Clique


Que presentão, hein, Jean?

11 de junho de 1995 era o dia do 31º aniversário do francês Jean Alesi. O cara era foda. Animava as corridas com seu arrojo, sua destreza na chuva e sua impressionante falta de sorte. Eu, hiperbólico como de costume, acho que é o piloto mais injustiçado da história da Fórmula 1 desde Chris Amon. E, hiperbólico como de costume, acho que era melhor piloto do que qualquer um dos campeões da era Schumacher, tirando o próprio. Não acho Mika Hakkinen, Jacques Villeneuve ou Damon Hill superiores, em termos de pilotagem pura, a Jean Alesi. Muitos, em seu íntimo, concordariam comigo. No fundo, todo mundo gostava do Alesi. Quem não torcia por ele, boa gente não era.

11 de junho de 1995 era também o dia do 33º Grande Prêmio do Canadá (considerando que a primeira corrida canadense da história da Fórmula 1, realizada em 1967 em Mosport, é considerada o 7º Grande Prêmio do Canadá). Sexta etapa do campeonato, ela prometia mais uma briga entre Michael Schumacher e Damon Hill, os dois postulantes ao título e os dois primeiros colocados no grid. Atrás deles, David Coulthard, Gerhard Berger e Alesi. Largando em quinto, o francês não estava muito otimista devido a problemas de sobresterço. Mas os deuses, sempre cruéis com Jean, quiseram tornar aquele dia friorento de junho um dia especial para Jean, para a Ferrari e para a própria Fórmula 1.

Alesi manteve-se em quinto na primeira volta, mas subiu para quarto na segunda volta, quando Coulthard rodopiou sozinho e saiu da prova. Com o carro em excelentes condições, o francês ultrapassou Berger também na segunda volta. Na terceira, Jean marcou a melhor volta da corrida. Ele começava a se aproximar muito rapidamente de Hill, o segundo colocado.

Apesar disso, não havia uma oportunidade real para o piloto da Ferrari nº 27 tentar ultrapassar Hill. Ele teve de esperar até a volta 17, quando Hill deu de cara com os retardatários Ukyo Katayama e Pierluigi Martini. Como Damon não é o Nobel da ultrapassagem sobre retardatários, Alesi aproveitou e ultrapassou o inglês na chicane que antecede a reta dos boxes. O francês já era o segundo, mas o líder Michael Schumacher já estava muito à frente. A partir daí, a corrida deu uma esfriada e muitos achavam que terminaria daquele jeito. Nunca que o sempre sortudo Schumacher teria problemas e perderia a liderança, ainda mais para alguém como Alesi.

Mas aconteceu. Na volta 58, a Benetton do alemão começou a perder rendimento de maneira drástica. Cada vez mais lento, Schumacher tenta trazer seu carro aos trancos e solavancos para os boxes. Chegando lá, os mecânicos tiram o volante e começam a analisar o que estava acontecendo. O diagnóstico confirmou que o câmbio estava travado em terceira marcha devido a um problema no volante. Trocado o sistema de direção, Schumacher voltou para a pista em oitavo após ficar mais de 1,5 minuto nos pits. Michael voltou com o demônio no corpo, andando cerca de quatro segundos mais rápido que qualquer um, inclusive o líder… que era Jean Alesi!

Após a corrida, Jean confessou que, ao ver a placa P1 para sua Ferrari, começou a chorar. Faltando apenas 10 voltas para o final da corrida, o francês nunca havia estado tão perto da vitória. E olha que ele já teve inúmeras oportunidades, tendo liderado nada menos que oito corridas antes desta prova canadense. Em duas delas, Jean abandonou com problemas enquanto rumava à vitória. Restava ao francês apenas levar seu 412T2 até o fim sem problemas.

E assim aconteceu. Após 68 voltas e 1h44min54s171, Jean Alesi era o mais novo vencedor da história da Fórmula 1. Após 105 corridas, o dia do francês finalmente havia chegado. A Fórmula 1 estava feliz, o próprio Schumacher admitiu ter ficado contente com a vitória de seu amigo de Avignon.

