de patrocínio. Se ele fosse um Pedro (Nunes ou Paulo Diniz), poderia passar quanto tempo quisesse tentando conseguir um trofeuzinho que fosse. Como é Felipe, não terá muita chance de perdão se fracassar.

Por fim, comento sobre o retrospecto dos campeões da Fórmula 3 britânica. Embora um título por lá seja sempre bem-vindo e um piloto ruim nunca consiga ser campeão, não dá pra pra achar que Jim Clark, Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Mika Häkkinen sejam a regra. Alguns campeões irrepreensíveis, como Jan Magnussen e Takuma Sato, não deram em nada na Fórmula 1. Outros, como Mike Conway e Jonny Kane, sequer chegaram lá. Houve até quem tivesse problemas para prosseguir na carreira logo após o título, como Marc Hynes e Robbie Kerr. Portanto, ser campeão na Fórmula 3 não necessariamente significa ter um futuro brilhante.

Como você pode ver, os desafios e as possibilidades estão todas aí. Resta a Felipe Nasr correr atrás de patrocínio e queimar neurônios avaliando todas as oportunidades. Ele terá uns bons meses para fazer isso. Se eu fosse ele, tentaria um acordo com a McLaren e ainda assinaria com alguma equipe média na GP2. Mas não apito em nada, apenas torço.

Enquanto isso, hora de comemorar em algum pub.

O sempre feliz Daniel Ricciardo

Eis que, de repente, alguém lá na Austrália comenta que Narain Karthikeyan dará lugar ao teen idol local Daniel Ricciardo na Hispania a partir da corrida de Silverstone. Segundo um jornal australiano, Ricciardo, 22, estreará na Fórmula 1 pela minúscula equipe espanhola como uma forma de ganhar experiência de corrida na Fórmula 1.

O plano é simples de entender: a Red Bull, empresa que o apoia, quer colocar Daniel Ricciardo para correr no ano que vem. No entanto, ela não pode coloca-lo totalmente virgem. Como os testes de sexta-feira que ele vem fazendo com a Toro Rosso não fornecem a tal experiência necessária e como nem Sebastien Buemi e nem Jaime Alguersuari deverão largar o osso até o fim do ano, os taurinos decidiram emprestar Ricciardo para uma equipezinha qualquer que tivesse um lugar disponível. A Hispania não está insatisfeita com Vitantonio Liuzzi e Narain Karthikeyan, mas precisa de dinheiro e certamente deverá receber uma boa grana para colocar o piloto australiano para correr no lugar do indiano. Karthikeyan, no entanto, não abandonará a equipe e deverá disputar o Grande Prêmio da Índia lá no final do ano.

Ricciardo, 22, é um dos maiores talentos surgidos nos últimos anos. O currículo é curto, mas impressionante. Em 2008, ele foi campeão inglês de Fórmula Renault WEC com oito vitórias e dez poles. Em 2009, campeão britânico de Fórmula 3 com seis vitórias e seis poles. Em 2010, vice-campeão da World Series by Renault com quatro vitórias e oito poles. Neste ano, ele está dividindo seu posto de piloto de testes da Toro Rosso com uma segunda temporada na World Series by Renault. Tendo feito apenas sete corridas até aqui, ele venceu duas e marcou duas poles. Um fenômeno.

E é exatamente por ser um fenômeno, ou ao menos aparentar ser um, que eu pondero por alguns instantes sobre esse anúncio de hoje. Pode ser impressão minha, mas a carreira de Daniel Ricciardo, ao menos neste ano, está tomando uma forma estranha. Eu diria que tudo o que ele fez até aqui em 2011 poderia – ou poderá – colocar sua imagem e sua promissora carreira em risco. Concentro-me em três atos.

No final do ano passado, Daniel Ricciardo perdeu o título da World Series para o russo Mikhail Aleshin por apenas dois pontos. Aleshin e Ricciardo largaram para a última corrida, a segunda etapa da rodada dupla de Barcelona, empatados nos 128 pontos. Quem terminasse na frente do outro venceria o campeonato. Se ambos abandonassem, Ricciardo levaria o título por ter uma vitória a mais que o concorrente.

Ricciardo na World Series neste ano: vai servir pra muita coisa?

Ricciardo largava em segundo e Aleshin saía três posições atrás. Embora os dois tenham se aproximado, o australiano manteve-se sempre à frente do adversário até três voltas para o fim, quando Mikhail se aproveitou de uma bobeada de Daniel e o ultrapassou, assumindo a terceira posição. Por mais que Ricciardo tenha tentado, ele não conseguiu recuperar a posição e perdeu o título. Mesmo assim, o vice-campeonato estava de bom tamanho.

Após aquilo, eu realmente pensei que a GP2 era o caminho natural para alguém como ele. Havia um empecilho: a Red Bull não patrocinava ninguém por lá desde 2008. As razões oficiais não são conhecidas, mas imagino que os taurinos tenham concluído que não valia a pena gastar até 1,5 milhão de euros para patrocinar um sujeito na categoria imediatamente anterior à Fórmula 1. Entre 2005 e 2008, ela patrocinou a equipe Arden, de propriedade de um certo Christian Horner, e também chegou a apoiar pilotos como Scott Speed e Neel Jani. Apesar da boa qualidade de pilotos e equipes apoiadas, a Red Bull não ganhou nenhum título na GP2. O vice-campeonato de Heikki Kovalainen, primeiro piloto da Arden em 2005, foi o melhor resultado da fábrica de bebidas. O retrospecto não era muito encorajador, portanto. Mas havia um fator interessante que poderia trazer a Red Bull de volta.

