Pitacos


Nesse final de semana, a Fórmula 3 sul-americana realizou sua terceira rodada tripla do campeonato de 2010 no circuito de Campo Grande. Nos dias 17 e 18, os 11 pilotos inscritos se enfrentaram na pista sul-mato-grossense visando pontos importantíssimos na disputa pelo título dos campeonatos A, que utiliza as especificações mais recentes do chassi Dallara, e Light, que reaproveita os F301 utilizados pela liga principal até o ano passado. Após nove corridas realizadas, o líder do campeonato é Bruno Andrade, com 159 pontos, seguido por Yann Cunha, com 125, e Lu Boesel, com 109. A Fórmula 3 sul-americana é o campeonato de monopostos mais importante da América Latina. Todavia, há um pequeno detalhe: ninguém dá a menor bola.

No início do ano, os organizadores da Fórmula 3 anunciaram aos quatro cantos que a categoria receberia um muito desejado sopro de vida. Depois de muitos anos, finalmente haveria uma renovação da frota, com os obsoletos F301 dando lugar aos F309 novinhos em folha equipados com os tradicionais motores Berta, conhecidos como os mais potentes do mundo nesta modalidade. A Petrobras, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, assinou um contrato de 3 milhões de reais para ser a principal patrocinadora do campeonato. Por fim, a RedeTV garantiu as transmissões ao vivo da segunda prova domenical de todas as rodadas, com as outras seriam exibidas em VT. Com todas essas notícias, todo mundo ficou animado. Até eu, que sou cético de tudo, achei que a categoria voltaria aos seus bons tempos.

Não foi bem o que aconteceu. O patrocínio da Petrobras está lá, isso é um fato. Ninguém se lembra dele, mas está lá. A RedeTV está transmitindo as corridas, isso é um fato. A audiência beira o traço, mas a emissora segue exibindo. Por mais que a empolgação tenha tomado conta de todos no início do ano, o caso é que a Fórmula 3 sul-americana segue absolutamente esquecida por todos, mesmo que haja até mesmo patrocínio governamental e emissora de TV por trás.

Bruno Andrade, líder do campeonato que precisa ser salvo

Eu bem que gostaria de estar sendo apenas maledicente, como são, aliás, boa parte dos comentaristas esportivos no Brasil. Infelizmente, o que faço é pura constatação. Campo Grande recebeu apenas onze carros, sendo que cinco deles pertenciam à classe Light. Na Europa e nos Estados Unidos, as grande emissoras de televisão costumam exigir, por contrato, um mínimo de dezesseis carros no grid. Abaixo disso, o que existe é uma concessão para o caso de categorias importantes estarem passando por maus apuros, como está ocorrendo com a Fórmula 3 européia neste ano. Por uma questão de respeito, apoio e algumas verdinhas, alguém se dispõe a mostrar as corridas. É o que a RedeTV vem fazendo neste ano. Mas mesmo assim, os patrocinadores, os pilotos e a torcida não demonstram o menor interesse.

Dei uma olhada na lista de inscritos das três etapas realizadas até aqui. A primeira, em Brasília, teve exatos dezesseis, cinco a mais do que neste final de semana. Entre Brasília e Campo Grande, tivemos a entrada de Jean Spolaor e a saída de Lucas Foresti (este corre na GP3, perdoa-se), Guilherme Camilo, Aldo Piedade Jr, Rodolpho Santos, Alberto Catucci e Daniel Politzer. É um saldo bastante negativo, o que demonstra a total instabilidade da lista de inscritos das corridas. Vários pilotos aparecem à base do contrato feito corrida a corrida, sem saber o que irá ocorrer amanhã. Isso acontece porque a dificuldade de encontrar patrocinadores para um campeonato completo é imensa. Isso acontece porque mídia e torcida não ligam para o que se passa no campeonato. Isso acontece porque equipes e pilotos não participam. E entramos em um círculo vicioso que reduz o campeonato a uma mediocridade eterna.

Se a F3 sul-americana fosse uma Fórmula Palmer Audi da vida, eu não reclamaria. O caso é que a categoria é boa. Além de ter patrocinador e transmissão, ela contempla uma boa variedade de pistas, atrai bons nomes do kartismo e, acima de tudo, realiza boas corridas com um carro que é dos mais modernos e competitivos do mundo. Tecnicamente falando, nossa Fórmula 3 não deve absolutamente nada às versões de outros países. E tecnicamente falando, ela nunca esteve melhor. Mas do que adianta tudo isso se os grids seguem vazios, a mídia especializada não fala sobre absolutamente nada e apenas uma pequena panelinha participa da festa? A própria alcunha de categoria sul-americana é ridícula, já que apenas brasileiros competem regularmente por lá. Neste ano, tivemos um colombiano e um angolano. Cadê os argentinos, que abrilhantavam a categoria até uns dez anos atrás? Onde estão chilenos, uruguaios e venezuelanos? Sul-americana, sei…

Nilton Molina, um dos destaques

Dá pra salvar a categoria. Por mais fatalista que seja esse texto, reconheço que a renovação técnica e as parcerias com a Petrobras e a RedeTV são um passo notável em relação à várzea que tínhamos até o ano passado. Mas há outras medidas a serem tomadas. As equipes, ao invés de viverem às custas do dinheiro de playboys todo ano, deveriam se profissionalizar e buscar viver de maneira própria, sem ter de enfiar a faca nos candidatos a piloto. O calendário poderia ser mais enxuto e, se for preciso, a categoria deveria assumir de uma vez que não é mais sul-americana e concentrar seus esforços no Brasil. Para economizar em logística e organização, ela deveria se aliar a algum campeonato consolidado como a Fórmula Truck. Por fim, premiar os melhores colocados com temporadas completas no exterior, como a Seletiva Petrobras faz com os kartistas, seria bom. São medidas dispendiosas? São. Mas serão também suficientes para reerguer a médio prazo uma belíssima categoria.

Mas aonde que a Fórmula 3 errou? Criada em 1987, a categoria assistiu a um bocado de episódios de completa bagunça e putaria. Em 1990, a equipe Daccar trouxe da Europa um Ralt com importantes modificações na suspensão e Osvaldo Negri, um dos pilotos da equipe, saiu por aí a vencer corridas uma atrás da outra. As outras equipes protestaram, alegando que o carro era ilegal. A peleja seguiu até o final da temporada e a F3 saiu com a imagem bastante arranhada. Três anos depois, os argentinos se uniram e, na última volta da última corrida da temporada, pararam o carro para ajudar Fernando Croceri a ganhar posições e ser campeão contra o brasileiro Hélio Castroneves. No início desta década, equipes como a Cesário e a Piquet inflacionaram os custos da categoria e desequilibraram as disputas. O caso é que aquela competitiva competição de meados dos anos 90 se resumiu ao que temos hoje.

Há muitos campeonatos ruins de monopostos por aí. De cabeça, me lembro da World Series, da Fórmula 2 e da Fórmula Palmer Audi. Estes campeonatos, mesmo sendo tecnicamente e esportivamente fracos, subsistem com tranquilidade. A Fórmula 3 sul-americana, felizmente e infelizmente, não é assim. Ela tem a faca e o queijo para voltar a ser um campeonato relevante, mas precisa sair do esqueminha “oi, tenho dez carros, algumas pistas, uns donos de equipe ávidos por dinheiro fácil e nenhuma perspectiva”. Pelo bem do automobilismo brasileiro. Pelo bem das transmissões globais da sua Fórmula 1 aos domingos. Pelo bem da continuidade desse blog no futuro.

Qual é a diferença entre Ayrton Senna e Alex Yoong? Tudo? Nada? Um é brasileiro e o outro é malaio? Em um dia chuvoso e melancólico como hoje, tomo um certo tempo para escrever um texto que conclui que não há grandes diferenças entre ambos, já que nasceram com dois braços, duas pernas, dois olhos, uma boca, cabelos escuros e, em algum instante de suas vidas, se tornaram pilotos de Fórmula 1. Tudo isso pode parecer cretino de tão óbvio, mas é sobre isso que vou falar aqui. E a idéia é menos simplória do que parece. Atenção: texto bem grande. Imprima e vá ler enquanto faz suas necessidades.

