Uma hora e 42 minutos. Esse é o tempo que todos nós tivemos de esperar pela bendita largada da corrida coreana. Na calada da noite, irritado, eu olhava para as horas correndo e me sentia um completo idiota por ter de esperar por uma estúpida corrida de carros por tanto tempo. E fiquei com raiva de Bernie Ecclestone, dos pilotos homossexualizados, da pista mal-feita e até mesmo da mãe-natureza, que poderia ter mandado o dilúvio em uma pista que realmente precisasse dela para ter uma competição minimamente interessante, como Hungaroring ou Sakhir, e não em um negócio que nem havia sido finalizado direito.

Mas o fato é que a chuva apareceu e as condições para uma corrida debaixo d´água eram as mais desfavoráveis possíveis. É uma pena, já que a diversão aumenta exponencialmente quando os pilotos não têm qualquer aderência ou visibilidade e as rodadas, as ultrapassagens e os acidentes acontecem a granel. Para quem gosta de um pouco de bagunça, como é o meu caso, um prato cheio. Mas tem horas em que a organização simplesmente não permite ou a chuva simplesmente é forte demais e não há como ter toda essa diversão. Como não vou chegar nem perto de um PC até quarta-feira que vem, adianto o Top Cinq de hoje para falar de cinco corridas não tão remotas que acabaram tendo o andamento prejudicado devido à chuva.

5- JAPÃO/1994

Com seus famosos tufões, o Japão tem um histórico considerável de corridas chuvosas. Algumas delas decidiram títulos, como ocorreu em 1976, em 1988 e em 2000 (será que a lógica segue em 2012?). Em 2004, ocorreu até adiamento de treino oficial. Quando a Fórmula 1 segue em direção à Terra do Sol Nascente, todos ficam com aquela enorme expectativa de ver uma corrida absolutamente encharcada em uma das pistas mais velozes e desafiadoras do campeonato.

Em 1994, choveu horrores no sábado e no domingo da corrida, coisa de louco. Naquele ano, todos estavam completamente paranoicos com relação à segurança e o medo era geral. E se acontecesse alguma merda? E bater em Suzuka, ainda mais na curva 130R, não era pouca porcaria, não. Ainda assim, os organizadores deram a largada normalmente, com os carros saindo de suas posições do grid.

Mas a chuva estava intensa demais. E logo nas primeiras voltas, tivemos Heinz-Harald Frentzen escapando na primeira curva, Hideki Noda rodando na primeira volta e Johnny Herbert, Taki Inoue e Ukyo Katayama aquaplanando e rodando na reta dos boxes. Não dava para continuar assim e a direção de prova decidiu, então, colocar o safety-car na pista. No regulamento do período, constava que o carro de segurança só entraria na pista em caso de acidente que fosse muito forte ou que bloqueasse a pista, o que não era o caso naquele momento. Pela primeira vez na história da categoria, o safety-car entrava na pista para evitar mais problemas com a chuva.

Após sete voltas atrás do safety-car, a organização decidiu reiniciar a corrida no melhor estilo Indy, com os carros largando em movimento. Mas a chuva continuava forte e Franck Lagorce, Pierluigi Martini e Michele Alboreto rodaram logo na relargada. Poucas voltas depois, Martin Brundle e Gianni Morbidelli sofreram acidentes violentos e a turma decidiu dar bandeira vermelha logo de uma vez. Todos tiveram de esperar a chuva dar uma trégua por um bom tempo. Ela realmente diminuiu, mas nem tanto, e a corrida reiniciada foi uma das melhores daquele ano.

4- MÔNACO/1984

Se correr com chuva já é algo naturalmente temerário, correr em Mônaco com chuva é de deixar uma mãe de piloto rezando para todos os santos e orixás. Em 1984, o pequeno principado localizado às margens do Mediterrâneo foi atingido por um temporal daqueles de ensopar os cabelos cheios de laquê das madames locais. A turma esperou a chuva passar por cerca de 45 minutos, mas a nuvenzinha maligna teimava em permanecer sobre suas cabeças. Então vamos realizar a corrida assim mesmo, pensaram em uníssono os organizadores da prova.

Naqueles tempos, a Fórmula 1 era ligeiramente menos fresca e não havia essa de “ah, é perigoso fazer largada parada nessas condições”. Os 20 carros largaram normalmente, mas todos sabiam que poucos sobrariam no final. Logo na Saint Devote, três ficaram pelo meio do caminho: a dupla da Renault, Derek Warwick e Patrick Tambay, e o Ligier de Andrea de Cesaris. Tambay acabou quebrando uma perna e teve de se ausentar da etapa seguinte.

E a corrida foi uma loucura. Alain Prost liderou no começo, mas foi ultrapassado por Nigel Mansell, que vinha dirigindo seu Lotus como um doido. E sua loucura só poderia levar a um acidente na subida da Beau Rivage na volta 15. Recuperando a ponta, Prost passou a dirigir com bastante cautela. Enquanto isso, os jovens Ayrton Senna e Stefan Bellof ultrapassavam tudo quanto era gente e se aproximavam rapidamente da liderança. E a chuva permanecia violenta.

Diante disso, o diretor de prova Jacky Ickx decidiu unir o útil ao agradável e acabou com a corrida na volta 31, dando a vitória a Alain Prost. A alegação oficial era a chuva, mas muitos desconfiaram que Ickx, ex-piloto de Fórmula 1 e piloto da Porsche no Mundial de Marcas, quis favorecer Prost, cujo McLaren utilizava motor… Porsche! O fato é que tanto Senna quanto Bellof se consagraram como os nomes a serem observados como futuros pilotos de ponta, enquanto que Prost, ao marcar apenas metade dos pontos, acabou perdendo o título para Niki Lauda no final do ano exatamente devido a isso: se a corrida tivesse sido finalizada mais à frente, Prost talvez nem venceria, mas os seis pontos do segundo lugar lhe daria o título. O destino é bem-humorado.