Uma das equipes novatas na GP2 em 2011 seria a Carlin Motorsport. Para os que não se atentam muito, a Carlin era a equipe oficial da Red Bull na Fórmula 3 britânica até o ano passado. E foi exatamente pela equipe de Trevor Carlin que Ricciardo foi campeão da categoria em 2009. Logo, uma parceria envonvendo a Carlin, a Red Bull e Daniel Ricciardo poderia ser valiosa na GP2. Outra hipótese poderia ser a própria Arden. Christian Horner, como vocês sabem, é o chefão da Red Bull Racing na Fórmula 1 e poderia tentar ressuscitar a parceria entre Red Bull e Arden para auxiliar a carreira de Ricciardo. Enfim, eram possibilidades que, por menos plausíveis que soassem, pareciam ser os únicos caminhos para alguém que não tinha mais para onde ir.

Surpreendentemente, no início do ano, Daniel Ricciardo anunciou sua permanência na World Series by Renault em 2011. A única mudança seria relacionada à sua equipe: Daniel acabou trocando a Tech 1 pela ISR. Embora não tenha sido uma decisão exatamente surpreendente, ninguém conseguiu engoli-la como uma solução ortodoxa. O que Ricciardo, que perdeu o título de 2010 por apenas dois pontos, ganharia ao seguir em 2011 na categoria?

Muitos argumentam que a World Series, na verdade, não passa de um meio para Daniel seguir competindo neste ano. Afinal, o que realmente importa é o seu novo cargo, o de piloto de testes e terceiro piloto da Toro Rosso. Ele disputaria pelo menos um treino livre de sexta de todas as 19 etapas da Fórmula 1 neste ano. Com isso, quem é que está ligando para World Series ou o diabo?

Ricciardo pilotando um Toro Rosso em Melbourne: será que a equipe é uma boa para ele?

Embora eu não considere a permanência na World Series algo muito frutífero, é a sua opção mais compreensível até aqui. Por um lado, ele só tem a perder correndo por lá e arriscando sujar a boa reputação obtida no ano passado. Por outro, para alguém como ele, ficar em primeiro ou em último neste ano não mudará nada. Enfim, se eu fosse a Red Bull, o colocaria na GP2, que é uma categoria próxima da Fórmula 1 e o manteria em atividade. Mas ela não quis, eu não posso fazer nada e vamos para a próxima parte da análise.

Ricciardo é o terceiro piloto da Toro Rosso. Os dois titulares são os jovens Sébastien Buemi e Jaime Alguersuari. Passadas oito corridas, ambos estão com oito pontos e uma corda no pescoço cada. Como o povão sabe, recursos humanos não é o forte da Toro Rosso, que pressiona seus moleques como se eles fossem técnicos de usinas nucleares e cobra resultados dignos de equipe grande. Com exceção de Sebastian Vettel, todo mundo que passou lá se deu mal: Vitantonio Liuzzi, Scott Speed e Sébastien Bourdais. Infelizmente, ao que tudo indica, Buemi e Alguersuari deverão entrar nesta lista.

Desde o início do ano, Franz Tost, Helmut Marko e companhia não escondem que querem muito colocar Ricciardo em um dos carros em 2012 e que a batalha pela outra vaga seria feroz entre os dois pilotos atuais. Com isso, temos um clima tenso e um piloto querendo comer o rabo do outro. É Jaime Alguersuari dizendo que é melhor porque tem um nariz menor que o do colega, é Sebastien Buemi dizendo que é melhor porque não faz pose de DJ, é um se matando para ficar na frente do outro em qualquer treino e é Daniel Ricciardo dando risada de tudo isso. Deveria?

Não sei. A Toro Rosso complicou a carreira de três e deverá fazer isso com mais dois. Por que o mesmo não poderia acontecer com Ricciardo? Alguns argumentam que Vettel deu certo. Oras, fica cada vez mais claro que o alemão foi uma exceção, tanto que até título mundial ele conseguiu. Como nem todo mundo é Vettel, a possibilidade de brilhar na Toro Rosso e aterrissar na Red Bull em seguida não parece ser alta. O problema maior é que nenhum dos outros era ruim: Liuzzi, Speed, Bourdais, Buemi e Alguersuari são todos pilotos minimamente competentes. Que não mereciam ser tratados como pilotos de quinta pelos subrubrotaurinos.

Logo, se Ricciardo bobear, não conseguir superar o companheiro de equipe, bater demais ou fizer algo abaixo do que Vettel fez em 2008, lá vem a chefia encher o saco e vomitar coisas como “Daniel não está entregando os resultados esperados” ou “estamos conversando com outros pilotos”. Ignorantes do que realmente se passa lá dentro, jornalistas e torcedores simplesmente imputarão a culpa de tudo sobre o piloto. Olha só, lá vai mais uma enganação. Ah, esses caras que voam nas categorias de base nunca me iludiram. Só o Vettel prestava. Fora Ricciardo!

O carro de Ricciardo a partir de Silverstone: a Hispania lhe ajudará em muita coisa?

Aí, como se não bastasse, ele é anunciado como piloto da Hispania a partir de Silverstone. Alguns me darão aquele mesmo argumento da World Series: por pior que seja, é bom porque dá experiência de corrida para o cara. Que experiência? A Hispania é uma boa equipe para alguém desesperado ou desiludido como Liuzzi ou Karthikeyan, mas pode ser uma fria para alguém tão novo e promissor. Por mais que eu goste da esquadra espanhola, reconheço que o carro é lento e inguiável, a equipe é desorganizada como uma família italiana e o piloto só aprende a dar passagem para carros mais velozes. Se for para andar em um troço lerdo, não era melhor ter ido para a GP2 logo de uma vez?

Além do mais, nós sabemos o que acontece com todo mundo que só corre em carros lentos. Após algumas poucas más corridas, jornalistas e torcedores insensatos clamarão em uníssono que Daniel Ricciardo é um péssimo piloto, que toma tempo do Liuzzi, que anda mal até mesmo para o carro da Hispania, que a Red Bull está perdendo tempo com ele e coisas afins. O povão é impiedoso com quem anda de 18º para trás. São todos igualmente ruins – os carros e os pilotos.

