Uma a Uma


Seguindo a ordem de apresentação dos modelos, apresento mais uma equipe da temporada 2011 da Fórmula 1: a suíça (de DNA alemão) Sauber.

SAUBER MOTORSPORTS

Era uma vez um jovem suíço de 24 anos que trabalhava como eletricista na empresa do pai. Este rapaz, que ainda tinha cabelo, só tinha interesse pelo setor elétrico e se enxergava como o futuro dono da tal empresa. Carro, para ele, era apenas um meio de transporte que o levava do ponto A ao ponto B no menor tempo possível. Não por acaso, seu “meio de transporte” era um modesto Fusca. Como um cara desses se torna dono de uma das equipes mais famosas do automobilismo nos últimos 25 anos?

Pois este é o prólogo de Peter Sauber, o enfadonho e capilarmente desfavorecido dono da equipe que carrega seu sobrenome.  Peter não gostava de automobilismo até o dia em que um amigo o convenceu a dar uma ajeitadinha em seu depenado Fusca e a participar de algumas corridas amadoras em 1967. Sauber aceitou o convite, começou a participar das corridas e adorou o negócio. Gradativamente, o fusquinha se transformava em uma verdadeira máquina de competições. E o cara mergulhou de vez no mundo do automobilismo.

Em 1970, Sauber decidiu construir seu próprio protótipo de dois lugares, o C1. A letra C é uma simpática homenagem à mulher, Christine, e persiste até hoje na nomenclatura de seus carros. O C1 venceu o campeonato suíço de carros-esporte daquele ano (nem sabia que isso existia, até porque o automobilismo é oficialmente proibido no país) e iniciou uma longa trajetória de sucesso. Era o início da Sauber Motorsport.

A Sauber começou a participar de vários campeonatos de protótipos, carros-esporte e corridas de longa duração. Em 1981, Nelson Piquet, em parceria com Hans-Joachim Stuck, ganhou os 1000 km de Nürburgring. Quatro anos depois, a equipe, já composta por um bom número de funcionários, iniciou uma parceria com a Mercedes-Benz para a instalação de motores da marca de Stuttgart em seus carros-esporte. Em 1988, a parceria se fortaleceu e a equipe suíça se transformou na equipe oficial da Mercedes-Benz no Mundial de Protótipos. O melhor ano da história da equipe foi 1989: campeã de pilotos e de construtores, com direito a dobradinha nas 24 Horas de Le Mans.

O matrimônio com a Mercedes seguia às mil maravilhas e não havia muito mais a conquistar no Mundial de Protótipos. Então, Sauber e amigos devanearam: que tal irmos para a Fórmula 1?

Como o Mundial de Protótipos rumava ao fim, Sauber teria de fazer seu ganha-pão em outro lugar. Com o suporte da Mercedes, que aceitou retornar à Fórmula 1 após quase quarenta anos, Peter tentaria repetir o sucesso obtido nos protótipos. Em 1993, a equipe fez sua estreia na categoria. Com um belíssimo carro preto e os promissores Karl Wendlinger e JJ Lehto, alguns bons resultados foram obtidos, além da simpatia geral da mídia e dos torcedores.

O problema é que a Sauber não subiu de patamar. No fim de 1994, a McLaren deu uma rasteira em Peter Sauber e tomou a Mercedes para si. Restou aos suíços recorrer aos motores Ford V10 por dois anos e, posteriormente, aos Ferrari de uma geração anterior aos utilizados pela equipe italiana. A pintura mudou pouco e a maior parte dos pilotos que passou por lá não empolgava muita gente. Apesar de ter revelado nomes como Heinz-Harald Frentzen, Felipe Massa e Kimi Raikkonen, a Sauber acabou ficando com a imagem de equipe chata, pouco ousada e eternamente mediana.

No fim de 2005, Peter Sauber decidiu que era hora de se aposentar e vendeu sua equipe à BMW por um preço muito compensador. A BMW Sauber cresceu, ganhou corrida e fez acontecer, mas fechou no fim de 2009 à base de única canetada certeira vinda de Munique. E Peter Sauber acabou recomprando o espólio, recriando a Sauber Motorsport, que continua sendo aquilo que ela sempre foi na Fórmula 1: discreta e eficiente, mais discreta do que eficiente.

SAUBER C30

No início de 2010, a Sauber fez a apresentação mais anêmica entre todas as equipes. Portando sorrisos amarelados e um certo constrangimento, Peter Sauber, Kamui Kobayashi e Pedro de la Rosa mostraram ao mundo um carro absolutamente limpo de patrocinadores. As linhas eram belas e a pintura estava lá unicamente para não ofuscar a beleza das formas do bólido. Mas patrocínio que é bom, nada.

Nesse ano, por outro lado, Peter Sauber pôde sorrir tranquilamente. Seu C31, que tem o mesmo esquema visual do antecessor, é um carro muito bem patrocinado. Boa parte dos emblemas foi colocada por Carlos Slim, homem mais rico do mundo e apoiador de Sergio Perez, o mexicano que faz sua estreia nesta temporada. E os patrocinadores continuam chegando, como é o caso da gigante japonesa Nec, que se sentiu seduzida pela presença de Kamui Kobayashi.

Grandalhão e um tanto quanto desarmônico, o C29 era um carro que destoava visivelmente do restante do grid. O C30, por outro lado, é um bólido bem mais conservador e próximo da realidade dos carros de suas concorrentes. Olhando pela lateral, as mudanças não foram tantas. A barbatana desapareceu, a asa traseira ficou ligeiramente menor, a distância entre eixos diminuiu levemente e a lateral ficou mais alta e mais quadrada.

A mudança maior foi feita em relação ao bico dianteiro. O do C29 era alto, reto e quase retangular, chegando a me fazer lembrar do Williams-BMW do início da década passada. O bico do C30, por outro lado, segue a tendência das demais equipes: alto, curvado para baixo a partir de um certo ponto e em formato de gota. Nada que represente lá grande evolução.

Enfim, o C30 é um genuíno Sauber: elegante e previsível, muito previsível.

16- KAMUI KOBAYASHI

À primeira vista, você olha para o sujeito e enxerga nele qualquer coisa, menos um piloto de Fórmula 1. Sua aparência sorridente e descompromissada, composta por epicanto bastante proeminente e cabelo bagunçado, dá a ele um ar um tanto quanto ingênuo e perdido. Suas declarações bem-humoradas, seu inglês carregado de sotaque e até mesmo sua dicção trôpega parecem sugerir que Kamui Kobayashi apenas se diverte. Enquanto tubarões como Sebastian Vettel e Fernando Alonso só se preocupam com resultados frios e com sua própria imagem, o tímido japonês só gosta de correr de carro.

