Cineverde


Você já viu esse vídeo aqui? É de um acidente que aconteceu em Zandvoort com um piloto de Fórmula Ford há cerca de 20 anos. As imagens são relativamente conhecidas entre aqueles indivíduos mórbidos que, como eu, gostam de um acidente daqueles. Se você nunca viu, dê uma olhada. É meio forte.

Eu já tinha visto esse vídeo há alguns anos, e sempre tive a curiosidade de saber o que havia ocorrido com o piloto. Os boatos eram inúmeros e diziam que o cara havia ficado em coma por um bom tempo ou que ele simplesmente tinha ido dessa para uma melhor. Mas eis que uma informação definitiva surge nos comentários do próprio vídeo: o piloto não sofreu nada de mais grave e competiu em Zolder alguns dias depois. E qual era a fonte da tal informação? O próprio piloto, o belga Marc Delpierre!

Por incrível que pareça, não foi a primeira vez que ouvi falar de Delpierre, hoje com 40 anos e dono de uma empresa monegasca de relações públicas. Há dois anos, dei a tremenda sorte de achar um livro belga que reportava toda a temporada de automobilismo na Europa em 1990. E havia, neste livro, uma foto em alta definição de Marc andando com seu F-Ford patrocinado pela Camel – o carro que, por sinal, aparece no vídeo. Mandei um e-mail a ele pedindo uma entrevista. Solícito, me respondeu em poucas horas e em nada menos que sete mensagens!

COMO FOI O ACIDENTE?

O acidente aconteceu em Zandvoort em abril de 1990. Eu estava correndo com um monoposto fabricado em 1989. Nos treinos, estava muito difícil fazer uma volta rápida com aquele carro, mas consegui me classificar em sexto no grid. Na corrida, tive uma ótima primeira volta! Na primeira vez eu que cheguei lá no retão dos boxes, eu estava colado no carro que ia à minha frente. Então, eu posicionei meu carro para ultrapassá-lo uma fração de segundo além do recomendável.

Acabei tocando na roda traseira do carro que estava na minha frente e a suspensão dianteira do meu carro acabou se quebrando. Perdi o controle e bati a mais de 230km/h! Você viu o acidente. Tive uma EQM (experiência de quase-morte) e voltei à vida alguns minutos depois. Fui transportado ao hospital, mas os médicos não detectaram fratura nenhuma! Duas semanas depois, eu estava pilotando novamente em Zolder! Logo depois, fui para a Inglaterra competir no campeonato britânico de Fórmula Ford.

Quando vi o acidente pela primeira vez, pensei “Marc, você é sortudo!”. Não era minha hora. 

E ESSA EXPERIÊNCIA DE QUASE-MORTE?

Ah, são sempre as mesmas coisas estranhas que costumam dizer a respeito. Logo após a batida, tive uma imensa sensação de serenidade, de completo bem-estar. Depois, senti que estava voltando por um túnel branco… e acordei com meu pai e o diretor da minha equipe conversanado comigo.

VOCÊ CHEGOU A ANDAR NA FÓRMULA 3 OU NA FÓRMULA 3000?

Eu cheguei a competir na Barber SAAB, que é o equivalente a uma Fórmula 3. Eu até cheguei a fazer testes com um carro de Fórmula 3 de uma equipe francesa, mas como eu não tinha dinheiro, não deu para fazer uma temporada com ela.

ENTÃO, SEU PROBLEMA ERA DINHEIRO, CERTO?

Sim, e esta é a razão pela qual deixei a Europa e migrei para os Estados Unidos.

A história da EQM é bizarra. Outra coisa legal é o carinho que ele tem por Ayrton Senna:

Eu encontrei Ayrton em Snetterton uma vez. Ele estava testando seu McLaren por lá. Foram poucos minutos na garagem. Ele me deu alguns bons conselhos sobre o carro, sobre alguns acertos e sobre traçados. Seu interesse por Fórmula Ford era tão grande quanto por Fórmula 1. Foi um momento inesquecível. Quando você conversava com Ayrton, podia sentir sua paixão, sua energia positiva…

Sinto sua falta. Quando vi seu acidente, pensei que ele não morreria, se recuperaria e se tornaria o campeão mundial de 1994. Mas não aconteceu. Aquele era seu momento de ir embora. Que dia triste para o automobilismo!