Não sei, eu posso estar sendo deveras conservador, mas acho bastante duvidoso o que está sendo feito com Daniel Ricciardo neste ano. Para mim, correr na World Series por um segundo ano é inútil, esperar por uma vaga na Toro Rosso é perigoso e estrear como titular na Hispania pode enterrar sua imagem de maneira instantânea. Se fosse para sugerir alguma trajetória, eu simplesmente o teria feito correr na GP2 no melhor estilo Lewis Hamilton em 2006. Depois, o faria esperar por uma vaga na Red Bull. Se for para sofrer pressão, é melhor que isso aconteça na matriz do que na filial.

Ah, mas Kubica não precisou de GP2, Alonso estreou na Minardi, Räikkönen pulou da Fórmula Renault diretamente para a Fórmula 1 e um monte de gente fez GP2 e não deu em nada. Tudo isso é verdade porque existem casos e casos. Aqui, me refiro a opções seguras. Correr na World Series, assediar a Toro Rosso e estrear pela Hispania pode até dar certo, mas também têm todas os predicados necessários para dar errado.

É óbvio que Ricciardo pode se dar bem com tudo isso, fazer algumas boas corridas na Hispania, estrear na Toro Rosso, conseguir bons resultados, pular para a Red Bull, ganhar títulos e me deixar com cara de tacho. Do mesmo jeito que um jogador de futebol pode sair de um time de Roraima para ir para um do Uzbequistão, jogar bem o suficiente para ser chamado por um time europeu grande, chamar a atenção da mídia e ir parar na seleção brasileira. No fundo, é tudo questão de sorte e circunstância. Mas tomar decisões sensatas ajuda.

Alguns dias atrás, a organização das 500 Milhas de Indianápolis divulgou a lista oficial e definitiva de inscritos para a edição deste ano. Para surpresa geral de todos, se tudo correr como o esperado, serão nada menos que 42 pilotos disputando 33 vagas no grid. É o maior número desde a edição de 2000, quando o mesmo número de pilotos participou dos treinos. A boa fase da Indy, que caminha rumo ao progresso, permitiu a expansão das equipes já consolidadas e a participação garantida daquelas que sempre aparecem só para esta prova, como é o caso da Bryan Herta Racing.

Fiquei feliz pra caramba, é claro. Como vocês já sabem, sou o defensor número um dos grids lotados e variados. Quanto mais carros, melhor. Sempre. Não por acaso, a Indy 500 é a corrida mais esperada por mim durante todo o ano. É a única prova de monopostos de alto nível que reúne mais de 30 carros nos dias atuais. E vê-la com mais de 40 inscritos me enche de expectativas. Há seis ou sete anos, a recessão pegou a Indy de tal forma que a Indy 500 tinha sérias dificuldades até mesmo para completar o grid mínimo de 33 carros. Foi a época em que comecei a acompanhar o evento com mais atenção. E sentia enorme tristeza ao ver aquela coisa meio esvaziada.

42 carros parece bastante, mas já foi um número absolutamente viável em várias categorias de ponta ao redor do mundo. Hoje em dia, só as duas principais categorias da NASCAR (Sprint Cup e Nationwide Series) chegam a mais de 40 carros por corrida. Os argumentos para que essa fartura não se repita hoje em dia são muitos: limitações no tamanho dos boxes, escolha das melhores equipes, logística ou mesmo puro e simples elitismo. Vamos lembrar de épocas em que a frescura no cu coletivo não era tão grande. Cinco listas de inscritos de me fazer babar de inveja de tempos mais bicromáticos.

5- 30 CARROS LARGANDO NA WORLD SERIES ENTRE 2005 E 2007


Reconheço: esse quinto lugar foi pura encheção de linguiça. Qualquer Fórmula 3 ou Fórmula Ford que se preze já conseguiu ter grids com mais de 40 carros. Mas nenhuma delas tem a magnitude da World Series by Renault, a segunda categoria preferida da montadora francesa.

A World Series by Renault nasceu da união de duas categorias inúteis: a Nissan World Series e a Renault V6. Como nenhuma das duas conseguia reunir mais do que 20 pilotos em um grid, como ninguém dava bola para nenhuma delas e como Nissan e Renault pertencem ao mesmo balaio, foi decidido fazer um único campeonato fortalecido. Sendo assim, as equipes das duas categorias competiriam juntas. E o grid teria um tamanho legal. Bacana, né?

Nos três primeiros anos da categoria, a World Series by Renault conseguiu emplacar 30 carros em quase todas as corridas. Com exceção de circuitos apertados como Mônaco, as pistas conseguiam comportar perfeitamente bem todos os carros. E as disputas eram boas. Os pilotos da categoria costumam ser aqueles que não tiveram dinheiro o suficiente pra arranjar uma vaga na poderosa GP2 ou pobres marginalizados pela sua própria incompetência. Apesar do campeonato estar longe da perfeição esportiva e tecnológica, os grid lotados eram uma atração. E muita gente boa saiu de lá. Cito Robert Kubica e Will Power apenas para dar uma noção.

30 carros em uma corrida não impressionam muito, de fato. Mas alguém tinha de estar na lista.

4- 39 CARROS NA FÓRMULA 1 EM 1989


Na metade dos anos 80, os motores turbo haviam transformado a Fórmula 1 em uma panelinha de equipes milionárias. De desenvolvimento e produção caríssimos, estes motores só eram devidamente aproveitados nas equipes grandes. As pequenas não tinham muitas soluções: ou se escoravam em propulsores baratos e de baixíssima qualidade (quem não se esquece dos artesanais Motori Moderni?) ou pediam arrego e caíam fora da Fórmula 1. Foram tempos em que os grids se mantiveram em patamares relativamente baixos para a época: não mais do que 26 ou 27 carros apareciam a cada corrida.

