Top Cinq


Pré-temporada é sempre um saco. Mas a entressafra 2009-2010 foi histórica. Nunca tivemos tantas idas e vindas com relação a equipes, pilotos, regulamentos, dirigentes e equipamentos. Até semana passada, ainda havia indefinições. Passado o período e iniciada a temporada 2010, faremos um flashback sobre cinco personagens que só aumentaram a nossa ansiedade para a temporada.

5- FERNANDO ALONSO

Passadas a polêmica seleção de equipes e a igualmente polêmica briga entre FIA e FOTA, a novelinha envolvendo o bicampeão espanhol foi o primeiro grande assunto referente à temporada 2010. Fernando Alonso, que pagava seus pecados em uma horrenda Renault, não sabia se casava ou se comprava uma bicicleta. Acabou casando com a Ferrari em outubro do ano passado.

Mas isso não aconteceu sem ter muita gente palpitando atrás. A ávida mídia espanhola, que falava em Alonso na Ferrari desde os tempos do Mansell de bigode, bombardeou a todos com “anúncios extraoficiais” que não passavam de boatos ou pura mentira descarada. Mas no fim, tudo deu certo, Alonso deu adeus à jabiraca francesa e pulou para o colo de Maranello.

4- ADRIAN CAMPOS

Sua equipe, a Campos, até parecia saudável à primeira vista. Em Abu Dhabi, eles até fizeram uma coletiva de imprensa para anunciar Bruno Senna. Adrian fez até questão de vir para o Brasil um tempo depois para mostrar seus planos. A Dallara trabalhava a todo vapor e tudo indicava que a equipe era a estreante com maior potencial.

No entanto, algo de muito errado acontecia lá pelos cantos de Murcia. A equipe trabalhava duro, mas os patrocinadores não vinham. Bernie Ecclestone, no final do ano, deu a dica: a Campos está em sérios apuros. E desde então, a equipe espanhola passou a frequentar o noticiário diário com notícias muito ruins. Durante todo o mês de Fevereiro e boa parte do mês de Março, Campos trabalhou para vender sua equipe, cogitando a hipótese de vendê-la para Tony Teixeira, dono da A1GP, e até mesmo para Zoran Stefanovic. No fim das contas, seu sócio José Ramón Carabante acabou comprando a estrutura.

E Campos acabou sendo chutado apra escanteio.

3- USF1

A piada da pré-temporada. A equipe americana, que começou com um pretensioso anúncio transmitido ao vivo pelo Speed Channel, prometia ser aquilo que equipe ianque nenhuma conseguiu: um fenômeno que atraísse a atenção de espectadores, mídia e patrocinadores dos Estados Unidos. Liderando a empreitada, Peter Windsor e Ken Anderson, dois indivíduos conhecidos por terem muito mais marketing pessoal do que competência.

O caso é que, desde então, deu tudo errado. A própria equipe admite que “subestimou o tempo para o desenvolvimento do carro”, o que é ridículo. Os patrocinadores não vieram, devido à crise e à incredulidade para com o projeto. A USF1, que queria uma dupla local, sequer conseguiu contratar um piloto americano: teve de ir atrás de um argentino. E o tempo voava.

Os americanos chegaram em Fevereiro com apenas um bico, um piloto e ceticismo total. Tentaram adiar sua estréia, tentaram se unir com a Stefan mas tudo deu errado. E o fim foi decretado no começo de Março. A USF1 também não conseguiu ser um fenômeno ianque.

2- ZORAN STEFANOVIC

Zoran é uma espécie de fantasma eslavo da Fórmula 1. Seu sonho declarado era abrir a primeira equipe sérvia da categoria, e ele persiste há mais de 10 anos. Na seletiva do ano passado, Stefanovic enviou seu pedido de inscrição da sua equipe Stefan GP para a temporada 2010, pedido esse indeferido. Na época, ele até ameaçou processar a FIA, no que não deu em nada. Tudo indicava que sua aparição terminaria por aí, mas ele não desistiu.

