Kamui Kobayashi, o piloto mais legal do ano

Por fim, entre as equipes estabelecidas, temos a Sauber e a Toro Rosso. Peter Sauber não teve um ano fácil com sua equipe. Com a demora do anúncio oficial sobre a permissão da equipe suíça de participar da temporada 2010, não houve como obter patrocinadores. Sendo assim, a Sauber buscou outras alternativas. Dispondo de dinheiro da BMW e de um dos melhores túneis de vento do mundo, a equipe tentou fazer o melhor carro possível. E também formou uma dupla de pilotos balanceada, composta pelo explosivo Kamui Kobayashi e pelo veterano Pedro de la Rosa, que traria um troco para os cofres suíços. O carro andou rápido em alguns momentos, mas chamou a atenção pelo altíssimo número de quebras, principalmente no primeiro semestre.

Kobayashi, o aspirante a sushiman, mereceria um post à parte. Em 2010, ele deixou de ser apenas o sujeito dos two-hits-wonders na Toyota para se tornar o piloto preferido da maioria dos espectadores. Fora da pista, é um sujeito de aparência caricatural, declarações bem-humoradas e uma simpatia quase inocente. Na pista, aquele japinha que não soa ter muita credibilidade se transforma em um Mr. Hyde diabólico, pronto para massacrar a concorrência sem dó e sem qualquer bom-senso. E o que vimos foi uma série de corridas com ultrapassagens improváveis e demonstrações puras e incontidas de agressividade. As manobras feitas na marra em Suzuka ficarão na memória de muitos. E as ultrapassagens no dificílimo circuito de rua de Valência? É verdade que os erros foram muitos, mas os acertos compensaram tudo aos olhos dos torcedores.

Se o japonês foi considerado um dos destaques do ano, Pedro de la Rosa foi o peso morto de sempre. É verdade que ele bateu Kobayashi em vários treinos, do mesmo jeito que é real o fato dele ter tido até mais azares que o nipônico. Mas faltou aquilo que sobrou ao seu companheiro: as cartas na manga. De la Rosa não fez nada além do feijão com arroz, não compensando as deficiências de seu carro. Só pontuou com um bom sétimo lugar na Hungria. Após Monza, foi trocado por Nick Heidfeld. Bom como sempre, o alemão fez em poucas corridas o mesmo número de pontos que o espanhol, seis. Se Heidfeld tivesse pilotado pela equipe desde o início do ano, a Sauber teria colhido bem mais pontos.

A Toro Rosso foi aquela coisa de sempre, uma mera filial sem brilho da Red Bull. Com dois pilotos igualmente apagados, uma pintura que já não chama a atenção de mais ninguém e um carro que também não é uma maravilha, a esquadra italiana estagnou na mediocridade em 2010. Jaime Alguersuari ainda conseguiu chamar a atenção com alguns momentos de arrojo, mas não fez mais do que míseros cinco pontos. Sebastien Buemi fez uma ótima corrida no Canadá e só. O suíço, que até fez um bom papel em 2009, voltou à condição de sujeito limitado e sem-graça nessa temporada. Nenhum dos dois pilotos encheu os olhos de ninguém e dificilmente conseguirão subir de patamar. Assim como a Toro Rosso. Por mim, se ela sumir amanhã, não fará falta alguma.

Lotus, a melhor das novatas

E as novatas? Ê, ô, ô, vida de gado. Sim, nenhuma delas teve um ano fácil. Dentro e fora das pistas, Lotus, Virgin e Hispania tiveram de lidar com uma série de adversidades com relação ao carro, aos pilotos, às finanças e até mesmo aos nomes! Vencedoras do polêmico processo seletivo de 2009, elas perceberam que, na Fórmula 1, o buraco é bem abaixo do que pensavam. Descobriram da pior maneira possível que know-how e experiência ainda contam muito. E o resultado foi um total de zero pontos marcados pelas três. O melhor resultado foi um 12º lugar. E as críticas vieram de todos os lados, com exceção deste site, sempre solidário com os pobres e oprimidos.