3- MALÁSIA/2009

Na semana do Grande Prêmio da Malásia de 2009, circularam algumas imagens na internet mostrando fotos de como andava o clima na região de Kuala Lumpur naqueles dias. O céu estava literalmente preto em alguns pontos, algo digno de filme de terror. A Malásia é um país localizado próximo à linha do Equador e o índice pluviométrico é amazônico: chove muito e chove todo dia à tarde. E ainda por cima, Bernie Ecclestone havia decidido que, a partir daquele ano, a largada ocorreria às 17h locais. Então, simplesmente não havia como contestar as possibilidades quase totais de temporal na hora da corrida.

Milagrosamente, a largada ocorreu em pista seca. Mas o céu estava absurdamente escuro, algo próximo do noturno. E conforme as voltas passavam, o negócio ficava cada vez mais dramático. Na volta 19, as primeiras gotas começaram a cair e a turma seguiu direto para os pits. Alguns colocaram pneus de chuva forte, outros foram mais corajosos e calçaram pneus intermediários. Estes últimos, encabeçados pelos teutônicos Timo Glock e Nick Heidfeld, se deram muito bem e ganharam várias posições.

Mas a tempestade era apenas questão de pouco tempo. E ela chegou de vez na volta 31. Rapidamente, a pista foi completamente coberta por uma espessa camada de água, que chegava a formar correntezas nos trechos em descida. E ninguém mais conseguia parar na pista.

Duas voltas depois, a direção de prova resolveu acionar a bandeira vermelha e todo mundo estacionou nos pits. Enquanto gente como Mark Webber demonstrava preocupação com um possível reinício, o iconoclasta Kimi Raikkonen entrou nos boxes, foi até um frigobar e pegou uma Coca-Cola e um Magnum de chocolate para forrar o estômago, protagonizando a cena mais curiosa da Fórmula 1 em 2009. Depois de um tempo, o pessoal percebeu que já estava anoitecendo e decidiu encerrar a corrida de vez.

2- JAPÃO/2007

Para quem reclamou um monte sobre o enorme período em que o safety-car ficou na pista na corrida coreana, saibam que a Fórmula 1 experimentou uma situação parecida há apenas três anos, na primeira corrida realizada no remodelado circuito de Fuji.

Para aborrecimento de alguns e felicidade de muitos, a chuva apareceu com força durante boa parte do fim de semana. No treino oficial, apesar de não ter chovido na hora, a pista estava molhada devido à precipitação ocorrida minutos antes. Mas ninguém imaginava que o dilúvio de Noé apareceria no dia seguinte, na hora da corrida.

Assim como no GP da Coréia desse ano, a corrida japonesa foi transmitida de madrugada para os brasileiros. Logo, qualquer atraso seria um incômodo extra para quem se dispôs a ficar acordado até altas horas da matina. Para mim, a situação não podia ser pior, já que eu tinha de viajar de manhã. Com a chuva torrencial que caía pouco antes da largada, a organização decidiu colocar o safety-car para andar à frente dos pilotos por algumas voltas. Ninguém chiou, até porque não era a primeira vez que a Fórmula 1 realizava uma largada lançada.

O que foi inédito para todos foi o tempo em que o safety-car permaneceu na pista: 19 voltas, pouco mais de 40 minutos de espera. Eu devo ter ficado até mais irritado naquele dia do que neste último fim de semana, mas a corrida que se seguiu foi sensacional, uma das melhores da década. O destaque fica para a briga pela sétima posição entre Felipe Massa e Robert Kubica na última volta. No melhor estilo Gilles x Arnoux, os dois dividiram todas as curvas e tocaram rodas até a bandeirada final. Valeu a pena esperar tanto.

1- AUSTRÁLIA/1991

E quem lidera a lista é a corrida mais curta da história da categoria.  O Grande Prêmio da Austrália, última etapa do campeonato de 1991, teve apenas 14 voltas, 52,92 quilômetros e 24 minutos e meio de duração. Agradeçam o registro histórico à chuva torrencial que caiu justamente na hora da corrida.

Sim, porque a manhã de domingo e os dois dias de treinos foram ensolarados como deve ser um bom dia de praia em Surfers Paradise. Mas sabe como é, o clima da Austrália é altamente imprevisível e aquele belo céu azul pode se transformar em um conluio de nuvens cumulonimbus prontas para despejar água abundante na cabeça dos pilotos. E foi o que aconteceu. Debaixo de muita chuva, os pilotos alinharam no grid e largaram.

Dois anos atrás, o GP da Austrália teve até mais chuva durante a corrida e poderia perfeitamente constar nessa lista. Mas a chuva da edição de 1991 era intensa o suficiente para formar poças e correntes de água no asfalto. Para piorar as coisas, o sistema de drenagem era péssimo, algo absolutamente comum em circuitos de rua, e os muros em volta do traçado só ajudavam a manter ainda mais água na pista. E o resultado foi um verdadeiro balé dos pilotos.

Nicola Larini bateu seu Lambo no retão Brabham, mesmo lugar aonde escaparam também Michael Schumacher, Jean Alesi e Pierluigi Martini. Michele Alboreto rodou na curva 5. Stefano Modena escapou da pista, assim como Gerhard Berger, que aquaplanou e rodopiou para fora da pista na curva 16. No entanto, os acidentes mais violentos foram os de Mauricio Gugelmin e Nigel Mansell. Gugelmin escapou na curva que antecede a reta dos boxes e bateu violentamente na mureta dos boxes. Seu March chegou a subir na tal mureta e ficou por lá. Já Mansell, que perseguia Ayrton Senna incessantemente, rodou na curva 3 e bateu de frente no muro, machucando a perna e tendo de ser levado ao centro médico.  

A chuva havia chegado a níveis intoleráveis e, na volta 17, Ayrton Senna começou a fazer sinais pedindo para a interrupção da corrida. Imediatamente, o diretor de prova acionou a bandeira vermelha. No final da volta 16, para se ter uma ideia, havia menos de dez carros na pista e os seis primeiros eram Senna, Piquet, Morbidelli, De Cesaris, Zanardi e Modena. Para evitar essa distorção, a organização preferiu considerar que a corrida foi interrompida na volta 14, duas voltas antes da última efetivamente concluída.

