Pré-temporada é sempre um saco. Mas a entressafra 2009-2010 foi histórica. Nunca tivemos tantas idas e vindas com relação a equipes, pilotos, regulamentos, dirigentes e equipamentos. Até semana passada, ainda havia indefinições. Passado o período e iniciada a temporada 2010, faremos um flashback sobre cinco personagens que só aumentaram a nossa ansiedade para a temporada.

5- FERNANDO ALONSO

Passadas a polêmica seleção de equipes e a igualmente polêmica briga entre FIA e FOTA, a novelinha envolvendo o bicampeão espanhol foi o primeiro grande assunto referente à temporada 2010. Fernando Alonso, que pagava seus pecados em uma horrenda Renault, não sabia se casava ou se comprava uma bicicleta. Acabou casando com a Ferrari em outubro do ano passado.

Mas isso não aconteceu sem ter muita gente palpitando atrás. A ávida mídia espanhola, que falava em Alonso na Ferrari desde os tempos do Mansell de bigode, bombardeou a todos com “anúncios extraoficiais” que não passavam de boatos ou pura mentira descarada. Mas no fim, tudo deu certo, Alonso deu adeus à jabiraca francesa e pulou para o colo de Maranello.

4- ADRIAN CAMPOS

Sua equipe, a Campos, até parecia saudável à primeira vista. Em Abu Dhabi, eles até fizeram uma coletiva de imprensa para anunciar Bruno Senna. Adrian fez até questão de vir para o Brasil um tempo depois para mostrar seus planos. A Dallara trabalhava a todo vapor e tudo indicava que a equipe era a estreante com maior potencial.

No entanto, algo de muito errado acontecia lá pelos cantos de Murcia. A equipe trabalhava duro, mas os patrocinadores não vinham. Bernie Ecclestone, no final do ano, deu a dica: a Campos está em sérios apuros. E desde então, a equipe espanhola passou a frequentar o noticiário diário com notícias muito ruins. Durante todo o mês de Fevereiro e boa parte do mês de Março, Campos trabalhou para vender sua equipe, cogitando a hipótese de vendê-la para Tony Teixeira, dono da A1GP, e até mesmo para Zoran Stefanovic. No fim das contas, seu sócio José Ramón Carabante acabou comprando a estrutura.

E Campos acabou sendo chutado apra escanteio.

3- USF1

A piada da pré-temporada. A equipe americana, que começou com um pretensioso anúncio transmitido ao vivo pelo Speed Channel, prometia ser aquilo que equipe ianque nenhuma conseguiu: um fenômeno que atraísse a atenção de espectadores, mídia e patrocinadores dos Estados Unidos. Liderando a empreitada, Peter Windsor e Ken Anderson, dois indivíduos conhecidos por terem muito mais marketing pessoal do que competência.

O caso é que, desde então, deu tudo errado. A própria equipe admite que “subestimou o tempo para o desenvolvimento do carro”, o que é ridículo. Os patrocinadores não vieram, devido à crise e à incredulidade para com o projeto. A USF1, que queria uma dupla local, sequer conseguiu contratar um piloto americano: teve de ir atrás de um argentino. E o tempo voava.

Os americanos chegaram em Fevereiro com apenas um bico, um piloto e ceticismo total. Tentaram adiar sua estréia, tentaram se unir com a Stefan mas tudo deu errado. E o fim foi decretado no começo de Março. A USF1 também não conseguiu ser um fenômeno ianque.

2- ZORAN STEFANOVIC

Zoran é uma espécie de fantasma eslavo da Fórmula 1. Seu sonho declarado era abrir a primeira equipe sérvia da categoria, e ele persiste há mais de 10 anos. Na seletiva do ano passado, Stefanovic enviou seu pedido de inscrição da sua equipe Stefan GP para a temporada 2010, pedido esse indeferido. Na época, ele até ameaçou processar a FIA, no que não deu em nada. Tudo indicava que sua aparição terminaria por aí, mas ele não desistiu.

Com o fim da Toyota, Stefanovic foi atrás de John Howett e comprou o espólio da equipe. E contra tudo e contra todos, a equipe foi anunciando seus avanços e planos. Ela já tinha um carro pronto, o S01, que havia sido inclusive aprovado em crash-test particular. A Stefan faria testes em Algarve com Kazuki Nakajima e, provavelmente, Jacques Villeneuve. Os motores seriam Toyota, mas rebatizados como Stefan. Até mesmo dois contêineres foram enviados para o Bahrein. O pacote da equipe era muito mais real que o da USF1 ou até mesmo que o da Campos e a Stefan queria de todo jeito participar da temporada.