Comecemos pela melhor delas, a Lotus. A equipe malaia só foi anunciada em setembro de 2009, quando a BMW Sauber anunciou a retirada e a FIA se viu obrigada a escolher uma nova 13ª equipe. Portanto, com poucos meses, ninguém acreditava ser possível que algo desse certo pelos lados de Kuala Lumpur. Mas o pessoal honrou a marca de Colin Chapman e fez um trabalho digníssimo, sendo a única equipe a conseguir manter a mesma gestão até agora. O carro, o T127, é bastante conservador e até certo ponto antiquado, mas conseguiu deixar a Lotus à frente de suas duas concorrentes diretas na maior parte do tempo. As quebras foram frequentes, principalmente nas mãos delicadas de Jarno Trulli, que nunca soube se dar bem com os sistemas hidráulicos dos seus carros, mas os resultados foram mais satisfatórios que os de Virgin e Hispania. O melhor foi o 12º lugar obtido por Heikki Kovalainen no Japão, o que garantiu o 10º lugar no campeonato de construtores e o benefício financeiro provido pela FIA para questões logísticas.

Kovalainen, aliás, foi um dos destaques do ano. Tendo saído da McLaren pela porta dos fundos, o finlandês conseguiu dar um novo gás à sua carreira, que andava meio abalada. Liderou a turma do fundão na maior parte do tempo e chamou bem mais a atenção do que seu companheiro Jarno Trulli. E a diferença de semblantes era marcante. Enquanto Kovalainen era só sorrisos, Trulli era a verdadeira imagem do niilismo. O italiano não teve uma única corrida realmente boa e sofreu a maioria das quebras. Nessa altura da vida, não sei o que Jarno Trulli ainda espera da Fórmula 1. Não seria melhor cuidar de sua vinícola?

Falo agora da Hispania, minha equipe favorita. Para quem tem saudades de equipes como Eurobrun ou Andrea Moda, a escuderia de José Ramón Carabante consegue substituí-las bem como a pior equipe do atual grid. Tudo o que podia dar errado deu errado.

Hispania. Como há gente que não gosta dela?

A Hispania surgiu do “espólio” da Campos, que não conseguiu captar todo o orçamento necessário para a temporada 2010. Carabante, sócio de Adrian Campos, liderou um processo de management buyout e tomou a equipe para si. Os carros eram um negócio meio malfeito que a Dallara criou na maior má vontade. A dupla de pilotos inicial, Bruno Senna e Karun Chandhok, só foi confirmada duas semanas antes do início do mundial. O carro do indiano só foi finalizado na sexta-feira do GP do Bahrein!

A partir daí, por incrível que pareça, o bólido não recebeu uma única atualização. Aliás, minto: para o GP da Espanha, a equipe pintou as partes brancas que restavam de grafite… Algumas semanas depois, o conturbado casamento com a Dallara foi finalizado e cada um seguiu para o seu lado. O problema é que o F110 não teria qualquer modificaçãozinha que fosse e até mesmo as peças sobressalentes eram escassas. A situação chegou a um ponto em que a asa traseira utilizada em Monza, o circuito mais veloz do calendário, era a mesma de Mônaco, a pista mais lenta! Além da precariedade do carro, o dinheiro era quase inexistente e a equipe foi obrigada a fazer trocas de pilotos para garantir o orçamento até o fim do ano.

Quatro pilotos foram utilizados. Senna e Chandhok iniciaram o ano, mas o indiano acabou caindo fora após a corrida inglesa. Nesta mesma corrida, Senna deu lugar a Sakon Yamamoto, que acabaria sendo o substituto de Chandhok em Hockenheim. E a dupla seguiu assim em todas as etapas restantes, com exceção de Marina Bay, Interlagos e Abu Dhabi, quando o esquecido Christian Klien foi o substituto de Yamamoto. Resumindo, uma bagunça típica de uma tourada. E é desnecessário dizer que nenhum deles conseguiu fazer nada.

Ninguém sabe qual será o futuro da Hispania. Havia uma parceria com a Toyota para o fornecimento dos projetos do carro 2010 da finada equipe japonesa e da fábrica na cidade alemã de Köln, mas a parceria foi abortada por falta de pagamentos. Diz a lenda que a Formtech, aquela empresa formada a partir do espólio da Super Aguri, teria aparecido na jogada para construir o novo carro. Buenas suertes aos espanhóis. A equipe começou mal, mas tem tudo para ser uma futura nanica simpática e consolidada. E nada além disso, é claro.

