A Lotus Renault para 2011

De um lado, um grupo de malaios liderado por um sujeito gordo e com cara de mafioso. Este sujeito, magnata dos transportes aéreos, liderou o desenvolvimento de uma equipe local cuja temática maior era a nostalgia – a memória de um nome consagrado. Do outro lado, outro grupo de malaios liderado por uma fábrica estatal de carros vagabundos. Esta gente comprou 75% das ações de uma equipe francesa de Fórmula 1 para nomeá-la com sua marca mais conhecida e que, por um incrível acaso, é o mesmo nome da outra equipe malaia. Os dois grupos, oriundos daquele país quente e cheio de pernilongos, conseguiram a proeza de deixar a Fórmula 1 com duas equipes de mesmo nome.

Já falei antes sobre a picuinha entre a turma da Lotus Cars e da Lotus Racing, que será Team Lotus em 2011. Para quem não está disposto a aturar outro texto desses gigantescos, resumo a ópera: num belo dia, Tony Fernandes decidiu renomear a Lotus Racing como Team Lotus. Por alguma razão desconhecida, o pessoal da montadora Proton, que é dona da Lotus Cars e que até participou dos primeiros dias do projeto Lotus Racing, decidiu peitar o bambambã mafioso. Os dois lados se encontraram na justiça, ninguém chegou à conclusão alguma e a Proton acabou comprando a maior parte das ações da Renault, criando a Lotus Renault F1 Team. Já Fernandes não mudou sua posição e terá a Team Lotus no ano que vem. Sim, é isso mesmo que você leu. Até o momento, haverá duas equipes Lotus em 2011.

Para falar a verdade, apesar de absolutamente pitoresca e farsesca, não acho tão ruim assim a existência de duas equipes Lotus per si. A Lotus Renault já divulgou uma imagem computadorizada daquela que deverá ser sua pintura em 2011: um carro preto com algumas linhas douradas e aerofólios avermelhados. Por outro lado, a Team Lotus, apesar de também querer correr com preto e dourado, não descarta continuar com o verde e o amarelo para a próxima temporada. Se for assim, serão dois carros belíssimos, certamente. Além disso, ver Galvão Bueno perdido em declarações como “e a Lotus da Proton passa a Lotus do Tony Fernandes” não terá preço, como diz a empresa odiada por fãs do Wikileaks.

O problema maior, no caso, é o uso gratuito, egocêntrico e até desrespeitoso de uma marca unicamente pela nostalgia que ela gera nos fãs mais antigos. Não vou falar só da Lotus aqui. O alvo da minha verborragia é essa busca eterna por aquilo que já passou. Por mais que nós não percebamos, a Fórmula 1 de 2010 reflete muita coisa das antigas. E o episódio Lotus representa apenas a situação mais extremada e vulgar dessa avidez pelo antigo.

E a possível pintura do Lotus da Team Lotus em 2011. Duas equipes Lotus, quatro carros pretos. Hunf...

Olhemos para o grid. Entre os pilotos da temporada atual, temos Nico Rosberg, filho de Keke Rosberg, e Bruno Senna, sobrinho do homem. É injusto dizer que o que mantém o piloto da Mercedes na Fórmula 1 é basicamente o fato de espelhar seu pai. Afinal, Nico sempre mostrou talento o suficiente para fazê-lo merecer uma boa posição na categoria. O sobrenome Rosberg, na verdade, não lhe ajudou muito. O que lhe ajudou, sim, foi a ótima posição financeira do seu pai, que conseguiu manter equipes particulares de kart, Fórmula BMW ADAC e Fórmula 3 para o filhote. Ainda assim, há aqueles que olham para o cara e se lembram das pirotecnias do pai, que é considerado até hoje um dos pilotos mais arrojados da história da categoria.

Perdoem-me os fãs, mas Bruno Senna é, sim, um produto da nostalgia. E ele sabe disso. No seu segundo ano de GP2, seu carro tinha os adesivos do S do Senna e do Senninha, marcas indissociáveis de seu tio. Bruno não é bobo. Associar-se ao tio tricampeão facilitaria absurdamente as coisas. De fato, facilitou. O efeito colateral, no entanto, é que quase todos acabam por enxergá-lo unicamente como uma emulação contemporânea de Ayrton Senna. Não existe o Bruno, mas o sobrinho do Senna. E a perda de identidade do cara, que tem competência o suficiente para não precisar aparecer pelo sobrenome, é uma consequência direta do sentimento eterno de nostalgia.