Mesmo com tudo isso e com a desistência da USF1, a FIA, com o rabo entre as pernas, recusou sua entrada. Preferiu realizar outra seletiva para o ano que vem. E Stefanovic, provavelmente, estará lá.

1- MICHAEL SCHUMACHER

Chega de falar das novatas! Vamos falar de algo bem mais estabelecido. Michael Schumacher está de volta. Foi um assunto que emergiu com certa rapidez. A Brawn havia acabado de ser comprada pela Mercedes-Benz e Jenson Button fugiu para a McLaren. Como Barrichello já havia sido substituído por Nico Rosberg, ainda havia uma vaga aberta na equipe e tudo indicava que ela seria preenchida por Nick Heidfeld, que vinha merecendo há muito tempo uma equipe de ponta.

Mas eis que o nome do heptacampeão mundial apareceu. Schumacher, 41 anos, estava doido para voltar a correr após três temporadas fora. O alemão queria se divertir e queria também pagar uma dívida de gratidão à Mercedes, que o ajudou a entrar na Fórmula 1 em 1991. Os boatos começaram a ficar cada vez mais fortes. Michael já preparava seu físico, ao mesmo tempo em que a Ferrari aceitava sua participação em outra equipe. A vontade geral da torcida também era enorme.

E poucos dias antes do Natal, o anúncio oficial: Michael Schumacher voltaria à Fórmula 1 pela Mercedes. Todos fizeram festa, com exceção de Nick Heidfeld e este blogueiro eterno torcedor do alemão sem vitórias.

Você prefere andar nisso ou no carro da HRT?

O bom de ter um blog é esse: sair escrevendo o que você pensa. Portanto, alguns pitacos sobre o que virá no Bahrein. Coisas rápidas, mesmo.

SAKHIR: é uma pista um tanto injustiçada. Ninguém gosta porque ela, de fato, não rende lá grandes corridas. Mas convenhamos que ela permite ultrapassagens, muito mais difíceis de ocorrerem em rincões como Mônaco ou Silverstone. Para este ano, criaram um trecho absurdamente sinuoso que começa na curva 4, dando à pista mais de 6km de extensão. Dizem que é pra melhoras as ultrapassagens. Mas há gente cética, como o cracoviano Kubica. No mais, sendo bem conservador, creio em uma corrida apenas morna, nem muito ruim nem muito boa. E tome suco de trinj!

SCHUMACHER: alguém lá nos arredores de Stuttgart já percebeu que o carro da Mercedes não vai brigar pela vitória. E o vovô, como vai se comportar? Mas a maior dúvida é: ele vai colocar tempo no Rosberg ou não? É o piloto em quem vou ficar mais atento em todo o fim de semana.

HRT: tudo sendo ajeitado às pressas. Bruno Senna descolou um patrocínio de um banco hoje cedo. O pessoal está virando a noite acertando as duas jabiracas cor de grafite. O motor deverá ser ligado hoje ou amanhã. A Onyx começou exatamente assim em 1989. Em menos de cinco meses, já tinham um pódio no boletim. Mas não deve acontecer o mesmo com os hispanos.

RED BULL: Alonso já disse que será a vedete do fim de semana. Heidfeld também. A Red Bull terminou em grande forma no ano passado, fizeram menos quilometragem nos testes mas o pouco que foi feito já rendeu. O povo está com medo dos taurinos. Eu tinha em mente que Alonso venceria, mas mudo de idéia. Aposto em Vettel.

VIRGIN: ou Manor? Eis a questão, Carlos Henrique Schroder.

Bertrand Gachot na Jordan em 1991

Tô sem assunto. Não quero mais falar sobre Campos, USF1 e chatices afins. Prefiro continuar falando sobre Schumacher e 1991. Mas não exatamente sobre Schumacher, mas sim sobre o cara que permitiu que ele aparecesse na Fórmula 1. Sim, o cosmopolita Bertrand Gachot!

Cosmpolita? Cosmopolita. Bertrand Gachot deve ser o único piloto da história da Fórmula 1 com três nacionalidades. Nascido na pequenina Luxemburgo, Bertrand era filho de um comissário francês e por isso já detinha a nacionalidade dupla. Porém, ele quis adotar para si a cidadania belga. E assim, Gachot se fazia o típico cidadão da União Européia, algo que ficava visível pela bandeira da união em seu capacete.