Virgin, putz...

Por fim, a Virgin. Como gostei de vê-la em último. A equipe nada mais é do que um outro devaneio de Richard Branson, um lunático que gosta de dar a volta ao mundo dentro de balões. Ela surgiu com a proposta de ser uma equipe sustentável, que não degrada o meio-ambiente (como, porra? A Fórmula 1, por si só, já faz isso!) e que tem custos baixos. Não por acaso, seu orçamento foi menor até do que o da Hispania. Richard Branson chama isso de sustentabilidade. Eu chamo de pão-durice.

O VR-01, todo lustroso, alvinegro e bonitão, foi totalmente desenvolvido no tal do CFD, o sistema de dinâmica de fluidos computacional. A ideia era legal, mas o carro ficou deveras ordinário. Não era rápido o suficiente para bater a Lotus com frequência e era o mais quebrador entre as novatas. O ano da equipe só não foi totalmente perdido porque Timo Glock teve algumas atuações muito boas, com destaque para a corrida de Cingapura. Lucas di Grassi falou muito mais do que fez. Não passou vergonha, mas também não encheu os olhos de ninguém. Com um 14º lugar a menos que a Hispania, os virginianos (ou virgens, você quem escolhe) ficaram na lanterninha. A Virgin queria ser uma equipe legal no melhor estilo Red Bull de marketing. Só conseguiu ser mais uma equipe patética do fundão.

O que mais há pra falar? As corridas foram medianas, salvo exceções. Canadá e Austrália foram legais, Coréia do Sul e suas quase duas horas de espera foram um tremendo chute de escarpin no saco, Spa-Francorchamps e Suzuka decepcionaram e a maioria das outras não merece registros positivos ou negativos. As ultrapassagens aconteceram, mas tirando uma ou outra kobayashiana, não há nada a ser recordado com suspiros. Os acidentes aconteceram, embora em número menor do que em anos anteriores. Só Mark Webber voando em Valência realmente assustou, mas nada de muito absurdo. Foi um ano memorável e animador? Para quem olha unicamente para o equilíbrio que os números mostraram, foi ótimo. Para quem gosta de corrida de carro, um ano morno. Com certeza, já tivemos anos melhores e piores.

Mais algo pra falar? Fora das pistas, o processo seletivo para a 13ª vaga em 2011 não deu em nada. Também, com a ART desistindo do negócio e havendo candidatas como Stefan, Durango e Cypher, não é pra animar, mesmo. A Epsilon Euskadi era a melhorzinha, mas mesmo assim a FIA preferiu deixar pra lá. A polêmica das ordens de equipe da Ferrari resultou em 100 mil dólares e um cafezinho como multas. E é evidente que a FIA tomou todo o cuidado para liberar de vez as ordens de equipe, acabando com a proibição. E a pista coreana foi entregue com atraso e quase que não houve corrida por lá, mas tudo se resolveu a toque de caixa. Enfim, nada de novo. A Fórmula 1 completou seus 60 anos de vida da mesma maneira de sempre: majestosa, cara e internamente obscura e obtusa.

Rápidas, rápidas, muito rápidas.

Peter Sauber está louco pra colocar Pastor Maldonado, o líder da atual temporada da GP2, no lugar de Pedro De La Rosa. Mas este não ficaria sem vaga.

De La Rosa pode ir pra Hispania. Colin Kolles quer uma dupla nova e Pedro seria o cara para liderar a equipe. Ao seu lado, um jovem e limitado espanhol da GP2, Dani Clos.

Não me cobrem. Apenas ouvi falar.

Quatro etapas da atual temporada já se foram, todos só falam em Vettel, Alonso, Schumacher e Hamilton e a briga lá no pelotão da frente está mais acirrada do que nunca. Eu pergunto: e daí? Não costumo dar muita importância para o pessoal lá da ponta. As quatro grandes já têm dinheiro, fama e resultados o suficiente para não precisarem da minha compaixão. Olho com atenção, sim, para as equipes do fundão, mais precisamente para as equipes pobres de marré.