Acho legal que haja gente como ele no mundo. Por que a necessidade de tanta tensão, estresse, egolatria, individualismo e aflição? Por que a Fórmula 1 deve ser tão burocrática e mal-humorada? Talvez Kamui Kobayashi nem pense nisso. Espontaneidade é a palavra de ordem aqui.

Aos 24 anos, Kobayashi é uma das atrações da Fórmula 1. Seu currículo, que ostenta os títulos da Fórmula Renault europeia, da Fórmula Renault italiana e da GP2 Asia, não é o mais impressionante de todos. A graça maior está em suas pirotecnias na categoria principal do automobilismo. Desde sua primeira corrida, o GP do Brasil de 2009, Kobayashi vem chamando a atenção com ultrapassagens mirabolantes, duelos contra pilotos muito mais gabaritados e uma velocidade estonteante.

É óbvio que isso não funciona sempre. No ano passado, Kobayashi fez muita coisa bacana, mas também errou e bateu muito. Em Suzuka, ultrapassou Jaime Alguersuari em duas ocasiões – sempre batendo no carro no espanhol. Para quem esperava ver o japonês jantando Pedro de la Rosa – e Nick Heidfeld no fim do ano -, uma certa decepção, já que a distância com relação ao companheiro foi menor do que a esperada.  Ainda assim, Kamui foi uma das sensações de 2010. E ele segue alimentando a esperança daqueles que querem ver um campeão de olhos puxados.

17- SERGIO PÉREZ

Se Kobayashi é o grande animador da Fórmula 1, o mexicano Sergio Pérez fazia papel análogo na GP2. Aos 21 anos, Pérez será um dos quatro estreantes da temporada. Correndo no segundo Sauber, sua esperança maior é a de repetir os brilharecos que seu companheiro nipônico cansou de mostrar no ano passado. Ao meu ver, se depender do que mostrou na GP2, terá chances de fazer até mais.

O mexicano é o primeiro piloto da América do Norte desde Scott Speed em 2007. Mais ainda: ele é o primeiro piloto de seu país desde Hector Rebaque, que chegou a ser companheiro de Nelson Piquet na Brabham. Seu currículo não é brilhante: quarto colocado na Fórmula 3 britânica em 2008 e vice-campeão na GP2 no ano passado. Assim como Kobayashi, o que chama a atenção em Perez é o seu estilo de pilotagem.

Dois momentos se destacam mais. Em 2009, Sergio Pérez fazia seu primeiro ano na GP2 pela Arden. Na primeira corrida de Silverstone, ele largou da última posição, passou quase todo mundo e terminou em quarto, colado na caixa de câmbio do terceiro colocado. No ano seguinte, Pérez passou para a Addax, uma das equipes mais fortes. Na segunda corrida de Silverstone, ele largou da quarta posição e também não tomou conhecimento dos três primeiros colocados, engolindo suas posições e vencendo com maestria. Esta foi uma das cinco vitórias obtidas no ano passado.

Jovem, mexicano, de pilotagem exuberante: uma reedição de Pedro Rodriguez? Ao meu ver, Checo tem boas chances de ir bem mais longe.

A quarta equipe, seguindo a ordem das apresentações oficiais, a ser descrita aqui é a Mercedes GP, ou simplesmente Mercedes.

MERCEDES GP PETRONAS F1 TEAM

Como manufatura de carros, a Mercedes-Benz é uma das marcas mais celebradas do mundo. O logotipo de três pontas e a qualidade e elegância de seus carros são duas de suas marcas registradas. No automobilismo, sua história só pode ser comparada à da Ferrari.

Nos primórdios, quando Bernie Ecclestone era apenas um senhor de meia-idade, Daimler e Benz eram duas pequenas empresas concorrentes. Ambas participavam daquelas competições de Grand Prix que começavam a se proliferar na Europa em plena Belle Époque. Em 1926, Gottfried Daimler e Karl Benz, donos das respectivas, decidiram unir suas companhias visando a sobrevivência em uma época na qual a economia alemã ainda se recuperava dos efeitos da Primeira Guerra Mundial e da hiperinflação de 1922. Criada a Daimler-Benz, os sócios decidiram utilizar a Mercedes-Benz como marca final de seus produtos.

Nos anos 30, a Mercedes-Benz mandou ver nas corridas europeias pré-Fórmula 1. Tendo como rival maior a também alemã Auto Union, ela ganhou de baciada um monte de competições e projetou à eternidade nomes como Rudolf Caracciola e Manfred von Brauchitsch. Tanto a Mercedes como a Auto Union representavam nomes de orgulho para o führer Adolf Hitler, que acreditava que ambas propagandeavam ao mundo a superioridade tecnológica alemã. Esta disputa fratricida, que incluía competições de recorde de velocidade em estradas, perdurou até a Segunda Guerra Mundial, quando o automobilismo europeu foi sumariamente interrompido.

Com o fim da guerra e do Terceiro Reich, a Mercedes-Benz voltou ao automobilismo europeu em meados dos anos 50. Em seus dois anos de Fórmula 1, venceu um bom número de corridas e fez Juan Manuel Fangio campeão em 1954. Tudo corria perfeitamente bem até as 24 Horas de Le Mans de 1955, quando o francês Pierre Levegh bateu seu Mercedes 300 SLR no Jaguar de Mike Hawthorn e voou sobre a arquibancada da reta dos boxes, matando 83 espectadores e o próprio Levegh. Esta tragédia, a maior da história do automobilismo, fez com que a Mercedes se retirasse imediatamente do automobilismo. Corrida de carro foi um tabu para a marca durante décadas.

Foi só no fim dos anos 80 que os prateados decidiram voltar às atividades esportivas, mantendo uma parceria oficial com a equipe suíça Sauber no Mundial de Protótipos. Não demorou muito para os carros ganharem corridas e campeonatos nas mãos de medalhões como Jochen Mass e Jean-Louis Schlesser, além de revelarem ao mundo nomes como Michael Schumacher, Heinz-Harald Frentzen e Karl Wendlinger.

A parceria com a Sauber foi prolongada até a Fórmula 1 em 1993. Em 1995, a Mercedes abandonou os suíços e bandeou para os lados da McLaren, configurando uma parceria que dura até os dias atuais e que resultou em três títulos de pilotos e um de construtores. Em 2009, em um momento particularmente delicado de sua relação com a equipe criada por Bruce McLaren, a Mercedes decidiu vender suas ações e preferiu comprar a maioria do controle da fulminante Brawn, que havia acabado de ganhar os títulos de pilotos e construtores. Surgia aí a Mercedes GP, que remeteria à equipe dos anos 50.

