stefanjohansson

O Bandeira Verde pode até tropeçar diante da falta de tempo de seu ditador, mas não capitula. Com as férias, poderei voltar a escrever um pouco. E nada melhor do que gastar impressões digitais, teclado, energia elétrica e tempo falando sobre uma das equipes mais interessantes que já apareceram na Fórmula 1. Interessante é pouco, aliás. Nenhuma equipe de Fórmula 1 me atraiu mais do que a finada Onyx Grand Prix.

Onyx? De modo geral, as pessoas normais sempre buscam torcer pelos melhores em qualquer esporte, incluindo aí essa estupidez conhecida como automobilismo. Fãs da Ferrari abundam em arquibancadas na Itália, no Brasil, no Canadá ou no casto Uganda. De uns anos para cá, o vermelho de Maranello vem paulatinamente perdendo um pouco de espaço para o azul e o amarelo da fabricante de líquido doce igual caramelo. Hoje em dia, os tradicionalistas ferraristas dividem assentos com os fãs neófitos da Red Bull. Há também os caras que torcem por McLaren, Mercedes, Williams, Sauber, enfim, pelos nomes mais tradicionais. Outros preferem ficar em cima do muro e apenas apreciar o espetáculo. Por fim, há as exceções, mas elas são apenas exceções. O pessoal quer mesmo é apoiar o que já está consolidado.

A explicação para isso é óbvia. Para a maioria das pessoas, não faz sentido torcer por alguém se esse alguém não tem chance nenhuma de vitória. Faz sentido. Pense na situação do pobre torcedor da Ponte Preta, aquele time cujo título mais importante é o de campeão da Série A2 do Paulistão de 1969. O pontepretano é tão infeliz e desgraçado que só veio a experimentar alguma felicidade nesse final de 2013, com seu time jogando as finais da Copa Sul-Americana contra o Lanús. Espero sinceramente que a Macaca ganhe, mas isso pouco importa. Torcer por um time que não ganha título algum ou por alguma equipe que não vença uma corrida sequer é mais do que um ato de fé e amor, é um verdadeiro ritual masoquista.

Então por que alguém estaria disposto a apoiar um eterno perdedor ao invés de se juntar à multidão vencedora, que bebe e pula a cada triunfo? Motivos há. Se eu tivesse nascido em Campina Grande, meu avô e meu pai fossem fanáticos pelo Campinense e tal, provavelmente acabaria me tornando mais um torcedor fiel do time. Outra razão é a questão da simpatia. Às vezes, um time pode ser uma verdadeira desgraça, pior que o Náutico, mas ao mesmo tempo muito mais admirável do que um time vencedor, organizado e antipático. Na Fórmula 1, isso ficava muito claro na época em que a Minardi fingia competir. A escuderia de Giancarlo Minardi era pequena, pobre, amadora, ridícula e tal, mas era composta por gente de verdade, italianos rechonchudos que falam alto, comem pasta, fazem o sinal da cruz e torcem pela Lazio. Então, muitos achavam mais interessante torcer pelos esforçados caras lá do fim do grid do que apoiar os arrogantes e burocráticos ferraristas. Carisma, às vezes, é tudo.

Mas por que a Onyx? Mil razões. Em primeiro lugar, o próprio nome Onyx, uma palavra bradada, forte, imperativa, ÔNICKS. Curiosamente, seu significado não é tão austero assim. Vamos à etimologia.

Na Grécia Antiga, a palavra “onux” significava “unha”. Sim, unha, aquela que você tem nos dedos do pé e odeia cortar. Segundo a mitologia grega, a deusa do amor Afrodite teve suas unhas cortadas por seu filho, o deus Eros, equivalente ao Cupido na mitologia romana. Essas unhas tombaram sobre a areia e se transformaram em gemas. A gema ônix, composta por dióxido de silício, costuma ser utilizada para esculturas e joias e é facilmente encontrada em solo brasileiro. Em inglês, seu nome é “onyx”.

Outra razão é a boniteza de seus carros de Fórmula 1, que será incansavelmente mencionada durante toda a série. Não há monoposto mais bonito do que o ORE-1, projetado por Alan Jenkins para a temporada de 1989. O formato “garrafa de Coca-Cola”, as linhas esguias, a combinação de cores, a inscrição da Moneytron, até mesmo os números 36 e 37, tudo isso compõe um dos pacotes estéticos mais interessantes que já surgiram no automobilismo.