Não vou entrar em detalhes sobre sua carreira. Bertrand teve uma boa passagem pela F-Ford, F3 e F3000 até chegar à F1 em 1989 pela Onyx. Fez algumas corridas até envolver-se em uma briga com seu patrão, Jean-Pierre Van Rossem, e ser demitido. Em 1990, foi obrigado a pagar todos os seus pecados no carro amarelo da Coloni. Porém, o destino foi bastante feliz com ele e Bertrand Gachot acabou sendo chamado para correr na novata Jordan em 1991. No automobilismo, o belga estava em ótima fase.

Porém, sua vida pessoal passaria por uma reviravolta das boas no dia 10 de Dezembro de 1990, uma segunda-feira.

Foi aqui

Londres. Um taxista chamado Eric Court conduzia seu carro preto em direção à Hyde Park Corner, no centro londrino. Atravessando o tráfego, ele acabou se envolvendo em um pequeno acidente com um gaiato qualquer. Extremamente nervoso, Bertrand Gachot desce do carro e os dois começam a discutir. Court, com a típica elegância inglesa, acertou um soco na cara de Bertrand. Em resposta, Gachot voltou ao carro e sacou uma latinha de spray de pimenta, disparando-a na cara do taxista, que perdeu momentaneamente a visão. Court ainda gritou algo como “vai ter troco!”. E teve. O taxista processou Gachot.

A justiça inglesa, infinitamente mais rápida que a brasileira, chegou a um surpreendente veredito em Agosto de 1991: Bertrand Gachot foi condenado a 6 meses de prisão por posse ilegal de armas e a 12 meses de prisão por uso dessa arma. No Reino Unido, o spray de pimenta é ilegal para uso civil. A prisão de Gachot se deu dias antes do GP belga, em Spa-Francorchamps. Eddie Jordan perdeu seu piloto e teria de pensar rapidamente em um substituto. Pensou em Stefan Johansson, pensou em Keke Rosberg, mas acabou se decidindo pelo desconhecido Michael Schumacher, graças aos 300.000 dólares da Mercedes.

A comunidade da Fórmula 1 entrou em polvorosa. Revoltados, pilotos (liderados por Thierry Boutsen e Eric van de Poele), torcedores, jornalistas, mecânicos e fiscais de pista vestiam camisetas como “Free Gachot”, “Why Gachot?” ou “God bless England, and also Gachot”. A FISA até disponibilizou advogados para Bertrand Gachot. Até mesmo na Fórmula 3000 houve barulho: o piloto local Pascal Witmeur colocou em seu carro um enorme emblema “free Gachot”. Alguns torcedores, irritados, pintaram o asfalto entre a Rivage e a Pouhon com uma enorme mensagem em francês dizendo “Gachot, a Bélgica está com você. Você não é um hooligan!”. Era uma referência maldosa ao massacre de Heysel, no qual torcedores ingleses foram à Bélgica e assassinaram 30 torcedores locais na final da Copa dos Campeões em 1985.

"Gachot, la Belgique est avec toi! Tu n'es pas un hooligan." LAUGHING OUT LOUD

Gachot foi inicialmente mandado, acredite, à prisão de segurança máxima de Brixton. As condições eram as piores possíveis: ele dividia uma cela com os piores bandidos da Inglaterra, e só tinha direito a uma hora de banho de sol. Não havia banheiro próprio, televisão, jornal nem sequer um lugar para comer sentado. Ele só tinha direito a receber visitas de cinco minutos de sua namorada a cada 15 dias. Pateticamente, Gachot mandou uma carta à Jordan e à imprensa relatando toda essa situação. A situação estava tão difícil que até mesmo o próprio Court retirou o processo…

Algumas semanas depois, Bertrand Gachot foi transferido para uma cadeia mais digna. Lá, ele conseguia ao menos preparar-se fisicamente e psicologicamente para o retorno à F1. Enquanto isso, seus advogados entravam com recursos. E a vitória veio no dia 15 de Outubro de 1991, quando após três recursos, o juíz Lane considerou a pena muito dura e Bertrand foi liberado. Festa geral, celebrada na embaixada da França em Londres. Após dois meses preso, Gachot voltava a ser um homem livre.

Só que esse episódio prejudicou a carreira dele para sempre. A Jordan não quis saber de colocá-lo de volta. Gachot foi obrigado a se encontrar, posteriormente, na Larrousse e na Pacific. E sumiu da F1 no final de 1995, aos 33 anos.