A Mercedes GP é a Brawn GP, que já foi Honda, que já foi BAR, que já foi Tyrrell, que já foi Matra. As inúmeras trocas de nome e de dono que a equipe já sofreu, de certa forma, são bons indicativos de sua irregularidade histórica. Jackie Stewart e Jenson Button ganharam quatro títulos correndo pela estrutura, mas os tempos ruins foram tão ou até mais numerosos do que os bons. Atualmente, a Mercedes é estritamente a quarta força do campeonato. Não ameaça a Red Bull, a McLaren e a Ferrari, mas também não tem muitos problemas para ficar à frente da Renault. As coisas podem mudar um pouco em 2011, caso a Renault melhore bastante. Uma pena. A marca de três pontas merecia uma situação um pouco melhor.

MERCEDES MGP W02

Quando a Mercedes apresentou o MGP W01 no ano passado, muita gente torceu o nariz. Ao contrário do empolgante Brawn BGP 001, Ross Brawn havia optado por um carro de linhas conservadoras e que ainda perdia parte de seu pouco brilho natural com uma pintura discreta. Longe de ser feio, o carro não representava o espírito de vanguarda sempre presente na Mercedes-Benz. O resultado foi um 2010 apenas razoável, indigno de sua história.

Para esse ano, a Mercedes GP buscou afastar um pouco a caretice. Mesmo inspirado no antecessor em algumas áreas, o W02 é um carro bem mais interessante visualmente falando. O bico, alto porém curvado para baixo, segue a tendência iniciada pela Red Bull. Aquela curiosa entrada de ar dividida em dois foi abandonada para este modelo. Os sidepods e a cobertura do motor estão em um formato mais curvilíneo e suavizado. As entradas de ar laterais, a suspensão dianteira e a asa dianteira, a princípio, não mudaram muito.

Até aqui, o carro não empolgou muito dentro da pista. Além dos resultados iniciais não terem sido excepcionais, o W02 apresentou crônicos problemas de refrigeração. Até Melbourne, é bem provável que muita coisa seja mudada. Assim esperamos. O relativo pessimismo que permeia o ambiente na Mercedes é incômodo.

7- MICHAEL SCHUMACHER

Não dá pra falar em Fórmula 1 sem se lembrar do nome deste cidadão de Hürth-Hermülheim. Michael Schumacher é simplesmente o recordista absoluto de títulos mundiais (sete), vitórias (91), pontos (1.441) e poles (68). Aos 42 anos, Schumi ainda esbanja motivação e preparo físico de um jovem que acabou de iniciar a carreira. Infelizmente, o desempenho não é mais o mesmo de seus bons tempos de Benetton e Ferrari, equipes pelas quais ganhou seus títulos.

Além de ter os melhores números de todos os tempos, Schumacher é também o piloto mais velho do grid atual (42 anos recém-completados) e, não por acaso, o mais antigo, tendo estreado na categoria no GP da Bélgica de 1991 com um Jordan-Ford esverdeado. Daquele dia nublado de agosto em diante, Michael se tornou uma lenda do esporte, despertando amor e ódio, nunca indiferença, entre aqueles que acompanham minimamente o esporte. Eu tendo a considerá-lo o melhor piloto de todos os tempos, mas esta é uma questão que nunca será resolvida, já que há sempre um Senna, um Clark, um Fangio e um Prost à espreita.

Schumacher é bom em qualquer quesito: estratégia, arrojo, ultrapassagem, ritmo de classificação, ritmo de corrida, inteligência, performance na chuva, improviso em situações difíceis, enfim, qualquer situação relacionada a automobilismo pode ser resolvida pelo polivalente teutônico. Mas ele tem também seus defeitos – e pecados históricos. Os detratores não se esquecem do acidente com Damon Hill em Adelaide, da tentativa de acidente com Jacques Villeneuve em Jerez, das ordens de equipe, da mutreta da Rascasse em 2006 e de inúmeras outras histórias que colocam seu caráter em dúvida. Se o povo tem opiniões tão divididas – e tão apaixonadas -, é porque o cara dá bons argumentos para os dois lados.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Em 1996, durante os treinos para o Grande Prêmio do Brasil, a esposa de Schumacher, Corina Betsch, encontrou uma pobre vira-latas vagando pelo autódromo de Interlagos. Michael, que adora animais, não pensou duas vezes e levou a cachorrinha para a sua casa na Suíça. Pelo seu tamanho diminuto, a cadela ganhou o nome de Flöh, pulga em alemão.

8- NICO ROSBERG

Quando o ano de 2010 começou, boa parte da mídia e dos torcedores proferiu que Nico Erik Rosberg, sujeito de aparência andrógina e inteligência acima do normal, levaria uma surra inesquecível do multicampeão Schumacher. Enquanto Michael era a lenda, Rosberg era só um piloto bom, como muitos outros, que tinha como melhor predicado a genética. Nico é filho de Keke Rosberg, campeão de 1982 e um dos pilotos mais subestimados de todos os tempos.

O parentesco é curioso, já que Keke e Nico parecem ter saído de planetas diferentes. Keke era gordão, barbudo, fumava horrores e era conhecido pela rudez e pela falta de qualquer princípio civilizatório. Nico, por outro lado, é um garoto de berço que conseguiu estudar e aprender cinco línguas fluentemente. Em 2005, ele largou sua inscrição para o curso de Aerodinâmica no Imperial College of London, um dos melhores institutos da área no mundo, para correr na GP2, categoria na qual viria a ser campeão naquele mesmo ano. No ano seguinte, fez sua estreia na Fórmula 1 pela Williams.

Sua passagem pela equipe de Frank Williams teve altos e baixos determinados pela saúde financeira e técnica da equipe. Ainda assim, Rosberg conseguiu deixar uma boa impressão e não teve dificuldades para ser contratado pela Mercedes no final de 2009. No ano passado, contrariando as previsões, carregou a equipe nas costas e obteve três pódios. Em 2011, a expectativa pela primeira vitória segue. É um piloto de estilo calmo e sensato, meio avesso a estripulias e extravagâncias.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Em 2003, quando ainda corria na Fórmula 3 europeia, Rosberg teve uma pequena desavença com alguns jornalistas da Finlândia. Após uma corrida, ele foi abordado pelos tais jornalistas, que o cobriram de perguntas em finlandês. Eles acreditavam que os fatos do pai ter se naturalizado finlandês e dele mesmo correr sob a bandeira azul e branca significavam que Nico entenderia tudo e responderia naturalmente. Contrariado, Nico respondeu laconicamente: “desculpem, não falo sua língua”. E os deixou lá, com cara de tacho. Posteriormente, Nico Rosberg estudou e aprendeu um pouco do maldito finlandês. Além desta língua, ele é fluente em inglês, alemão, francês e italiano. E fala um pouco de espanhol também.