A quem interessar possa, a carreira de Marc Delpierre não é lá muito longa, mas é bastante razoável. Entre 1983 e 1986, ele competiu no kart local e foi campeão da Classe 3 do campeonato de Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Entre 1987 e 1989, ele passou a competir também nos kartismos europeu e mundial, e também não foi mal. Entre 1990 e 1992, ele correu em diversos campeonatos de Fórmula Ford, subiu sete vezes no pódio e foi campeão do Loctite Challenge em 1991. Entre 1993 e 1994, fez algumas corridas no campeonato americano Barber SAAB. Mas a esta altura, Delpierre já estava comprometido com seus negócios de relações públicas e marketing esportivo e decidiu abandonar sua carreira como piloto no fim de 1994.

O carro de Delpierre: antes...

... e depois do acidente

Automobilismo é, definitivamente, um negócio cruel. O cara investe sua vida, seu tempo, o dinheiro e a paciência dos pais para realizar o sonho de ser um piloto de Fórmula 1. Se ele dá errado logo no kart, tudo bem, o sonho acaba, a realidade volta à tona e resta fazer uma faculdade ou cuidar da quitanda da mãe. O problema é quando a carreira engrena e o jovem piloto começa a perceber que possui talento o suficiente para brilhar no topo. Ele chega à World Series ou à GP2, anda muito bem e descobre que… a Fórmula 1 continua tão inacessível como sempre. Este é o caso do português Álvaro Parente.

Álvaro Parente é um dos melhores pilotos do mundo fora da Fórmula 1. Exagero meu? Deve ser, sou apegado a hipérboles. Mas o caso é que o cara tem um currículo muito melhor do que o de muito piloto da Fórmula 1 e da Indy. Álvaro já foi campeão da Fórmula 3 inglesa em 2005 e da World Series by Renault em 2007. Além disso, contabiliza vitórias na Fórmula 3 espanhola, na Superleague e na GP2. Na pista, é veloz e muito raramente comete erros. Pela lógica, deveria estar na Fórmula 1 e, no mínimo, em uma equipe média. Mas quem disse que há lógica na Fórmula 1?

Parente é um dos casos mais lamentáveis de pilotos talentosos sem dinheiro. Em seu país, as empresas demonstram pouco interesse em patrocinar seus pilotos. Nem sempre foi assim. No início dos anos 90, empresas como a petroleira Galp patrocinavam maciçamente pilotos como Pedro Chaves, Diogo Castro Santos, Pedro Lamy, Manuel Gião e Pedro Couceiro.  Lamy fez a Fórmula 3000 em 1993 com um batalhão de patrocinadores que incluía até mesmo a gigante japonesa dos videogames Nintendo. Com o passar do tempo , o Grande Prêmio de Portugal saiu do calendário, as categorias portuguesas se enfraqueceram e sobraram apenas iniciativas individuais de gente como o próprio Parente e Antônio Félix da Costa, da Fórmula 3 européia.

Em várias ocasiões, a carreira de Parente quase foi interrompida por falta de fundos. No fim de 2007, mesmo com o título da World Series, ele cogitou abandonar tudo. Sua carreira foi salva pela Unicer, uma grande empresa lusitana que produz vários tipos de bebida. Dizem que a recomendação de Parente saiu do astro do futebol Cristiano Ronaldo, um dos patrocinados pela empresa. Com o apoio, Álvaro encontrou uma vaga na razoável Supernova para correr na GP2 em 2008. E assim ele levou o emblema da Soccerade, um dos produtos da Unicer, em seu carro.

Nesse ano, tudo indicava que a sorte dele mudaria. A Virgin o chamou para ser um dos dois pilotos reserva da equipe, ao lado do baiano Luiz Razia. Por pior que a Virgin fosse e por menos testes que houvesse, a oportunidade de se vincular a uma equipe de Fórmula 1 era um sonho para Álvaro Parente.  Logo, porém, o sonho desmoronou e se transformou em uma desagradável situação. Seu principal patrocinador na empreitada, o Instituto de Turismo de Portugal, o deixou na mão faltando apenas alguns dias para a apresentação oficial da equipe. E olha que foi o Instituto que o obrigou a assinar com a Virgin em detrimento de outras duas equipes. Enfim, Álvaro deu o azar de se envolver com gente que não valia a pena.