Mas é claro que uma corrida de Alesi deveria ter alguma “alesizisse”. E teve. Na volta de retorno aos pits, enquanto Alesi comemorava, o seu Ferrari acabou ficando sem combustível e parou no Hairpin. Passando por ali, Schumacher ofereceu uma carona ao francês. E temos aí a belíssima imagem do Clique de hoje.

Uma das minhas fotos preferidas. Tem cara de montagem barata, mas não é. O acidente existe e eu já vi o vídeo, embora ele não exista no Youtube.

Pancho Carter, hoje beirando os 60 anos, era uma das atrações do fundão do grid da Indy nos anos 80. Natural do estado do Wisconsin, ele fez fama vencendo corridas de midgets e carros-esporte, mas nunca conseguiu nada além de uma singela vitória em Michigan/1981 e uma série de acidentes na categoria máxima de monopostos dos Estados Unidos. Carter fez a temporada de estréia da Indy em 1979 e, a partir daí, se inscreveu para pelo menos uma corrida em todas as temporadas até 1994! Em se tratando das 500 Milhas de Indianápolis, o currículo de Carter vai ainda mais longe: sua primeira participação ocorreu em 1974.

Em 1987, Pancho Carter saiu da Galles e encontrou uma vaga na mediana Machinists Union, uma espécie de equipe sindical comandada pela organização homônima de trabalhadores do setor de operação de máquinas americano. Apesar do viés esquerdista, a equipe era muito bem patrocinada por empresas muito capitalistas como Playboy e Hardee’s. Como a Machinists Union já tinha sete anos de experiência na Indy, não era um mau negócio para alguém na situação de Carter. Seu carro seria um March 87C novinho em folha equipado com motor Cosworth.

Com pantagruélicos 49 inscritos, a briga pelas 33 vagas na Indy 500 daquele ano seria bastante disputada. No segundo dia de treinos, 3 de Maio, Pancho veio à pista para acertar seu bólido. E eis que, às 17h58, acontece o acidente mais bizarro da sua vida.

Carter perde o controle de seu March e roda na curva 3. Naquele momento, o vento estava muito forte e o ar entrou por baixo do carro, que levantou vôo e deu uma pirueta em alta velocidade, caindo no asfalto de ponta-cabeça. A partir daí, Pancho Carter seguiu se arrastando por 180 metros, bateu na curva 4 e se arrastou por mais 80 metros, tudo isso de ponta cabeça.

Pancho saiu do carro ileso e, no dia seguinte, já estava treinando de novo. No fim das contas, ele conseguiu largar em 29º mas acabou abandonando na volta 45. O capacete utilizado na batida ficou todo ralado e foi mandado para o Indy Hall of Fame.

Faltando três dias para o Grande Prêmio de Mônaco, por que não homenagear um dos inúmeros personagens da história da Fórmula 1 que se eternizaram nos registros automobilísticos do principado? Este personagem em questão é o francês Olivier Panis, piloto boa-praça cuja única vitória na carreira aconteceu em Montecarlo no já distante ano de 1996.

Panis era o primeiro piloto da Ligier, equipe tradicional francesa que não passava pelos seus melhores dias. Seu carro, o JS43 equipado com motor Mugen-Honda, não passava de um típico bólido do meio do pelotão e os resultados obtidos até então não eram exatamente animadores. Mas Mônaco é Mônaco, tudo pode acontecer. E o Ligier JS43 prometia funcionar bem por lá.

Tão bem que nos dois primeiros treinos livres de quinta-feira, Olivier ficou na sexta posição. O carro estava muito bom para conseguir alguns pontos. No entanto, a alegria do francês mudou para um semblante fechadíssimo na classificação de sábado, quando ele conseguiu dar apenas três voltas rápidas antes do carro ter problemas no motor. O resultado foi um distantíssimo 14º lugar no grid, algo que irritou Panis profundamente, pois ele sabia que dava, no mínimo, para largar entre os dez primeiros.

Porém, todas as pessoas tem o seu grande dia na vida, aquele em que dá tudo certo. O de Olivier Panis foi exatamente o dia seguinte ao do treino classificatório, 19 de Maio de 1996.