Concluindo que a escalada de custos mataria a Fórmula 1 a médio prazo, a FISA determinou, em 1986, o banimento dos motores turbo a partir de 1989. Os anos de 1987 e 1988 representariam temporadas de transição nas quais os carros turbinados sofreriam restrições (diminuição de pressão do turbo, redução do volume dos tanques de gasolina) e os modelos aspirados seriam estimulados. Em 1987, houve dois torneios concomitantes aos campeonatos normais de pilotos e construtores: a Copa Jim Clark e o Troféu Colin Chapman, destinados a equipe e piloto campeões entre os aspirados. Ganharam Jonathan Palmer e sua equipe a Tyrrell.

O fim dos turbos significaria que todo mundo usaria os aspirados, como pensaria o Capitão Óbvio. E isso, na teoria, significaria que Honda e Renault poderiam acabar construindo motores tão potentes quanto os Cosworth e os Judd, baratos, resistentes e pouco beberrões. O senso geral dizia que, tendo motores tão bons quanto os da McLaren ou os da Ferrari, qualquer equipe garageira poderia obter sucesso. 1989 seria o ano da redenção dos pobres. Sendo assim, todo mundo ficou interessado em ter uma equipe de Fórmula 1. Sim, é isso mesmo: todo mundo.

Não havia restrições de número de inscritos ou idiotices afins. Corria quem quisesse e quem pudesse. E em 1989, nada menos que 20 donos de equipes podiam. Com exceção de algumas poucas corridas (Mônaco, na qual não correu Gerhard Berger, ou Espanha, que não contou com Nigel Mansell), todas as etapas daquele ano contaram com 39 pilotos e 20 equipes. Conte comigo: McLaren, Ferrari, Williams, Benetton, Lotus, Arrows, March, Tyrrell, Rial, Minardi, Brabham, Ligier, Dallara, Larrousse, Coloni, AGS, Onyx, Eurobrun, Osella e Zakspeed eram todas as escuderias participantes. Pra quem acha 13 equipes o maior absurdo do planeta, o descalabro total. Pessoas de mau gosto, é claro.

3- 42 CARROS NA FÓRMULA 3000 EM 1999

No fim dos anos 90, a moda era a Fórmula 3000 Internacional. Em 1996, a FIA decidiu que todas as equipes deveriam utilizar exatamente o mesmo equipamento, um chassi Lola e um motor Zytek. Apesar da evidente falta de qualidade do conjunto, os custos diminuíram bastante e muita gente ficou interessada em ter uma equipe na categoria imediatamente anterior à Fórmula 1. Com uns dois milhões de dólares, dava para manter dois carros com alguma dignidade em uma temporada completa.

Além da padronização, outras medidas foram tomadas para atrair a atenção da mídia, dos torcedores e dos demais convivas do automobilismo. Em 1998, a Fórmula 3000 passou a acompanhar a Fórmula 1 na maioria das corridas europeias. Com exceção das etapas de Oschersleben, Pau e Enna-Pergusa, as corridas da F3000 eram realizadas imediatamente após os treinos oficiais das etapas da irmã maior. A aproximação entre as duas turbinou a publicidade da então esquecida Fórmula 3000.

Naquele ano, a McLaren havia estreado sua equipe de Fórmula 3000, a West Competition. Usufruindo o farto dinheiro e o poderio tecnológico de uma das maiores equipes da Fórmula 1, a West Competition brilhou e quase ganhou o título com Nick Heidfeld, que perdeu para o colombiano Juan Pablo Montoya em um golpe de azar na última corrida. O bom desempenho da West atraiu a atenção de outras equipes de Fórmula 1, como a Benetton, a Prost, a Williams e a Arrows. Com tanta gente graúda de olho, Bernie Ecclestone tentou mudar o nome da Fórmula 3000 para Fórmula 1 Junior. A aceitação não foi muito grande e não demorou muito para voltarem a usar o velho nome.

Mas o crescimento, de fato, aconteceu. Nada menos que 21 equipes se inscreveram para a primeira etapa da temporada de 1999, que começou em Imola. Quer os nomes? West Competition, Nordic, Draco, Gauloises Jr., Astromega, Edenbridge, Monaco, Red Bull Jr, DAMS, Portman, Kid Jensen Racing, Supernova, Petrobras Jr., ORECA, Fortec, Durango, Coloni, Witmeur KTR, GP Racing, WRT e Arden. Eram tantos carros que a FIA teve de dividir os treinos oficiais em duas sessões: uma para os carros com números pares e a outra com os carros com números ímpares. Uma bagunça tremenda. Mas quem não gosta de um pouco de bagunça?

2- 49 CARROS NA FÓRMULA 2 EM 1973


Se a Fórmula 3000 era o máximo, o que dizer da antiga Fórmula 2 (não a atual, aquele remendo de competição criado pelo Max Mosley)? Pistas lendárias, carros velozes e diferentes entre si, pilotos da Fórmula 1 digladiando contra jovens revelações do automobilismo mundial e grids muito cheios. Mas muito cheios, mesmo.

Não é exagero. As listas de inscritos variavam de uma corrida para outra. Quem quisesse se inscrever para apenas determinada prova conseguia numa boa. Quem quisesse correr em todas as corridas menos Hockenheim também conseguia. Bastava ter um chassi March ou GRD, um motor Ford ou BMW, um pouco de gasolina, uns dois ou três amigos que trabalhassem como mecânicos e pronto: você acabava de formar mais uma equipe. Era tão simples. Como implicam tanto com a Hispania hoje em dia?

Nos anos 70, cada etapa da Fórmula 2 recebia entre 35 e 40 inscrições. Menos que isso, só em corridas de rua apertadíssimas, como a de Pau. Pesquisei algumas das temporadas e encontrei o III Jochen Rindt Memorial Trophy, terceira etapa do campeonato de 1973, realizada no circuito de Thruxton. Para quem não sabe, Thruxton tem apenas 3.791 metros de extensão, sendo mais curta até mesmo do que Hungaroring. E não é que havia 49 carros inscritos? Eram 10 marcas de chassis diferentes, motores Ford ou BMW e pilotos muito ruins.