Minha pouco pretensiosa intenção é renegar comparações ao dizer que pilotos como Ayrton Senna e Alex Yoong são muito mais parecidos do que nossa imaginação supõe e que circunstâncias externas fizeram um obter resultados muito melhores que o outro. Em poucas palavras, Senna não é tão melhor assim do que Yoong, e isso vale para qualquer outra comparação aparentemente estapafúrdia como Michael Schumacher e Paul Belmondo ou Jim Clark e Yuji Ide. É um tema polêmico? De certa forma, é. Mas é algo a que poucas pessoas se atentam. Todos tendemos a achar que Ayrton Senna se tornou um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1 unicamente por ser um ser humano dotado de capacidades excepcionais ao mesmo tempo em que Alex Yoong é considerado um piloto de baixa qualidade que não merece o menor crédito. Desculpe dizer, é uma visão equivocada.

Equivocada porque ambos, Senna e Yoong, enfrentaram diferentes percalços desde a primeira voltinha em um kart até a última volta como piloto de Fórmula 1. Pilotos considerados geniais, como é o caso de Senna, Schumacher e Clark, tiveram todas as condições para serem considerados como tais. É evidente que estes indivíduos dispunham de alguns conjuntos de atitudes, filosofias e talentos extras que ajudaram. No entanto, imagine Ayrton Senna estreando na Hispania, como ocorreu com seu sobrinho. Por mais talentoso que fosse, nunca chamaria a atenção e o máximo que conseguiria seria um perfil no F1 Rejects, como, aliás, aconteceu com nosso amigo Yoong. Idem para Schumacher estreando em uma Forti-Corse ou Clark estreando na jurássica Serenissima. Os multicampeões são, acima de tudo, seres abençoados com todas as condições possíveis para a glória.

Se você discorda, então vamos fazer uma análise progressiva. Vamos reunir todas as 6,5 bilhões de pessoas do mundo atualmente em um balaio de gato para saber quem daí pode ser um campeão mundial de Fórmula 1. Temos quatro campeões na  categoria atualmente, cerca de 0,0000000006% da população mundial. A maior qualidade deles, definitivamente, é a sorte. Descartemos aí quem morreu no parto ou muito cedo. Como um bocado de criancinhas chinesas, sudanesas e norte-coreanas falecem muito cedo, podemos nos considerar sortudos por estarmos aqui.

Se você sobreviveu até os dez anos de idade, meus parabéns! Você está em uma idade apta para estrear no kart. Mas no meu país não tem kart, o que eu faço? Senta e chora, amigão. Bilhões de pessoas dançam aí. Se você nasceu nas Ilhas Salomão, em Moçambique ou no Tadjiquistão, não terá um kartismo relevante à sua disposição. Apenas crianças muito ricas poderiam sonhar em competir no automobilismo, e mesmo assim teriam de migrar para um país mais central. Porém, embora todos os campeões da história da Fórmula 1 tenham nascido em países com um contato mínimo com o automobilismo, não podemos nos esquecer destas criancinhas que resultam em caras como Ho-Pin Tung e o próprio Yoong. Mas lembremos que são exceções e, portanto, voltemos ao grupo majoritário.

Senna: ele não foi tricampeão à toa. Na verdade, muita coisa teve de acontecer pra ele chegar lá

No caso de você ter chegado aos dez anos e ter nascido em um país razoável, você pode começar a correr desde que não seja pobre. Vamos excluir, então, os 30% de pobres que passaram por tudo até aqui. Mas espera um pouco. Você também não conseguirá correr se for de classe média baixa ou mesmo da classe média mais intermediária. Neste momento, o escriba aqui dançou. Não serei o primeiro descendente de orientais a ser campeão de Fórmula 1. Uma pena. Assim como eu, quase todos os que chegaram até aqui dançaram. Só restaram os filhinhos de papai dos melhores países e um ou outro pequeno magnata de algum país distante por aí. Ayrton Senna e Alex Yoong se encaixariam, respectivamente, no primeiro e no segundo grupo.

Vamos eliminar, aqui, a esmagadora maioria de filhinhos de papai que não vai seguir no automobilismo. Eliminemos também os filhos da classe média alta que sofrem para fazer uma ou duas temporadas no kartismo antes de abandonarem o sonho. Digamos que sobram aí umas 50.000 pessoas. Os pilotos de Fórmula 1 estão todos aí, então vamos passar a analisar as coisas dentro da ótica do automobilismo.

O kart é o melhor lugar pra saber quem é bom e quem não é. Se o cara for muito ruim, ele não sobreviverá a essa etapa e, assim, a maioria dos 50.000 sobram aí. Sempre há um ou outro que se quebra todo em um acidente e acaba ficando de fora da festa. No geral, os melhores kartistas são também aqueles que têm mais dinheiro para comprar o melhor equipamento. Para o cara ser bom no kart, ele deve ter coragem, preparação física de jóquei, reflexos apurados e um razoável conhecimento de mecânica. Não se enganem: quase todos os pilotos da história da Fórmula 1, e até mesmo de categorias menores, exibem currículos muito bons no kartismo.

No entanto, o número de pilotos que não conseguem ter dinheiro para subir para o automobilismo de verdade é grande. Na verdade, apenas uns poucos conseguem andar de monopostos. De modo otimista, vamos calcular aí algo em torno de 2.000 pilotos que correm de monoposto atualmente. A maior parte deles corre nas categorias mais primárias, como os campeonatos nacionais de Fórmula BMW e a Fórmula Renault. Se o cara pegar uma equipe ruim nessa etapa, a chance de ir mal é muito grande. Assim, ele terá dificuldades para arranjar patrocinadores até mesmo para mudar para uma equipe melhor. Não adianta o piloto ser muito talentoso: sem dinheiro e timing, não dá. Poucos sobem para categorias como a Fórmula 3 e a GP3.

Os que subiram são extremamente felizardos, mas a chance de fracassar por aí é altíssima. Uma equipe errada, uma sequência de acidentes, um acidente mais forte, um companheiro de equipe melhor (ou mais endinheirado) ou até mesmo uma crise econômica no país de um piloto pode acabar com sua carreira. Se o colega de equipe leva mais dinheiro, a chance desta equipe privilegiá-lo, mesmo que ele seja um bundão, é enorme. Mas vamos supor que o cara seja muito endinheirado e tenha conseguido alguns resultados aceitáveis. Ele sobe para a GP2.

Yoong: ele não conseguiu nada na Fórmula 1. Não conseguiu porque nunca teve condições externas para isso. E olha que ele foi muito mais longe do que a média

Na GP2, ele comerá o pão que o diabo amassou. Sempre há favorecimentos políticos e você só terá alguma chance se tiver um padrinho muito forte ou se for filho de dono de banco. Mas mesmo assim, apenas uns dois ou três pilotos de um grid de 24 acabam subindo para a Fórmula 1 um dia. Se você conseguir, meus parabéns: você faz parte dos pouco mais de 800 pilotos que se inscreveram para ao menos uma etapa de Fórmula 1 nos 60 anos de história da categoria.

Mas isso não significa absolutamente nada. Alguns pilotos sequer conseguiram estrear devido a problemas em suas equipes, como Jordi Gené e José-Maria Lopez. Outros fizeram apenas um fim de semana, como Vincenzo Sospiri. Outros até participaram de várias corridas, mas como não estavam em equipes boas, acabaram sobrando, como ocorreu com David Brabham. No fim, uma minoria acaba sobrevivendo na Fórmula 1 por um bom tempo. São pilotos que tiveram todas as condições de chegar a este ponto. Porém, dificilmente você será campeão. Apenas 31 pilotos conseguiram isso até hoje.

O que os fez campeões? São caras que nasceram em países razoáveis, sobreviveram, optaram pelo automobilismo, tiveram muito dinheiro ou apoio de pessoas importantes (Michael Schumacher e Kimi Raikkonen são casos emblemáticos), correram com os equipamentos certos no kartismo, pegaram adversários com menos condições, acabaram chegando às categorias de base, não tiveram problemas com dinheiro, acidentes e maus resultados, chegaram à Fórmula 1, tiveram a sorte de correr em equipes boas, competiram contra adversários que não juntavam todas as condições necessárias para o título, obtiveram espaço dentro de suas equipes e tiveram também alguns talentos e atitudes com relação a reflexos na pista, mecânica, relacionamento com mecânicos e engenheiros, dedicação, inteligência, marketing pessoal, esperteza e paciência. Um cara que é campeão quase sempre cumpriu, em maior ou menor intensidade, todos esses requisitos.