Para início de conversa, o francês mostrou que seu carro estava em excelente forma e foi o mais rápido no warm-up, ficando três décimos à frente de Mika Hakkinen, o segundo colocado. O carro era muito bom, mas era uma pena que Mônaco sempre foi um circuito onde as ultrapassagens tendiam à completa impossibilidade. Mas vem cá, estamos falando do dia 19 de Maio de 1996, o dia de Olivier Panis! Chovia um bocado em Mônaco, mas a expectativa era o secamento da pista no decorrer da corrida. A Ligier apostou em apenas uma parada de boxes.

Olivier não largou bem e perdeu uma posição para Martin Brundle. Porém, ainda na primeira volta, Michael Schumacher, Rubens Barrichello e Jos Verstappen sofriam acidentes e abandonavam a corrida. Décima segunda posição para Panis. E o show começa a partir daí.

Volta 7: Panis ultrapassa Brundle na Rascasse e sobe para a 11ª posição. Ele está a cerca de 40 segundos de Hill.

Volta 10: Gerhard Berger abandona com problemas no câmbio e Panis sobe para décimo.

Volta 16: Panis ultrapassa Hakkinen na Mirabeau e sobe para nono.

Volta 18: Irvine e Frentzen batem, e o alemão tem de ir aos pits para trocar o bico. Panis é oitavo.

Volta 25: Panis ultrapassa Johnny Herbert na Loews e sobe para sétimo. Já são três ultrapassagens em Mônaco.

Volta 28: Panis para e perde duas posições, para Herbert e Hakkinen.

Volta 29: Um monte de gente para nos pits e Panis sobe para sexto, ficando atrás de Herbert mas ganhando as posições de Jacques Villeneuve e Mika Salo.

Volta 30: Mais paradas de pits e Panis acaba subindo para quarto, ganhando as posições de Herbert e de David Coulthard.

Volta 36: Panis faz a melhor ultrapassagem da corrida, ao deixar a Ferrari de Eddie Irvine para trás na Loews. Uma ultrapassagem a cada nove voltas, uma das melhores atuações individuais da história do principado. Terceira posição para ele!

Volta 41: O motor do líder Damon Hill explode. Panis sobe para a segunda posição! Está bom? Ainda não.

Volta 60: Jean Alesi, da Benetton, tem problemas de suspensão e acaba saindo da corrida. E Olivier Panis, milagrosamente assume a liderança.

A partir daí, foi uma questão de se manter na pista e poupar combustível e pneus. Atrás dele, David Coulthard e seu McLaren vem se aproximando com rapidez. Mas Panis consegue se manter à frente e, após duas horas de corrida, vence o Grande Prêmio de Mônaco de 1996. Uma zebra com performance de campeão.

Panis só descobriu que havia vencido a corrida quando já estava na metade do circuito. Ele pegou uma bandeira francesa e saiu desfilando pelo restante do circuito monegasco. Uma das mais incríveis corridas da história da Fórmula 1.

O mais bizarro, porém, aconteceu no dia seguinte. A Ligier se recusou a pagar a conta de hotel de Olivier Panis e o francês ficou algumas horas preso no estabelecimento tentando resolver a situação. No final, contas pagas e Olivier seguia a vida como o mais novo vencedor de corridas da categoria.

Você me pergunta: o que há de especial nessa foto? Eu respondo: nada de especial além de um horrendo Arrows A1 e um piloto italiano até então considerado promissor o conduzindo. Mas há quem considere esse Grande Prêmio da Itália o benchmark da carreira de Riccardo Patrese.

Aos 24 anos, Patrese estava em seu primeiro ano completo na Fórmula 1. Com seu Arrows, vinha fazendo um ótimo campeonato a ponto de ter conseguido liderar o GP da África do Sul e de ter obtido um brilhante segundo lugar na Suécia. Na pista, o italiano era caracterizado pelo estilo bastante agressivo e até mesmo perigoso segundo alguns. Porém, era um período no qual competiam nomes como Ronnie Peterson, Jody Scheckter e Gilles Villeneuve. Patrese, portanto, não era nenhuma aberração nesse sentido.

Em Monza, o piloto italiano largaria em um razoável 12º lugar. Seu companheiro, o alemão Rolf Stommelen, sequer se pré-classificou. Até aí, tudo bem. No dia seguinte, porém, Riccardo se envolveria em um acidente que, no mínimo, afetaria sua carreira por um bom tempo, se não para sempre.