Com o fim da Toyota, Stefanovic foi atrás de John Howett e comprou o espólio da equipe. E contra tudo e contra todos, a equipe foi anunciando seus avanços e planos. Ela já tinha um carro pronto, o S01, que havia sido inclusive aprovado em crash-test particular. A Stefan faria testes em Algarve com Kazuki Nakajima e, provavelmente, Jacques Villeneuve. Os motores seriam Toyota, mas rebatizados como Stefan. Até mesmo dois contêineres foram enviados para o Bahrein. O pacote da equipe era muito mais real que o da USF1 ou até mesmo que o da Campos e a Stefan queria de todo jeito participar da temporada.

Mesmo com tudo isso e com a desistência da USF1, a FIA, com o rabo entre as pernas, recusou sua entrada. Preferiu realizar outra seletiva para o ano que vem. E Stefanovic, provavelmente, estará lá.

1- MICHAEL SCHUMACHER

Chega de falar das novatas! Vamos falar de algo bem mais estabelecido. Michael Schumacher está de volta. Foi um assunto que emergiu com certa rapidez. A Brawn havia acabado de ser comprada pela Mercedes-Benz e Jenson Button fugiu para a McLaren. Como Barrichello já havia sido substituído por Nico Rosberg, ainda havia uma vaga aberta na equipe e tudo indicava que ela seria preenchida por Nick Heidfeld, que vinha merecendo há muito tempo uma equipe de ponta.

Mas eis que o nome do heptacampeão mundial apareceu. Schumacher, 41 anos, estava doido para voltar a correr após três temporadas fora. O alemão queria se divertir e queria também pagar uma dívida de gratidão à Mercedes, que o ajudou a entrar na Fórmula 1 em 1991. Os boatos começaram a ficar cada vez mais fortes. Michael já preparava seu físico, ao mesmo tempo em que a Ferrari aceitava sua participação em outra equipe. A vontade geral da torcida também era enorme.

E poucos dias antes do Natal, o anúncio oficial: Michael Schumacher voltaria à Fórmula 1 pela Mercedes. Todos fizeram festa, com exceção de Nick Heidfeld e este blogueiro eterno torcedor do alemão sem vitórias.

A USF1, retirada da temporada 2010 da Fórmula 1, acabou virando o grande mico dos últimos anos. Mas não foi o único. Em 60 anos da categoria, muitos projetos surgiram com furor e pareciam ser não só absolutamente viáveis como também muito bons, mas acabavam não dando em nada. O Top Cinq de hoje fala sobre cinco (ooh!) esboços de equipe que fizeram muito barulho mas sequer um parafuso de carro. Nada de DAMS, Dome e First. O buraco é mais abaixo aqui, e repare que essas equipes tem muito em comum com as novatas desse ano. Os anos citados são aqueles nos quais estas equipes eram esperadas.

5- BRAVO (1993)

O Andrea Moda foi tão bom que a Bravo quis reutilizar

Quando se fala em Nick Wirth, pensamos em Simtek e em Virgin. Depois, pensamos em Andrea Moda. Alguns ainda se lembram da sua passagem pela Benetton. Mas ele ainda teve outra, ainda que não tenha corrido: a espanhola Bravo, aquela que seria a primeira equipe do país na F1.

No final de 1992, Jean-François Mosnier, ex-diretor da Lola, anunciou a criação de uma nova equipe de Fórmula 1 com dinheiro de investidores espanhóis. O carro seria construído pelo estúdio Simtek baseado no Andrea Moda S921 e utilizaria motores Judd, ou seja, seria uma bomba. O chefe de equipe seria outro nome muito falado recentemente, Adrian Campos. Os pilotos seriam a sensação catalã Jordi Gené (irmão de Marc, e melhor que este) e Nicola Larini. Duas revelações espanholas fariam parte do programa de desenvolvimento de pilotos da equipe, um tal de Ivan Arias, da
F-Renault, e um certo Pedro de la Rosa, na época correndo na F3 Inglesa.

O projeto começou a morrer quando Mosnier morreu, de câncer fulminante, apenas dias depois da apresentação do projeto. A equipe ainda se inscreveu para 1993, mas o carro acabou não sendo colocado sequer pra testes e sumiu, oficialmente, dias antes do GP da África do Sul.