Apesar da corrida estar interrompida e da chuva estar inacreditavelmente forte, o diretor de prova queria retomar a corrida. Ele chegou a acionar a placa de 10 minutos, indicando o tempo que faltava para a nova largada, mas os pilotos, liderados por Ayrton Senna e Riccardo Patrese, pressionaram para que a corrida não fosse reiniciada e os resultados fossem considerados finais. Depois de muito trololó, a direção de prova cedeu e os resultados finais foram aqueles da volta 14: Senna, Mansell, Berger, Piquet, Patrese e Morbidelli.

RED BULL10 – Liderou até partida de truco desde o primeiro dia dos treinos. Todos se perguntavam quem, entre Vettel e Webber, largaria na pole e venceria a corrida. Deu Vettel, que fez a pole-position e venceu de ponta a ponta. Webber largou em segundo e em segundo terminou. Domínio completo, portanto. Um raro fim de semana perfeito para a equipe que dispõe do melhor carro disparado.

FERRARI6,5 – Esteve em Suzuka apenas para catar os cacos das possíveis desventuras da Red Bull. Como elas não aconteceram, restou a Fernando Alonso terminar em terceiro. Felipe Massa sofreu com vários problemas no fim de semana e ainda se acidentou na primeira curva. Quanto à equipe carcamana, precisa reagir se quiser dar o tricampeonato ao piloto espanhol.

MCLAREN6 – Assim como a Ferrari, também estava esperando pelos restos da Red Bull. Como eles não vieram, restou tentar pegar o melhor resultado possível. Jenson Button tentou uma estratégia de andar com os pneus duros no começo da corrida, mas não ficou muito satisfeito. Já Lewis Hamilton teve uma série de problemas e só conseguiu ser o quinto.

MERCEDES6 – Dessa vez, quem salvou o mundo das cáries foi Michael Schumacher, sexto após uma boa atuação e uma condução agressiva. Nico Rosberg até teve chances de terminar em uma posição melhor, mas o pneu voou longe e o jovem piloto abandonou. No mais, o mesmo de sempre.

SAUBER9 – Há quem diga que foi o melhor fim de semana da equipe no ano até aqui. Os dois pilotos marcaram pontos, e Kamui Kobayashi fez um corridão, ultrapassando vários adversários e terminando em sétimo. Nick Heidfeld, o oitavo, também merece menção positiva. Um fim de semana ótimo para uma equipe que alterna entre o céu e o purgatório.

WILLIAMS5 – Fim de semana meia-boca. Rubens Barrichello teve problemas com a dirigibilidade do carro e terminou apenas em nono. Nico Hülkenberg não completou sequer a primeira volta. O desempenho no treino oficial, com os dois pilotos no Q3, foi melhor.

TORO ROSSO4,5 – O desempenho discreto de sempre. Sebastien Buemi sobrou no Q1, Jaime Alguersuari não foi muito melhor e os dois pilotos sofreram as desventuras rotineiras na corrida. O suíço, ao menos, marcou um pontinho. O espanhol só conseguiu quebrar um bico em um toque com Kobayashi.

LOTUS7,5 – Praticamente garantiu o décimo lugar no campeonato com a corrida japonesa. Os dois pilotos conseguiram sobreviver aos acidentes e às quebras e conseguiram terminar em 12º (Heikki Kovalainen) e 13º (Jarno Trulli). O italiano chegou a estar à frente de Kamui Kobayashi na primeira volta. Muito bom.

VIRGIN4,5 – Nos treinos de sexta-feira, até dava a impressão de que poderia brigar com a Lotus. A impressão foi apenas uma miragem e a equipe continuou naquele desempenho morto de sempre, à frente da Hispania e atrás da equipe malaia. Lucas di Grassi, devido a um problema desconhecido, sofreu um violento acidente na volta de apresentação. Timo Glock conseguiu terminar, mas não brilhou.

HISPANIA4 – O medo maior era a possibilidade de um grande acidente para o instável e perigoso carro da paupérrima equipe espanhola. Mas esta possibilidade não se tornou realidade e os dois pilotos conseguiram levar o carro até o final.

FORCE INDIA3 – Aquela forma apresentada em pistas velozes virou coisa do passado. Tanto Adrian Sutil quanto Vitantonio Liuzzi sofreram na classificação e nenhum dos dois terminou a corrida. Liuzzi foi tirado da prova por Felipe Massa e Sutil teve um vazamento de óleo que encharcou a pista.

RENAULT4 – E a corrida da equipe francesa durou apenas três voltas, já que Vitaly Petrov quase se matou na largada e Robert Kubica ficou sem um pneu. Uma pena para a equipe, que tinha no polonês um candidato sério ao pódio.

TRANSMISSÃOKOBAYASHI DANADO – Como estava sonolento e indignado por ter perdido as primeiras quinze voltas para um despertador mal configurado, não consegui prestar muita atenção na narração. Fico com essa declaração de Galvão Bueno, que precisava encontrar algo para deixar a corrida mais interessante.

CORRIDASONÍFERA ILHA – O Japão foi a verdadeira “sonífera ilha” para todos aqueles que se dispuseram a ficar acordados para a prova. Quando Lucas di Grassi jogou seu carro nos pneus ainda na volta de apresentação, Vitaly Petrov beijou o guard-rail da reta dos boxes e Felipe Massa e Vitantonio Liuzzi dançaram uma bela lambada na primeira curva, todos pensaram que seria uma corrida daquelas bem absurdas. As coisas, no entanto, se normalizaram após o safety-car e apenas Kamui Kobayashi poderia animar a corrida com suas ultrapassagens e sua falta de amor próprio e responsabilidade. No fim, mais uma modorrenta vitória de ponta a ponta de Sebastian Vettel.

SEBASTIAN VETTEL10 – Ou ele ou Webber venceriam. Venceu ele, que conseguiu uma pole-position apertada com relação ao segundo colocado, largou bem e liderou de ponta a ponta até a bandeirada final. Com sua terceira vitória no ano, mostrou que, sim, ainda está vivo na briga pelo título.

MARK WEBBER9 – Mas o “Canberra Milk kid” também não foi mal. Largou em segundo, perdeu uma posição para Kubica na primeira curva, recuperou após o abandono do polonês e manteve-se nesta posição até o fim. Está 14 pontos à frente do vice-líder e só depende de si mesmo para ser campeão. Para mim, é o sujeito que merece mais este título.