Ayrton Senna, por exemplo, nunca teve problemas financeiros. Sempre teve equipamentos bons no kartismo e nas categorias de base e sempre conseguiu vencer. Na Fórmula 1, estreou por uma Toleman que era boa o suficiente para permitir que ele mostrasse seu talento e ao mesmo tempo ruim o suficiente para ninguém pressioná-lo. Depois, fez sua fama como um piloto rapidíssimo em uma Lotus que se comportava de maneira excelente nos treinos. Na McLaren, pegou um carro genial e desenvolveu um relacionamento excelente com o staff. Sempre teve patrocinadores e sempre soube fazer seu marketing pessoal. De quebra, juntou inteligência, perícia, muita dedicação e esperteza. Olhando assim, fica até fácil fazer uma receita para ser campeão.

Já Yoong, malaio, nunca pôde se desenvolver em um automobilismo forte. Na Ásia, sempre andou bem, mas o automobilismo local não podia ensiná-lo alguma coisa. Ao chegar na Europa, percebeu que o nível técnico desenvolvido em seu continente natal estava muito abaixo daquilo que era pedido no Velho Continente. Com isso, nunca conseguiu uma equipe boa no automobilismo-base europeu. Como resultado, nunca conseguiu mostrar resultados por onde passou, ao mesmo tempo que nunca conseguiu aprender a ser um piloto competitivo. Acabou entrando na Fórmula 1 por causa do dinheiro na pior equipe do grid, a Minardi. O carro era muito lento e muito difícil de guiar, e Yoong só andava em último. As rodadas eram frequentes. Após um ano e meio, acabou deixando a categoria sob muitas críticas.

Depois desse monte de coisa, só me resta dizer que a maior diferença entre Senna e Yoong (só uma lembrança: são duas alegorias, não me refiro particularmente aos dois) é que tudo deu certo para um e nada deu certo para o outro, por mais que isso signifique que ele superou muita gente e comeu muito arroz e feijão até andar na Minardi. Por mais que ambos tenham se desenvolvido em escolas de automobilismo diferentes, o ato de acelerar, frear e virar o volante não muda muito. São os detalhes que fazem a diferença, e Senna teve muita sorte em conseguir maximizar esses detalhes, seja pela preparação física ou pelos carros pilotados no início da carreira. No fundo, Senna, Yoong, eu e você somos tudo a mesma coisa, mas só um pôde vencendo três títulos a bordo de um excepcional McLaren.

Fiquei com vontade de escrever mais um pouco. Como o tempo não me é escasso como já foi outrora, lá vai:

– Coincidências esportivas são demais. Na atual temporada da GP2, temos apenas um piloto holandês no grid, Giedo van der Garde. Ele corre pela Addax, equipe espanhola comandada pelo empresário Alejandro Agag. E todos nós sabemos quem jogou a final da Copa do Mundo. Em Silverstone, a equipe decidiu homenagear La Fúria com um adesivo “Vamos España” nos dois carros. E o pobre Van Der Garde teve de carregar uma mensagem de incentivo contra a seleção de seu país! Pelo visto, o resultado deu certo…

Única foto que eu encontrei, vinda do Sutton. A mensagem está lá no canto. O carro é o de de Sergio Perez, mas tudo bem

– A Red Bull está, definitivamente, em crise. Andei lendo por aí que está havendo uma divisão entre os mecânicos de Vettel e os de Webber. E o tratamento entre eles, como não poderia deixar de ser, está longe de ser cordial. Em Silverstone, a turma de Vettel chegou a provocar a de Webber brincando com a nova asa dianteira, o motivo do litígio. Ridículos, todos.

– Bernie Ecclestone está pedindo 19 milhões de euros para quem ocupar a 13ª vaga na Fórmula 1 em 2011. Esta taxa seria uma espécie de reedição daquela famosa caução de 48 milhões de dólares exigida no início da década por qualquer estrutura nova que quisesse participar da brincadeira. Ele alega que a equipe deve provar que tem bala no cartucho, algo que acho ridículo. No entanto, desconfio que o motivo seja outro. Os 19 milhões de euros cairiam muito bem em seu interminável bolso. É uma motivação mais nobre do que a alegada, ao meu ver.

– Bruno Senna ficou de fora do Grande Prêmio da Inglaterra por um motivo tão prosaico quanto imbecil. Diz a lenda que ele teria mandado, por engano, um e-mail ao próprio chefe metendo o pau no carro. Colin Kolles, o romeno que comanda a bagaça, não gostou e puniu o sobrinho com uma corrida de suspensão. Todo mundo sabe que o carro da Hispania é uma tremenda bomba. O que não sabemos é o real conteúdo da mensagem. Duvido que Senna tenha sido afastado unicamente por reclamar de sua diligência. E Bruno deveria conferir o destinatário, regra básica pra quem manda e-mails. Falta de noção completa.

SILVERSTONE: A primeira corrida de Fórmula 1, há exatos 60 anos, aconteceu aqui. É um lugar aonde se respira o típico british racing vintage: traçado veloz, enormes áreas de escape preenchidas com grama, autódromo localizado no meio da roça e climão daqueles típicos festivais de automobilismo que só os ingleses sabem fazer. Nunca gostei muito do traçado, mas reconheço que, diante de tantos circuitos insossos e travados, Silverstone é um alento. Só espero que chova. Corridas no seco costumam ser tenebrosamente chatas.

YAMAMOTO: Péssima notícia para Bruno Senna: o brasileiro não participará do Grande Prêmio da Inglaterra. Seu substituto na Hispania é o nipônico Sakon Yamamoto, um dos pilotos mais dispensáveis que já apareceram na categoria nos últimos 15 anos. Com discretíssimas passagens nas extintas Super Aguri e Spyker, ele fará sua primeira corrida de Fórmula 1 desde 2007. Ao contrário da maioria dos japoneses, é um piloto sossegado. O problema é que ele é sossegado demais. Sua presença se justifica pela vinda de ienes, muitos ienes.

GABY: E Bruno Senna não utilizará seu novo motor Cosworth, que ganhou o nome de uma amiga sua. Pergunto duas coisas: quem em sã consciência daria nome a um motor? E quem, em sã consciência, daria o respeitoso nome de Gaby a um motor?!

FRANK WILLIAMS: A outra notícia que chocou a muitos é a renúncia de Frank Williams à presidência de equipe que ele fundou com Patrick Head em 1977. Depois de 33 anos, sete títulos de pilotos e nove de construtores, Sir Frank passa o bastão para Adam Parr, chefe executivo da equipe. Aos 68 anos, ele já sente o peso da idade, e a essa altura da vida já não deve estar tão animado para tocar uma equipe que não sai do meio do pelotão. Ainda assim, sair da presidência não quer dizer abandonar a equipe: Frank Williams seguirá trabalhando na equipe. E espero que siga assim por muitos anos.

FINAL DA COPA DO MUNDO: Bernie Ecclestone sempre chutando o balde. Por capricho do todo-poderoso, a Fórmula 1 terá de fazer uma corrida quase que indesejada no mesmo dia de uma das finais mais esperadas da história das Copas do Mundo. De um lado, Fernando Alonso, Jaime Alguersuari e Pedro de la Rosa torcendo para La Fúria. Do outro, er… a torcida pela Laranja Mecânica será representada por um solitário Giedo van der Garde, piloto da GP2. Do fundo da minha alma, não consigo escolher nem Espanha e nem Holanda, já que ambos são os dois times europeus sem títulos que mais merecem entrar para a turminha dos fodões. De qualquer jeito, vou na lógica e digo que dá Holanda.

Gerson Gouveia? Quem é este?, pergunta alguém não tão informado.

Gerson é um dos melhores pilotos da atual temporada da Stock Car V8. Não é difícil reconhecê-lo. Seu carro, pintado de azul e preto, carrega o número 53 e é patrocinado pela Goodyear e pela Gouveia Metalúrgica, empresa de sua abastada família. Na vida pessoal, ele é casado com a estudante de jornalismo Diana Rodrigues, embora já tenha apresentado alguns claros pendores pedófilos. À primeira vista, a descrição parece indicar a vida de um personagem de novela. E é mesmo. Representado por Marcello Antony, Gerson é um dos principais personagens de Passione, novela da TV Globo.