Equipe espanhola, Nick Wirth, Adrian Campos, desistência… não parece atual?

4- ASIATECH (2002, 2004)

Talvez a coisa mais concreta construída por alguma dessas equipes do Top 5

A Asiatech era uma empresa de engenharia malaia liderada por John Gano que surgiu na Fórmula 1 em 2001, quando pegou os antigos motores Peugeot e passou a fazer o trabalho de preparação e fornecimento para a Arrows naquele ano e para a Minardi em 2002. Mas a ambiciosa empresa queria mais: uma equipe de Fórmula 1 própria, a primeira da Malásia. Inicialmente, ela tentou comprar a Jordan ainda naquele ano, mas em vão. Se não deu, pensaram os malaios, vamos começar do zero.

Para isso, a Asiatech comprou um antigo estúdio de design da Williams e contratou Enrique Scalabroni para desenhar o carro. Uma maquete em escala reduzida daquilo que seria seu primeiro carro, o A01, foi apresentada à mídia no final de 2002 como o esboço do carro que viria a correr em 2004.  A equipe anunciou que a maior inovação estaria no câmbio de sete marchas, sabe-se lá qual.

Mas a Asiatech faliu impiedosamente meses depois, ainda em 2002, deixando até a pobre Minardi sem motores. E Scalabroni, conhecido por se envolver em um monte de projetos natimortos (daria um outro Top Cinq), fica a ver navios novamente.

3- EKSTROM (1986, 1987)

Bonitinho no papel... não, nem tanto

Uma equipe comandada por uma mulher. Já pensou?

Pois é, essa seria a Ekstrom Racing, equipe que estrearia na Fórmula 1 com a temporada de 1986 a todo vapor. Cecilia Ekstrom, que já tinha trabalhado na área de marketing em várias equipes, queria ter a sua própria. Só que o destino foi duro com ela.

Por ser uma mulher, Ekstrom teve na captação de patrocinadores sua maior dificuldade. Falou com empresas estabelecidas (a BAT, que faz cigarros) e com empresas voltadas para o público feminino, como a Fleur de Santé. Como ninguém levava a sério seu projeto, a Ekstrom não atraiu patrocinador nenhum. Sem dinheiro para nada, teve de demitir todos os mecânicos e até dívidas com companhias telefônicas ela conseguiu.

O sonho parecia terminado no final de 1986, mas ela ainda tentou comprar o espólio da Lola Haas e, com uma base estabelecida, poderia finalmente obter patrocinadores. Mas nada disso deu certo e Cecilia Ekstrom nunca mais falou em Fórmula 1 na vida. Mais para frente, publicarei um antigo texto meu mais detalhado sobre a equipe.

2- PHOENIX (2002)

Imagine esse carro com um motor Hart de 1999, sonho de consumo

Se desse certo, seria um caso patético no estilo Andrea Moda.

A Phoenix era uma, er… coisa que surgia a partir do espólio da então recém-falida Prost Grand Prix. O projeto da equipe surgiu com o nome de Dart apenas alguns dias antes do GP da Austrália de 2002. O pacote não poderia ser mais apetitoso: chassis Prost AP04 de 2001, motores Hart utilizados pela Arrows em 1999, transmissão do Arrows de 3 lugares utilizado em eventos promocionais e Gaston Mazzacane e Tarso Marques como pilotos. Um verdadeiro Reject GP.

Após o GP da Austrália, a equipe mudou de nome para Phoenix. E entrou com um pedido na justiça para que a FIA liberasse o enxerto para correr em 2002. Os boatos de que a equipe correria em Sepang eram fortes e, por isso, Gaston Mazzacane até chegou a ir para a Malásia esperando correr. Não deu em nada, e a Phoenix, caso tivesse o pedido deferido, só poderia aparecer em Mônaco.