FERNANDO ALONSO8 – Corrida boa sem estardalhaço, uma vez que seu F10 não permitia muito mais do que isso. Largou em quarto, ganhou uma posição de Kubica ainda no começo e manteve-se atrás dos carros da Red Bull o tempo todo. Está empatado com Vettel na vice-liderança do campeonato e precisará reagir.

JENSON BUTTON7,5 – Se deu melhor que Hamilton tanto no grid de largada como na corrida. Tentou uma estratégia diferenciada ao ficar a maior parte do tempo com pneus duros. Com isso, teve dificuldades na primeira parte da corrida mas recuperou o ritmo após colocar pneus macios no final. Bom quarto lugar, mas o título está praticamente fora de questão.

LEWIS HAMILTON6 – Deu quase tudo errado nesse fim de semana. Bateu na sexta-feira, teve de trocar o câmbio no sábado, perdeu cinco posições no grid, saiu apenas em oitavo, ficou preso atrás de Button por um tempo e quando conseguiu ficar à frente dele, perdeu a terceira marcha e teve de se contentar com o quinto lugar. Um sobrevivente.

MICHAEL SCHUMACHER 7 – Estava devendo uma atuação boa e a conseguiu na pista em que venceu seis vezes.Apesar de ter largado apenas em décimo, andou com vontade, passou Barrichello por fora na chicane, pressionou Rosberg por um tempo e conseguiu terminar em sexto.

KAMUI KOBAYASHI 8,5 – Um dos astros do fim de semana, o pequeno nipônico fez uma de suas melhores atuações no ano. Apesar de não ter ido bem na classificação e de ter largado três posições atrás de Heidfeld, Kamui se superou na corrida, ultrapassou vários pilotos e ainda se deu bem com a estratégia de usar pneus duros na maior parte do tempo. No final, com pneus macios, era um dos pilotos mais rápidos na pista. Excepcional sétimo lugar. A japonesada deixou o circuito de Suzuka feliz.

NICK HEIDFELD7,5 – Ótima atuação de alguém que me surpreendeu. Muito bem nos treinos, largou em um excelente 11º lugar e esteve quase sempre entre os dez primeiros. Não foi páreo para segurar seu fulminante companheiro de equipe no final da corrida, mas conseguiu marcar seus primeiros pontos no ano. Fez Peter Sauber se esquecer completamente de De La Rosa.

RUBENS BARRICHELLO5,5 – Foi muito bem no treino classificatório, mas sofreu com sérios problemas de aderência na corrida. Tomou uma ultrapassagem até certo ponto humilhante de Schumacher na chicane. No fim das contas, seus dois pontos não foram tão ruins assim.

SEBASTIEN BUEMI6,5 – Apesar de ter aparecido pouco, não foi tão mal. Teve problemas com o assoalho no Q1 da classificação, o que o obrigou a largar apenas em 18º. Na corrida, se recuperou e, aproveitando-se dos abandonos à sua frente, conseguiu terminar em décimo. Disse, no entanto, que estava andando mais rápido que Barrichello e poderia ter terminado em nono.

JAIME ALGUERSUARI6 – Não anda sendo o sujeito mais sortudo do grid. Conseguiu largar bem à frente de Buemi, mas não manteve lá um grande ritmo durante a corrida e tomou duas ultrapassagens com direito a toque de Kobayashi. Na segunda ultrapassagem, quebrou o bico e teve de ir aos pits colocar um novo. Com isso, terminou atrás do companheiro novamente.

HEIKKI KOVALAINEN7 – Aproveitou o grande número de abandonos e deu à Lotus sua melhor posição de chegada no ano. Liderou a turma das equipes novatas durante quase todo o tempo e passou perto de marcar o primeiro ponto da história de sua equipe. Uma vitória pessoal.

JARNO TRULLI6 – O italiano da Lotus também foi bem e terminou em sua melhor posição no ano até aqui. Largou à frente de Kovalainen e ganhou algumas posições na largada, mas escolheu arriscar uma troca de pneus macios por duros durante o safety-car. Com isso, teve de recuperar algumas posições e ficou atrás de seu companheiro. Mas teve sua melhor atuação no ano.

TIMO GLOCK3 – Apesar de ter terminado em 14º, não foi bem. Largando atrás de Di Grassi, o alemão arriscou parar para trocar pneus durante o safety-car. A estratégia foi por água abaixo devido ao longo período em que ele ficou preso atrás de Yamamoto. Com isso, não conseguiu chegar perto dos carros da Lotus.

BRUNO SENNA5 – Estava feliz com o resultado, que foi o seu melhor neste ano. Ainda assim, poderia ter ido melhor. Arriscou fazer sua parada logo nas primeiras voltas e acabou ficando em último durante um bom tempo. Recuperou a posição de Yamamoto após o japonês fazer sua parada. E por lá ficou até o fim.

SAKON YAMAMOTO5,5 – Diante da torcida japonesa e dentro de suas limitadas possibilidades, até que não foi mal. Ficou a apenas um décimo do tempo de Senna na classificação e andou à frente do brasileiro e de Timo Glock durante boa parte da corrida. Após sua parada, voltou a andar em último, mas o saldo final é positivo.

NICO ROSBERG7 – Não merecia ter abandonado após uma roda voar e seu carro bater nos pneus de proteção.  Largou em um bom sexto lugar e foi o único piloto das equipes maiores a fazer a troca de pneus com o safety-car na pista. Com isso, apesar de ter problemas de aderência, recuperou várias posições e segurou um faminto Schumacher até o momento do acidente.

ADRIAN SUTIL4 – Mal no treino classificatório, o alemão se deu bem com os vários acidentes que aconteceram à sua frente. Com isso, conseguiu andar entre os dez primeiros por um tempo e acreditava poder marcar pontos. No entanto, um vazamento de óleo empapou a pista e acabou com qualquer chance.

ROBERT KUBICA7,5 – Uma pena o que aconteceu com ele. Fez um excepcional terceiro tempo no treino oficial e passou Webber na largada, subindo para segundo. Infelizmente, uma a roda traseira direita foi para os ares e o polonês teve de abandonar após apenas três voltas.