Deu tudo errado no procedimento de largada. O diretor de prova Gianni Restelli erroneamente não esperou os últimos pilotos do grid de 24 carros se posicionarem no grid e deu sinal verde para a partida. Os pilotos que vinham atrás, que não haviam sequer parado, aproveitaram o fato de estarem em movimento e apenas aceleraram, enquanto que os ponteiros começavam a se mover. Ao mesmo tempo, Riccardo Patrese tentou uma manobra diferente ao utilizar a parte externa asfaltada à direita para ganhar posições fora da pista. A atitude até que vinha funcionando, mas havia um problema: esta parte externa se tornanva cada vez mais estreita e Patrese precisava voltar para a pista mais cedo ou mais tarde.

Ele tentou voltar no momento em que o McLaren de James Hunt estava ao seu lado. Hunt não quis dar passagem, mas esterçou o carro ligeiramente para a esquerda. A medida não foi suficiente e Patrese acabou atingindo o McLaren, que perdeu o controle e acertou o Lotus de Ronnie Peterson. O Lotus foi direto ao muro e todos nós conhecemos o resto da história.

Patrese? O sempre polêmico James Hunt iniciou um movimento de crucificação e boicote contra o italiano, alegando que ele era muito perigoso e por isso não deveria estar no grid. Como Hunt era o rei da lábia, vários pilotos se uniram a ele, como Lauda, Emerson e Scheckter. A GPDA se reuniu e decidiu pelo banimento de Riccardo Patrese na corrida seguinte, em Watkins Glen.

Riccardo voltou em Montreal e ainda conseguiu um bom quarto lugar. Mas o piloto, apesar de estar consciente da sua ausência de culpa, estava bastante deprimido e chegou até a reconsiderar sua carreira. Fora das pistas, foi aberto um inquérito contra Patrese e o diretor de prova. O caso legal se prolongou até 1981, quando ambos foram absolvidos. Até Jody Scheckter veio ao piloto para se desculpar. Terminava aí a via crucis de Riccardo Patrese.

No entanto, todos começaram a perceber que a pilotagem de Riccardo Patrese havia mudado. A agressividade deu lugar a uma passividade quase covarde. Nos mais de 200 grandes prêmios que se seguiram, Patrese obteve apenas seis vitórias, um vice-campeonato com um carro impecável em 1992, algumas atuações boas e muitas discretas em equipes como Brabham, Alfa Romeo, Williams e Benetton. Deixou a Fórmula 1 aos 39 anos acusado de arrogante, amargurado e picareta. Para mim, fica difícil entender como um piloto poderia agir de outra maneira depois de tudo o que aconteceu.

E você? Acha que Patrese deveria ser culpado ou foi apenas um acidente de corrida?

Fiscais de pista cuidadosos, os de Paul Ricard. Simplesmente se uniram e viraram o March capotado sem o menor cuidado com o pobre Mauricio Gugelmin. Com um pouco mais de azar e o pescoço do cara vai pro espaço. Mas pra um autódromo que deixou Elio de Angelis morrer da maneira que morreu…

Quanto ao Gugelmin, ele saiu do carro, voltou correndo aos pits, trocou meia dúzia de palavras com Srta. Stella Gugelmin, outra meia dúzia de palavras com Ian Philips, entrou em um GC891 reserva novinho em folha, veio para a segunda largada e ainda marcou a melhor volta da corrida, a única de sua carreira!

Vídeo do acidente e do primoroso e exemplar procedimento dos fiscais de pista:

Termino a série especial Clique dedicada à Ayrton Senna com o término. Reconheço, ficou uma merda de pseudoconstrução poética. Mas vamos lá.

Ayrton Senna foi à Adelaide como se estivesse indo à festa de despedida de sua empresa. E, de fato, o fim de semana foi exatamente assim. O tricampeão brasileiro, aos 33 anos, estava saindo da McLaren para ir para a Williams, seu sonho naquele momento. Sua parceria com a McLaren entrou para a história: 96 corridas disputadas, três títulos mundiais, 35 vitórias, 46 poles-positions, momentos bons e ruins. Como o campeonato de 1993 já estava decidido desde Portugal em favor do francês Alain Prost, não havia nada mais a ser feito em Adelaide. Senna ainda podia ser vice-campeão, já que estava apenas dois pontos atrás de Damon Hill. Mas o que isso vale para uma tricampeão?