Como em toda novela global, o enredo é previsível, forçado, superficial e até mesmo errático. Apesar de todo o background de corridas, as atenções estão voltadas para o computador de Gerson. O que será que o aflige tanto quando alguém se aproxima da máquina? As evidências indicam que ele guarda um bom número de fotos de criancinhas para seu deleite sexual. Como em toda novela global, previsível, forçada, superficial e até mesmo errática, deve ser isso mesmo: Gerson é pedófilo. E é isso que importa, no fim das contas. A Stock apenas empresta sua grife e toda sua estrutura para servir como cenário de uma historinha boba.

Já andei falando um tempo atrás sobre a subserviência da Stock Car perante a Globo. A categoria move montanhas para agradar a emissora e recebe, em troca, alguns minutos compartilhados com esportes praianos e reportagens sobre a cor da cueca do Neymar na programação dominical global. Uma das concessões foi exatamente ceder espaço para as gravações da tal novela. Para isso, após uma sessão de treinos da última corrida realizada em Interlagos, alguns pilotos (14, mais precisamente; o restante do grid foi completado com edição computadorizada) foram colocados na pista para fazer algumas voltas simulando uma corrida com Gerson Gouveia. Eles gostaram, é claro. Alguns deles, como Norberto Gresse e Lico Kaesemodel, tiveram seus quinze minutos de fama, que não conseguem obter nas corridas de verdade, e puderam expor seus patrocinadores. No fim das contas, o único que se incomodou um pouco com esse negócio foi Thiago Camilo. O incômodo, aliás, se deu pelo motivo errado: ele estaria incomodado com a possibilidade de Gerson Gouveia ser gay. E, no fim das contas, em Interlagos, ele deixou que alguns artistas entrassem no seu carro. E tudo ficou por isso mesmo, como sempre ocorre na Stock.

Não estou dizendo que a Stock Car deve chutar a bunda da turma de Passione e criar um clima ruim com a Globo. Se Carlos Col e companhia sentem que a novela trará uma atenção maior para a categoria, que venha. O problema é efetuar um enorme esforço por tão pouco espaço, e de baixa qualidade. A Stock teve de adequar um horário de seu cronograma em Interlagos e simular uma corrida completa desde o burburinho anterior à largada. Em troca, a categoria quase não é citada. E quando aparece na telinha, ganha contornos irreais. Para a novela, pouco muda, já que não é intenção dela expor os pormenores da Stock. Mas e para o automobilismo? Qual é o ganho em ter aquilo que foi exibido no capítulo do dia 5 de julho? O capítulo em questão é esse daí do vídeo. Não costumo ver novelas, mas dei a sorte (ou não) de ter assistido a esta pérola na TV.

O vídeo fala por si só, mas sigo com os comentários. Na corrida em questão, Gerson Gouveia larga em segundo. Dou um doce pra quem acertar o pole-position escolhido pelo pessoal da novela. Após a largada, Gouveia ultrapassa o darling global na curva que identifiquei como sendo o Laranjinha e assume a liderança. Um indivíduo reclamão e perfeccionista até o fio de cabelo como eu não deixaria de perceber que a edição de imagens é completamente aleatória, criando uma sequência completamente errada da ação. O piloto sai da Ferradura, entra na Junção, desce no S do Senna, segue pela reta dos boxes, completa o Pinheirinho e segue em diante, confundindo a cabeça deste pobre infeliz.

As imagens misturam a movimentação dos carros com closes de Gerson Gouveia, que faz a corrida pensando no pé na bunda que tomou de Diana alguns momentos antes. Nisso, eu reconheço: apesar de novelístico, acontece do piloto ir pra corrida pensando nessas coisas. Diz a lenda que Ivan Capelli passou vergonha na Ferrari e na Jordan porque havia tomado um belíssimo chifre de sua esposa. E o próprio Senna teria descoberto, alguns dias antes da fatídica corrida de Imola, algumas histórias bem desagradáveis envolvendo Adriane Galisteu. Mas ressalto: são lendas. Não provo nada. Voltando ao Gerson, era visível que ele não tinha condições psicológicas para a corrida. Mais cedo ou mais tarde, o erro aconteceria.

E aconteceu. Gerson e o darling global se tocam na entrada do S do Senna, e o carro de Gouveia segue reto na curva. Contrariando as leis da física promulgadas por Galvão Bueno, o carro rodopiou e deu um belíssimo duplo twist carpado do nada. O que se seguiu foi uma série de capotagens de fazer Gualter Salles corar de inveja. Após algumas piruetas, o carro de Gerson Gouveia parou de cabeça para baixo, e lá estava o piloto inconsciente e com sangramento no nariz. E terminou aí o show. Sylvester Stallone, criador do horrendo Driven, se sentiria orgulhoso do filme que fez. Apenas um post scriptum: Driven é de 2001, época em que os efeitos especiais ainda não eram tão avançados.

Tempestade em copo d’água? Pode até ser. Afinal de contas, não é intenção da novela se aprofundar no tema automobilismo. A dona de casa que mora na Seropédica, com certeza, não está ligando se o carro capotou de maneira bizarra ou se o jogo de câmeras é irreal. O que importa é saber se o tal do Gerson Gouveia é pedófilo ou não. No fim das contas, todos sabemos. Sabemos que Gerson Gouveia é pedófilo. Sabemos que a Stock Car se prestou a algo risível. Sabemos que o pior de tudo é que a categoria gostou.

Se tem alguém que errou, é Webber. Mas sempre há canhões apontando para a Lotus

Sou um defensor dos fracos e oprimidos. Não, não vou abrir uma ONG para dar sopa aos mendigos da Sé. Meu nobre sentimento de caridade e meu bom coração se restringem ao importantíssimo mundo do automobilismo. Torço para as equipes pobres e para os pilotos do fundão. Desejo dias melhores aos mecânicos da Lotus, aos cozinheiros da Virgin e às faxineiras da Hispania. E não me furto em defendê-los aqui, mesmo que isso canse os leitores.

Neste domingo, os inimigos das equipes novatas ficaram em polvorosa. Afinal de contas, aquilo que todos temiam aconteceu: um carro de uma equipe novata esteve envolvido em um enorme acidente com um carro de uma equipe de ponta. Na volta de número 9 do Grande Prêmio da Europa, o australiano Mark Webber, segundo piloto da poderosa Red Bull, se aproximava rapidamente do finlandês Heikki Kovalainen, segundo piloto da fraca Lotus. Como a diferença de velocidade entre os dois carros é óbvia, Webber não tardaria em ultrapassar Kovalainen, que fez o seu papel e manteve-se na sua linha. Por um erro grotesco de cálculo, Mark demorou demais para tomar a linha de ultrapassagem e o resultado foi aquele: um RB6 dando uma belíssima pirueta, caindo de cabeça para baixo e se deslocando em altíssima velocidade até a barreira de pneus.

Enquanto todos se preocupavam com o estado do australiano, eu, defensor dos fracos e oprimidos, só pensava em “agora é que vão encher o saco com reclamações sobre a novatas”. Embora as reações não tenham sido tão contundentes como eu esperava, sempre tem alguém pronto para dizer merda. Na transmissão global, Galvão Bueno reclamou mais uma vez que a FIA não deveria permitir que carros tão lentos participassem da Fórmula 1, que estas equipes precisam de um longo período de testes antes de irem para a pista e que deveriam dar passagem aos carros mais rápidos sempre que estes estivessem atrás. Em seu site, o próprio Mark Webber disse que o piloto que tem um carro cinco segundos mais lento não deve ficar lutando por posição com um carro muito mais rápido.

Ridículas, todas estas opiniões. O próprio Webber tem como seu primeiro cartão de visitas uma bela briga contra um carro muito mais rápido ocorrida logo em sua primeira corrida, em Mélbourne/2002. Naquela ocasião, Webber e seu Minardi seguravam como podiam a quinta posição contra o Toyota de Mika Salo, que vinha como um maluco atrás. Será que Mark acha que o que ele fez é muito diferente do que queria fazer Kovalainen? Ah, mas era uma quinta posição. Ah, mas o Minardi não era tão mais lento que o Toyota. Ah, mas eu era inexperiente. Fala sério. A obrigação de um piloto, não importando se ele corre pela McLaren ou pela Hispania, é ser combativo sempre. Se Heikki Kovalainen não fizesse o que fez, não mereceria sequer estar na Fórmula 1.