Quem se deu bem com isso foi o tal do alemão que o substituiu e que motivou esse post. Uma estúpida briga entre um piloto de segundo escalão e um taxista esquentadinho foi o início da construção de um mito.

MERCEDES GP PETRONAS


E ela está de volta! Depois de 55 anos, a marca das três pontas reaparece como equipe oficial de
Fórmula 1 (e esperamos que, dessa vez, nenhum carro seu saia voando em direção às arquibancadas). A Mercedes virá em 2010 com uma baita estrutura: um heptacampeão mundial (Schumacher), um piloto promissor que usa laquê (Rosberg), um piloto de testes que é tão bom quanto apagado (Heidfeld), Ross Brawn e a Petronas. É uma receita boa demais para dar errado. E nem pode: a cúpula da Mercedes já disse que se a equipe não vencer, ela será chutada para escanteio.

Sediada em Brackley, GB
12 corridas (resultados da antiga equipe de 1955)
9 vitórias
8 poles-positions
139,14 pontos

3- MICHAEL SCHUMACHER

Aqui pra concorrência, ó

Amado por muitos e odiado por outros tantos, é uma lenda viva do esporte. Sete títulos mundiais, 91 vitórias, 1369 pontos, 68 pole positions e mais de um bilhão de dólares de patrimônio. Tá bom para você? Michael, filho de um pedreiro e de uma atendente de lanchonete, estreou na Jordan em 1991 e, muito rapidamente, fez a subida para a Benetton, onde foi campeão duas vezes. Em 1996, migrou para a Ferrari e ficou lá por 10 anos, transformando a outrora capenga escuderia em uma potência nessa primeira década do milênio. Com a aposentadoria, foi se arriscar com motos, mas só aprendeu a cair. Volta à F1 para se divertir, para aumentar seus números e para retribuir o apoio da Mercedes no começo da carreira.

Alemão, de Hürth-Hermülheim, nascido em 3 de Janeiro de 1969
Campeão de F1 em 1994, 1995, 2000, 2001, 2002, 2003 e 2004
248 GPs disputados
91 vitórias
68 poles-positions
1369 pontos
Campeão da F3 alemã em 1990 e da F-König em 1988


4- NICO ROSBERG

Delicadeza

É uma coisa quase andrógina, um misto de Elisha Cuthbert e Kelly Key. Filho do ex-campeão Keke Rosberg, Nico é o típico filhinho certinho de origem nobre. Fala cinco línguas fluentemente (a saber: inglês, espanhol, italiano, francês e alemão) e chegou a ser aprovado para o curso de Aerodinâmica na Imperial College inglesa. Porém, preferiu as pistas. Depois de ser campeão da GP2 em 2005, estreou na Williams em 2006, equipe pela qual correu até o ano passado. No começo, não passava de um cara rápido que não andava na chuva e que não sabia fazer uma corrida inteira sem quebrar o bico do carro. No ano passado, melhorou muito. Agora, na Mercedes, terá a chance de sua vida.

Alemão, de Wiesbaden, nascido em 27 de Junho de 1985
70 GPs disputados
2 pódios
75,5 pontos
Campeão da GP2 em 2005 e da F-BMW ADAC em 2002

Schumacher há um bocado de tempo

Esse é o tempo que separa a estréia da reestréia.

Estou falando, é claro, de Michael Schumacher. O alemão, sete vezes campeão mundial, é uma linha de contato entre o passado e o presente. Chega a ser surreal que haja um piloto que teria participado do GP da Bélgica de 1991 e do GP do Bahrein de 2010. Dezoito anos é tempo demais, mais precisamente a distância que separa o nascimento da idade adulta. Esse post não vai falar tanto sobre a Fórmula 1, mas sim levantar um raciocínio nostálgico irrelevante: o que separa 1991 de 2010?

A estréia de Schumacher se deu no dia 25 de Agosto de 1991, no lendário, comprido e chuvoso circuito de Spa-Francorchamps. O queixudo de 22 anos, na época o piloto mais novo do grid, utilizaria o Jordan 191 número 32, um belíssimo carro verde patrocinado pela 7UP que vinha chamando a atenção de todo mundo não só pela beleza mas também pela sua surpreendente performance, chegando a se aproximar das grandes. Seu companheiro era o já experiente Andrea de Cesaris.