A Onyx também era uma equipe que chamava a atenção, apesar dos pesares, pela competência dos homens que ali trabalhavam. Com pilotos como Stefan Johansson e J. J. Lehto, projetistas como Alan Jenkins e chefões como Mike Earle e Greg Field, não dá para dizer que a equipe teve problemas de material humano. Impossível compará-la com equipes verdadeiramente ruins que competiram na época, como a Coloni e a Eurobrun.

Por fim, um diferencial da Onyx em relação às suas concorrentes diretas da época é a total desorganização que marcou a curta história da equipe na Fórmula 1. Constantes trocas de diretoria, brigas, momentos de riqueza e ostentação alternados com dias de total pindaíba, polêmicas, promessas furadas e outros aborrecimentos que acabaram abreviando a existência de uma escuderia que poderia ter tido vida longa na categoria. Como meu negócio é ver o circo pegando fogo, não posso deixar de achar interessante a história de uma equipe dessas.

É por isso que eu gosto da Onyx. E é por isso que será ela, a Onyx, a próxima equipe a ser homenageada por este blog que tropica, mas não cai, nesses próximos dias. Prometo que a série não demorará tanto como a da AGS, que me tomou quase um mês para ser completada.

Então vamos lá, crianças da pátria.

Derek Bell, o primeiro piloto de Mike Earle

Derek Bell, o primeiro piloto de Mike Earle

Sussex, Inglaterra. Durante a Segunda Guerra Mundial, o pacato condado localizado no sudoeste do país se tornou uma das principais bases estratégicas dos militares ingleses na luta contra os inimigos do Eixo. Naqueles malucos tempos bélicos, o automobilismo não era exatamente a maior das prioridades do povão. Ninguém sequer imaginava, e nem se interessaria em imaginar, que a pequena cidade de Littlehampton seria o local de nascimento de um dos grandes chefes de equipe do esporte a motor da Inglaterra no dia 8 de março de 1940.

Mike Earle veio ao mundo numa época particularmente complicada para sua cidade e seu condado. Quatro meses depois de seu nascimento, vários pontos de Sussex foram destruídos por bombardeios na chamada “Batalha da Grã-Bretanha”, que envolveu as forças aéreas da Inglaterra e da Alemanha. Os ingleses venceram e a derrota significou o primeiro revés de Adolf Hitler na guerra. Os Earle sobreviveram ao conflito, permaneceram em Littlehampton e reconstruíram sua vida.

Mike cresceu, não enfrentou mais nenhuma guerra mundial e logo conheceu aquele que seria sua paixão e seu ganha-pão, o automobilismo. Seu pai bem que tentou convencê-lo de que esse negócio não daria certo e até abriu um pub em um hotel em Bognor Regis para que o garoto aprendesse alguma coisa sobre administração. Mas o cara não quis saber. Num primeiro instante, seu sonho era ser piloto de corridas e repetir o sucesso de compatriotas como Stirling Moss e Mike Hawthorn. Lá pelos vinte e tantos anos de idade, Earle passou a frequentar eventos menores de corridas em seu país. O jovem até pilotava com alguma destreza, mas percebeu que não chegaria a lugar algum quando, numa corrida em Goodwood, percebeu que nunca conseguiria acompanhar o desempenho de um garoto esquisito de Middlesex. Seu nome? Derek Bell, futuro astro dos protótipos.

Enquanto Mike Earle tentava se infiltrar nas corridas de alguma forma, seu irmão trabalhava como jornalista do The Bognor Post e, justamente por conta do ofício, sempre ganhava credenciais para cobrir os eventos automobilísticos. O problema é que ele detestava corridas e não fazia a menor questão de frequentá-las sequer para executar seu trabalho jornalístico. Coube então a Mike utilizar as credenciais não só para colher informações para o mano como também para ver até onde sua própria carreira no esporte a motor iria. Nessas de frequentar as corridas, ele acabou se aproximando de Derek Bell e até arranjou um emprego como chefe de sua equipe, a Church Farm Racing.