Estes pilotos desta atual década se mostram completamente desacostumados com carros mais lentos. É um misto de desinformação com prepotência. Me soa lamentável que um cidadão como Webber, que teve de ralar um bocado antes de chegar aonde chegou, ache que um piloto deve abrir passagem a ele unicamente por guiar em um carro mais lento. O problema é que ele não é o único. Fernando Alonso, ex-Minardi, terminou o Grande Prêmio de Mônaco irritadíssimo com Lucas di Grassi pelo fato do brasileiro ter segurado sua posição por algumas voltas no início da corrida. Voltando a alguns anos, tivemos David Coulthard e Ron Dennis ralhando com Enrique Bernoldi por este ter feito o mesmo com o escocês por mais de 30 voltas no mesmo circuito monegasco. Os caras simplesmente apagam da cabeça que um dia já foram pilotos novatos ou do fundão, que um dia já tiveram de rolar muita bosta lá no final dos grids da vida antes de chegar aonde chegaram.

Por fim, bato na mesma tecla pela milésima vez: o Lotus não é um carro abismalmente lento. Vamos à matemática para fazer a prova. Mais ainda: vamos comparar as performances de Webber e Kovalainen nos treinos de classificação. Peguei os tempos de ambos os pilotos no Q1 de todos os nove treinos de classificação até agora. O tempo médio feito por Webber é de 1m31s930. O de Kovalainen é de 1m34s776. A diferença entre os dois é de 2s846. Peguei também o melhor tempo do Q1 feito nos nove treinos, fiz a média e cheguei ao tempo de 1m30s952, 3s825 mais rápido que Kovalainen. Me responda, Mark Webber: aonde estão esses cinco segundos? E mesmo que fossem, qual é o problema? Uma coisa é ter um Life andando a 25 segundos do tempo da pole. Outra coisa, totalmente diferente, é ter carros pouco testados de equipes muito mais pobres do que Ferrari ou Red Bull andando a quatro ou cinco segundos dos carros de ponta.

O diabo da história é que uma pessoa como Mark Webber, que já foi diretor da GPDA, e um narrador como Galvão Bueno, que tem um enorme poder de influência sobre milhões, conseguem mobilizar um enorme número de detratores destas equipes. Rejeitadas, elas acabam apresentando dificuldades para negociar com fornecedores de motores, para contratar pilotos e principalmente para arranjar patrocinadores. E não crescem. E continuam culpadas por tudo. Webber bateu, culpa da Lotus. Hamilton espirrou, culpa da Virgin. Button brochou, culpa da Hispania.

Luca di Montezemolo: "eu tenho horror a pobre!"

Eu torço pelos underdogs. Em qualquer esporte. Underdog é a zebra, é aquele que não costuma frequentar o rol dos vencedores. Na Copa, torço por um inédito sucesso americano. É estranho falar em Estados Unidos como underdog, já que eles não costumam ser underdogs em nada. No soccer, no entanto, são. E seria engraçado vê-los esfregando o título na cara daqueles que enchem a boca para dizer que os yankees não sabem jogar futebol com o pé. Na Fórmula 1, aquele esporte onde um vence e 23 fazem cara feia, é mais fácil torcer para uma zebra. Nesse caso, me simpatizo com as paupérrimas Sauber e Hispania. Aliás, contrariando a opinião geral, acho o carro espanhol muito bonito.

Por quê torço pra eles? A lógica é simples. Não faz muito sentido, para mim, torcer para quem está vencendo. Fica chato. Fica monótono. Fica previsível. É óbvio que o torcedor fanático está pouco se lixando se é chato ou não. Para ele, nada mais bonito do que ver a McLaren ganhando 15 das 16 corridas ou o Schumacher levando 13 em um ano só. Mas eu não sou assim. Gosto de ver impérios ruindo. E, de preferência, pela plebe mais baixa.

Pobrismo? Com certeza, não. Mas nada mais legal do que ver uma zebra se dando bem. Me lembro de Jos Verstappen marcando o melhor tempo com um Minardi nos treinos de sexta do GP da França. Chovia pacas e apenas os dois carros italianos deram a sorte tremenda de pegar uma pista seca. Todo mundo comemorou. Até mesmo Kimi Raikkonen, juro.

Hoje, Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, atacou as equipes novatas mais uma vez. Disse que carros com desempenho do nível da GP2 não deveriam poder largar nas corridas de Fórmula 1. Não é a primeira e nem a última vez que o cretiníssimo cazzo dispara contra Virgin, Lotus e Hispania. Ele fez isso na semana passada, quando disse que era necessário evitar tantas equipes pequenas. Ele fez isso no início do ano, quando falou que os novos times baixavam o nível da categoria. Para Luca, bom mesmo seria ter um terceiro carro para as equipes grandes. Bastante conveniente, afinal: teríamos mais carros competitivos, o grid não ficaria menor e daria para colocar uns astros ao volante. Seria ótimo para a Ferrari ter Felipe Massa, Fernando Alonso e Valentino Rossi. Ou Massa, Alonso e Robert Kubica. Ou Massa, Alonso e Sebastian Vettel. Ou qualquer porcaria que o valha.

É uma visão tacanha de alguém que tem o rei e a rainha na barriga. Gente como Montezemolo e Flavio Briatore acham que estão em uma espécie de eldorado do século XXI, aonde só há bilionários felizes, xeiques deslumbrados, grid girls fáceis e carros velocíssimos. Esporte a motor? Bobagem. A Fórmula 1 sublima a competitividade, o espírito esportivo e os torcedores. O ideal, para esta gente, é colocar carros para correr em locais sofisticadíssimos, com festas, badalação, futilidade e dinheiro jorrando. Imaginem uma Fórmula 1 de 12 carros (Mercedes, Ferrari, Red Bull e McLaren com três carros cada) correndo em Abu Dhabi, Mônaco, Cingapura, Nova York, Dubai e por aí vai. Sensazionale, como diria Montezemolo.

Equipes pobres fazem parte do espetáculo. Pensando pelo lado mais pragmático, são elas que farão o árduo trabalho de fechar o grid, poupando os ricos de tamanha vergonha. Pensando pelo lado mais humano, o esporte está lá. É em uma Lotus que há a esperança de dias melhores. E em uma Virgin que há a motivação de despender o parco trabalho e dinheiro unicamente pela presença na categoria máxima. É em uma Hispania que há histórias de superação individual de dificuldades. Fiquei feliz pelos caras da equipe espanhola quando conseguiram ligar os motores Cosworth na quinta-feira anterior ao GP do Bahrein. É algo inaceitável para os padrões contemporâneos da Fórmula 1? Taquem fogo nos tais dos padrões.

Viva Hispania, alzad los brazos, hijos del pueblo español...

É óbvio que pobreza é modo de falar. O bilionário Richard Branson pode ser qualquer coisa, menos pobre. O mesmo vale para os milionários José Ramón Carabante e Tony Fernandes. Mas fortuna pessoal não é sinônimo de orçamento livre. Os caras das equipes pequenas ralam muito em estruturas muito mais simples do que as equipes de ponta. A Virgin e a Hispania mal têm peças sobressalentes. O maior pânico destes caras é a possibilidade de um acidente violento. Essas equipes representam o lado B da Fórmula 1. A Fórmula 1 da parcimônia.

Em tempos anteriores, as pessoas se incomodavam menos com as equipes pequenas. Os retardatários, até os não tão remotos tempos da Jordan e da Minardi, tomavam várias voltas e ninguém falava nada. A categoria abria espaço para 28, 30, 32 carros sem chiar. Em 1989, houve um número recorde de 39 carros. As equipes que participavam da pré-classificação dividiam boxes. Em alguns casos, faltavam boxes e elas eram obrigadas a se abrigar em tendas montadas em uma área externa. E dividiam espaço. Onyx com Eurobrun. Zakspeed com Coloni. Rial com Osella. Separadas por um minúsculo alambrado. As pessoas sentiam um misto de pena e admiração. Os Montezemolos e Briatores não abriam a boca para dizer bobagens. O irônico da história é que tanto Luca quanto Flavio vivenciaram este período. O crescimento insuportável da categoria, pelo visto, apagou estes momentos da memória de ambos.