Nesse caso, são duas: a HRT e a Sauber. Por que não Lotus e Virgin? A Lotus é rica, tem o governo malaio por trás. E tanto Richard Branson (US$ 2,5 bilhões de patrimônio) como Tony Fernandes (US$ 290 milhões) nadam em dinheiro. Não que Peter Sauber ou José Ramón Carabante recebam Bolsa-Família e andem de Brasília amarela, mas é evidente que não possuem o poderio financeiro de seus dois concorrentes. O resultado é que, aparentemente, suas equipes são as de menor potencial de crescimento do campeonato.

Os números não mentem. Com quase 400 milhões de dólares, a Ferrari é a equipe com maior orçamento do campeonato. A Mercedes, com 263 milhões, e a McLaren, com 208 milhões, vêm logo atrás. Na ponta de baixo da tabela, temos Lotus com 79 milhões, Sauber com 70 milhões, Virgin com 54 milhões e HRT com míseros 50 milhões de dólares. Vale lembrar: a Virgin só corre com 54 milhões porque quer, já que a equipe insistiu na filosofia de provar para todos que, sim, é possível competir com o valor proposto no ano passado pela FIA para a redução de custos.

Explicações iniciais entregues, vemos que Sauber e HRT padecem no paraíso e não podem se dar ao luxo de estarem garantidas para 2011. Percorremos caso por caso.

Tá vendo aquele Certina lá no retrovisor? É o principal patrocinador da Sauber em 2010

A Sauber, de história bonita nos campeonatos de protótipos, nunca foi nada além de uma equipe média sem carisma. Podia andar mais ou menos perto dos carros de ponta, mas nunca saiu lá do meio. A princípio, essa é a cara da equipe em 2010. Não fosse pela expectativa geral de ver Kamui Kobayashi repetir suas atuações do final do campeonato passado e ninguém sentiria falta dos carros brancos de laterais pretas. Na pré-temporada, o carro até se comportou relativamente bem e muita gente saiu dizendo que “essa deverá ser a melhor equipe dos intermediários”.

Não só isso não aconteceu como o C29 vem apresentando uma sequência desagradável de quebras: três motores Ferrari foram para o espaço nos últimos dois fins de semana, um de Kobayashi e dois de De La Rosa. Para uma temporada que prevê apenas seis motores para cada piloto, não é um bom sinal. A Ferrari diagnosticou um problema generalizado no sistema de válvulas pneumáticas dos motores. Mas não é só isso: na Austrália, o bico do carro de Kobayashi escapou ainda na primeira volta, resultando em um grande acidente do japonês. O azar de Kamui é conhecido desde a GP2, mas os carros da Sauber colaboram.

Para piorar, o maior problema da equipe não é este, mas sim a falta de dinheiro. A Sauber é, sem a menor sombra de dúvida, o carro mais limpo do campeonato até aqui. Olhando fotos, só consigo identificar os relógios Certina nos retrovisores e os suplementos nutricionais Scalp-D, cujo emblema está escrito em katakana, alfabeto japonês, na lateral do aerofólio traseiro. E só. O próprio site da Sauber destaca a Certina como seu “patrocinador principal”. Pedro de la Rosa já falou que a equipe precisa de patrocinadores pra desenvolver o carro. Caso contrário, a equipe ficará ainda mais para trás. E o próprio espanhol já está com seu emprego ameaçado. Os endinheirados Luca Filippi e Pastor Maldonado estão apenas esperando o chamado.

"Bruno"? O que será que essa empresa produz?