Neste último fim de semana, a Coloni o chamou às pressas para correr na etapa de Spa-Francorchamps da GP2 no lugar do dispensável Alberto Valério. Parente entrou no carro vestindo apenas um macacão branco sem qualquer sinal de patrocínio. É visível que Paolo Coloni o convidou apenas por camaradagem e por uma questão de emergência. Mesmo assim, Álvaro fez uma grande apresentação. Apesar de ter feito apenas o 16º tempo na classificação, ele ganhou cinco posições na primeira volta e tentou uma muitíssimo bem sucedida estratégia de permanecer na pista pelo maior tempo possível. No final da corrida, o português se encontrava na liderança com mais de 23 segundos de vantagem sobre o segundo colocado. Fez a parada e voltou com tudo, quase tomando a vitória de Pastor Maldonado. Terminou em segundo. No dia seguinte, Álvaro também fez uma corrida agressiva e se envolveu em uma das melhores manobras de ultrapassagem dos últimos anos, mostrava no vídeo aí embaixo. Terminou em terceiro.

Como um cara desses está fora da Fórmula 1?

Gerson Gouveia? Quem é este?, pergunta alguém não tão informado.

Gerson é um dos melhores pilotos da atual temporada da Stock Car V8. Não é difícil reconhecê-lo. Seu carro, pintado de azul e preto, carrega o número 53 e é patrocinado pela Goodyear e pela Gouveia Metalúrgica, empresa de sua abastada família. Na vida pessoal, ele é casado com a estudante de jornalismo Diana Rodrigues, embora já tenha apresentado alguns claros pendores pedófilos. À primeira vista, a descrição parece indicar a vida de um personagem de novela. E é mesmo. Representado por Marcello Antony, Gerson é um dos principais personagens de Passione, novela da TV Globo.

Como em toda novela global, o enredo é previsível, forçado, superficial e até mesmo errático. Apesar de todo o background de corridas, as atenções estão voltadas para o computador de Gerson. O que será que o aflige tanto quando alguém se aproxima da máquina? As evidências indicam que ele guarda um bom número de fotos de criancinhas para seu deleite sexual. Como em toda novela global, previsível, forçada, superficial e até mesmo errática, deve ser isso mesmo: Gerson é pedófilo. E é isso que importa, no fim das contas. A Stock apenas empresta sua grife e toda sua estrutura para servir como cenário de uma historinha boba.

Já andei falando um tempo atrás sobre a subserviência da Stock Car perante a Globo. A categoria move montanhas para agradar a emissora e recebe, em troca, alguns minutos compartilhados com esportes praianos e reportagens sobre a cor da cueca do Neymar na programação dominical global. Uma das concessões foi exatamente ceder espaço para as gravações da tal novela. Para isso, após uma sessão de treinos da última corrida realizada em Interlagos, alguns pilotos (14, mais precisamente; o restante do grid foi completado com edição computadorizada) foram colocados na pista para fazer algumas voltas simulando uma corrida com Gerson Gouveia. Eles gostaram, é claro. Alguns deles, como Norberto Gresse e Lico Kaesemodel, tiveram seus quinze minutos de fama, que não conseguem obter nas corridas de verdade, e puderam expor seus patrocinadores. No fim das contas, o único que se incomodou um pouco com esse negócio foi Thiago Camilo. O incômodo, aliás, se deu pelo motivo errado: ele estaria incomodado com a possibilidade de Gerson Gouveia ser gay. E, no fim das contas, em Interlagos, ele deixou que alguns artistas entrassem no seu carro. E tudo ficou por isso mesmo, como sempre ocorre na Stock.

Não estou dizendo que a Stock Car deve chutar a bunda da turma de Passione e criar um clima ruim com a Globo. Se Carlos Col e companhia sentem que a novela trará uma atenção maior para a categoria, que venha. O problema é efetuar um enorme esforço por tão pouco espaço, e de baixa qualidade. A Stock teve de adequar um horário de seu cronograma em Interlagos e simular uma corrida completa desde o burburinho anterior à largada. Em troca, a categoria quase não é citada. E quando aparece na telinha, ganha contornos irreais. Para a novela, pouco muda, já que não é intenção dela expor os pormenores da Stock. Mas e para o automobilismo? Qual é o ganho em ter aquilo que foi exibido no capítulo do dia 5 de julho? O capítulo em questão é esse daí do vídeo. Não costumo ver novelas, mas dei a sorte (ou não) de ter assistido a esta pérola na TV.