E até que algumas equipes pequenas conseguem, vez por outra, entrar no bojo das grandonas. Nos anos 70, Frank Williams fazia seus negócios em um telefone público ao lado de sua minúscula oficina em Grove. As pessoas não levavam sua equipe a sério. Os anos 80 e 90 vieram e muitos tiveram de engolir os risos a fórceps. A antiga Lotus, Brabham, BRM e outras garageiras inglesas começaram com estruturas minúsculas perante as montadoras italianas, alemãs e francesas. A Jordan estreou na Fórmula 1 em 1991 com um staff bastante reduzido. Oito anos depois, estava brigando pelo título. Isso porque eu nem falei da precária estrutura da Brawn, a campeã do ano passado. Alegar que as equipes pequenas não possuem o menor potencial é demonstrar uma extrema falta de conhecimento do negócio.

Luca di Montezemolo, mais uma vez, demonstrou uma lamentável mistura de prepotência e ignorância histórica. O diabo da situação é que, como se trata de um homem público e de um presidente de uma das marcas mais celebradas no mundo, muitos acabam acatando suas abominações verbais. E o elitismo boçal vigora, talvez por medo de surgir aí novas concorrentes ou por pura repulsa aos menos abastados. Tenho certeza, porém, de que o sr. Luca não pensaria duas vezes antes de defender o garagista Enzo Ferrari, que quis abrir uma pequena equipe de corridas utilizando antigos Alfa Romeo nos anos 30.

A próxima corrida, daqui a duas semanas, será realizada no circuito urbano de Valência. O Grande Prêmio da Europa será realizado no segundo dos três circuitos de rua do atual calendário da Fórmula 1. Pista de rua é uma coisa legal não só por causa dos acidentes que costumam ocorrer, mas também devido ao cenário existente em volta. Tem algo de idílico em ver um McLaren acelerando ao redor de prédios, um Ferrari contornando uma esquina ou um Williams passando por sobre uma ponte. Deve ter algo a ver com a identificação do mero mortal com o lugar: o Schumacher ou o Hamilton estaria realizando o sonho de um cidadão comum de passar por aquela reta a mais de 300 km/h, enquanto que ele não pode (ou não consegue) levar seu Corsa ou Polo a mais de 120.

Não que o cenário seja excepcional, mas você não consegue ver nada disso na TV

O único problema é que o circuito de rua de Valência é muito, como posso dizer, enfadonho. Feio. Horrível. Se o circuito de rua supõe ser a ligação mais terrena entre o distante automobilismo e a vida citadina, Valência conseguiu construir o circuito de rua mais distante possível da cidade, se é que se pode falar assim. Os muros são muito altos em alguns pontos. Em outros, os alambrados é que estragam a vista. As poucas áreas de escape são asfaltadas. E é tudo muito, muito cinzento. A ponte, que deveria ser a maior atração visual da pista, simplesmente não pode ser identificada por si só nas transmissões. Há, sim, uma tenebrosa sequência de arcos que indica a todos “olha, estamos sobre a água”. E só.

Poucos sabem, mas este circuito está localizado ao lado do centro histórico e atravessa todo o famoso porto de Valência. Ao redor, temos marinas, embarcações encostadas nos píeres, casinhas simples e prédios antigos, além de um belíssimo mar. Não é, de fato, a parte mais bonita da cidade, mas também está longe de ser feia. E Valência conseguiu a proeza de esconder a maior parte em seu circuito, restando apenas algumas construções mais altas. Me arrisco a dizer que é o visual mais insípido, para não dizer feio, que eu já tive conhecimento em se tratando de um circuito de rua.

Esse tipo de pista não pode ser assim. Comparemos com as duas outras pistas de rua do calendário, Mônaco e Marina Bay. O primeiro dispensa apresentações: se há um circuito que consegue expressar perfeitamente bem a cidade que o sedia, este é Mônaco. Uma profusão de enormes prédios clássicos, alguns casarões centenários, um pequeno comércio destinado aos abastados moradores e turistas, um túnel, marinas e portos, tudo isso rodeado por uma pista que exibe detalhadamente bem cada ponto. Temos aí o Casino de Montecarlo, o restaurante La Rascasse, o hotel Fairmont (antigo Loews), as lojinhas de produtos náuticos da curva da Piscina e por aí vai. Tanto o piloto quanto o espectador conseguem sentir o espírito nobre e ao mesmo tempo espalhafatoso do principado às margens do Mar Mediterrâneo. Não por acaso, por mais aborrecidas que sejam as corridas, muitos amam Mônaco unicamente pelo elitismo inerente à pista.

Mônaco, um principado que une italianos, franceses e demais europeus mediterrâneos cujas contas-correntes são ligeiramente maiores do que as dos mortais

Eu, sinceramente, respeito mas não consigo admirar aquele culto ao luxo feito à francesa em Montecarlo. No entanto, adoro o cenário de Marina Bay. Sou fã das chamadas skylines, os arranha-céus em português. E o circuito cingapurense consegue realizar com perfeição o que propõe: exibir os exuberantes prédios da cidade-estado à noite, quando todas as luzes estão acesas e há um ar futurista naquele bolo urbano. O curioso da história é que Cingapura não tem prédios exatamente gigantescos (o maior tem 280m de altura), já que há a questão do tráfego aéreo. Mas Marina Bay não é só isso: a pista contempla também a Esplanade (um enorme teatro em formato de domo), o centenário hotel Fullerton, o parque Merlion e até mesmo uma enorme roda gigante. Ao contrário do que eu imaginava, a cidade de Cingapura, antigo entreposto britânico no sudeste asiático, é um colosso que mescla perfeitamente bem a modernidade asiática com a tradição européia.

Posso lembrar de outros circuitos de rua famosos pela sua vista. Muitos brasileiros das antigas ainda se lembram do circuito da Gávea, um enorme descidão com mais de cem curvas que contemplava famosas avenidas cariocas e até mesmo o local da atual favela da Rocinha. Temos também os belos circuitos de Florianópolis e Vitória, localizados próximos à praia, e também o circuito paulistano localizado às margens do Tietê, coisa horrível. Os franceses adoram o Circuit du Pau (no Brasil, é aquilo que afeminados gostam; na França, é uma pequena cidade turística), composto por esquinas e muitas curvas de baixíssima velocidade rodeadas por casarões. O mesmo acontece entre os ingleses e o antigo circuito de Birmingham, seus sobradinhos e a Halfords, uma curva em forma de gota que rodeava uma praça circular.

Marina Bay e seu hotel Fullerton. Os muros podem até ser altos, mas as construções superam qualquer coisa

Em Macau, seu Circuito da Guia passa por prédios, casas e até mesmo ao lado de uma maternidade. Os Estados Unidos têm um monte deles. Destaco Detroit, rodeado por prédios altíssimos, túneis, pontes e o rio Detroit, que margeia a reta dos boxes. Long Beach também tem um belo cenário, mas a largura da pista e os muros extremamente altos criam o mesmo efeito negativo que temos em Valência. A Espanha teve por um ano o circuito de Bilbao, utilizado apenas para uma corrida da World Series by Renault e composto até mesmo por uma ponte aonde os carros passavam por cima de parte da pista. Na Finlândia, temos Helsinki, uma gracinha de cidade e uma bosta de circuito. Na Austrália, tem Surfers Paradise, uma belíssima cidade praiana que mais parece estar na Califórnia, e Adelaide, uma pista excelente que infelizmente não valoriza o cenário da bela cidade. Temos muitos outros circuitos de rua e eu não tenho tempo nem saco para ficar descrevendo todos. Corram atrás no Google e no Youtube.

Muitos exemplos bons de circuitos que valorizam sua cidade. Citei também circuitos que não tem um cenário tão belo assim, e infelizmente Valência está nesse grupo. É uma pista boa para corridas (não para a Fórmula 1, mas para outras corridas) que não atrai pelo visual. Nesse sentido, até mesmo algumas pistas permanentes localizadas em regiões metropolitanas, como são os casos de Interlagos e Hungaroring, acabam dando um destaque maior para a vida citadina localizada ao redor. Valência merecia um tratamento melhor, mesmo que o centro histórico signifique centro degradado cheio de drogados e putas e o porto cheire a peixe. É melhor isso do que um monte de muros e alambrados cinzentos.