Nos boxes da HRT, a situação é ainda pior. O carro em si é um problema, a desorganização reina e o dinheiro é raro. Já correm boatos na Europa que a equipe poderia abandonar a atual temporada para se desenvolver para 2011. Não seria uma idéia ruim: o carro ainda está mais de um segundo atrás dos Virgin e Lotus, foi duramente criticado por Geoff Willis e, a princípio, não há perspectivas grandes de melhora. Em Barcelona, a equipe virá com uma nova caixa de câmbio, mas isso não resolverá o problema: o carro simplesmente não possui downforce algum. E o pior é a equipe, mesmo sem querer trabalhar com a Dallara, ainda é refém da construtora italiana, pois essa possui todos os dados de construção e performance dos carros. Qualquer mudança que a equipe queira fazer necessitará de um pedido aos italianos. E olha que dizem até que a última parcela da construção dos carros nem foi paga…

O carro vem com alguns patrocinadores a mais que a Sauber. Bruno Senna conseguiu trazer a Embratel e o Banco Cruzeiro do Sul. Este último acordo foi feito dias antes da corrida do Bahrein. Na China, a equipe colocou o emblema da FCACA, uma empresa de competições chinesa no estilo Prodrive. Além disso, o perdulário Sakon Yamamoto foi contratado como terceiro piloto. Porém, não há uma empresa grande disposta a apoiar a balbúrdia. Nas fotos e na TV, o que predomina são os nomes dos pilotos, Bruno e Karun. O desespero por patrocinadores é tão grande que surgiu um outro boato (equipes frágeis são vulneráveis a boatos) que a HRT só teria dinheiro para competir até Mônaco. Só nuvens negras pelos lados de Múrcia.

Eu não me lembro de histórias como essas nos últimos 15 anos. Em tempos remotos, equipes como Coloni, Andrea Moda e Life sofriam com sua precariedade técnica e financeira. Os tempos, porém, eram outros e equipes problemáticas eram aceitas. A Fórmula 1 do século XXI não tolera os fracos e ver a Sauber sem patrocínios e a HRT capengando emanam de mim sentimentos misturados de nostalgia, pena e escárnio. Que a bonança venha para os suíços e os espanhóis.

Buon giorno a tutti!

Começo o dia com um boato lançado pelo ItaliaRacing, já desmentido pelos dois lados: o italiano Luca Filippi, veteraníssimo da GP2, poderia ocupar o lugar de Pedro de la Rosa na Sauber a partir da corrida de Istambul. Os motivos seriam os de sempre: De La Rosa está com problemas para completar o orçamento da equipe e o desempenho dele não estaria agradando Peter Sauber.

Dos lados da Espanha, Carlos Gracia, presidente da Federação Espanhola de Automobilismo, já declarou que o próprio Peter Sauber o notificou que a vaga de Pedro estaria garantida na equipe. Dos lados da Itália, Luca Filippi disse que irá dedicar-se exclusivamente ao AutoGP (categoria que substitui a F3000 Euro), mas que o sonho de correr na categoria máxima permanece.

Mas se o boato já foi desmentido, por que postar sobre ele? Sei lá, apenas para registrar mais um dos milhares de boatos que cercaram a Fórmula 1 durante seus 60 anos e que não deram certo.

Uma fábrica chinesa da Nike. Seu tênis reluzente e caro saiu daí.

SHANGHAI: É o que eu chamo de circuito genérico: não é de baixa velocidade, não é de média velocidade, mas não é o circuito que todos encheriam a boca para dizer que é de alta. A melhor curva do circuito é aquela caracol lá do começo. O resto é absolutamente chato e dispensável. Enfim, não gosto. Talvez seja minha implicância com a terra de Confúcio. Deve chover nesse ano. No ano passado, choveu e a corrida foi de razoável para boa. Enfim, não tô esperando muito. 

FERRARI: Sabe aquele duto utilizado na frente do cockpit da McLaren que estaria ajudando os carros cromados nas retas? Pois é, a Ferrari copiou e irá utilizá-lo em apenas um carro, o de Fernando Alonso. Inovação na Fórmula 1 é isso: em um dia, é novidade; no outro, é regra.

MCLAREN: Falando na dita cuja, será que é a vez dela? Sebastian Vettel e Mark Webber, a dupla da melhor equipe da temporada até aqui, foram bastante cautelosos a respeito do favoritismo da Red Bull e citaram a McLaren. Joguinho psicológico para deixar jogar a pressão lá pelos lados de Woking? Ou será que o negócio é sério? De qualquer jeito, ainda aposto em Vettel.