Numa época em que fundar uma escuderia não era a tarefa mais impossível do planeta, iniciativas familiares costumavam ser razoavelmente comuns. A Church Farm Racing era uma pequena e competentíssima estrutura que foi fundada por Bernard Hender, padrasto de Derek Bell, com o propósito inicial de dar um gás à carreira automobilística do garoto Derek. Ele ganhou um bocado de corridas na Fórmula 2 e atraiu as atenções de ninguém menos que Enzo Ferrari, que o contratou para disputar algumas provas de Fórmula 1 em 1968.

Mesmo após a saída de Derek Bell, a Church Farm Racing continuou existindo e Earle foi mantido como seu chefe de equipe. Em 1969, a equipe trocou a Fórmula 2 pela Fórmula 5000 europeia, um campeonato que, na época, era considerado tão supimpa quanto a própria Fórmula 1. O piloto que entrou no lugar de Bell foi o também britânico Peter Gethin, que até venceria uma corrida de F-1 no futuro.

O brasileiro Lian Duarte, um dos pilotos da BERT em 1972

O brasileiro Lian Duarte, um dos pilotos da BERT em 1972

Foi um ano doido e bem-sucedido, o de 1969. Gethin iniciou a temporada da Fórmula 5000 vencendo as quatro primeiras etapas a bordo de um McLaren-Chevrolet e abriu uma vantagem gigantesca para o segundo colocado. A Church Farm ficou tão animada com o sucesso que decidiu deixar de participar de algumas provas do certame europeu para se inscrever na F-5000 americana. Gethin não teve problemas de adaptação nos States e até ganhou uma prova em Lime Rock, mas logo todos perceberam que disputar campeonatos em dois continentes diferentes simultaneamente era um negócio inviável. Então, a Church Farm decidiu voltar para a Inglaterra para se concentrar apenas na Fórmula 5000 europeia. Por conta das corridas perdidas, Gethin perdeu sua grande vantagem e só assegurou o título na última etapa após um acidente com o rival direto Trevor Taylor e o retardatário Chris Warwick-Drake.

Em 1970, a Church Farm permaneceu na Fórmula 5000 europeia com a mesma estrutura e o mesmo piloto. Dessa vez, sem se atrever a disputar mais de um campeonato ao mesmo tempo, a esquadra permitiu que Peter Gethin vencesse oito corridas e ganhasse seu segundo título consecutivo na categoria. O sucesso era facilmente justificável: a Church Farm reunia um bocado de nomes que se tornariam importantes no automobilismo mundial nas décadas seguintes. Tom Wheatcroft era um dos patrocinadores, Brian Hart cuidava dos motores, George Brown acertava o carro e Mike Earle comandava toda a bagaça. Como a receita poderia dar errado?

Após tantas vitórias como chefe de uma equipe alheia, Earle começou a pensar se não valia a pena ele próprio montar sua escuderia. Então, Mike se juntou ao ex-piloto Rodney Banting e fundou a Banting and Earle Racing Team (BERT), que disputaria a Fórmula 2 com carros Pygmée em 1972. A Pygmée era uma pequena fabricante francesa de chassis que havia sido fundada em meados dos anos 60 pelo empresário Marius Dal Bo com a intenção única de ajudar a desenvolver a carreira esportiva do filho Patrick Dal Bo. Se o padrasto do Derek Bell pode, por que papai Marius não pode?

Por conta do acordo técnico e financeiro entre BERT e Pygmée, Patrick foi confirmado com um dos pilotos da equipe. Seus dois companheiros eram os brasileiros Lian Duarte e um tal de José Carlos Pace, que trazia o patrocínio do extinto Banco Português do Brasil. Apesar das promessas, o ano de 1972 não foi fácil. Os resultados foram escassos e os dois brasileiros chegaram a abandonar a equipe antes mesmo do final da temporada. Dal Bo, de forma milagrosa, conseguiu um ótimo quarto lugar em Thruxton, a única boa corrida da BERT em 1972. Acusações também existiram. Lian Duarte, por exemplo, chegou a insinuar que Earle e Banting eram dois chefes incompetentes que gastavam muito dinheiro com bobagens. Houve também quem dissesse que os recursos prometidos pela família Dal Bo jamais chegaram. Entre rumores e fofocas, o fato é que o primeiro ano de Mike Earle como dono de sua própria equipe não foi tão frutífero assim.