Senna já chegou acelerando a Adelaide. Nos primeiros treinos livres, o brasileiro ficou em 2º e em 3º. Já no primeiro treino oficial, Alain Prost liderava com facilidade. Enquanto Senna estava no carro, Ron Dennis pegou um papel e escreveu apenas um número: 62. Número místico? Não. Era apenas o número de poles que Ayrton Senna teria na carreira se ele conseguisse o milagre de largar na frente em Adelaide.

E não é que o papel funcionou? Senna saiu dos boxes e dirigiu seu MP4/8 que nem um pirado pelas ruas da cidade australiana. Cruzou a linha de chegada fazendo o tempo de 1m13s371, mais de quatro décimos à frente de Prost. Sua pole de número 62 estava feita.

Na corrida do dia seguinte, Senna largou bem mas Prost teve melhor saída e ameaçou o brasileiro. Porém, Ayrton conseguiu segurar a ponta. E lá ele se manteve até a volta 25, quando o McLaren nº 8 foi aos pits trocar os pneus. Voltou à pista 9 segundos atrás de Prost, mas com as paradas dos concorrentes, Senna reassume a liderança. E com um jogo de pneus melhor, Ayrton some na frente e não perde mais a liderança, mesmo na segunda rodada de paradas.

Depois de uma longa corrida de 79 voltas, Ayrton Senna completou a corrida 9 segundos à frente de Alain Prost. Foi a sua 41ª e última vitória na carreira.

Ainda no parque fechado, Senna foi em direção a Prost e o cumprimentou. No pódio, Senna puxou Prost para ficar junto dele no posto mais alto. Tempo depois, o francês confessou que não achou a atitude do brasileiro completamente sincera, mas isso não veio ao caso. A relação entre os dois voltou a ser boa. Com Prost aposentado e Senna correndo sozinho na Williams, não havia o porquê de manter uma briga estúpida.

Depois da corrida, todo mundo na McLaren foi comemorar a vitória de Senna em um bar nos arredores do circuito. Lá, Jo Ramirez, coordenador da McLaren e amigo próximo de Ayrton, fez um discurso de agradecimento pela passagem do brasileiro pela equipe. E Senna teve de cumprir uma promessa feita caso vencesse a corrida: tomaria um porre. O correto e sóbrio Ayrton Senna ficou completamente chapado.

Página fechada de uma belíssima história. Infelizmente, as páginas da vida de Senna não seriam muitas após isso.

Depois da vitória em Donington Park, Ayrton Senna passou por alguns perrengues em Imola (na chuva, sofreu dois acidentes nos treinos enquanto Prost vencia com facilidade, completa inversão de papéis) e terminou em um discreto porém eficiente segundo lugar em Barcelona. A próxima etapa seria no principado de Mônaco, dia 23 de Maio de 1993.

O brasileiro chegou a Mônaco com apenas dois pontos de desvantagem para Alain Prost, da Williams. Mas com pista seca, seria difícil arrancar a vitória da Williams. Pra complicar, logo no primeiro treino livre da quinta-feira, Senna rodou na “reta” dos boxes momentos antes da Saint Devote e bateu forte no lado interno da pista, destruindo por completo o lado esquerdo do carro. Bandeira vermelha e Senna sai do carro com fortes dores na mão. Na 1ª classificação, ele ficou em quinto.

No sábado, Senna teve um susto ainda maior, quando o fundo do McLaren raspou com força em uma ondulação na saída do túnel. O carro rodou em velocidade considerável e por pouco não bateu à la Karl Wendlinger nos pneus da chicane. A mão ainda doía e na segunda qualificação ele ainda conseguiu fazer o terceiro tempo, atrás apenas de Prost e Michael Schumacher.