E do mesmo jeito que tivemos Rosberg e Senna, tivemos também Nakajima, Piquet, Hill, Villeneuve… Se considerarmos outras categorias, a lista fica muito maior: Mansell, Prost, Stewart, Fittipaldi, Jones, Lauda, Scheckter, Fangio, Andretti, Brabham e por aí vai. Fazendo uma constatação rápida, todos os campeões de Fórmula 1 entre 1977 e 1993 tiveram ao menos um filho ou parente competindo em alto nível no automobilismo. Não quero ser injusto e dizer que todos chegaram lá unicamente porque são oportunistas que querem desfrutar da fama de seu sobrenome. Mas há, em muitos casos, aqueles que querem ver “os filhos de campeões” na Fórmula 1 ou na Indy unicamente porque “ah, como é bom ver o sobrenome tal de volta ao automobilismo”, mesmo que o cara seja um tremendo de um pé de breque. Já vi até mesmo gente defendendo seriamente a ida do Nicolas Prost para a Ferrari!

A nostalgia não é uma coisa ruim. Se uma pessoa é nostálgica, é porque provavelmente teve momentos de satisfação em outros verões. Há também gente como eu, os pseudonostálgicos que não viveram os períodos passados, mas que ridiculamente celebram os “bons tempos”, seja lá o que diabos isso signifique. Um pouco de saudosismo não faz mal porque nos mantém de olhos abertos, cientes de quando há uma piora em uma situação. Na Fórmula 1, o pessoal sempre fala das corridas de antigamente. Mesmo exageradas, superestimadas ou simplesmente equivocadas, as declarações são um sinal de que, no mínimo, as corridas atuais não divertem e emocionam tanto como outrora. E é o tipo de nostalgia que deve ser, no mínimo, considerada por todos os envolvidos no esporte.

Se for pra ter duas Lotus, que mantenham uma verde!

Mas há aquela nostalgia gratuita, que existe simplesmente pelo predicado cego de que “tudo que era antigo é melhor”. Muitas vezes, o sujeito diz que a Fórmula 1 era melhor há vinte ou trinta anos unicamente porque havia Senna, Marlboro, Piquet, Alfa Romeo, Estoril, Lauda, Nordschleife, efeito solo ou Ghinzani, sem saber identificar os problemas daqueles tempos e sem perceber que as coisas simplesmente evoluem e que os dias atuais também têm coisas ótimas e que gerarão saudades nas gerações futuras. E é desse tipo de saudosismo tacanho que coisas como a disputa pelo nome Lotus se alimentam.

O que temos, nessa disputa, é um arranca-rabo para saber quem irá carregar o nome que trará uma leva de fãs que gostam da nova Lotus unicamente por ser a reencarnação da Lotus. É patético. Estas equipes preferem se apoderar do duvidoso privilégio de reaproveitar um nome histórico a desenvolver um novo nome e uma nova imagem. Afinal de contas, unem o útil ao agradável: em uma Fórmula 1 lotada de aparências, fazer uma referência a uma equipe antiga é legal, é cool. E atrai fãs, que podem até se interessar em consumir os produtos que anunciamos. É um tipo de marketing que está na moda: explorar velharias para conquistar os saudosistas. Que nem esses artistas alternativos que fazem questão de vender suas músicas no discão de vinil.

Tenho um exemplo que demonstra como o problema é de mentalidade. No ano passado, Ross Brawn explicou como foi decidido o nome de sua equipe, a Brawn GP. A princípio, seus conselheiros consideraram nomes como o insosso Pure Racing, o sonoro Brackley e… o antigo Tyrrell. Brawn recusou, dizendo que não queria saber de nostalgia barata e que o negócio era criar uma equipe que fizesse história com imagem própria. E deu certo. A Brawn entrou para a história à sua maneira. Imagine que merda que seria se, ao invés disso, uma Tyrrell paraguaia tivesse sido campeã em 2009…

Portanto, parem de buscar o antigo no contemporâneo. A Lotus verdadeira já era. A Lotus Racing dessa temporada é, sem dúvida, uma iniciativa bacana e tal, mas a briguinha fraticida pelo nome simplesmente mancha qualquer tentativa de homenagem. É bem mais digno competir como Genii Racing e 1Malaysia Team. Por mais que esses nomes não signifiquem nada, são histórias individuais sendo construídas. E vai que, por exemplo, a 1Malaysia dê certo e passe a ganhar títulos. Ela passaria a ser a história, e não a usurpadora dela.

Mas se o pessoal não mudar de ideia, eu recomendo o seguinte: não fiquem presos à Lotus. Havia outras equipes legais antigamente. Fico sonhando com o dia em que teremos Onyx-Renault e Rial-Renault.

Bertrand Gachot na Jordan em 1991

Tô sem assunto. Não quero mais falar sobre Campos, USF1 e chatices afins. Prefiro continuar falando sobre Schumacher e 1991. Mas não exatamente sobre Schumacher, mas sim sobre o cara que permitiu que ele aparecesse na Fórmula 1. Sim, o cosmopolita Bertrand Gachot!