Em primeira instância, no final de março, ele chegou a ser, e a Phoenix foi anunciada como a 12ª equipe. Mas a FIA recorreu e, em Maio, saiu o veredito final: nada disso. A alegação era que a Phoenix só serviria para manchar a honra do esporte. Além do mais, havia um monte de problemas de ordem financeira por trás: ela seria obrigada a pagar 48 milhões de dólares caso quisesse correr com o nome Phoenix, pois seria considerada novata. Além disso, a Minardi reclamou, pois se a Phoenix corresse, a equipe italiana não receberia os milhões de dólares que ela teria direito por, sem a Prost, ter sido considerada a 10ª equipe da F1.

Foi uma novelinha chata e de final feliz para o esporte.

1- PRODRIVE (1995, 1998, 1999, 2001, 2006, 2008, 2009, 2010, 2011?)

Esse é literalmente um carro da Prodrive para 2008

A Prodrive é uma empresa de competições pertencente a David Richards, ex-co-piloto de rally e ex-dirigente das equipes Benetton e BAR. Não é pouca bosta: ela prepara carros de corrida para a Aston Martin em Le Mans e para a Subaru no WRC, entre outros clientes famosos. O faturamento da empresa é de mais de 100 milhões de libras. Com a história, o pessoal e o dinheiro que possui, nada mais natural do que pleitear uma vaga na Fórmula 1. Mas, puxa vida, que insistência!

A saga de Richards tentando ser dono de equipe começa em, acredite, 1995! Naquele ano, ele tentou comprar, sem sucesso, o espólio da Simtek para completar aquela temporada. Em 1997, flertou com a Benetton e com a Tyrrell. Na Benetton, acabou entrando na equipe em 1998 e tentou fazer naquele mesmo ano uma espécie de “management buyout”, aquilo que Ross Brawn fez com a Honda, ao se associar à Arden (F3000) e à Pacwest (CART), mas também sem sucesso.

Em 2000, a Prodrive conversou com a Arrows e com a Minardi. Em 2005, ao mesmo tempo em que fazia uma oferta à Jordan, Richards fez sua inscrição para a temporada de 2008 como equipe B da McLaren. A FIA abriu uma seletiva para a 12ª vaga em 2008 e, entre 22 possibilidades, a Prodrive foi escolhida por apresentar o melhor projeto. Só havia um pequeno problema: a equipe queria usar o antigo McLaren, o que era proibido no regulamento.

No final de 2007, meses antes da estréia da equipe, a Williams vetou sua participação, alegando exatamente isso. Além do mais, a FIA fez uma verificação e concluiu que a Prodrive, com quatro funcionários (!), estava atrasada demais para competir em 2008. E assim acabou o sonho de Richards. NOT.

No início de 2009, ele ainda tentou comprar a Honda. Ainda nesse ano, a FIA abriu outra seletiva para escolher três equipes que compusessem o grid de 26 para 2010. A Prodrive se inscreveu outra vez, mas acabou não sendo escolhida graças à situação de 2007. No fim das contas, Richards ainda se ofereceu para comprar a Renault no fim do ano, mas a equipe foi vendida para o grupo Genii. Porém, Richards ainda não desistiu e quer aparecer na F1 em 2011.

Ufa.

O Top Cinq dessa semana é sobre pinturas de carros que apareceram muito pouco, quando muito em apenas um único dia, seja em treinos ou em corrida. As histórias são conhecidas, mas não custa lembrarmos dessas belezinhas (ou não).

5- BAR 006, ANTHONY DAVIDSON, TREINOS DE SEXTA NO FINAL DE 2004

Davidson e seu 555 car na terra do escorpião frito

O desenho mostra que pilotar não parece ser confortável. Isso porque o Davidson tem meio metro de altura...

Em 2004, a Fórmula 1 permitia que as seis piores equipes do ano anterior utilizassem um terceiro carro nos treinos de sexta-feira. Além de permitir que as equipes pudessem colher mais informações e fazer mais quilometragem com seus carros, o regulamento previa que esse terceiro carro poderia utilizar até mesmo uma pintura diferente, visando atrair mais patrocinadores para essas equipes, que eram teoricamente mais pobres.