A sorte mudou da água para o vinho no domingo. A largada de Senna não foi tão boa e ele quase perdeu a terceira posição para Damon Hill. Prost liderava, seguido de Schumacher. Mas havia algo de muito errado. A organização de prova suspeitava que o francês tinha queimado a largada. Replays exibidos, uma comissão de engravatados analisa e pimba: Alain Prost é punido com um stop-and-go de 10 segundos por irregularidade na largada. Prost pára nos pits na volta 12, mas os 10 segundos viram muito mais, quando ele deixa o motor morrer na saída. Acaba as chances de vitória do francês.

Michael Schumacher lidera e Senna é o segundo. Mas na volta 33, a Benetton começa a apresentar problemas hidráulicos e o alemão estaciona seu carro envolto pela fumaça na Loews. Acaba a corrida aí e quem é o líder? Ayrton Senna. Em, 1993, contrariando novamente todos os prognósticos de uma vitória da Williams, o raio caiu duas vezes no mesmo lugar.

E Senna venceu a corrida com folga. Sexta vitória, quinta seguida, o brasileiro passa a ser isolado o maior vencedor da história do principado. Ele também assume a liderança do campeonato, algo impensável pouco antes do início do mundial.

Um cara que vence seis vezes em um lugar como Mônaco é um artista, convenhamos.

Comecei essa série especial do tricampeão brasileiro e seria absolutamente indigno terminá-lo abruptamente só porque o dia 21 de Março já está longe. Tenho mais fotos aqui, e quer saber? Foda-se. Sigamos com Senna e a corrida mais emblemática a respeito de sua carreira.

Muito se diz sobre Donington/1993. Várias coisas são superestimadas, o que é óbvio, e outras são esquecidas, o que é igualmente normal. Eu vou tentar ser o mais breve possível. O GP da Europa de 1993 mereceria, se não um livro, uma série inteira para contá-lo.

Senna chegou a Donington Park, pista até então inédita para o calendário da Fórmula 1, um tanto cético a respeito das possibilidades de seu carro. O McLaren-Ford permitiu a Ayrton vencer em Interlagos, mas lá era diferente, caiu uma enorme tempestade, Prost abandonou, Hill estava conservador, a torcida o empurrava, enfim, foi algo excepcional. Na Inglaterra, tudo voltaria ao normal e Senna seguiria apanhando da Williams FW15 de Alain Prost e Damon Hill.

Mas chovia durante todo o fim de semana em Donington Park e o McLaren se portava bem nessas condições. Na sexta-feira chuvosa, Senna chegou a ser o mais rápido do primeiro treino classificatório. No dia seguinte, a pista estava seca e Ayrton caiu para quarto. Na sua frente, Prost, Hill e Michael Schumacher.

No domingo, a pista estava ligeiramente úmida, o suficiente para obrigar os pilotos a largarem com pneus biscoito.  A largada é dada e Ayrton Senna arranca mal, perdendo a quarta posição para Karl Wendlinger, da Sauber, logo na saída. A partir daí, o show.

CRANER CURVES – Na primeira perna da sequência de curvas Craner, à direita, Senna deixa Schumacher para trás. Senna é quarto, mas já na segunda perna, à esquerda, ele encontra uma brecha, coloca por fora e ultrapassa Karl Wendlinger, assumindo o terceiro lugar.

MCLEANS – Logo depois da Old Hairpin, Senna traciona melhor que Hill e segue acelerando atrás do inglês. Sem muita reação, Damon acaba sendo ultrapassado por Ayrton na McLeans, curva de baixa velocidade à direita. Senna é segundo.

MELBOURNE – Após a McLeans, há um considerável trecho em alta velocidade. Senna utiliza o retão entre a Coppice e os Esses para se aproximar da Williams da Alain Prost. Completado o esse, Senna gruda na traseira da Williams. Quando se aproxima o grampo Melbourne, o brasileiro coloca por dentro e ultrapassa Prost sem dificuldades. Em apenas uma volta, passa de quinto para primeiro.

A partir daí, a corrida foi uma verdadeira montanha-russa climática, variando da pista seca para a chuva forte. Senna teve problemas nos pits, mas Prost também. No fim das contas, Senna venceu e ainda se deu ao luxo de colocar uma volta em cima do Professor, o terceiro colocado atrás de Damon Hill.