Sem dinheiro, moral e resultados, Earle decidiu fechar a BERT e recomeçar seu sonho do zero. Ele se juntou ao piloto David Purley e fundou em 1973 a Lec Refrigeration Racing, equipe que seria financiada pela empresa de refrigeradores da família Purley. Para cuidar do seu carro, Purley convidou seu amigo Greg Field, que se tornaria parceiro fiel de Earle nos anos seguintes. A Lec se inscreveu para o campeonato inglês de Fórmula Atlantic, em que competiria apenas com o carro de Purley. A ordem era não repetir os mesmos erros da BERT.

A nova formação deu certo. A bordo de um March-Ford, David Purley venceu três das dezessete corridas disputadas e terminou a temporada na terceira posição. Apesar do relativo sucesso, 1973 não foi um ano fácil para Purley, que assistiu de perto à morte do amigo Roger Williamson em um acidente no Grande Prêmio da Holanda de Fórmula 1. Mesmo assim, ele decidiu seguir em frente e continuou no automobilismo em 1974.

Naquele ano, a Lec passou para as mãos do americano Bob Harper, um cara que se mudou para Hong Kong ainda jovem e que ganhou dinheiro vendendo carros da Ford e da Lotus. Com isso, David Purley manteve-se apenas como piloto e Mike Earle foi rebaixado a diretor geral. Com bastante dinheiro, a nova Team Harper até conseguiu inscrever um carro extra para o austríaco Dieter Quester.

David Purley pilotando um Chevron de Fórmula 5000, categoria onde Mike Earle era um dos reis

David Purley pilotando um Chevron de Fórmula 5000, categoria onde Mike Earle era um dos reis

Mas não foi uma temporada tão fácil assim. Durante o ano, a equipe trocou o chassi March pelo Chevron e o motor BMW pelo Ford e depois pelo BMW novamente. Quester bem que tentou, mas não marcou nenhum ponto. Quem salvou a honra da Harper foi o próprio David Purley, que conseguiu terminar em segundo as corridas de Salzburgring e Enna-Pergusa.

Foi dessa forma que, pela segunda vez, Mike Earle quebrou a cara na Fórmula 2. Chega! Em 1975, ele e David Purley decidiram disputar apenas a Fórmula 5000 europeia, que era onde Earle havia conseguido seus melhores resultados nos tempos da Church Farm Racing. Com a saída de Bob Harper, Purley e Earle voltaram a ser os mandachuvas da equipe, que ressuscitou o nome Lec Refrigeration Racing.

Com um chassi Chevron B30, Purley teve uma temporada razoavelmente boa, mas não excepcional. Nas três primeiras corridas, ele conseguiu uma vitória em Brands Hatch e dois pódios. No entanto, a falta de confiabilidade de seu carro e os maus resultados em treinos classificatórios impediram David de obter grandes resultados na metade do ano. No fim da temporada, as coisas melhoraram um pouco com uma vitória em Outlon Park e uma pole-position em Mallory Park. Mesmo assim, não deu para conseguir nada melhor do que o quinto lugar no campeonato.  De qualquer jeito, um enorme avanço em relação aos tempos da Harper e da BERT.

Imagino que você, leitor enfastiado, já esteja cansado de tantas idas e vindas, de tantas mudanças de categoria, de proprietário, de nome e do diabo a quatro. Não abandone esse texto ainda. Em 1976, pela primeira vez, as coisas permaneceriam mais ou menos as mesmas. Mike Earle e David Purley continuaram juntos na Lec, que seguiria utilizando o chassi Chevron B30 na Fórmula 5000 europeia. OK, devo confessar, houve uma mudança: a categoria passou a se chamar Shellsport International Series. O nome ficou mais pomposo, mas o resto se manteve como dantes no quartel d’Abrantes.

A continuidade fez bem a Purley, que venceu seis das treze corridas e se sagrou o campeão da temporada. Para Earle, esse foi seu terceiro título no certame. Dessa forma, ele se tornou um dos mais bem-sucedidos chefes de equipe do automobilismo europeu de base naquela época. Depois do sucesso, o que faltava a ele e a Purley? Construir seu próprio carro de Fórmula 1.