Sim, porque, segundo o que dizem muitos gênios, todo grid extenso tende a ter um nível baixo de pilotos. O de Thruxton só tinha porcaria: Emerson Fittipaldi, Carlos Reutemann, James Hunt, Jody Scheckter, Ronnie Peterson, Bob Wollek, Henri Pescarolo, Peter Gethin, Jean-Pierre Jabouille, Jean-Pierre Jarier, Mike Hailwood, Jean-Pierre Beltoise, John Watson, Patrick Depailler e outros menos picaretas.

1- 81 INSCRIÇÕES NA INDY 500 DE 1982


Puxa, que legal, a Indy 500 tem pelo menos 33 inscritos a cada edição. Mas não é muita coisa? O quê? Já houve muito mais gente disposta a participar? Conte mais.

Pois é, eu estou dando pulos de felicidade com os 42 inscritos. É o resultado de um mau costume impetrado por anos sucessivos de relativas poucas inscrições. Em tempos mais remotos, a lista ultrapassava facilmente os 50 carros. Era comum ver cerca de 1/3 dos inscritos sequer dando as caras no Indianapolis Motor Speedway nos domingos após não conseguir a qualificação. Mas mesmo o número de 50 carros inscritos já foi baixo perto do que tivemos nos anos 80. Em 1982, nada menos que 81 inscrições foram feitas. Você não leu errado: 81 inscrições.

Mas o que aconteceu para chegar a esse ponto? No fim dos anos 70, quem promovia o maior campeonato de monopostos nos Estados Unidos era a USAC, United States Auto Club. Só que alguns membros da USAC estavam insatisfeitíssimos com os rumos comerciais tomados pela entidade, considerada incompetente. Esse grupo de revoltosos, composto por alguns dos donos de equipes mais importantes do país, decidiram criar uma entidade própria, a CART (Championship Auto Racing Teams). E em 1979, a CART decidiu promover um campeonato próprio de monopostos. Naquele ano, CART e USAC promoveram dois campeonatos distintos. Como as 500 Milhas de Indianápolis eram sancionadas pela USAC, as equipes da CART foram impedidas de participar da edição daquele ano. O negócio foi parar na justiça e a CART ganhou.

A partir de 1980, o campeonato da USAC sumiu e apenas o da CART continuou. Ainda assim, a USAC detinha os direitos sobre a Indy 500. Logo, as equipes que participavam eram as da USAC e as da CART somadas. Em 1982, a união das equipes das duas antigas rivais e mais um número considerável de inscrições independentes levaram a um impressionante número de 80 pilotos inscritos. Com a morte de Gordon Smiley nos treinos, George Snider se inscreveu para seu lugar. Pronto: 81 pilotos conduzindo nada menos que 16 chassis e três motores diferentes. E dos 81, 48 deles não largaram. Entre eles, os ex-Fórmula 1 Desiré Wilson e Teddy Pilette. Cruel, hein?

Nürburgring, figurinha fácil em quase todos os calendários

Se eu fosse um jovem piloto que competisse em uma categoria de base, que sonhasse com a Fórmula 1 e que tivesse o máximo de dinheiro possível, faria de tudo para conhecer o máximo de pistas possível. Não, não iria querer ser um Luca Filippi, militante incansável de categorias menores. Faria, sim, de tudo para correr o máximo possível. Correria em carros-esporte, em protótipos, em GTs, em monopostos e, se sobrasse um tempo, em caminhões. Correria nos EUA, na América do Sul, na Ásia e na Europa. Correria em circuitos de rua, em circuitos permanentes e em ovais. A palavra de ordem, comigo, seria versatilidade.

No passado, era comum ver um número considerável de pilotos competindo em várias categorias ao mesmo tempo. O saudoso José Carlos Pace, por exemplo, arriscava o pescoço na Fórmula 1, no Mundial de Marcas e em corridas de turismo. Se havia um fim de semana disponível, lá estava o Moco competindo com seu célebre capacete preto com uma flecha amarela no topo. Mario Andretti e Graham Hill também eram assim, e me arrisco a dizer que são dois dos pilotos mais versáteis que o automobilismo já viu. Os três, além de terem contato com diferentes carros e adversários, conheciam um bom número de circuitos.

Mas os tempos mudaram. E cada macaco permaneceu naquele galho que lhe convinha mais. O aumento nos ganhos, a flexibilidade cada vez menor dos contratos e a intensificação da dedicação do piloto fizeram com que ele tivesse de se concentrar em uma única categoria. Casos como o de Sebastien Bourdais, que chegou a fazer Le Mans e Fórmula 1 em um mesmo ano, são cada vez mais incomuns, especialmente na Europa. Volto à primeira frase do texto. Se pudesse, eu disputaria o máximo de corridas para conhecer o maior número possível de pistas.

Só que, nos dias atuais, isso vem sendo cada vez mais difícil. Os pilotos estão menos versáteis e passam por cada vez menos categorias. Paradoxalmente, as categorias, que aumentam de número a cada ano que passa, diminuem cada vez mais a variedade de sua lista de autódromos. Os calendários das diversas categorias estão parecidíssimos.

Spa-Francorchamps: inegavelmente foda, mas precisa aparecer em tanto calendário?

É uma constatação que eu até já tinha feito antes, mas que só apareceu com força após escrever sobre a situação das diversas categorias de base em 2011. Acha que é só impressão? Vamos lá.

Comecemos com nossa querida Fórmula 1. Com 20 etapas no campeonato, dá pra encontrar de tudo. Temos provas na Oceania (Melbourne), na América do Sul (Interlagos) e na América do Norte (Montreal), mas são a Europa e a Ásia que dominam o calendário. O primeiro continente tem Barcelona, Mônaco, Valência, Silverstone, Nürburgring, Hungaroring, Spa-Francorchamps e Monza. Já a turma asiática contabiliza Sakhir, Sepang, Shanghai, Istambul, Marina Bay, Suzuka, Yeongam, Jaypee e Yas Marina, uma corrida a mais que os europeus, algo inimaginável há dez anos.