O vídeo fala por si só, mas sigo com os comentários. Na corrida em questão, Gerson Gouveia larga em segundo. Dou um doce pra quem acertar o pole-position escolhido pelo pessoal da novela. Após a largada, Gouveia ultrapassa o darling global na curva que identifiquei como sendo o Laranjinha e assume a liderança. Um indivíduo reclamão e perfeccionista até o fio de cabelo como eu não deixaria de perceber que a edição de imagens é completamente aleatória, criando uma sequência completamente errada da ação. O piloto sai da Ferradura, entra na Junção, desce no S do Senna, segue pela reta dos boxes, completa o Pinheirinho e segue em diante, confundindo a cabeça deste pobre infeliz.

As imagens misturam a movimentação dos carros com closes de Gerson Gouveia, que faz a corrida pensando no pé na bunda que tomou de Diana alguns momentos antes. Nisso, eu reconheço: apesar de novelístico, acontece do piloto ir pra corrida pensando nessas coisas. Diz a lenda que Ivan Capelli passou vergonha na Ferrari e na Jordan porque havia tomado um belíssimo chifre de sua esposa. E o próprio Senna teria descoberto, alguns dias antes da fatídica corrida de Imola, algumas histórias bem desagradáveis envolvendo Adriane Galisteu. Mas ressalto: são lendas. Não provo nada. Voltando ao Gerson, era visível que ele não tinha condições psicológicas para a corrida. Mais cedo ou mais tarde, o erro aconteceria.

E aconteceu. Gerson e o darling global se tocam na entrada do S do Senna, e o carro de Gouveia segue reto na curva. Contrariando as leis da física promulgadas por Galvão Bueno, o carro rodopiou e deu um belíssimo duplo twist carpado do nada. O que se seguiu foi uma série de capotagens de fazer Gualter Salles corar de inveja. Após algumas piruetas, o carro de Gerson Gouveia parou de cabeça para baixo, e lá estava o piloto inconsciente e com sangramento no nariz. E terminou aí o show. Sylvester Stallone, criador do horrendo Driven, se sentiria orgulhoso do filme que fez. Apenas um post scriptum: Driven é de 2001, época em que os efeitos especiais ainda não eram tão avançados.

Tempestade em copo d’água? Pode até ser. Afinal de contas, não é intenção da novela se aprofundar no tema automobilismo. A dona de casa que mora na Seropédica, com certeza, não está ligando se o carro capotou de maneira bizarra ou se o jogo de câmeras é irreal. O que importa é saber se o tal do Gerson Gouveia é pedófilo ou não. No fim das contas, todos sabemos. Sabemos que Gerson Gouveia é pedófilo. Sabemos que a Stock Car se prestou a algo risível. Sabemos que o pior de tudo é que a categoria gostou.

A Fórmula 3000 era muito foda. Diversão garantida para seus doze espectadores. Você olha esse vídeo, pensa por alguns décimos de segundo e concorda com o escriba. Sim, a “três mil” era foda.

Essa meleca do vídeo ocorreu no antigo, longuíssimo e exuberante autódromo de Hockenheim no ano de 1993. Este trecho aí é o início do primeiro grande retão, que sucede a Nordkurve. O acidente merece uma descrição, bem como seus personagens.

O primeiro a bater é Michael Bartels, em seu Reynard-Cosworth pintado com as cores da equipe Pacific. Bartels fazia seu terceiro ano completo na Fórmula 3000 e era companheiro de David Coulthard em uma equipe que já estava em vias de estrear na Fórmula 1 no ano seguinte. O alemão foi um raro caso de piloto que andou na Fórmula 1 (tentou largar com um Lotus-Judd, sem sucesso, em algumas corridas de 1991) antes de correr na Fórmula 3000. Ele entrou rápido demais na Nordkurve, colocou as rodas do lado esquerdo na brita, perdeu o controle, rodopiou e bateu com força no guard-rail do outro lado. Para sua infelicidade, o Reynard ricocheteou de volta à pista e ficou parado por lá. E aí começa a festa.

Os pilotos que vêm atrás em alta velocidade são obrigados a fazer malabarismo para desviar do carro de Bartels. Alguns conseguem, mas outros não. Conheçamos alguns personagens da história.

Massimiliano Papis, 24, era um piloto italiano com cara de tonto que mostrava muita velocidade misturada com completa falta de bom senso. De razoável passagem pela Fórmula 3 italiana, “Max” estreava na Fórmula 3000 naquele ano correndo com um belo Reynard-Cosworth ciano e azul escuro preparado pela fraca Vortex. Até Hockenheim, ele tinha marcado cinco pontos e estava entre os dez primeiros. Nada mal.