David já tinha corrido na Fórmula 1 com equipe própria em 1973, mas o bólido utilizado havia sido um March-Cosworth. Dessa vez, ele queria ir um pouco além. A Lec era uma equipe minúscula que contava com apenas cinco mecânicos e um ajudante, mas os caras eram malucos e animados o suficiente para tentar construir sua própria máquina.  Naqueles dias, com alumínio e umas boas ideias, qualquer um podia tentar ser o novo Enzo Ferrari.

Mesmo sem tantos recursos como uma Lotus ou Ferrari da vida, David Purley foi à luta. Para projetar o carro, a equipe nomeou o engenheiro Mike Pilbeam, que já havia trabalhado na BRM e que foi o grande responsável pela melhora do chassi Chevron na Shellsport International Series. Em agosto de 1976, quando a Lec ainda estava brigando pelo título dessa categoria com o próprio Purley, Pilbeam se isolou na cidade inglesa de Bourne e começou a rabiscar os esboços iniciais do que seria o primeiro bólido de Fórmula 1 da marca de refrigeradores. Conforme o projeto ganhava vida, o engenheiro mandava instruções de engenharia e montagem aos mecânicos, que estavam localizados na vila de Bognor Regis, a 220 quilômetros de distância. Tudo era feito por telefone e fax.

David Purley e o carro de Fórmula 1 da Lec no GP da Bélgica de 1977

David Purley e o carro de Fórmula 1 da Lec no GP da Bélgica de 1977

Apesar da separação física entre engenheiro e mecânicos, as coisas caminharam muito bem. No início de 1977, a Lec já tinha pronto seu primeiro carro, o CRP1. Batizado com as iniciais do nome de Charles R. Purley, criador da Lec Refrigeration e pai de David Purley, o Lec CRP1 realizou seus primeiros testes em fevereiro nas pistas de Goodwood e Outlon Park, apresentando resultados bem interessantes. Mesmo com a grana curta e a falta de mão-de-obra, a Lec trabalhava direitinho e sabia pensar no futuro. Mesmo após ter aprontado o primeiro carro, Mike Pilbeam trabalhava no desenvolvimento simultâneo de dois novos bicos, um para pistas velozes e outro para as Yas Marinas da vida. No meio disso tudo, onde estava Mike Earle? Gerenciando todo o formigueiro.

A primeira corrida de Fórmula 1 da Lec foi a Corrida dos Campeões de Brands Hatch, uma daquelas provas extracampeonato que costumavam reunir os pilotos de Fórmula 1 que não tinham nada melhor para fazer. David Purley conseguiu o 13º lugar no grid de largada entre 17 carros, um resultado bastante razoável para uma escuderia novata. Na corrida, Purley sentou a bota, ultrapassou alguns rivais e acabou terminando numa excelente sexta posição. Não marcou nenhum ponto porque a corrida não valia porcaria alguma, mas pelo menos deu para sentir que o CRP1, equipado com motor Ford Cosworth, poderia ter algum futuro.

A Lec fez seu début oficial na Fórmula 1 no GP da Espanha, na época realizado naquela desgraça de pista que era Jarama. Pelo visto, a sorte havia ficado lá na Inglaterra: um diferencial quebrado no primeiro treino oficial e um motor estourado no segundo acabaram impedindo David Purley de se classificar para a corrida. Após esse fim de semana frustrado, a humilde turma preferiu não participar da etapa seguinte, o difícil GP de Mônaco, para ter mais tempo para consertar o carrinho quebrado e deixá-los nos trinques.

O CRP1 só reapareceu em Zolder, palco do Grande Prêmio da Bélgica. Dessa vez, David Purley conseguiu classificá-lo para a prova dominical, obtendo o 20º lugar no grid de largada. A corrida foi iniciada com pista encharcada e todos haviam partido com pneus biscoito. Em dez voltas, o sol voltou a raiar e quase todos voltaram para os boxes para calçar pneus de pista seca. Todos, menos David Purley. Que acabou assumindo a liderança por uma volta.

Todo mundo ficou embasbacado com aquele atrevido carro azul-escuro tentando permanecer o máximo de tempo possível numa pista que já não perdoava mais os pneus raiados. Sabendo que não tinha chance alguma em condições normais, Purley decidiu apostar que a tempestade voltaria e que ele seria o único espertão que não precisaria voltar aos pits para recolocar os compostos para chuva. Mas a natureza não colaborou e David foi engolido facilmente pela concorrência. Acabou terminando em 13º.