A BAR, no final do campeonato, decidiu inovar, trazendo a cada corrida uma pintura diferente para o carro de Anthony Davidson. No Brasil, por exemplo, homenageando uma prática criminosa comum em São Paulo, o carro foi todo pichado e grafitado. Aqui, destaco duas pinturas: a usada na China, uma bela pintura azul que promovia os cigarros 555, e a melhor de todas, usada na Itália e que representava a posição do piloto dentro do carro, com as pernas desenhadas no cockpit e tudo!

4- RED BULL RB4, DAVID COULTHARD, GP DO BRASIL DE 2008

Coulthard e o Red Bull caridoso

Taí uma mudança com boas intenções: em sua última corrida na Fórmula 1, o GP do Brasil de 2008, o escocês David Coulthard resolveu compensar a horrenda temporada que fazia com uma campanha legal. Ele utilizaria um carro branco que divulgava o Wings for Life, um projeto de caridade patrocinado pela Red Bull que visava financiar pesquisas sobre a cura da paraplegia.

O carro é esse daí, muito bacana. Mas infelizmente, não pôde ser muito apreciado: Coulthard, como via de regra naquele ano, se envolveu em um acidente na largada.

3- MCLAREN MP4/2C, KEKE ROSBERG, GP DE PORTUGAL DE 1986

Carro enjoativo

Uma McLaren pintada de amarelo e branco? Pois é.

A intenção da Marlboro, naquele fim de semana, era fazer um teste visual com a intenção de ver se era possível divulgar os cigarros Marlboro Lights, cuja embalagem é dourada e branca. Assim, a McLaren pintou o carro de Keke Rosberg com essas duas cores para os treinos livres de sexta-feira. Alain Prost utilizaria o carro normal.

O resultado foi um desastre. O dourado acabou virando, em fotos e principalmente na precária transmissão televisiva da época, um amarelo que fazia doer os olhos. Além da transformação das cores, na TV o contraste entre o amarelo e o branco era pouco perceptível. A Marlboro se deu conta que aquela pintura não daria certo e, no sábado, Rosberg voltou a usar a pintura vermelha e branca.

2- LIGIER JS39, MARTIN BRUNDLE, GPS DO JAPÃO E DA AUSTRÁLIA DE 1993

Brundle e seu Ligier psicodélico (do Continental Circus)

Essa belezinha aí (peguei a foto do Continental Circus, fique bem claro) foi utilizada por Martin Brundle nas duas últimas corridas de 1993. A pintura foi feita pelo cartunista italiano Hugo Eugenio Bratt, conhecido por ser autor do HQ Corto Maltese. O objetivo também era promover um cigarro, no caso a Gitanes no Japão, e a marca vem implícita na pintura psicodélica na equipe. Apenas Brundle usou essa pintura: Mark Blundell corria com a pintura normal.

1- FERRARI NART 158, JOHN SURTEES, CORRIDAS AMERICANAS DE 1964

Ferrari revoltada

Muitos já conhecem essa história, muitos não conheciam.

Em 1964, a Ferrari queria lançar seu modelo de competição, o 250LM, como um carro do grupo 3, ou seja, um carro de turismo. Porém, para que um modelo se encaixasse no tal grupo 3, a empresa precisaria construir ao menos 100 unidades deste modelo. Caso isso não acontecesse, o carro seria considerado do grupo 3, um protótipo. Enzo Ferrari tinha uma artimanha: toda vez que queria que um carro novo seu não fosse considerado um protótipo, costumava prometer à FIA e ao Automobile Club D’Italia que mais unidades seriam construídas e que tudo era uma questão de tempo. É lógico que, depois, ele deixava a promessa para lá.

Só que, no caso do 250LM, o Automobile Club D’Italia não aceitou a proposta e não permitiu que o carro fosse comercializado como um carro de turismo, além dele não ser autorizado a participar de competições da categoria. Enzo Ferrari ficou furiosíssimo. E decidiu tomar uma decisão avassaladora: não usaria mais a cor vermelha, a cor oficial da Itália, em seus carros.