O grid era sensacional. Lotado e colorido, tinha 18 equipes e 34 pilotos, sendo que 26 largavam, 4 ficavam no sábado e 4 sobravam já na sexta-feira, na malfadada pré-classificação. Não havia preocupações como “nossa, quanto carro, onde vai haver espaço pra McLaren colocar seus 5 carros reserva?”. Havia espaço para todas, e também para a turma da Fórmula 3000, que fazia a corrida preliminar. As equipes de ponta eram McLaren, Ferrari, Williams e Benetton. Dessas, só a colorida desapareceu, virando Renault. Tinha também Tyrrell, Larrousse, Minardi, Lotus, Lambo e AGS. Os pilotos de ponta eram Senna, Prost, Mansell, Piquet, Berger, Alesi, Patrese. Da turma do meio, havia Modena, Capelli, Gugelmin, Martini, Lehto, Boutsen. No final do grid, nomes como Olivier Grouillard e Eric van de Poele. De todos os 34, só sobrou o alemão. Os últimos a correrem foram Mika Hakkinen e Jean Alesi em 2001.

Mas o mundo não se restringe ao automobilismo, é claro. Até que aconteceu bastante coisa em 1991. E até que o mundo mudou um bocado até hoje.

Isso era 1991

Schumacher estreou em um ano particularmente conturbado politicamente falando. Meses antes, havia ocorrido a Guerra do Golfo, uma disputa entre Bush (o pai) e Hussein. Invasão no Kuwait por parte do Iraque, esse era o motivo do litígio. Enquanto isso, a União Soviética perecia. Com a perestroika e a glasnost gorbachevianas, o colosso abandonava o comunismo. Ninguém mais queria saber do sonho e do posterior fracasso marxista. Surgiam novos países, como o Tadjiquistão e a Macedônia.

O Brasil tinha o nefasto Collor, o daquilo roxo, sempre financiado pelo igualmente nefasto PC Farias. A economia do país, sufocada pelo confisco, pela hiperinflação e pelos pirotécnicos (e horrendos) planos heterodoxos, ia de mal a pior. Pelo menos, o caçador de marajás fez algo legal: abriu os portos para importações. O brasileiro, mesmo sem dinheiro, podia comprar um Subaru, batatas Pringles e tênis Timberland. Lula não passava de um barbudo lunático. Não que tenha mudado muito, mas…

O futebol ia mal, mas o rock não: o grunge era a moda. Mas como eu ignoro qualquer coisa que venha de Seattle, ainda mais em se tratando de híbridos de punks com hippies, dou loas a outras revelações interessantes da época, como o Blur, o Massive Attack e o EMF. Música no Brasil era igual a sertanejo. Pense em mim, chore por mim…

Na TV, tinha TV Pirata, tinha Trapalhões e tinha Xou da Xuxa. Todo mundo reclama da TV atual, mas as coisas não eram tão diferentes. Não tinha TV a cabo. O máximo que existia era a MTV, mas só quem tinha antena UHF podia ver. Quem não tinha, usava o truque do arame.

Com as importações ainda engatinhando, carro era VW, Chevrolet, Fiat e Ford. Para o povo, Chevette e Gol. Os boys andavam de XR3 e Kadett, enquanto seus pais desfilavam de Monza, Santana ou Opala. Os carros não tinham vidro elétrico ou sequer retrovisor no lado direito, mas a mecânica era mais duradoura. Havia também o Gurgel, corajosa iniciativa de produzir um carro 100% nacional. Infelizmente, um carro caro demais.

Não tinha internet, Twitter, orkut ou frescuras afins. Notícias, só por mídia impressa e TV. Para falar com seu amigo, telefone estatal ou carta. Os jornalistas usavam máquina de escrever e telex. Galvão Bueno transmitia as corridas por telefone e satélite Embratel. Computador, naquela época, era o 386 com monitor SVGA, 4MB de RAM e HD de 50MB. Videogame era Super Nintendo e seu indefectível Super Mario World. Mas a Sega rebateu com Sonic, rivalidade que durou muito tempo.

De lá pra cá, tivemos novos objetos, culturas, comportamentos: DVD, internet, orkut, Facebook, Bin Laden, Youtube, Obama, Britney, Big Brother, Lost, Dilma, Playstation, aquecimento global. O mundo passou a ser um lugar mais dinâmico e globalizado, mas também mais amedrontado e mais ansioso.

E lá está sempre o alemão, acelerando com vontade ao redor do mundo.

Schumacher há alguns dias