Nas duas corridas seguintes, David Purley não teve muita sorte. Em Anderstorp, ele largou em 19º e teve de superar um câmbio quebrado e intermináveis vibrações para conseguir terminar em 14º. Em Dijon, saiu da 21ª posição no grid de largada e abandonou a prova ainda na quinta volta após o carro, totalmente sem freios, ter escorregado rumo a um belo canteiro de margaridas.

A etapa seguinte foi o Grande Prêmio da Inglaterra, realizado em Silverstone. Naquele bucólico e agradável fim de semana britânico, as vidas de David Purley e Mike Earle acabariam tomando um novo rumo. No caso de Earle, um rumo que levaria, enfim, ao surgimento da Onyx Grand Prix.

Falo disso amanhã.

Neste ano completamente ruim para o automobilismo, para mim e para muita gente, sou obrigado a registrar mais um passamento. O ex-piloto inglês Peter Gethin faleceu nesta segunda-feira aos 71 anos, vítima de um câncer que o atormentava há anos. Morreu no mesmo condado de Surrey onde nasceu em 1940.

A carreira de Peter Gethin foi curta, não tendo passado dos trinta Grandes Prêmios na Fórmula 1, mas foi bastante marcante. Qualquer pessoa com um certo conhecimento sobre a história da categoria se lembra do GP da Itália de 1971, a corrida mais veloz da história durante 32 anos e também a que registrou a menor distância entre o vencedor e o segundo colocado. Pilotando um BRM, Gethin ganhou com uma vantagem de apenas um centésimo para Ronnie Peterson. François Cevert, Mike Hailwood e Howden Ganley também chegaram colados.

Curiosamente, a última volta desta corrida foi a única em que Gethin foi o líder em toda a sua carreira na Fórmula 1. Faltou-lhe carro, é claro. Peter andou em uma McLaren ainda nascente, em uma BRM decadente e fez sua última corrida na categoria pela Embassy Hill, que também não era lá aquelas coisas. Fora a vitória em Monza, ele só obteve dois sextos lugares. Na Fórmula 1, de fato, sua carreira não foi recheada com grandes momentos.

O negócio de Peter Gethin era a Fórmula 5000, uma categoria intermediária entre a Fórmula 1 e a Fórmula 2. Mal comparando, ela estaria no nível da Superleague ou da antiga A1GP. Não era exatamente a categoria de base imediatamente anterior à Fórmula 1 porque, para isto, já existia a Fórmula 2. Por outro lado, também não era a principal categoria de monopostos na Europa. Na verdade, a F-5000 era bastante eclética, pois reunia pilotos experientes e jovens revelações. E era neste campo que Gethin brilhava.

Sua maior vitória na vida ocorreu na Corrida dos Campeões de 1973, talvez uma das corridas extra-campeonato mais importantes do automobilismo mundial na época, disputada por carros de Fórmula 1 e Fórmula 5000. Contra pilotos consagrados que pilotavam poderosos bólidos da categoria principal, Gethin andou muito rápido e soube conservar o carro na pista para conquistar uma brilhante vitória a bordo de um Chevron de F-5000. Fora isso, ele obteve um bicampeonato na versão inglesa da categoria em 1969 e 1970 e também um título no campeonato australiano, a Tasman Series, em 1974. Pouca coisa.

Gethin competiu na Fórmula 5000 até 1976, quando decidiu se aposentar para empresariar jovens pilotos. Tornou-se chefe de equipe e chegou a ser patrão de Ayrton Senna na Toleman em 1984.

OK, mas o que o espanhol Adrian Campos tem a ver com isso?

No fim de 1985, a Toleman onde Gethin trabalhava foi vendida para a Benetton, aquela grife de roupas que estava na moda nos anos 80. Toda a cúpula foi modificada e Peter Gethin acabou caindo fora. Mesmo assim, ele não queria se afastar definitivamente do automobilismo.