Para isso, a Ferrari cedeu sua inscrição e seus carros para a NART (North American Racing Team), uma empresa de competições criada por Luigi Chinetti responsável por exibir a marca Ferrari nos Estados Unidos e por colocar seus carros nas competições locais. A NART deveria pintar os 158 de azul e branco. E assim John Surtees e Lorenzo Bandini foram às corridas de Watkins Glen e Hermanos Rodriguez. A mudança, pelo visto, deu sorte: com dois segundos lugares, Surtees foi coroado o campeão de 1964. E pouco tempo depois, o comendador conseguiu o que queria: o Automobile Club D’Italia aceitou homologar o 250LM como um carro de turismo.

Esta é mais uma seção do Bandeira Verde. Toda semana, um top cinq (porque “top five” é clichê pra caramba) sobre o que há de melhor (ou pior) no automobilismo. A seção estréia com cinco histórias de pilotos que tinham um relacionamento especial com cinco pistas, seja pelo lado feliz ou pelo lado triste.

5- PASTOR MALDONADO, MÔNACO

 

Maldonado em 2009

 

Peraí, Maldonado em quinto? O cara sequer chegou à Fórmula 1! Mas esse é o Bandeira Verde: não importa se você está na F1 ou na F3 lituana, você terá algum espaço aqui.

Na sua ainda incipiente carreira, Maldonado tem muita história pra contar no principado. Em 2005, no seu primeiro ano correndo na World Series, ele foi banido para sempre de correr em Montecarlo. O motivo? Durante os treinos livres da corrida, ele ignorou uma bandeira vermelha e atropelou um fiscal de pista, deixando-o com uma séria lesão na coluna. Porém, o venezuelano recorreu da decisão e venceu, tendo sua participação permitida.

E como isso faria a diferença na sua carreira. Em 2006, Maldonado venceu pela primeira vez no circuito monegasco, ainda na World Series. Em 2007, fazendo sua quinta corrida na GP2 pela mediana Trident, Pastor venceria de ponta a ponta. Em 2008, largou na pole e só perdeu a corrida porque Bruno Senna estava inspirado e o ultrapassou na primeira curva. Em 2009, na segunda corrida do fim de semana, herdou uma vitória sortudíssima faltando poucas voltas para o fim. Já fez mais em Mônaco do que muito piloto estabelecido de Fórmula 1.

4- JEAN ALESI, MONTREAL

 

Alesi em 1995

 

Jean Alesi é um cara que ainda vai aparecer muito aqui no blog. E Montreal foi, definitivamente, a sua pista.

Sua primeira participação não foi muito brilhante: ele rodou em alta velocidade e bateu no carro estacionado de Nannini, quase capotando. Mas depois disso ele fez do circuito insular sua segunda casa: fez um corridão em 1991 até abandonar e, até 1997, teria feito nada menos que cinco pódios, quatro consecutivos.

A vitória de 1995, sua única na carreira, é o resultado que obviamente chama a atenção. Depois de tantas corridas azaradas, Alesi vinha em um sossegado segundo lugar quando Michael Schumacher apresentou problemas no final. O francês tomou a liderança e, segundo ele, as lágrimas não puderam ser contidas. Depois de cruzar a linha de chegada, o carro ficou sem combustível. E Alesi completou o trajeto de volta aos pits de carona no carro de Schumacher, saudando a torcida.

Depois disso, a sorte diminuiu e Alesi virou um ímã de acidentes: dois acidentes nas duas largadas da edição de 1998 e mais um acidente de largada em 1999. Mas em 2001, depois de um período negro, Alesi alcançava um brilhante quinto lugar a bordo de um Prost-Acer. Com direito a zerinhos no final e a jogar o capacete para a torcida.

3- JIM CLARK, SPA-FRANCORCHAMPS

Clark em 1962

Clark em 1962

Todo piloto ama Spa-Francorchamps, certo? Errado. E um detrator do circuito era, acredite, Jim Clark.

Clark achava o circuito, um mero punhado de estradas, perigoso demais para a Fórmula 1. Seu argumento era válido: na Copa de Spa de 1958, ele testemunhou a morte de Archie-Scott Brown, seu compatriota e amigo. Na corrida de F1 de 1960, ele viu as mortes dos também britânicos Alan Stacey, seu companheiro de equipe, e Chris Bristow. Tinha motivos para traumas, portanto.