Inuktitut: uma família linguística existente entre os esquimós do norte do Canadá. Acho eu que é isso

MONTREAL: É a única cidade canadense que me desperta alguma curiosidade, apesar da minha enorme simpatia pelos estados de Saskatchewan, Yukon e Nunavut. O circuito insular utiliza o espaço criado para as Olimpíadas de 1972 e a Expo 67. Eu gosto pra caramba. Algumas pessoas visivelmente tomadas pelos efeitos maléficos dos narcóticos criticam-na, dizendo que se trata de um punhado de retas separadas por dois retornos. É óbvio que é uma opinião de quem não entende porra nenhuma de nada. A pista demanda uma condução bastante agressiva e um trabalho hercúleo dos freios. Sempre há alguém no melhor estilo Jos Verstappen que coloca menos asa para dar uns shows de pilotagem. A proximidade dos muros costuma significar um alto índice de acidentes. Se chover, o negócio fica melhor ainda.

CHUVA: Com exceção do Bahrein, todas as etapas da Fórmula 1 neste ano tiveram previsão de chuva em algum momento. E em Montreal, não podia ser diferente. No caso da pista canadense, no entanto, podemos esperar por algo mais real. A primavera costuma trazer muitas chuvas para a América do Norte e Montreal já teve várias corridas com muita chuva, como em 1989. Dança da chuva já!

EMERSON: O piloto-comissãrio da vez é Emerson Fittipaldi, campeão de 1972 e 1974. Me arriscaria a dizer que sua fama na América do Norte, aonde fez uma carreira longa e vitoriosa correndo na Indy, foi um fator determinante. Ou não. De qualquer forma, esse negócio de colocar pilotos para trabalharem como comissários está sendo uma atração à parte nesse ano.

RENOVAÇÕES: Dois nomes que corriam à boca solta acabaram se garantindo para o ano que vem. Mark Webber seguirá na Red Bull em 2011 e Felipe Massa, alvo preferido da mídia ávida por reviravoltas, renovou seu contrato com a Ferrari por mais dois anos. Que as pessoas sosseguem um pouco após isso.

COPA DO MUNDO: Corrida de Fórmula 1 em período de Copa do Mundo é algo altamente estranho. Com o perdão do trocadilho involuntário, ninguém dá muita bola, o que é algo bem natural. O pessoal vai comentar mais sobre Sérvia x Gana, jogo que acontecerá duas horas antes. Podem anotar.

Neste final de semana, pela primeira vez há muito tempo, sentei e acompanhei uma etapa inteira da Stock Car V8, a própria. Estava curioso para ver como seria a tal etapa de rua de Ribeirão Preto, esperando rir das bizarrices típicas da maior categoria do automobilismo tupiniquim. Para minha infelicidade, não aconteceu nada de muito diferente do que é comum na categoria e Átila Abreu conquistou uma bela vitória, a primeira de sua carreira. Todavia, o que mais me chamou a atenção não foi a vitória de Abreu ou o acidente múltiplo na primeira largada, mas sim a transmissão da Globo.

Em determinado momento, a maior emissora do país decidiu alternar, de maneira quase patética, a transmissão da corrida com a final do “Novo Basquete Brasileiro” (que porra é essa?). Foi tragicômico ver Luís Roberto, pau pra toda obra nas transmissões globais, alternando sua narração entre cestas, pit-stops, arremessos, pneus, bolas, telemetrias, Marcelinho, Xandinho, Paulo Chupeta, Rosinei Campos e por aí vai. Diante desta inusitada salada mista, enquanto meu sistema nervoso central tentava compreender que o Duda do basquete não era igual ao Duda Pamplona da corrida, eu parava e pensava: é isso mesmo que a Stock Car vale para a Globo? É isso mesmo que a Stock Car quer? E, pretensiosamente, comecei a matutar o que significa o automobilismo para a Rede Globo. Este é o tema do post de hoje. Alerto: é gigantesco.

Em qualquer discussão de boteco, quando a Rede Globo é mencionada, os fãs de automobilismo sentem frio na espinha. Os mais versados no assunto trazem à tona várias categorias abraçadas com a maior empolgação do mundo pela emissora, como se fossem tão impressionantes e imperdíveis como uma final de Copa do Mundo,  e que depois acabam abandonadas como se nunca tivessem existido na programação. Isso já aconteceu com a Fórmula 3 sul-americana, a Fórmula 3000 Internacional, a Fórmula Truck, a TC2000, a própria Stock Car nos anos 70 e, acreditem, até mesmo com a Fórmula 1. No final de 1979, após insucessos seguidos da equipe Copersucar e sem pilotos brasileiros disputando as primeiras posições, a Globo simplesmente cancelou o contrato com a Fórmula 1 e ficou por isso mesmo. No ano seguinte, a Bandeirantes comprou os direitos e deu a tremenda sorte de poder exibir a primeira grande temporada de Nelson Piquet na categoria. Com a perspectiva de ter novamente um piloto brasileiro disputando o título, a Globo voltou atrás, arrancou os direitos de transmissão das mãos da Bandeirantes e começou a transmitir a temporada de 1981 a partir da segunda etapa, em Jacarepaguá. Desde então, a emissora nunca mais deixou de exibir as corridas da Fórmula 1.

Ficou indignado com a atitude da emissora? É bom que expliquemos algumas coisas. Muitas pessoas acham que a Globo só tem olhos para o futebol, relegando todos os outros esportes, inclusive a Fórmula 1, a um nível secundário. Sim e não.

Stock Car. Uma categoria que vale menos do que o que a CBA e Vicar pensa. Uma categoria que vale mais do que o que a Globo pensam

A Globo é uma emissora de caráter generalista, que visa atingir o maior número de espectadores possível de modo a atrair muitos anunciantes e lucrar. O indivíduo não precisa ser um gênio para chegar a esta conclusão. Nunca foi intenção da emissora prover algo além do superficial, realizar uma produção mais especializada do que quer que seja. Como a intenção da empresa é atrair o máximo de pessoas, cabe a ela exibir novelas, esportes, filmes, reality shows, noticiários, desenhos, documentários e vários outros gêneros. O maior desafio, neste caso, é adequar a grade de modo a comportar o maior número e variedade possíveis de programas. Sendo assim, é impossível conseguir fazer algo mais aprofundado em algum nicho, como automobilismo, filmes cult ou novelas de época. Pare e pense: qual grupo social poderia dizer “eu, como fanático por algo, assisto a tal programa na Rede Globo”? Nenhum.

Volto aos esportes. Futebol à parte, qual grupo poderia se orgulhar de ter um tratamento digno na Globo? Absolutamente nenhum. Nós reclamamos muito da Globo por ela transmitir apenas os treinos oficiais e as corridas de Fórmula 1, sem sequer fazer uma cobertura minimamente decente nos seus jornais. Reclamamos de barriga cheia, isso sim. E os fãs de vôlei? E os de basquete? Estes ainda podem assistir às finais dos campeonatos mais importantes, transmitidas de modo quase oportunista pela emissora. E os fãs dos outros esportes, quase inexistentes na visão do departamento esportivo da empresa? Mesmo no futebol, alguém por lá se lembra que são vinte os times participantes da série A do Brasileirão? Para a Globo, só existem os paulistas e os cariocas, mesmo em outros estados.

O péssimo tratamento dado pela emissora à Stock Car, portanto, não é exclusivo da categoria. E, a propósito, ela deve muito à Globo. Em 2008, a emissora chegou a exibir todas as etapas da Stock ao vivo, algo que ela nunca se dispôs a fazer nos últimos tempos para nenhum outro esporte além do futebol e da Fórmula 1. No ano passado, oito das doze etapas foram mostradas. Qual foi o resultado no IBOPE? Audiência média oscilando entre 4 e 6 pontos, abaixo das concorrentes Record e SBT no horário. Para uma emissora que visa angariar o máximo de espectadores, por que seguir exibindo um punhado de corridas que não atraem a atenção de ninguém?