Seguindo a ordem das apresentações, a Renault é a terceira equipe a ser apresentada aqui. E nada de Lotus Renault por aqui. Se não chamo a Ferrari de Santander Ferrari ou a Virgin de Marussia Virgin, não tenho de enfiar um “Lotus” ao lado do nome Renault. Só exponho o nome completo quando tiver de fazê-lo. Dito isso, segue.

LOTUS RENAULT GP

Nostalgia. Para 2011, a tática da francesa Renault, bicampeã em 2005 e 2006, é apostar suas fichas na nostalgia e em um relacionamento empático com a torcida. A equipe chefiada por Eric Boullier mergulhou de cabeça em uma briga judicial contra a Lotus Racing de Tony Fernandes pelos direitos de uso do nome Lotus, referente a uma das equipes mais importantes da história da Fórmula 1. Do lado dos franceses, estava a turma da Lotus Cars, a divisão de carros de rua do Grupo Lotus que pertence à montadora malaia Proton. Os malaios tinham o apoio de David Hunt, dono de facto da marca Lotus, e de Clive Chapman, filho de Colin Chapman.

A briga ainda está transitando na justiça comum. E não terá solução, pelo menos, até o fim de março. Enquanto isso, a Renault abusa o quanto pode da imagem da Lotus. Em comunicados de imprensa, só se utiliza a alcunha Lotus Renault, enquanto que a outra Lotus é chamada de 1Malaysia. O carro foi pintado com as cores preto e dourado, remetendo aos tempos em que a antiga Team Lotus era patrocinada pelos cigarros da John Player Special. Para completar o espírito vintage, um dos muitos pilotos de testes é Bruno Senna, sobrinho do piloto que deu as últimas felicidades à equipe original. E os fãs babam com a associação entre Lotus, Renault, pintura preta e dourada e Senna.

Para mim, uma briga oportunista e desrespeitosa com a história da Lotus. E eu acho que a Renault, dotada de relevante história própria, não precisa disso. Sua passagem pela Fórmula 1, iniciada com um carro próprio equipado com um inédito motor turbo em 1977, rendeu muitos frutos à montadora estatal. Como equipe própria, ela existiu primeiramente entre 1977 e 1985, conseguindo um vice-campeonato em 1982, e desde 2002 até agora, fazendo Fernando Alonso ser bicampeão em 2005 e 2006. No início do ano passado, após passar por um período muito conturbado e perder boa parte de seus funcionários, a maior parte da Renault F1 foi vendida ao grupo luxemburguês Genii Capital, que passou a deter 75% das ações. 2010 foi um ótimo ano de recomeço e a equipe recuperou a boa imagem que tinha antes do escândalo do GP de Cingapura. Agora, o objetivo maior é retornar às primeiras posições. E fazer bater forte os corações dos saudosos.

RENAULT R31

Alguns dias antes do lançamento, feito em 31 de janeiro, a Renault havia anunciado que seu R31 teria um desenho “bravo”. Tomando como base o histórico dos últimos carros lançados pela equipe, era absolutamente possível imaginar que viria aí um carro quadradão e de linhas exageradas. De fato, o R31 é exatamente assim. A pintura preta e dourada teoricamente deveria suavizar um pouco o desenho, mas não conseguiu. E o vermelho da Total só serviu pra deixar tudo ainda mais desarmônico. Definitivamente, a Renault não conseguiu aproveitar o belo esquema visual que tinha.

O R31 lembra bastante o R30 utilizado no ano passado, com o bico chato e largo em sua parte final, ainda que seguindo a tendência geral de ser alto e levemente curvado em sua parte dianteira. A asa traseira é maior do que as da concorrência, o que dá ao carro uma aparência ainda mais avantajada. A graça maior do carro, no entanto, é o revolucionário sistema de escapamentos, localizado entre as entradas de ar e os sidepods. Resumidamente, os escapamentos dianteiros geram um fluxo de ar extra sob o assoalho, aumentando o downforce. Todo mundo está de olho para ver se esse sistema, que tem a desvantagem de aquecer demais as outras partes do carro, funcionará a contento. Pelo desempenho nos testes de pré-temporada, é bom manter um olho sempre atento nesse R31 diferentão.

9- NICK HEIDFELD

Desde 2005, é o piloto preferido deste que escreve aqui. Torço por pilotos injustiçados e subestimados e quem não foi mais injustiçado e subestimado pelo destino do que Quick Nick? Piloto veloz, extremamente confiável e inteligente, é estranho ver como Heidfeld sempre foi deixado de lado pelas equipes grandes, pela mídia e pela torcida. Até há uma justificativa, a do fato dele ser absolutamente low profile e pouco midiático. Mas não é o suficiente para explicar a falta de coerência entre seu talento e seus números.

Nick Heidfeld é o segundo piloto com mais grandes prêmios disputados sem uma única vitória, perdendo apenas para o desastrado Andrea de Cesaris. Há quem diga que seja o melhor piloto da história da Fórmula 1 sem nunca ter vencido, embora eu não me esqueça de Chris Amon. Seus detratores costumam dizer que o alemão teve bons carros para isso, como os da BMW Sauber em 2007 e 2008. Respondo que 2007 foi um ano dominado basicamente por McLaren e Ferrari e 2008 foi o ano de Robert Kubica, seu companheiro na BMW Sauber. Após ter feito algumas poucas etapas com um insuficiente Sauber e de ter sido dado como aposentado, Heidfeld terá talvez sua última chance de reverter esse saldo negativo.

Nick começou a correr na Fórmula Ford alemã em 1994. Entre aquele ano e 1999, ele foi campeão da Fórmula Ford 1600, da Fórmula Ford 1800, da Fórmula 3 alemã e da Fórmula 3000 internacional, currículo impecável para alguém que era visto como o “novo Schumacher”. Na Fórmula 1, pegou alguns carros bons, alguns médios e outros ruins. Estreou em 2000 pela fraca Prost e deixou impressão razoável. Depois, pilotou pela Sauber, pela Jordan, pela Williams e pela BMW Sauber. Notabilizou-se por vencer companheiros que se deram melhor na carreira, por algumas boas ultrapassagens duplas e por brilhar em corridas malucas. É um cara que merecia se aposentar com uma mísera vitória que fosse. O Bandeira Verde torce por isso.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Perto das mentes pouco brilhantes que costumam ocupar os carros do grid, Nick Heidfeld é quase um intelectual. É fã de música alternativa (Moby e The Kinks estão entre suas maiores preferências), gastronomia e arte.

10- VITALY PETROV

Fazendo parte de um dream team do Bandeira Verde, Vitaly Petrov é o segundo piloto preferido deste que escreve. Nesse caso, minha torcida se dá pelo insólito que sua participação representa. Além de ser o primeiro piloto russo da história, Petrov é um sujeito dos mais curiosos. Calado e fechado, conversa pouco sobre Fórmula 1 e quase nada sobre sua vida pessoal. Seu inglês é precário, mas não há problema, já que sua mãe faz o papel de relações públicas e intercede a cada vez que seu filho se encontra em apuros.