SAUBER: Está empatada com a Virgin em termos de carros que chegaram ao fim nessas três corridas: apenas um, o de De La Rosa em Mélbourne. Porém, ao contrário da patota do Branson, a Sauber é uma equipe estabelecida há um bocado de tempo e fez a pré-temporada inteira. O próprio piloto espanhol já admitiu que o desempenho de Fevereiro era apenas mito. E sem dinheiro, não acho que a situação melhore. Para ser bem honesto, acho que será a equipe que mais perderá terreno até o fim do ano.

TERREMOTO: Faltando apenas três dias para o início das atividades, um violento terremoto devastou uma parte da região do Tibet, matando mais de 600 pessoas. O circuito de Shanghai fica a poucos milhares de quilômetros do epicentro, mas nada foi afetado. Só pergunto uma coisa: com que ânimo os chineses vão assistir à corrida? Chineses que, diga-se, normalmente já não têm lá muito ânimo pela Fórmula 1. As suntuosas arquibancadas de Shanghai costumam ficar vergonhosamente vazias. Deve ser o único lugar na China passível de ficar vazio…

SAUBER MOTORSPORT

Em uma temporada tão sui generis como 2010, uma equipe com a alcunha de BMW e um motor Ferrari não deixa de ser um monstrengo. Por algum tempo, o nome oficial da equipe era BMW Sauber-Ferrari. Felizmente, as coisas voltaram aos seus devidos lugares e restou apenas o singelo nome de Sauber. A equipe, que pertence hoje em dia à Peter Sauber, utilizou o “BMW Sauber” para poder utilizar as benesses de ser uma equipe já existente, como a numeração e a logística gratuita. Como não deu certo, volta-se com o Sauber e tudo como dantes no quartel d’Abrantes. Depois do anúncio da saída da montadora alemã, a FIA demorou muito tempo para anunciar a participação do seu espólio em 2010. E agora ela está aí. O carro, sem patrocinadores, parece bom. 

Sediada em Hinwil, Suíça
215 corridas (como Sauber, apenas)
6 pódios
195 pontos

22- PEDRO DE LA ROSA

Pedro, nós na Sauber não temos muito dinheiro. Seu salário vai ser esse daqui...

O espanhol é um dos tiozões do grid: 39 anos de idade e cara de quem tem mais. Seu início nos monopostos se deu no distante ano de 1989, quando seu compatriota Alguersuari sequer tinha nascido. Fez uma carreira correta e chegou à F1 em 1999 pela extinta Arrows. Ficou um tempo zanzando lá no final do grid com ela e com a Jaguar até 2002. Desde então, preferiu a sossegada vida de piloto de testes da McLaren e lá ficou até 2009. É meio lento, mas tem um enorme conhecimento técnico. Não tenho informações sobre a existência de fãs dele.

Espanhol, de Barcelona, nascido em 24 de Fevereiro de 1971
71 GPs disputados
1 pódio
29 pontos
Campeão da F-Nippon em 1997, do SuperGT japonês em 1997 e da F3 japonesa em 1995

23- KAMUI KOBAYASHI

Kamui, é o Howett. Seguinte: acabou a Toyota. O que você vai fazer?

Ao contrário de seu paleozóico companheiro, é um cara que todos gostam. Sua estréia na F1 ocorreu em Interlagos no ano passado. Fez algumas ultrapassagens e deu um X em Jenson Button. Na corrida seguinte, fez outro X no campeão inglês. Depois disso, virou o piloto da moda. Aí veio o fim da Toyota e a informação de que Kamui teria de voltar para o Japão para trabalhar fazendo sushis no restaurante do pai. Peter Sauber o resgatou da bucólica vida gastronômica e ele terá a chance de fazer uma carreira. Tão agressivo quanto azarado, pode dar muito certo como pode não dar em nada. É uma incógnita.