NICO HÜLKENBERG4,5 – Fez um bom nono tempo no treino oficial e indicava poder brigar por pontos novamente, mas sua corrida acabou ainda antes da primeira curva, quando Petrov abalroou sua roda dianteira direita.

FELIPE MASSA1,5 – Péssima fase, a do brasileiro. Teve problemas na classificação e largou apenas em 12º, o que já seria o suficiente para acabar com o humor de muitos. Na largada, tentou passar Rosberg na primeira curva, não conseguiu, jogou o carro para grama e acabou acertando Vitantonio Liuzzi. Fim de uma corrida que já não prometia muito.

VITALY PETROV1 – Depois dessa, é até melhor procurar outro canto para ficar. Não foi bem novamente nos treinos e causou uma enorme confusão na largada ao tocar em Hülkenberg, rodar na frente de todo mundo e bater com tudo no guard-rail paralelo à pista. De bom, só o fato de não ter se machucado.

VITANTONIO LIUZZI2 – No treino oficial, a mediocridade de sempre. Na largada, foi atingido, sem a menor parcela de culpa, pela Ferrari desgovernada de Massa. Acabou atingindo com força a barreira de pneus e destruiu seu carro, mas não sofreu nada. É outro que não anda justificando seu emprego.

LUCAS DI GRASSI1 – Fez um bom trabalho no treino oficial ao superar Glock, mas sofreu um acidente tão incomum quanto perigoso ao escapar na curva 130R durante a volta de apresentação e bater violentamente nos pneus. Dizem que foi o carro, que teve alguma parte quebrada. É a sina das equipes de Nick Wirth, ex-Simtek.

SUZUKA: Pista de macho, uma das melhores do mundo e, seguramente, a melhor da Ásia. A graça maior está nas curvas de altíssima velocidade, como a lendária 130R, castrada há alguns anos por algum infeliz. Mas não fico tão chateado porque ainda restaram trechos como o Hairpin, a curva Spoon, a chicane que antecede a reta dos boxes e a desafiadora primeira curva. Todo ano alguém bate forte por lá, isso se não acontecer o que aconteceu nos treinos oficiais do ano passado, um verdadeiro festival de batidas. Quanto ao Japão, é um dos únicos países asiáticos com um certo nível de civilidade. No entanto, é também o país dos otakus, dos animes, da Toyota, do Takuma Sato e dos cabelos coloridos. Por isso, subestimo.

MASSA: E não param de pegar no pé dele. Ontem, a revista Sport Bild publicou uma entrevista no qual Felipe teria dito que não era um “segundo Rubens Barrichello” e que, se fosse, pararia de correr. Esta declaração, absolutamente falsa, repercutiu em todo o mundo e fez com que muitos ofendessem dona Ana, a mãe do piloto ferrarista. Rapidamente, Massa se retratou. Disse que a citação a Barrichello foi inventada pelo jornalista alemã, que teria vindo pedir desculpas. Pelo visto, depois de Hockenheim, Felipe Massa se tornou um dos alvos preferidos de todos.

KOBAYASHI: Há quase um ano, ele não passava de um mero midfielder na GP2, alguém que não parecia ter futuro algum na Fórmula 1. Então, Timo Glock se estatela nos pneus e o japonês é chamado para substituí-lo na Toyota nas duas últimas etapas. Faz bonito, é contratado pela Sauber e se torna uma das atrações do ano. E além de ótimo piloto, é simpático e espirituoso. Nos últimos dias, deu várias declarações que comprovam sua personalidade absolutamente aberta, afável e divertida. Disse que havia comprado vários ingressos para os amigos o verem. Disse que tinha medo de 2012, o suposto ano do fim do mundo. Disse que queria ser comediante, mas que não tinha talento. Discordo. Com suas declarações e sua aparência caricatural, ele soa bem mais engraçado do que muitos humoristas brasileiros. Por fim, disse que lutava pela sua vida na Fórmula 1 nas duas últimas corridas do ano passado. É verdade. E nesse fim de semana, correndo em casa, Kamui será o astro do show.

CHUVA: Para variar só um pouco, há previsão de chuva para o fim de semana japonês. A possibilidade de tanto o treino oficial quanto a corrida serem realizados debaixo da mais pura água nipônica gira em torno dos 60%. Eu não ando acreditando nos meteorologistas, profissionais tão confiáveis quanto um carro da Sauber, mas o histórico joga a favor da chuva em Suzuka. Choveu lá em corridas que decidiram títulos, como em 1988 e em 2000, e caiu um dilúvio histórico por lá em 1994. Espero ao menos por uma garoa paulistana. Do bairro da Liberdade.

FORCE INDIA: Sempre enrolados, os indianos. A Corte de Apelações inglesa reverteu uma sentença dada a favor da equipe e a obrigará a devolver 4,7 milhões de dólares às empresas Etihad Airlines e Aldar. As duas, que entraram na estrutura quando ela ainda se chamava Spyker, cascaram fora e Vijay Mallya não ficou nem um pouco feliz com isso. No entanto, a Etihad caiu fora porque alegou que seu contrato indicava que a Force India não poderia ter outra empresa aérea como patrocinadora, sendo que o próprio Mallya é dono da Kingfisher, empresa cujos emblemas aparecem desde 2008. A Aldar, por sua vez, exigia que não houvesse patrocínio de bebida alcoólica, mas a mesmíssima Kingfisher também produz cervejas! Apesar dos costumeiros problemas judiciais da equipe, ela vai bem, obrigado, e terá ao menos uma vaga livre para 2011, já que Adrian Sutil pode ir para a Renault e Vitantonio Liuzzi não vem agradando nem à mãe. Paul di Resta e Nick Heidfeld estão por aí.

A foto acima é sensacional. Sensacional, aliás, como foi esta corrida. Não me furto a dizer que foi uma das melhores da década. E não digo isso pelo grande número de brigas entre os pilotos, pelos acidentes ou pelo imponderável. Destaco o Grande Prêmio do Japão de 2005 como histórico pela atuação de um único piloto: o finlandês Kimi Raikkonen, da McLaren.