Duas vitórias em três corridas, Senna era líder do campeonato em um carro praticamente rejeitado por ele pouco antes do campeonato. Desculpem se não detalhei a corrida, mas é a primeira volta que realmente importa. Segue o vídeo:

O ano de 1992 vinha sendo um tremendo de um calvário para Ayrton Senna. Seu McLaren MP4/7A era uma enorme decepção e não conseguia conter o domínio do impressionante Williams FW14B de Nigel Mansell e Riccardo Patrese. O carro amarelo, branco e azul era perfeito em curvas e retas graças principalmente à impecável suspensão ativa e à gasolina especial Elf. O carro vermelho e branco não era rápido e nem confiável.

Mônaco era a sexta etapa do campeonato de 1992. As cinco primeiras foram vencidas de modo inconteste por Nigel Mansell, que assim chegava a um recorde de vitórias consecutivas em um início de campeonato. O Leão chegava ao principado monegasco com 50 pontos. Ayrton Senna tinha apenas oito, frutos de dois terceiros lugares em Kyalami e Imola. Entre os dois, ainda havia Riccardo Patrese e Michael Schumacher. Senna era honesto consigo mesmo: a briga pelo título parecia encerrada. Mas Mônaco é Mônaco, tudo pode acontecer.

Os treinos se seguiram da mesma maneira que nos outros fins de semana. Mansell foi sempre o mais rápido e acabou fazendo o absurdo tempo de 1m19s495, quase um segundo mais rápido que o segundo colocado, seu companheiro Patrese. Porém, Ayrton não ficou tão atrás. Na quinta-feira, chegou a estar na primeira fila. No fim das contas, ficou em terceiro, a apenas 1s1 de Mansell.

No dia seguinte, a McLaren conseguiu melhorar o carro para a corrida, nada que mudasse muito a situação. Na largada, Senna conseguiu o milagre de passar Patrese na primeira curva, tomando a segunda posição. Já era um lucro danado, sabendo que o italiano dificilmente conseguiria passar Senna naquela pista. Mansell, porém, mantinha a primeira posição e disparava.

A princípio, Senna apenas segurava Patrese enquanto o Leão ia embora. Com o passar do tempo, porém, o Williams nº 6 começou a ter problemas de dirigibilidade e Riccardo Patrese ficou para trás. A corrida seguia tranquila para Mansell, que chegou a abrir 30 segundos para Senna na segunda metade da corrida. Restava a Senna esperar que algo acontecesse. E não é que aconteceu?

Na volta 70, a roda traseira esquerda do carro de Mansell se esvazia e o carro do Leão dá uma desgarrada perigosa dentro do túnel. Lentamente, ele vai aos boxes e aproveita para colocar pneus novos. Com o tempo perdido, Ayrton Senna assume uma liderança inesperada, no que é a primeira vez no ano que consegue ficar na frente!

Mas Mansell tem pneus novos e muito mais carro. Além disso, a diferença entre os dois quando Nigel voltou à pista era de apenas 5 segundos. Fazendo voltas mais rápidas nas de nº 73 e 74, Mansell chega rapidamente em Senna. Todo mundo esperava que o Leão repetisse aquela sensacional ultrapassagem feita em Alain Prost em 1990. Mas como estava difícil!

Senna, sem pneus e com um carro precário, segurava heroicamente Mansell nas curvas do travado traçado. A pista era proibitiva para ultrapassagens, mas Mansell colava na traseira de Senna de uma maneira que muitos pediriam arrego. Mesmo assim, Senna fechava as portas em todas as curvas e, quase sem tração, dava um jeito para evitar que Mansell tentasse na curva seguinte. Essa batalha persistiu durante as últimas cinco voltas. Nigel Mansell, mesmo tentando tudo, não conseguiu passar Ayrton Senna, o vencedor do Grande Prêmio de Mônaco de 1992.

Foi a primeira vitória de Senna em 92, a quinta no principado, a quarta consecutiva por lá e uma das mais bonitas de sua carreira. Termino o post com uma frase de Mansell: “Foi o segundo lugar mais bonito da minha carreira!”

Essa imagem diz absolutamente tudo. 21 de Outubro de 1990.