Japonês, de Amagasaki, nascido em 13 de Setembro de 1986
2
GPs disputados
3 pontos
Campeão da GP2 Asia em 2008, da F-Renault européia em 2005 e da F-Renault italiana em 2005

Gené e sua Minardi "lista telefônica"

Começo esse texto com uma Minardi. O seu nome é M02 e ela disputou a temporada 2000 com Marc Gené e Gaston Mazzacane. Eu acho o carro um desastre estético, mas isso não vem ao caso. Já viu quantos patrocinadores esse carro possuía? Conte comigo: Telefónica, Fondmetal, PSN, Doimo, Lois, Musashi, Frezza, PDP, Cimatron, LG… Só de olhar para a imagem, conto 20 logomarcas, fora o emblema da Bridgestone. Se olhar o carro inteiro, você verá que ele tem mais patrocinadores. Vemos empresas grandes como a Telefónica e a Fondmetal comprando partes grandes do carro e mais um sem número de pequenos patrocinadores disputando minísculos espaços. E estamos falando de uma Minardi com orçamento de 30 milhões de dólares anuais e sem perspectiva nenhuma!

Por isso, eu digo: há algo muito errado em 2010. Os carros estão pelados.

Sauber em 2010: macacões e carro lavados com Omo Progress

Olhe a Sauber. Olhe a Renault. A Sauber (desculpem, não vou chamá-la de BMW Sauber por preciosismo) apareceu em Jerez e em Valência com um carro pobre de dar dó, chegando ao ponto de escrever os digníssimos sobrenomes de seus pilotos, Pedro de la Rosa e Kamui Kobayashi, na lateral superior do bólido, espaço outrora disputadíssimo por grandes empresas. Já a Renault surpreendeu a todos com uma pintura nostálgica, quase psicodélica, que só maquiava o fracasso da equipe em atrair patrocinadores. Só a Total aparece com destaque, e ainda assim apenas nos aerofólios. Se a situação vai mudar pro Bahrein? Talvez mude, talvez não.

Renault: muitos adoraram, muitos odiaram, poucos se lembraram da pindaíba dos franceses

Mas as outras equipes não podem se gabar de estarem melhores. A Ferrari tem o Santander, o Shell e um código de barras que denuncia a Marlboro. É claro que se você for um espectador atento, vai perceber a Acer, a Mubadala, a Etihad e a Tata no carro. E é a equipe em melhor situação nesse sentido.

A Mercedes, mesmo com o título e com um dream team, só tem a Petronas de relevante. E se os malaios tivessem permanecido na Sauber ou ido para a Lotus, as flechas de prata seriam nostálgicas a ponto de terem aparecido sem patrocínio algum! A Williams tem a Philips, a Reuters, a RBS e a AT&T e só. A McLaren tem a Vodafone, a Aigo, o Johnnie Walker e a Mobil 1. A Force India tem um punhado de micropatrocinadores, sendo que boa parte deles são ligados diretamente a Vijay Mallya. Lotus, Virgin, Red Bull e Toro Rosso vivem de si mesmas ou dos seus donos. Se possuem patrocinadores, são irrelevantes no carro. Resumindo: ninguém mais pode se gabar de lotar o carro com patrocinadores grandes.

O mais inquietante, porém, é que os patrocinadores são simplesmente vitais para os gastos da categoria. Como a Ferrari ou a McLaren querem gastar meio bilhão de dólares por ano com apenas três ou quatro patrocinadores relevantes? Mesmo uma redução de, sei lá, 30% ainda não é suficiente. Há algum tempo, li sobre o quanto cada empresa colaborava no orçamento da Ferrari em 2002. A AMD tinha um espaço minúsculo na lateral do carro, praticamente do lado da suspensão traseira. O custo para isso? 10 milhões de dólares. Hoje em dia, as empresas grandes não aceitam pagar algo próximo disso nem se for pra mudar o nome da equipe. Por isso que a idéia do teto, por mais esquizofrênica que fosse sua aplicação, era uma idéia absolutamente aceitável.

Isso pode parecer, mas não é um mero detalhe. A questão dos patrocinadores se refere à existência da Fórmula 1 e do automobilismo como um todo a médio prazo. Se ninguém está injetando dinheiro na brincadeira, como vai haver corrida? O caso é que a F1 é inviável para quase todo mundo. Ninguém mais quer saber da categoria, principalmente depois da crise e dos sucessivos escândalos.

Olhe de novo para a foto do tenebroso M02. Há dez anos, uma colcha de retalhos tratada como piada. Hoje em dia, qualquer equipe média gostaria de poder exibir uma colcha de retalhos como essa.