O mais impressionante de tudo é que esta corrida tinha tudo para ser péssima para Raikkonen. No primeiro treino da sexta-feira, o piloto deu apenas oito voltas antes do motor quebrar. Esta era uma cena muito comum em 2005, e Kimi perdeu várias corridas e o título devido à total falta de confiabilidade dos V10 de Stuttgart. O pior é que o regulamento previa que uma troca de motores em um fim de semana faria com que o piloto perdesse 10 posições no grid. Para piorar as coisas, no treino oficial, a chuva apareceu justamente no momento em que Raikkonen saiu para fazer sua volta rápida. Vale lembrar que, em 2005, o treino classificatório era composto por apenas uma volta e se você desse o azar supremo de ter algum contratempo, largaria lá no fim do pelotão. Kimi completou uma volta quase 16 segundos mais lenta que o do pole-position e, fatalmente, sairia em último. Para sua sorte, Juan Pablo Montoya, Jarno Trulli e Tiago Monteiro não marcaram tempo. O 20º lugar do finlandês se transformou em 17º. Como consolação, seus três maiores adversários (Montoya, Fernando Alonso e Michael Schumacher) também estavam largando lá atrás. Ainda assim, tudo seria difícil.

Como o MP4-20 era um carro muito rápido, no entanto, Raikkonen não estava tão aborrecido. O título de 2005 já estava definido em favor de Alonso e, sem muitas pretensões a mais, restava a Raikkonen se divertir e voar o máximo possível em uma pista de seu gosto. E foi o que ele fez. Na primeira volta, ganhou cinco posições, duas delas em conseqüência das saídas de pista de Takuma Sato e Rubens Barrichello na primeira curva e uma devido ao acidente de Montoya. Estando em 12º e faltando ainda mais de 50 voltas, dava pra ganhar mais algumas posições.

Lá na frente, o pole-position Ralf Schumacher mantinha a liderança à frente de Giancarlo Fisichella. No entanto, o alemão da Toyota havia optado por uma estratégia de três pit-stops, o que o alijava da briga pela vitória. Com a sequência de paradas que aconteceu nas voltas seguintes, vários pilotos assumiram a liderança. Mais atrás, Kimi Raikkonen fazia suas ultrapassagens a rodo, mesmo após parar para reabastecer pela primeira vez na volta 27. Uma delas, por fora sobre Michael Schumacher na curva 1, chamou muito a atenção de todos. Com isso, e com as paradas de Jenson Button, Mark Webber e Fisichella, ele chegou a assumir a ponta. Andando de cara para o vento com o melhor carro do grid naquele ano, Kimi conseguiu abrir 14 segundos de vantagem antes de parar pela segunda vez, na volta 46.

Ao voltar dos pits, ele estava cinco atrás de Giancarlo Fisichella. Faltavam sete voltas para o fim da corrida e tudo indicava uma vitória do piloto da Renault, que só precisaria conservar a vantagem. Ninguém contava, porém, com o espírito endemoniado de Kimi Raikkonen. Logo na volta seguinte ao retorno dos pits, o finlandês descontou 1,1s de vantagem.  Na volta 48, mais 1s3 foi descontado. Na 49, 1s2. Abrindo a volta 50, com menos de meio segundo de diferença, Raikkonen tentou fazer uma primeira tentativa de ultrapassagem ao sair mais rápido da chicane que antecede a reta dos boxes. Fisichella se defendeu bem e pôde atravessar esta volta na liderança. Mas as coisas se tornariam cada vez mais difíceis.

No final da volta 50, Fisichella errou a freada da última chicane e Raikkonen pôde se aproximar de vez. O McLaren saiu da traseira do Renault e entrou na linha de fora. Os dois pilotos completaram a volta 50 com dois décimos de diferença. Com um motor mais forte, Raikkonen tentaria a ultrapassagem por fora. Giancarlo tentou dar uma leve fechada à esquerda, mas não foi possível contê-lo. Kimi Raikkonen o ultrapassou como um rojão por fora na curva 1. Saindo da 17ª posição, o finlandês deixou todos para trás, alguns de maneira ridícula, liderou as duas voltas finais e venceu a corrida. Sem a menor cerimônia, digo que foi a melhor atuação de sua carreira.

Teremos Suzuka neste fim de semana. E há quem diga que teremos Kimi Raikkonen em 2011. Apesar de gostar muito de Vitaly Petrov, não acharia ruim ter o Iceman de volta na Fórmula 1 na Renault, exatamente a equipe que tomou a legendária ultrapassagem. Seu ímpeto beirando o irresponsável coberto com a faceta da frieza escandinava faz enorme falta.

Pense em um circuito bom. Bom mesmo. Pense agora em um adjetivo. Divertido? Veloz? Emocionante? Perigoso? São adjetivos um tanto genéricos que muitas vezes não expõem a essência desse circuito. Mas me furto a utilizar um adjetivo completamente clichê mas que define muito bem para mim o Suzuka International Racing: selvagem. É isso.  Suzuka é o perfeito exemplo de uma pista selvagem. Juro que não consigo ver pista no mundo que tome esse adjetivo de maneira mais adequada. Falemos, pois, da quarta pista do Calendário do Verde. Só uma ressalva: falo da versão de 1983, utilizada até 2002. Explico depois o motivo.

O circuito de Suzuka é homônimo à cidade onde ele esta localizado. A pouco mais de 50km de Nagoya, Suzuka é uma cidade de quase 200.000 habitantes com um forte parque industrial e automobilístico. Todo ano, mais precisamente em Outubro, a cidade recebe atenção mundial por sediar uma etapa (geralmente uma das últimas) do Mundial de Fórmula 1.

O Suzuka International Racing surgiu em 1962 inicialmente como uma pista de testes para as motos da Honda. Motos? Exatamente. Naquele período, a Honda ainda não havia adentrado o mercado automobilístico. Não por acaso, o local escolhido para a construção do circuito é bastante próximo a uma fábrica da montadora. Com o tempo, porém, a Honda passou a produzir outros veículos e Suzuka passou a receber todo tipo de veículo. O autódromo recebeu sua primeira corrida, de carros-esporte, em 1963. O vencedor foi um tal de Peter Warr, que viria a ser o chefe da Lotus após a morte de Colin Chapman.