Ao mesmo tempo, naquele mesmo ano de 1985, surgiu no cenário internacional uma nova categoria que substituiu a Fórmula 2 no papel de formadora de pilotos para a Fórmula 1, o campeonato internacional de Fórmula 3000. O primeiro ano foi difícil: poucos carros inscritos, discrepâncias entre os bólidos feitos exclusivamente para a categoria e os antigos Fórmula 1, acidentes e falta de um esquema sólido de transmissões televisivas marcaram a temporada. Mas as corridas foram boas, bastante gente competente foi revelada, os custos eram muito baixos em comparação com a Fórmula 2. Embora ainda cheia de coisas a serem resolvidas, a Fórmula 3000 foi um sucesso.

Não por acaso, a pré-temporada de 1986 foi altamente agitada. Nada menos que 25 equipes se inscreveram para correr ao menos em Silverstone, local da primeira etapa. Eram outros tempos, menos exigentes e muito mais divertidos. Todo mundo que se inscrevia era aceito sem burocracias. Uma das equipes novas era exatamente a Peter Gethin Racing. Reconheceu o nome? Pois é.

Após o fim da Toleman, Peter Gethin decidiu fundar uma equipe de Fórmula 3000. Naqueles dias, dizia-se que os altíssimos custos da Fórmula 1, motivados especialmente pela generalização dos motores turbo, acabariam matando a gloriosa categoria mundial. A Fórmula 3000, por outro lado, era o certame do futuro: barato, acessível e muito divertido. Uma equipe não precisava gastar mais do que 400 mil libras para colocar dois carros na pista. Um March 86B custava 45 mil libras. Um motor Cosworth V8 de 450 cavalos custava somente 20 mil libras. Pechincha de liquidação.

Gethin adquiriu dois March-Cosworth, conjunto adotado pela esmagadora maioria das equipes naquele ano. Para comandar tudo, ele contratou o engenheiro Mike Collier, de expressivo currículo no automobilismo de base e nos protótipos. A sede foi erguida na pequena cidade de Andover, lá no norte da Inglaterra. Com tudo já definido, faltava apenas arranjar uma dupla de pilotos para a PGR.

Não foi difícil encontrar um deles. O espanhol Adrian Campos, que havia arranjado um bico como piloto de testes da Tyrrell, tinha tudo o que uma equipe de Fórmula 3000 precisava: um currículo mediano e muito dinheiro. Campos era herdeiro da Avidesa, a maior fábrica de sorvetes da Espanha na época. Sua família era tão importante que seu avô acabou sendo sequestrado pela organização terrorista basca ETA em 1983. Por cinco milhões de dólares, vovô Campos foi liberado pelos encapuzados bascos. Mas o garoto prodígio da família não era tão prodigioso assim: as credenciais de Adrian incluíam títulos em campeonatos de carrinhos de controle remoto (!) e um terceiro lugar na Fórmula 3 alemã em 1985.

Campos levaria o dinheiro da Avidesa e da Seur, uma grande empresa de transportes na Espanha. O outro bólido da Peter Gethin Racing chegou a ser inscrito para correr em Silverstone, mas não encontrou um dono e acabou virando carro-reserva. O belga Thierry Tassin chegou a trocar alguns xavecos com Peter Gethin, mas acabou encontrando vaga na equipe de Eddie Jordan. Com isso, a PGR acabou abortando a ideia de ter dois pilotos.

Em Silverstone, a organização decidiu que todo mundo que fizesse um tempo dentro do limite dos 110% poderia participar da prova. 37 pilotos estavam inscritos. Após duas curtíssimas sessões de qualificação, 31 pilotos haviam conseguido escapar do limite e, portanto, estavam aptos a largar. Campos fez o 30º tempo, quase sete segundos mais lento que o pole-position Pascal Fabre. Na corrida, sobreviveu à chuva, aos acidentes e terminou em 16º. Hoje em dia, os fãs afrescalhados achariam tudo isso aí um absurdo amadorístico.

Foi um dos melhores fins de semana de Campos, por incrível que pareça. Em Vallelunga, ele não conseguiu fazer uma volta rápida e acabou passando muito longe da classificação. Em Pau, que é onde foi tirada a foto de hoje, apenas vinte pilotos poderiam largar. Campos fez o 21º tempo, mas se deu bem porque foi o décimo mais rápido no grupo dos pilotos de numeração par (após a bagunça de Silverstone, os organizadores decidiram realizar duas sessões distintas de classificação, uma para os carros de número par e outra para os de número ímpar. Os treze mais bem classificados em cada grupo eram ajeitados no grid). Com isso, pôde largar da 20ª e última posição. Ufa.