Sua carreira também destoa de qualquer outra do atual grid. Petrov começou a correr com um Lada em um campeonato local em 2001. Sua ascensão foi rápida e em 2004 ele já corria na Fórmula 3000 europeia. Em 2006, fez a segunda metade da temporada da GP2 pela pequena DPR. Nos três anos seguintes, seguiu na categoria correndo pela poderosa Campos, que virou Addax em 2009. Neste ano, o russo conseguiu o vice-campeonato e todas as atenções da Fórmula 1.

Levando uma boa grana, advinda do apoio de uma apresentadora de TV e do governo russo, Petrov conseguiu arranjar uma vaga na Renault, que estava precisando de uns cobres a mais. Seu ano de estreia foi razoável: ele andou muito bem na China, na Hungria e em Abu Dhabi, mas teve muitos erros e acidentes em outras etapas. Ainda assim, Eric Boullier decidiu dar outra chance ao novato. E o soviético seguirá na Fórmula 1 em 2011. Resta a ele devolver o voto de confiança marcando mais pontos e batendo menos.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Por incrível que pareça, Vitaly Petrov não sabia da existência de Michael Schumacher até alguns anos atrás. É uma consequência do velho hermetismo russo.

PILOTOS DE TESTES: BRUNO SENNA, ROMAIN GROSJEAN, FAIRUZ FAUZY, HO-PIN TUNG E JAN CHAROUZ

A Renault escalou um verdadeiro exército de Brancaleone para compor sua equipe de pilotos de testes e pilotos reserva. É algo exagerado, ainda mais sabendo que os testes são limitadíssimos e a possibilidade de um dos pilotos ficar de fora sempre é baixa. E mesmo que isso aconteça, como aconteceu agora com Robert Kubica, a Renault irá atrás primeiramente de gente mais experiente. No fim das contas, é só uma turma de aspones que a equipe mantém por motivos que geralmente remetem ao lado financeiro e comercial da coisa.

Bruno Senna e Romain Grosjean são os dois pilotos reserva da equipe. Senninha, que fez um ano de estreia conturbado pela Hispania, preferiu a segurança de não fazer nada vestindo o macacão da Renault. É o primeiro reserva. Grosjean, filho de um advogado da Renault, é ótimo piloto, mas queimou sua imagem fazendo algumas péssimas corridas com a mesma equipe em 2009. Agora, fará um ano completo na GP2 visando o título e o retorno à Fórmula 1 em 2012.

Os outros três só estão lá para dar algum tipo de esperança furada aos seus países. Fairuz Fauzy, Ho-Pin Tung e Jan Charouz estão muito abaixo do nível exigido pela Fórmula 1 e precisariam de uma enorme reviravolta na carreira para que consigam algo. O malaio Fauzy e o chinês Tung ainda são beneficiados pela questão da nacionalidade, que interessa muito à montadora Renault. E Charouz, checo que corre na AutoGP, é apadrinhado do Gravity Sports Management, programa de formação de pilotos ligado ao Genii Capital. Some os três e não dá um Petrov.

Sem grandes assuntos para hoje, continuo apresentando os carros da temporada 2011. Como dito no meu artigo sobre a Ferrari, a ordem dos carros é referente à data de lançamento deles. O primeiro apresentado aqui foi o Ferrari F150, que mudou de nome e virou F150th Italia, nome que só expõe a já latente breguice ferrarista. Falo, agora, da Lotus, a segunda equipe a se apresentar nesse ano.

TEAM LOTUS

Se você porventura entrou em coma após o GP da Austrália de 1994 e acordou hoje, tenderá a pensar que a Lotus conseguiu sobreviver às suas inúmeras crises, enterrou adversárias e está aí, firme e forte. Pois é, pequeno gafanhoto: você está redondamente enganado. O nome é igual, o logotipo é igual e os resultados estão muito parecidos com aqueles obtidos no início dos anos 90. Mas as semelhanças acabam aí. A Team Lotus atual é a Lotus Racing do ano passado, equipe criada por uma turma de malaios ambiciosos no final de 2009. E aos que acordaram do coma: o tal GP australiano foi a última corrida da antiga Lotus criada por Colin Chapman.

A Lotus original é talvez a segunda equipe mais admirada de todos os tempos, perdendo apenas para a Ferrari. Liderada pelo engenheiro Colin Chapman, ela dominou inúmeros campeonatos de várias categorias e notabilizou-se pela sua inventividade e pelo espírito de vanguarda, trazendo inúmeras novidades à Fórmula 1. Foi a Lotus que implantou, entre outras novidades, os aerofólios, os patrocinadores comerciais que não tem envolvimento direto com a indústria automobilística, o carro-asa e a suspensão ativa.

Mas Chapman morreu (ou não) em 1982 e a equipe entrou em um processo inevitável de decadência. Com Ayrton Senna, teve seus últimos momentos felizes. Os anos 90 foram cruéis para uma equipe que, definitivamente, havia perdido a capacidade de se reinventar. A falência veio em janeiro de 1995, de maneira triste.  Findava-se a história do Team Lotus… até 2009.

Um grupo de empresários malaios, liderado pelo magnata aéreo Tony Fernandes, decidiu recriar a lendária equipe, com direito a pintura british racing green, aprovação de Clive Chapman e tudo o mais. Com o nome Lotus Racing, os asiáticos construíram um belo porém conservador bólido verde e amarelo e entregaram duas unidades aos experientes Jarno Trulli e Heikki Kovalainen. O ano de estreia foi difícil e nenhum ponto foi obtido, mas a impressão deixada foi muito melhor do que a das outras duas equipes novatas. Em 2011, já com o nome Team Lotus, a equipe pretende sair do pelotão da pindaíba e dar um salto para o meio do grid.

LOTUS T128

Assim como a Ferrari, a Lotus também foi obrigada a mudar o nome de seu carro. Inicialmente, ele seria TL11, referência clara ao nome da equipe (Team Lotus) e ao ano de 2011. Sabe-se lá por que razão, a apresentação oficial, feita por meio de uma revista eletrônica, foi feita com o nome T128. Paciência… Mas para felicidade dos novos fãs da equipe, o carro tem linhas bem mais interessantes do que o T127.