Falemos da GP2 e da GP3, agora. Nesse caso, devemos considerar que Bernie Ecclestone deliberadamente faz com que os dois campeonatos sigam a caravana da Fórmula 1 e, portanto, as nove pistas utilizadas por eles são as oito pistas europeias da categoria principal mais Istambul. O piloto que corre na GP2, portanto, encontrará as mesmas pistas na Fórmula 1. Em tempos mais remotos, a antiga Fórmula 3000 tinha formação mais pluralista, com etapas em pistas que a Fórmula 1 escarraria em cima: Enna-Pergusa, Pau, Vallelunga, Nogaro e Mugello são bons exemplos. Muita gente achava ruim, já que os pilotos chegavam à Fórmula 1 tendo de aprender quase todas as pistas. Mas será que correr em lugares como Pergusa ou Pau não dão uma formação complementar? Afinal, são desafios diferentes que demandam técnicas diferentes e experiência nunca é demais.

Mas e as categorias que não seguem diretamente a Fórmula 1? A Superleague também corre em Monza e Nürburgring, mas realiza etapas nos traçados chineses de Ordos e Pequim e passa por velhos rincões europeus, como Assen, Oschersleben e Zolder, além de pistas novinhas em folha como Algarve e Navarra. Para os padrões atuais, este é um calendário eclético, quase alternativo.

Hockenheim: traçado genérico para calendários genéricos

A AutoGP compete nas manjadas Monza, Zolder e Oschersleben. As novidades são as pistas de rua de Marrakech e Bucareste, além de Brno e Valência. Monza, Nürburgring, Barcelona, Silverstone e Spa-Francorchamps reaparecem no calendário da Fórmula 2, que corre também em Magny-Cours, Brands Hatch e Red Bull Ring. A World Series by Renault reutiliza Spa-Francorchamps, Monza, Mônaco, Nürburgring, Hungaroring, Silverstone e Barcelona, só trazendo de “novidades” as pistas de Aragón e Paul Ricard.

A Fórmula 3 Euroseries reaproveita Paul Ricard, Red Bull Ring, Nürburgring, Silverstone e Valência, trazendo também Hockenheim (duas rodadas duplas), Zandvoort e Norisring. O Europeu de Fórmula Renault traz Aragón, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Hungaroring, Silverstone, Paul Ricard e Barcelona. Não há nenhuma pista exclusiva em seu calendário. O variado campeonato NEC de Fórmula Renault corre em Hockenheim, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Assen, Oschersleben, Zandvoort e Monza, trazendo de novo as pistas de Dijon e Most.

Vamos à matemática. Até agora, 43 pistas para dez campeonatos, sendo que só a Fórmula 1 congrega 20 dessas pistas. Com relação às outras nove categorias, o tamanho médio de seus calendários é de 8,4 rodadas. E a média de “pistas exclusivas”, aquelas que aparecem apenas em um único calendário é de 1,1 por calendário. Logo, para cada calendário de 8,4 pistas, 7,3 delas são recorrentes, aparecendo em ao menos outro calendário. Nürburgring aparece em oito calendários. Monza, em sete. Silverstone e Spa-Francorchamps, em seis. Barcelona, em cinco. A matemática é clara: os calendários das categorias europeias são enfadonhamente repetitivos.

Esse fenômeno pode ser tolerado em uma categoria de caráter continental, mas o que dizer dos campeonatos ditos “nacionais”? A Fórmula 3 britânica, que ganhou o status de internacional há alguns anos, reutiliza Monza, Paul-Ricard, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Brands Hatch, Silverstone e Donington. Se quer alguma novidade, é bom você se satisfazer apenas com Outlon Park, Snetterton e Rockingham.

Monza: a Itália também emplaca sua pista em vários calendários

A Fórmula 3 alemã reutiliza Oschersleben, Zolder, Nürburgring, Assen (duas vezes), Red Bull Ring e Hockenheim, e só Sachsenring e Lausitzring são exclusivas. O novo campeonato internacional de Fórmula 3 da FIA tem as conhecidas pistas de Hockenheim, Spa-Francorchamps, Zandvoort e Yeongam, trazendo apenas Pau e a exclusivíssima Macau de diferente. A Fórmula 3 Open, antiga Fórmula 3 espanhola, corre em Valência, Magny-Cours, Spa-Francorchamps, Brands Harch, Algarve, Monza e Barcelona, além da solitariamente exclusiva Jerez. E a transgressora Fórmula 3 italiana é a mais inovadora: só reaproveita Monza e Spa-Francorchamps, competindo em Franciacorta, Misano, Imola, Adria, Vallelunga e Mugello.

Fora da Europa, as coisas não são muito diferentes. Na Ásia, com exceção do tradicional automobilismo japonês, o incipiente e profissionalizado automobilismo internacional vem buscando correr apenas nos locais mais bem-estruturados. E tome Sepang, Shanghai, Sentul, Dubai e Abu Dhabi. Nos EUA, locais como Laguna Seca, Sebring e Elkhart Lake são constantes em categorias de monopostos. E as coisas não mudam muito quando mudam os tipos de carro. A DTM não utiliza nenhuma pista diferente das que eu falei acima. O WTCC, campeonato mundial, compete na pista de rua de Porto e em Guangdong.

Muitos podem olhar pra todo esse parlatório e alegar que isso não é um fenômeno novo e que é impossível ter calendários muito diferentes entre si. Em termos, é verdade. Não dá pra ter calendários mirabolantes para vários campeonatos, tanto por não haver tantos circuitos para tal como por estes circuitos mais utilizados serem simplesmente melhores.  Mas a padronização sempre é chata. Os pilotos chegam todos à Fórmula 1 tendo competido e vencido nos mesmos circuitos.