Constantino Junior, 25, era um piloto brasileiro de razoável capacidade. Você já deve ter ouvido falar nele. Você já deve ter até voado na companhia dele. Sim, Constantino é o presidente da Gol Linhas Aéreas. Hoje em dia, ele se arrasta nas últimas posições na Stock Car V8 como hobby. Poucos se lembram, no entanto, que o magnata já chegou muito perto da Fórmula 1. Vice-campeão da Fórmula 3 sul-americana, ele fazia sua temporada de estréia pela PTM, equipe inglesa que tinha mais dinheiro do que capacidade técnica. Patrocinado por uma concessionária da Mercedes sediada em Portugal, Junior corria em um Reynard-Cosworth cujo layout lembra muito o da Jordan em 1995.

Jerôme Policand, 29, era um piloto francês do meio do pelotão que dirigia um Reynard-Cosworth da Omegaland. Não sei quase nada a respeito dele. Se não me engano, corre até hoje. Vou conferir, volto já. É, passei perto. Ele se aposentou em 2009. Já correu muito na LMS. Na Fórmula 3000, fez quatro temporadas completas. Nunca fez nada de relevante.

Pois bem, o acidente começa quando Policand se assusta com os destroços do carro de Bartels e freia violentamente. Constantino, que vinha mais ou menos ao seu lado, também reduz. Logo atrás, Max Papis surge como um doido e faz um strike nos dois carros à sua frente. O carro do francês perdeu a asa traseira, enquanto que o brasileiro rodopiava e acertava o guard-rail.

Com a frente razoavelmente destruída, Papis encosta seu carro na grama e abandona a corrida. Constantino, após bater no guard-rail, ricocheteia de volta à pista, acerta a lateral de Policand e para na grama em seguida. Fim de prova para ele também. Sem asa traseira, Jerôme também não tem muito mais o que fazer e abandona a corrida metros à frente.

Bandeira vermelha. Era um acidente que tinha tudo para ser esquecido, mas alguma boa alma fez o upload do vídeo no Youtube. E agora ele está aqui. Sensacional, essa Fórmula 3000.

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Ficou assustado com o acidente de Mike Conway na última volta da Indy 500 deste ano? Pois saiba que, há sete anos, houve um acidente muito, mas muito pior. Kenny Brack, este é o cara do carro que explodiu nas telas de proteção. Ele sobreviveu.

Eu sempre achei Brack um piloto de extremo talento, mas não conseguia gostar dele nos tempos da CART por ser bom demais nos ovais, impedindo qualquer outro piloto de vencer. Apesar dele ter obtido o título da Indy Racing League em 1998 e de ter vencido a Indy 500 no ano seguinte, o sueco ficou famoso mesmo ao dirigir o Lola-Ford amarelo e branco da equipe Rahal nas temporadas 2000 e 2001 da CART.

Em 2003, ele voltou para a Indy Racing League pela mesma Rahal. Correndo contra equipes em melhor situação, Brack não teve um ano fácil. No entanto, o pior momento ocorreu justamente nas últimas voltas da última corrida da temporada, realizada no velocíssimo e perigosíssimo oval do Texas.

Kenny Brack seguia lado a lado com o sul-africano Tomas Scheckter quando ambos tocaram rodas e o Dallara-Honda do sueco levantou vôo e bateu violentamente nas telas de proteção. Enquanto pedaços voavam para todos os lados, o que restava do cockpit desintegrado caía na pista e seguia rodando até parar. O narrador do vídeo perdeu a voz. Quem estava acompanhando não pensou duas vezes antes de exclamar “já era”.

Após sobreviver a uma força de 214 G (recorde mundial) e dar entrada no Parkland Memorial Hospital inconsciente, com fraturas em dois tornozelos, no fêmur direito, no úmero direito e na terceira vértebra cervical, Kenny Brack passou por um longuíssimo período de 18 meses de convalescência e inúmeras cirurgias. Depois disso, ele até voltou às pistas para fazer a Indy 500 de 2005. Mas a pedido de sua mulher, Brack abandonou o automobilismo profissional. Hoje, ele é músico e, de vez em quando, faz shows de abertura de eventos de automobilismo.

Não são muitos os felizardos que podem dizer que morrerão sem deixar de ter visto um carro da Mastercard Lola em movimento. Nesse momento, você será um deles.