As diferenças entre os dois carros são marcantes. O motor será o Renault, em substituição ao Cosworth do ano passado. Enquanto o T127 tinha um bico reto e alto, o T128 tem um bico curvado para baixo de maneira acentuada. Mais atrás, a entrada de ar sobre a cabeça do piloto foi dividida em duas, com cada parte sendo colocada em um lado da quilha, solução criada pela Mercedes no ano passado. A suspensão traseira, agora, é pushrod. O KERS, no entanto, segue ausente. Detalhes que deverão garantir resultados bem mais expressivos do que no ano passado. Até agora, os resultados nos testes não foram geniais. Mas ainda é cedo pra qualquer prognóstico.

20- JARNO TRULLI

Maior pensador do niilismo, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche acreditava que, a partir do momento em que a moral cristã era desmascarada e todos os seus alicerces eram reduzidos à ruína, o ser humano perdia seu norte e sua vida deixava de ter qualquer sentido ou propósito. Sendo bem reducionista, o niilismo é a expressão mais complexa e radical do pessimismo. Nietzsche, que disse que Deus estava morto, morreu. Mas reencarnou em um piloto de Fórmula 1, o italiano Jarno Trulli.

Aos 37 anos, Trulli é aquele sujeito que nem deve saber por que ainda está na Fórmula 1. Após quatorze temporadas e apenas uma mísera vitória, obtida de maneira brilhante no principado de Mônaco, ele é apenas uma sombra daquele jovem atrevido que arrepiou o paddock com seus brilhantismos na Minardi e na Prost. Quem não se esquece daquelas 37 voltas lideradas de maneira magistral no GP da Áustria de 1997? Tão espalhafatoso como seu desempenho na pista era seu visual, repleto de chuquinhas, rabos de cavalo e capuzes.

Pois bem, esse Trulli está morto. Após chamar a atenção de todos nos seus três primeiros anos de carreira, Jarno embarcou na Jordan, na Renault e na Toyota. Em todas essas equipes, o italiano mostrou enorme garra nos treinos oficiais, mas um desempenho bastante apático nas corridas. Para piorar, como um Jean Alesi do novo milênio, a sorte raramente estava ao seu lado. Trulli já perdeu vários pódios e bons resultados devido a quebras. Na Lotus, sofreu bem mais problemas do que seu companheiro Kovalainen. O que Jarno ainda espera da Fórmula 1? Pelo tom sempre negativo de suas declarações, não muita coisa. Afinal, não dá pra esperar muita felicidade de um italiano que não gosta de futebol…

21- HEIKKI KOVALAINEN

Se Trulli é aquele cara com motivação de funcionário público em vias de se aposentar, o finlandês Heikki Kovalainen é só sorrisos. Mas como um cara que já andou de Renault e de McLaren pode ser feliz na Lotus? Oras, nem sempre estar na melhor empresa significa ser mais feliz. Nas duas equipes grandes, e em especial na McLaren, Kovalainen era tratado como um zero à esquerda e ninguém dava muito crédito a ele. Na Lotus, por outro lado, ele é o rei.

Kova é um dos sujeitos mais subestimados do grid. Seu talento pode ser comprovado em uma rápida olhada em seu currículo: destaque da Fórmula Renault e da Fórmula 3 britânica, campeão da World Series by Nissan em 2004 e vice-campeão da GP2 em 2005. Na Renault, foi piloto de testes em 2006 e segundo piloto de Giancarlo Fisichella em 2007. Seu ano de estreia, aliás, foi dividido em duas partes: uma terrível, que durou até os treinos oficiais do GP do Canadá, e outra ótima, que iniciou a partir do GP do Canadá e foi até o fim do ano. Nas tabelas, Heikki conseguiu terminar à frente de Fisichella. Nada mal para um piloto considerado tão ruim.

Sem grandes escolhas tanto por parte do piloto como por equipe, a McLaren acabou trazendo Heikki Kovalainen para debaixo de suas asas em 2008. O relacionamento entre os dois lados não foi grandes coisas e era visível que a única utilidade do finlandês na equipe era a de ajudar Lewis Hamilton na briga pelo título. Em 2008 e 2009, mesmo dirigindo um carro minimamente razoável, ele só conseguiu uma vitória e uma pole-position, ambas obtidas no primeiro ano. No segundo, ele marcou o mesmo número de pontos que Felipe Massa, ausente em várias etapas, e foi considerado um dos piores pilotos do ano. Sua carreira na Fórmula 1, após apenas três anos, parecia encerrada.

Mas eis que aparece a mão santa de Tony Fernandes, que decide dar uma chance ao finlandês mais extrovertido que já correu na Fórmula 1. Kovalainen agradeceu o voto de confiança e fez uma ótima temporada para os padrões da equipe, quase sempre liderando a turma das equipes novatas e obtendo um bom 12º lugar em Suzuka. De um dos piores pilotos de 2009, ele se transformou em um dos destaques positivos em 2010. Em 2011, a expectativa é de marcar os primeiros pontos da equipe. Pode ser que Heikki Kovalainen nunca mais volte às primeiras posições, mas só o fato de correr em um lugar onde todos os respeitam já está muito bom.

Começo hoje a apresentação das doze equipes que disputarão a temporada 2011. Começo hoje por um motivo: não tenho qualquer outro assunto pra expor aqui. Na verdade, tenho vários, mas não acho que esse seja um bom dia para expô-los. Pegando carona no início dos testes, é bom conhecer o que irá mudar e o que seguirá igual.

Faço as apresentações pela ordem do lançamento dos carros. Ou seja, começo pela Ferrari, sigo com a Lotus, com a Renault e assim por diante. E não espere regularidade. Faço o perfil da Ferrari hoje, mas posso acabar fazendo o da Lotus somente na semana que vem. De qualquer jeito, não se preocupe. Até o domingo da corrida do Bahrein, todas as doze equipes serão radiografadas aqui.

SCUDERIA FERRARI

Quando se fala em Fórmula 1, é impossível ignorar a Scuderia Ferrari. Como seus fãs mais enlouquecidos costumam dizer, a Ferrari transcende a Fórmula 1 e esta definitivamente não consegue sobreviver sem a mais famosa marca de carros do mundo. Apesar de achar tudo isso um exagero, um punhado de besteiras, não há como negar a força do nome e a tradição que estão contidos na turma do cavalo rampante.

E pensar que tudo começou com a rebeldia de Enzo Ferrari, um fiel parceiro da Alfa Romeo que utilizava seus carros para as competições dos anos 30. Il Comendatore, assim designado por Benito Mussolini, decidiu por a mão na massa e construir seus próprios carros de competição. O primeiro protótipo produzido foi o 125S, um simpático carro esporte de 12 cilindros, em 1947. Três anos depois, a Ferrari daria as caras na primeira temporada daquele novíssimo campeonato de Fórmula 1. Não disputou a primeira etapa, realizada em Silverstone, mas inscreveu quatro carros para a segunda, em Mônaco.

