Pense em um circuito bom. Bom mesmo. Pense agora em um adjetivo. Divertido? Veloz? Emocionante? Perigoso? São adjetivos um tanto genéricos que muitas vezes não expõem a essência desse circuito. Mas me furto a utilizar um adjetivo completamente clichê mas que define muito bem para mim o Suzuka International Racing: selvagem. É isso.  Suzuka é o perfeito exemplo de uma pista selvagem. Juro que não consigo ver pista no mundo que tome esse adjetivo de maneira mais adequada. Falemos, pois, da quarta pista do Calendário do Verde. Só uma ressalva: falo da versão de 1983, utilizada até 2002. Explico depois o motivo.

O circuito de Suzuka é homônimo à cidade onde ele esta localizado. A pouco mais de 50km de Nagoya, Suzuka é uma cidade de quase 200.000 habitantes com um forte parque industrial e automobilístico. Todo ano, mais precisamente em Outubro, a cidade recebe atenção mundial por sediar uma etapa (geralmente uma das últimas) do Mundial de Fórmula 1.

O Suzuka International Racing surgiu em 1962 inicialmente como uma pista de testes para as motos da Honda. Motos? Exatamente. Naquele período, a Honda ainda não havia adentrado o mercado automobilístico. Não por acaso, o local escolhido para a construção do circuito é bastante próximo a uma fábrica da montadora. Com o tempo, porém, a Honda passou a produzir outros veículos e Suzuka passou a receber todo tipo de veículo. O autódromo recebeu sua primeira corrida, de carros-esporte, em 1963. O vencedor foi um tal de Peter Warr, que viria a ser o chefe da Lotus após a morte de Colin Chapman.

Entre 1963 e 1969, o circuito se limitou a receber apenas corridas de carros-esporte. A partir de 1971, a Fórmula 2 local começou a utilizar suas instalações. E seu uso se restringiu ao âmbito local até 1987, quando por influência da enorme ascensão da Honda na Fórmula 1, a categoria decidiu realizar o Grande Prêmio do Japão por lá. E desde então, com exceção de 2007 e 2008, Suzuka recebe uma etapa da categoria.

TRAÇADO E ETC.

Desde 1962, Suzuka conserva basicamente o mesmo “esqueleto” de traçado. As poucas modificações ocorreram na Degner, na 130R e na criação, em 1983, de uma chicane que antecedia a reta dos boxes. O traçado a ser considerado aqui é o primeiro que foi utilizado pela Fórmula 1, que vigorou entre 1983 e 2001 e que tinha 5,864 km e 19 curvas.

Por que falo que Suzuka é uma pista selvagem? A pista japonesa é composta basicamente por retões, curvas velozes de raio longo, esses de alta velocidade e trechos de quebra brusca de velocidade, tudo isso com áreas de escape relativamente pequenas e guard-rails sempre próximos. As variações de relevo são tantas que Suzuka é um dos raríssimos circuitos no mundo aonde um trecho passa sobre o outro por meio de ponte, no caso a reta anterior à 130R localizada acima da curva Degner.

É uma pista aonde há uma sensação enorme de velocidade sem a “monotonia” das retas graças às curvas muito velozes. Não dá pra utilizar um carro “dragster”, pois ele precisará ter downforce para completar a 130R ou os esses sem perder tempo. O mais legal nesse circuito é ver os pilotos atacando a tangência das curvas, e para fazer isso com mais eficiência que os rivais, o carro deverá frear tarde sem sair de frente e ao mesmo tempo ter tração e torque o suficiente para não perder tempo na saída de curva e reaceleração.

Por ser de alta velocidade e devido ao relativo perigo inerente, o circuito já foi palco de muitos acidentes. Nigel Mansell machucou o pescoço por lá em 1987. Michael Schumacher deu uma bela estampada de traseira no muro em 1991. Rubens Barrichello chegou a sofrer acidentes por lá em três anos seguidos. Alguns, porém, tiveram um pouco mais de azar: Hitoshi Ogawa, um dos astros do automobilismo japonês no final dos anos 80, morreu em um perigosíssimo acidente na F3000 japonesa em 1992 ao bater com Andrew Gilbert-Scott na reta dos boxes.

Trechos a serem destacados:

CURVA 1: Os desafios já começam por aqui. Curva à direita de raio médio e tangenciamento duplo que induz o piloto a frear o mais tarde possível na primeira perna para completar a redução na segunda perna. Por ser uma curva relativamente veloz, não é o melhor ponto de ultrapassagem do circuito. A aderência costuma ser um problema.

ESSES: São três curvas de alta velocidade, mas que exigem redução gradual: de 245km/h para 200km/h e depois para 185km/h. Trecho estreito e, embora não seja um causador de acidentes, é um local aonde um carro sem aderência perde tempo considerável.

DEGNER: Outra trecho de tangenciamento duplo à direita, a Degner se inicia com uma redução para 4ª marcha a 185km/h para culminar em uma curva fechada a 120km/h. Um carro que sai de frente tem dificuldades para entrar na primeira curva e pode sequer completar a segunda, indo parar na brita. A ponte é logo ali.

HAIRPIN: É a curva mais fechada do circuito, feita a 65km/h. Por ser uma freada brusca, é um ponto de ultrapassagem. Como após ela há um trecho de alta velocidade, o mais importante aqui é reacelerar o mais cedo possível.

SPOON: O trecho, composto por duas curvas seguidas à esquerda, tem esse nome por se parecer uma colher. Do mesmo modo como na Degner, o piloto sai de um trecho de alta velocidade, começa a reduzir na primeira perna e freia com mais força na segunda perna, caindo para 140km/h. É outro trecho que pede um carro que não saia muito de frente.

130R: A menina dos olhos de Suzuka. É o único motivo, na verdade, que me fez escolher o traçado entre 1983 e 2001. É uma curva à esquerda com angulação pouco maior que 120º aonde os carros chegam a mais de 310km/h. A maior graça, porém, é o fato de ser estreitíssima e de obrigar o piloto a pisar na zebra. Qualquer pisada errada na zebra e o piloto vai pros pneus. Não por acaso, muito piloto não costumava pisar fundo na curva, temendo que seu carro não fosse aguentar. A nova versão dessa curva, mais larga e mais aberta, ainda é bem veloz, mas não é tão interessante.

CASIO TRIANGLE: É a famosa chicane anterior aos boxes. Instalada em 1983 para conter um pouco a velocidade do trecho anterior, ela é o melhor ponto de ultrapassagem do circuito. Mesmo assim, muitos acidentes ocorrem por lá. As zebras são bem altas, e o piloto deve atacá-las com voracidade.

Veja o que é dirigir um carro ruim em Suzuka.

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