É um vídeo de apenas quinze segundos. Nele, Ricardo Rosset perde a traseira de seu Lola T97/30 na curva 4 e dá uma leve rodada em direção ao muro. O contato foi fraco, e provavelmente Rosset voltou aos pits para os devidos reparos, não tenho certeza. Atrás dele, Eddie Irvine e sua Ferrari.

A rodada é uma interessante amostra da total falta de equilíbrio do Lola. Expliquemos o trecho da pista onde tudo aconteceu: a curva 4 é uma curva de progressiva reaceleração feita à esquerda em segunda marcha a pouco menos de 140km/h. Ela sucede a curva 3, uma curva de forte freada feita à direita e em terceira marcha a uma velocidade ligeiramente acima dos 140km/h. Note, portanto, que mesmo que a velocidade entre a curva 3 e a curva 4 não mude muito, o piloto precisará reduzir uma marcha, o que implicará uma força de tração maior sobre os pneus. Lembremos que Melbourne é um circuito que é raramente utilizado e a aderência da pista nos treinos é mínima, o que torna a curva 4 ainda mais desafiadora.

No entanto, um carro equilibrado lidaria com este trecho com desenvoltura. Obviamente, não era o caso do Lola T97/30, um bólido que foi desenvolvido em apenas cinco meses sem a ajuda de túneis de vento e que chegou à Austrália com apenas um shakedown feito na Inglaterra. Ao iniciar a reaceleração em uma marcha menor na curva 4, o carro tracionou mais do que seu aparato aerodinâmico permitiria e o resultado foi a escapada de traseira que levou à rodada.

Erro de Rosset? Pode-se argumentar que ele acelerou muito mais do que o que seu carro aguentaria e que um pouco mais de cautela não seria ruim. Mas o que ele poderia fazer? Acelerar menos e perder ainda mais tempo? A velocidade não era alta, ainda mais em se tratando do Lola, e um carro só rodaria em um trecho como a curva 4 daquele jeito se fosse completamente desequilibrado.

Pobre Rosset. Não que ele fosse lá um grande piloto, mas ele pegou três dos carros mais inguiáveis do final da década de 90: o Footwork FA17, o Tyrrell 026 e o Mastercard Lola.

O Bandeira Verde começa hoje mais uma seção, ou sessão: Cineverde. Reveja aqui os melhores e os piores momentos gravados em VHS, Betamax, Super 8, DVD, BluRay, TekPix e que podem ser vistos em sites de vídeos por aí. Começo hoje com a pancada básica do irlandês Dino Morelli no GP de Nurburgring da Fórmula 3000 Internacional em 1997. Esse é o pior acidente sem vítimas fatais da história da categoria.

Morelli era um piloto de algum potencial, mas como não tinha dinheiro, nunca teve uma oportunidade boa no automobilismo. Além disso, ele já tinha na conta um acidente muito parecido sofrido na mesma Fórmula 3000 em Barcelona dois anos antes, no qual ele fraturou os tornozelos. Mas esse foi fichinha perto do terror de Nurburgring, quarta etapa do campeonato.

Chovia pra caralho no circuito instantes antes da hora da largada. A visibilidade era péssima mas, mesmo assim, os sapientíssimos diretores de prova liberaram a largada. O brasileiro Ricardo Zonta, pole-position, manteve a liderança da corrida, que durou apenas três voltas.

Na terceira volta, Gareth Rees rodopiou na reta dos boxes, sendo acertado em cheio pelo carro verde de Dino Morelli, terceiro colocado na corrida anterior em Helsinki. O carro de Morelli, sem as rodas e a suspensão direita, simplesmente seguiu reto como um torpedo descontrolado na reta. Ao chegar à curva, o carro ainda esbarra em Cyrille Sauvage, mas não pára. O acelerador está travado!

Morelli vai de encontro com a barreira de pneus com toda a violência. Pneus voam para todos os lados e o guard-rail é rompido. Pânico geral no autódromo. Todo mundo achou que ele estava morto. O atendimento é rápido e, poucos minutos depois, Dino Morelli é levado de helicóptero ao hospital. Saldo final: cortes no rosto, concussão cerebral, duas pernas quebradas, traumatismo torácico e complicações respiratórias. O mais incrível é que, apesar de tudo isso, ele esteve consciente o tempo todo!

Morelli ficou se recuperando durante um ano e voltou para a Fórmula 3000 em 1998. Na sua primeira corrida, em Imola, bateu feio de novo. Mas não sofreu nada e seguiu sua carreira sem grandes sucessos até se retirar do esporte um tempo atrás.

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