Na corrida, Campos até fez suas voltinhas, mas bateu na volta 17 e abandonou. O clima na Peter Gethin Racing estava pesado. O carro não era ruim, mas o piloto espanhol não conseguia extrair muita coisa dele. Ao mesmo tempo, Adrian tinha a impressão de que a equipe só estava sugando seu dinheiro e não se esforçava para preparar um carro bom. Ninguém falava a mesma língua por lá, esta era a verdade.

Em Spa-Francorchamps, Adrian Campos só chamou a atenção quando causou um acidente estúpido com Pascal Fabre na Bus Stop em um treino livre. Restou ao espanhol pedir desculpas, mas a mea culpa não lhe ajudou a qualificar seu March para a prova. Em Imola, Campos finalmente conseguiu andar bem e largou em 14º. No dia seguinte, rodou sozinho e deixou Peter Gethin ainda mais irritado.

Só o fato de largar já era considerado um grande feito para o piloto espanhol. Por isso, perder uma corrida por um motivo besta era tudo o que a PGR não precisava. Pois Campos acabou desistindo da etapa de Mugello, uma na qual ele voltaria a largar em 14º, por estar doente no dia da corrida. Em Enna-Pergusa, ele voltou a ter dificuldades com o carro e não conseguiu se qualificar novamente. Foi sua última corrida pela PGR.

Depois de Enna, Adrian Campos abandonou a equipe de Peter Gethin alegando que as cláusulas do seu contrato não foram cumpridas e que a PGR só existiu em sua vida para lhe tomar o rico dinheirinho de sua carteira. Sabe-se lá quais eram as cláusulas, mas o fato é que o espanhol também não ajudou muito com sua lerdeza e seus erros. Desesperado, Gethin teve de correr atrás de algum piloto que tivesse um pouco mais de competência. E um pouco de dinheiro, porque o leite das crianças estava em falta.

Para a inédita etapa de Birmingham, Peter Gethin conseguiu arranjar o inglês Dave Scott, que tinha experiência na Fórmula 3 e que havia testado um Lotus de Fórmula 1 alguns anos antes. Scott levava o patrocínio da Swift Caravans, suficiente apenas para aquela etapa. Sem conhecer o carro, o jovem britânico também não conseguiu classificar o carro. É, estava ficando difícil.

Para as duas últimas corridas, dois novos pilotos de caráter regional. Em Le Mans, quem estreou foi a mocinha Cathy Müller, a primeira mulher a se inscrever para uma corrida na Fórmula 3000. A francesa fez mais de mil quilômetros em testes em Magny-Cours e na própria pista de Le Mans para conhecer o carro. Pelo visto, todo o esforço deu certo: ela largou em 19º e terminou em 17º. Mesmo assim, Cathy não permaneceu na equipe.

Em Jarama, última etapa do campeonato, quem ocupou o carro foi o espanhol Alfonso Garcia de Vinuesa. Pelo visto, Peter Gethin errou sobre qual espanhol ele deveria ter contratado desde o início do ano: sem conhecer o carro, Vinuesa fez um bom 18º nos treinos oficiais. Na corrida, bateu. Mas tudo estava tranquilo. Alfonso conseguiu demonstrar seu valor e arranjou um lugar na Fórmula 3000 em 1987. Infelizmente, sofreu um grave acidente em Spa-Francorchamps e quase morreu. Dez anos depois, Vinuesa foi atropelado por um caminhão e, desta vez, faleceu. Há quem diga que foi suicídio, já que ele estava sofrendo de depressão por ter perdido sua esposa.

Depois de uma temporada infelicíssima, Peter Gethin decidiu fechar as portas de sua equipe. Foi sua última iniciativa profissional nas corridas oficiais. Desde então, ele fundou uma escola de pilotagem em Goodwood e manteve uma vida tranquila e boa. Que foi encerrada nesta semana.

Não falei muito de sua carreira como piloto porque quis rememorar uma passagem não muito conhecida da vida do excelente Peter Gethin. Pois já fiz. Durma em paz, Pete.