Entre 1963 e 1969, o circuito se limitou a receber apenas corridas de carros-esporte. A partir de 1971, a Fórmula 2 local começou a utilizar suas instalações. E seu uso se restringiu ao âmbito local até 1987, quando por influência da enorme ascensão da Honda na Fórmula 1, a categoria decidiu realizar o Grande Prêmio do Japão por lá. E desde então, com exceção de 2007 e 2008, Suzuka recebe uma etapa da categoria.

TRAÇADO E ETC.

Desde 1962, Suzuka conserva basicamente o mesmo “esqueleto” de traçado. As poucas modificações ocorreram na Degner, na 130R e na criação, em 1983, de uma chicane que antecedia a reta dos boxes. O traçado a ser considerado aqui é o primeiro que foi utilizado pela Fórmula 1, que vigorou entre 1983 e 2001 e que tinha 5,864 km e 19 curvas.

Por que falo que Suzuka é uma pista selvagem? A pista japonesa é composta basicamente por retões, curvas velozes de raio longo, esses de alta velocidade e trechos de quebra brusca de velocidade, tudo isso com áreas de escape relativamente pequenas e guard-rails sempre próximos. As variações de relevo são tantas que Suzuka é um dos raríssimos circuitos no mundo aonde um trecho passa sobre o outro por meio de ponte, no caso a reta anterior à 130R localizada acima da curva Degner.

É uma pista aonde há uma sensação enorme de velocidade sem a “monotonia” das retas graças às curvas muito velozes. Não dá pra utilizar um carro “dragster”, pois ele precisará ter downforce para completar a 130R ou os esses sem perder tempo. O mais legal nesse circuito é ver os pilotos atacando a tangência das curvas, e para fazer isso com mais eficiência que os rivais, o carro deverá frear tarde sem sair de frente e ao mesmo tempo ter tração e torque o suficiente para não perder tempo na saída de curva e reaceleração.

Por ser de alta velocidade e devido ao relativo perigo inerente, o circuito já foi palco de muitos acidentes. Nigel Mansell machucou o pescoço por lá em 1987. Michael Schumacher deu uma bela estampada de traseira no muro em 1991. Rubens Barrichello chegou a sofrer acidentes por lá em três anos seguidos. Alguns, porém, tiveram um pouco mais de azar: Hitoshi Ogawa, um dos astros do automobilismo japonês no final dos anos 80, morreu em um perigosíssimo acidente na F3000 japonesa em 1992 ao bater com Andrew Gilbert-Scott na reta dos boxes.

Trechos a serem destacados:

CURVA 1: Os desafios já começam por aqui. Curva à direita de raio médio e tangenciamento duplo que induz o piloto a frear o mais tarde possível na primeira perna para completar a redução na segunda perna. Por ser uma curva relativamente veloz, não é o melhor ponto de ultrapassagem do circuito. A aderência costuma ser um problema.

ESSES: São três curvas de alta velocidade, mas que exigem redução gradual: de 245km/h para 200km/h e depois para 185km/h. Trecho estreito e, embora não seja um causador de acidentes, é um local aonde um carro sem aderência perde tempo considerável.

DEGNER: Outra trecho de tangenciamento duplo à direita, a Degner se inicia com uma redução para 4ª marcha a 185km/h para culminar em uma curva fechada a 120km/h. Um carro que sai de frente tem dificuldades para entrar na primeira curva e pode sequer completar a segunda, indo parar na brita. A ponte é logo ali.

HAIRPIN: É a curva mais fechada do circuito, feita a 65km/h. Por ser uma freada brusca, é um ponto de ultrapassagem. Como após ela há um trecho de alta velocidade, o mais importante aqui é reacelerar o mais cedo possível.

SPOON: O trecho, composto por duas curvas seguidas à esquerda, tem esse nome por se parecer uma colher. Do mesmo modo como na Degner, o piloto sai de um trecho de alta velocidade, começa a reduzir na primeira perna e freia com mais força na segunda perna, caindo para 140km/h. É outro trecho que pede um carro que não saia muito de frente.

130R: A menina dos olhos de Suzuka. É o único motivo, na verdade, que me fez escolher o traçado entre 1983 e 2001. É uma curva à esquerda com angulação pouco maior que 120º aonde os carros chegam a mais de 310km/h. A maior graça, porém, é o fato de ser estreitíssima e de obrigar o piloto a pisar na zebra. Qualquer pisada errada na zebra e o piloto vai pros pneus. Não por acaso, muito piloto não costumava pisar fundo na curva, temendo que seu carro não fosse aguentar. A nova versão dessa curva, mais larga e mais aberta, ainda é bem veloz, mas não é tão interessante.

CASIO TRIANGLE: É a famosa chicane anterior aos boxes. Instalada em 1983 para conter um pouco a velocidade do trecho anterior, ela é o melhor ponto de ultrapassagem do circuito. Mesmo assim, muitos acidentes ocorrem por lá. As zebras são bem altas, e o piloto deve atacá-las com voracidade.

Veja o que é dirigir um carro ruim em Suzuka.

Essa imagem diz absolutamente tudo. 21 de Outubro de 1990.

Mais uma vez, o circuito de Suzuka entraria para a história da Fórmula 1. Ayrton Senna e Alain Prost se encontravam mais uma vez para a disputa de um título mundial.

Dessa vez, Senna chegava à Suzuka à frente no campeonato, com 78 pontos contra 69 de Prost. Nos tempos dos descartes, a conta era complicadíssima: apenas os onze melhores resultados eram considerados, e ambos já tinham três abandonos e podiam descartar mais dois resultados. Prost tinha 5 pontos descartáveis, contra 8 de Senna, mas ambos tinham de esperar pelos resultados das últimas corridas para ver se haveriam outros pontos descartáveis. Na prática, apenas a vitória importava e Senna tinha vantagem: se a diferença de 9 pontos fosse mantida, o título seria do brasileiro.