Mas isso não o impediu de ser competitivo no circuito. Em 1962, Clark teve problemas com o motor Climax nos treinos e só conseguiu ser 12º. Porém, em um início de corrida no estilo Jim Clark, passou oito carros na primeira volta, se aproveitou do acidente entre Willy Mairesse e Trevor Taylor e deixou para trás também Graham Hill, vencendo com extrema folga. Foi sua primeira vitória na categoria.

E depois? Clark venceu as três edições seguintes da corrida de Spa, nunca largando da pole. Em 1967, fez sua única pole no circuito mas acabou tendo problemas e terminou apenas em sexto.

Spa foi o circuito onde Clark mais venceu na Fórmula 1. Um circuito que ele odiava, veja só. É bão ou não esse cara?

2- GERHARD BERGER, HOCKENHEIM

 

Berger em 1994

 

O austríaco sempre foi uma atração à parte em Hockenheim, um circuito que sempre gostou.

Em 1986, ele fez sua primeira melhor volta da vida lá. Isso depois de começar a corrida extremamente competitivo, ao largar em quarto e brigar pela liderança no começo.

Em 1988, só confusões: no warm-up, Eddie Cheever e Oscar Larrauri o empurraram, em conjunto, para fora da pista em altíssima velocidade. Berger mostrou muita habilidade em não bater. Na corrida, foi novamente testado: Piercarlo Ghinzani o empurrou para a grama molhada, mas Berger segurou o carro, passou o italiano por fora e ainda completou a rápida chicane que vinha logo a seguir. No ano seguinte, outra desventura: o pneu de sua Ferrari furou antes da primeira chicane e Berger passou reto, decolando e quase capotando de frente, perdendo o bico e a corrida.

Mas a sorte mudou para ele. Em 1994, Berger fez a pole, se livrou das confusões e venceu com extrema facilidade, dando à Ferrari sua primeira vitória desde 1990. Em 1996, ele largou em segundo e liderou a maior parte da prova até o motor estourar faltando apenas três voltas para o fim.

Em 1997, alegria e drama: depois de realizar uma complicada cirurgia dentária e de se ausentar por algumas corridas, Berger voltava à F1 em Hockenheim. Seu retorno ganhava contornos ainda mais dramáticos pelo fato de seu pai ter morrido dias antes. Mas Berger superou tudo isso, fez uma pole espetacular, liderou quase toda a corrida e venceu com sobras. E de quebra marcou a volta mais rápida, sua segunda (danke, Hiro) última na vida, exatamente 11 anos depois da primeira.

1- AYRTON SENNA, IMOLA

 

Senna em 1994

 

O nome de Ayrton Senna sempre é associado com pistas como Mônaco, Suzuka, Interlagos ou Silverstone. Mas não foi em nenhum desses quatro rincões que o brasileiro teve mais agruras e felicidades. Foi em Imola. Imola? Imola, exato.

Sua primeira experiência em Imola foi péssima: Senna teve problemas em seu Toleman, não conseguiu acertar o carro e acabou não conseguindo tempo para largar, fato único em sua carreira. Mas sua sorte mudaria: entre 1985 e 1991, ele obteria TODAS as poles desse circuito, sendo que em 1987, foi sua única pole do ano. Somando com a pole de 1994, oito poles em Imola. Ele não repetiu esse feito em nenhum outro circuito.

Suas corridas também marcaram: em 1985, ele liderou boa parte da corrida mas ficou sem combustível no final. Em 1988, ele venceu sua primeira corrida pela McLaren no fim de semana mais fácil da equipe naquele ano. Em 1989, ele venceu mas não sem se envolver em uma polêmica com Prost, ao desobedecer um acordo prévio e ultrapassá-lo na primeira volta. Em 1990, um pneu furado o tirou da corrida no começo. Em 1991, venceu debaixo de chuva e de erros de adversários. Em 1993, fez seu pior fim de semana debaixo de chuva na vida, ao sofrer dois acidentes.

E em 1994, todos sabem o que aconteceu. Imola se transformou no algoz de Senna.

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