Aí muitos argumentam que isso ocorre porque a Stock Car está chata e a culpa é da Globo, que impôs um monte de exigências. Errado. A culpa é da CBA e da Vicar, organizadoras do campeonato, que sabiam com quem estavam lidando e, mesmo assim, se entregaram de corpo e alma à emissora e suas idiossincrasias. Se a transmissão das corridas é cortada na última volta, se os horários são extremamente espremidos, se os pilotos são obrigados a participar de uma novela, se os pit-stops são obrigatórios e se apenas Cacá Bueno recebe a devida atenção, as pessoas devem, ao invés de reclamar com a Globo, bater na porta de cidadãos como Carlos Col, Paulo Scaglione e Cleyton Pinteiro para cobrar mudanças.

A categoria quis se apoiar no poderio mercadológico da Globo para crescer e acabou minando sua própria identidade esportiva. À primeira vista, é muito mais lucrativo aparecer, mesmo que por alguns segundos e de maneira risível, na telinha da Globo do que em qualquer outro tipo de mídia. Para mim, nada além de oportunismo puro e baixo que visa apenas algumas migalhas, já que a categoria não tem muito mais espaço de crescimento graças exatamente à submissão quieta. Se os homens da CBA e da Vicar estivessem se importando com isso, teriam largado a emissora e arranjado outra parceira. A Stock Car é um produto valioso e garanto que há várias emissoras interessadas, a começar pela Record. Mas isso não vai acontecer, porque é visível que a parceria com a Globo é benéfica aos capos da categoria, mesmo que esta esteja passando por uma péssima fase em termos esportivos.

Aí os mesmos que falam que a Stock é maltratada se lembram que a Fórmula 1, ao menos, tem todas as suas etapas exibidas ao vivo e na íntegra. Esta merece uma atenção especial do escriba. Uma sequência de razões levou a Fórmula 1 a ser o segundo esporte mais importante da Globo, mesmo que isso não signifique uma cobertura além do essencial.

As transmissões globais da categoria se iniciaram em meados dos anos 70, período no qual Emerson Fittipaldi já era um consolidado piloto de ponta. A ascensão de Emerson coincidiu com a fase decadente da carreira de Pelé, maior esportista brasileiro daquele período. Após o tricampeonato obtido em 1970, o futebol brasileiro entrou em um desagradável período sem títulos. Para o “pacheco”, aquele que só se importa em torcer para o Brasil não importando o esporte, o futebol deixava de ser atraente. O negócio era ver os carrinhos coloridos e barulhentos da Fórmula 1. Pense agora que o governo militarizado setentista apelava à autoestima popular celebrando o quão bom era ser brasileiro, e nada mais adequado que um ídolo esportivo como Emerson para levar o “Brasil Grande” ao topo do mundo. Pense também que 1975 foi o primeiro ano do projeto Copersucar na Fórmula 1. Some tudo isso e voilá: a Globo abraçava a Fórmula 1 no final dos anos 70.

A Globo só deu uma segunda chance à Fórmula 1 graças a ele

Porém, o projeto Copersucar deu errado, a autoestima brasileira não andava tão alta assim e Emerson Fittipaldi já não estava aguentando mais ser um piloto do meio do pelotão. Como dito acima, a Globo acabou abandonando a Fórmula 1 em 1979, mas voltou a transmiti-la dois anos depois. Inicia-se, aí, a segunda fase do relacionamento da Globo com a Fórmula 1.

Nelson Piquet era o cara. Apesar de antisocial e sarcástico, era ele quem vencia corridas para o Brasil na Fórmula 1. Ao mesmo tempo, com a ditadura militar em decadência, a autoestima do brasileiro voltava a se elevar. Apesar do início de uma outra crise, a econômica, o Brasil estava avançando novamente. E o futebol? Em 1982, tivemos uma seleção inesquecível que entrou na Copa da Espanha como favorita e saiu dela com uma amarguíssima derrota sofrida pela Itália. Já fazia doze anos que o país não vencia uma Copa. A Fórmula 1, portanto, deveria servir de consolo.

Se a Fórmula 1 já apaixonava muitos brasileiros nos tempos de Piquet, a chegada de Ayrton Senna transformou o esporte na maior febre brasileira do final dos anos 80 e início dos 90. Eu me arriscaria a dizer que foi o único período no qual a supremacia futebolística foi realmente ameaçada por outro esporte. O brasileiro passou a se interessar por corridas de carro de uma maneira jamais vista. Os péssimos governos Sarney e Collor, os planos econômicos fracassados, o lastimável estado do futebol, o atraso e a depressão gerais do país eram motivos para lamentações, mas o brasileiro se sentia muito bem ao ver Senna vencendo e ganhando. A audiência das corridas ultrapassava os 40 pontos com frequência. Foi um período muitíssimo bem aproveitado pela Globo, que cedia enormes espaços nos jornais ao automobilismo em geral.

Quando Senna morreu, todos acharam que o interesse pela categoria simplesmente desapareceria no Brasil. No entanto, não foi o que aconteceu, e começa aqui a explicação maior pelo fato da categoria estar firme e forte na Globo até hoje. Muitos brasileiros, por meio de Piquet e Senna, acabaram tomando gosto pela própria Fórmula 1 e não só pelos pilotos tupiniquins. O fato de acordar cedo aos domingos para acompanhar a Fórmula 1 passou a ser um hábito no Brasil. Ao mesmo tempo, havia um jovem piloto, Rubens Barrichello, que aparentava ter todo o potencial para se tornar o quarto brasileiro campeão da Fórmula 1. É verdade que, a partir de 1994, a audiência caiu vertiginosamente. Porém, não o suficiente para prejudicar as transmissões no país.

Nos últimos dez anos, o Brasil teve pilotos na Ferrari, e este fato reacendeu as atenções à Fórmula 1. Muitos voltaram a acompanhar as corridas esperando que Rubens Barrichello e Felipe Massa trouxessem o caneco para casa. Independente disto não ter acontecido até agora, o fato é que a Fórmula 1 ainda atrai as atenções de muitos. A audiência média nos domingos de manhã é de 15 pontos, mais do que o dobro do que o que a emissora costuma atingir neste horário sem as corridas. De madrugada, a audiência gira em torno dos 8 pontos. Para dois horários considerados “mortos” para os marqueteiros da televisão, a Fórmula 1 acaba sendo considerado um negócio extremamente interessante. Qual outro esporte motivaria cinco grandes anunciantes (Renault, Nova Schin, Mastercard, Santander e TIM) a investir em horários tão incomuns?

Isso explica também o fracasso da CART no SBT no final dos anos 90. Ao contrário da Fórmula 1, a categoria americana sempre era transmitida nos domingos à tarde no Brasil, horário importantíssimo para a emissora de Sílvio Santos. Como o SBT não tem o mesmo poder de influência da Globo, a esmagadora maioria dos espectadores era composta por poucos fãs de automobilismo que acompanhariam a CART de qualquer jeito. Lá pelos idos de 1997, o Domingo Legal de Gugu Liberato era interrompido para a transmissão da corrida quando batia a casa dos 25 pontos. Após a corrida, Gugu e suas bizarrices tinham de retornar com meros 5 pontos. O horário da Fórmula 1, portanto, é extremamente favorável em comparação com outros esportes.

Há outros fatores que explicam o sucesso da Fórmula 1. O fato de ser considerada “a maior categoria do mundo, com os melhores pilotos e as melhores equipes” é muito forte. Além do mais, é um esporte bonito que explora o imaginário do espectador ao colocar, por exemplo, uma Ferrari pra correr em altíssima velocidade nas ruas de Mônaco. Para a Globo, é um produto diferenciado que atrai espectadores das classes A e B ao mesmo tempo em que consegue dar audiência, um belo paradoxo em se tratando de televisão aberta. Assim, a emissora consegue ter anunciantes de nível maior do que ocorre nas transmissões de futebol, por exemplo. Não é por acaso que as concorrentes esperam qualquer vacilo dos cariocas para tomarem os direitos de transmissão para si.

Resumo tudo o que falei dizendo: Fórmula 1 é Fórmula 1, Stock Car é Stock Car. Uma, mesmo que longe do ideal, sempre receberá um bom tratamento da Globo pelos motivos que eu citei acima. A outra é um esporte tão importante quanto curling ou futsal, e terá de se submeter aos caprichos globais tendo como única recompensa o pretenso privilégio de aparecer no maior canal de televisão do Brasil. Que os homens da CBA e da Vicar saibam que, se a Stock Car está em um mal estado em termos esportivos, as coisas não mudarão se ela continuar com a Globo.

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