A Ferrari aparentava ter vantagem nas curvas de alta e, mesmo com as novidades no motor trazidas pela Honda, Prost seria páreo duro. Na Sexta-Feira, Berger surpreendeu e foi o mais rápido no 1º qualifying, com o tempo de 1m38s374, seguido de Prost e Senna, que havia dado uma rodada. Bola pra frente, pensou Senna. Amanhã vai ser melhor.

De fato, foi. Com a pista mais rápida, Ayrton fez uma volta fantástica e marcou a 51ª pole-position de sua carreira, com o tempo de 1m36s996, o único piloto a fazer uma volta abaixo de 1m37. A Ferrari, porém, estava muito bem e colocou Prost em 2º e Mansell em 3º. Senna e Prost na primeira fila, mais uma vez. O que será que os esperava? Era talvez a decisão mais aguardada da história da F1 até então.

Durante todo o fim de semana, Ayrton Senna pediu para que os oficiais da FISA alternassem as posições, movendo a posição do pole-position do lado direito, ao lado da mureta dos pits, para o lado esquerdo, onde os carros passavam e a pista ficava mais emborrachada e aderente. Como o capo da FISA era exatamente o desafeto de Senna Jean-Marie Balestre, não foi surpresa que os oficiais negassem o pedido. E Senna largaria do lado mais sujo da pista, o que o revoltou muito.

Domingo, dia 21, 13h locais, 1h no horário de Brasília. 150.000 pessoas acomodadas nas arquibancadas do autódromo de Suzuka e milhões de pessoas acompanhando pela TV. No Brasil, já era de madrugada, e Galvão Bueno iria acompanhar a saga de seu amigo. Na época, o locutor já estava brigado com Reginaldo Leme. Os 26 carros se posicionam no grid, a bandeira verde é acionada lá atrás, a largada é autorizada e dada.

Ayrton Senna, como esperado, largou mal e perdeu a ponta para Alain Prost. Mas o brasileiro tinha para si que não deixaria Prost escapar após a primeira curva. Ah, mas não deixaria MESMO!

Senna buscou um espaço impossível na primeira curva e colocou o carro por dentro. Prost fechou a porta e os dois se chocaram a mais de 200km/h. Prost saiu rodopiando e parou na caixa de brita. Senna seguiu reto até bater na barreira de pneus com força. Fim de prova para os dois. O mundo esperava que viesse a bandeira vermelha, mas ela não veio e a corrida seguiu. Senna era bicampeão mundial.

O que esse humilde escriba acha? Que Senna foi irresponsável, infantil e quase idiota mesmo. Foi, sem dúvida, a pior atitude que ele tomou na Fórmula 1 de longe, e talvez a atitude mais lamentável que eu já vi de um piloto na Fórmula 1. Um acidente desnecessário e que poderia ter colocado a vida dos dois em risco, pois ocorreu em alta velocidade e em uma curva perigosa. Muitos dizem que foi uma bela vingança. Ora, estamos falando de corrida de carro! Defender Senna é que nem aceitar um motorista que, fechado no trânsito, provoca uma batida como resposta. Senna poderia ter se vingado na pista, o que ele provavelmente conseguiria e o que seria uma vingança elegante e que o consagraria como o vencedor na briga contra Balestre e Prost. Fazendo o que fez, se rebaixou ao nível deles.

Mas a história foi feita desse jeito e a briga pelo título de 1990 terminou deste modo, com ambos voltando aos boxes. Separados.

Pulei o primeiro título simplesmente porque não tinha uma foto decente. E não achei uma foto que prestasse de 1989. Geralmente, só de corridas mornas como Hermanos Rodriguez ou Hockenheim. Vou direto para Suzuka 89, palco da história decisão do título de 89.

1989 foi um ano excepcional. 20 equipes, 39 carros, muitas corridas excepcionais, altíssimo nível de pilotos e um duelo visceral pelo título. Ayrton Senna e Alain Prost estavam em estado de guerra e com nervos à flor da pele que chegavam à Suzuka, 15ª etapa do campeonato. O campeonato estava exatamente assim: Prost tinha 76 pontos e Senna tinha 60. Ayrton precisava ganhar as duas corridas se quisesse ser campeão. Os descartes não favoreciam Prost, que tinha menos vitórias que Senna, mas precisávamos ser realistas: estava muito difícil tirar o título do francês.

Senna fez a pole-position, para variar. Colocou quase dois segundos em cima de Prost, que largaria ao seu lado. Porém, o brasileiro largaria do lado direito, o mais sujo da pista. No dia seguinte, Alain Prost começou a corrida queimando a largada e assumindo a liderança sem que punição alguma fosse discutida. Ayrton Senna manteve-se em segundo. E, a partir daí, a corrida se resumiu, durante um bom tempo, a Prost na frente e Senna a no máximo cinco segundos atrás. O carro de Prost tinha ligeira vantagem nas saídas de curva, mas nada que representasse perigo para Senna.

Nas paradas de boxes, a McLaren trabalhou melhor no carro do francês e Prost voltou com ainda mais vantagem. Porém, o carro de Senna voltou melhor e o brasileiro começou a empreender o ataque, marcando voltas mais rápidas e se aproximando. Na volta 46, aconteceu.

Na chicane que antecede a reta dos boxes, Senna colocou por dentro. Prost percebeu a tentativa e tangenciou a curva mais cedo que o normal. Os dois carros se engancharam. Fim de corrida para Prost. Mas não para Senna, que perde o bico, vai aos boxes cuidadosamente, coloca um bico novo e volta ainda em segundo graças à vantagem impressionante imposta ao resto do pelotão. Apenas Alessandro Nannini, da Benetton, está à sua frente.

Ayrton guia como um desvairado e demora apenas duas voltas para passar Nannini na mesma chicane do acidente. Ganha a corrida de maneira heróica. Mas antes de subir ao pódio, descobre que foi desclassificado. Nannini era o vencedor, seguido de Riccardo Patrese e Thierry Boutsen.

Termina a corrida e começa uma guerra entre Senna e a FISA de Jean-Marie Balestre. Prost é tricampeão mundial. A briga pelo título terminou, na pista, daquele jeito: Prost saindo do carro e Senna tentando dar partida no carro com uma mão e mostrando o dedo do meio com a outra.