De lá para cá, aquela pequena equipe garageira se transformou em um mito da indústria automobilística. Disputou 812 corridas, venceu 215 e levou para Maranello 16 títulos de construtores e 15 títulos de pilotos. Eternizou nomes como Alberto Ascari, Phil Hill, John Surtees, Jacky Ickx, Clay Regazzoni, Niki Lauda, Michele Alboreto, Gerhard Berger, Alain Prost, Jean Alesi, Michael Schumacher e Kimi Raikkonen. Introduziu novidades como o câmbio semi-automático em 1989. Celebrou temporadas espetaculares e amargou outras terríveis. Agregou um sem-número de fãs ao redor do mundo. Não gosto da Ferrari, mas é impossível ignorá-la. Por mais que eu discorde, a Fórmula 1 seria menor sem ela.

MODELO: F150

O primeiro carro apresentado foi exatamente este aqui, o F150. Não estranhe o nome de picape: segundo Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, é uma homenagem aos 150 anos da reunificação italiana. Dito isso, façamos rápida análise sobre a picape.

O conservadorismo deste carro, comportamento típico da Ferrari destes últimos anos, é latente. As mudanças mais notáveis são perceptíveis apenas aos olhos mais detalhistas. Dizem que o sistema de transmissão está mais alto e mais curto. O sistema de suspensões pullrod foi remodelado de modo a permitir um maior aquecimento de pneus, o maior sofrimento de Felipe Massa em 2010. As laterais ficaram maiores, mais achatadas em cima e com desenho mais ondulado do que as do ano passado, de modo a aumentar a entrada de ar e comportar o KERS. Há quem se lembre do F60, carro que também tinha essas características e que também tinha de comportar o KERS.

Na frente, a maior diferença a olho nu: o bico, bem mais alto e ligeiramente mais fino, uma tendência copiada da Red Bull. A asa dianteira tem sobre ela uma microasa mais incrementada que a do ano passado. O conjunto da asa traseira não parece ter mudado muito: apenas a parte inferior da lateral foi arredondada. Enfim, detalhes que só dizem alguma coisa na teoria. O teste real, como sempre, será feito na pista. Para os domingueiros, dá pra dizer que o F150 não é lá nenhuma revolução com relação ao F10.

A pintura é a mesma do ano passado, com um tom relativamente escuro de vermelho dominando todo o carro e as asas dianteira e traseira pintadas de branco, exigência do Santander, patrocinador principal da equipe. O código de barras da Marlboro desapareceu definitivamente, mas o novo logotipo da Ferrari, colocado na cobertura do motor para quem quiser ver, é bastante semelhante ao logotipo do referido cigarro, uma esperta burlada na legislação europeia, que proíbe publicidade tabagista. Ah, saiu a Mubadala, entrou a Tata, nada que mude o curso do mundo.

5- FERNANDO ALONSO

Fernando Alonso Díaz, a completar 30 anos em 29 de julho, é aquele típico sujeito que você odiaria ter como colega de trabalho. Chega sempre dez minutos antes de você, bajula o chefe, leva cafezinho para todos os seus outros colegas, faz os melhores relatórios, joga um charme para as secretárias, fica até mais tarde e, acima de tudo, está pronto para te dar uma punhalada nas costas visando àquela promoção. É antiético, é coisa de filho da puta. Mas estaria ele errado?

É assim que funciona a cabeça de Alonso, espanhol da região das Astúrias, sujeito acostumado a feitos pródigos. Fez sua primeira corrida de kart aos quatro anos. Aos 18, já poderia esfregar na cara dos outros que era campeão da então ascendente Fórmula Nippon local. Com 19, vencia de maneira espetacular a etapa de Spa-Francorchamps da Fórmula 3000 Internacional em 2000. No ano seguinte, estreou na Minardi e chamou a atenção de muita gente. Um de seus protetores era Flavio Briatore, aquele.

Briatore o levou à Renault, mantendo-o como piloto de testes em 2002 e promovendo-o à titularidade em 2003. A aposta deu certo: Alonso ganhou os títulos de 2005 e 2006 de maneira impecável. Em 2007, teve uma infelicíssima passagem pela McLaren e decidiu retornar à sua equipe original, a Renault. Ficou por lá por outros dois infelizes anos até ser chamado para correr na Ferrari em 2010. À sua maneira, fez tudo o que tinha de fazer: conquistou os muitos corações da torcida, assumiu a liderança da equipe e levou o limitado F10 à briga pelo título até a última etapa. Tem histórico de polêmicas, como o “Cingapuragate” de 2008, a ordem de equipe de Hockenheim/2010 e o choro de mau perdedor de Abu Dhabi/2010. Ainda assim, a meu ver, é o piloto mais completo do grid atualmente.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Quando Fernando Alonso tinha quatro anos, seu pai decidiu dar um kart… à sua irmã mais velha. É que nem matricular o filho ao invés da filha em um curso de balé. Mas o pai percebeu que quem tinha jeito para o negócio era o moleque. Começou assim a carreira do bicampeão.

6- FELIPE MASSA

Há algo de errado no Felipe Massa dos dias atuais. Parece que lhe falta alguma coisa que sobrava naquele sujeito aguerrido e jovial de 2008. Seria o Felipinho? Ou algum resquício psicológico do acidente que quase o matou em Hungaroring há um ano e meio? Ou seria somente impressão? O fato é que Massa teve um apático 2010. E precisa reverter a situação neste ano, se quiser manter todo o respeito conquistado nos seus primeiros quatro anos na equipe.

É um momento decisivo na carreira de um dos pilotos mais promissores que o Brasil lançou ao mundo. Sua trajetória, que chegou a ser interrompida por falta de dinheiro, foi iniciada com inúmeras vitórias no kartismo brasileiro, prosseguiu com títulos na Fórmula Chevrolet (1999), Fórmula Renault europeia (2000), Fórmula Renault italiana (2000) e Fórmula 3000 Européia (2001) e culminou em sua estreia na Fórmula 1 pela Sauber em 2002.

Desde o início, Massa demonstrou que era um sujeito de muitas qualidades e alguns insistentes defeitos.  Apesar de carecer de certa calma em ultrapassagens e de sofrer muito na chuva, o paulista demonstrou garra e vontade em seus anos iniciais pela equipe de Peter Sauber. Sua ascensão para a Ferrari, em 2006, representou uma fase de amadurecimento e de transformação em um piloto de ponta. O auge foi 2008, quando Felipe Massa venceu seis corridas e chegou a “estar” campeão por alguns poucos mas cruéis minutos naquele inesquecível GP do Brasil. Um 2009 infeliz que foi interrompido por uma maldita mola em Hungaroring e um 2010 apático representaram a fase mais difícil da carreira de Massa. Que 2011 seja o início de outra fase, bem mais rósea.