Mais uma vez, o circuito de Suzuka entraria para a história da Fórmula 1. Ayrton Senna e Alain Prost se encontravam mais uma vez para a disputa de um título mundial.

Dessa vez, Senna chegava à Suzuka à frente no campeonato, com 78 pontos contra 69 de Prost. Nos tempos dos descartes, a conta era complicadíssima: apenas os onze melhores resultados eram considerados, e ambos já tinham três abandonos e podiam descartar mais dois resultados. Prost tinha 5 pontos descartáveis, contra 8 de Senna, mas ambos tinham de esperar pelos resultados das últimas corridas para ver se haveriam outros pontos descartáveis. Na prática, apenas a vitória importava e Senna tinha vantagem: se a diferença de 9 pontos fosse mantida, o título seria do brasileiro.

A Ferrari aparentava ter vantagem nas curvas de alta e, mesmo com as novidades no motor trazidas pela Honda, Prost seria páreo duro. Na Sexta-Feira, Berger surpreendeu e foi o mais rápido no 1º qualifying, com o tempo de 1m38s374, seguido de Prost e Senna, que havia dado uma rodada. Bola pra frente, pensou Senna. Amanhã vai ser melhor.

De fato, foi. Com a pista mais rápida, Ayrton fez uma volta fantástica e marcou a 51ª pole-position de sua carreira, com o tempo de 1m36s996, o único piloto a fazer uma volta abaixo de 1m37. A Ferrari, porém, estava muito bem e colocou Prost em 2º e Mansell em 3º. Senna e Prost na primeira fila, mais uma vez. O que será que os esperava? Era talvez a decisão mais aguardada da história da F1 até então.

Durante todo o fim de semana, Ayrton Senna pediu para que os oficiais da FISA alternassem as posições, movendo a posição do pole-position do lado direito, ao lado da mureta dos pits, para o lado esquerdo, onde os carros passavam e a pista ficava mais emborrachada e aderente. Como o capo da FISA era exatamente o desafeto de Senna Jean-Marie Balestre, não foi surpresa que os oficiais negassem o pedido. E Senna largaria do lado mais sujo da pista, o que o revoltou muito.

Domingo, dia 21, 13h locais, 1h no horário de Brasília. 150.000 pessoas acomodadas nas arquibancadas do autódromo de Suzuka e milhões de pessoas acompanhando pela TV. No Brasil, já era de madrugada, e Galvão Bueno iria acompanhar a saga de seu amigo. Na época, o locutor já estava brigado com Reginaldo Leme. Os 26 carros se posicionam no grid, a bandeira verde é acionada lá atrás, a largada é autorizada e dada.

Ayrton Senna, como esperado, largou mal e perdeu a ponta para Alain Prost. Mas o brasileiro tinha para si que não deixaria Prost escapar após a primeira curva. Ah, mas não deixaria MESMO!

Senna buscou um espaço impossível na primeira curva e colocou o carro por dentro. Prost fechou a porta e os dois se chocaram a mais de 200km/h. Prost saiu rodopiando e parou na caixa de brita. Senna seguiu reto até bater na barreira de pneus com força. Fim de prova para os dois. O mundo esperava que viesse a bandeira vermelha, mas ela não veio e a corrida seguiu. Senna era bicampeão mundial.

O que esse humilde escriba acha? Que Senna foi irresponsável, infantil e quase idiota mesmo. Foi, sem dúvida, a pior atitude que ele tomou na Fórmula 1 de longe, e talvez a atitude mais lamentável que eu já vi de um piloto na Fórmula 1. Um acidente desnecessário e que poderia ter colocado a vida dos dois em risco, pois ocorreu em alta velocidade e em uma curva perigosa. Muitos dizem que foi uma bela vingança. Ora, estamos falando de corrida de carro! Defender Senna é que nem aceitar um motorista que, fechado no trânsito, provoca uma batida como resposta. Senna poderia ter se vingado na pista, o que ele provavelmente conseguiria e o que seria uma vingança elegante e que o consagraria como o vencedor na briga contra Balestre e Prost. Fazendo o que fez, se rebaixou ao nível deles.

Mas a história foi feita desse jeito e a briga pelo título de 1990 terminou deste modo, com ambos voltando aos boxes. Separados.

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