Cosmpolita? Cosmopolita. Bertrand Gachot deve ser o único piloto da história da Fórmula 1 com três nacionalidades. Nascido na pequenina Luxemburgo, Bertrand era filho de um comissário francês e por isso já detinha a nacionalidade dupla. Porém, ele quis adotar para si a cidadania belga. E assim, Gachot se fazia o típico cidadão da União Européia, algo que ficava visível pela bandeira da união em seu capacete.

Não vou entrar em detalhes sobre sua carreira. Bertrand teve uma boa passagem pela F-Ford, F3 e F3000 até chegar à F1 em 1989 pela Onyx. Fez algumas corridas até envolver-se em uma briga com seu patrão, Jean-Pierre Van Rossem, e ser demitido. Em 1990, foi obrigado a pagar todos os seus pecados no carro amarelo da Coloni. Porém, o destino foi bastante feliz com ele e Bertrand Gachot acabou sendo chamado para correr na novata Jordan em 1991. No automobilismo, o belga estava em ótima fase.

Porém, sua vida pessoal passaria por uma reviravolta das boas no dia 10 de Dezembro de 1990, uma segunda-feira.

Foi aqui

Londres. Um taxista chamado Eric Court conduzia seu carro preto em direção à Hyde Park Corner, no centro londrino. Atravessando o tráfego, ele acabou se envolvendo em um pequeno acidente com um gaiato qualquer. Extremamente nervoso, Bertrand Gachot desce do carro e os dois começam a discutir. Court, com a típica elegância inglesa, acertou um soco na cara de Bertrand. Em resposta, Gachot voltou ao carro e sacou uma latinha de spray de pimenta, disparando-a na cara do taxista, que perdeu momentaneamente a visão. Court ainda gritou algo como “vai ter troco!”. E teve. O taxista processou Gachot.

A justiça inglesa, infinitamente mais rápida que a brasileira, chegou a um surpreendente veredito em Agosto de 1991: Bertrand Gachot foi condenado a 6 meses de prisão por posse ilegal de armas e a 12 meses de prisão por uso dessa arma. No Reino Unido, o spray de pimenta é ilegal para uso civil. A prisão de Gachot se deu dias antes do GP belga, em Spa-Francorchamps. Eddie Jordan perdeu seu piloto e teria de pensar rapidamente em um substituto. Pensou em Stefan Johansson, pensou em Keke Rosberg, mas acabou se decidindo pelo desconhecido Michael Schumacher, graças aos 300.000 dólares da Mercedes.

A comunidade da Fórmula 1 entrou em polvorosa. Revoltados, pilotos (liderados por Thierry Boutsen e Eric van de Poele), torcedores, jornalistas, mecânicos e fiscais de pista vestiam camisetas como “Free Gachot”, “Why Gachot?” ou “God bless England, and also Gachot”. A FISA até disponibilizou advogados para Bertrand Gachot. Até mesmo na Fórmula 3000 houve barulho: o piloto local Pascal Witmeur colocou em seu carro um enorme emblema “free Gachot”. Alguns torcedores, irritados, pintaram o asfalto entre a Rivage e a Pouhon com uma enorme mensagem em francês dizendo “Gachot, a Bélgica está com você. Você não é um hooligan!”. Era uma referência maldosa ao massacre de Heysel, no qual torcedores ingleses foram à Bélgica e assassinaram 30 torcedores locais na final da Copa dos Campeões em 1985.

"Gachot, la Belgique est avec toi! Tu n'es pas un hooligan." LAUGHING OUT LOUD

Gachot foi inicialmente mandado, acredite, à prisão de segurança máxima de Brixton. As condições eram as piores possíveis: ele dividia uma cela com os piores bandidos da Inglaterra, e só tinha direito a uma hora de banho de sol. Não havia banheiro próprio, televisão, jornal nem sequer um lugar para comer sentado. Ele só tinha direito a receber visitas de cinco minutos de sua namorada a cada 15 dias. Pateticamente, Gachot mandou uma carta à Jordan e à imprensa relatando toda essa situação. A situação estava tão difícil que até mesmo o próprio Court retirou o processo…

Algumas semanas depois, Bertrand Gachot foi transferido para uma cadeia mais digna. Lá, ele conseguia ao menos preparar-se fisicamente e psicologicamente para o retorno à F1. Enquanto isso, seus advogados entravam com recursos. E a vitória veio no dia 15 de Outubro de 1991, quando após três recursos, o juíz Lane considerou a pena muito dura e Bertrand foi liberado. Festa geral, celebrada na embaixada da França em Londres. Após dois meses preso, Gachot voltava a ser um homem livre.

Só que esse episódio prejudicou a carreira dele para sempre. A Jordan não quis saber de colocá-lo de volta. Gachot foi obrigado a se encontrar, posteriormente, na Larrousse e na Pacific. E sumiu da F1 no final de 1995, aos 33 anos.

Quem se deu bem com isso foi o tal do alemão que o substituiu e que motivou esse post. Uma estúpida briga entre um piloto de segundo escalão e um taxista esquentadinho foi o início da construção de um mito.