O QUE VOCÊ NÃO SABE DELE: Em 1995, Felipe Massa foi impedido de participar de uma corrida em Itu válida pela categoria Junior do Campeonato Paulista de Kart. O motivo? Felipe era patrocinado pela cervejaria Belco, na qual um dos sócios era seu pai, e a pista em Itu era propriedade da Schincariol, concorrente da Belco. A disputa entre cervejas deu um bafafá que acabou resultando no cancelamento da etapa.

PILOTO DE TESTES: JULES BIANCHI

Esse daí é uma das esperanças do automobilismo francês. Jules Bianchi, neto de Lucien Bianchi, astro do automobilismo nos anos 60, desempregou Giancarlo Fisichella, Luca Badoer e Marc Gené ao ser anunciado como único piloto de testes da equipe em 2011. Credenciais para isso, ele tem. Jules foi o campeão da Fórmula 3 europeia em 2009 e da Fórmula Renault francesa em 2007. No ano passado, correu na GP2 pela poderosa ART e decepcionou, mas seguirá na equipe em 2011 e tentará levar o título. Pode não ser o melhor entre todos os jovens do automobilismo de base, mas é alguém a ser considerado para uma vaga na Fórmula 1 já em 2012.

VIRGIN RACING

Quando a FIA anunciou a Manor como uma das três novatas escolhidas para 2010, todo mundo torceu o nariz. Afinal de contas, era uma equipe que tinha surgido do nada e que cuja maior experiência era a Fórmula 3 inglesa. Passados quase dez meses, ironicamente, é a equipe novata mais adiantada de todas. Renomeada Virgin após a compra da estrutura por parte de Richard Branson em Setembro, a equipe apareceu com um belo carro vermelho e preto um pouco mais rápido porém mais problemático que a Lotus. A motivação maior de Branson é exatamente superar Fernandez, em uma disputa particular entre magnatas da aviação.

Sediada em Dinnington, UK
Estreante

 

24- TIMO GLOCK

O sorriso era dos tempos da Toyota. Já na Virgin...

É talvez o piloto mais sem brilho do grid. Não que seja um mau piloto, muito pelo contrário. Glock, se não é gênio nos treinos, tem um excelente ritmo de corrida e é um piloto confiável. O problema é que ele não chama a atenção de jeito nenhum. Ou melhor: na única vez em que isso aconteceu, ele foi o responsável pela definição do campeonato de 2008, quando teve problemas de pneus na última volta da corrida de Interlagos e acabou deixando Hamilton passar e obter o resultado que precisava pra ser campeão. Depois de dois anos bons e discretíssimos na Toyota, será primeiro piloto da Virgin. A conferir.

Alemão, de Lindenfels, nascido em 18 de Março de 1982
36 GPs disputados
3 pódios
51 pontos
Campeão da GP2 em 2007, rookie do ano da ChampCars em 2005

25- LUCAS DI GRASSI

Urgh...

Mal comparando, é igual ao seu companheiro de equipe: ótimo em corrida mas apagado. Vice-campeão da GP2 em 2007 e terceiro colocado nos dois últimos anos, Lucas sempre chamou a atenção (?) mais pela constância do que exatamente pela velocidade. Sempre se envolveu muito pouco em acidentes (só me lembro de uma pancada em Hockenheim na F3 em 2005) e raramente erra. Mas ainda deve um pouco em agressividade. Depois de dois séculos na principal categoria de base européia, finalmente encontrou uma vaga de titular na F1. É membro do Mensa (panelinha dos gênios) e ex-estudante de Economia, atraindo uma pequena simpatia por parte deste blog.

Brasileiro, de São Paulo, nascido em 11 de Agosto de 1984
Estreante
Vice-campeão de GP2 em 2007, vencedor do GP de Macau em 2005 e vice-campeão da F-Renault brasileira em 2002

SAUBER MOTORSPORT

Em uma temporada tão sui generis como 2010, uma equipe com a alcunha de BMW e um motor Ferrari não deixa de ser um monstrengo. Por algum tempo, o nome oficial da equipe era BMW Sauber-Ferrari. Felizmente, as coisas voltaram aos seus devidos lugares e restou apenas o singelo nome de Sauber. A equipe, que pertence hoje em dia à Peter Sauber, utilizou o “BMW Sauber” para poder utilizar as benesses de ser uma equipe já existente, como a numeração e a logística gratuita. Como não deu certo, volta-se com o Sauber e tudo como dantes no quartel d’Abrantes. Depois do anúncio da saída da montadora alemã, a FIA demorou muito tempo para anunciar a participação do seu espólio em 2010. E agora ela está aí. O carro, sem patrocinadores, parece bom. 

Sediada em Hinwil, Suíça
215 corridas (como Sauber, apenas)
6 pódios
195 pontos

22- PEDRO DE LA ROSA

Pedro, nós na Sauber não temos muito dinheiro. Seu salário vai ser esse daqui...

O espanhol é um dos tiozões do grid: 39 anos de idade e cara de quem tem mais. Seu início nos monopostos se deu no distante ano de 1989, quando seu compatriota Alguersuari sequer tinha nascido. Fez uma carreira correta e chegou à F1 em 1999 pela extinta Arrows. Ficou um tempo zanzando lá no final do grid com ela e com a Jaguar até 2002. Desde então, preferiu a sossegada vida de piloto de testes da McLaren e lá ficou até 2009. É meio lento, mas tem um enorme conhecimento técnico. Não tenho informações sobre a existência de fãs dele.

Espanhol, de Barcelona, nascido em 24 de Fevereiro de 1971
71 GPs disputados
1 pódio
29 pontos
Campeão da F-Nippon em 1997, do SuperGT japonês em 1997 e da F3 japonesa em 1995

23- KAMUI KOBAYASHI

Kamui, é o Howett. Seguinte: acabou a Toyota. O que você vai fazer?

Ao contrário de seu paleozóico companheiro, é um cara que todos gostam. Sua estréia na F1 ocorreu em Interlagos no ano passado. Fez algumas ultrapassagens e deu um X em Jenson Button. Na corrida seguinte, fez outro X no campeão inglês. Depois disso, virou o piloto da moda. Aí veio o fim da Toyota e a informação de que Kamui teria de voltar para o Japão para trabalhar fazendo sushis no restaurante do pai. Peter Sauber o resgatou da bucólica vida gastronômica e ele terá a chance de fazer uma carreira. Tão agressivo quanto azarado, pode dar muito certo como pode não dar em nada. É uma incógnita.

Japonês, de Amagasaki, nascido em 13 de Setembro de 1986
2
GPs disputados
3 pontos
Campeão da GP2 Asia em 2008, da F-Renault européia em 2005 e da F-Renault italiana em 2005

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