Em tempos remotos, embora também houvesse pistas comuns nas diversas categorias, dava pra identificar campeonatos pelos seus calendários. A Fórmula 3 inglesa corria apenas em pistas inglesas (a prova de Spa era uma exceção, uma boa licença poética) como Snetterton, Thruxton e Outlon Park. A Fórmula 3 italiana se aventurava em Enna-Pergusa, Binetto, Magione, Misano e Mugello. A Fórmula 3 da França competia em lugares como Albi, Croix-en-Ternois, Dijon e Lédenon. Na Alemanha, corria-se em Sachsenring, Wunstorf, Diepholz e Avus. Cada escola automobilística era bastante distinta da outra. E mesmo as categorias internacionais, como a Fórmula 3000 e a Fórmula Opel, eram mais criativas. Esta última, por exemplo, corria em Luxemburgo, na Irlanda e até na Croácia.

Com o passar do tempo, algumas coisas começaram a mudar o panorama. A especulação imobiliária e os apelos dos ecochatos são dois dos bons motivos que decretaram o fim de alguns dos autódromos existentes até os anos 90. Além disso, a busca desenfreada pelo corte de custos fez com que o número de rodadas diminuísse muito. Surge, aí, o sistema de rodadas duplas. O piloto continua fazendo as mesmas 16 corridas, mas em apenas oito fins de semana. Com isso, não dá pra ter uma variedade menor de etapas. E a vida segue com aquele calendário default com Barcelona, Monza, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Hockenheim, Magny-Cours, Valência e Silverstone. Nada contra essas pistas, muito pelo contrário. Mas um pouco de mudança não mata ninguém. Padronização enche o saco e qualquer coisa em excesso enche o saco, até mesmo o logo da Mercedes em Nürburgring ou as árvores de Spa-Francorchamps.

O "talentosíssimo" Fairuz Fauzy pilotando um Lotus em Abu Dhabi

Então, quer dizer que a Renault, que também é Lotus, anunciou o Fairuz Fauzy como seu terceiro piloto? Esta notícia é um verdadeiro cuspe na cara daqueles pilotos talentosos que não possuem amontoados de dinheiro em suas contas-correntes, padrinhos ilustres ou nacionalidades da moda. Nós até aceitamos que um cara desses assine com a Hispania, com a Virgin ou com o raio que o parta, pois é piloto ruim em equipe ruim e ficam elas por elas. Mas assinar com a Renault, que terminou o ano na quinta posição entre os construtores, é deprimente demais. Mas minha revolta pessoal contra Fauzy, o malaio que tem cara de bolacha, não é o tema do texto de hoje. Falo de algo relacionado ao outro anúncio referente ao seu nome.

Além do emprego de samambaia mais vistosa da Renault e de eventual pilotinho de sexta-feira, Fairuz Fauzy foi anunciado também como piloto da Supernova para as temporadas europeia e asiática da GP2 Series. Confesso que dei risada quando li sobre isso. O malaio se torna, assim, o piloto de carreira mais longínqua da ainda curta história da GP2. Ao fazer sua reestreia na primeira corrida de Istambul, se nenhum outro anúncio bombástico for feito, Fauzy será o único piloto do grid atual a ter competido na primeira rodada da história da categoria, a de Imola em 2005. Ele fez as temporadas completas de 2005 e 2006 pela DAMS e pela mesma Supernova, respectivamente. Seu retrospecto foi genial, tipicamente arrasa-quarteirões: 44 corridas, zero pontos, um 13º como melhor posição no grid e o pior aproveitamento já registrado entre todos os pilotos. Como um gênio desses ainda não atraiu as atenções de ninguém?

O mais engraçado é que, após o fim de 2006, Fauzy foi enxotado da Supernova sem deixar qualquer saudade. Durante todo o ano, o chefe David Sears fez comentários negativíssimos a respeito de sua dupla de pilotos, que incluía também o argentino José-Maria Lopez. O argentino, no entanto, ainda fez três pódios e salvou a honra da equipe. A presença de Fairuz, por outro lado, só se justificava pelo abundante patrocínio da Petronas, a petrolífera estatal de seu país. Cinco anos depois, Sears será obrigado a engolir as críticas e provavelmente virá com algum discurso pronto do tipo “ele é um piloto muito talentoso que está evoluindo a cada ano que passa e nós esperamos contar com sua experiência pra brigar pelas vitórias”. Complicado é falar sobre evolução para um piloto que completará 30 anos no ano que vem.

O "talentosíssimo" Fairuz Fauzy na primeira corrida da história da GP2. Em 2011, ele ainda estará lá

O que mais incomoda aí, no entanto, é que a carreira de Fairuz Fauzy no automobilismo de base está completando dez anos agora. Sua primeira temporada em monopostos se deu em 2001, quando ele estreou na Fórmula Renault britânica. Desde então, ele passou pela Fórmula 3 britânica, pelas GP2 europeia e asiática, pela World Series by Renault e pela A1. Conferindo minhas fontes, vejo que ele venceu três corridas em toda sua carreira. Uma na GP2 asiática, uma na A1 e uma na World Series. Nesta última categoria, ele até conseguiu ser vice-campeão em 2009, ano considerado tecnicamente fraquíssimo. Definitivamente, seu currículo não o credencia sequer à vaga de auxiliar de cozinha de uma equipe de Fórmula 1, quanto mais à de piloto. Mas a grana é quem segura as pontas.

Grana. Fórmula 1. Começa aqui o assunto principal do texto. Como um cara como Fauzy insiste por tantos anos no automobilismo de base, aceitando correr na GP2 com quase 30 anos de idade? Para quem argumentar que valeu a pena e que sua estreia na categoria não é improvável, mudo então o personagem na pergunta: como alguns pilotos, que aparentam não possuir a menor condição de subir para a Fórmula 1, insistem em correr no automobilismo base por tantos anos?

Além de Fauzy, há uma turma de verdadeiros medalhões das categorias-escola zanzando por aí, pulando de categoria em categoria. Fauzy é um bom nome. Outros casos clássicos são os de Luca Filippi, Davide Valsecchi, Giorgio Pantano, Javier Villa, Yelmer Buurman, Mikhail Aleshin, Marco Bonanomi, Daniil Move, Pasquale di Sabatino e Milos Pavlovic. Antigamente, havia Michel Ferté, Tomas Kaiser, Paolo delle Piane, Marc Goossens, Oliver Gavin, Emmanuel Collard e companhia ilimitada. Em comum, todos eles têm o currículo muito mais extenso em tempo do que em glórias, alguns bons patrocinadores, um ou outro contato com alguma categoria top e paciência de Jó. São sujeitos que aceitam militar pela antessala por mais tempo do que o sensato.

Luca Filippi, um dos expoentes entre os "veteranos de creche"

Pode parecer meio cruel falar assim sobre eles, até porque, a menos que haja algum retardado aí, ninguém gostaria de estar nessa situação. Tanto a Fórmula 1 como a Indy são categorias de acesso complicadíssimo, ainda mais nos dias de hoje, e adentrá-las requer muita grana e algum padrinho forte. As vagas são poucas e, se depender de gente com a mentalidade bem limitada, seguirão assim ad eternum. Logo, quem pode, pode e quem não pode, se sacode. Além disso, devemos reconhecer que os caras são minimamente perseverantes e confiantes, o que é positivo. Mas sua insistência chega a ser contraproducente, na maioria dos casos. E atravanca o mercado de pilotos lá embaixo.

Pego um dos meus casos preferidos, o de Luca Filippi. O italiano é o piloto que mais disputou corridas na história da GP2, tendo feito 89 entre 2006 e 2010. Veloz, conseguiu mostrar bom desempenho na maior parte do tempo e até venceu duas corridas com o razoável carro da Supernova. Mas qual é a perspectiva para um sujeito como ele, que já tem 25 anos e que nunca despertou suspiros de ninguém lá na Fórmula 1? Apenas a Super Aguri chegou a convidá-lo para correr em 2008, pedindo em troca 10 milhões de dólares. A Honda chegou a lhe conceder alguns testes, mas nada muito sério. Em 2011, Luca competirá na AutoGP, categoria que já apresentei ontem. O sonho da Fórmula 1 persiste, mas sejamos honestos: a chance dele conseguir realizá-lo tende a zero.

E essa insistência de Filippi e de outros que pensam igual acaba criando uma classe que chamo carinhosamente de “veteranos de creche”. Estes caras acabam se estabilizando nas categorias de base, subvertendo o sentido delas, que é o de formar novos talentos. Para começar, um Fairuz Fauzy a mais é um Kevin Korjus a menos. Em 2009, muita gente novata acabou ficando de fora da GP2 porque Lucas di Grassi, Vitaly Petrov, Andreas Zuber, Filippi, Villa, Karun Chandhok, Roldan Rodriguez e outros acabaram ocupando boa parte dos espaços. Ver um cara desses desempregando um astro da Fórmula 3 é uma situação ridícula, convenhamos.

Giorgio Pantano, que ganhou a GP2 em 2008. E aí? Tanta insistência serviu pra quê?

Além disso, a presença de veteranos acaba elevando demais o nível da categoria. Por um lado, é algo bom, pois é sempre interessante ter uma categoria tecnicamente forte. Por outro, os novatos acabam não conseguindo se sobressair. Imagine a dificuldade que deve ter sido para um garoto promissor como Marcus Ericsson ter de ser comparado a Filippi, que foi seu companheiro em boa parte das corridas de GP2 de 2010. Por melhor que Ericsson seja, a experiência em uma categoria que não permite muitos testes acaba sendo um bem valiosíssimo. E o resultado é que todos tendemos a achar que o garoto é uma porcaria porque não supera o vovô.

Não digo que esses caras obrigatoriamente deveriam esquecer seu sonho, abandonar as corridas e fazer faculdade de Administração, pois a insistência pode até funcionar, como talvez venha a ser o caso do Fauzy. Mas não nos esqueçamos que o malaio é uma exceção que só se concretizaria porque ele tem os amigos certos e a nacionalidade certa. A possibilidade de haver uma reviravolta na carreira é baixa, mesmo que o piloto consiga um trunfo, como aconteceu com Giorgio Pantano na GP2 em 2008. O melhor a eles é começar a perceber que o automobilismo não é sinônimo de Fórmula 1. Dá pra ser muito feliz no DTM, no WTCC, nos protótipos ou até mesmo nos campeonatos nacionais. O italiano Fabrizio Giovanardi foi fazer sua vida no BTCC, campeonato inglês de turismo. Ganhou corridas, ganhou dinheiro e ganhou moral. Giovanardi passou três anos na Fórmula 3000 e não deu em nada. Não acho que a Fórmula 1 tenha lhe feito falta.

Por isso, mais do que lamentar a presença de Fauzy na Renault, onde ele terá tanta utilidade quanto um vaso de orquídeas, lamento pela sua participação na GP2. Que, aliás, deveria começar a rever esse negócio de permitir a participação de gente muito experiente. Será que um piloto precisa de mais do que três anos na categoria para dar certo? Será que é bom deixar vir gente que já teve passagem pela Fórmula 1? Será que é bom deixar vir gente que não necessariamente entra nos dois casos anteriores mas que tem muita experiência, como é o caso do próprio Fauzy? Pois é. E não só a GP2, mas as outras categorias deveriam fazer essa consideração. Deixem a GP2, a World Series e as outras para quem realmente precisa. Ser o mais experiente do berçário não é motivo de orgulho pra ninguém.